Eternos amigos do passado: os críticos


Viver o ambiente da crítica bem argumentada é igual a concluir várias Faculdades.

Amigos críticos sim, mas, acima deles, há os críticos “fundamentalistas”. Três críticos foram nossos professores entre 1969 e 1971. Algumas vezes foram considerados ofensivos por quem sofria sua ação. Quando chamavam a atenção de um aluno, para seguir pelo caminho que julgavam mais correto, não sabiam aconselhar com frases adocicadas. Até porque para eles não havia alternativas de rumo na vida. Eram superlativos, absolutos e bastante sintéticos. Sempre nos pareceram matemáticos em suas afirmações: “donde se conclui que o caminho é este”! Tinham certeza do que e como ensinavam.

A Certeza não tem idade

A certeza não tem idade

Por motivos óbvios, não apresentamos seus nomes completos, mas apenas os “apelidos” com que eram tratados: Simon, Fred e Maul. Qualquer dos três, se nos ler, saberá do que estamos a falar.

Simon é o mais antigo. Na época, era chefe de departamento na faculdade que cursávamos. Por isso, de início era o mais fechado dos três. Levamos algum tempo para termos uma aproximação extracurricular. E foi através da literatura sul-americana que, enfim, ficamos mais próximos. Sabedor de que gostávamos de redigir contos, Simon indicou-nos alguns autores que considerava especiais – Julio Cortázar, Gabriel Garcia Márquez e Jorge Luis Borges foram os primeiros. Foi uma loucura (para nós, os rebeldes) descobrir escritores demolidores como Cortázar e Márquez, bem como com a maravilhosa cultura dos mistérios de Borges. Crítica, sátira, ironia, surrealismo e non sense se entrelaçam nas obras dos três. A partir daí descobrimos inúmeros escritores de outros continentes e países.

Fred e Maul eram professores contratados pelo departamento chefiado por Simon. Tinham perfis profissionais bastante semelhantes em termos de competência, domínio científico, destreza na sala de aula, capacidade de transferência de conhecimentos e, acima de tudo, atenção às pessoas em geral.

Fred é uma pessoa tão atenta que é capaz de memorizar que roupa você usava na última vez em que o encontrou, sobre o que conversaram e em que ano e local aconteceu o encontro. A propósito, nosso último encontro foi em Belo Horizonte, MG, na festa de aniversário de um grande amigo, comemorada no sábado 16 de março deste ano.

Contudo, seus perfis pessoais eram relativamente distintos. Sem dúvida, ambos educados. Porém, a educação de Maul somente existia nas “Condições Normais de Temperatura e Pressão”. Tinha “pavio muito curto”, embora nunca tenhamos vivido qualquer situação contra ele. Porém, podemos afirmar com certeza, Maul tinha “pavio muitíssimo curto com moleques e folgados”. Há casos memoráveis ocorridos bem mais tarde em Brasília que, por questões de força maior, não os declinaremos nesse texto. Cremos mesmo que se Fred estivesse junto com Maul, na sauna mista do antigo Clube da Telebrás, em Brasília, dada as ofensas chulas feitas a duas jovens senhoras por dois moleques, não teria desapartado a pancadaria; ao contrário.

Muito embora os três também tenham atuado em consultorias, segundo a nossa visão era na Academia que mais se destacavam, como cientistas, pesquisadores e professores. A saída de Maul do Rio e da área universitária – passou em concurso público para trabalhar em Brasília –, aos olhos dos alunos, contribuiu para fragilizar a unidade do grupo.

Simon e Fred continuam trabalhando no crescimento de cabeças. Maul faleceu na década de 1990, em Belém, PA, numa viagem de trabalho.

Uma curiosidade

Maul é o nome genérico dos grandes martelos usados pelos guerreiros da era medieval: (i) o Martelo de Guerra, quase sempre associado ao uso de longos arcos e flechas; (ii) um tipo de marreta demolidora, com pontas de ferro salientes; ou (iii) uma arma pesada capaz de rachar qualquer objeto, a conjunção de machado e martelo integrados no mesmo cabo. Enfim, diríamos, uma ferramenta da crítica fundamentada.

Gravura de um Maul usado no Medievo

Gravura de um Maul usado no Medievo

Ficamos pensando como agiria o nosso querido Maul nos dias atuais. Decerto tentaria abordoar com Martelo de Guerra a testa dos corruptos predadores da sociedade brasileira.

Simon, Fred e Maul deixaram marcas profundas no caráter de escritores, gestores e executivos de empresas. Por sinal, com partes de suas assinaturas morais e éticas.