O que você descobre neste blog


Os Quatro deSobre o Ambiente”.

Quando este blog foi lançado, seu foco era monitorar a corrupção pública instalada no Brasil e analisar seus impactos sobre nossa sociedade, todos por demais violentos. O fato que nos motivou inicialmente foi o primoroso escândalo do Mensalão, o qual se encontrava em fim de julgamento. Sequer imaginávamos que, a operar em segundo plano, o Petrolão já estava ativado.

Todavia, dentre nós, não havia sequer um jornalista, mas apenas estudiosos do ambiente – éramos quatro redatores, três brasileiros e um português –, todos hoje com mais de 60 anos. Competir com jornalistas em narrativas sobre corrupção parecia perda de tempo. Além do fato que são milhares deles, dispersos pelo país. Mesmo assim, seguimos em frente, pois alguém nos garantiu numa conversa de boteco: ─ “São dezenas de milhares deles, mas apenas meia dúzia presta”. Foi assim que a disputa ficou praticamente empatada: 6 a 4…

Restava-nos intitular o blog, de modo a torna-lo capaz de oferecer bons conteúdos. Após debates sobre a existência ou não dos ditos “ecossistemas humanos”, por três votos a um, decidimos nomear o site de “Sobre o Ambiente”. Isto se deve ao fato de o ambiente ser o proprietário de todos os ecossistemas terráqueos, inclusive o tal humano. A ser assim, tudo cabe nele – no ambiente –, de bons a ruins conteúdos.

Contudo, reduzimos os itens de conteúdo do blog, embora sem perder sua capacidade de informação. Para isso, identificamos três temas que podiam se relacionar e integrarem-se, quando necessário. São estes:

  • Ciências e práticas destinadas a manter o ambiente (e seus ecossistemas) estabilizado, em evolução;
  • Política, sobretudo aquela praticada por personagens com alto grau de corrupção comprovada, estejam em presídios ou soltos;
  • Filosofia naturalista, como pano de fundo, destinada a vivificar os textos produzidos.

A integração entre Filosofia, Ciência e Política se realiza através das várias naturezas literárias disponíveis. Todos devemos buscar conhece-las. Dentre elas, citamos os incríveis textos filosóficos, os poderosos artigos acadêmicos, os imprevisíveis contos, as curiosas crônicas, as provocativas sátiras, as surpreendentes parábolas e até mesmo tentativas de redigir poesia moderna.

Orquídeas no tronco

Ambiente: orquídeas no tronco e, quase invisível, uma quina de concreto.

É justamente pelo uso deste aparato da literatura que “Sobre o Ambiente” não é uma enciclopédia. Não pretende ensinar coisa alguma, embora trate da educação em suas sátiras. Está aberto para o pequeno público que o segue. Quem o desejar, pode enviar textos para nossa análise e, quem sabe, publicação. Que mais não seja, semana passada, ultrapassamos 400.000 visualizações, feitas por seguidores e visitantes do blog, provindos de todos os continentes.

Em síntese, “Sobre o Ambiente” ganhou vida própria. É um espaço destinados aos bons debates. Isto significa, ser um blog paradoxal, provocador, surpreendente, ficcional e irônico, embora sério nas inferências que publica; muitas vezes, a inverter verdades aceitas como absolutas.

Nós quatro (redatores) temos crenças particulares, as quais não declinamos: são contraditórias. Por sua vez, “Sobre o Ambiente” as integra e diz de si mesmo: ─ “Tenho a dúvida dos ateus, mas guardo-a no silêncio dos agnósticos”.

Faroeste Carioca


Ricardo Kohn, Aprendiz de Filósofo.

Seja motivado por tiroteios entre facções do narcotráfico ou pelo fato que agentes da segurança pública – Polícias e Forças Armadas – precisam intervir, inúmeros conflitos ocorrem nas favelas do Rio, diariamente. Resultado: dezenas de mortes gratuitas! Mas como andam as prisões dos chefes do tráfico? ─ Eventuais, muito raras.

Arte gráfica das trocas de balaço

Arte gráfica das trocas de balaço

Com base no levantamento realizado pelo Instituto Pereira Passos [2017], existem 1018 favelas na cidade do Rio. Acredita-se que as principais facções [CV, ADA e PCC] dominam o tráfico na maioria delas. O que significa controlar algo em torno de 90% das favelas que ocupam. Observa-se que a área coberta pela cidade carioca é da ordem de 1.200 km2. Por sua vez, a área afetada pelo tráfico é de, pelo menos, 800 km2. Isto decorre da distribuição geográfica das facções na metrópole e do rico mercado de viciados em narcóticos.

Segundo fontes da “intervenção federal” no Rio, dentre as 1018 favelas, as mais críticas são “Rocinha, Complexo da Maré, Complexo do Alemão, Jacarezinho, Acari, Cidade de Deus, Mangueira, Turano, Parada de Lucas e Vila Cruzeiro”. No entanto, isto não reduz as ameaças de vida ao cidadão comum.

John Wayne no Rio

John Wayne, no Rio

Tanto é assim que, nas últimas décadas, tem sido expressivo o crescimento dos tiroteios e mortes em toda a cidade. A população carioca está com medo de sair de casa, pois não há espaço aberto onde não possa ser assaltada ou sacrificada. Ficou comum assistir-se a caixas de banco explodirem, ao roubo de cargas nas estradas, a desconhecidos exaltados que, por vezes, se matam a tiros, gratuitamente. A cidade do Rio vive num clima de faroeste. Os cariocas e seus visitantes submetem-se ao terror imposto por traficantes.

Seria uma solução patética, mas no velho oeste norte-americano, cada cidadão daquele país sabia resolver esses problemas: rifle nas mãos e revolver no coldre. Será que chegamos a este cenário?

Dicotomia e conflitos


Ricardo Kohn, Aprendiz de Filósofo.

Dicotomias são pontos-de-vista extremos e opostos, não raro, a motivar conflitos entre os atores. Porém, para a lógica, constituem a divisão da opinião sobre um dado assunto em Conflitoduas posições antagônicas. Dessa forma, embora pouco esclareçam em si mesmas, pelo menos mostram a envergadura dos conflitos, dado que focalizam o assunto através de seus cenários extremos. Desse modo, são opiniões em choque, formuladas nos limites em que o assunto pode variar. De outra forma, basta um ator dizer “sim” que o outro retruca, de pronto: “nunca”! Veja exemplos:

  • Vamos seguir “em frente” – Não; precisamos “voltar já”, imediatamente!
  • Sempre fui “conservador” – Sou um “furioso progressista”.
  • Julgo com base na “letra da lei” – Sempre julgo de acordo com meus “interesses particulares”.
  • Gosto da “economia de livre mercado” – Tenho certeza que o “comunismo” é muito melhor.
  • Voto com a “extrema direita”! – Luto pela “esquerda radical”!

Estes são os “falastrões dicotômicos”, ineptos para refletir e ponderar sobre qualquer coisa. Escutam apenas a si próprios, surdos a qualquer visão argumentada. Afinal, consideram-se proprietários exclusivos do que chamam “razão absoluta”.

Neste primeiro quarto de século, observa-se que esse fenômeno pode tornar-se global, a assumir proporções inacreditáveis nas esferas do poder em certos países. Há quem especule tratar-se de patologia grave, transmitida por “picadas de mosquito”. Decerto, não acontece assim. A transmissão ocorre pela ausência de valores básicos desses atores: ética, moral, respeito aos bens públicos e privados.

Todavia, no Brasil seu vírus maligno foi infestado por meio da espetacular corrupção pública e da total insegurança dela derivada. Esse cenário explica-se de forma evidente: provem do embate sistemático entre quadrilhas sofisticadas, tanto de políticos ladrões, quanto de traficantes de drogas. Ao centro, encontra-se a sociedade brasileira: humilhada, oprimida e quase subjugada. Mas acalmem-se, a desfaçatez do Carnaval começa amanhã!

Meditações


Ricardo Kohn, Aprendiz de Filósofo.

Vejo a meditação como a conversa entre uma pessoa e sua sombra. Trata-se de um processo de criação praticado na solidão, comum aos sapiens que tentam estimular seus cérebros.  Por acaso, neste exato momento estou a meditar. Percebo, contudo, que há o Paradoxo da Meditação: de um lado, o medo de encontrar o desconhecido que mora em mim; de outro, a importância das descobertas que surgem, sempre esclarecedoras. Assim, para seguir a meditar sei que preciso superar este paradoxo – medo versus esclarecimentos. Creio que a forma mais simples é “fingir que se medita sobre eles” e não sobre si mesmo. Até por que, se os “eles” a que me refiro são amigos ou inimigos, pouco importa: basta saber pensar para meditar com as virtudes da natureza.

Todavia, meu objetivo não é redigir um “Manual de Meditação”, embora existam muitos. A meu ver, todos anacrônicos e patéticos. Na verdade, a meditação é um hábito milenar que teve origem em filosofias orientais. Nasceu como um desafio para o indivíduo imergir em si mesmo; ter a visão de muitas dúvidas e poucas quase-certezas; fazer sua autodepuração espontânea; por fim, alimentar a evolução da inteligência primordial da espécie humana rara – os poucos “sapiens raros” que ainda conseguem sobreviver na antroposfera[1].

Importa salientar que a meditação virtuosa jamais foi influenciada por crenças espirituais, uma vez que, por volta de 10 milênios atrás, afora o Sol, as ditas “divindades máximas do Universo” sequer haviam sido inventadas pelo “sapiens dominante”, o hipócrita soberano da antroposfera.

O Sol alimenta a natureza primordial de Botswana

Há décadas reflito sobre o Ambiente e sua physis[2]. Busco entender sua formação na Terra, assim como as graves ameaças à sua existência e as possíveis sequências de sua evolução. Após muito meditar, percebi que antes do surgimento dos primeiros grupos de primatas humanos – a 200 mil anos atrás –, o Ambiente foi a própria Terra, que deveria atender pelo apelido Planeta Ambiente. Afinal, ainda não existia a antroposfera e os bens de propriedade do Ambiente ainda estavam intactos – ar, água, solo, bem como a flora e fauna silvestres –, livres das ações transgressoras do sapiens dominante.

Assim, decidi dar voz ao Ambiente (maluquice ou oportunidade de meditação?), a vê-lo como proprietário exclusivo de todas as coisas terráqueas. Então, disse-me “ele”:

─ “Minha physis é inteligente e carrega intensos sentimentos”.

Matutei bastante sobre esta frase. Por fim, encontrei evidências factuais que o Ambiente detém habilidades que o tornam capaz de observar, analisar e responder às transgressões que ocorrem em seu terreno. Por isso, infiro que o Ambiente possui razão e lógica próprias, decerto distintas das atribuídas ao dito sapiens. Saliento que suas respostas às transgressões que sofre não são iguais às reações normais demonstradas por Isaac Newton. Caso o fossem, haveriam de ser contra-ataques intensos às agressões que lhe são impingidas pelo sapiens dominante, há milênios. Porém, o Ambiente não existe em função do sapiens, ao contrário, o sapiens dominante é que constitui seu objeto de uso. Aliás, precisa torcer – e muito – para que a “inteligência da physis” o trate com “intensos sentimentos” – seja lá o que isto signifique.

Tudo me conduz a concluir que o Ambiente é o cérebro ativo dos planetas. Por sinal, fez-me esta segunda afirmação:

─ “Não detenho virtudes filosóficas, mas sou a maior virtude material do Universo: aonde quer que eu exista, sempre haverá evolução”.

Devo discordar da premissa “não detenho virtudes filosóficas”. Até por que, é um aspecto da filosofia da natureza, capitaneada por escolas pré-socráticas, fundadas com as virtudes da Grécia Antiga, na cidade de Mileto, entre outros locais. Ao contrário, incontinente, louvo a certeza formulada: “aonde quer que eu exista, sempre haverá evolução”. Em minha opinião, é uma virtude que constitui um axioma matemático: “sem Ambiente, Universo não existe”; o que se dirá de sua esperada evolução…

Meditar seguidamente é vulcânico, mesmo para os acostumados com a queima intensa das cadeias neuronais. Encerro aqui, a manter a privacidade de minhas meditações.

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[1] Antroposfera, ou esfera do Homem, representa tudo o que é construído pelo sapiens no Ambiente.
[2] Physis é tudo o que forma o Ambiente, à exceção do que for construído pelo sapiens. O mesmo que natureza primordial, entendida através de suas esferas vitais: atmosfera, litosfera, hidrosfera, criosfera, biosfera e pelas relações que mantém entre si na ecosfera terráquea.

Furo privilegiado


Ricardo Kohn, Aprendiz de Filósofo.

Furo privilegiadoFuro’ é um vocábulo complexo, com vários sentidos e diversos efeitos provenientes de seu uso, tanto na palavra escrita, quanto na falada. Creio que o furo mais comum se refere à abertura feita por alguém com o uso de ferramenta pontiaguda: furo, sinônimo de buraco, orifício ou rombo. Destarte, este substantivo possui verbos associados – furar, emburacar e arrombar –, mas que não são sinônimos obrigatórios. Sim, por que o ato de furar um tecido com agulha é diverso do de arrombar uma muralha com um possante aríete. Por sua vez, emburacar significa meter-se num buraco ou sofrer grandes prejuízos, algo como ter um ‘furo privilegiado’ na conta bancária.

Além disso, há os ‘furos‘ gerados aleatoriamente pela natureza primordial, sem necessidade da atuação do sapiens. Por exemplo, vejo o tronco de uma árvore antiga, tombado no solo da floresta, a apresentar vários furos, causados pela oxidação da matéria orgânica; vejo também furos no topo de montanhas do mundo, as chamadas ‘crateras de vulcão’. Afinal, pela lógica, não parece haver dúvida que toda cratera é um ‘furo primordial’.

Furo’ também se encontra na imprensa, pois existe o ‘furo de notícias’: aquele que é dado em primeira-mão por algum repórter, às vezes a tratar a língua portuguesa de forma bizarra. Na ânsia de ser ‘o primeiro a dar o furo’, fica nervoso e, sem cerimônia, noticia a pessoa que ‘entrou para dentro’, a coisa que ‘subiu para cima’ e até a ‘nebulosidade no céu’ – queria que as nuvens estivessem aonde?!

Enfim, estes eventos são oferecidos diariamente pelos noticiários apedeutas a que, por falta de alternativa, estamos condenados a assistir. Afinal, há um tema em julgamento pela Alta Corte, que poderá proporcionar a extinção do indecente ‘foro privilegiado’. Isto alimenta duas tênues esperanças nacionais:

  • Que os políticos ladrões sejam julgados e presos com rapidez;
  • Que a nação brasileira não sofra efeitos nefastos em seufuro privilegiado’.

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A ansiedade das expectativas


Ricardo Kohn, Aprendiz de Filósofo.

Angústia não é ansiedade, mas promessa de variadas doenças somáticas, por vezes, graves. Ansiedade, de fato, reside na esperança de que certas coisas ocorram, de acordo com as expectativas. Todavia, ansiedades intensas, não raro, transformam-se em angústias, fruto do medo associado ao desespero. Há que se ter atenção, pois seres humanos (os ditos sapiens) sempre são acometidos por ansiedades e, muita vez, angústias. Sim, angústia, aquela sádica senhora que devasta expectativas.

Em síntese, a roda de amigos de que participo – todos ao derredor dos 70 anos – comporta-se da seguinte maneira: alguns ainda criam novas expectativas; outros não veem este cenário como fator de perigo; porém, há dois angustiados. De toda forma, salvo raras exceções, temos vontade de deixar a cidade do Rio, dado que se tornou campeã em tiroteios, latrocínios, tráfico de drogas, distribuição de propina e desemprego em massa. A antroposfera do Rio constitui a amostra perfeita do Brasil Século XXI. A antiga capital do país não se inibe ao multiplicar os crimes tramados em Brasília, a soberana capital mundial da corrupção pública. A ser assim, sobrevém uma questão: ─ “O que um grupo de amigos pode fazer diante desta tragédia”?

Por mais difícil que seja, defendo que nosso grupo não deverá ceder aos riscos da falta de expectativas. Ao contrário, precisa tornar o medo causado por esta tragédia em projetos de sobrevida, com metas de curto prazo, inadiáveis. Afinal, quais de nós serão sadios após os 80 ou, ainda, quantos alcançarão esta idade?

De volta ao Rio – a dita “cidade maravilhosa, cheia de encantos mil”. Todos sabemos que o Estado do Rio se transformou em prostíbulo público, reino da insaciável quadrilha de corruptos que o comanda, há quase duas décadas. Já subtraíram dos cofres públicos cerca de R$ 280 bilhões, mas a justiça brasileira, salvo raras exceções, não consegue manter estes ladrões atrás das grades.

Vitória da corrupção: Rio, cidade-sede dos Jogos Olímpicos 2016

A euforia da corrupção: Rio, cidade-sede dos Jogos Olímpicos 2016!

Diante deste quadro estarrecedor, minha família passou a refletir sobre alternativas de vida para os anos que nos restam. Em todas as ponderações que fizemos, a premissa básica foi a mesma: abandonarmos a cidade do Rio. Escolhemos a região Sul como destino, mas não queremos residir em capitais. Nossas expectativas apontam para cidades pequenas, com custo de vida reduzido, mas que possuam cultura de origem europeia.

Pretendemos oferecer projetos essenciais, que coevoluam com a qualidade do ambiente regional, bem assim com o espectro da coletividade da qual desejamos participar ativamente; tal como fizemos nas cidades em que já vivemos. Afinal, somos empreendedores, sem receio de corrermos riscos produtivos. Infelizmente, no entanto, temos a tristeza de assistir ao caos instalado no Rio, uma obra deletéria de ordinários corruptos, totalmente adversa à ótica da filosofia naturalista que professamos.

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Adquira ‘Princípios da Filosofia do Ambiente’


Assim Fala o Ambiente

Durante um ano supervisionei a redação do ensaio “Princípios da Filosofia do Ambiente”. É dedicado aos que argumentam objetivamente, com base na lógica diferenciada.

Neste ensaio a ótica está invertida se comparada à tradicional postura da filosofia, qual seja, aquela que mantém o Homo sapiens como um ser superior a todas as coisas e a decidir sobre como usar o Ambiente. Em sua visão ufanista tudo o existe é de sua propriedade e serve somente para servi-lo.

No entanto, em “Como o Ambiente vê o Sapiens” fica claro que o sujeito da filosofia é o Ambiente; o Sapiens, apenas seu objeto de uso. De fato, o Ambiente reflete, pratica e ensina sua própria filosofia. Caberá ao Sapiens agradecer e ovacioná-la; acaso a entenda.

Para adquirirem esta obra inédita, cliquem aqui ou então na imagem da capa abaixo. Seu preço de lançamento é R$ 24,90, menos que o prazer fugaz de uma taça de vinho.

Abraça-os, o eterno
Ambiente

Capa

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Valores do Sapiens ou a ‘Qualidade do Ambiente’?


Ricardo Kohn, Aprendiz de Filósofo.

Parte-se da premissa que o homem [sapiens] atribui valor monetário a todas as coisas que deseja vender ou adquirir. Por sua vez, o ambiente terráqueo precisa manter a qualidade de sua natureza primordial. Portanto, infere-se que, em tese, tanto o sapiens quanto o ambiente, precisam trabalhar para obterem seus desejos e necessidades.

Todavia, nessas circunstâncias há que se optar entre o valor monetário do sapiens ou a qualidade do ambiente, pois esses cenários não costumam ocorrer ao mesmo tempo. Veja a imobiliária que lança um condomínio de prédios situado em ambiente de restinga; então, de forma evidente, remove a restinga e, em sua antroposfera, constrói o espaço valorizado para o sapiens. Assim, ganha o sapiens com ricos apartamentos, mas, de outro lado, o ambiente da restinga “segue rumo à contínua devastação”.

O que lhe parece este “belo cartão postal”?!

O que lhe parece este “belo cartão postal”?!

Prédios e lixos a consumir a restinga, esgotos in natura a escurecer o azul da lagoa que um dia fora translúcido, emissões gasosas que tonificam a respiração da fauna silvestre, quase extinta. De fato, pode ser um belo cartão postal, mas apenas segundo jacarés sobreviventes e sapiens que não lhes sentem o cheiro.

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Declaração Global dos Deveres Humanos


Ricardo Kohn, Aprendiz de Filósofo.

1. Contexto histórico

Pesquisadores creem que o mais antigo conflito comprovado entre sapiens ocorreu no leste da África, onde arqueólogos encontraram restos de 12 caçadores-coletores, chacinados por volta de 10.000 anos atrás, segunda a datação de Carbono-14. Devo dizer que, em minha opinião, o Homo sapiens foi o responsável ativo pela extinção das várias espécies humanas [Gênero Homo] com que conviveu. Observe na tabela abaixo:

Algumas espécies que descendem do Australopithecus

Espécie humana Existência estimada Região de ocorrência
Homo ergaster De 1,8 milhões há 1,2 milhões anos África (Quênia) e Ásia
Homo erectus De 1,8 milhões há 300 mil anos África, Europa, Ásia e Indonésia
Homo rudolfensis De 1,9 milhões há… anos África (Quênia)
Homo soloensis De … há 50 mil anos Ilha de Java, na Indonésia
Homo denisova De … há 50 mil anos Sibéria
Homo neanderthalensis De 500 mil há 29 mil anos Europa e Ásia
Homo floresiensis De 700 mil há 13 mil anos Ilha de Flores, na Indonésia
Homo sapiens De 200 mil anos até o presente Em todos os continentes

Desde que se tem informação da existência do sapiens, datada há cerca de 200 mil anos, ele coexistiu com outras espécies: o neanderthalensis, o denisova, o soloensis e o floresiensis tiveram presença confirmada em diversas regiões do ambiente terráqueo – Europa, Ásia, Sibéria e ilhas da Indonésia. Não foi por acaso que estas e outras espécies foram extintas. Paleontólogos e arqueólogos elaboraram hipóteses com vistas a explicar sua extinção. A que considero menos provável é a da miscigenação do sapiens com as demais. Parece-me uma falácia bio-demográfica, diante de uma simples questão:

─ “Como o sapiens, a mais jovem das espécies humanas, poderia ter população suficiente para ocupar Europa, Ásia, Sibéria e ilhas da Indonésia em pouco tempo, copular entre si e com todas as demais, a permanecer geneticamente dominante?” Isso me soa absurdamente falso.

2. Guerras entre nações

A hipótese da destruição furiosa das espécies com que o sapiens conviveu é mais verossímil, além de coincidir com o que, há muito, ele comete contra seus irmãos: o genocídio diário e sistemático em várias regiões do mundo, através de guerras entre povos e nações. É simples encontrar na Internet a lista das principais guerras que foram iniciadas pela índole desumana e psicótica do sapiens dominante. Para não me aprofundar sem necessidade, cito apenas o resultado de duas guerras mundiais: 10 milhões de mortos durante a Iª Guerra Mundial (1914-1918) e 50 milhões de mortos durante a IIª Guerra Mundial (1939-1945). Afora isso, as brutais devastações sofridas pelo ambiente europeu, com inimaginável custo de reconstrução a ser arcado por seus povos.

Ao fim da IIª Grande Guerra, após a rendição inconteste da Alemanha nazista – assinada em 30 de abril de 1945 –, o que restou aos povos do mundo foi o medo, o terror de enfrentar nova guerra com a mesma envergadura. Afinal, até esta data, somente no século XX, duas guerras já haviam tirado a vida de cerca de 70 milhões de cidadãos, entre civis e militares.

Vista de Berlim, em maio de 1945

Os países-membros que então lideravam a Organização das Nações Unidas – decerto, Grã-Bretanha e Estados Unidos – promoveram uma Assembleia Geral onde seria debatida uma declaração que definisse quais seriam os direitos humanos básicos. Para esses dois países, estavam relacionados à quatro liberdades: (i) liberdade da palavra e da livre expressão; (ii) liberdade de viver sem medo; (iii) liberdade de suprir necessidades e (iv) liberdade de religião. Observo que estas liberdades nunca existiram no regime comunista da União Soviética. A ser assim, questiono: uma declaração desse gênero não se tornaria uma ameaça à paz, um meio para instigar mais conflitos?

3. Declaração Universal dos Direitos Humanos

Enfim, a declaração acabou assinada em Assembleia Geral da ONU, a 10 de dezembro de 1948. Obteve 48 votos a favor, nenhum contra e 8 abstenções (União Soviética, Ucrânia, Polônia, Bielorrússia, Checoslováquia, Iugoslávia, África do Sul e Arábia Saudita). Ao analisar seu texto, verifiquei que é óbvio e até mesmo infantil. Porém, paradoxalmente, é presunçoso ao declarar-se uma coisa universal, a abranger o Cosmos. Todavia, nada oferece que seja capaz de remediar a ganância pelo poder do sapiens dominante e, sobretudo, impedir suas guerras e genocídios que, até hoje, devastam o ambiente terráqueo e os primatas da humanidade.

De fato, desde 1947 já se instalara um conflito inconsequente entre Estados Unidos e União Soviética – 40 anos de Guerra Fria. Mesmo após assinada a tal declaração universal, cerca de 20 milhões de pessoas, entre militares e civis, tiveram a vida ceifada em conflitos bárbaros, cujo único pano de fundo era a cínica disputa pelo poder mundial. De um lado, o comunismo bolchevique, liderado pela União Soviética; de outro, o capitalismo britânico, protagonizado pelos Estados Unidos. De fato, nunca trocaram um tiro sequer, pois lutavam de forma indireta, nas terras de nações aliadas, a massacrar civis de outras nações – Guerra do Vietnã, Guerra da Coreia. Foi assim que a grave crise do pós-guerra se tornou irreversível a médio prazo, com ou sem contar com um documento pretensioso que ousasse definir “os direitos do Homo sapiens sobre o Universo”.

A propósito, caso hoje estivesse a fazer a prova de redação para ingressar em alguma faculdade, este texto seria minha contribuição. Daria a ele o título mais oportuno: “Declaração Global dos Deveres Humanos”. Afinal, os sapiens civilizados conseguem cumprir com seus deveres essenciais. Mas, ao contrário, definir direitos básicos para o sapiens dominante é dar a própria cabeça ao cutelo da decapitação. Deve-se impor deveres a este primata destruidor!

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Ambiente, a origem da engenharia


Ricardo Kohn, Aprendiz de Filósofo.

Desde há bilhões de anos, nos espaços da Terra – ambiente terráqueo – existem as fácies dinâmicas de sua natureza primordial[1], “construídas” pela ação de eventos fortuitos, como terremotos, vulcanismos, furacões e tsunamis. No entanto, uma das funções essenciais do ambiente é ser o regente exclusivo desses eventos. Assim, pergunto: o que significa ser maestro de uma sinfonia de terremotos ou de uma orquestra de furacões e tsunamis?

É óbvio que maestros não são músicos, mas regentes da orquestra, de seu compasso e da evolução musical. Portanto, o ambiente não atua nas sinfonias de terremotos. Porém, como regente, faz com que sua natureza primordial permaneça estabilizada, a despeito da violência dos eventos fortuitos que nela ocorrem – eventos do ambiente.

Por volta de 70 mil anos atrás, grupos de sapiens arcaicos abrigavam-se em cavernas da Uma grande cavernanatureza primordial. Bebiam a água de rios e cascatas, alimentavam-se da flora e da fauna silvestres. Comportavam-se de forma similar aos demais primatas então existentes. Deste modo, ainda eram bens do ambiente, embora sujeitos às intemperanças da natureza. No entanto, talvez por receio de serem extintos em eventos desse gênero, refletiram sobre como a physis houvera sido “construída”. Foi assim que, 50 milênios depois, o mais sábio questionou aos demais:

─ “Será que algum dia conseguiremos engenhar cavernas maiores e mais seguras”? E a resposta surgiu em seguida:

─ “Primeiro precisamos entender como o ambiente fabrica suas cavernas e depois imitá-lo

Sem dúvida, era imprescindível conhecer a “engenharia do ambiente”, sempre realizada ao acaso. Foi assim que, mais tarde, árvores viraram casas; florestas de sequoias se tornaram condomínios de prédios; colmeias viraram fábricas; trilhas da fauna silvestre se transformaram em ruas e avenidas. Iniciava-se a construção da antroposfera do sapiens, paradoxalmente, um ordinário plagiador do ambiente que devasta.

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[1] Natureza primordial é sinônimo de physis e constitui o resultado da dinâmica das relações mantidas entre os bens que são propriedade exclusiva do ambiente: ar, água, solo, flora e fauna. O universo da natureza primordial é a Terra.

A Antroposfera devora o Ambiente


Ricardo Kohn[1], Aprendiz de Filósofo.

A fauna silvestre adapta-se ao ambiente e nele evolui há bilhões de anos, sem altera-lo. Há, como esperado, uma relação de cooperação factual entre ambos. Dessa forma, o ambiente é um dado do problema para a existência de todas as espécies silvestres da fauna. Seus habitats são feitos sem consumo de bens primordiais[2], livres de impactos adversos sobre a physis[3]. Enfim, a fauna silvestre mimetiza-se com o ambiente, imita-o para conserva-lo, a permitir que o ciclo de suas espécies prossiga no curso espontâneo da existência.

O sapiens moderno, no entanto, faz justamente o contrário. Devasta o ambiente, impacta sua physis, para depois ocupa-lo. Por meio de máquinas baseadas em tecnologia ditas de ponta, deforma-o para a satisfação de suas necessidades exóticas. Tudo isso para possuir a bela vista que descortina ao longe no horizonte, a valorizar a residência na qual passa suas férias. Nesse ímpeto arbitrário, quase despótico, o sapiens dominante acredita que sua antroposfera[4] é dona absoluta da physis do planeta e, assim, pode dispor de seus bens primordiais da forma que desejar. Afinal, na visão dominante, tratam-se de simples matérias-primas.

Antroposfera devoradora

A prova cabal que a antroposfera devora o ambiente, célere e sistematicamente!

Não detalho os contrastes entre a inteligência silvestre da fauna e a extravagante inteligência do sapiens dominante. Deixo a cargo do leitor refletir acerca das consequências lógicas dessa discrepância de atitudes e condutas.

Porém, o crescimento da antroposfera constitui um processo incontrolável, graças às ficções do sapiens, criadas durante milênios. Mercado, moeda, comércio e patrimônio são as que hoje detém maior influência na construção da antroposfera. A acumulação de riquezas tornou-se o único vetor que mobiliza o sapiens dominante. Aliás, enquanto houver bens primordiais que possa explorar, sua ganância não cederá. Seu único limite é o tamanho do ambiente disponível para ser ocupado.

Sobre isso, sabe-se que a superfície do ambiente terráqueo é da ordem de 510 milhões de km2, dos quais cerca de 70% são recobertos por água e 30%, por solo. Em outras palavras, o sapiens dispõe, em tese, de 153 milhões de km2 para ocupar com sua antroposfera. Contudo, o ambiente estima que, dadas as exigências oportunistas do sapiens dominante – conforto e segurança para seu mercado –, apenas 50% da superfície terrestre estaria disponível para ele, ou seja, algo como 76,5 milhões de km2, a equivaler, aproximadamente, a 15% do ambiente terráqueo.

Porém, todos os sapiens dominantes e raros – ainda precisam superar restrições para ocupar o solo terráqueo, tais como:

  • Áreas desertificadas;
  • Áreas montanhosas escarpadas e com grande altitude;
  • Espaços rochosos recobertos por densas florestas de monção, sem acesso para suas máquinas de desflorestamento.

Nesse cenário, o ambiente pondera que resta ao sapiens somente 1/8 da superfície terráquea que ele antes acreditava estar disponível – 63,75 milhões de km2. Parece ser muito, porém, para acolher 7,5 bilhões de sapiens excêntricos, esta superfície representa nada. Sobretudo, se o ambiente estiver correto, quando observa que 90% dos dominantes habitam áreas da sua antroposfera, onde inventou mercado, comércio, moeda e patrimônio. Em suma, sinto-me obrigado a apostar que a criatura [sapiens] acredita dominar seu criador [ambiente]. Em outras palavras, a antroposfera devasta e devora o ambiente.

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[1] Baseado no ensaio “Princípios da Filosofia do Ambiente”.
[2] Bens primordiais são os fatores básicos que se relacionam aleatoriamente para compor todos os ecossistemas do ambiente terráqueo: ar, água, solo, flora e fauna.
[3] A physis é tudo o que existe no ambiente, à exceção do que seja construído pelo homem”. Alguns filósofos naturalistas da Grécia Antiga a usavam em sua retórica. Deduzo que se referiam aos espaços físico e biótico do ambiente, a comportar sua dinâmica aleatória, função da necessidade e acaso.
[4] Assim como hidrosfera constitui a “esfera das águas”; biosfera, a “esfera da vida“; a antroposfera  é a “esfera dos homens e suas atividades”, onde são gerados estados, nações, cidades, moradias, escolas, indústrias, estradas, ruas, sistemas de esgotos, lixo e infraestrutura em geral.

Só restou a filosofia


Ricardo Kohn, Aprendiz de Filósofo.

Desde há pelo menos duas décadas, a imprensa em geral centra seu noticiário em fatos da delinquência: tráfico de drogas, pedofilia, estupros, latrocínios, assassinatos em massa e, sobretudo, corrupção descarada. Veículos da imprensa se esmeram em narrar os detalhes dos crimes cometidos, assim como o sofrimento de familiares [dos executados, estuprados e drogados]. Em síntese, para as grandes empresas de comunicação, mostrar “o sangue alheio” tornou-se negócio lucrativo. Sólida mesmo, só restou a filosofia.

Porém, aqueles sapiens que se submetem a receber essa avalanche diária de crimes sofrem efeitos danosos em suas reflexões. Os veículos mais poderosos reformatam rapidamente seu noticiário, função da decadência da sociedade a que fingem informar. É óbvio que, com muita destreza e eficiência, contribuem fortemente para o ocaso desta mesma sociedade. Afinal, possuem redes mundiais de repórteres e comentaristas, sempre a trazer “em primeira mão” as notícias mais repugnantes. É insuportável o clima criado pela imprensa. A ser assim, apenas restou a filosofia.

Não há dúvida que os mais perigosos veículos da imprensa são canais de televisão. Muitas vezes mostram imagens da “realidade concreta” que não passam de “realidades imaginadas”. Em poucas horas de um dia criam, recriam, dizem e desdizem a transmissão das ditas realidades concretas. Causam uma enorme confusão de informes, sempre em busca de serem “em primeira mão”, a “darem o furo” pelas reportagens… É com base nessa “incitação de manadas” que é calculado o preço para seus patrocinadores e publicidades. Como realidade concreta, somente restou a filosofia.

Nasci no sul, em 1948, embora more no Rio há 64 anos. Com certeza, na segunda metade do século 20 não existia a fúria atual do tráfico de drogas, da pedofilia, dos estupros, dos latrocínios e da corrupção em massa. Naquela época ainda havia alguma filosofia na imprensa.

É espantoso, destarte, o cenário de conflito que a imprensa proporcionou, com a invenção do “nós contra eles”. Nasce no século 21, quando políticos corruptos, ávidos por poder, ganham espaço em veículos da imprensa, a divulgarem as mentiras de seu populismo. A eterna desculpa da imprensa é a tal da “imparcialidade”. Por isso, oferece seus meios para que os repugnantes se justifiquem diante do povo a que odeiam, pois só precisam do nosso voto para continuarem na ladroagem organizada. De fato, só nos resta a filosofia.

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Resgate do bom senso


Ricardo Kohn, Aprendiz de Filósofo.

Parece-me que bom senso não é uma habilidade inata do Homo sapiens. Creio que no seu DNA não há um gene responsável por esse traço de caráter. Aliás, não me recordo de portar “bom senso” ao nascer. Contudo, lembro-me bem de ouvir dos mais velhos uma sugestão diária: ─ “Menino, use seu bom senso”. Custei a perceber o que me diziam. Refletia indeciso sobre o que deveria ser bom senso. Porém, mesmo sem sabe-lo, acostumei-me à sugestão ancestral. Afinal, haveria de ter pelo menos uma razão lógica associada ao fato de possuir “bom senso”. Assim, em um dia perdido da juventude, a prudência aconselhou-me a aguardar o nascimento espontâneo desta sabedoria. Fiquei surpreso ao descobrir que bom senso era um tipo de sabedoria, mesmo ainda a desconhecer seu néctar.

Durante a adolescência ─ quando todos anseiam ser adultos ─, esqueci-me do bom senso. Graças a isso, presenciei atitudes insensatas de amigos. Fui imprudente em vários atos que cometi. Todos pagamos o justo preço das consequências. Diria hoje, da falta de bom senso. Aos poucos comecei a descobrir que esta faceta de caráter deve ser vista como uma arte da escultura. Entalha-se o bom senso através de processos de ensaio e erro, do aprendizado que provém das topadas que cometemos no caminho da maturidade.

Isto é Arte! A escultura quase perfeita de Lu Li Rong

Hoje ocorrem debates acalorados sobre algumas “exposições de arte viva”, por assim dizer. Ofereceram ao público variadas exibições de nudez humana. Não entro no mérito dessas exposições, foco apenas nos dois grupos que se digladiam com posturas opostas. De um lado,  os “progressistas”, que acham normais as demonstrações públicas feitas por homens pelados, pois constituem a livre expressão da arte. De outro, os “conservadores”, que acusam os donos desses eventos de destruidores da família, promotores da pedofilia, a afrontar princípios básicos de religiões. Ambas as argumentações me parecem esquisitas, fracas, pois nelas falta o bom senso, carecem de sensatez, são imprudentes.

A propósito, há uma íntima correlação entre bom senso, prudência e sensatez. Todos esses traços de caráter ─ que são artes da escultura ─ requerem capacidade de observar fatos, de refletir sobre eles, descobrir suas finalidades e entender os argumentos alheios, ainda que baseados em esquisitas alegorias[1], com vistas a embolsar dinheiro dos tolos.

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[1] Para a filosofia as “alegorias” são textos que encerram o valor simbólico das imagens e da narrativa, em decorrência das escolas a que pertencem.

Filósofo aprendiz


Ricardo Kohn, Escritor.

Pelo menos durante um dia da vida, creio ser provável que um bom número de cidadãos haja sonhado em ser filósofo. Isto por que existe a leveza intelectual associada à prática da boa filosofia. Costumo dizer que fazer filosofia é duelar com a lógica e a razão das palavras, em busca de descobertas. Afinal, elas ganham vida própria assim que são lançadas no papel. E o filósofo é o espadachim que se deixa levar, mas atento para manter a essência do texto, de modo a que não lhe escape e termine seduzido pela dança das palavras.

Graças a esses aspectos, há questões a considerar:

  • Em sua origem, o que a filosofia significava para o cidadão comum?
  • Como o filósofo deve proceder perante seus discípulos?
  • Quais são as consequências de o cidadão ser parte do seleto grupo de filósofos, muito embora não haja sido convidado?

Antes tratar destas questões, importa mostrar onde se situa a filosofia. Para Bertrand Russel[1]todo conhecimento definido […] pertence à ciência; e todo dogma, quanto ao que ultrapassa o conhecimento definido, pertence à teologia. Mas entre a teologia e a ciência existe uma terra de ninguém, exposta aos ataques de ambos os campos: essa terra de ninguém é a filosofia”. Na literatura histórica, não encontrei reflexão mais objetiva que esta.

A origem da filosofia ocidental acontece na Grécia Antiga – século VI a.C. –, por meio de uma escola fundada por Tales de Mileto, na Jônia, colônia grega situada no Mar Egeu. A Magna Grécia era notória como líder mundial do pensamento e a Escola de Mileto demarcou a origem da filosofia ocidental. Para cidadãos comuns, filosofia era o espaço em que ouviam e podiam questionar as reflexões de seus mestres. Foi o ambiente semeado por pensadores gregos, onde havia a liberdade da palavra em prol da cultura, com vistas a educar cidadãos para descobrirem como refletir com lógica.

Filosofia é exatamente isso: saber pensar, ponderar, refletir, argumentar, deduzir e inferir coisas sobre os temas oferecidos à mesa de diálogos. Deduzo que, para se tornar filósofo, não há regras ou normas que limitem qualquer cidadão comum. A prática da filosofia é aberta a todos, sem exceção. Dessa forma, infiro que ninguém precisa ser convidado para ser filósofo, basta saber qual espaço poderá ocupar com sua filosofia.

Como Filósofo Aprendiz optei por ingressar na filosofia, através de uma obra sucinta, Ícone da capaintitulada “Princípios da Filosofia do AmbienteComo o Ambiente vê o Sapiens”. É possível prever por este título que se trata de uma filosofia que inverte a egolatria filosófica presente nas reflexões de vários filósofos do medievo. Aqui o Ambiente é o sujeito e o Sapiens, seu objeto.

Os capítulos deste ensaio apresentam-se em 172 páginas, com a seguinte estrutura:

  • A Introdução da obra, onde parto de uma equação filosófica: Ambiente + Sapiens Impactos + Áreas Devastadas + Lixo + Restos do Ambiente.
  • O Sumário Histórico da Filosofia Ocidental, que visa a situar em qual espaço cultural a Filosofia do Ambiente poderá se assentar.
  • A Base Conceitual Científica, onde apresento conceitos que julgo relevantes sobre os processos ambientais, as características funcionais do ambiente e suas respectivas argumentações analíticas.
  • Os Primatas da Humanidade, onde busco compreender o comportamento do sapiens, como um reagente instável, às vezes espúrio, na equação filosófica enunciada.
  • Os Fundamentos da Filosofia do Ambiente, que apresenta algumas premissas em que devem se fundar a filosofia do ambiente. Essas premissas estimulam a realização de debates, os quais procuro formular através de questões com respostas provocativas, sobretudo, as relativas ao mundo em que se vive atualmente.
  • O Ambiente Terráqueo, onde revelo, através de constatações factuais, as principais ameaças à sua qualidade e, por óbvio, à vida de todos os seres vivos que habitam a Terra. Debato ameaças significativas impostas pelo homem aos espaços físico, biótico e antropogênico do ambiente terráqueo.
  • Como o Ambiente vê o Sapiens traz uma narrativa sumária da origem e evolução do Homo sapiens na Terra. Em “Assim fala o Ambiente”, coloco-me em seu lugar, com vistas a refletir sobre o sapiens como se eu fosse o ambiente. Esse exercício de lógica permitiu-me inferir sobre a conduta das espécies e subespécies do Homo sapiens, segundo a taxonomia do ambiente.
  • A Base Conceitual Filosófica apresenta a revisão dos conceitos científicos, segundo a ótica do ambiente, assim como sua argumentação analítica. A base filosófica está realizada a partir de “Assim fala o Ambiente” e do “Decálogo do Ambiente”.
  • Em Inferências Filosóficas procuro refletir sobre quatro temas: (i) as Religiões do Homem Dominante (Homo dominans); (ii) as Ciências do Ambiente; (iii) a Avaliação Filosófica de Impactos sobre o Ambiente; e ofereço (iv) Parábolas do Ambiente.
  • Em O Homem Primordial, apresento uma estratégia de ação para cooptar várias das subespécies do Homo dominans (Homem dominante) e torna-las Homo rarus (Homem raro), a espécie que, além de qualquer dúvida, é um bem do ambiente.
  • Concluo com o Epílogo, onde arremato conclusões e formulo expectativas.

Esperava lançar a versão digital deste livro em dezembro. Mas consegui publica-lo em 9 de novembro de 2017. Quem desejar conhece-lo clique aqui. Sugiro aos amigos que o adquiram e o divulguem nas redes sociais, no ambiente de trabalho, em faculdades e em escolas de nível médio. Desde já, agradeço a todos.

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[1]
Bertrand Arthur William Russell, matemático e filósofo, nascido a 18 de maio de 1872, no País de Gales. Prêmio Nobel de Literatura, em 1950. Atuou em vários países como professor de matemática avançada. Faleceu aos 97 anos, em 2 de fevereiro de 1970, na mesma nação britânica.

‘Maravilha’


Por João de Moura Macedo, de Nazareth da Mata, PE.

Erasmo e Euzélia, pais de João de Moura Macedo

Erasmo e Euzélia, pais de João de Moura Macedo

Este breve relato é sobre uma nação muito pouco conhecida, mas que, em minha visão, é o “País da Maravilha“. Faço um resumo de tudo o que li acerca dessa inacreditável nação. Devo dizer que procurei selecionar seus aspectos de maior interesse.

Assim, tento mostrar a imensidão de seu território e a qualidade de seu ambiente; o terreno exclusivo que possui para acolher vegetação e fauna silvestre; e, bem assim, as linhas básicas de convivência de seus cidadãos, os dignos maravilhenses.

Nesse relato optei por seguir a sequência aceita como a história da formação do Ambiente da Terra, assim sintetizada:

  • Primeiro, aconteceram choques entre gigantescos blocos de rocha no espaço sideral, o que veio a dar origem a seu furioso Espaço físico: extremos tremores das rochas que se acomodavam, com fortes emissões de gases e lava, até tornar-se um colosso geológico;
  • Em seguida, após 2,5 bilhões de anos, encerrou-se o resfriamento da crosta colossal, bem como a formação de sua atmosfera. Assim emergiu a vida, o Espaço biótico, que teve origem em pequenas algas marinhas: as cianofíceas;
  • Por fim, estimados a partir da sua origem física, 5,5 bilhões de anos depois, emergiu a bravata do Espaço antropogênico, onde os humanos são os desastrados construtores.

Contudo, embora esta sequência também haja ocorrido na Maravilha, nela não aconteceram as deformações provocadas pelo homem. Seu ambiente ainda é o primitivo e, em grande parte, intocado.

Por isso, acredito que esse documento possa servir de parâmetro para avaliar a humanidade e a educação em mais de 160 países. Devo dizer, países ainda “repetentes no curso primário” promovido pelas Nações Unidas, desde 1945. Tenham a santa paciência, vão catar coquinhos, 70 anos de repetência é motivo para jubilação!

Espaço físico

A sorte geográfica desta nação foi absurda e, de certo modo, ingrata com a maioria dos países do globo. Imagine: seu território se estende por uma área de 8,5 milhões de km2! De norte a sul, o litoral maravilhense possui 9.200 km de extensão, com belezas cênicas inigualáveis.

Nele existem pequenas montanhas, falésias, planícies costeiras, milhares de enseadas, um estuário de mar aberto, dezenas de arquipélagos, centenas de manguezais e até regiões com o litoral rendilhado pelo artesanato da natureza.

O clima da Maravilha apresenta magníficas variações, do equatorial ao frio, com classes intermediárias bem definidas: tropical, subtropical, semiárido e temperado. Isso mesmo, condições de tempo que vão do clima tórrido até geadas e neve.

Na Maravilha não existem vulcões ativos. Todos são morrotes extintos há milênios. Em seu território e na sua costa marítima nunca ocorreram ventos fortes como tufões, ciclones ou furacões. Por outro lado, a Maravilha detém as maiores reservas mundiais de nióbio, vanádio e outros metais estratégicos, afora manchas das chamadas terras raras.

Afirmam pesquisadores do espaço físico que a Maravilha detém 12% da água doce do planeta. Pois, a caminhar terra adentro, é surpreendente o grandioso volume de água com que se depara. São rios, lagos, cachoeiras, riachos, corredeiras e lagunas marginais, todos a transbordar água mineral nativa, pura e potável. É incrível!

Por sua vez, seus solos são profundos em pelo menos ¾ de seu território. Além disso, possuem variados nutrientes, que não cabem ser enumerados aqui. Mas sua composição em nitrogênio, potássio e cálcio é de tal ordem estabilizada, que os torna aptos para a produção espontânea de vegetais e frutos comestíveis.

Essa é a síntese do que a Maravilha oferece como substrato físico à evolução de todas as espécies vivas nela ocorrentes.

Espaço biótico

Grandes manchas vegetacionais ocupam 85% do território maravilhense. Dado seu relevo “de suave a ondulado”, suas notórias vocações climáticas, mais o volume de água que se espraia por seu terreno e a notável qualidade de solos, as coberturas da flora possuem elevada biodiversidade, a apresentar biomas com grande extensão e complexas relações entre suas espécies – fitossociológicas.

Já a fauna ocorrente na Maravilha é soberba, tanto em sua abundância, quanto na extrema diversidade. Seus espécimes tentam encontrar na variedade de florestas, matas, savanas e campos existentes seus habitats ideais, feitos pelo acaso e sob medida.

No entanto, embora as regiões que são cobertas pela vegetação sejam de grande extensão, não é fácil para os incontáveis espécimes da fauna silvestre (mastofauna, avifauna, ictiofauna, primatas, herpetofauna, entomofauna, aracnofauna, malacofauna e anurofauna, dentre outras classes) permanecerem no mesmo “espaço domiciliar”, pois ocorrem os conflitos normais, por vezes, letais.

Mas, ao fim e ao cabo, é a seleção espontânea imposta pelo ambiente que desafia quais espécimes possuem habilidades para se adaptar, sobreviver e procriar.

Vale dizer, o povo maravilhense tem plena consciência da importância desse patrimônio ecológico e o mantém praticamente intacto, há séculos, sem necessidade de leis, polícias e ameaças. Procedem assim por que é um costume incorporado em cada cidadão, após 500 anos de democracia liberal.

Espaço antropogênico

A propósito, depois de criada a democracia ateniense, por volta de 2.700 anos atrás, com base nas propostas de dois pensadores gregos, Sólon e Clístenes, a Maravilha foi a primeira nação do mundo a constituir-se Estado Liberal Democrático, em 1515.

Desde então, nunca foi colônia de outro país, nem pensou em colonizar terras além mar. Sua única constituição federal está impressa em apenas uma folha de papel e até hoje não sofreu qualquer emenda. Por isso, os cidadãos maravilhenses recitam-na de cor, como o poema que mais lhes aprazem.

Na Maravilha não existem leis ou decretos públicos. Ela é regida conforme os costumes de seu povo que, desde sua origem, elegeu uma assembleia nacional para coordena-lo, sem a participação do que chamam grupelhos políticos. Essa instituição não possui um “mandato” e seus membros não recebem qualquer remuneração, apenas uma justa e pequena ajuda de custo.

Contudo, precisam ser substituídos por força da democracia liberal. Por exemplo, há saídas para resguardar intacta a missão assumida por alguém, que não a concluiu dentro do prazo. Há saídas espontâneas, pois qualquer membro sente-se eticamente motivado a substituir a si próprio, quando encontra um cidadão mais útil do que ele, que atenda melhor à sociedade maravilhense. E, por óbvio, acontecem as substituições por falecimento.

Desde seu nascimento como Estado, a constituição maravilhense (1515), redigida em praça pública, estabelece por consenso que serviços de educação e saúde são os pilares básicos de sua governança e evolução. E assim o é, até hoje.

Dessa maneira, não existe um único analfabeto perdido em seu território nacional. Todos os maravilhenses completaram, no mínimo, o ensino médio. E o que é mais notável: 95% deles possui pelo menos um título superior em Gestão do Ambiente, Medicina, Engenharia e Matemática Aplicada. Somente a graduação nessas áreas requer 8 anos de cursos intensivos, teóricos e práticos. A partir daí, formaram-se mestres e doutores, aos pelotões.

Para se ter uma medida, nas cidades maravilhenses existem mais bibliotecas do que lojas de loteria no Brasil inteiro! São instituições públicas, que recebem toneladas de livros de todas as nações cultas do mundo. Afinal, em média, o maravilhense sabe ler, escrever e falar com fluência pelo menos cinco idiomas, além da língua materna.

O hábito de ler, interpretar e aprender é uma tradição de cinco séculos naquela nação. Nas ruas e campos vê-se, diariamente, uma grande quantidade de pessoas a aprender com um livro às mãos. Por força de vários fatores, inclusive a bendita sorte, tornou-se uma epidemia nacional, sem condições de retorno à origem do homo sapiens, insipiente e destruidor agressivo.

Afinal, o que é a Maravilha?

É fruto da exuberante educação construída e distribuída a seus cidadãos, durante séculos. Os maravilhenses souberam organizar suas cidades em pequenas áreas, de forma a não destruírem seu santuário ambiental, tanto o físico, quanto o biótico. Saliento que sua divisão “geopolítica” possui somente dois níveis: o Estado maravilhense e suas cidades. Não existem os estados e os municípios.

Portanto, nunca houve governadores e prefeitos, deputados e vereadores. Eles eliminaram os gastos com o que chamam de “maldita máquina pública”. Para eles são apenas máquinas de produzir burocracia e confusão, enfim, “instrumentos da corrupção”.

As casas, equipamentos urbanos e serviços de uso público foram erigidos entre a vegetação nativa, de modo a mantê-la de pé. Por sinal, em cada cidade está instalado um viveiro de mudas de espécies nativas. São milhares de viveiros implantados na Maravilha. Assim foi criada uma de suas principais fontes de riqueza, pois exporta toneladas de mudas para países civilizados que desejam reflorestar seus territórios.

Os cidadãos maravilhenses são vegetarianos há séculos. Não há gado de corte no país. Em troca, cada cidade possui grandes hortas comunitárias, plantadas em harmonia com a mata. Se for feito um sobrevoo sobre a Maravilha, somente ressaltarão aos olhos do observador somente seus polos industriais, aeroportos e portos. Criará uma sensação curiosa: para que servem industrias e aeroportos se não existem pessoas?

A produção de energia elétrica do país adotou uma solução óbvia. Cada casa, unidade produtiva, unidade de serviço público produz a energia que consome. Há mais de século, cientistas maravilhenses desenvolveram fontes eólicas, solares e de biomassa, visando a consumidores de pequena e média envergadura. Portanto, não existem linhas de transmissão a atravessar o território da Maravilha.

Inversamente, a segurança pública possui uma solução antiquada, creio eu. Como a principal fonte de receita do país é o turista estrangeiro, que possui “costumes estrangeiros”, é o exército quem faz a segurança, pois lá não existem polícias. E ele mantém a tradição medieval da pena de morte para tudo o que a assembleia nacional considerar “crime contra a pátria“.

Não vou entrar no mérito dessa questão, mas há um benefício econômico para a nação: não existem penitenciárias, prisões, celas ou qualquer gênero de “armazém de criminosos”. Além disso, para desmotivar eventuais “intrusos”, todas as famílias do país possuem armas de fogo em casa. Entretanto, a taxa de criminalidade no país é zero e o tempo de vida útil do maravilhense é de 95 anos.

Concluo que essa foi a forma democrática e liberal que o povo do País das Maravilhas escolheu para viver, desde 1515. Suas comunidades são saudáveis, cultas, humildes e muito sociáveis. São capazes de criar soluções, simples ou complexas, que aumentem a produtividade de sua economia, bem como a qualidade de suas vidas. Dessa forma, deixo questões que não consigo responder:

─ “Por qual motivo os países associados às Nações Unidas não adotam essa forma digna de viver”? “Por que preferem se destruir e se corromper com extrema naturalidade“?

Verdade Seletiva


 Por Simão-pescador, da Praia das Maçãs.

Simão-Pescador

Simão-Pescador

Escrevo este artigo a pedido do nosso coordenador, Ricardo Kohn. Parece que um leitor do blog, após ter lido a ironia “Mentira, Petas e Patranhas”, de cujo crédito não abro mão, deseja conhecer ou discutir essa tal de “verdade seletiva”. Acho curioso, mas vamos ao desafio.

De início, mesmo antes de consultar meus alfarrábios, por instinto, digo que “verdade seletiva” não existe no espaço normal do ser humano. A menos dos cenários inóspitos de dominação deste espaço, onde os “donos do Estado” impõem a seus povos a verdade seletiva que detém, até pelo uso da força, se necessário.

─ Porém, de qual ‘verdade seletiva’ estou a falar? Preciso ser objetivo e pragmático neste esclarecimento. Senão, vejamos:

Os “donos do Estado” selecionam quem continua a viver, por obedece-los cegamente, e quem morre, por pensar diferente. Coréia do Norte, Cuba e Rússia, por exemplo, são Estados típicos na prática da “verdade seletiva”. Fazem-me lembrar o Estado Nazista na Europa, contra o qual fui a guerra como voluntário e que sempre lutarei contra.

Além dessa prática, não tenho informação da existência de outro “seletor da verdade“. Embora, ao contrário, existam “cursos de especialização” para a produção da “mentira seletiva“, sempre a favorecer os “donos do Estado“.

Reflexões sobre a Verdade

No silêncio da biblioteca, busco encontrar autores que falem sobre a Verdade. De certa maneira, embora sem serem específicos, vários filósofos do passado escreveram suas abordagens acerca da Teoria do Conhecimento ou Epistemologia, que até hoje trata da verdade científica. Platão parece ter sido o primeiro a teorizar sobre este tema.

Por constituir um dos ramos da filosofia, a epistemologia, segundo a teoria de Platão, visa ao conhecimento teórico (“saber que”), através de informações que explicam o mundo natural e social em que se está inserido. Porém, segue além disso. É capaz de gerar conhecimentos sobre a realidade, a antecipar realidades futuras, ou seja, “a predizer realidades”.

Todavia, Platão tratou essa prática apenas como uma “possibilidade de conhecimento”. Para obtê-lo, o sujeito precisa possuir capacidade de cognição e dedicar-se profundamente em sua busca pela verdade.

Vou cometer uma simplificação histórica que é didática, mas não afeta a análise. A partir da teoria platônica formaram-se grupos de filósofos, com atitudes distintas na busca da verdade, que podem ser classificados em quatro “escolas” distintas, a saber:

  • O Dogmatismo, segundo o qual é possível obter conhecimentos seguros e universais, mas precisa ter fé nos dogmas em que acredita ou cria. Trata-se de uma espécie de fundamentalismo filosófico, que teve em Immanuel Kant um de seus baluartes. Nos tempos atuais as ditaduras remanescentes são símbolos do dogmatismo, pois estão sempre certas e não podem ser contestadas, dado que detém a verdade absoluta.
  • O Cepticismo, que traz uma escola oposta ao dogmatismo. Para os cépticos não há verdade absoluta e sempre é necessário duvidar de dogmas e mesmo de novas teorias não testadas e comprovadas. Afirma que a evolução das ciências dá-se através de dúvidas e debates. Diz ainda que, embora fosse desejável, nenhuma ciência é capaz de deter o conhecimento total do conteúdo de seu universo de ensinamentos. Um de seus primeiros defensores foi Pirro de Elis, na Grécia Antiga.
  • O Perspectivismo, que defende a existência de uma verdade absoluta, porém afirma que nenhum ser humano pode chegar a ela, senão apenas a uma parte dela. Cada ser humano tem uma visão parcial da verdade. Essa abordagem ao conhecimento da verdade teve em Friedrich Nietzsche um grande desenvolvedor e defensor.
  • O Relativismo, que nega a ideia da verdade absoluta e diz que cada indivíduo possui sua própria verdade, função de seu contexto histórico. Essa abordagem é praticada pelos sofistas e possui algumas características curiosas. Os mestres sofistas viajavam de cidade em cidade para exercitarem sua retórica com plateias de jovens. Por sinal, cobravam valores em dinheiro por “seus ensinamentos”, como se estivessem a dar aulas. Essa praga subjetiva, criada na Grécia Antiga por Protágoras e Górgias, para forjarem a própria “felicidade monetária”, afirma que a verdade é relativa.

Não sou filósofo, apenas leio sobre as filosofias que considero imorredouras no tempo. Porém, antes mesmo de tê-las lido, já praticava o cepticismo por causas genéticas.

Desta forma, fico grato por ter recebido a missão de escrever este texto. Fez-me bem rever as ideias e, quem sabe, discordar de algumas que já havia aceito. Também carrego no sangue pequenos traços do perspectivismo.

Conforme já disse, não sou filósofo, mas dogmáticos e relativistas que se mordam até trincar os dentes, pois verdade absoluta, verdade relativa e verdade seletiva são apenas mentiras, petas e patranhas. Só existem para amestrar certos tolos e submeter povos inteiros a quadros de miséria e guerra.

O ambiente na cidade


Surge novo mercado de trabalho.

1. Sumário da sátira – Brasil

Um enxame de abelhas é mais prudente do que seu similar humano: o enxame de sapiens, que acredita ser inteligente. As abelhas constroem suas residências, seu espaço domiciliar, sem impacto adverso sobre o Ambiente. Aliás, para ser exato, a ele se integram e quase desaparecem aos olhos dos menos treinados. Ferrões ardentes que o digam.

Por sua vez, nós humanos, pelo menos há dois séculos, construímos espaços procedendo justamente ao contrário: antes, devastamos o Ambiente para construir sobre “áreas mais limpas”; depois, já com as construções finalizadas, salpicamos alguns canteiros verdes, iluminações radiantes e aplicamos filas organizadas de árvores exóticas.

Por fim, certos de haver cumprido com algum tipo de dever, cravamos ao lado do portão de entrada do estande grandes cartazes incandescentes. O alvo é vender “Salas Espetaculares para seu Negócio. Invista aqui!

Parecemos “santos pagãos” tentando criar uma evolução que somente é própria da natureza. Talvez nunca tenhamos percebido que somos somente uma das partes ordinárias do Ambiente, tal como insetos e outras da fauna.

2. Sumário da realidade – Mundo

Em algumas cidades históricas do mundo o uso e a ocupação de seu solo ocorreu, digamos, sob a égide do cartesianismo, mesmo antes de Descartes nascer. Basicamente construíam uma praça, talvez como uma reverência espiritual a seu fundador ou colonizador, e com vistas a atender o crescimento populacional. Pois dela podem derivar diversas vias, a cortar o Ambiente primitivo que as circundam. Eram chamadas de “Cidades em Estrela”.

Com ou sem praça, castelos ou igrejas redentoras, também era comum iniciar a ocupação pelas margens de um rio, para ter acesso à água doce. Roma, Paris, Londres, Lisboa e, posteriormente, Nova York, apresentam pelo menos uma dessas duas características [1].

Na construção das cidades fica nítido que o Homem tenciona exercer Domínio sobre o Ambiente. Mas só aplica o processo que se adéqua a seus instintos dominantes. Em suma, sua ação básica é retirar toda a vegetação, nivelar o solo (terraplenar) e, sempre que necessário, desmontar as rochas que obstaculizem o crescimento da urbe. Depois constroem, destroem e reconstroem.

Esse processo ocorre com frequência nas maiores cidades do planeta, há pelo menos dois mil anos. Todavia, de forma paradoxal, enquanto forem mantidos os instintos humanos devastadores, a intensidade dos impactos ambientais negativos decorrentes crescerá, função da evolução tecnológica das modernas máquinas e potentes equipamentos construtivos.

Assim, não sobra Ambiente dentro da urbe. As cidades perdem a capacidade de acolher qualquer tipo de vida, inclusive a humana.

3. Tentativa vencedora

Tem-se conhecimento de profissionais que se dedicam a sanear corpos d’água e criar parques dentro de cidades consolidadas. É um desafio autoimposto por arquitetos, ecólogos, biólogos e voluntários em geral, visando a reintroduzir o Ambiente que fora riscado de seus mapas urbanos.

Essa iniciativa já ocorre em Nova York e Paris. Mas não é pioneira, pois o Central Park, na ilha de Manhattan, é obra feita por engenheiros e inaugurada em 1857. Hoje conta com cerca de 340 hectares de área verde e lagos, a receber manutenção permanente e de qualidade.

Vista aérea do Central Park

Vista aérea do Central Park

Na cidade de Nova York os próprios cidadãos são voluntários em atividades de limpeza de rios, recolhimento de detritos em corpos d’água, criação de hortas comunitárias, criação de jardins suspensos em edifícios, etc.

A monitoração da abundância e diversidade da fauna urbana é realizada em Nova York e já demonstra que o retorno de boas lascas do Ambiente primitivo aumenta a qualidade de vida de animais silvestres, turistas e cidadãos nova-iorquinos.

Mas o caso de Paris é mais complexo, pois praticamente não há áreas disponíveis para esverdear a cidade. Os profissionais envolvidos são obrigados a limitarem-se a áreas estreitas da margem de rios, a praças e bulevares mais amplos.

Vista aérea de Paris

Vista aérea de Paris

No entanto, a eterna teimosia francesa prossegue. O grito cidadão de guerra é sempre do seguinte gênero: ─ “Façamos o máximo pelo Ambiente da metrópole; mas vamos impedir, não importa a que custo, que o solo do entorno de Paris continue a ser tratado de forma desastrada!”

Porém, vale recordar que esta atitude possui passado histórico – a cidadania francesa –, conforme brada seu hino revolucionário: “Aux armes, citoyens!

4. Tentativa derrotada

Embora haja nascido do magnífico traço do urbanista Lucio Costa, Brasília foi mal executada em suas obras. Ou melhor, pessimamente executada! Considerando sua juventude como cidade, os donos dos obreiros então contratados – empreiteiros e seus capatazes – foram incapazes de assentar a cidade no Ambiente nativo que lá existia. Muito ao contrário, deformaram-no para receber as obras previstas.

Sem entrar no mérito dos efeitos nacionais perversos causados por “levar o desenvolvimento para o centro-oeste” dessa maneira, tornando a capital nacional distante da maioria das principais cidades brasileiras, Brasília parece ter sido pensada apenas para ser o sítio da absoluta distopia [2].

A tática utilizada em sua construção, graças à enorme pressa em construir a cidadela, foi a do “desbravamento com terra arrasada”. Quando tiveram a rara oportunidade de erguer uma verdadeira cidade, que se integrasse ao Ambiente que a recebia, optaram por esquecê-lo debaixo de tratores e joga-lo em lixões pela ação de pás-carregadeiras.

Por uma questão de princípio, era essencial garantir a convivência estável entre Brasília e o bioma Cerrado ocorrente na região, com suas belas formações florestais, savânicas e campestres.

Para finalizar a derrota, há períodos mais secos do ano em que a umidade relativa do ar chega a 12% ou pouco mais, o que demonstra o caráter desértico que a cidade desmatada possui.

5. Novo mercado de trabalho

Com as ações já realizadas pela iniciativa privada, através de profissionais norte-americanos e franceses, há sinais concretos de que um novo mercado de trabalho está a se abrir. Tratam-se de atividades destinadas a “reambientalizar cidades”, como instrumento essencial da Governança do Ambiente – artigo já publicado neste blog.

O alvo final dessas atividades é conseguir recriar, gerir e manter a qualidade ambiental dos espaços urbanos, ou seja, minimizar os potentes retroimpactos adversos do Ambiente sobre as cidades e seus cidadãos.

Pode-se garantir que os resultados da reambientalização de cidades são factíveis, desde que bem planejados em suas atividades de campo e contem com equipes de especialistas dedicadas, além de muitos voluntários. Que mais não seja, aguardem. Pretende-se publicar um artigo mais detalhado sobre “Como reambientalizar cidades”.

……….

[1] Há outras variáveis relevantes que afetam o processo de uso e ocupação do solo, mas não são relevantes para a argumentação deste artigo.

[2] Inaugurada em 21 de abril de 1960, com apenas 54 anos de idade, Brasília possui uma história política bastante ficcional. Senão, vejamos:

  • Seu pensador e fundador lá permaneceu a governar o país por menos de um ano.
  • É sucedido por um demente eleito pelo povo, que renunciou ao cargo em somente sete meses.
  • Tomou posse um ser imbuído de transformar o Brasil através do socialismo-sindical, que logo foi cassado por uma ação civil-militar.
  • Brasília tornou-se palco de ditadura durante 21 anos, de 1964 até 1985.
  • Morre em 1985, antes de tomar posse, o Presidente eleito pelo Parlamento – Tancredo Neves.
  • Assume democraticamente seu vice-presidente, um vigarista que comete inúmeros desvarios econômicos durante cinco anos e desagua o país num buraco-negro.
  • É sucedido pelo demente-mor, que completa os desvarios já cometidos e em dois anos é obrigado a renunciar para não sofrer impeachment. Outro vigarista.
  • Passados 32 anos da data da fundação de Brasília, assume a Presidência o primeiro brasileiro disposto a salvar o país da bancarrota, o que alcança às duras penas – Itamar Franco.
  • Tem-se oito anos de um novo Presidente, que mantém o país rumo à credibilidade internacional, o que também consegue, apesar da forte oposição delinquente.
  • A partir de 2003, durante os oito anos de um governante mentiroso e apedeuta, Brasília torna-se palco da corrupção generalizada, a ampliar programas sociais de caráter populista e eleitoreiro.
  • Em 2010, ao completar 50 anos, Brasília torna-se um antro de desgoverno e corrupção desvairada, que foram semeadas pelo apedeuta. O país retorna ao século 19, com a assinatura da “Lei da abolição da moral e da ética”.

É esse o cenário dos 54 anos de Brasília, que a demonstra ser uma distopia político-partidária, teatro de péssima ficção terrorista.

Sobre certezas e dúvidas


Queremos ter certezas e não dúvidas, resultados e não experiências; mas não percebemos que as certezas só podem surgir através das dúvidas, enquanto os resultados, somente por meio das experiências” – Carl Gustav Jung.

De súbito, o palestrante falou

Sejamos racionais e dialéticos, nunca paranoicos, pois o calor da imaginação desenfreada é sempre uma barreira implacável ao nosso raciocínio. Reinventemo-nos a cada instante, sempre a duvidar de nossas certezas.

Perguntam-me, “a quais certezas me refiro”? Respondo-lhes: “a todas; certezas definitivas só existem no tempo passado”. Certezas momentâneas permanecem como dúvidas. Afinal, todas as nossas certezas foram as dúvidas que nos conduziram até aqui: nesse exato momento, a esse salão, com olhos nos olhos de cada um. Alguém discorda disso?

Pelo silencio ensurdecedor que ouço, creio não haver discórdia. Assim, continuo a palestra.

Dúvidas são ansiedades fortuitas, que podem ser motivadas pelo interesse em esclarecê-las. Coisas para salas de aula. Mas também podem ser criadas por fugas decorrentes de ameaças de acasos inesperados. Estes, são surpresas que podem trazer bons e maus resultados. Vem daí o medo de enfrentarmos acasos, pelo simples fato de não termos qualquer certeza. Claro, só temos uma pálida ideia – que é uma bela dúvida – de como vamos nos comportar diante de ameaças provindas de acasos.

Chamo a atenção para o fato de que são perigosos todos aqueles que afirmam nunca terem tido qualquer dúvida na vida. Consideram-se os Donos da Certeza. Mas, por outro lado, tolos e otários serão os que neles acreditarem.

Uma certeza cheia de belas dúvidas

Uma certeza cheia de belas dúvidas

Creio que alguns de vocês devem estar a se perguntar:

─ “Afinal, aonde esse cara quer chegar?

Agradeço o interesse de todos. Esta dúvida é bem-vinda. Pretendo que, ao fim dessa palestra, todos sejamos capazes de identificar certezas e dúvidas.

Todavia, nada melhor para o aprendizado de uma técnica do que aplicá-la a um caso real.

Certezas e dúvidas na Ação Penal 470

Nos últimos dois anos o assunto da moda, mais discutido no Brasil, foi conhecido internacionalmente como Escândalo do Mensalão, vulgarizado com esse apelido por envolver personagens políticos de destaque que, ora eram os pagadores de propina – os “mensaleiros” –, ora recebedores de vultosos desvios de dinheiro público – os “mensalistas”.

Todos eles tinham certeza de que nunca seriam descobertos. Estreparam-se! O Procurador Geral da República, uma espécie de Xerife do Sistema Público, indiciou 40 elementos. Enviou para o Supremo Tribunal Federal toneladas de indícios para serem avaliados e, caso a Alta Corte aceitasse a denúncia, instauraria uma Ação Penal. O que foi feito, há absoluta certeza disso.

No entanto, existe dúvida quanto à hierarquia dos elementos que cometeram crimes contra a administração pública. Uma grande lista de crimes. Tudo leva a crer que o Diretor Executivo da quadrilha foi arrolado pelo Xerife. No entanto, a quadrilha não teria um Presidente? Existem dúvidas.

Passaram-se quase dois anos de julgamentos e chicanas. Os réus contrataram as mais caras bancas de advocacia do país para defende-los, mesmo sempre com a certeza de que não seriam condenados. Afinal, a maioria dos ministros do Supremo fora indicada por gente da mesma raça deles. Gastaram muitos milhões de Reais mas, mesmo assim, a maioria dos réus foi condenada e apenada.

dúvida se o tempo de cadeia para alguns condenados não foi reduzido de forma deliberada por juízes da mesma jaça. É cruel, mas há muitas dúvidas. De toda forma, com a certeza de que a legislação penal brasileira permite empurrar certos julgamentos com a barriga, teve início a fase dos recursos: embargos declaratórios, embargos infringentes e, aguardem, pois ainda teremos a temporada de embargos dos embargos.

Existe certeza de que qualquer condenado precisa ser mi ou bilionário para manter a tropa de advogados sempre alerta e muito bem paga, de preferência em bancos de Paraísos Fiscais. E com mais um detalhe: condenados e advogados de defesa com conta na mesma agência.  Parece que essa estranha figura jurídica é chamada Evasão Legal de Divisas. Mas há quem duvide.

Poderíamos ficar confabulando sobre certezas e dúvidas durante séculos. Mas vou poupá-los dessa ameaça. Não consideramos as prisões que ora ocorrem, nem as que em breve deverão acontecer. Esquecemos das certezas de certos prisioneiros que desejam cumprir suas penas em um Resort no Taiti. Sequer lembramos das dúvidas de outros condenados, sobre em que faculdade deverão cursar o Mestrado de Roubos e Desvios, com área de concentração em Corrupção Administrada.

Espero que com essas dicas vocês passem a duvidar de todas as próprias certezas e plantem um grande pomar de dúvidas em si mesmos.

Cuidado com certezas em alta velocidade!

Cuidado com certezas em alta velocidade!

Sobretudo, para quem gosta do Ambiente


Útil a todos que seguem Sobre o Ambiente”.

A empresa que concede espaço personalizado para nosso blog, acaba de oferecer mais uma facilidade gratuita, tanto para os responsáveis pelo site mas, sobretudo, para quem gosta de debates sobre Ciências do Ambiente, Política, Análise Crítica, Literatura e Filosofia que, afinal, são as linhas mestras de conteúdo que têm conduzido este espaço, desde maio de 2012 até agora.

Para os seguidores do blog a facilidade é simples de ser encontrada, mas complexa para ser produzida, em especial considerando os milhares ou milhões de blogs que residem em computadores desta empresa e estão disponíveis para o mundo, 24 horas por dia.

Trata-se do seguinte

Ao clicar no título de qualquer postagem do blog, o leitor encontra ao final do texto três outras postagens, relacionadas ao mesmo tema. Como já temos 908 textos postados, esta facilidade permite aos mais interessados a leitura de todos os artigos de “Sobre o Ambiente”.

A novidade para ler melhor o blog

A novidade para ler melhor o blog

Como estamos envolvidos em mais dois novos projetos editorias acadêmicos sobre Sustentabilidade do Ambiente, em breve poderemos informar a todos acerca de seu conteúdo.

Como se deu a transformação desse ambiente?

Como se deu a transformação desse ambiente?

A moral dos carismáticos


Zik Sênior, o Ermitão.

Zik Sênior

Zik Sênior

Encasquetei que preciso entender o significado exato dos verbetes “carisma” e “carismático”. Minha preocupação se deve ao fato de que vários comentaristas políticos afirmam, com muita naturalidade, que “fulano é bastante carismático”. Até parece ser um dom banal no país, pleno de brasilidade.

Diz o dicionário Priberam da Língua Portuguesa que o substantivo masculino “Carisma” pode ter três significados, assim simplificados:

  • Autoridade de um chefe fundada em certos dons sobrenaturais”, de acordo com a visão antropológica.
  • “Segundo a religião, Conjunto dos dons espirituais extraordinários outorgados por Deus a indivíduos ou a grupos”.
  • Grande prestígio de uma personalidade excepcional (excecional)”.

Dons sobrenaturais e espirituais, como causar incêndios com o pensamento, conversar com almas, fazer profecias, mover montanhas, realizar milagres, etc, a mim de nada servem. Sou ateu convicto desde que nasci, em 1908. Portanto, deixo as deduções antropológicas e religiosas bem ao largo de mim.

Desse modo, só aceito o significado fundamental da palavra: carisma significa o grande prestígio de uma personalidade especial que é acima da média. Resulta que um indivíduo carismático é aquele que sabe seduzir multidões e que goza de enorme prestígio junto a elas.

Se o dicionário e eu estivermos corretos, algumas questões precisam ser respondidas:

  • Qualquer pessoa pode ser dotada de carisma? ─ “Sim”.
  • É necessário ter alguma educação para ser carismático? ─ “A princípio não, mas ajuda quando se fala para fóruns bem informados”.
  • Um enganador de multidões seria carismático ou canalha? ─ “Canalha carismático”.
  • O carisma é contagioso, tal como a tuberculose e a sífilis? ─ “Não, sem qualquer risco”.

Meu interlocutor é um velho sábio. Confio em seus conhecimentos consolidados há mais de 60 anos. Então, aproveitei o momento e fiz-lhe a última pergunta:

  • O carisma tem algum tipo de relação com a moral? ─ “Não, é amoral; escapa ao senso moral”.

Despedi-me e segui para casa, pensativo e cabisbaixo. Fui humilhado ao saber que aqueles detentores de carisma, na melhor das hipóteses, possuem “moral particular”, que nada tem a ver com os princípios e valores celebrados por uma sociedade civilizada.

Até porque em minha cabeça muito poucos indivíduos conseguem ter carisma, mas todos precisam de elevada educação. Se enganam ou mentem para multidões são apenas canalhas. Enfim, o carismático precisa deter moral superior, sem manchas deixadas na sociedade e na instituição da família.

Honestidade de expressão


A lógica da informação.

Desde o início do século 21 fala-se muito sobre o direito do cidadão em expressar suas ideias, opiniões, sugestões e convicções. Trata-se da chamada liberdade de expressão, normal nas democracias modernas. Porém, cremos que há muito a ponderar sobre esse tema. Nunca a partir dos preceitos estabelecidos em lei, mas sempre pela lógica racional.

No Brasil, desde 1884, a liberdade de expressão constitui direito definido pela Constituição do Império. Direito que somente foi extirpado durante a ditadura de Vargas e as do período militar. Períodos em que a liberdade de expor o pensamento foi castrada pela censura, por ações arbitrárias e até mesmo pelo uso irracional da violência. Enfim, uma completa falta de lógica.

Qual é a lógica dessa porcaria?

Qual é a lógica dessa porcaria?

Mudanças foram realizadas em relação a liberdade de expressão a partir da Constituição de 1988. Demagogicamente, quando a expressão foi libertada, voltou a ser um direito inalienável de todos os cidadãos brasileiros. Em tese, esse nobre desejo – a liberdade – constitui requisito básico para a existência de sociedades democráticas e civilizadas. Mesmo assim, ainda lhe falta a maldita lógica.

Quando a informação é algemada

Quando a informação é algemada

A lógica da liberdade de expressão

Seja de um cidadão isolado ou de uma grande empresa da mídia, a liberdade de expressão deve seguir a lógica dos princípios da sociabilidade: qualquer publicação ou discurso não pode conter falácias, deve ser honesta, objetiva e clara, além de oferecer ao público todas as informações disponíveis sobre assunto tratado. Afinal, embora possa cansar o leitor, o que abunda não prejudica – quod abundant non nocet.

Desta forma, o conteúdo da liberdade de expressão deve ser a exata medida da honestidade do redator. Omissões casuais precisam ser revistas e esgotadas. Omissões dolosas, punidas pelo esquecimento de seu público. Assim, optamos por ir além da simples liberdade e adotar o termo Honestidade de Expressão, o qual consideramos mais completo.

Rumo a uma nova marca

Achamos que o ultrapassado lema positivista da bandeira brasileira – Ordem e Progresso – precisa ser atualizado com certa urgência. Uma vez que ambos os “tags” teimam em não funcionar desde quando foram criados, em 1889, propomos uma nova visão dos valores nacionais desejados por sua população – “Liberty and Honesty” –, com vistas a dotar o país de maior credibilidade internacional, e trazer a reboque investimentos produtivos que aumentem seus futuros parceiros no comércio bilateral.

Decerto alguns países acreditarão nesse “novo grito de independência”. Restará à nação, e somente à nação, erigir um Estado que realmente a represente, bem como seja capaz de realizar e de demonstrar a seriedade do teor desse grito ao mundo.

Para tanto, a sociedade brasileira precisará renovar a lógica de sua honestidade.

Os jovens e sua força inventiva


Conseguem superar nosso eterno Estado Interventor.

Há livros de História e teses de doutorado em Ciência Política que narram em detalhes os processos de colonização do Brasil. Os autores apresentam documentos que comprovam que o Estado foi fundado antes de haver uma pequena sociedade formada naquele sítio. Foi como se o apressado Império Português implantasse uma Carta Magna na colônia, sem ter ainda qualquer nativo para obedece-la.

Após trezentos anos de uso desta filosofia política, o gene cultural do patrimonialismo estatal estava definitivamente configurado. O Estado não permitia que a nação existisse, a menos de curtos períodos de exceção, mesmo depois de fundada a República Democrática do Brasil.

A ênfase estatizante e “colonialesca” ficou muito clara no segundo período do governo Getulio Vargas que, após sua violenta ditadura, ficou conhecido como Estado Novo. A nosso ver, sofríamos o império do populismo e a sociedade brasileira curvava-se agradecida diante das “bondades do Estado“. Por sinal, parece que hoje não vivemos um cenário político diferente.

Até hoje, sobretudo em grandes negócios, o caminho seguido pelas caravanas de investidores e empresários passa obrigatoriamente pelos gabinetes do Estado, que lhes dá ou não permissão para investir e produzir. Há leis e processos burocráticos em demasia, que afetam de forma adversa a criação de empresas, sua produtividade e o retorno dos investimentos. Sobre a carga tributária absurda sequer vamos falar.

No entanto, começam a aparecer sinais bem expressivos de que jovens empreendedores estão a escapar das prisões arbitrárias – legais e burocráticas –, impostas pelo Estado. Podemos explicar esse fenômeno com base em fatos.

Nos últimos 20 anos, com o amplo domínio das técnicas de uso comercial da internet, muitas empresas têm sido criadas para evitar o impacto negativo do poder desmesurado do Estado Brasileiro. Seus serviços e produtos independem da aquiescência dos “governantes de ocasião“. E mais, podem ser exportados caso sejam emperrados por alguma norma legal vigente no país. Há uma verdadeira nação de empreendedores jovens, com mais de 18 anos, que vem crescendo muito rápido no país. Suas empresas são chamadas pelo mercado mundial de “startups”.

Em síntese, as startups são empresas em busca de um modelo de negócios que possa ser replicado e demonstre capacidade de crescimento econômico sustentável. No entanto, seus sócios aceitam trabalhar em condições de incerteza. Contam com equipes pequenas e custo operacional bem baixo. Possuem boas visões de seus mercados potenciais e de como pretendem atendê-los. Mas faltam-lhes o domínio das práticas de enfrentamento do mercado concorrente e das questões jurídicas envolvidas.

Novo nicho de mercado

O número de startups criadas no Brasil já é bem grande. Elas começaram como empresas incubadas em universidades e algumas, digamos, tomaram rumo na vida. Todavia, faltava-lhes os aconselhamentos de profissionais experientes nas práticas do mercado (mentores e mentoria). Embora a Academia tenha força para ensinar, normalmente não possui a melhor vivência dos mercados que seus alunos deverão atuar.

Sem renegar a Academia, muito ao contrário, empresários um pouco mais velhos (de 35 a 45 anos) descobriram que havia um espaço ainda não ocupado para a orientação profissional das startups. Criaram as “empresas aceleradoras de startup” e, com a visão de compartilhar experiências e conhecimentos, selecionam e integram várias empresas recém criadas sob um mesmo teto, ativo e bem profissional. Possuem mentores de primeira grandeza que, de forma voluntária, dão orientações e conselhos pragmáticos de como devem atuar em cada fatia do mercado.

Um fato acelerador

Assistimos ontem, via internet, a um evento digno do Primeiro Mundo: chamou-se Demo Day 21212. Foi uma espécie de relatório presencial da história da vida da empresa 21212 Digital Accelerator neste ano. Aconteceu no delicioso Espaço Tom Jobim, situado no Jardim Botânico do Rio.

A 21212 Digital Accelerator

A 21212 Digital Accelerator

A 21212 é uma aceleradora de empresas digitais focada em mentoria, baseada no Rio de Janeiro (21) e Nova Iorque (212). Fundada em 2011 por um grupo de executivos brasileiros e norte-americanos, em pouco tempo tornou-se uma notável base para o lançamento e crescimento de empresas no mercado digital brasileiro. Por sinal, um mercado de alta concorrência.

A 21212 sabe muito bem como levar ao público (mercado) suas principais startups, os resultados que obtiveram, com palestras e debates sobre o ecossistema de negócios digitais de que participa.

Em seu terceiro Demo Day, reuniu, além de sua própria equipe, um belo time de executivos e mentores nas áreas das relações humanas, economia, informática, e-comerce, gestão de negócios e, claro, da Academia. Mas sempre tendo em vista atender às demandas da iniciativa privada em seu nascedouro e estimular a criação de novas iniciativas empresariais, que atuem de acordo com as melhores práticas internacionais.

Que mais jovens empresários fiquem atentos e pratiquem esta “subversão amiga de boas maneiras“.

Para os que desejarem saber mais sobre esse processo deixamos o link da 21212 Digital Accelerator. Bons negócios para todos!

Um triste caos


Por Simão-pescador, de Praia das Maçãs, próximo a Sintra.

Simão-Pescador

Simão-Pescador

Estou a receber aulas de “português brasileiro” e já domino um pouco de sua gíria. Escolhi o dialeto dos cariocas porque é filho do de Coimbra, como dizem linguistas de Portugal. Já sei usar alguns termos do carioquês, como “e ai, ô cara”, “fala figura”, “vamos à balada” e outros mais curiosos. Porém, não consegui perder meu sotaque lusitano original. Mas, ainda por causa do Brasil, também estou a estudar Ciência Política, muito embora ache que me seria mais proveitoso se mergulhasse na cadeira da Indecência Política para compreender-vos melhor.

Assisti pela internet a 28ª Jornada Mundial da Juventude inteira. Acho que comi e dormi menos do que o próprio Papa Francisco. A próxima jornada acontecerá em Kraków, na Polônia, e eu pretendo participar dela, na qualidade de voluntário luso-brasileiro!

Na jornada do Rio fiquei muito preocupado com a insegurança do Bispo de Roma. Ele é muito inquieto e, diria mesmo, bastante afoito. Explico os meus temores. Desde que Quincas me ensinou a usar o pequenino computador, acompanho dalém mar os protestos políticos da juventude carioca. Mas não tenho dúvida que parte destes protestadores participou da JMJ, como bem incentivou Francisco, o Revolucionário.

A chave do presídio, na cidade de Felizes, onde faltam os demais artistas

A chave do presídio, na cidade de Felizes, onde ainda faltam os “artistas do mensalão”

No entanto, se não estou equivocado, os manifestos de julho ficaram agressivos, violentos e destruíram patrimónios. Perderam a visão da reforma, da mudança e revolução dos costumes. Porém, nos dois últimos dias da Jornada, pequenos grupos de mascarados trajando roupa preta, a dizerem-se “anarquistas”, tentaram liderar passeatas de poucos com o nítido intuito de desmoralizar os movimentos essenciais e causar medo nos cidadãos de todas as idades. Fiquei assustado caso um desses idiotas infiltrados maltratasse o Papa ou até o agredisse!

Diante disso, reflito sobre fatos da cultura brasileira, atualmente bastante arrasada, mas que, a meu ver, poderá sofrer um verdadeiro terremoto cultural a partir das palavras de Francisco. Creio ser este o augúrio e desejo de mais de 80% dos brasileiros. Decerto, não haverá meios para contê-los.

Tenho lido e visto na internet que o gigante Brasil parece estar engasgado com as indecisões cometidas por inúmeros governantes espertos e toneladas de políticos ordinários. Segundo palavras de uma amiga no Feicibuque (a Sra. Luciana Raposo), com o retorno de Francisco a Roma “o país vai sofrer uma depressão pós-papa”. Esse retorno poderá gerar na nação um estrondoso vazio moral, o qual, na falta de melhor entendimento, chamarão de “saudade”.

Porém – cá entre nós –, acho que esta frase possui um significado bem mais amplo: o de uma nação em lento e doloroso sofrimento diante do caos conquistado por sucessivos governos incompetentes e coalhados de corrupção. Uma nação que clama nas ruas por seu renascimento a partir das cinzas de seu próprio caos.

Imagem mitológica da Fênix

Imagem mitológica do voo da Fênix, em homenagem a Bernard Etienne de Macedo, falecido nesta madrugada.

Creio que essa visão mitológica, símbolo de esperança e solução desde 7.000 anos atrás, pode se tornar realidade neste país. Quem sabe, nalgum dia. Rogo que esteja próximo…

Letelba, um homem que viveu convicto e sereno


Letelba, convicto e quase sereno.

Há décadas que desejo narrar o pouco que pude perceber acerca da personalidade de Letelba Rodrigues de Britto, ao longo de mais de 20 anos. Entretanto, sempre tive algum receio de cometer injustiças ou até mesmo dizer besteiras. Contudo, Evandro, um de seus filhos, acaba de publicar um livro intitulado “O comunista que não deixou rastro”.

Biografia de Letelba Rodrigues de Britto

Biografia de Letelba Rodrigues de Britto

Trata-se de uma biografia escrita por Evandro Rodrigues de Britto, biólogo e sanitarista com expressiva atuação em instituições públicas e privadas no Brasil. Logicamente, o texto é repleto do calor e da admiração filial, mas com farta documentação, muitos depoimentos de amigos e familiares, além da conjuntura histórica em que Letelba viveu e trabalhou.

Para uma ideia apenas inicial de quem foi Letelba, em 1929 a Typografia do Lyceu de Artes e Ofícios já editava um de seus primeiros trabalhos sob o título “Revisão Constitucional”. Era uma crítica em que ele propunha mudanças que considerava essenciais na Constituição Federal de 1891, a primeira da República. Por ser então um jovem rebelde, não manipulável pelo status quo vigente, também tido como um bom “encrenqueiro da época”, foi tratado como um perigoso ser da extrema esquerda, perseguido por décadas e ameaçado de prisão inúmeras vezes, sempre acusado de ser um comunista que fomentava a revolução vermelha.

Além de advogado dotado de notória competência, Letelba foi químico, comerciante, gestor de hotéis e fazendas, sempre obtendo bons resultados em suas atividades. Contudo, tinha a característica de ser descuidado com assuntos de dinheiro, o qual fugia ou escoava de suas mãos, não só para os filhos e os amigos, mas para os que comungavam com suas ideias e famílias carentes. Assim, creio ser mais justo chama-lo Letelba, o eterno humanista.

Durante anos de 1970 até o fim dos de 80 tive algumas oportunidades de conviver um pouco com ele e com muitos de seus amigos, inclusive seu filho Evandro. Todos passavam parte das férias e fins de semana na mesma rua de areia batida, próxima à cidade de Araruama. Formavam uma espécie de família espontânea e eu fui o irmão mais novo a ser recebido por ela, apresentado por Fernando Botafogo.  Por sua vez, Letelba, o amigo mais velho, residia semi-solitário em um antigo casarão, em terreno arborizado, de frente para a lagoa. Lembro-me da casa com espaços amplos e simples, poucos móveis, boa cozinha para trocar ideias (comer peixe frito e alface) e uma excelente biblioteca para amansar as dúvidas de ineptos.

Todos os dias Letelba levantava muito cedo; no máximo até às 6 da manhã. Logo seguia para a lagoa e nadava uns trezentos metros até uma determinada área com maior profundidade, onde descobrira haver uma lama viscosa e sem cheiro. Creio que ele acreditava que ela teria bons efeitos medicinais. Às vezes, mergulhava até o fundo da lagoa supersalgada e recolhia um pouco desse material. Então, retornava à praia e passava a lama pelo corpo. Mas, sempre guarnecido sob um grande chapéu feito de palha de arroz trançada, que adquirira de camponeses em um país do sudeste asiático. Se não me engano, a Tailândia.

Nessa época as praias da lagoa eram assim

Nessa época as praias da lagoa eram assim

Certo dia pediu a Evandro que solicitasse uma análise laboratorial da dita lama um tanto gordurosa. O laboratório encontrou fragmentos de conchas, presença elevada de cloreto de sódio, quartzo, sílica, traços de argila e de coliformes fecais; estes, dentro dos parâmetros admitidos. Ou seja, do ponto de vista medicinal a lama não podia ser considerada uma benção ao organismo humano. Ao ler os resultados da análise, Letelba não ficou triste. Se bem me lembro, ainda segurando o papel nas mãos, levantou suavemente o cenho e resmungou “─ Tudo bem, isso não vai melhorar minha pele…” e soltou uma gloriosa risada.

Dos tempos em que não o conhecia

Ao passar dos 60 anos (minha estimativa, nunca soube sua idade), Letelba optou por viver com mais privacidade. Fez sua morada definitiva no casarão da praia, isolada na borda da lagoa de Araruama. Seus poucos vizinhos eram pescadores de subsistência, que usavam artes de pesca ainda muito precárias. Letelba falava com todos, aprendia com eles e oferecia-lhes alguns auxílios.

No entanto, esses humildes pescadores várias vezes foram considerados (pelo rigor aleijado da lei brasileira de então) como “posseiros de terras públicas” e, portanto, processados em “flagrante delito”. Letelba foi perdendo a paz e a paciência, o que fez renascer nele o notório advogado que fora em outras causas. Em defesa das famílias de pescadores, enfrentou e discutiu com as forças do então “governo grileiro”. Resultado: foi várias vezes recolhido (nunca preso), interrogado e investigado pelos delegados patetas de plantão na Região dos Lagos.

─ “Senhor! Seus documentos!”…

─ Não tenho no momento, perdi todos… – sempre a falar baixo.

─ “Por acaso se recorda qual é o número de sua identidade?”…

─ Sim…

─ “Então me diga logo, pô…!”, gritava qualquer dos furiosos delegados.

Com toda a calma Letelba sempre sussurrava os primeiros seis números que lhe viessem à cabeça e decerto nunca conseguiu repeti-los. Mas, com a imposição da burocracia burra, os pelegos do governo continuavam a fazer o cadastro policial do digno cidadão:

─ “Me diga seu endereço completo!”…

─ Rua dos Enjeitados, sem número, bem ali na beira da lagoa.

Considerando a inexistência de tal rua, além do fato de a lagoa de Araruama possuir superfície de 220 km2, é razoável concluir que todos os delegados da polícia da Região dos Lagos, sem exceção, caso desejassem visita-lo em casa, enfrentariam sérias dificuldades métricas e geográficas – na casa ironicamente situada “bem ali, na beira da lagoa”

Soube desses fatos através de vários amigos comuns, que conviveram amiúde com Letelba desde aquela oportunidade. Se romanceei um pouco o ocorrido, não me arrependo, pois foi exatamente dessa forma que sempre consegui ver o sereno, convicto e leal amigo Letelba.

O que presenciei

Durante os anos 70 fui inúmeras vezes para a “casa de pescador” que Fernando Botafogo adquirira na mesma rua de Letelba. Nessa casa simples, sempre com flores nas janelas, junto com a família de Botafogo, vivi momentos inesquecíveis. Era como se a rua do “Reitor Prof. Letelba” fosse a melhor Universidade da Vida e a pequena casa do “Pró-Reitor, Prof. Botafogo”, uma de suas principais Faculdades.

Nos grandes feriados cariocas a rua ficava entulhada de amigos. Eram as reuniões da Família da Alegria. Lembro-me de Letelba, trajando seu traje de camponês e batendo nas portas para acordar os amigos. Eram 7 horas da manhã e Letelba trazia uma garrafa de vodca importada num pequeno isopor congelado. Trazia junto uma horrível taça cor-de-rosa transparente e oferecia vodca a quem abrisse a porta. Certa vez presenciei a seguinte conversa matinal com a mulher de um amigo:

─ “Bom dia, Letelba. Já está bebendo vodca a esta hora?!”…

─ Bom dia, quer um trago?…

─ “Mas que cálice estranho, comprou isso aonde?”…

─ Em lugar nenhum, peguei num “despacho de macumba”…

Quero encerrar este registro emocionado dizendo que se Letelba, o comunista, não deixou qualquer rastro para as forças da repressão, em mim, em seus familiares e em muitos de seus amigos deixou inequívocos rastros de humanidade e de crítica reflexiva.