O mofo deu na política


Simão-pescador, Praia das Maçãs.

Simão-Pescador

Simão-Pescador

Estava eu a completar a limpeza da biblioteca, quando de repente encontrei uma estante com livros embolorados. Foi a primeira vez na vida que isso me ocorreu. Até a madeira da estante e a parede estavam tomadas pela coisa acinzentada. Causou-me asco.

No entanto, tenho um livro sobre Micologia – a ciência que estuda os bolores – e o alcancei para saber como limpar aquele tormento. Logo na introdução o autor deu-me a visão geral do troço, que assim resumo:

─ O bolor, também conhecido por mofo, é causado pelo acúmulo de certos tipos de fungo em alguma superfície. Segundo biólogos especializados na matéria, esse fungo tem o nome genérico de “fungo filamentoso”. É distinto dos cogumelos, pois tem formato de “esticadinhos”, se é que me entendem. Exato, de filamentos! Uma infinidade de pequeníssimos filamentos amontoados, a formar manchas vivas fedentinas, agarradas em meus livros.

Porém, fiquei preocupado quando li que o fungo não é composto apenas por sua parte visível. Quando está aglomerado sobre uma superfície, sua colônia já está bem desenvolvida na parte de dentro. É lá que são produzidas as substâncias mais nocivas.

Mas li também, e já sabia, que certos fungos são produtores de substâncias que aumentam a qualidade de alimentos, não são tóxicos nem nocivos. Resta imaginar o que seria do delicioso queijo Rochefort, não fosse a prática da injeção de fungos Penicillium em sua massa cremosa? Decerto, seria um queijo d’água padrão, sem sabor, ou mesmo um veneno.

Contudo, como sempre calço luvas de cirurgia para preparar certos tipos de frutos do mar, fiz o mesmo para retirar os livros da estante. Procedi de acordo com as orientações do livro. Borrifei-os com uma solução de vinagre e os coloquei fora de casa, em ambiente seco e iluminado.

A desgraça de  meus livros embolorados

A desgraça de meus livros embolorados

As traições do bestunto

Em seguida, peguei uma vassoura e segui a varrer o piso da biblioteca. Encontrava-me absorto nessa tarefa de pouco talento, quando, como de hábito, pensei em meus netos brasileiros e no Brasil (país em que vivem), enquanto assistia a derrota final que lograva sobre o mofo.

Estou idoso, mas mesmo assim muitas sinapses se sucederam em meu cérebro, a levarem-me à Praça dos Três Poderes. Conheço-a apenas pelos jornais. Mas visualizei coisas extraordinárias durante a varrição. Troços extras e ordinários. Parecia que sonhava acordado.

Senti como se visse nitidamente, com meus próprios olhos, o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto, o Itamaraty e os Ministérios recobertos por uma grossa camada de bolor cinza-esverdeado. Então, assustado, saí daquele “estado de transe”. De imediato parei de varrer para por no papel minhas ideias.

Precisava aplicar meus recentes conhecimentos em Micologia e salvar uma população inteira. Decerto havia fungos nocivos vagando por dentro daquelas instituições públicas. A colônia interna de fungos tóxicos já devia estar enorme. Mas minha visão era apenas da superfície. Não podia especular o que os fungos faziam, escondidos nas cavernas húmidas, a demolir as instituições.

No entanto, como uma espécie de contrapartida, pensei que também deviam existir alguns poucos “fungos do bem”. Assim, não tinha como fazer uma lavagem com vinagre forte nas casas públicas, pois decerto os destruiria. Então, o que fazer?

Após muito refletir, conclui que nada de eficiente tinha a fazer. O “mofo deu” nas instituições públicas do Brasil e ponto final. Só podia rogar pela sorte de seu povo. Cabe somente a ele acabar com o domínio destrutivo de fungos nocivos profissionais, todos instalados nos Três Poderes e nas empresas estatais.

De toda forma, a tentar contribuir com algo, criei uma bandeira política para as campanhas de 2014, 2018 e dois mil o que seja:

Para salvar o Brasil, vote em Penicillium para Presidente!

4 pensamentos sobre “O mofo deu na política

  1. COMO EX MICROBIOLOGISTA CONCORDO QUE ESTAMOS NO MEIO DO MOFO ,E ELES SE MULTIPLICAM EM PROGRESSÃO GEOMÉTRICA .

    MAS TAMBÉM ESTAMOS RODEADOS DE CUPIM ,QUE APARECEM EM NOSSAS CASAS DESTRUINDO TUDO .

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