Gestão através do ambiente


Por Ricardo Kohn, Especialista em Gestão.

Após o artigo de Simão-pescador, “Conversas com o ambiente”, onde ele narra a visão de seu pai, o melhor “ambientalista” que conhecera na vida, decidi esboçar este ensaio. Nele tento iluminar um pouco uma questão conhecida, embora bastante sombria:

─ Dada a finitude dos bens naturais do planeta, será essencial a mudança nas atitudes das instituições produtivas? Continuarão a ser geridas com vistas a aumentar seu desempenho econômico-financeiro ou buscarão garantir a qualidade de seu desempenho ambiental?

Em tese, é fato que essa “dúvida” foi iniciada no século 18, a partir da Revolução Industrial. Desde então, amplia-se por diversos fatores, em especial quando governos e empresários adotam em suas organizações as ditas “tecnologias de ponta”, que surgem no mercado. No mais das vezes, usam tecnologia apenas por ser a nova tecnologia, sem prever vantagens específicas.

No entanto, em especial no sistema público, dizem que dessa forma aumentam a produtividade do trabalho. Porém, esquecem-se que as organizações precisam se apropriar de insumos para produzir, os quais são bens ambientais do planeta. Quando esses insumos não são renováveis, têm seu estoque limitado; quando se reproduzem de alguma forma, ainda assim são escassos. Sobretudo, em cenários produtivos que requerem mão-de-obra especializada (insumo produtivo limitado e escasso).

O “esquecimento” destes investidores foi ampliado com a ideia do “desenvolvimento sustentável”. Transformaram-na em mera retórica redundante. Se há desenvolvimento, precisa ser sustentável, por óbvio; caso contrário, é apenas crescimento. Aliás, insustentável é o crescimento pífio de empresas e a recessão de países desgovernados, tais como Brasil, Venezuela, Argentina e Grécia.

Todavia, assiste-se a nações social e economicamente desenvolvidas, cujos governos buscam consolidar e sustentar a qualidade de vida alcançada, sem a preocupação de aumentarem o PIB. Alemanha, Noruega, França, Estados Unidos, Canadá, Inglaterra e Japão, por exemplo, investem para manter o cenário em que a qualidade de vida do seu cidadão é a meta básica. O crescimento do PIB, ou não, é fato secundário.

Paris, na pintura do impressionista Jean Béraud - Belle Époque

Paris, na pintura do impressionista Jean Béraud – Belle Époque

Essas são nações que se encontram na vanguarda do desenvolvimento. Possuem cultura sólida, educação incomparável, criam e aplicam tecnologias que reduzam o consumo dos bens ambientais, buscam eliminar “lixos no ambiente”, enfim, executam a gestão através de seu próprio ambiente estabilizado.

Afinal, o Ambiente precisa ser estável para manter sua Sustentabilidade original, de modo a garantir as condições de sobrevivência a todos os seres vivos do planeta.

Psicanálise nacional


Qualquer terapia psíquica – psiquiátrica, psicanalítica, psicológica – pressupõe a existência de um indivíduo que comete ações “pouco previsíveis”, às vezes nefastas à sociedade, e, do outro lado, um profissional habilitado que busca reconduzi-lo à normalidade social.

Porém, importa observar que terapias desse gênero resultam da iniciativa de indivíduos que reconhecem precisar de auxílio. Ninguém é obrigado a torna-se paciente de psiquiatra, mas apenas perceber que necessita de algum tipo de ajuda para conviver melhor em sociedade.

Qualquer pessoa que viva conforme à normalidade social pensa com base nos princípios da ética e age conforme os padrões morais da sociedade a que pertence. No entanto, não se deve esquecer que “a moral é a prática da ética” [1]. A ser assim, cabe uma pergunta:

─ “O que precisará ser feito quando a moral instituída pela Nação [2] não resultar dos princípios essenciais da ética?

Relação ética e moral

Relação ética e moral

De início, deve-se reconhecer que não se trata de uma Nação, mas apenas grupos estanques de pessoas que se relacionam de maneira imprevisível, todas com vistas a realizar interesses pessoais.

Em nações civilizadas, ética e moral são atributos espontâneos, premissas para a vida em sociedade. Contudo, a ética busca ser universal, enquanto a moral é individual. Verdadeira é a Nação que busca cunhar em seu povo os mesmos padrões morais de comportamento, sem tolher sua liberdade. Ainda assim, haverá exceções que, por mera questão de ética, são coibidas por instituições competentes.

Todavia, em certas “nações emergentes” o mesmo não acontece e o motivo é sempre o mesmo: governantes e políticos apátridas aprisionam boa parte da nação a seus próprios esquemas e interesses. É neste quadro que se erguem poderosos impérios do populismo, com vistas à manipulação das massas por meio de benesses imorais, já que a ética encontra-se abolida. A liberdade do povo é uma cenoura inalcançável, a balançar diante de seu nariz.

Em síntese, a Nação torna-se um hospício governado por indivíduos que cometem atos imprevisíveis, nefastos à sociedade. Esses já não têm mais cura. No entanto, seu povo precisa entender, com urgência, que necessita de sessões de psicanálise. Somente com essa terapia terá chances de retornar à normalidade social.

……….

[1] Por questão de ética, é ideal que antes de executar qualquer ação o indivíduo responda a três princípios básicos: Eu quero? Eu posso? e Eu devo? O primeiro exprime sua necessidade, aquilo que precisa ou deseja; o segundo, sua competência em obter o que acredita que precisa; por fim, o terceiro é a questão vital, pois considera os direitos da sociedade, que costumam limitar as ações de cada indivíduo nela inserido. Assim se procede uma ação com ética, a partir de uma base teórica e filosófica.

Por sua vez, a moral está implícita na ação executada, por isso mais visível, uma vez que é o resultado concreto da aplicação dos três princípios éticos. Exemplo: : um indivíduo quer ficar milionário sem trabalhar. : Todavia, não possui formação educacional ou ideia para realizar empreendimentos privados. : Porém, descobre o caminho de tornar-se político, montar esquemas fraudulentos e receber propina desviada do sistema público. Ele deve seguir esse caminho? Essa é a métrica usada para analisar a moral de pessoas diante dos fundamentos éticos.

[2] Diz-se que Nação é “o conjunto de indivíduos que falam o mesmo idioma, habituados a usos e costumes bem similares, acrescido das instituições que criaram”. No entanto, sem considerar aqueles que o governam, posto que são transitórios. De outro modo, espera-se que Nação seja “o povo reunido, com suporte das instituições que cria para servi-lo”. Enquanto houver condições de vida no planeta, somente o povo e suas instituições, ambos dotados de ética, buscarão ser permanentes.

És escritor ou equilibrista?


A pena de escrever fez um bom casamento com a redação crítica. Dizem até que foi pensada para fazer isso. Assim, busque argumentos bem ponderados, mas sempre a A pena de escrevercolocar suas setas críticas no centro dos alvos.

Medo do quê? Não o tenha! Setas de palavras não matam, apenas desnudam e, às vezes, iluminam variadas imundícies. Por isso, são essenciais à liberdade de expressão.

No Brasil, algumas vezes escritores são confundidos com redatores. Resta explicar quais são suas diferenças essenciais.

Um escritor produz obras literárias ou técnico-científicas. Trabalha de forma independente, a criar textos de acordo com o que pensa e sabe. Em sua obra pode falar de tudo, da forma que desejar, pois se tiver coerência e lógica, não terá limites.

Por sua vez, um redator trabalha em periódicos, dos quais, no mais das vezes, não é sócio. Produz textos de notícias, reportagens e colunas, em função do interesse do editor-chefe, que repete as ordens dos proprietários dos veículos.

Há uma estória que satiriza o poder transferido para o editor-chefe. Diz assim: era início da Semana Santa e o editor mandou que um redator escrevesse uma boa reportagem sobre a vida de Jesus. Foi então que o redator iniciante, com voz de tenor dramático, cantou a plenos pulmões:

Senhor, quer um texto a favor ou contra?!

A maioria dos redatores é diplomada em jornalismo. Já os escritores, em criatividade. Porém, é normal que dentre jornalistas existam bons escritores. Por sinal, muitos aproveitam a correlação de suas atividades com a mente e a escrita, para buscar tornarem-se notórios nessa profissão. Alguns poucos o conseguem.

Contudo, acredita-se que periodistas em geral podem adquirir alguns vícios, típicos de quem trabalha em certos jornais. Por exemplo, dado que os mais experientes redigem bem e possuem capacidade na análise de cenários (sobretudo, dos políticos), às vezes são obrigados a atender às determinações dos proprietários do veículo. Dessa forma, suas notícias ficam limitadas à mera descrição dos acontecimentos e das obviedades deles derivadas. Não há opinião ou ela é ambígua, e incompleta.

Por analogia, parecem puros-sangues sofrendo o galope-sustentado (o cânter), contidos pelo cavaleiro que puxa firme o bridão, esgarçando a boca do animal. Quase empina o bicho, que derrama seu suor, porém, mal sai do lugar.

Nessa conjuntura, amarrada por interesses proprietários, duas coisas ocorrem. O redator torna-se um equilibrista, nunca escritor. Sem dúvida, tem muita fome de narrar, mas somente é pago para descrever a superfície dos fatos. No outro lado fica o leitor menos atento, que repete e enfatiza publicamente o que nada leu direito e engoliu calado.

Para redigir verdades não há limites

Para escrever verdades não há limites: equilibre-se!

Governança do Ambiente


Este texto é um esboço empírico-conceitual. Portanto, encontra-se aberto a críticas. A única proposição do autor é receber comentários para, quem sabe, reelaborar e melhorar as proposições nele contidas.

O ensaio teve como premissa que a Governança do Ambiente deve resultar do processo da Governança Corporativa, ou seja, ser uma ideia dela derivada. No entanto, sem assumi-la como dogma ou mito, mas somente uma democrática e efetiva ferramenta para a gestão.

……………

Parte-se de uma questão que se considera primordial: ─ “Qual o mais importante e mais rico patrimônio de uma nação?

Há diversas respostas para esta pergunta, muitas delas fundadas em bons argumentos. Por exemplo, a cultura duramente construída pelo povo constitui o patrimônio riquíssimo da nação. Quem tiver dúvida, observe o que sucede na sua ausência.

Outro exemplo: desde que intrínsecos a seu povo, os princípios da moral e da ética de uma nação também constituem excepcional patrimônio a ser ressaltado e protegido.

Por fim, tomando a China como o caso mais singular do planeta, o vertiginoso crescimento econômico, com PIB disparando a taxas formidáveis, também pode ser visto, pelo menos por parte do Estado chinês, como o mais rico patrimônio nacional até então alcançado.

As respostas são inumeráveis. Porém, é provável que em sua maioria sejam relacionadas às ações do indivíduo. Isto é, repostas restritas ao espaço antropogênico. E não há dúvida que os espaços contidos no planeta Terra são bem maiores do que isso.

Dados básicos sobre o Planeta

A superfície total da Terra é da ordem de 510 milhões de km2. Cerca de 71% desta área é recoberta por água salgada. São os oceanos – Ambiente Oceânico –, ainda pouco conhecidos pelo Homem, por ele ser um elemento da biota primitiva com aptidão sobejamente terrestre.

Dos 21% restantes – Ambiente Terrestre –, estudiosos da dinâmica do uso e ocupação do solo, estimam que as áreas urbanas ocupem hoje entre 2 e 3% do Ambiente Terrestre, com tendência de expansão, sobretudo nos países ainda não propriamente desenvolvidos.

Ambiente que pode ser urbano

Ambiente que pode ser urbano

Destinadas a atividades agropecuárias – culturas e pastagens permanentes –, são estimadas áreas equivalentes a cerca de 32% do Ambiente Terrestre, com necessidade de ampliação, visando a alimentar os seres vivos em geral – o Homem e a Fauna.

Por outro lado, as áreas com cobertura vegetal – florestas, matas, savanas, pradarias, etc. – estão na ordem de 30% do Ambiente Terrestre, com possibilidade de expressiva redução por força de atividades humanas.

Para as finalidades deste ensaio não foi necessário destacar as áreas industriais do Ambiente Terrestre, bem como outros usos do solo existentes. Todos estão tratados de forma genérica como usos antropogênicos do solo.

A tabela abaixo sintetiza os números de interesse [1].

Uso do solo no Planeta

Os números mais dinâmicos desta tabela, relativos aos variados usos do Ambiente Terrestre, são gerados por atividades produtivas ocorrentes em todas as nações do planeta, as quais dependem das dimensões e características do Ambiente Oceânico e Terrestre de cada nação.

Parece ser nítido que essa afirmação é bastante lógica e óbvia. No entanto, resta saber de quais atividades resultam efeitos benéficos sobre cada nação e quais, ao contrário, geram a anorexia gradativa de seus espaços físico, biótico e antropogênico.

Para unificar a visão dos leitores, segue o conceito adotado para Ambiente (também chamado esquisitamente de “meio ambiente”):

É qualquer porção da biosfera que resulta de relações físicas, químicas, biológicas, sociais, econômicas e culturais, catalisadas pela energia solar, mantidas pelos fatores ambientais que a constituem (Ar, Água, Solo, Flora, Fauna e Homem). Todas as porções da biosfera são compostas por distintos ecossistemas, que podem ser aéreos, aquáticos e terrestres, bem como devem ser analisados segundo seus fatores físicos, bióticos e antropogênicos” (Kohn de Macedo, R., 2014[2]).

Verifica-se que, de acordo com esta definição, Ambiente pode ser todo o planeta, um canteiro de plantas ou até mesmo uma simples gota d’água. Dependerá da abordagem que se deseja para sua análise e do conhecimento que se deseja de seus elementos constituintes: serão cordilheiras alpinas, espécies endêmicas da flora ou micro-organismos?

De toda sorte, pelo exposto, acredita-se que a questão primordial ─ “Qual o mais importante e rico patrimônio de uma nação?” ─ deve ser respondida da seguinte forma:

─ “O patrimônio fundamental, mais rico e importante de qualquer nação, é seu Ambiente. É de seus elementos constituintes que gestores públicos e privados se utilizam para, em tese, construir o melhor habitat preferencial do ser humano”.

Porém, com essa resposta, surgem aspectos que demandam análise. Por óbvio, o Ambiente de cada nação é restrito em seus limites físicos e possibilidades de uso, mas há casos extremos que merecem uma análise comparativa, pelo menos com base nas variáveis ambientais constantes da tabela – áreas urbanizadas, área de agropecuária e áreas vegetadas.

Japão e Brasil

Há países situados em áreas sujeitas a eventos ambientais que geram catástrofes humanas, possuem território reduzido, cobertura vegetal parca e entremeada por rocha, bem como solos pouco próprios para a agropecuária. Vários deles situam-se no Ambiente do Círculo de Fogo do Pacífico. Mas considera-se o Japão como exemplo da pobreza ambiental: um país insular, com Ambiente de 377.873 km2, extremamente vulnerável, a sofrer terremotos diários.

Contudo, no outro extremo, existem países que esbanjam a força quase ilimitada de recursos naturais disponíveis em seu vasto Ambiente. Possuem imensas manchas de solo ricas em nutrientes e próprias para a agricultura e pecuária; densa cobertura vegetal, com biomas que se multiplicam em abundância e diversidade de espécies vegetais. Não há dúvida, de que o Brasil é um excelente exemplo planetário de riqueza ambiental.

Com área territorial de 8.515.767 km2, dentro do Brasil caberiam 22,5 territórios (ambientes) iguais ao do Japão. Entretanto, em 2012, segundo dados divulgados pelo FMI e pelo Banco Mundial, o PIB Japão foi mais que o dobro do PIB Brasil. Como esse fato pode ser explicado em um mundo que se encontra globalizado?

A tese do Ambiente

Há várias formas de explicação desse fenômeno. Mas optou-se pela seguinte linha lógica: a ciência e a tecnologia mais evoluídas são função direta das dificuldades de viver no Ambiente de cada nação. Ou seja, é o Ambiente que estimula a criação da Ciência em cada país. O aparato tecnológico mais sofisticado e relevante resulta da imposição de ter que sobreviver em Ambiente adverso.

Isso é fato desde a origem do gênero Homo na Terra, a cerca de 2 milhões de anos passados. Dentre as sete ou mais espécies do gênero, a única sobrevivente ganhou a alcunha científica de Homo sapiens. Talvez haja sido por sua capacidade de adaptação ao Ambiente em que vivia, certamente bastante adverso diante das ferramentas de que dispunha.

Nas nações em que as condições do Ambiente ameaçam ao Estado, à Sociedade Civil e ao Mercado Corporativo, os atores mais preocupados em financiarem soluções são investidores, tanto do ponto de vista das ciências essenciais, quanto das tecnologias delas derivadas.

Porém, em nações onde a fartura do Ambiente encontra-se no quintal do cidadão – que lança um grão de milho ao solo e logo cresce um milharal –, as perspectivas do desenvolvimento científico e tecnológico podem ser adiadas ad aeternum. Na maior parte das vezes, a evolução científica fica a cargo de poucos cientistas renitentes, mesmo sabendo que serão raros os atores dispostos a financiar seus experimentos e pesquisas.

É justamente como função desse extremo contraste ambiental, que líderes de Estados menos aquinhoados, junto com corporações privadas, apostam em fortes investimentos nas ciências que essenciais à sua sobrevivência. É comum que nessas nações aconteça o total suporte da sociedade civil organizada, acrescida da iniciativa espontânea de seus cidadãos.

A Governança do Ambiente

Constitui uma proposta empírica para nações bem dotadas de bens ambientais, quase “eco-potências”, mas que decerto ainda não sabem como proceder seu desenvolvimento de forma estabilizada. Serve também para os povos que são “vítimas permanentes” do subdesenvolvimento.

Porém, há três premissas essenciais a serem atendidas pela nação que pensa em implantar a Governança do Ambiente, a saber:

  • Ela é realizada por agentes democráticos, liberais e independentes, quais sejam: (i) a Sociedade civil e suas instituições cidadãs (não-governamentais e apolíticas); (ii) o Mercado produtor e consumidor, através de corporações produtivas e entidades que lhes são próprias; e, por fim, (iii) o Estado, por meio do governo e suas instituições públicas apropriadas.
  • É imprescindível que gestores públicos e corporativos possuam acurado domínio das técnicas da gestão ambiental e da sustentabilidade, tanto em seus processos públicos, quanto em seus negócios privados, respectivamente.
  • Todas as escolas públicas e privadas, desde o nível básico do fundamental até o limite máximo do nível superior, precisam oferecer educação plena de elevada qualidade.

O atendimento gradativo a essas premissas, de forma séria e responsável, pode aumentar a confiabilidade na nação, tornar seus processos ambientais transparentes e monitoráveis, desenvolver técnicas próprias de gestão e elevar os níveis de educação da sociedade civil. Por sinal, fator indispensável a qualquer tipo de governança.

Como resultado positivo, embora indireto, espera-se expressiva redução de atos ilegais que podem ser ordinariamente cometidos por qualquer agente ativo. Sobretudo, em nações que possuam governos autocráticos e sejam menos nutridas da moral e da ética públicas.

Para executar a Governança do Ambiente

A criação de um Conselho de Governança é básica. No entanto, precisa ocorrer uma inversão de posturas entre seus agentes, pois um deles falará ao Conselho em nome do Ambiente da nação. Assim, essa prática cabe às instituições da Sociedade Civil, com suporte das empresas e instituições privadas que compõem o Mercado.

As ações do Conselho visam à manutenção da Sustentabilidade do Ambiente da nação, bem como a garantia da qualidade do Desempenho Ambiental das empresas que constituem seu Mercado produtor. Dessa forma, cabe ao Estado a aprovação das normas legais que garantam a sustentabilidade e o desempenho ambiental adequados, conforme definidos e requeridos pela Sociedade Civil.

Por fim, cabe ao Conselho de Governança as ações de fiscalização no uso das normas legais aprovadas, ficando fora de qualquer votação o agente fiscalizado.

As atividades e processos do Conselho podem ser assim sumarizadas;

  • Elaboração conjunta da agenda ambiental da nação, visando ao curto, médio e longo prazos. Portanto, trata-se da definição de alvos estratégicos, táticos e operacionais.
  • Identificação das partes interessadas na execução da agenda aprovada, onde são identificadas aquelas que poderão ser parceiras na realização de planos, programas e projetos ambientais estruturantes.
  • Implantação da agenda e de sistema para sua monitoração, operando na internet sem qualquer obstáculo para acesso, permitindo o controle dos alvos da agenda, bem como de seus planos, programas e projetos ambientais.
  • Por fim, a avaliação dos resultados alcançados e ajustes dos desvios encontrados, para atualizar a agenda inicialmente concebida.

Como em qualquer processo de Governança, cabe à Sociedade Civil e ao Mercado o controle das ações ambientais promovidas pelo Estado, de forma a legitima-las ou não, em acordo com a agenda aprovada. O Governo precisa ser transeunte, sem gorduras monetárias e submisso aos interesse da sociedade e do mercado que ela constrói.

……………

[1] Os valores constantes da tabela estão arredondados, uma vez que para efetuar considerações acerca de cada uso do solo somente interessam suas ordens de grandeza relativas ao Ambiente da Terra.

[2] Kohn de Macedo, R., Ambiente e Sustentabilidade – Metodologias para Gestão, Rio de Janeiro, RJ, Editora LTC – Livros Técnicos e Científicos, GEN – Grupo Editorial Nacional, 702 pg., 1ª edição. 2015. Em processo de edição, com lançamento previsto para junho próximo.

Ensaio sobre o direito de esquecer


Simão-pescador, Praia das Maçãs.

Simão-Pescador

Simão-Pescador

Todas as pessoas têm o direito de esquecer qualquer coisa, embora sempre a considerar as limitações impostas por seus próprios cérebros. Assim, esquecem-se de outras pessoas ou até mesmo anulam-nas, sobretudo aquelas que foram figurantes secundários em sua vida. Afinal, o cérebro é bastante seletivo, em especial quando registra coisas que considere “sem utilidade”. Guarda-as no fundo escuro de seu arquivo morto.

Entretanto, ainda que sofram da doença do esquecimento, recordarão dos principais fatos que marcaram o caminho e as trilhas de suas vidas, bem como das pessoas que nele estiveram presentes. Tanto as que auxiliaram na realização de bons resultados, quanto ao contrário. Aquelas que tão-somente foram figurantes inativos, sequer serão recordadas mais tarde. Mas isso não é perda de memória, é apenas seleção de utilidade.

É sobre essa dicotomia de fatos e pessoas que concorrem para bons e maus resultados, que pretendo criar uma hipótese e refletir sobre ela. Porém, desde já informo que, por se tratar de um ensaio informal, não tem uma estrutura sólida de reflexões; creio, inclusive, que todas as falas do texto são meras especulações. De toda forma, espero que possam conduzir leitores a reflexões pessoais sobre o direito de esquecer.

O objeto deste ensaio não é provar uma hipótese, mas apenas tecer conjecturas a respeito dela. Optei por criar uma hipótese extrema, a saber:

─ “O sem-cérebro sempre segue por trilhas tão extras e ordinárias que esquece a si próprio”.

Afinal, não existe ser humano vivo sem cérebro! Contudo, há muitos que, diuturnamente, se comportam como se seus cérebros houvessem sido extirpados despercebidamente.

Para facilitar a formulação de conjecturas, este texto dá vida ao “ser humano sem cérebro”, através do apelido Trombeta. De outra maneira, um ser que vive a trombetear suas vantagens burlescas. Que, aliás, julga serem oferendas divinas que o capacitam para debates sobre temas globais.

Trombeta foi filho de mãe solteira e nasceu nas veredas do agreste. Teve dez irmãos mais novos, dos quais sempre soube muito pouco. Um mês após seu falecimento, um jornalista pouco conhecido deu a seguinte nota no jornaleco do município:

─ “Trombeta foi um personagem de baixa estatura, analfabeto, de comportamento ambíguo e estranhas ideias. Embora falasse muito, opinasse sobre tudo, nunca respondia a perguntas. Tenho dezenas de perguntas que gostaria que ele respondesse. Mas, de antemão, desejaria saber onde foi parido e como foi sua parição? O que Trombeta fez na infância, como foi criado, quem o criou, quem eram as pessoas com que conviveu em sua morada? Estudou? Aprendeu? Onde estudou e o que aprendeu? O que foi capaz de ensinar e a quem ensinou? Onde trabalhou, por quanto tempo e fazendo o quê? Por onde enveredou e o que mais estava a querer? A quem convenceu, a quem enganou e a quem mais desejava convencer ou enganar? Aonde queria chegar e o que era capaz de fazer para isso? Tinha algum limite pessoal ou o vale-tudo era a sua métrica? Tenho mais uma lotada de perguntas, mas sequer me animo a faze-las, pelo menos agora”.

Sobre Trombeta sei muito pouco, apenas alguns detalhes. Sei que cresceu em um povoado pobre, sem esgotos tratados, sem eletricidade e com pouca água. Dizem seus contemporâneos que sempre foi muito falante, que se metia em tudo. Dizem que só falava asneira, mas enganava a todos com suas “promessas de solução”. Em suma, comentavam que foi um parafuso sem rosca, uma raposa anoréxica, uma catapulta de asnices.

Mesmo assim, ainda existia muita gente que morreria por Trombeta. Quase foi enterrado como mártir. Assim, ou foi um fenômeno da história – o líder apedeuta da seita que criou –, ou era a prova viva de uma sociedade ética e moralmente atordoada.

Desde a infância, Trombeta teve um foco na vida: queria ter poder para mudar as coisas a seu gosto, com simples gestos de mão. Era persistente e treinava todo dia. O problema foram as escolhas das coisas a mudar. Com gestos curiosos, seguidos de uma espécie de urros de fúria, tentava matar as galinhas de sua mãe que, com galhardia, continuavam livres a correr pela poeira da caatinga. Queria fazer e acontecer, mas as desgraçadas não morriam!

Somente ao completar 18 anos, já com a barba desgrenhada na face, se apercebeu que era pouco provável que conseguisse realizar esse tipo de poder. Comemorou seu aniversário no boteco do Geraldino que, pelas trilhas que fizera na mata à cata de galináceos, ficava em outro município, a 4 km do casebre em que morava.

Sua mãe até cedeu quatro galinhas esquálidas para o almoço do aniversariante, mas sob uma condição: que ele começasse logo a trabalhar, pelo menos para obter seu próprio sustento.

─ “Tome rumo na vida e para de assustar minhas galinhas, cabra preguiçoso!”, disse ela naquela ocasião. E tinha razão, até porque “mãinha” manteve os dez filhos a bordar renda, 18 horas por dia. Morreu bordando a própria morte, sozinha na secura de sua morada.

Trombeta considerou que realmente precisava “fazer dinheiro”, pois não aguentava mais conviver com a “mediocridade do povoado”. Pôs-se a matutar e, pela primeira vez na vida, esqueceu-se das galinhas invencíveis. Pensou até mesmo em se engajar no exército, mas sua indolência sem disciplina aconselhou-lhe a não cometer tal ato de bravura.

Por fim, entendeu que precisava deixar o povoado, ir para a cidade grande e, quem sabe, ser um emérito negociador de ideias. Esse passou a ser seu foco, tornar-se o Grande Negociador. Todavia, sem qualquer centavo no bolso, não tinha como viajar para a capital do estado, que se situava a mais de 400 quilômetros.

Tornou a pensar noutra maneira de “fazer dinheiro fácil“. Porém, dado que não sabia fazer absolutamente nada, “roubar os miseráveis do povoado” foi a opção mais normal que saiu de seu pequeno cérebro. Assim, sem qualquer cerimônia, na madrugada furtou a féria semanal do boteco do Geraldino e, como disseram, sumiu da face da Terra.

Quase 20 anos depois, os frequentadores do bar do Geraldino tiveram notícias de Trombeta pelo pasquim do município. Nele estava publicada uma foto de Trombeta preso numa delegacia, acusado de liderar arruaças nos portões de fábricas e fomentar greves de operários, a que chamava, segundo a notícia, de “classe proletária”.

Ninguém no povoado entendeu muito bem a nota, além reconhece-lo como o presidiário estampado na foto. Apenas o mais velho do povoado imaginava o que seria classe proletária e movimentos grevistas.

Passaram-se mais cinco anos e o povoado inteiro ficou sabendo que Trombeta havia fundado uma seita ideológica, da qual era presidente, mas sem a menor ideia do que se tratava e qual seria sua finalidade. Todos ficaram assustados com a informação incompleta e mais ainda porque mãinha enfartara.

No povoado fez-se um silêncio de décadas sobre a vida de Trombeta. Até que um dia, no bar de Geraldino Filho, chegou a notícia que ele se tornara presidente da CNP – Confederação Nacional dos Prostíbulos, o cargo máximo “daquela nação”, Supremo Cafetão Nacional.

Reflexões

Trombeta nasceu paupérrimo: no interior dum casebre, com teto forrado de sapê; em um mísero povoado, sem quaisquer condições sanitárias; sem escola e hospital públicos; sem receber a educação de base. Não há dúvida, a sorte lhe foi muito ingrata, pois a mais famosa instituição do povoado em que nasceu era o boteco do Geraldino, onde, sem pagar, ele bebia a cachaça local e comia carne seca de bode, na companhia de pessoas sem trabalho.

Os frequentadores do bar eram bem mais velhos do que ele e nunca tiveram um trabalho digno. Eram todos muito franzinos, ressecados pelo clima tórrido dos canaviais. Viviam de trabalhos temporários em engenhos de cana da região. Eram resignados com a própria sorte e sabiam que não conseguiriam mudar o mundo. Porém, entre eles, partilhavam pequenos momentos de alegria.

Ao contrário de Trombeta, que acreditava ser capaz de mudar qualquer coisa a seu gosto, “oferecer promessas de solução” e negocia-las com os mais incautos. Entendera pelas “aulas da TV” que assistira no boteco do Geraldino, que negociar era fazer barulho, ir para as ruas e fazer comícios, falar berrando, mentir com certeza e enganar inocentes.

Pelo menos desde a adolescência, Trombeta já apresentava os traços típicos da egolatria, com gestos individualistas, pouca sociabilidade e extremo egoísmo. Somente estendia sua mão esquerda quando era para receber dinheiro ou tomar algo de alguém. Mesmo assim, soltava urros de fúria, como se fora sua assinatura de vitória.

Não é exagero afirmar que Trombeta já nasceu tomado pelos “germes da sociopatia”, se é que me entendem. Pode parecer uma incongruência alguém ter o desejo de ser um Grande Negociador e, ao mesmo tempo, odiar o gênero humano. Mas este foi o caso do trombeteiro. Vejamos:

  • Roubou os pobres amigos de sua mãe e covardemente sumiu do povoado.
  • Às cegas aderiu à trilha do comunismo, fez arruaças políticas e foi preso durante o regime militar.
  • Fundou e presidiu uma seita ideológica baseada em seus valores medievais.
  • Abandonou a tudo que jurara seguir para se eleger presidente da Confederação Nacional dos Prostíbulos. Este foi o auge de sua carreira, quando já era um completo sociopata.

Esses quatro processos da vida do trombeteiro têm em comum o fato de que as pessoas que estavam presentes, ou foram usadas por ele, ou sequer existiam em sua cabeça esquecida. De outra forma, Trombeta só pensava em si mesmo e nos ganhos que haveria de realizar.

Assim, ficou bilionário em menos de dez anos. Mas, em compensação, os milhões de funcionários dos prostíbulos nacionais receberam um “cala-boca”. Foram abençoados pelo trombeteiro com o Programa Bolsa-Prostíbulo, no valor de 80 reais por mês, sem terem a necessidade de “suar a camisa”.

Diz a hipótese que “o sem-cérebro sempre segue por trilhas tão extras e ordinárias que esquece a si próprio”. Parece ser o caso terminal do trombeteiro. Encontrava-se dissociado da realidade, com visível incoerência mental (esquizofrenia). Sempre que se manifestava, demonstrava um contínuo retrocesso cerebral (oligofrenia). Ao fim, tudo indica que esqueceu de si próprio para admirar apenas a própria imagem refletida, que ainda acreditava existir.

Parafraseando um filósofo das massas, “nunca na história desse Prostíbulo houve tantas trilhas extras e ordinárias para serem seguidas pelos séquitos do líder máximo”.

P.S.: Recomendo a leitura do texto “A variedade de bestas seriais“. É uma crônica de ficção que mostra o elenco de assessores dos trombeteiros.