Análise ambiental para resultados


Ricardo Kohn, Gestor do Ambiente.

Em síntese, analisar o Ambiente significa identificar e caracterizar todas as relações de causa e efeito que nele se processam ao longo do tempo, bem como os principais agentes, que são seus fatores ambientais básicos – Ar, Água, Solo, Flora, Fauna e Homem, assim como seu comportamento interativo, a conformar ecossistemas estabilizados.

Dessas relações sempre decorrem mudanças na dinâmica dos ecossistemas, as quais podem gerar adversidades ambientais, mas também, ao contrário, reabilitar os benefícios nativos do Ambiente, ou seja, sua sustentabilidade.

À primeira vista, essa narração pode parecer apenas mais uma teoria. Porém, ao ser aplicada em um território, que já foi diverso e abundante, resulta uma prática surpreendente, sobretudo quando os resultados benéficos das mudanças ocorridas no Ambiente são percebidos por todos os seres vivos da região.

Uma análise ambiental específica, de grande valia científica, foi efetuada no Parque Nacional de Yellowstone. Durante mais de seis décadas, Yellowstone não contou a presença de matilhas de lobos. Assim, um grupo de estudiosos reintroduziu cerca de 60 espécimes. A finalidade era a redução da abundância crítica de cervos e alces, criando uma cadeia trófica com a presença de predadores. Porém, os resultados do experimento foram além das previsões iniciais dos cientistas.

Parque Yellowstone

Algumas informações preliminares sobre o parque Yellowstone permitem a visão da amplitude da ação dos cientistas envolvidos. O parque situa-se nos estados do Wyoming, Montana e Idaho.

Encontra-se localizado sobre uma câmara vulcânica de grandes proporções. A área de seu território possui cerca de 8.980 km2. Está assentado sobre um planalto elevado, com média de 2.400 metros de altitude, apresentando um relevo acidentado, com montanhas, vales e depressões do solo. Possui rios, cascatas, lagos, fontes hidrotermais e gêiseres.

Um dos gêiseres em Yellowstone

Um dos gêiseres em Yellowstone

Dadas suas singularidades físicas, a região é estudada desde o século 19, sobretudo após ser legalizada, em 1872, como o primeiro e maior Parque Nacional norte-americano. Graças a essas características, boa parte da vegetação do parque é endêmica. Há documentação sobre cerca de 300 espécies de plantas que somente ocorrem no parque de Yellowstone.

Em decorrência, conforma habitats auxiliados por essas singularidades, a permitir que a região apresente a maior diversidade da megafauna norte-americana.

Antes de prosseguir, sugere-se ao leitor que assista ao vídeo “Como lobos mudam rios”. É de curta duração e esclarece a análise ambiental para resultados, pois mostra um processo teórico aplicado com sucesso em Yellowstone.

Como se pode constatar pelo vídeo, as relações ambientais iniciadas de forma isolada no segmento faunístico, entre poucos lobos e suas presas naturais, propagaram-se para outros segmentos por força da sua causalidade.

Chegaram ao segmento da flora, proporcionando oportunos incrementos vegetacionais em áreas mais sensíveis. Atingiram ainda aos segmentos do solo e da água, com redução expressiva de processos erosivos e fixação do leito de rios. Retornaram ao segmento faunístico com a atração de novas espécies. Dessa maneira, fazem com que os ecossistemas envolvidos reconstruam e ampliem sua estabilidade ambiental [1] de forma espontânea.

Trata-se, sem dúvida, da permanente poesia que o Ambiente é capaz de criar, com sua lógica própria e aleatória. Lógica esta, sempre explicável quando ocorrem trocas justas e ininterruptas de energia e matéria entre seus fatores componentes: ar, água, solo, flora, fauna e homem.

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[1] Estabilidade ambiental: Constitui o processo de manutenção espontânea dos ciclos de relações ambientais mantidas entre fatores em permanente interação, conformando ecossistemas estabilizados e, por conseguinte, capacitados para a coevolução e para sua própria sucessão – Kohn, R., Ambiente e Sustentabilidade – Metodologias para Gestão, Rio de Janeiro, RJ, Editora LTC – Livros Técnicos e Científicos, Grupo Editorial Nacional, 702 pg., 1ª edição. 2014.

Governança do Ambiente


Este texto é um esboço empírico-conceitual. Portanto, encontra-se aberto a críticas. A única proposição do autor é receber comentários para, quem sabe, reelaborar e melhorar as proposições nele contidas.

O ensaio teve como premissa que a Governança do Ambiente deve resultar do processo da Governança Corporativa, ou seja, ser uma ideia dela derivada. No entanto, sem assumi-la como dogma ou mito, mas somente uma democrática e efetiva ferramenta para a gestão.

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Parte-se de uma questão que se considera primordial: ─ “Qual o mais importante e mais rico patrimônio de uma nação?

Há diversas respostas para esta pergunta, muitas delas fundadas em bons argumentos. Por exemplo, a cultura duramente construída pelo povo constitui o patrimônio riquíssimo da nação. Quem tiver dúvida, observe o que sucede na sua ausência.

Outro exemplo: desde que intrínsecos a seu povo, os princípios da moral e da ética de uma nação também constituem excepcional patrimônio a ser ressaltado e protegido.

Por fim, tomando a China como o caso mais singular do planeta, o vertiginoso crescimento econômico, com PIB disparando a taxas formidáveis, também pode ser visto, pelo menos por parte do Estado chinês, como o mais rico patrimônio nacional até então alcançado.

As respostas são inumeráveis. Porém, é provável que em sua maioria sejam relacionadas às ações do indivíduo. Isto é, repostas restritas ao espaço antropogênico. E não há dúvida que os espaços contidos no planeta Terra são bem maiores do que isso.

Dados básicos sobre o Planeta

A superfície total da Terra é da ordem de 510 milhões de km2. Cerca de 71% desta área é recoberta por água salgada. São os oceanos – Ambiente Oceânico –, ainda pouco conhecidos pelo Homem, por ele ser um elemento da biota primitiva com aptidão sobejamente terrestre.

Dos 21% restantes – Ambiente Terrestre –, estudiosos da dinâmica do uso e ocupação do solo, estimam que as áreas urbanas ocupem hoje entre 2 e 3% do Ambiente Terrestre, com tendência de expansão, sobretudo nos países ainda não propriamente desenvolvidos.

Ambiente que pode ser urbano

Ambiente que pode ser urbano

Destinadas a atividades agropecuárias – culturas e pastagens permanentes –, são estimadas áreas equivalentes a cerca de 32% do Ambiente Terrestre, com necessidade de ampliação, visando a alimentar os seres vivos em geral – o Homem e a Fauna.

Por outro lado, as áreas com cobertura vegetal – florestas, matas, savanas, pradarias, etc. – estão na ordem de 30% do Ambiente Terrestre, com possibilidade de expressiva redução por força de atividades humanas.

Para as finalidades deste ensaio não foi necessário destacar as áreas industriais do Ambiente Terrestre, bem como outros usos do solo existentes. Todos estão tratados de forma genérica como usos antropogênicos do solo.

A tabela abaixo sintetiza os números de interesse [1].

Uso do solo no Planeta

Os números mais dinâmicos desta tabela, relativos aos variados usos do Ambiente Terrestre, são gerados por atividades produtivas ocorrentes em todas as nações do planeta, as quais dependem das dimensões e características do Ambiente Oceânico e Terrestre de cada nação.

Parece ser nítido que essa afirmação é bastante lógica e óbvia. No entanto, resta saber de quais atividades resultam efeitos benéficos sobre cada nação e quais, ao contrário, geram a anorexia gradativa de seus espaços físico, biótico e antropogênico.

Para unificar a visão dos leitores, segue o conceito adotado para Ambiente (também chamado esquisitamente de “meio ambiente”):

É qualquer porção da biosfera que resulta de relações físicas, químicas, biológicas, sociais, econômicas e culturais, catalisadas pela energia solar, mantidas pelos fatores ambientais que a constituem (Ar, Água, Solo, Flora, Fauna e Homem). Todas as porções da biosfera são compostas por distintos ecossistemas, que podem ser aéreos, aquáticos e terrestres, bem como devem ser analisados segundo seus fatores físicos, bióticos e antropogênicos” (Kohn de Macedo, R., 2014[2]).

Verifica-se que, de acordo com esta definição, Ambiente pode ser todo o planeta, um canteiro de plantas ou até mesmo uma simples gota d’água. Dependerá da abordagem que se deseja para sua análise e do conhecimento que se deseja de seus elementos constituintes: serão cordilheiras alpinas, espécies endêmicas da flora ou micro-organismos?

De toda sorte, pelo exposto, acredita-se que a questão primordial ─ “Qual o mais importante e rico patrimônio de uma nação?” ─ deve ser respondida da seguinte forma:

─ “O patrimônio fundamental, mais rico e importante de qualquer nação, é seu Ambiente. É de seus elementos constituintes que gestores públicos e privados se utilizam para, em tese, construir o melhor habitat preferencial do ser humano”.

Porém, com essa resposta, surgem aspectos que demandam análise. Por óbvio, o Ambiente de cada nação é restrito em seus limites físicos e possibilidades de uso, mas há casos extremos que merecem uma análise comparativa, pelo menos com base nas variáveis ambientais constantes da tabela – áreas urbanizadas, área de agropecuária e áreas vegetadas.

Japão e Brasil

Há países situados em áreas sujeitas a eventos ambientais que geram catástrofes humanas, possuem território reduzido, cobertura vegetal parca e entremeada por rocha, bem como solos pouco próprios para a agropecuária. Vários deles situam-se no Ambiente do Círculo de Fogo do Pacífico. Mas considera-se o Japão como exemplo da pobreza ambiental: um país insular, com Ambiente de 377.873 km2, extremamente vulnerável, a sofrer terremotos diários.

Contudo, no outro extremo, existem países que esbanjam a força quase ilimitada de recursos naturais disponíveis em seu vasto Ambiente. Possuem imensas manchas de solo ricas em nutrientes e próprias para a agricultura e pecuária; densa cobertura vegetal, com biomas que se multiplicam em abundância e diversidade de espécies vegetais. Não há dúvida, de que o Brasil é um excelente exemplo planetário de riqueza ambiental.

Com área territorial de 8.515.767 km2, dentro do Brasil caberiam 22,5 territórios (ambientes) iguais ao do Japão. Entretanto, em 2012, segundo dados divulgados pelo FMI e pelo Banco Mundial, o PIB Japão foi mais que o dobro do PIB Brasil. Como esse fato pode ser explicado em um mundo que se encontra globalizado?

A tese do Ambiente

Há várias formas de explicação desse fenômeno. Mas optou-se pela seguinte linha lógica: a ciência e a tecnologia mais evoluídas são função direta das dificuldades de viver no Ambiente de cada nação. Ou seja, é o Ambiente que estimula a criação da Ciência em cada país. O aparato tecnológico mais sofisticado e relevante resulta da imposição de ter que sobreviver em Ambiente adverso.

Isso é fato desde a origem do gênero Homo na Terra, a cerca de 2 milhões de anos passados. Dentre as sete ou mais espécies do gênero, a única sobrevivente ganhou a alcunha científica de Homo sapiens. Talvez haja sido por sua capacidade de adaptação ao Ambiente em que vivia, certamente bastante adverso diante das ferramentas de que dispunha.

Nas nações em que as condições do Ambiente ameaçam ao Estado, à Sociedade Civil e ao Mercado Corporativo, os atores mais preocupados em financiarem soluções são investidores, tanto do ponto de vista das ciências essenciais, quanto das tecnologias delas derivadas.

Porém, em nações onde a fartura do Ambiente encontra-se no quintal do cidadão – que lança um grão de milho ao solo e logo cresce um milharal –, as perspectivas do desenvolvimento científico e tecnológico podem ser adiadas ad aeternum. Na maior parte das vezes, a evolução científica fica a cargo de poucos cientistas renitentes, mesmo sabendo que serão raros os atores dispostos a financiar seus experimentos e pesquisas.

É justamente como função desse extremo contraste ambiental, que líderes de Estados menos aquinhoados, junto com corporações privadas, apostam em fortes investimentos nas ciências que essenciais à sua sobrevivência. É comum que nessas nações aconteça o total suporte da sociedade civil organizada, acrescida da iniciativa espontânea de seus cidadãos.

A Governança do Ambiente

Constitui uma proposta empírica para nações bem dotadas de bens ambientais, quase “eco-potências”, mas que decerto ainda não sabem como proceder seu desenvolvimento de forma estabilizada. Serve também para os povos que são “vítimas permanentes” do subdesenvolvimento.

Porém, há três premissas essenciais a serem atendidas pela nação que pensa em implantar a Governança do Ambiente, a saber:

  • Ela é realizada por agentes democráticos, liberais e independentes, quais sejam: (i) a Sociedade civil e suas instituições cidadãs (não-governamentais e apolíticas); (ii) o Mercado produtor e consumidor, através de corporações produtivas e entidades que lhes são próprias; e, por fim, (iii) o Estado, por meio do governo e suas instituições públicas apropriadas.
  • É imprescindível que gestores públicos e corporativos possuam acurado domínio das técnicas da gestão ambiental e da sustentabilidade, tanto em seus processos públicos, quanto em seus negócios privados, respectivamente.
  • Todas as escolas públicas e privadas, desde o nível básico do fundamental até o limite máximo do nível superior, precisam oferecer educação plena de elevada qualidade.

O atendimento gradativo a essas premissas, de forma séria e responsável, pode aumentar a confiabilidade na nação, tornar seus processos ambientais transparentes e monitoráveis, desenvolver técnicas próprias de gestão e elevar os níveis de educação da sociedade civil. Por sinal, fator indispensável a qualquer tipo de governança.

Como resultado positivo, embora indireto, espera-se expressiva redução de atos ilegais que podem ser ordinariamente cometidos por qualquer agente ativo. Sobretudo, em nações que possuam governos autocráticos e sejam menos nutridas da moral e da ética públicas.

Para executar a Governança do Ambiente

A criação de um Conselho de Governança é básica. No entanto, precisa ocorrer uma inversão de posturas entre seus agentes, pois um deles falará ao Conselho em nome do Ambiente da nação. Assim, essa prática cabe às instituições da Sociedade Civil, com suporte das empresas e instituições privadas que compõem o Mercado.

As ações do Conselho visam à manutenção da Sustentabilidade do Ambiente da nação, bem como a garantia da qualidade do Desempenho Ambiental das empresas que constituem seu Mercado produtor. Dessa forma, cabe ao Estado a aprovação das normas legais que garantam a sustentabilidade e o desempenho ambiental adequados, conforme definidos e requeridos pela Sociedade Civil.

Por fim, cabe ao Conselho de Governança as ações de fiscalização no uso das normas legais aprovadas, ficando fora de qualquer votação o agente fiscalizado.

As atividades e processos do Conselho podem ser assim sumarizadas;

  • Elaboração conjunta da agenda ambiental da nação, visando ao curto, médio e longo prazos. Portanto, trata-se da definição de alvos estratégicos, táticos e operacionais.
  • Identificação das partes interessadas na execução da agenda aprovada, onde são identificadas aquelas que poderão ser parceiras na realização de planos, programas e projetos ambientais estruturantes.
  • Implantação da agenda e de sistema para sua monitoração, operando na internet sem qualquer obstáculo para acesso, permitindo o controle dos alvos da agenda, bem como de seus planos, programas e projetos ambientais.
  • Por fim, a avaliação dos resultados alcançados e ajustes dos desvios encontrados, para atualizar a agenda inicialmente concebida.

Como em qualquer processo de Governança, cabe à Sociedade Civil e ao Mercado o controle das ações ambientais promovidas pelo Estado, de forma a legitima-las ou não, em acordo com a agenda aprovada. O Governo precisa ser transeunte, sem gorduras monetárias e submisso aos interesse da sociedade e do mercado que ela constrói.

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[1] Os valores constantes da tabela estão arredondados, uma vez que para efetuar considerações acerca de cada uso do solo somente interessam suas ordens de grandeza relativas ao Ambiente da Terra.

[2] Kohn de Macedo, R., Ambiente e Sustentabilidade – Metodologias para Gestão, Rio de Janeiro, RJ, Editora LTC – Livros Técnicos e Científicos, GEN – Grupo Editorial Nacional, 702 pg., 1ª edição. 2015. Em processo de edição, com lançamento previsto para junho próximo.

Cogestão Ambiental


A cogestão, autogestãogestão solidária são propostas antigas, com origem político-organizacionais, as quais propunham que o operariado fosse capacitado para gerir a fábrica onde trabalhava e participasse das decisões, sem a existência de um proprietário. Nela não haveria hierarquia. O operariado realizaria o planejamento de suas ações, tomaria as decisões necessárias em conjunto e executaria as atividades previstas conforme programadas.

Estes conceitos nasceram do movimento anarquista da primeira metade do século XIX, que teve notória  expressão, dentre outros, o francês Pierre-Joseph Proudhon. Vale ressaltar, seus defensores opunham-se frontalmente a qualquer iniciativa de natureza socialista ou comunista.

As “incubadoras de empresas” de universidades constituem iniciativas similares para o desenvolvimento de empresas autogeridas. Embora, desprovidas das utopias políticas e econômicas propostas no século XIX, propõe que sejam gerenciadas através de processos de cogestão, sem ideologias dogmáticas.

Discussão

O objetivo deste artigo é associar o conceito e o processo da cogestão, conforme é praticada atualmente por certas empresas incubadas , às relações mantidas entre indústrias e empresas de infraestrutura com o ambiente que impactam. De outra forma, aplicar a cogestão ao conjunto das relações Empresa x Ambiente, sem cabos-de-guerra.

O ambiente primitivo já faz a sua parte, ou seja, sempre opera em busca da estabilidade de suas estruturas – ecossistemas. Ele evolui, mas não elabora planos e procedimentos pré-estabelecidos. Não possui decisores que definam as ações a serem realizadas internamente. Todas as relações mantidas entre seus elementos constituintes (fatores ambientais – ar, água, solo, flora, fauna e homem) ocorrem por necessidade e acaso. É assim que se auto-organiza: aleatoriamente. Não possui divindades, dado que desconhece crenças. Possui hierarquia própria definida e alguma competitividade, sobretudo baseada na cadeia alimentar. No mais, compartilha tudo o que produz, é econômico e não deixa restos – lixo.

É evidente que não seria viável, sequer oportuno, desenvolver e gerenciar qualquer empresa com base nesses processos, a menos daqueles relativos à economia de recursos e à limpeza de seus resíduos. O conjunto das teorias organizacionais demonstra que a postura do comportamento do ambiente não pode ser migrada para as empresas produtivas. A não ser através de normas específicas e não obrigatórias, estas teorias ainda não contemplam explicitamente medidas relativas às relações mantidas entre empresas e ambiente.

O primeiro ponto a ser observado é a própria construção da frase que acabamos de redigir: “entre empresas e ambiente“ em que se encontram localizadas. Trata-se de um vício de linguagem comum, utilizado por especialistas e professores das Ciências do Ambiente. Pode parecer que colocam em planos distintos Empresa e Ambiente, como se fossem dicotômicos ou até mesmo antagônicos. Como se pertencessem a conjuntos de elementos distintos. E na verdade, o conjunto das empresas pertence ao conjunto dos ambientes e não existiria se os recursos do ambiente não pudessem ser apropriados, inclusive o próprio homem. O uso desta forma de abordar ambientes versus empresas deve ser entendido como uma “arriscada simplificação pessoal“.

O segundo ponto a ser destacado refere-se à organização e à estrutura das empresas. Por serem planejadas e concebidas para finalidades específicas de produção e/ou prestação de serviços, demandam inúmeros sistemas de controle, de inspeções e auditorias variadas, nos quais são obrigadas a despender muitos esforços e recursos que controlam (embora nem sempre) para produzir apenas relatórios periódicos de controle, consumindo muitas horas de seus executivos. Aliás, muitos entendem que são horas improdutivas (o Ambiente não possui horas improdutivas).

Não estamos falando que executivos e gerentes de empresas são improdutivos, ao contrário. Em empresas de sucesso em seus mercados, são super produtivos, a ponto de se darem ao luxo de gastar milhares horas não produtivas. Não ocorrendo crises econômicas como a que vivemos, os riscos da não produção empresarial são baixos, pois o mercado opera por si só, como se fora um ambiente primitivo e não um ambiente construído.

Vamos ao terceiro ponto, que trata de processos, procedimentos, documentos e registros. O Ambiente somente possui processos, mas o homem, para entendê-los melhor, desenvolve ciências que sejam capazes de identificá-los e a seus procedimentos, documentá-los quando julgar necessário, e registrá-los para poder distribuir o conhecimento adquirido.

A Empresa, em função de sua estrutura hierárquica, requer que sejam implantados, monitorados e avaliados procedimentos, documentos e registros. Assim são criados vários processos de controle, gastando horas de pessoas e computadores, todas não produtivas, alocando mais energia, mais despesas com energia e água, mais consumo e desperdício de tudo: manutenções, medições e calibragens, mais veículos empresariais, motoristas, horas extras para todo este povo e, provavelmente, não produtivas. O custo de todo este aparato é multiplicado pelas chamadas Taxas de Administração ou BDO (sigla de Business Development Office), incidindo sobre os preços de produtos e serviços oferecidos ao mercado.

Não resta dúvida de que toda esta arquitetura organizacional é considerada necessária. Mas as perguntas que fazemos são as seguintes:

  • A organização das empresas, seus sistemas de controle, as auditorias, as inspeções, seus processos e procedimentos, documentos, registros e as certificações empresariais podem ser reduzidas?
  • Se reduzíssemos as despesas com horas não produtivas, haveria algum efeito sobre a economia global?
  • Assim sendo, os preços de venda dos produtos e serviços poderiam ser menores?
  • Reduzindo os preços de venda, sem reduzir a qualidade dos produtos e serviços, os mercados atendidos poderiam ser maiores?
  • Haveria algum impacto ambiental adverso sobre a oferta de empregos, sobre os lucros das empresas ou sobre a tributação dos governos?

Deixamos aos leitores o encargo de debater acerca das questões acima formuladas. Mas apenas acrescentando que as cinco questões abordam necessidades criadas pelo mercado de serviços para organizações e não demandadas pela própria natureza da organização. São mais virtuais, artificiais, do que reais e concretas.

Conceito

O conceito da cogestão ambiental é ainda uma proposição. Precisará ganhar espaço após ser submetido à crítica para vir a ser adotado como um novo ordenamento empresarial.

A proposta de adoção do conceito de Cogestão Ambiental é destinada a empresas produtivas. Todavia, também deve ser aplicado na gestão pública. Sua finalidade é a de beneficiar empresas, tanto em suas relações com toda e qualquer sociedade, quanto em sua economia de recursos de variadas naturezas. Para atingir ao estágio da cogestão ambiental a empresa deverá, segundo este conceito, atender a 12 princípios, que consideramos estratégicos:

  • Desenvolver e disseminar entre seus funcionários o conhecimento do ecossistema de que faz parte sua empresa, seja ele primitivo, rural, industrial ou urbano.
  • Estabelecer padrões autoimpostos para a melhoria do desempenho ambiental de sua empresa, em especial padrões vinculados à economia de energia, de água, reuso e reciclagem de materiais.
  • Capacitar seus funcionários, de sorte a permitir que efetuem com destaque todas as atividades produtivas necessárias à vida da empresa e à sua evolução.
  • Compartilhar entre todos os funcionários os conhecimentos e experiências adquiridas nas áreas de atuação da empresa.
  • Garantir a pronta-resposta a demandas de clientes internos e externos da empresa.
  • Reduzir as atividades do controle empresarial, limitando-se apenas aos controles necessários e deixando de lado controles suplementares e redundantes.
  • Informatizar sistemas de produção, sistemas de serviços e sistemas de controle da empresa.
  • Aproximar os níveis de gestão estratégica e tática do nível operacional da empresa.
  • Desenvolver a cultura própria da empresa, através de padrões e de práticas de autoavaliação.
  • Estabelecer critérios de direitos e deveres de todos os executivos, gerentes e funcionários da empresa, caracterizando a autoridade e a responsabilidade a eles associada.
  • Terceirizar somente serviços que demandam horas produtivas, tanto para atividades meio, quanto para atividades fim da empresa.
  • Garantir que empresas e consultores terceirizados atuem dentro dos padrões estabelecidos pela empresa.

Com a adoção e implantação desses princípios, a empresa estará atuando em conformidade com o sistema ambiental de que faz parte, atendendo suas vulnerabilidades e ampliando suas potencialidades. Operará em busca de sua estabilidade produtiva e reduzirá os efeitos adversos que impõe ao Ambiente de que faz parte e precisa participar.