Declaração Global dos Deveres Humanos


Ricardo Kohn, Aprendiz de Filósofo.

1. Contexto histórico

Pesquisadores creem que o mais antigo conflito comprovado entre sapiens ocorreu no leste da África, onde arqueólogos encontraram restos de 12 caçadores-coletores, chacinados por volta de 10.000 anos atrás, segunda a datação de Carbono-14. Devo dizer que, em minha opinião, o Homo sapiens foi o responsável ativo pela extinção das várias espécies humanas [Gênero Homo] com que conviveu. Observe na tabela abaixo:

Algumas espécies que descendem do Australopithecus

Espécie humana Existência estimada Região de ocorrência
Homo ergaster De 1,8 milhões há 1,2 milhões anos África (Quênia) e Ásia
Homo erectus De 1,8 milhões há 300 mil anos África, Europa, Ásia e Indonésia
Homo rudolfensis De 1,9 milhões há… anos África (Quênia)
Homo soloensis De … há 50 mil anos Ilha de Java, na Indonésia
Homo denisova De … há 50 mil anos Sibéria
Homo neanderthalensis De 500 mil há 29 mil anos Europa e Ásia
Homo floresiensis De 700 mil há 13 mil anos Ilha de Flores, na Indonésia
Homo sapiens De 200 mil anos até o presente Em todos os continentes

Desde que se tem informação da existência do sapiens, datada há cerca de 200 mil anos, ele coexistiu com outras espécies: o neanderthalensis, o denisova, o soloensis e o floresiensis tiveram presença confirmada em diversas regiões do ambiente terráqueo – Europa, Ásia, Sibéria e ilhas da Indonésia. Não foi por acaso que estas e outras espécies foram extintas. Paleontólogos e arqueólogos elaboraram hipóteses com vistas a explicar sua extinção. A que considero menos provável é a da miscigenação do sapiens com as demais. Parece-me uma falácia bio-demográfica, diante de uma simples questão:

─ “Como o sapiens, a mais jovem das espécies humanas, poderia ter população suficiente para ocupar Europa, Ásia, Sibéria e ilhas da Indonésia em pouco tempo, copular entre si e com todas as demais, a permanecer geneticamente dominante?” Isso me soa absurdamente falso.

2. Guerras entre nações

A hipótese da destruição furiosa das espécies com que o sapiens conviveu é mais verossímil, além de coincidir com o que, há muito, ele comete contra seus irmãos: o genocídio diário e sistemático em várias regiões do mundo, através de guerras entre povos e nações. É simples encontrar na Internet a lista das principais guerras que foram iniciadas pela índole desumana e psicótica do sapiens dominante. Para não me aprofundar sem necessidade, cito apenas o resultado de duas guerras mundiais: 10 milhões de mortos durante a Iª Guerra Mundial (1914-1918) e 50 milhões de mortos durante a IIª Guerra Mundial (1939-1945). Afora isso, as brutais devastações sofridas pelo ambiente europeu, com inimaginável custo de reconstrução a ser arcado por seus povos.

Ao fim da IIª Grande Guerra, após a rendição inconteste da Alemanha nazista – assinada em 30 de abril de 1945 –, o que restou aos povos do mundo foi o medo, o terror de enfrentar nova guerra com a mesma envergadura. Afinal, até esta data, somente no século XX, duas guerras já haviam tirado a vida de cerca de 70 milhões de cidadãos, entre civis e militares.

Vista de Berlim, em maio de 1945

Os países-membros que então lideravam a Organização das Nações Unidas – decerto, Grã-Bretanha e Estados Unidos – promoveram uma Assembleia Geral onde seria debatida uma declaração que definisse quais seriam os direitos humanos básicos. Para esses dois países, estavam relacionados à quatro liberdades: (i) liberdade da palavra e da livre expressão; (ii) liberdade de viver sem medo; (iii) liberdade de suprir necessidades e (iv) liberdade de religião. Observo que estas liberdades nunca existiram no regime comunista da União Soviética. A ser assim, questiono: uma declaração desse gênero não se tornaria uma ameaça à paz, um meio para instigar mais conflitos?

3. Declaração Universal dos Direitos Humanos

Enfim, a declaração acabou assinada em Assembleia Geral da ONU, a 10 de dezembro de 1948. Obteve 48 votos a favor, nenhum contra e 8 abstenções (União Soviética, Ucrânia, Polônia, Bielorrússia, Checoslováquia, Iugoslávia, África do Sul e Arábia Saudita). Ao analisar seu texto, verifiquei que é óbvio e até mesmo infantil. Porém, paradoxalmente, é presunçoso ao declarar-se uma coisa universal, a abranger o Cosmos. Todavia, nada oferece que seja capaz de remediar a ganância pelo poder do sapiens dominante e, sobretudo, impedir suas guerras e genocídios que, até hoje, devastam o ambiente terráqueo e os primatas da humanidade.

De fato, desde 1947 já se instalara um conflito inconsequente entre Estados Unidos e União Soviética – 40 anos de Guerra Fria. Mesmo após assinada a tal declaração universal, cerca de 20 milhões de pessoas, entre militares e civis, tiveram a vida ceifada em conflitos bárbaros, cujo único pano de fundo era a cínica disputa pelo poder mundial. De um lado, o comunismo bolchevique, liderado pela União Soviética; de outro, o capitalismo britânico, protagonizado pelos Estados Unidos. De fato, nunca trocaram um tiro sequer, pois lutavam de forma indireta, nas terras de nações aliadas, a massacrar civis de outras nações – Guerra do Vietnã, Guerra da Coreia. Foi assim que a grave crise do pós-guerra se tornou irreversível a médio prazo, com ou sem contar com um documento pretensioso que ousasse definir “os direitos do Homo sapiens sobre o Universo”.

A propósito, caso hoje estivesse a fazer a prova de redação para ingressar em alguma faculdade, este texto seria minha contribuição. Daria a ele o título mais oportuno: “Declaração Global dos Deveres Humanos”. Afinal, os sapiens civilizados conseguem cumprir com seus deveres essenciais. Mas, ao contrário, definir direitos básicos para o sapiens dominante é dar a própria cabeça ao cutelo da decapitação. Deve-se impor deveres a este primata destruidor!

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Escolhas, as ditas escolhas


Por Zik Sênior, o eremita.

Zik Sênior

Zik Sênior

Desde cedo, quando tinha somente cinco anos, aprendi que o ato de escolher nada mais é do que romper com dúvidas e seguir em frente. A primeira escolha que fiz foi diante da carne bovina que meu humilde pai ofereceu pela primeira vez, cheio de felicidade, ─ “Pode prova, fio”.

Era quase uma ordem nas mesas paraibanas de antanho. Por instinto, respondi de pronto: ─ “Quero não pai, dê pra meus irmãos, vou continuar comendo a carne seca de bode”.

Mas foi na adolescência que finalmente descobri que a escolha é um grito da liberdade, um vulcão que eclode de dentro de nós, para fazer com que superemos os medos de errar. Mas, mesmo tendo dúvidas, faça-se presente, afirme sua melhor escolha, pronto para “o que der e vier”. Assim dizia o pai.

Escolha o caminho da sua liberdade!

Escolha o caminho da sua liberdade!

A escolha é a antítese do medo, mesmo nas coisas de menor importância. “Quero tomar café com pão, mas não tem pão em casa. Vou até a padaria ou vou ao boteco e faço o desjejum?” Coisas simples, triviais. Vou pro boteco.

Acredite, tive que viver um século para ter consciência dessa antítese. Creio que cheguei até os 105 anos por esse motivo: nunca deixei pendências para trás, sempre decidi, acertando ou errando.

Certa vez, em 1942, quando tinha 33 anos, recebi uma “carta-convite do exército” brasileiro. Achei bastante estranho, pois já havia tempo que servira num batalhão de infantaria. Mas, de toda forma, apresentei-me na hora marcada, às 5 da madrugada. Logo um tal de sargento Porfírio chegou, um nanico a gritar sem estribeira, dizia a todos os convidados que, cedo, no dia seguinte, partiríamos para lutar na IIª Guerra Mundial, em terras italianas dominadas pelo nazi-fascismo.

Primeiro pensei em ir pro boteco. Depois, na calma do falecido pai tinha quando dava ordens aos onze filhos. Mas, pela insolência do sargento nanico (eu media um metro e noventa dois), o sangue paraibano ferveu nas veias. Aproximei-me dele a suar, contido, bati continência, e berrei junto a seu rosto, olho no olho, com a mão esquerda perdida no ar:

─ “Eu não vou pra porra de guerra nenhuma, senhor! Sou arrimo de família, tenho mãe doente, mais uma cacetada de irmãos com filhos para criar! Grato por sua compreensão…, Senhor!”.

Senti vontade de dar-lhe um bofete, mas escolhi aquietar-me. Não sem receio, virei-lhe as costas e sai pelo umbral de pedra do quartel. Mas nada me aconteceu. O sargento, caso estivesse vivo, decerto se recordaria de nosso embate. Pobre cidadão.

A prisão das escolhas

Diariamente, fazemos infinitas escolhas na vida. Acordar ou continuar a dormir? Aonde ir? Por qual caminho? O que devo olhar? Com que se alimentar? O que ler? Como se informar? Onde trabalhar? O que posso produzir? É uma infinidade de coisas que escolhemos. São escolhas primárias, muitas vezes puros atos reflexos inconscientes. Embora mais simples de realizar, todas elas são essenciais à nossa existência. As escolhas simples são o ar que nosso cérebro respira e com as quais se exercita para fazer escolhas mais complexas.

Em suma, acho que existir é saber escolher. Observo e concluo que fiz o inverso. Escolhi existir pelo menos durante os 105 anos saudáveis que andam a meu lado. Outros preferem carregar menos tempo de vida, mas sempre sobre os ombros, tal cangalhas pesadas. O que fazer? É uma escolha.

Escolhas complexas

Você é livre para fazer suas escolhas, mas é prisioneiro das consequências”, ponderou o notável poeta chileno, Pablo Neruda. Decerto, creio, Neruda se referia a escolhas mais complexas, não às individuais.

Acho que parte de seu verso é verdadeiro e justifico:

─ “Ouse não fazer escolhas! Obterá liberdade para tudo, inclusive para deixar de existir”.

Afinal, aquele que não faz escolhas fica livre de compromissos com tudo e todos. Assim, não se torna um prisioneiro de nada, pois deixa de existir em sociedade. Portanto, há verdade em Neruda, pois o indivíduo, paradoxalmente, torna-se prisioneiro apenas da própria liberdade.

As escolhas pessoais são mais simples. Contudo, há as escolhas coletivas que, sem qualquer dúvida, podem ser bastante complexas. O Brasil vive um importante momento de escolha coletiva, as eleições de 5 de outubro de 2014. E é sobre esse processo de escolhas sucessivas feitas por milhões de brasileiros que desejo comentar um pouco.

Escolha coletiva: eleições presidenciais

Em síntese, cada cidadão consciente – orgulho-me de ser um deles –, sozinho diante da urna, decide finalmente escolher seu candidato. Deseja que só haja um turno de votações, por que votar é um pé no saco, e que vença seu candidato! Acho que todos deveriam ser assim.

Passei por numerosas eleições presidenciais; tantas, que nem me dou conta. Porém, vivi mais de 50 anos sob o jugo de ditadores, populistas e oligarcas brasileiros. Eles são ávidos construtores de cenários obsoletos para a sociedade democrática, posso afiançar. O pai se exaltava e, descontrolado, dizia assim: ─ “O que eles querem é pudê!

Gostaria de ter tido tempo e maturidade para completar sua frase, mas com alguma mansidão: ─ “Pai, eles querem ‘pudê’ com a sociedade democrática, roubá-la sempre”.

Hoje, com a larga experiência acumulada, considero-me capaz de escolher qualquer elemento que queira candidatar-se à presidência do Brasil. Após três declarações de palanque sei se o elemento é democrático, ditatorial, populista ou oligarca. Reconheço-lhe a marca ou a laia.

Embora nas próximas eleições de outubro haja um sem número de candidatos, com partidos de fachada, vendedores de votos, “partidos off-shore“, etc., três têm-se destacado nas pesquisas de intenção de voto. Por sinal, um deles é tudo o que não desejo para a Administração do Estado Brasileiro. Trata-se de “elemento(a) ditatorial, extremista e oligarca”, conforme ficou demonstrado em sua existência política.

Para ter certeza de que não vou me decepcionar, jamais votei no partido que detém várias quadrilhas desses camaradas”!