Ambiente ameaçado pelas commodities


Simão-pescador, Praia das Maçãs.

Simão-pescador

Simão-pescador

Desgovernos de “países subdesenvolvidos”, na pretensão de faze-los desatolar do pântano, colocar o focinho ao vento, dedicam financiamento público para o setor de produção primária. É assim que esses “atrozes senhores” implantam a “indústria de commodities”.

Dessa forma, a frágil produção agrícola e pecuária passa a sustentar a economia nacional, como no caso brasileiro. Entrementes, o preço das commodities é sempre definido por compradores mundiais. E é facto, não discutem a origem dos grãos, basta que encontrem matéria-prima de qualidade para alimentar seu setor industrial, provenha donde for.

Muito embora milhões de pessoas vivam em estado de miséria absoluta, é claro que a sobrevivência deles impõe o consumo dalgum “tipo de alimento”. No mais das vezes, retirado de “lixeiras socialistas”.

Imagem viva do “supermercado”

Imagem viva do “supermercado”

Ocorre que a produção primária demanda gigantescas áreas de culturas agrícolas, pastagens de bovinos, soberbos currais de porcos e granjas industriais para criação e matança indolor de aves.

Porém, o uso de “defensivos agrícolas tóxicos” esgota a qualidade do solo. Bovinos, porcos e aves “tomam bola” [hormônios] para crescimento rápido, a seguirem rechonchudos rumo ao abatedouro. É uma festança anual de bilhões de dólares!

Mas há o outro lado desta façanha. As regiões em que se encontram os grandes produtores agropecuários eram recobertas pelo bioma Cerrado, sobretudo, no planalto central brasileiro. Foram desmatadas e ainda sofrem queimadas para dar lugar às noviças commodities. Desde 1970, o Cerrado vem sendo devastado de forma inexorável. Junto com ele, suas espécies 100% endêmicas e a fauna abundante que nele havia.

É impossível que não haja solução inteligente para o agronegócio brasileiro. A de hoje é a mais barata e rentável, sem dúvida, mas tem horizonte limitado no tempo. O ambiente em que ocorre decerto será desertificado.

A propósito, lembro-me que a boca de um político analfabeto [pleonasmo] vomitou a seguinte frase: “fiz do Brasil o celeiro do mundo”. Porém, e o que é mais grave, até hoje o idiota regozija-se desta patranha. A ser desta forma, que o recolham, a seus companheiros e descendentes. Trancafiem-nos a todos numa granja de segurança máxima!

Conflito entre licenças ambientais


Por Ricardo Kohn, Consultor em Gestão.

A legislação brasileira é muito extensa, complexa, falha, por vezes redundante, contraditória e inaplicável. Um indicador dessa “impressão leiga” são as toneladas de processos atolados na burocracia da justiça, há décadas. Não há como contestar esse fato e o elevado custo que a sociedade brasileira é obrigada a pagar.

Pede-se desculpas aos bons juristas e advogados – eles ainda existem –, mas a causa dessa proeza se assenta na extrema ignorância de legisladores mal assessorados. Dessa forma, o Congresso Nacional tornou-se obtuso e continua a aprovar outras novas normas, muitas delas sem qualquer necessidade.

Observe-se o absurdo da chamada Lei da Palmada! Porém, dentre os 181 mil diplomas legais existentes no país, há outros que ressaltam a estupidez de seus proponentes, do plenário que as aprovou e do presidente que as sancionou. Isto sem considerar as normas legais que se encontram em tramitação, como a que institui o “Dia Internacional do Direito à Verdade[1]. Afinal, será que a população do planeta só tem direito a saber da verdade num dia por ano?!

Entretanto, o foco desse artigo é a legislação ambiental brasileira. Nesse setor específico tem-se uma profusão de instituições públicas a “regular o Ambiente do país”: Ministério, Conama, Ibama, órgãos ambientais estaduais e órgãos ambientais municipais. Afora organizações que criam regras ambientais particulares, como Iphan, Eletrobras, Petrobras e CNEN, dentre outras.

Não bastassem os escuros labirintos da burocracia nacional, para complicar ainda mais o cenário de investidores, que, por óbvio, desejam seus projetos licenciados, existem “Ong” com a missão de azucrinar o processo das licenças estabelecido como regra geral: licenças prévia, de instalação e de operação.

Em alguns casos, estas organizações têm excelentes motivos para denunciar o investidor. No entanto, dispendem tempo e capital para esclarecer à nação “impactos ou até crimes”, os quais batizam de “socioambientais[2], todos não controlados. Ao agirem de acordo com a regra ambiental vigente, não consideram que o problema se encontra justamente no próprio texto da lei que querem ver atendida. Mas, na visão deste blog, é impossível atende-la!

Para explicar melhor, analisa-se o caso factual da usina hidrelétrica de Belo Monte. Trata-se do “embate político” entre a estatal que paga a obra e é a proprietária da futura usina (Norte Energia[3]) e o Instituto Socioambiental (ISA), uma notória Oscip brasileira.

Vista da usina de Belo Monte ainda na etapa de construção

Vista da usina de Belo Monte ainda na etapa de construção

Em junho de 2015, o ISA divulgou um documento de sua autoria, com mais de 260 páginas, intitulado Dossiê Belo Monte – Não há condições para a licença de operação. Do ponto de vista técnico e científico, concorda-se com essa afirmação. Porém, por fatos bem diversos, muito anteriores aos narrados no dossiê.

Com base no levantamento das pendências ambientais remanescentes da Norte Energia e de impactos adversos não controlados (físicos, bióticos e antropogênicos) sobre a região afetada, ao afirmar que a usina não tem condições de operar, infere-se que os técnicos do ISA concordam que foram corretas as demais etapas do ciclo de vida da usina. Ou seja, que seus projetos de engenharia e sua obra foram legal e devidamente licenciadas.

Neste ponto, defende-se uma posição contrária: no rio Xingu, sobretudo naquela região, qualquer projeto de engenharia com a envergadura de uma hidrelétrica, simplesmente nunca receberia a Licença Prévia. Assim, é evidente que não aconteceria sua construção, nem os impactos negativos decorrentes da violenta cirurgia intrusiva em áreas primitivas da Amazônia.

Para solucionar o impasse, que é típico nesses conflitos de interesses, propõe-se algumas medidas administrativas, baseadas na lógica do ambiente:

  • Criar a Licença de Localização, que demandará um estudo preliminar de viabilidade ambiental (EPVA). Os EPVA, por possuírem caracterizações objetivas dos espaços físico, biótico e antropogênico, podem ser elaborados de forma mais rápida que os EIA e são conclusivos quanto à localização ou não do empreendimento na região desejada pelo investidor. Este não precisa possuir um projeto básico ou executivo de engenharia do empreendimento, bastam os traços e as dimensões de um projeto conceitual.
  • Objetivar o EIA, tornando-o estudo complementar do EPVA realizado, dotado de um processo detalhado de avaliação parametrizada de impactos, bem como de um Plano Executivo de Gestão (PEG) das relações promovidas pelas obras do empreendimento com sua área de impactos potenciais. O PEG deve ser estruturado com objetivos, metas, programas e projetos ambientais que visem à manutenção da qualidade ambiental da região afetada. Após a aprovação do EIA pelo órgão competente, é emitida a Licença de Construção.
  • Criar a Licença de Gestão Ambiental de Obras, que demandará do investidor e da empresa construtora firmarem o compromisso formal de implantar o Plano Executivo de Gestão das obras, com equipe não vinculada à empreiteira e com gerência própria. O gestor ambiental das obras emitirá relatórios ambientais periódicos para o órgão ambiental competente. Este, por sua vez, pode efetuar auditorias ambientais das obras para aferir a qualidade ambiental existente, apresentada nos relatórios. Uma vez finalizadas as obras, tendo sido aprovado o relatório ambiental consolidado da obra, será emitida a Licença de Operação.

Dois fatos são nítidos neste processo de licenciamento ambiental: (i) é menos burocrático, mais rápido e menos oneroso do que o existente; (ii) possui as ferramentas necessárias para garantir a qualidade do desempenho ambiental do projeto e de suas obras, bem como, manter ou, em certos casos, até mesmo beneficiar os níveis de sustentabilidade do ambiente afetado.

É claro que essa proposta de licenciamento objetivo, não romanceado, precisa ser detalhada. Todavia, por uma equipe que possua visão de futuro, com notória competência na gestão do ambiente e, sobretudo, liberta das amarras burocráticas brasileiras.

……….

[1] O parlamentar que propõe um projeto de lei desta natureza devia trajar camisa-de-força, isolado num sanatório para dementes.

[2] A expressão “socioambiental” é redundante por dois motivos. Primeiro, por que o segmento social é parte do Ambiente e, portanto, não precisa ser ressaltado, a não ser que haja “interesse político”. Segundo, bastaria dizer que os impactos ou crimes são “antropogênicos”, pois também são parte do Ambiente vitimado.

[3] Acionistas da Norte EnergiaEmpresas públicas: Eletronorte, Eletrobras, Chesf, Cemig, Light; Fundos de pensão da Petrobras e da Caixa Econômica, detendo 79,75% do capital social. Empresas privadas: Vale, Neoenergia, Sinobras e outras, com somente 20,25% do capital social.

Vagabundos invadem o Rio


Ricardo Kohn e Cláudia Reis, a quatro mãos.

Ontem, 1º de março de 2015, tivemos um bom domingo, até com temperatura amena. Coincidiu com mais um aniversário da cidade do Rio de Janeiro, que completou 450 anos. Parabéns à cidade que, por pura incompetência pública, vem sendo destruída [prostituída] por suas sucessivas prefeituras há 46 anos, desde 1969.

Porém, vamos ao assunto. Não sabemos por que a soberana veio ao Rio para as “festas da cidade“. Mas acreditamos que chegou cercada por carros blindados e escolta de policiais em motocicletas pesadas, com a sirene aberta. Tal como foi hábito de seu criador, o apedeuta.

Porém, em frente ao prédio onde moramos, foi estacionado um ônibus, com vidros negros e opacos. Era parte do pelotão municipal encarregado de dar segurança à matrona oficial. Seu motorista, com o veículo em ponto morto, pisava no acelerador sem parar, a roncar o motor, cada vez mais alto. Os ruídos infernais invadiram todos os prédios próximos.

Quartel da força de segurança, com "clima de montanha"

Quartel da força de segurança da soberana: “clima de montanha”

Vários moradores dos prédios severamente impactados pelo barulho começaram a gritar para que o motorista deligasse o ônibus. Mas nada aconteceu. Durante cerca de 15 minutos os apartamentos foram invadidos por roncos alienígenas. O ônibus parecia uma nave intrusa estacionada, múmia marciana a bufar agressiva como delinquente ameaçadora.

Cláudia, que é uma pessoa calma e equilibrada, diante dessa agressão, ficou possessa com o ruído incessante na rua tranquila. Foi assim que decidiu enviar uma mensagem para a rede social de que participa o “esperto prefeito“. Todo esse desconforto, sentido por diversas famílias, era em troca da “segurança à soberana de republiqueta”, em visita ao Palácio da Cidade. Afinal, o quê a atemoriza tanto? Tem pavor de quem? Por quais motivos?

Para este artigo, redigi destaques em azul, acerca de como penso que deva ser tratado o desacreditado “esperto prefeito” e sua “proba soberana“. Dessa forma, segue a mensagem enviada por Cláudia:

Prefeito Eduardo Paes

“Nada contra as comemorações natalícias da cidade, na qual infelizmente nasci. Digo assim, pois não aguento mais tanta anarquia e baderna na rua em que vivo, em função das festas que você realiza no Palácio da Cidade. Mais parece a boate em que se tornou a sua prefeitura! [Penso eu: uma provável casa de massagens negociais].

“Hoje, em especial, a prefeitura resolveu tomar a Rua da Matriz e, neste exato momento, há um ônibus lotado de guardas municipais. Sou obrigada a sentir o cheiro de óleo queimado e um barulho infernal. Na porta do meu prédio, de frente para as janelas do apartamento, o veículo está com motor ligado todo o tempo. Faz um ronco enorme para que esses “trabalhadores” descansem em ambiente fresco pelo ar condicionado. [Penso eu: Prefeito, uma pergunta rápida, até a sua guarda também gosta de frescura?].

“Já pedi com educação para desligarem o ônibus, mas não adiantou. Mandaram-me falar com o prefeito. Isso é total absurdo. Eu, na minha casa, pagando impostos, é que tenho que ficar com as janelas fechadas? [Penso eu: por que, caríssimo prefeito, você próprio não dirige esse ônibus de esterco para a frente do Batalhão de Polícia, que fica na porta de seu Palácio? Devo dizer-lhe, faz tempo que você esgotou a paciência da cidade!].

“Peço que você tome as devidas providências, imediatamente. O Rio em que nasci morreu há tempos, por força de tantos desmandos e pela total falta de respeito a seus cidadãos.

“Vivo em uma rua residencial, que já sofre bastante durante a semana com o movimento da Escola Britânica, para a qual nunca deveria ter sido autorizado o acesso por essa via. Hoje é domingo, prefeito [estúpido]. Idosos e crianças moram aqui. Cadê seu respeito à lei e seu mínimo instinto de civilidade?!

“A sua “Presidenta” não deveria causar transtornos aos moradores de Botafogo. [Penso eu: para ter uma garantia mais efetiva de sua já ameaçada segurança pessoal, após cumprir 4 anoscomo poste de seus apaniguados‘, a soberana somente deveria chegar ao Palácio de helicóptero, camuflado e blindado!].

“Vou continuar insistindo com você, prefeito [excelência de merda, penso eu]. Tire esse ônibus da frente de meu prédio ou mande trabalhar quem está no ar condicionado. Não existe outro espaço para esse povo ficar? Lugar de polícia municipal é na rua, a patrulhar, e não a se refrigerar dentro de ônibus. Ainda por cima, você está poluindo o ar que respiramos!

“Aliás, prefeito, por que sua guarda não “bicicleteia” pela cidade. Essa não é a sua campanha favorita? [Penso eu: pintar as mais equivocadas e estúpidas ciclovias do Brasil, sem respeito ao trânsito e aos idosos]. Vamos poluir menos, sem distúrbios sonoros e contaminação do ar! [Penso eu: afinal, somos ou não a tão proclamadacidade verde”?].

“Programar essa farsa [hipócrita e cínica, penso eu], no dia do aniversário da cidade é uma lástima! Vê-se que o Rio encontra-se à mercê de políticos incompetentes e não da cultura de seus habitantes – como sempre foi em seus tempos áureos. Isso é muito triste; é apavorante ver nossa cidade invadida por ignorantes.”

Resultado

Após cerca de 20 minutos de tortura cidadã“, proporcionada pela emissão de gases e ruídos do ônibus, o motorista foi autorizado a desligar a máquina da segurança. Enquanto isso, por óbvio, o “poste soberano” era vaiado pelo povo na entrada do Palácio da Cidade: “Fora Dilma! Fora PT!”. Até quando este estado de coisas vai durar?…

A ‘privataria’ no Parque do Flamengo


Por Ricardo Kohn, Gestor do Ambiente.

Breve histórico

O Parque do Flamengo, que foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico NacionalIphan, em 1965 – e, mais tarde, também pelo governo do município, através de lei de 1995. Mas, desde de julho de 2012, é considerado Patrimônio Cultural da Humanidade, pela Unesco. Vejam a cópia da planta oficial de tombamento feita pelo Iphan.

Perímetro de tombamento do Parque do Flamengo

Perímetro de tombamento do Parque do Flamengo

A questão básica é a seguinte: ─ “Por quais motivos esse equipamento urbano foi tombado e premiado pela Unesco com o título de Patrimônio Cultural da Humanidade?”

Para responder a essa questão é necessário entender a magnitude do problema urbano que existia na cidade e, sobretudo, no bairro do Flamengo, ao fim da década de 1950. A população se avolumara pelo intenso fluxo de migração interna para a então capital federal. No entanto, seu sistema viário e seu saneamento básico, eram extremamente precários. Esgotos in natura eram lançados na orla marítima da cidade, criando as chamadas “valas negras” em suas praias.

Vista da Praia do Flamengo, com o aeroporto Santos Dumont ao fundo

Vista da Praia do Flamengo, com o aeroporto Santos Dumont ao fundo

Várias áreas da cidade foram aterradas desde cedo. A começar pela região do porto, fundo da Baía da Guanabara. O próprio aeroporto Santos Dumont foi construído sobre área de aterro. Boa parte da praia do Flamengo também sofreu o mesmo processo, mas foi em vão.

Somente em 1961, o governador do Estado da Guanabara, jornalista Carlos Lacerda, e seu Secretário de Viação e Obras, engenheiro sanitarista Enaldo Cravo Peixoto, receberam proposta da paisagista Lotha de Macedo Soares, que visava a criar um parque na praia do Flamengo. A proposta foi aprovada.

Para fazer frente a esse extremo desafio, foi criado um grupo de trabalho visando a planejar, projetar e gerir a construção e plantação da flora nativa no Parque do Flamengo. Notórios profissionais participaram deste grupo [1], que teve a frente o arquiteto Affonso Eduardo Reidy e a própria paisagista, Lotha de Macedo Soares.

Conforme projetado e finalizado, o Parque do Flamengo diferencia-se das belezas cênicas do Rio, todas elas herdadas da natureza, mero acaso das relações mantidas entre os sistemas ecológicos que nela se formaram, à revelia do ser humano.

Na verdade, o Parque do Flamengo a elas se integra sem perder suas funções urbanísticas vitais – mobilidade urbana, acessibilidade a pessoas com deficiência, educação, esportes, bem estar, laser, recreação e, acima de tudo, manter permanente seu enlace com os ecossistemas terrestres e marítimos da região.

Na visão de Reidy, obstinado pela equidade na ocupação do espaço urbano, o Parque do Flamengo, ao tornar-se um bem público, já justificava sua restrição plena como área non aedificandi. Infelizmente, Affonso Reidy faleceu jovem (54 anos, em 1964) e não acompanhou o processo de tombamento do Parque a que tanto se dedicou.

Vista aérea do Parque do Flamengo e suas vizinhanças

Vista aérea do Parque do Flamengo e suas vizinhanças

Manutenção do Parque

Desde quando foi inaugurado, nas festividades dos 400 anos da cidade, o Parque do Flamengo teve sua primeira manutenção realizada em 1999, feita pelo escritório do paisagista Roberto Burle Marx. Esses trabalhos envolveram o replantio da flora afetada, assim como a inspeção e eventuais obras civis nas passarelas do parque.

A poda de árvores e os cortes dos gramados sempre foram atividades sistemáticas realizadas por um órgão público chamado Parques e Jardins. No entanto, a prefeitura passou esta responsabilidade para a Companhia Municipal de Limpeza Urbana (Comlurb). É evidente que esta empresa não é habilitada para realizar podas e replantios de vegetação, muito menos obras civis.

O descaso do atual prefeito com relação ao Parque do Flamengo é de tal ordem que, a pensar nas verbas para as obras destinadas aos Jogos Olímpicos de 2016, o Parque foi esquecido em estado lamentável.

Este é o estado das passarelas do Parque do Flamengo

Este é o estado das passarelas do Parque do Flamengo, ferragens aparentes…

Por sinal, caro Eduardo Paes, como andam as obras olímpicas nas cinco regiões de jogos que foram pactuadas com o Comitê Olímpico Internacional? Prometidas pela trinca de falcatruas: Lula, Sérgio Cabral e Paes, o inventor do tal “Porto Maravilha“.

Obra na enseada da Glória

Mas eis que surge uma “parceria público-privada”, obcecada em desconstruir um bem público, finalizado e tombado há 50 anos. Marqueteiros aliados ao poder público tiveram a desfaçatez de chama-la “Revitalização da Marina da Glória”.

Aos olhos do povo do Rio, com plena consciência de seus direitos humanos e legais, trata-se de “descarada negociata”. Tudo indica que sua realização conta com o conluio de instituições públicas – Iphan e prefeitura do Rio –, dado que permite a execução de um projeto ilegal, antes já rejeitado pelo próprio Iphan!

Um grupo de cidadãos brasileiros iniciou um movimento popular – clique em “Ocupa Marina da Glória” – visando a impedir a deformação urbanística do Parque do Flamengo. A finalidade desse movimento é simples: conservar um bem público tombado como área non aedificandi e impedir o desmatamento sumário da vegetação ocorrente na enseada da Glória, local da dita “revitalização da Marina”. Segundo informações públicas, cerca de 300 pés de árvores já foram decepados na área do canteiro de obras e suas imediações.

Signo do crime ambiental cometido pela Prefeitura do Rio

Signo do crime ambiental cometido pela Prefeitura do Rio

No entanto, a Secretaria Municipal de Ordem Pública, através de ameaças violentas por parte da Guarda Municipal, determinou a retirada de barracas, faixas e pessoas que protestam contra a invasão de seus direitos. Ressalta-se que esta violência já foi realizada contra os que participam do movimento “Ocupa o Golfe”, que ocorre na Barra da Tijuca.

É patético, mas na Barra pessoas foram agredidas e presas hoje, por expressarem seus direitos de cidadão e, sobretudo, seu dever de proteção da cidade do Rio de Janeiro. Afinal, a cidade, o estado e o país são nossa propriedade. Fomos nós que delegamos a prefeitos governadores e presidentes a obrigação de geri-los da forma como definirmos. Precisa-se, com urgência, de um “recall de políticos“!

Eduardo Paes, espera-se que a “privataria” do Parque do Flamengo já o haja “beneficiado” bastante. Até por que, no Rio de Janeiro você jamais chefiará qualquer instituição pública, sequer uma equipe de safados da sua laia.

……….

[1] Membros do Grupo de Trabalho: Affonso Eduardo Reidy e Lotha de Macedo Soares (direção); Sérgio Wladimir Bernardes, Jorge Machado Moreira, Hélio Mamede, Maria Hanna Siedlikowski, Juan Derlis Scarpellini Ortega e Carlos Werneck de Carvalho (arquitetos); Berta Leitchic (engenheira); Luiz Emygdio de Mello Filho, Magú Costa Ribeiro e Flávio de Britto Pereira (botânicos); Ethel Bauzer Medeiros (especialista em recreação); Alexandre Wollner (programação visual); Roberto Burle Marx & Arquitetos Associados, com Fernando Tábora, John Stoddart, Júlio César Pessolani e Maurício Monte (paisagistas).

O conto da perereca


Ricardo Kohn, Escritor.

A comunidade dos anuros a considerava um girino de perereca, uma futura rã. Isto por que os sapos adultos de várias famílias, após analisarem em detalhes seu jeito de locomoção nas bordas do lago, sua delicadeza na alimentação, concluíram que ela era fêmea. E mais, Merreca, como a apelidaram com desprezo, não serviria sequer para forragem de almoço, pois era frágil, com aparência de doente e quase não dispunha de carne. De forte tinha somente seu cheiro fétido e intenso.

Assim, sem ter pai e mãe, Merreca foi deixada à própria sorte, nos terrenos enlameados e traiçoeiros do planalto. Afinal, a saparia adulta tinha que montar uma estratégia de defesa, visando a enfrentar à crescente invasão de ratazanas gigantes em suas terras.

A horrenda imagem da ratazana gigante esfomeada

A horrenda imagem da ratazana gigante esfomeada

Elas surgiam do nada, em bandos de esfomeadas, a matar e mastigar tudo o que encontravam pela frente. Pareciam insaciáveis. Saporra, o anuro comandante da defesa, as observava em sua fúria devastadora. Permanecia imóvel sob as pilhas de folhas e galhos secos caídos das árvores (serrapilheira), sem sequer respirar. Porém, após o primeiro ano de ataques, verificou que eram episódicos, pois da mesma forma que surgiam, logo em seguida desapareciam, deixando a comunidade remanescente aliviada durante algumas semanas.

Chamado para depor sobre o caso no Conselho Ancião dos Anuros, Saporra contou o que assistira e, sem querer, criou expectativas nos ancestrais. Disse que, dada a delinquência dos ataques, caso as ratazanas não encontrassem o que comer, era provável que sua sanha antropofágica emergisse e viesse à tona de forma violenta. Assim, comeriam umas às outras.

Após seu depoimento, o Conselho reuniu-se a portas fechadas e, em regime de urgência, decidiu que toda a comunidade de anuros precisava trabalhar para dar aspecto de terra arrasada às áreas atacadas pelas quadrilhas das ratazanas. O Conselho tinha certeza de que os resultados da chamada “limpeza” demandariam bastante tempo, mas os anciãos não encontraram outra saída para salvar a vida futura da Nação Anura: liquidar com as ratazanas através da fome.

Embora haja considerado a decisão do Conselho utópica, quase inatingível, Saporra a aceitou e partiu para executar os trabalhos comandando suas tropas. ”Afinal, como sapos e rãs conseguirão eliminar tudo o que esteja vivo sobre o solo da Nação Anura?”, pensava ele.

Mas, sempre a confiar na sapiência de seus ancestrais, trabalhou muito duro na defesa da nação, chegando ao ponto de comandar toda a sociedade de anuros como se fossem tropas treinadas para a guerra. O pavor das ratazanas esfomeadas era tamanho, que uniu a nação de forma indelével e inextricável.

Após promove-lo por mérito ao posto de General Saporra, o Conselho Ancião convidou-o para que apresentasse os resultados alcançados em seu arriscado trabalho. Saporra, o General, prontamente atendeu ao convite e fez um breve relato oral dos fatos ocorridos.

─ “Há 12 anos, quando iniciamos a “limpeza”, as ratazanas eram cruéis, ameaçadoras, mas conseguíamos fugir de seus ataques. Poucos de nós sucumbiram sob a ação daqueles dentes assassinos. Aos poucos os ataques foram se tornando mais frequentes e violentos. Então, respondemos com limpezas mais intensas, mesmo a correr o risco de sermos chacinados. Custou um pouco, mas há cerca de 4 anos, tenho notado que a frequência dos ataques vem sendo reduzida. Se antes ocorriam de 4 em 4 semanas, passaram a acontecer de dois em dois meses. Conversei com meus coronéis e eles me afirmaram que as ratazanas estavam a ficar menos violentas ou talvez nem tão esfomeadas. Achei que estávamos no caminho certo, embora não soubéssemos os reais motivos dessa trégua, pois a limpeza ainda estava longe de acabar”.

Saporra fez silêncio para beber água e os conselheiros confabularam entre eles, em voz baixa. Em seguida, o mais antigo, bastante aflito, pediu-lhe que conclui-se o relato.

─ “Nos últimos dois anos só recebemos dois ataques. Mesmo assim, as ratazanas eram bem menores e fugiam quando roncávamos mais alto. Ficamos muito felizes, pois pensamos que, enfim, livráramo-nos nossa nação das quadrilhas esfaimadas. Mas não era nada disso que estava a acontecer. Os senhores se lembram da Merreca? Recordam que nossa academia de ciência afirmou que se tratava de uma perereca fêmea? Pois é, na verdade Merreca é hoje um macho adulto do sapo gigantesco do lago Titicaca, um tal de Telmatobius culeus, que passou a predar a todos, inclusive as ratazanas esfomeadas. Come-as como se tratassem de camundongos apavorados“.

O implacável Merrecão esfomeado

O implacável Merrecão esfomeado

Ontem, por fim, Merrecão se apresentou ostensivamente ao General. Avisou-lhe que, seguido por seus sequazes, irá destruir a Nação, mas não sem antes deglutirem todos os anuros locais sufocados. O cheiro daquele sapo enorme era tão intenso e terrível que, sem dúvida, houvera sido a fétida perereca do passado.

Contaminação


O desenvolvimento contínuo e acelerado de um país precisa ser muito bem planejado para o médio e longo prazos, tanto por parte do governo, quanto por investidores. É usual que as engenharias requeridas sejam previstas e aplicadas, para responderem às demandas desse processo.

Entretanto, a Gestão do Ambiente, onde são implantados novos negócios, não recebe o mesmo tratamento. Daí resultam elevados custos ambientais, a gerar ameaças e desastres para sua população, bem como retroimpactar de forma adversa e violenta a economia do país, e os próprios empreendimentos em operação.

Esse é o caso da contaminação do espaço físico na China atual – ar, água e solo –, conforme mostram as imagens publicadas neste artigo. Até o guarda de trânsito parece pedir socorro.

Reprodução de O Globo

Reprodução de O Globo

O solo e a água constituem o substrato do planeta, ou seja, do macrossistema ambiental que ele detém. Em conjunto com o ar [e seu oxigênio], foram os fatores básicos para a criação e evolução da biota – flora, fauna e homem, nesta ordem.

Porém, se foram necessários bilhões de anos para que o planeta apresentasse os sistemas ecológicos que hoje possui, o mesmo tempo não será requerido para destruí-los. Basta retirar as propriedades originais do ar. Basta intoxicá-lo.

A alarmante poluição do ar na China

A alarmante poluição do ar na China

Não há como escapar a esse ataque “pseudo-desenvolvimentista”, pois as plumas de gases tóxicos chegarão à água e ao solo, contaminando-os gravemente de variadas formas.

A brutal contaminação das águas

A brutal contaminação das águas

Os agentes químicos da poluição industrial

Os agentes químicos da poluição industrial

A contaminação do solo e a perda de milhões de hectares de terra

A contaminação do solo e a perda de milhões de hectares de terra

O resultado desse cenário chama-se “depravação do ambiente”. É provocada pela falta de planificação do desenvolvimento. É inexorável e ruma para a eliminação de toda a biota chinesa, com o bicho homem incluído.

De forma simplificada pode-se dizer que, sem água em quantidade e qualidade, a flora morre e apodrece (é oxidada). Dessa forma, reduz-se o ciclo da fotossíntese e o oxigênio essencial é mal consumido, atingindo a concentrações muito baixas, insuficientes para a vida, sobretudo em ambientes aquáticos.

Por fim, com a vegetação já em declínio acelerado, o espaço domiciliar da fauna fica cada vez mais reduzido – áreas de dessedentação, alimentação, reprodução, proteção e descanso –, levando ao desaparecimento das espécies sensíveis que, em nenhuma hipótese, conseguem sobreviver no ambiente humano.

Por algum tempo, somente permanecem as espécies que vivem na casa do homem, as espécies com hábitos peridomiciliares – ratos, aranhas, escorpiões, cobras, mosquitos, baratas e outros insetos. A partir daí há uma alta probabilidade de ocorrência de zoonoses, endemias, epidemias e pandemias, além de acidentes com animais peçonhentos que, por uma cretinice, o homem trouxe para dentro de seu próprio quintal, enquanto acreditava que “desenvolvia o país”.

E agora, há de fazer o quê?

Primeiro, compreender que um PIB espantoso de cerca de 14 trilhões de dólares é medida de crescimento, nunca do desenvolvimento de uma nação. Sobretudo, quando possui população próxima a 1,4 bilhão de habitantes, que vive desde 1949 sob regime unipartidário, imposto pelo Partido Comunista Chinês.

Depois, ter certeza que para desenvolver uma nação, de forma estrategicamente planejada, é necessário que o Estado seja o servidor da Sociedade, um reflexo da educação e civilidade de ambos. E a atuação do Estado Chinês encontra-se muito aquém disto.

Por fim, antes de pensar em como aumentar seu PIB, deve debruçar-se sobre seu amplo território, conhece-lo profundamente, identificar em detalhes suas sensibilidades ambientais, de forma a executar somente projetos que garantam a sustentabilidade de seu vasto Ambiente.

Com certeza, o custo dos recursos ambientais de que a China se apropria para produzir será mais reduzido, em especial as fontes de energia, a água e os milhões de chineses treinados.

E no Brasil do Século 21?

O PIB brasileiro é inferior ao norte-americano (17 trilhões) e ao chinês (14 trilhões). Alcançou a 2,4 trilhões de dólares. Sobretudo, com uma população estimada em cerca de 200 milhões de habitantes, que vive sob o império de incertezas políticas, criado por uma oligarquia que pode estar à beira da falência eleitoral.

O Estado Brasileiro desconhece o significado da palavra Nação. Usa a Sociedade como uma servidora silenciosa aos interesses particulares de seus líderes políticos. Esse cenário requer sua rápida inversão democrática, pois, do contrário, a sociedade sofrerá consequências ainda mais desastrosas a partir de 2015.

Por fim, o Estado deveria conhecer em detalhes o Ambiente de seu vasto território e nele implantar somente projetos compatíveis com sua sustentabilidade. Porém, tem feito justamente o contrário. Seus dirigentes são mitomaníacos, fazem promessas que nunca realizam e deixam chagas abertas no território brasileiro, criadas por obras interrompidas e atrasadas.

Um dos inúmeros exemplos é o projeto da faraônica Ferrovia Transnordestina, com canteiros de obras parados, desde o Piauí até Pernambuco. Os impactos decorrentes sobre o Ambiente se avolumam, afetando de forma nefasta e significativa o Ar, a Água, o Solo, a Flora, a Fauna e o Homem. As perdas e danos desse cenário ambiental são inimagináveis, no mínimo para a região coberta pelo projeto.

Obra parada da Ferrovia Transnordestina - Piauí

Obra parada da Ferrovia Transnordestina – Piauí

Mas esse é o argumento do partido que governa o Brasil há 12 anos: “O ‘meio ambiente’, sem dúvida nenhuma, é uma ameaça para o desenvolvimento sustentável”.

Essa indecência foi verbalizada por uma ministra brasileira, durante evento internacional promovido pela ONU, em dezembro de 2009, para tratar do tema “Mudanças Climáticas”, realizado em Copenhague, DNK.

A irresponsabilidade na produção


Era do consumismo desenfreado.

Os mercados consumidores crescem em alguns países, mesmo com economias deficitárias e risco de recessão. Alguns produtos de países desenvolvidos têm seus preços reduzidos de modo à atender a uma clientela maior. Para tanto, sua “produção é exportada” para países que possuem mão-de-obra barata.

Países que usam operários sem contrato, a trabalhar 60 horas por semana, em verdadeiro regime de semiescravidão. Isso não é globalização, é ganância. Os resultados são produtos de má ou péssima qualidade.

Por óbvio, têm-se clientes não atendidos, a sofrer as consequências nefastas dos produtos que adquiriram.

Focalizamos neste artigo quatro casos de interesse para todos os consumidores: a explosão de telefone celular, o notebook incendiário, o constrangedor traje para ginástica olímpica e o veículo com defeitos produzidos pela fábrica.

Em nenhuma das situações nos referimos às marcas dos produtos, visando a evitar retaliações jurídicas…

Explosão de celular

Alguns modelos de celular, conhecidos como inteligentes (smartphones), já explodiram em diversas ocasiões, causando danos pessoais e patrimoniais a seus proprietários.

Resultados da explosão de um celular

Resultados da explosão de um celular

Explosão de celular no portaluvas de um automóvel

Explosão de celular no porta-luvas de um automóvel

Notebook incendiário

Alguns modelos de laptops e notebooks, talvez também de tablets, devem ser operados em bases de metal, vidro ou madeira sólida. Sobre panos, almofadas e camas têm risco de causarem incêndios.

Cuidado, laptop incendiário!

Cuidado, laptop incendiário!

Constrangimento da atleta

Os trajes utilizados nas provas de atletismo muitas vezes são extremamente justos. Os maiôs das atletas da ginástica de aparelhos são justíssimos. Agregue-se a isso o fato de que sempre estão vestidos diretamente sobre a pele. Imagine então se sua costura se rompe durante uma apresentação nas barras paralelas. Sem dúvida, será muito constrangedor para a atleta. Trata-se de um ultraje sem explicação.

Constrangedor e indesejável para uma atleta de qualquer idade!

Essa imagem é montada. Mas seria constrangedora para a atleta.

Veículo importado com defeitos de fábrica

Por fim, têm-se as empresas montadoras que produzem defeitos no lugar de veículos. Temos um grande amigo que adquiriu um deles, com os seguintes problemas:

  • Vazamento de óleo em rolamento do motor após 24 horas da compra.
  • Vidro elétrico traseiro não abre.
  • Mesmo depois de várias revisões, o vidro continua a não abrir.
  • Bateria acabou em menos de um ano, sem garantia.
  • Ar condicionado não funciona desde a compra do veículo.
  • Ferrugem de fábrica.
  • Quebra das duas presilhas do para-choque dianteiro; não tem conserto.
  • Borracha das portas traseiras danificadas.
Carro novo enferrujado de fábrica

Carro novo enferrujado de fábrica

Nosso amigo devolveu o veículo para a revenda autorizada, entrou com ação na justiça e está sem carro há cerca de seis meses, a aguardar a reposição do defeito produzido pela fábrica

Escolha outra tripulação


Enviado pelo correspondente Zik Sênior

Sem todas as cartas náuticas e um Plano de Navegação bem detalhado, navio nenhum segue ao mar. A singradura pelos oceanos foi mais aleatória no tempo dos grandes descobrimentos europeus. Contudo, há muitos comandantes que ainda teimam em redescobrir o planeta às cegas. Possuem uma espécie de esquizofrenia da dominação.

Rochedos, falésias escarpadas e recifes submersos estão cada vez mais próximos dos navios cegos. Os ventos são fortes e as ondas atingem a 8 metros de altura. O navio brasileiro está desgovernado na entrada da enseada, quase sem tripulantes que saibam como navega-lo.

Um quadro simplesmente assustador

Um quadro simplesmente assustador

Tripulantes mais religiosos preferiram se jogar ao mar. Mas, ainda assim, a tripulação continua inoperante. O comandante sequer consegue segurar o manche, que dirá dirigi-lo. Desconhece as posições do leme e para onde elas conduzem o navio.

O desastre pode ser iminente se não conseguir apoio da tripulação. Porém, ela está a promover lutas intestinas, motins à bordo; criar comissões de conselheiros e forças-tarefa para tentar descobrir o que está a acontecer no retorno da viagem da eterna exploração dos recursos do país.

A maioria quer participar desses grupos de discussão, mas a burocracia exasperante impede que, em curto e médio prazos, sejam criadas quaisquer comissões e forças-tarefa formais. São processos doentes de salvação que, neste navio, demandam anos para serem implantados, enquanto, a cada segundo, ele mesmo naufraga de forma inexorável.

Ademais, como se ainda não bastasse, gangues de tripulantes promovem investidas e saques aos cofres de ouro da embarcação. Acreditam que vão sobreviver ao inapelável naufrágio. Por sinal, o comandante só pensa no novo navio que espera capitanear no futuro. O povo está revoltado e vai encarcerar o comandante criminoso.

A situação prevista para passageiros e tripulantes

A situação prevista para passageiros e tripulantes

Para a população que aguarda o desenlace em terra firme o quadro é de grande desolação. Curiosos, familiares e amigos dos passageiros e tripulantes à bordo do “Navio da Desgraça” nada podem fazer, a não ser apostar que certos indivíduos serão salvos, quem sabe alguns de seus familiares.

É possível ver que grupos de comerciantes armam barracas para promover venda de sucos e sanduíches aos que assistem ao naufrágio. Também começam passeatas e críticas fortes ao comandante e sua tripulação. Lê-se faixas com dizeres ofensivos, não raro esdrúxulos.

O belo navio parece que está a tombar. Gritos, correrias e furtos se sucedem. Resta cuidar da renovação completa dos navegadores desastrados. Estes nunca mais deverão singrar nossos mares.

Bateu e naufragou! Este foi o “comando” do navio

Bateu e naufragou! Este foi resultado do “comando” do navio

A Inocência


A Inocência

Recebi há pouco essa foto e, como num estalo, a primeira palavra que me veio à mente foi “Inocência”. Assim, vou chama-la de Pureza, pois creio tratar-se de uma inocente menina, da qual desconheço a espécie. Até porque, afinal, a quem importaria qual seria sua espécie? …

A Inocência

A Inocência de Pureza

A fragilidade desta pequena ave, sua plumagem de filhote, clama por proteção e trato suave. Clama, sobretudo, por liberdade. Trata-la bem, sem dúvida, é permitir-lhe permanecer sempre liberta. Somente assim ela poderá crescer, ainda que não aumente de volume e peso.

Observando a foto de Pureza é-me impossível não fazer uma analogia com a história do Brasil durante o último século. Neste período a sociedade brasileira, por diversas vezes “submissa e engaiolada”, não descobriu os meios para crescer livre de oligarquias e ditaduras, com suas permanentes corrupções. Na verdade, manteve-se abatida e enfileirada tal como uma manada de gado para corte.

Assim foi nas ditaduras e oligarquias do período Vargas, nas subsequentes ditaduras militares que duraram 25 anos (de 1964 a 1985), bem como nas oligarquias corruptas de José Sarney e Collor de Melo que se diziam democráticas, embora tenham destruído completamente a economia do Estado e as forças internas propulsoras do desenvolvimento socioeconômico.

No curto período de Itamar Franco, iniciado em 1992, depois de “seis pacotes econômicos de seus antecessores”, teve início uma espécie de salvação do país, mesmo diante de inúmeras crises no mundo. Diz um artigo dos economistas Ana Paula Menezes Pereira e Fernando Seabra, da Universidade Federal de Santa Catarina: “A década de 1990 foi caracterizada por uma sucessão de crises cambiais, como a do Sistema Monetário Europeu, em 1992; a do México, em 1994; a asiática, em 1997; a russa, em 1998; e a brasileira, em 1999”.

E foi nesse torvelinho que Itamar Franco, e depois Fernando Henrique, implantaram com sucesso o chamado Plano Real, dando uma relativa estabilidade econômica ao país. Destaca-se que a oposição contra o plano econômico era bastante aguerrida, sobretudo a encabeçada por Lula da Silva. Há quem diga até hoje, sem qualquer prova , que a “privataria tucana” foi a responsável pelos abusos com que convivemos nos dias atuais. Esses arriscados analistas decerto irão afirmar suas mesmas “verdades particulares” daqui a 100 anos: o culpado foi o anterior a nós. Isso é patético.

Porém, Lula da Silva foi por fim eleito Presidente da República em outubro de 2002, na sua quinta participação como candidato pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Conseguiu obter “apoio político” de um lote expressivo de partidos, inclusive os dos ex-presidentes Sarney e Collor, a quem acusara inúmeras vezes de se terem beneficiado pela corrupção que conduziam no país.

Seu primeiro governo foi bem orientado, mantendo a política econômica de seu antecessor e por sorte, em um período que o mundo estava comprador de commodities. Sem qualquer cerimônia e fundamento, Lula da Silva trocou o que chamava de “imperialismo norte-americano” pelo moderno imperialismo neocapitalista chinês. Até que, em maio de 2005, foi escancarado o Escândalo do Mensalão, que consistia na compra de votos da “base aliada” no Congresso, de acordo com os interesses do poder executivo. Mais de 75 milhões de reais foram desviados do Banco do Brasil para diversos ilícitos, conforme foi apresentado pela TV Senado, na Ação Penal 470. Curiosamente, esta ação somente foi julgada a partir de agosto de 2012, com Lula da Silva já fora do governo. Ileso de qualquer acusação, o cego e surdo presidente fez sua sucessora, a “doutora” Dilma Rousseff.

Talvez, na tentativa de implantar uma oligarquia ditatorial no país, os governos do PT durante os últimos dez anos, plenos de desgoverno e sem prioridades de investimentos para suprir as carências da sociedade, tenham enfraquecido a moral da nação brasileira, cantada em prosa e verso pela mídia internacional.

Parecem ser fatos consumados, mas na verdade ainda não são. Resta à sociedade brasileira continuar a levantar a voz sem qualquer inocência, mais alta do que o silêncio de Pureza, para construir uma verdadeira e transparente democracia.

Reforma Política já!


Brasília, Goiânia, Manaus, Belém, São Luiz, Teresina, João Pessoa, Natal, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Vitória, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre, são as capitais onde ontem ocorreram novos protestos generalizados contra a forma imoral com que o país vem sendo governado.

A lembrar, protestos em Fortaleza aconteceram anteontem, iniciados na hora do jogo Brasil x México. Mesmo assim, reuniram cerca de 80 mil participantes, quem sabe fanáticos em futebol mas, decerto, a odiar o circo da super-corrupção, com lona montada e estaiada no país, há pelo menos dez anos.

Têm-se o informe de que eventos similares de repúdio ocorreram em mais 80 cidades, com destaque para Campinas e Ribeirão Preto. Contudo, as cidades do Rio e São Paulo são as principais caixas da ressonância política do país. Assim, no Rio foram estimados pela CNN mais de um milhão de manifestantes, enquanto em São Paulo, pouco mais de 100 mil. São números expressivos que notabilizam a atuação dos cidadãos brasileiros com maior consciência de seus direitos.

A maioria das passeatas foram concentradas e tiveram início normal, pelo que vimos na televisão. A visão de uma câmera aberta é mais ampla do que a da presença no chão. A única exceção parece ter ocorrido na cidade de Salvador, onde a política militar foi violenta, cruel e traiçoeira desde o início da passeata baiana. Talvez haja atuado seguindo estritamente as ordens do patrão, o governador da Bahia.

Área de concentração no Rio - Sérgio Borges, da Reuters

Área de concentração no Rio – Sérgio Borges, da Reuters

Na cidade do Rio foi bem diferente. Os manifestantes anunciaram antecipadamente por onde seguiria a passeata, bem quais os recados que desejavam dar aos políticos de forma pacífica. Ou seja, sair da Igreja da Candelária e seguir até o prédio da prefeitura, chamado de Piranhão desde que foi construído, para “conversar com Eduardo Paes”. Paes, decerto trancafiado e apavorado em sua “Sala de Situação”, assistiu à passeata em tempo real, no ar condicionado e imagens de alta resolução.

Somente dois canais de televisão estavam transmitindo o evento do Rio: a Globonews e a Record. Optamos pela Record, dado que o narrador do programa dava o exato nome aos bois: manifestantes apartidários, militantes radicais, vândalos e criminosos.

Boa parte dos militantes foi retirada pelos manifestantes, que não permitiam a ninguém carregar bandeiras de partidos políticos. No entanto, os primeiros a chegarem ao Piranhão, com um batalhão de choque perfilado nas escadarias da prefeitura, foram os vândalos e os criminosos. Apesar de serem relativamente poucos – não chegaram a “200 elementos” –, soltaram morteiros sobre os policiais militares e os agrediram com pedradas e pedaços de madeira. Fizeram diversas fogueiras na Avenida Presidente Vargas, destruíram pontos de ônibus, saquearam lojas comerciais, puseram fogo em cabine da PM e, por fim, saquearam e incendiaram um carro da imprensa.

Foi a partir daí que a passeata tornou-se uma violenta agressão policial, sem distinção das categorias dos manifestantes. Todo o aparato policialesco armado em defesa do prefeito, foi pessimamente organizado. E desandou a perseguir qualquer pessoa que participasse ou não das manifestações. Usando dois Caveirões fortemente armados, saíram do fim da Presidente Vargas e seguiram a cometer atrocidades até os bairros da Lapa, Flamengo e Laranjeiras.

Nosso filho mais novo, que jogava futebol no aterro do Flamengo com amigos, nos confirmou ao retornar para casa que “um Caveirão passava na Praia do Flamengo e lançava bombas de gás lacrimogênio de forma aleatória”. Mesmo que situados distantes destes quase homicidas mal treinados, sentiram ardência nos olhos, dificuldade de respirar e secura na garganta. Imaginem os que estavam na passeata como alvos destes animais!

Cremos só haver uma solução para conter a depredação do erário público, como ocorre em todo o país: completa Reforma Política! O Brasil só precisa de ter 10 Ministérios, nenhum cargo de confiança, nenhuma secretaria especial ou extraordinária, fim dos salários indiretos para os três poderes e espaço para que a iniciativa privada faça os investimentos que não cabem ao Estado.

Via Crucis


Por Ângela Dutra de Menezes

O viaduto das Bandeiras, vulgo Viaduto do Joá, vai cair – só não se sabe quando. Mas que vai, vai. O Engenhão rachou e está fechado para reparos. Dizem que um ventinho à toa, de apenas 60 km por hora, pode derrubar a cobertura metida a sebo, cheia de nove horas e de erros no projeto ou na execução do próprio. A Vila do Pan está com a metade dos prédios interditados, ameaçados de desmoronamento. O túnel da Grota Funda tentou desabar, mas uma meia-sola no teto rachado, dizem, resolveu o problema. Será? Os BRT respiram por aparelhos: a pista na qual circulam, apesar de ter menos de um ano de inaugurada, apresenta crateras. Ao desviar dos buracos, os motoristas atropelam os pedestres que atravessam a Avenida das Américas. As Vans – desde sempre um suspeito transporte alternativo, muitas servem para lavagem de dinheiro – agora contratam motoristas estupradores profissionais.

Corrosão no Elevado do Joá

Corrosão no Elevado do Joá

A serra fluminense, em dolorosa monotonia, voltou a assistir a tragédia das encostas sepultando famílias inteiras. Para os sobreviventes, acusados de culpa por construírem suas casas em áreas de risco – como se tivessem condições de morar no Leblon -, seguiu-se o espetáculo de praxe: desfile de autoridades com ar compungido e a promessa de liberação de milhões de Reais, que ninguém sabe aonde novamente irão parar. Apesar de a responsabilidade não ser do Estado ou do Município, apartamentos do Programa Minha Casa, Minha Cova – opps, quero dizer, Minha Vida – foram derrubados, pois, na construção, já apresentavam rachaduras dramáticas. A vila de sobreviventes de outras enchentes, construída em Caxias, Baixada Fluminense, não aguentou a primeira chuva. Novamente, os moradores enfrentaram alagamentos e as casas, aparentemente de papelão, encharcaram. Realmente, a população de baixa renda é tratada com uma consideração e um respeito emocionantes.

O recapeamento das ruas da Zona Sul do Rio de Janeiro é uma lambança, nem bueiros escaparam, a maioria repousa agora sob camadas de asfalto. As obras do metrô viraram a cidade de cabeça para baixo, não há palavra que defina o caos do trânsito carioca. Em Ipanema, a Praça Nossa Senhora da Paz e suas árvores centenárias foram destruídas e a pobre da Perimetral, área portuária, que nunca deu problemas, está sendo derrubada porque “é feia”. O Aterro do Flamengo, apesar de tombado, corre o risco de ser desfigurado pela iniciativa privada.

As obras da Copa do Mundo 2014, com raras exceções, estão atrasadas e, no grande temporal do dia 5 de março, o Maracanã alagou, virou o espaço perfeito para jogos de Water Polo. A FIFA, com a pulga atrás da orelha, já avisou que vai mandar vistoriar cada estádio declarado pronto porque, vamos combinar, motivos não faltam para desconfiarem de nossa engenharia. Para completar, horror dos horrores, as pistas e as piscinas para o treinamento dos atletas brasileiros estão sendo derrubadas porque assim o Comitê Olímpico Internacional decidiu. Dá para acreditar?

As maracutaias não terminam por aí. Há uma semana, o Senado Federal aprovou uma resolução permitindo que as obras da Copa de 2014, que não ficarem prontas a tempo, podem ser concluídas depois do evento, conservando as benesses de um financiamento facilitado. Explicando melhor: os governos municipais e estaduais estão livres da responsabilidade de cumprir prazos – coisa mais chata – por saberem que não perderão o dinheiro fácil da Caixa Econômica Federal e do BNDES. Atenção: neste rol estão incluídas mais de 50 obras, num custo aproximado de 30 bilhões. Mas ser rico é bom demais, quem se importa com 30 bilhões? Nossa saúde faliu, falta até Band Aid nos hospitais e a gente emprestou para Cuba quase um bilhão e meio de Reais. Dinheirinho que podia dar uma boa ajuda aos infelizes que dependem do Sistema Único de Saúde e morrem, desprezados e iguais moscas, jogados no chão dos hospitais.

No governo federal, o escândalo das redações do Enem, com erros de português inaceitáveis na escola primária e onde valeu até receita de macarrão instantâneo, aponta, com segurança, o alto nível dos futuros profissionais brasileiros. A seca no Nordeste, a mais violenta em 50 anos, está jogada ao Deus dará. Num local onde o povo perdeu tudo e, em desespero, come ratos, os atravessadores cobram 180 Reais por um caminhão-pipa. O governo? Isso não é problema dele. A Petrobras, ex-orgulho pátrio, teve um prejuízo em 2012 de 22 Bilhões de Reais. Mas há quem afirme que, fala-se muito no prejuízo, para desviar a atenção dos leilões onde, em meados de maio, serão oferecidos ao distinto público estrangeiro 289 áreas de exploração, com potencial de 30 bilhões de barris. Meu Deus… A inflação come solta – eu sei, faço as minhas compras, pago com o meu dinheiro – e o Pibinho de 1% liberou geral, entre as autoridades, a Síndrome do Small Dick. Está todo mundo falando grosso para provar que é macho. Menos a presidenta, of course.

O Congresso Nacional é uma infelicidade. Nem gosto de falar no Pastor Feliciano na presidência da Comissão de Direitos Humanos – alguém sabia que, antes de Feliciano, a CDH era um local dominado por Satanás? Pois é, palavras dele. Imaginar os mensaleiros condenados José Genoíno e João Paulo Cunha dando palpites na Comissão de Constituição e Justiça é um ultraje à minha cidadania. Comentam a boca pequena – mas eu não assino embaixo – que o próximo ministro do Supremo Tribunal Federal será indicado por outro condenado: José Dirceu.

Se pensar só mais um pouquinho, citarei outros escândalos sem problema nenhum. Eles pululam no Rio de Janeiro, transbordam no Brasil. Meu país perdeu o rumo, a ética, a vergonha e até a noção de perigo. Dá vontade de chorar.

Então, hoje, não escreverei mais nada. Estou cansada de engolir sapo, cansada de não ser respeitada, cansada do lamaçal que me envolve.

Ser brasileira transformou-se numa vergonhosa via crucis.

Ângela Dutra de Menezes é escritora e jornalista – Reprodução do Portal de Anna Ramalho.

Há um estranho no ninho


A cultura escrita é inseparável dos atos violentos que a reprimem” – Guillaume Chartier, pastor huguenote, século 16.

A “fé religiosa” sempre deixou Charles Darwin atônito e perplexo. Sobretudo por ter visto que todas as sociedades ancestrais criaram suas coleções de deuses universais distintos, sempre a explicar o que desconheciam e consideravam ser transcendental.

Podia ser uma sociedade mesopotâmica, africana, asiática ou americana, porém, com seres sobrenaturais sempre presentes na Terra, forçando-a a estranhas venerações e, não raro, a sacrifícios em sua “homenagem”. Meio a danças grotescas, cantavam cânticos para os deuses e ofereciam-lhe uma nova alma através da “degola de um eleito”. Ao fim, levantavam as mãos para o céu e agradeciam não ser “o degolado da vez”; tal como fazem hoje os jogadores da seleção de futebol após um raro gol.

O homem ergueu gigantescos monumentos, pirâmides, catedrais e templos para demonstrar as dimensões de sua temência e devoção. Em algumas sociedades, era nesses mesmos monumentos, que seus apóstolos realizavam sistemáticos rituais de sangue para satisfazer a insaciável sede dos deuses.

“Mas o tempo foi rodando nas patas” dos apóstolos mais poderosos, até que vários deles resolveram conversar diretamente com os deuses mais decididos. Quando eles retornaram disseram que haviam sido condecorados e empossados com o título de “Chefe da Sociedade”, que se haviam santificado e tornados quase divinos.

Assim foi instalado e aprovado o poder de um único homem sobre “sua sociedade”. Os “não santos” foram orientados (obrigados) a entubar a própria cauda, dando origem ao fenômeno político conhecido pela expressão “agora é que a porca torce o rabo!”.

Durante quase sete séculos, contados a partir do século 12 (Período da Inquisição[1]), os santificados europeus foram donos absolutos do poder nas nações que cresciam. O poder na Europa era eclesiástico e monarquista. Juntos, criaram formas severas de punição para todos que consideravam “sofrer de crise de fé”: da prisão, passando por torturas, até a pena de morte, realizada em assassinatos públicos.

No século 20 o poder monárquico-eclesiástico até então vigente cedeu lugar a duas guerras mundiais e a nefastas ditaduras, que logo se alastraram da Europa (Alemanha, Itália, Espanha e Portugal) para a América Latina (notórias em Cuba, Argentina, Chile e Brasil).

Enfim, após a IIa Guerra Mundial, a recém-nascida democracia começou a ganhar forma com ênfase na social-democracia europeia e no capitalismo democrático norte-americano. Esses dois sistemas de governo que, para serem bem implantados e mantidos, requerem grande habilidade e competência de seus Estadistas, cruzaram a entrada do século 21 com vários corpos de vantagem sobre os demais.

Verifica-se, no entanto, que o gigantesco Capitalismo de Estado Chinês, nada democrático, tornou-se a nova linha de conduta comercial para nações do terceiro mundo – sobretudo da África e da América Latina. São nações “em eterno arranque rumo ao desenvolvimento” porque lhes falta combustível de gestão pública, além da infraestrutura básica para a distribuição e exportação de seus produtos.

Todavia, este quadro poderá ser bem mais agravado, função do litígio causado pela Coreia do Norte, que segue cegamente para um elevado risco de guerra. O “nanico arrepiado”, Kim Jong-Un, decerto doente mental, segue a fazer ameaças um tanto desproporcionais a Coreia do Sul e aos Estados Unidos da América. Não considera o outro lado da mesma moeda: as perdas de vidas norte-coreanas em massa, seu território e patrimônio devastados, bem como os efeitos para a economia mundial que seriam muito danosos e não interessam a qualquer nação do planeta, incluindo Rússia e China.

O Brasil já optou por diversos regimes de governo depois da IIa Guerra. Hoje se encontra à beira do Capitalismo Intervencionista de Estado. Trata-se de uma espécie de ditadura de papel, que faz o Brasil aparecer para o mundo como pouco governado.

A mídia brasileira segue martelando que o deputado federal Marco Feliciano (Partido Social Cristão), também pastor evangélico do templo “Assembleia de Deus Catedral do Avivamento”, foi eleito para o cargo de Presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, no parlamento nacional. Dá ênfase exagerada à PEC das Empregadas, às multas do lixo jogado nas ruas da cidade do Rio, ao estupro da turista francesa, à corrupção de ex-prefeitos, aos conflitos do poder judiciário, enfim, cria nuvens de fumaça que nublam fatos mais relevantes, como o destino final em aterro de lixo dos mensaleiros e sua tropa, provavelmente incompleta, e a satisfação que lograram com rituais de corrupção a acalmar sua insaciável sede de poder.

A propósito, lendo acima o invejável currículo de Seu Feliciano – deputado e pastor evangélico, homofóbico e racista, acusado de estelionato nas horas vagas – é normal concluir que se encontra no cargo errado. Ou no cargo certo, porém na Era Medieval. É possível que Seu Feliciano esteja sofrendo “uma crise de fé”. Seria medida razoável manda-lo a Coreia do Norte, para propor uma DR (Discussão de Relacionamento) com Kim Jong-Un.

Sir Jonh Lennon

Sir John Lennon


[1] Em tese, a Inquisição Romana ou “Congregação da Sacra, Romana e Universal Inquisição do Santo Ofício” existiu entre 1542 e 1965. Por ocasião do Concílio Vaticano II, em 1965, durante o pontificado de Paulo VI, assumiu seu nome atual – “Congregação para a doutrina da Fé”.

Inteligência versus Invasão


O Serpro – Serviço Federal de Processamentos de Dados, que se encontra com sede em Brasília, é filho dileto da cidade do Rio de Janeiro. Nasceu em 1º de dezembro de 1964. Possui hoje unidades operacionais distribuídas em onze estados, além de escritórios de serviço nos demais. Chegou a deter nas décadas de 1970-1980 o maior parque industrial de informática da América Latina, superando em muito os parques dos maiores bancos comerciais, privados e públicos.

Mas sua potência eletrônica não foi seu carro-chefe. Apenas o instrumento para a ampla emergência e difusão da inteligência, criatividade e capacidade de inovação de muitos de seus programadores e analistas de sistemas. Grandes sistemas brasileiros nasceram e evoluíram dentro do Serpro – Sistema de Arrecadação do Imposto de Renda (pessoas física e jurídica), Cadastro Nacional de Contribuintes e Sistema Eleitoral são alguns exemplos de meios computacionais que, no bom sentido, continuam a varrer todo o território brasileiro.

Mais recentemente desenvolveu ferramentas para estados e municípios. Alguns exemplos são o Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Federal, o Sistema Integrado de Administração Financeira para Estados e Municípios e o Sistema Integrado de Tributação e Administração Fiscal para Estados e Municípios.

Contudo, mesmo sendo um agente eficaz e eficiente em assuntos de receita tributária automatizada, o Adestrador do Leão parece que corre riscos de levar patadas e mordidas sanguinárias. Falamos mais a frente.

No Rio de Janeiro alguns funcionários aposentados do Serpro criaram um grupo de amigos para trocarem ideias, atualizar projetos de novos negócios e fazer a boa comédia com eles próprios. Batizaram-no elegantemente de SerproVectos. Esse grupo foi crescendo e conta hoje com mais de 150 participantes, entre ex-funcionários, aposentados, funcionários atuais e outros. Nas reuniões mensais comparecem parceiros de todo o Brasil, é incrível. Faço parte do grupo há cerca de oito anos, na qualidade de ex-funcionário não aposentado (1981-1986).

Na semana retrasada (26/03/2013) mais uma vez nos reunimos no mesmo bar do Leblon para saborear alguns chopes e alimentar o eterno e imbatível bate-papo Serpriano. A maioria dos associados ao SerproVectos está aposentada, embora continue a atuar em atividades produtivas e remuneradas.

No meio da conversa fiz um comentário provocador sobre o prédio do Serpro que fica no Horto: o da antiga 7ª URO. Comentei que havia risco de ser demolido, por ocupar área pertencente ao Jardim Botânico. Enquanto aguardava alguma resposta, pensava que antes de tentar tocar na 7ª URO, o governo federal haveria de limpar as invasões de áreas públicas da União, as áreas com ocupação desordenada (favelas), os esgotos sem tratamento, o uso das casas da propriedade do Jardim Botânico por descendentes [?] de ex-empregados e até mesmo, quem sabe, a subestação de energia que lá existe.

Fachada do Serpro no Horto

Fachada do Serpro no Horto: 7ª URO

Fiquei assustado quando li no jornal O Globo da semana passada que o prédio da 7ª URO, estava na lista das demolições propostas pelo IPHAN. Isto mesmo, pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, uma instituição “com burocracia precavida” que ainda usa máquina de datilografia e talvez mimeógrafo movido a álcool.

Não pude conter minha indignação ao lembrar que nesta “Unidade Regional de Operação” nasceram soluções geniais, que as funções do Serpro são essenciais ao “faturamento de impostos” para pagar a gigantesca folha do poder federal. O Serpro não visa a qualquer lucro, é apenas um instrumento ágil e inteligente da arrecadação tributária nacional, dentre muitas outras finalidades. Dessa forma é uma ignomínia o poder federal tentar demolir seu próprio investimento público! Estará cuspindo no próprio prato que come? Mas haverá de reconstruí-lo, é claro. E, mais uma vez, com o nosso dinheiro suado.

IMPA, no círculo pontilhado da Mata Atlântica

IMPA, no círculo pontilhado da Mata Atlântica

Para finalizar chamo a atenção do “poder de fiscalização federal” para o prédio do Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada – IMPA. Foi construído dentro da Mata Atlântica, em área do Parque Nacional da Floresta da Tijuca, acima da cota 80, com entrada pela Estrada Dona Castorina. Sendo assim, pergunto:

— O CNPq, a FINEP e o BNDES deveriam ser severamente punidos por haverem financiado a perturbação caótica da vida dos moradores da Dona Castorina durante as obras do IMPA, que alteraram boa parcela da Mata Atlântica, acima da cota permitida por lei?

— Seria justo demolir a Melhor Escola de Pesquisa em Matemática Pura e Aplicada do Brasil, com nova sede inaugurada em 1981, a despeito de seus predicados acadêmicos internacionais e notórios?

IMPA e sua vizinhança, acima do Jardim Botânico

IMPA e sua vizinhança, situados no Parque Nacional da Floresta da Tijuca

Realmente, instituições como o Serpro e o IMPA correm o risco de se tornaram vítimas das demonstrações de estupidez absolutista do soberano de plantão.

As enchentes do Rio são antigas


Baseado em artigo de Lise Sedrez, California State University.

Aconteceu em janeiro de 1966 o pior evento ambiental do século XX, que paralisou a cidade do Rio. Ela mergulhou sob cerca de 250 mm de chuva, em menos de 12 horas. Isso é um volume elevadíssimo de água, 250 litros empilhados sobre cada metro quadrado do solo da cidade, em doze horas torrenciais.

Deslizamentos de solos e rochas erráticas nos morros causaram mais de 140 vítimas fatais. Os cariocas enfrentaram racionamento de gás, energia e água, esta última contaminada por esgotos que romperam os dutos coletores e transbordaram nos sistemas de drenagem de águas pluviais. As principais vias de transporte da cidade foram literalmente inundadas.

Ônibus navegando na Rua Jardim Botânico

Ônibus a navegar na Rua Jardim Botânico

As chuvas de 1966 evidenciaram o conflito entre políticas locais e nacionais. O governo da cidade do Rio de Janeiro, então Estado da Guanabara, era o símbolo nacional de resistência contra a ditadura militar, mas também era o alvo mais provável das críticas da sociedade brasileira. As enchentes foram um alerta vermelho acerca da vulnerabilidade do Rio para as chuvas de verão, especialmente para as classes mais carentes dos seus então quatro milhões de habitantes. Seja nas favelas, engavetadas nos taludes dos morros, ou distribuídas pelas planícies marginais da Baía de Guanabara, os mais pobres do Rio sempre foram as vítimas das chuvas de verão.

No Estado da Guanabara, a água sempre foi problema crítico para seus gestores, tanto na escassez, quanto no excesso. Sua escassez crônica somente foi resolvida em meados da década de 60, no governo de Carlos Werneck de Lacerda, com a implantação da captação do rio Guandu e cerca 750 quilômetros de rede de distribuição de água na Guanabara.

Mas, foram as secas no século XIX que convenceram D. Pedro II da urgência de proteger os mananciais do maciço da Tijuca, coberto por fazendas de café – e daí surgiu o projeto de reflorestamento da Floresta da Tijuca. Mas secas, que se duram semanas antes de serem percebidas claramente como ameaças, carecem das chuvas de verão, que são certezas previstas e tudo arrastam em poucas horas.

Muitos cidadãos testemunharam vários destes momentos dramáticos de enchentes desde o século XVI. Sejam como “cabeças d’água” – rios que transbordavam fora de seu leito menor – ou as ameaçadoras combinações de ressacas e marés altas. As chuvas mais intensas faziam com que pântanos e lagoas retomassem a parte baixa da cidade mal ocupada, espaço “conquistado” com demorados e custosos aterros. Normalmente, estúpidos aterros, como os da região portuária do Rio.

A partir da década de 1860, a combinação de chuvas e epidemias de zoonoses nos verões cariocas tornou a cidade indesejável para a sociedade, que, quando podia, fugia ou para a região onde é hoje o bairro de Santa Teresa (então Morro do Desterro) ou corria para a serra de Petrópolis, caso as estradas não estivessem intransitáveis.

Se chuvas intensas são eventos ambientais naturais e fortuitos, seus resultados podem ser fenômenos sociais adversos. A partir do século XX, o impacto das enchentes se torna mais evidente no cotidiano da cidade. A cidade moderna, feita de ilhas de concreto e asfalto, absorve menos águas pluviais do que áreas com solos expostos, manguezais e as florestas que a precederam. E se chuvas normais já saturam as galerias de drenagem pluvial, chuvas excepcionais são sinais óbvios de desastres humanos.

A população vivia ansiosa ao início de cada ano, temendo as águas de janeiro, fevereiro ou março. De fato, chuvas intensas ocorriam a cada cinco ou dez anos, de 1906 a 1962. Os pontos críticos de drenagem eram sempre os mesmos, os deslizamentos eram comuns, com eventuais perdas de vidas humanas. Normalmente, os primeiros 30 minutos de uma tempestade eram decisivos para distinguir um simples temporal de um verdadeiro desastre urbano. Chuvas menos intensas, mas contínuas e além da capacidade de absorção do solo construído, chegavam a ter efeitos similares.

Finalmente, em janeiro de 1966, uma tempestade violenta arrasou a cidade. As chuvas fortes e letais continuaram por mais uma semana e provocaram o colapso total do sistema de transporte, assim como um “apagão” elétrico quase completo. Como se não bastasse, no ano seguinte houve novas chuvas, em janeiro e fevereiro de 1967, igualmente excepcionais em dimensões. Causaram mais de 100 mortes no Rio e traumatizaram a Guanabara.

A história das enchentes no Rio de Janeiro obviamente não se interrompe com esses eventos. Fortes enchentes na década de 70 ocorreram em intervalos menores, e os deslizamentos e alagamentos de ruas lembravam a população das enchentes de 66 e 67. Em 1981, o Rio recebeu em um único dia de verão 15% da precipitação média anual, resultando o completo caos da cidade.

Chuvas fortes de verão é a regra e não a exceção no Rio de Janeiro. Então, por que analisar as consequências das chuvas de 1966/67? Porque, embora as chuvas das décadas posteriores não tenham sido tão intensas, suas consequências sobre a cidade mais urbanizada foram tornando-se cada vez mais críticas.

As enchentes na Baía de Guanabara costumam atingir três espaços ambientalmente vulneráveis:

  • As planícies da Baixada Fluminense, com um sistema de drenagem precário em uma área originalmente pantanosa;
  • Os aterros próximos à Baía com grandes favelas, em palafitas ou não; e
  • As favelas dos morros desmatados, frequentemente localizadas próximas a bairros de classes mais abastadas.

Deslizamentos de solos e rochas nos morros com favelas, na espremida geomorfologia do Rio de Janeiro, também atingiam outros bairros fora de áreas de risco geológico. De certa maneira, Rio é uma cidade segregada. Mas é um tipo de segregação em que os mais pobres moram nos morros e subúrbios, enquanto os mais opulentos ocupam as áreas de baixios. É o inverso das metrópoles de países desenvolvidos, onde os mais abastados residem exatamente em áreas suburbanas.

Ainda que socialmente distantes, praias e morros estão geograficamente próximos. Então, desabamentos nos morros significam que esta segregação precária, mas de fato é realizada, pois as condições habitacionais dos munícipes mais carentes afetam as áreas mais ricas. Em meados da década de 60, tendo a cidade cerca de 4 milhões de habitantes, onde aproximadamente 600 mil viviam em favelas, esta era a preocupação real da gestão pública.

Essa ruptura das barreiras sociais ocorreu literalmente em 1966, quando um deslizamento de terra, arrastando solo e pedras de um morro, demoliu um prédio no bairro de Laranjeiras com muitas vítimas fatais. Como a educação não era acessível a todos os cidadãos (e ainda não é), seguiram-se saques, racionamentos, colapso dos serviços de emergência, que lembraram aos cariocas que a chuva era apenas um de seus grandes problemas.

Imagem de um deslizamento em 1966 – Rua Cristóvão Barcelos, Laranjeiras

Imagem de deslizamento em 1966 – Rua Cristóvão Barcelos, Laranjeiras

Na verdade, as chuvas também inundavam o solo fértil das normais lutas políticas. O recém-eleito, pelo voto direto, governador Negrão de Lima (1965-1970) era opositor ao regime militar. Seu antecessor no governo da Guanabara, o jornalista Carlos Lacerda, também o era, mas como tinha receptividade da imprensa, muitos acreditavam que houvera influído nos debates sobre o ônus político das chuvas de 1966. Embora chuvas não pudessem ser atribuídas a qualquer governador (chuvas, mesmo as torrenciais, são espasmos naturais do ambiente), quando elas se repetem em 1967, ainda que com expressão menor, periódicos (como o Jornal do Brasil) usaram-nas para acusar Negrão de Lima de negligência.

Nossa opinião

O governador Carlos Lacerda (1960-1965) fez, dentre inúmeras outras obras públicas, toda a estrutura do saneamento básico (águas, esgotos e drenagem pluvial) que o Estado da Guanabara precisava há muito, deixando-a funcionando até pelo menos o ano 2000. Negrão de Lima, embora seu opositor, optou em seu mandato por concluir as poucas obras que Lacerda deixara inacabadas. Mesmo que já vivêssemos sob o jugo de ditaduras militares, eram os bons tempos em que situação e oposição eram capazes de se conciliar pela realização de bens e equipamentos urbanos.

As chuvas torrenciais, que sempre desabaram sobre o Rio, somente se tornaram notícia a partir de janeiro de 2011, com seus impactos devastadores sobre diversos municípios da sua região serrana. Vários fatores deste poderoso evento ambiental podem ser analisados, mas sempre restará uma pergunta que consideramos básica:

─ “E se essa mesma tromba d’água caísse sobre o centro da cidade do Rio, como aconteceu em 1966?”.

De acordo com o censo de 2010 (IBGE), a população do estado era de 15.993.583 de habitantes. Mas cerca de 1.400.000 de seus cidadãos habitam favelas e áreas de elevado risco de deslizamentos e desmoronamentos de encostas. Trata-se da maior população em favelas do Brasil.

Os governos estadual e municipal ainda não entenderam que todas essas famílias precisam ser reassentadas em condições dignas, ao invés de serem estimuladas pela omissão de seus governantes a ampliar ocupações desordenadas e humanamente  indesejáveis.

Mas, ao contrário, as prioridades governamentais são Carnavais, Copas de Futebol e Jogos Olímpicos. Esses eventos, de interesse relativo, acarretam a importação de mão-de-obra para a construção civil, no estado e na cidade. Mais concreto armado e pavimentos serão deitados na urbi até 2016. Findas todas as obras, caso nenhuma medida eficiente seja realizada para a erradicação de favelas, com a melhoria efetiva da qualidade de vida dessas famílias, teremos um Rio sobrecarregado, saturado, incapaz de oferecer condições de trabalho, saúde e educação ao seu novo contingente humano. Errar é humano, persistir no erro é urbano.

Em nosso entender, dadas as vocações consagradas do Rio, sua gestão pública precisa ser realizada a partir de um Plano de Sustentabilidade Ambiental de seu território, que considere sua estreita faixa de terras, localizadas entre a serra e o mar, bem como suas formidáveis manchas de vegetação secundária, expressas nos maciços da Tijuca e da Pedra Branca.

Afinal, como andam os Guarani Kaiowás?


Esse povo indígena, que se autodenominava de Paí-Tavyterã, constitui um dos povos da etnia Guarani que sobrevive na América do Sul. Guarani Kaiowá ou apenas Caiouá (no Brasil) são alguns dos inúmeros apelidos usados pelo “homem branco” (os espanhóis e em seguida os portugueses), desde quando iniciava a exploração das terras do pantanal paraguaio, em busca de possíveis riquezas naturais apropriáveis, a serem embarcadas para suas “santas terrinhas” de origem.

Cultura

Sua autodenominação possui cunho religioso e talvez político, na visão atual. Paí é “o título com que deuses e habitantes do paraíso se saúdam”. Tavyterã, por sua vez, são “os futuros habitantes do centro da Terra”.

Decerto, há muito mais cultura envolvida para explicar as conexões entre essas palavras. Talvez Paí fosse uma classe social superior e Tavyterã uma “representação política” das classes trabalhadoras. Cabem aos antropólogos detalharem melhores hipóteses para essas relações.

Xamã Paí-Tavyterã

Xamã Paí-Tavyterã

Localização

Há indícios concretos que, hoje, suas aldeias remanescentes encontram-se localizadas em uma porção do pantanal paraguaio, em áreas ao norte da Argentina, ao sul da Bolívia e em pequenas parcelas territoriais do Mato Grosso do Sul, no Brasil. Não se tem conhecimento atualizado de suas populações dispersas nesses quatro países.

O conflito brasileiro

Os Paí-Tavyterãs (hoje, no Brasil, Guarani Kaiowá ou Caiouá) não fizeram qualquer contato relevante com exploradores europeus e seus descendentes, até fins do século XIX. Porém, durante o século XX, pelo menos no Brasil, teve início o processo de tomada de suas terras no estado do Mato Grosso do Sul. Grandes fazendeiros e empresas de mineração começaram a expulsar várias aldeias Caiouás do território deste estado, a que chamam, curiosamente, de “nossa terra”.

Mas, é neste século XXI que o conflito vem crescendo de forma ameaçadora e violenta para as aldeias Caiouás. Fazendeiros contratam jagunços e criam suas próprias forças armadas para expulsarem de maneira definitiva todos os Caiouás que, segundo dizem, “ocupam suas terras”.

A resposta dos indígenas, donos históricos da terra, através de seu líder, o índio Eleseo Lopes, foi a de que permanecerão cativos na pequena área ocupada por uma comunidade que conta com 170 indígenas e que “resistirão até sua morte coletiva”.

Eleseo Lopes, líder dos Caiouás - Foto de Elza Fiuza

Eleseo Lopes, líder dos Caiouás – Foto de Elza Fiuza

Diante da ameaça de expulsão desta comunidade, sua liderança pediu ao governo para que fosse enterrada ali mesmo, junta a seus antepassados: “Solicitamos decretar a nossa morte coletiva e enterrar nós todos aqui”.

A politização do conflito

A mídia mais séria fez legítimas denúncias sobre a violência cometida contra os Caiouás, várias delas muito bem documentadas. Era essencial chamar a atenção da Fundação Nacional do Índio (Funai), dos governos, das autoridades policiais e de diversos níveis da justiça brasileira, visando a conter o quadro que se agravava diariamente.

No entanto, o governo do estado optou por politizar e judicializar o impasse. Não é capaz de perceber que indígenas não querem ser indenizados?! O Caiouás desejam apenas habitar e produzir em suas terras.

Como de praxe, o governo federal permanece em silêncio nas questões de litígios com o agronegócio e a bancada ruralista do Congresso. Bastaria que as terras da população de Caiouás fossem demarcadas, no mínimo na mesma medida de hectares/cabeça de gado, como ocorre no Mato Grosso do Sul.

Vendo essa enxurrada de ameaças e litígios intensionais, muitos usuários das redes sociais mudaram seus nomes de família. Todos passaram a pertencer à família Guarani Kaiowá. Vem sendo feita uma grande pressão moral a favor dos indígenas, que cruza diariamente o país e o planeta. O conflito acabou sendo internacionalizado, mas para os Caiouás nada mudou até agora.

Infelizmente não cremos que a estratégia adotada surtirá qualquer efeito palpável para os Guarani Kaiowás. No máximo, conseguirá cansar os leitores das redes, que apoiam as pressões e reclamam, mas à distância, não sentindo na própria carne a agressão secular que sofrem os indígenas brasileiros, onde quer que se localizem.

Impactos e Retroimpactos ambientais


Ricardo Kohn, Gestor do Ambiente.

É importante identificar o que são os impactos ambientais e suas “reações normais”, os retroimpactos ambientais. Ambos ocorrem no Ambiente e têm seus efeitos, positivos e/ou negativos, perfeitamente identificáveis e previsíveis por especialistas da área ambiental.

A visão mais correta dos fenômenos que os acarretam deve ser sempre técnica e não a baseada em leis, normas e outros diplomas legais existentes. Isso se deve ao fato de que o Ambiente não se comporta segundo as determinações da legislação vigente em qualquer país. Fosse assim e a pretensão de juristas e advogados seria um fato desastroso. Na verdade, a dinâmica do Ambiente é espontânea, aleatória e sistemática, realizada pelos sistemas ecológicos que o compõem.

Como impactos ambientais são entendidos “os efeitos de qualquer ordem percebidos no ambiente que sejam capazes de afetar as variações das transações de energia, matéria e informação, estabelecidas entre o fator ambiental (os fatores básicos são bióticos e abióticos: ar, água, solo, flora, fauna e homem) e o sistema ecológico de que participa, beneficiando-o ou prejudicando-o”.

Um exemplo de impacto adverso é o resultado do desmate de solos frágeis, que ficam expostos à ação de eventos climáticos, como chuvas e ventos. Processos erosivos são induzidos pelas variações de trocas de energia e matéria entre o ar, a água, o solo e a flora e chegam a quadros de difícil controle que se tornam vossorocas, apresentando drenagens não naturais, que causam desbarrancamentos e desabamentos de taludes, aumentando a área e o volume da vossoroca. O fator final prejudicado é o homem que criou o processo.

Voçoroca

Vossoroca

Por sua vez, os retroimpactos ambientais “constituem as respostas do ambiente impactado sobre todas as comunidades nele existentes, podendo beneficiá-las ou prejudicá-las. Quanto mais adequadamente for mantida a sustentabilidade do ambiente afetado por obras e atividades produtivas, menores serão seus retroimpactos adversos”.

Os eventos ambientais normais ocorridos na região serrana do Estado do Rio, em janeiro de 2011, são bons exemplos da ocorrência de variados retroimpactos ambientais. A mídia os tratou, de forma equivocada, como “catástrofes ambientais”. Em verdade, foram catástrofes humanas, promovidas pela desordem da gestão pública na região, que permitiu e até induziu a ocupação e o uso de áreas com elevado risco de transformação ambiental, a qual é própria do Ambiente em qualquer momento.

O comportamento do ambiente na região foi absolutamente normal e previsível. A dinâmica ambiental não teria gerado adversidades ao homem caso ele não estivesse ocupando áreas úmidas e impróprias para receber sedes urbanas, mas somente adequadas para fazer o papel natural de “corredores de drenagem” (vales e talvegues).

Enchente e inundação

Enchente e inundação

Estamos disponíveis para qualquer esclarecimento complementar. Até porque o poder público pouco ou nada fez de útil para reduzir as chances de uma nova catástrofe humana na região serrana do Rio.

Gás de pimenta e outros


Por fim, instalou-se no Brasil uma baderna decana, magistral; um vale-tudo em todos os seus ambientes, desde o Monte Caburaí ao Arroio Chuí; da Ponta do Seixas a Serra da Contamana. Tudo o que acontecer a partir de seus pontos extremos, por mais estranho que possa parecer, está valendo como se fosse o estágio normal de uma digna democracia, nunca o império da desordem.

Mas, o que temos observado, segundo nossa visão, são os comportamentos temerários do império da desordem, adotando um digno critério: “dividir as forças do inimigo para roubar os ganhos da guerra”. Todos, sem nenhuma exceção. Nós, sociedade brasileira, somos considerados inimigos.

No Congresso Nacional assistimos à profusão as ações da “base aliada”, simples bandos de facções anestesiadas pelo interesse de obterem vantagens escusas. Ficam mais ou menos juntos, embora, no fundo, desejem se destruir. A oposição tornou-se fraca, fruto do pequeno número de parlamentares que não se vendeu aos ilustres e loquazes compradores.

Tudo passou a ser leiloado nesta última década. O Congresso tornou-se uma banca de negócios de tal ordem que a OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) está a exigir que o Brasil crie leis para punir empresas corruptas. Esta é a manchete da primeira página de um jornal de hoje.

A CPMI das Cascatas do Cachoeira, armada de forma ignóbil e burra para mudar o foco do cidadão, segue reto rumo aos arquivos do Congresso. Milhares de informações que foram levantadas serão congeladas (mas não apagadas); dezenas de empresas, políticos, governadores, prefeitos e marginais de menor porte foram identificados pela Polícia (cremos que pela Polícia Federal), permitindo a realização de “entrevistas” e buscas mais profundas que mostrassem a teia nacional que estava armada, envolvendo o senhor Carlos Cachoeira e uma jovem empreiteira recordista em contratos públicos. Os inúmeros sigilos bancários que foram quebrados não demostraram nada? Resultados práticos: dois políticos da oposição vão ser indiciados e há quem diga que o relatório desta CPMI trará também um forte ataque contra a liberdade de expressão ou da imprensa. Aliás, conforme determina o partido político que governa o país há uma década e que sonha em permanecer por um século no poder. Democraticamente, claro.

Saímos de Brasília e seguimos de bicicleta para o Rio de Janeiro para não emitirmos gases do efeito estufa. Chegamos ontem pela manhã (17/11/2014) ao Rio e fomos direto para a Barra da Tijuca, cumprir nosso dever cívico, participando de um manifesto calmo e pacífico contra a construção de um hotel na Área de Proteção Ambiental (APA) de Marapendi.

Vista da APA de Marapendi

As APA possuem regras próprias, estabelecidas em seus planos de gestão, que podem permitir a construção de certos tipos de empreendimentos em seu interior. Contudo, elas constituem unidades ambientais que se caracterizam de acordo com o estabelecido na Constituição Brasileira e sob o regime do Sistema Nacional de Unidades de Conservação – SNUC. Ambos demandam que haja um licenciamento ambiental para qualquer construção nas APA. Por sua vez, para que haja a concessão das licenças ambientais, é necessário que os estudos ambientais realizados sejam debatidos em Audiência Pública específica.

Não temos informação de que qualquer audiência haja sido realizada para aprovar o hotel da rede Hyatt na APA de Marapendi. Também não sabemos se existe, se foi publicado em Diário Oficial e o que diz seu Plano de Manejo em termos de restrições ao uso do solo. Sabemos, no entanto, que mais de 600 pessoas estavam presentes no manifesto e não desejam que a APA, com entrada pela Avenida Lúcio Costa, seja o jardim particular de um resort. Afinal, ela é um bem público e todos desejam que continue sendo.

Em respeito e homenagem ao Arquiteto e Urbanista Lúcio Costa, que elaborou o Plano de Ocupação da Baixada de Jacarepaguá, juntamo-nos aos manifestantes, na qualidade de ex-moradores da Barra e ambientalistas. Pois vejam o espetacular trabalho do Gênio-Urbanista Lúcio Costa, no vídeo “O nascimento da Barra da Tijuca”. O texto é de sua autoria e ele fala da necessidade de manutenção de áreas verdes nativas e do reflorestamento de novas áreas. Trata-se do descritivo do plano, pensado e redigido no ano de 1970, há 42 anos. O vídeo está muito bem narrado e prende a atenção.

Meio às ponderações normais que ocorrem em todos os manifestos de rua, sempre em favor da manutenção da área verde da APA, assim nomeada em 1972 graças às orientações do Professor Lúcio Costa, soldados da Polícia Militar se aproximaram das pessoas e lançaram spray de pimenta na direção dos rostos dos mais próximos. Havia crianças entre os que foram atingidos pelos gases. Essa é uma intenção bárbara e criminosa que se realiza através de gestos truculentos de polícias mal treinadas.

Spray de Pimenta, reprodução de O Globo

A tomada elétrica brasileira


Será mais um milagre da Santa Sordidez?!…

Seguem o texto e as imagens estranhas que recebemos no e-mail sério do Engo Sênior Paulo Couto. Retornamos depois.

“Só tem no Brasil e não é jabuticaba, é uma enorme bestagem, igual ao nosso antigo sistema televisivo, o chamado PAL-M, que entendia as transmissões de no máximo dois ou três países no planeta, dentre os 187 associados a ONU.”

“Assim sendo, pergunto: como os turistas irão se virar durante a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos no Rio de Janeiro, em 2016?”

“Uma das maiores cretinices inventadas pelo governo foi a nova tomada elétrica para plugues de 3 pinos, que é incompatível com todas as tomadas da galáxia. Vejam nas imagens a seguir.”

Modelos mundiais

Tomadas para a Copa do Mundo

“De uma hora para outra, todas as nossas tranqueiras elétricas e gadgets, que usam plugues com o modelo universal, simplesmente ficaram imprestáveis. Como somos brasileiros, não desistimos nunca! É chegada a hora de invocarmos a Santa Gambiarra, protetora eterna de todos os brasileiros.”

Retornamos

“Em 2000, o Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro) publicou uma portaria que obriga a adoção dessa padronização e deu 10 anos para que o mercado se adaptasse às novas regras, que vão de acordo (sic) com normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). O varejo não pode mais comercializar aparelhos com os plugues antigos desde outubro do ano passado. A partir do início deste ano o comércio está proibido [grifo nosso] de vender de forma avulsa, plugues e tomadas do modelo antigo. O prazo final é junho de 2011”.

Segundo a fonte da informação “a ABNT diz que o novo padrão brasileiro de tomadas e plugues de três pinos já está sendo implantado no país. Por ser um modelo embutido confere mais segurança, pois evita que quem manuseia o plugue toque nos pinos e leve choque. A padronização também ajuda a impedir a sobrecarga na instalação elétrica (?) e com isso, o desperdício de energia que ocorre com o uso de adaptadores inadequados”.
Fonte internet: Hagah.

Considerações naturais

Este argumento é simplesmente bizarro. O que se discute não é se a tomada é embutida ou não. Todas as tomadas podem ser obviamente embutidas, independe de qual seja o seu formato e de sua quantidade de furos. Pior ainda, ao torna-la embutida, quem é capaz de afirmar que a exclusiva tomada brasileira irá impedir a sobrecarga na instalação elétrica?

Essa afirmação eletrifica fatalmente qualquer engenheiro eletricista ou pai-de-santo que não seja sócio proprietário da unidade industrial que produz a nova tomada milagrosa.

Ficamos elétricos, apreensivos, se a tal tomada de três pinos está sendo realmente utilizada nos prédios construídos antes do ano 2000. Caso tenham sido, são inimagináveis os dispêndios econômicos de seus proprietários. Da mesma forma, além do quadro já descrito pelo e-mail, imaginamos o quanto deve estar vendendo a nova tomada de porco três-dentes.

Ficam aqui algumas perguntas sem resposta:

─ Quem são os verdadeiros sócios da fábrica de tomadas embutidas?

─ Quem foram os vendedores desta ideia monopolista para a ABNT?

─ E como fica o Inmetro nesta história?

─ Tem alguém fazendo aposentadoria eterna com a venda dessa porcaria?

─ Caso existam, quantos “alguéns” estão ganhando algum por fora?

Às escondidas


Às escondidas

Por Marina Silva, publicado pela Folha de S. Paulo, em 21/09/2012.

A usina de Belo Monte, ao secar a Volta Grande do rio Xingu, expõe ao sol da opinião pública algo mais que o limo das pedras. A empresa canadense Belo Sun Mining, do grupo Forbes & Manhattan, pretende fazer ali o “maior programa de exploração de ouro do Brasil”, investindo mais de US$ 1 bilhão para extrair quase cinco toneladas por ano do precioso metal.

Já no Relatório de Impacto Ambiental da usina constava o interesse de 18 empresas em pesquisa e exploração mineral na área, mas o Ibama achou esse dado irrelevante.

O licenciamento da mineração está sendo feito pelo governo do Pará. Tudo indica que o conhecimento do potencial mineral só é segredo para a população, os “investidores” têm o mapa da mina há tempos.

O Brasil vive uma nova “corrida do ouro”, silenciosa e oculta da opinião pública, mas intensa ao ponto de fazer a atividade mineradora saltar de modestos 1,6% para expressivos 4,1% do PIB em só dez anos.

Nem é preciso dizer que esse aumento, embora inserido na ascensão brasileira na economia mundial, é continuidade da velha condição de colônia: as riquezas do subsolo brasileiro destinam-se, em sua quase totalidade, ao comércio exterior. As “veias abertas da América Latina” (feliz e triste expressão de Galeano) continuam sangrando.

Por trás dos grandes negócios e notórias fortunas, sempre financiadas e facilitadas pelo Estado, se oculta um submundo de devastação ambiental e violência contra populações tradicionais.

O Congresso Nacional avoca para si o poder de demarcar terras indígenas e nelas licenciar atividades econômicas, enquanto discute um novo Código Mineral e a criação de uma agência para o setor.

Enquanto isso, pedidos de licenças para pesquisa e exploração continuam a ser concedidas aos que chegarem, em processo pouco transparente.

No Congresso, debate-se mudanças na lei para dificultar a demarcação de novas áreas de proteção (reservas, parques, quilombos, terras indígenas), diminuir o tamanho das já demarcadas e licenciar a exploração de suas riquezas. Na forma como são feitas, as mudanças atendem à demanda de grupos econômicos alheios aos interesses da sociedade e do país.

O governo entra com a negociação no varejo da política e as justificativas publicitárias do “interesse nacional” e da “inclusão social”. À sociedade falta o que poucos detêm: informações profundas que possibilitam definições estratégicas que atendam a interesses mais amplos.

Na vida pública brasileira, o debate superficial das questões mais importantes se assemelha à infantilização promovida pelos candidatos que se oferecem para cuidar do povo. A conversa dos adultos, entretanto, é feita às escondidas. Até quando?

Opinião de “Sobre o Ambiente”

Já é conhecida esta prática aceita pelo setor elétrico brasileiro. Dado que a usina irá afogar diversas áreas, existindo metais preciosos nas mesmas, eles são explorados com elevada velocidade. São conhecidos como Projetos de Exploração Intensiva e criam os famosos “milionários-relâmpago” (no caso, bilionários em US$).

O grave problema é a total falta de gestão e controle ambiental nesses processos do silêncio. Enriquecem alguns poucos e detonam tudo à volta, inclusive pessoas, ribeirinhos e indígenas que “apanham e ficam a ver navios”. Na década de 1980, presenciamos esta tenebrosa experiência em outra hidrelétrica.

Corrida do ouro em Serra Pelada, PA

Por outro lado, também não é admissível que seja criada uma nova Serra Pelada, como foi o caso paraense, emblemático e tétrico. Recordamos que em 1979, um garimpeiro encontrou ouro no local (onde foi criada uma grande vila livre, depois batizada de Curionópolis). O ministro de Minas e Energia, Shigeaki Ueki, fez o anúncio oficial da existência do metal em Carajás.

A partir de 1980, levas de migrantes se deslocaram para o Pará e ocuparam o garimpo, que pertencia à fazenda Três Barras, com concessão de mineração cedida à então Cia. do Vale do Rio Doce.

A área da mina, com cerca de 5.800 ha, foi totalmente destruída e, em 2011, acabou nas mãos da mineradora canadense, Colossus Minerals, que se associou à Cooperativa dos Garimpeiros de Serra Pelada.

Importante acrescentar que, em 1984, a Vale do Rio Doce recebeu indenização de US$ 59 milhões pela perda da concessão da mina por quebra de contrato. Fica assim a questão: quem foi que pagou a conta?

Henriquinho Horta, o Dinô


Henriquinho Horta, o Dinô

Memórias

Morávamos no mesmo condomínio e estudamos juntos desde o Jardim de Infância. Fomos criados em um prédio de seis andares, com doze apartamentos, sem luxo, mas espaçosos e bastante confortáveis. Em vários deles moravam crianças quase da mesma idade e todos éramos amigos.

O prédio era rodeado por vários terrenos grandes, com inúmeras árvores adultas, gramados e canteiros de plantas, distribuídos em diversos níveis acima do chão da rua. Subíamos por escadarias e rampas de pedra quando brincávamos de esconder nos fins de tarde. Os terrenos eram próprios do condomínio e não havia vizinhança próxima na década de 1950.

Condomínio ou floresta

Sob o chão do terreno dos fundos havia um enorme porão, onde caberia uma garagem para todos os automóveis do prédio. De fato, tínhamos a impressão que morávamos em um grande castelo cheio de felicidade e que todas as crianças eram de uma mesma família.

Porém, nós dois, dada a antiga amizade entre nossas famílias, fomos criados quase como irmãos. No entanto, após entrarmos para a faculdade, afastamo-nos e tivemos poucos contatos depois disso. Guardo, contudo, boas lembranças de nossa infância e da efusiva juventude que tivemos naquele castelo imaginário.

Henriquinho era muito alegre e falante desde a infância. Destacava-se perante os mais velhos por esta característica. Tinha profunda admiração por seu pai, o Seu Horta, que era jovial e exímio desportista e caçador. Todos os dias, diante do grupo de amigos sentados na mureta da frente do prédio, ele contava uma nova história sobre seu pai. Todos nós gostávamos de ficar sentados naquele local, de frente para a rua, admirando as meninas mais velhas que passavam, enquanto Henriquinho falava, especialmente quando contava histórias das caçadas que Seu Horta gostava de participar. E havia muito para contar.

Certa vez, quando o grupo dos mais velhos (acima de 18 anos) desceu para paquerar na mureta –eles tinham poder sobre nós para usar o local –, Henriquinho foi pego contando a última caçada do pai. Dizia ele que Seu Horta chegara durante a madrugada, carregando às costas um grande porco do mato que abatera. E ainda, que o bicho pesara quase 60 quilos. Talvez tenha exagerado um pouco, mas crianças vêm tudo maior.

Os mais velhos foram implacáveis com ele.

─ “Isso não é um porco, é um hipopótamo! Ah! ah! ah!…”, e o grupo gargalhava enquanto nos empurrava para fora da mureta.

─ “Acho que não é não, isso é um dinossauro!…“, disse outro, soltando mais gargalhadas.

Nós devíamos ter uns seis anos de idade, em média. Eles, em torno dos dezoito. Henriquinho calou-se, olhou para o chão, meneou a cabeça, pareceu pensar alguma coisa e correu para dentro de casa: sandálias de couro, meias três-quartos, calça curta e camiseta.

Nós o seguimos, mas resolvemos não incomodá-lo naquele instante. Um de nós tinha dois irmãos mais velhos, disse que ia conversar com eles sobre o ocorrido e como seria melhor nos comportarmos.

É estranho recordar como nós, crianças daquela época, silenciávamo-nos diante de provocações gratuitas de moleques mais velhos, que sequer eram nossos amigos. Mas este caso não acabou dessa forma. Henriquinho foi apelidado de Dinô e assim foi provocado por quase dois anos.

Por ter uma boa cabeça desde a infância, atendia quando assim era provocado e devolvia a todos os mais velhos, chamando-os debochadamente pelo mesmo apelido. Transformou o condomínio num parque de dinossauros.

Por acaso estivemos com ele recentemente e rememoramos essa situação. Ele riu muito e brincou conosco dizendo que fora “vítima de bullying“ durante a infância. Lembrou do nome de cada um do grupo de tiranetes envolvidos e afirmou que o fato ocorrido, de certa forma o ajudou a mantê-lo íntegro em suas convicções de honestidade.

Os dinôs atuais

Os dinôs da atualidade são realmente mentirosos e descarados. Nada contra os asnos – não nos entendam mal –, mas os novos dinôs deveriam ser chamados de dinô-asnos, uma espécie híbrida que tem se reproduzido bastante nos últimos tempos. Andam em grandes bandos, com poucas fêmeas, e fazem ruídos elevados. Chamam a atenção mesmo dos que não possuem boa audição e visão, gastando montanhas de dinheiro com escudos amestrados tentando intimidar os predadores que virão a enfrentar.

Podemos estar enganados em nossas previsões, mas parece tratar-se de uma espécie sob expressiva ameaça de extinção.

Nossa contribuição para sua biodiversidade híbrida segue na foto, que é pobre, mas serve para dar uma ideia. Essa jovem matriz, asna pura, é geneticamente dominante e será útil para beneficiar sua reprodução daqui a cinco anos, desde que os padreadores (machos para cobertura) sejam selecionados por veterinários especialistas.

Jovem matriz para o futuro

Comissão tira proteção de rios intermitentes


Emenda na medida provisória do código florestal pode comprometer metade dos rios do país“, alerta senador; áreas úmidas têm proteção mantida.

Fonte: Estado de São Paulo. Reportagem de João Domingos, de Brasília, com colaboração de Giovana Girardi, 09/08/2012.

A comissão especial do Congresso que analisa a Medida Provisória do Código Florestal aprovou nesta quarta-feira, 8, uma emenda que poderá comprometer para sempre todas as bacias hidrográficas brasileiras. Por 15 votos a 12, a comissão decidiu que só serão resguardados por Área de Proteção Permanente (APP) os rios perenes. Os intermitentes poderão virar pasto, roça e estrada.

Entre os rios que poderão perder a proteção está até o Jaguaribe, em cujos leitos se encontram os Açudes do Castanhão e de Orós, no Ceará. Há épocas do ano em que o Jaguaribe seca.

Pelas contas do senador Jorge Viana (PT-AC), 50% dos rios brasileiros serão atingidos. Segundo o Ministério do Meio Ambiente, 80% dos rios do Piauí são intermitentes e no Distrito Federal, 70%. “Os rios intermitentes é que mandam a água para os perenes. Sem eles, todas as bacias hidrológicas ficarão comprometidas”, afirmou Viana.

Muitos rios vão ser tornar pastos!

“Um rio que seca parte do ano, se não estiver protegido, com o tempo pode não voltar mais. Uma decisão dessas está no fundo sacrificando rios e, em última instância, sacrificando o fornecimento de água”, disse Ana Cristina Barros, da ONG TNC, que trabalha com projetos de plantio em margens de rios para garantir a produção de água.

A emenda que tirou a proteção dos rios intermitentes foi apresentada pelo deputado Abelardo Lupion (DEM-PR). Segundo ele, o objetivo foi dar “maior clareza à lei e buscar um tratamento isonômico com os olhos d’água perenes”. Para Viana, não sobrarão nem os igarapés da Amazônia, que em determinadas épocas do ano são gigantescos braços de água e em outros secam.

Independentemente do mérito, a proposta acabou gerando indignação da base aliada ao governo na comissão, por ir contra um entendimento que havia de não se apresentar nenhuma coisa nova ao texto já acordado.

O relator da MP na comissão especial, senador Luiz Henrique (PMDB-SC) já havia estabelecido que não se apreciasse assuntos já decididos anteriormente na Câmara e no Senado. Por conta disso, decidiu-se suspender a discussão. A comissão mista só volta a se reunir agora no dia 28.

Áreas úmidas. Na sessão desta quarta, os ambientalistas perderam nessa questão, mas ganharam a votação que manteve a proteção às áreas úmidas. Uma emenda dos ruralistas pretendia tirar da lei a definição do que é área úmida, sob o argumento de que, com o resguardo a elas, não seria mais possível plantar arroz em ilhas gigantes da Amazônia, no Vale do Araguaia e charqueados gaúchos. Feita a votação, houve empate de 13 a 13. O presidente da comissão, deputado Bohn Gass (PT-RS), desempatou a favor das áreas úmidas.

Em outro acordo entre as partes, ficou estabelecido que o prazo máximo para a suspensão de plantio em áreas que necessitam de repouso (o chamado pousio) será de cinco anos. O consenso foi possível porque o relator tirou do texto o limite de 25% para o repouso. Os ruralistas argumentaram que ficaria fácil para os órgãos fiscalizadores dizer que determinada área não era produtiva, tornando a área passível de desapropriação para a reforma agrária. Os ruralistas, no entanto, conseguiram tirar a parte que autorizava o governo a desapropriar propriedades com áreas extensas abandonadas, não usadas para a produção.

A MP foi editada em maio pela presidente Dilma Rousseff, depois de ela vetar pontos da lei que reformou o Código. O texto-base foi aprovado em julho, mas faltaram serem votadas 343 propostas de mudanças no documento. Um acordo já retirou cerca de 300 emendas.

O Apocalipse da Terra, segundo José Argüelles


Assistimos a um longo documentário acerca do chamado “Apocalipse Maia”, definido como o fim da humanidade em todo o planeta Terra, que “acontecerá no dia 21 de dezembro de 2012”. Fizemos levantamentos de informações na internet para aferir nosso entendimento sobre a seguinte questão: o mundo acabará mesmo em dezembro deste ano?

O início da manipulação do imaginário coletivo mundial deu-se com o lançamento do livro “Eram os Deuses Astronautas?”, escrito pelo suíço Erich Von Däniken, publicado em 1968. Para quem leu este livro é possível concluir que houve a sorte do autor ao lançar um texto desta natureza um ano antes do homem ir a Lua. Foi sucesso como rastilho de pólvora.

No entanto, o desenfreado líder manipulador chamou-se Joseph Anthony Arguelles, doutor em História da Arte e Estética, que preferiu ser conhecido como o Profeta José Argüelles, com sonoridade mexicana. Apesar de sua titulação universitária, fazia-se de místico, dizia acreditar em crenças de antepassados Astecas e Maias, e as professava abertamente. Com um único objetivo em mente: tornar-se rico e famoso com a venda da “geração da energia humana” e distribuindo as “verdades paranoicas do Apocalipse Maia”, nas quais talvez ele próprio não acreditasse.

José Argüelles, o profeta do apocalipse

Joseph Anthony nasceu em Rochester, Minnesota, em 1931, e faleceu em março de 2011, não tão elegante quanto na foto.

José Argüelles nasceu em local desconhecido, durante a era hippie e do LSD (1960-1970), e renasceu (pirado) em 1987, quando criou sua empresa, a Convergência Harmônica que, segundo ele, foi capaz de “promover a primeira meditação sincronizada do mundo para gerar energia psíquica positiva” e salvar o planeta.

Esta empresa usou o alinhamento dos planetas do sistema solar, ocorrido em agosto de 1987, para associar o fenômeno espacial ao que o Profeta chamava de “Leis da Astrologia e do Calendário Maia”.

Segundo José Argüelles, com a ocorrência deste alinhamento, decorrente da ação de forças astrológicas, “ocorreu uma enorme mudança na energia da Terra, passando-a de Terra Guerreira para Terra Pacífica”. Se for difícil de entender o que isto significa, muito pior era entender as palavras, premunições e profecias de José durante toda sua vida. Até porque não aconteceu nada de novo, muito menos pacífico, com os humanos no planeta. Bem ao contrário, as guerras continuam e ameaçam se intensificar. Mas, propriamente a Terra, fez “montinhos” para o tal “alinhamento da astrologia”.

Argüelles tinha ideias muito estranhas sobre espaço e tempo. Dizia haver descoberto “que a espécie humana está vivendo em um tempo artificial, que está perturbando seu ambiente planetário e destruindo sua civilização”. Ele também alegou que “o tempo é telepático na natureza, mais rápido que a luz e eu posso viajar através dele”. Dizia ainda, em tom de ameaça velada, que “se a raça humana não rejeitar os doze meses o Calendário Gregoriano e substitui-lo pelo Calendário Maia até 26 de julho de 1995, sua autodestruição se dará muito em breve”. Ou seja, mesmo após haver criado a sua empresa em 1987, a Convergência Harmônica, apenas oito anos depois, ainda que viajando telepaticamente e acima da velocidade da luz, sentia-se obrigado a inventar mais mentiras para melhorar seus lucros.

Todas essas palavras e profecias têm um cheiro danado de interesse pessoal monetário e uso de drogas alucinógenas. Por sinal, isso parece ser comum em várias civilizações atuais.

Entretanto, através da sincronia da ignorância e da santa burrice humana, ainda há milhares de crentes espalhados pelo planeta, pontificando estas profecias esotéricas, afirmando que, graças a Convergência Harmônica, “a primeira meditação sincronizada planetária”, inaugurou um período de cinco anos de “Limpeza da Terra”, onde “muitas falsas estruturas de separação do planeta entrarão em colapso”.

Um pouco sobre os Maias

A civilização maia foi uma cultura mesoamericana pré-colombiana, notável por sua língua escrita, sua arte, sua matemática (aritmética com numeração em base 20 e provavelmente usando o conceito do zero), arquitetura e observações astronômicas.

Inicialmente estabelecidas durante o período pré-clássico (2.500 Anos Passados a 2.250 A.P.), muitas cidades maias atingiram seu mais elevado estado de desenvolvimento durante o período clássico (durante todo o século I). Seu colapso se deu no século IX. Mas, em seu auge, foi uma das civilizações mais dinâmicas das Américas, sendo densamente povoada em suas cidades.

O termo pré-colombiano é utilizado especialmente no contexto das grandes civilizações indígenas das Américas, tanto as da Mesoamérica (os olmecas, os toltecas, os astecas e os maias), quanto às da região andina (os incas, os moches e os cañaris).

Os maias construíram grandes cidades como Tikal, Chichém Itzá, Palenque, Copán e Calakmul. Outras, menores, como Dos Pilas, Uaxactún, Altún Ha. Havia ainda centros habitacionais pequenos na mesma região mesoamericana. Jamais chegaram a desenvolver um império, embora algumas de suas Cidades-Estado tenham formado ligas temporárias, associações e mesmo períodos de suserania (dominação entre cidades e seus povos).

Seu colapso como civilização (século IX) ocorreu por vários fatores políticos e ambientais. Muitas cidades possuíram vários Reis que se convenceram de que eram os próprios deuses maias e, portanto, estavam dotados de todos os poderes divinos e terrestres. Em função dessa pretensão real as guerras aumentaram, doenças se intensificaram, ocorreram longas estiagens de quase três séculos (Global Warming!) e finalmente grandes inundações expulsaram os maias de muitas das suas principais cidades, em especial aquelas situadas em áreas de vales e planícies de inundação.

Os cidadãos restantes migraram para a Península de Yucatán e para terras mais altas da Guatemala. Somente restou uma grande cidade – Chichém Itzá –, mas que logo se acabou como o último centro da vida maia original.

Pirâmide de Kukulcán, em Chichém Itzá, Yucatán

Dizem alguns antropólogos que as mesmas forças que criam os movimentos de ascensão de uma civilização ou sociedade preparam a sua própria autodestruição potencial. Talvez nesse aspecto haja alguma conexão entre os Reis Maias e o Profeta José Argüelles: ambos não previram nem profetizaram que se estavam autodestruindo.

Compondo informações e concluindo

Pelo exposto, acreditamos nas seguintes conclusões.

  • A punição dos humanos com o Apocalipse da Terra é um fenômeno decorrente de quem possui complexo de culpa.
  • Não há necessidade de sacrifícios humanos para oferecer alimentos aos “deuses” da política atual. Todos aceitarão, mas nada será melhorado por este caminho, a não ser que eles sejam os sacrificados.
  • Todos os violentos eventos da geodiversidade do planeta são naturais e não possuem focos específicos ou razões místicas e espirituais.

Por fim, devemos lembrar que uma equipe de arqueólogos e pesquisadores norte-americanos anunciou em maio deste ano a descoberta de mais um calendário maia, datado do século IX, mais atualizado do que o que profetizava o fim do mundo em 2012. A descoberta desmonta a teoria nada científica dos profetas do calendário maia.

Novo sítio arqueológico e o calendário Maia atualizado

As inscrições encontradas no sítio descrevem a existência de 17 ciclos no sistema maia — e não 13, como profetizado até agora —, significando que o calendário ainda possui mais de 6 mil anos pela frente. Isso nos dá tempo e espaço para pensar bastante antes da chegada do “fim do mundo”…

A gestão do apocalipse


Não há consenso acerca das causas antropogênicas do aquecimento global, há sim consenso (…) ao redor do fato que apocalipse sempre deu dinheiro. Gastava-se dinheiro com indulgências na Baixa Idade Média, por que não seria o medo do fim do mundo ainda hoje uma mina de dinheiro?

O mercado do apocalipse verde tem seus sábios-profetas-cientistas, mágicos, gurus espirituais, nutricionistas-sacerdotes de alimentação sagrada, mercado de cristais sustentáveis, enfim, tudo que há nos fanatismos humanos.”

Luiz Felipe Pondé

Se tantas organizações e pessoas ganham toneladas diárias de dinheiro vendendo a ideia fanatizada do apocalipse , do fim do mundo, do planeta torrado em berço esplêndido, porque nós – céticos, burros ou inocentes – não criamos o espetacular Sistema de Gestão do Apocalipse?

Talvez assim, participando da massiva campanha profética, alimentada diariamente pela mídia, que noticia o medo que os humanos precisam ter do aquecimento global antropogênico do planeta, tornemo-nos capazes de criar um bom seguro de vida para nós mesmos e várias gerações de nossos descendentes.

Não será necessário pagar profissionais e cientistas de qualidade sobre o tema. Basta criarmos um website com o endereço Gestão do Apocalipse. Esta página deve convidar a qualquer humano convicto do planeta para participar da nova religião de cura da humanidade: tornar a Terra livre do carbono, “Terra Carbono-Zero”, não importa o que isso queira significar. Em um mês, no máximo, teremos milhares ou até milhões de voluntários atuando de graça para a ASA – Apocalipse SA, nome da empresa que ganha dinheiro por trás da ONG de fachada.

Quase com carbono-zero…

Decerto, alguém há de perguntar:

─ “Mas vocês têm alguma ideia de como desenvolver este Sistema?”

E nós responderemos de pronto:

─ “Nossas pesquisas estão bastante avançadas neste sentido. Temos um grupo de experts internacionais em apocalipses que já há dois anos vem trabalhando duro para estrutura-lo. Estão em permanente contato com agências do clima de todo o mundo, com artistas de cinema renomados que financiam parte dos trabalhos, com políticos e jornalistas que os divulgam pelo planeta. Na verdade, seremos ainda mais ágeis quando aceitarmos as doações em dinheiro que nos são oferecidas. Mas nem todos – como você – têm esta visão global para o Bem da Humanidade”.

O Homem de Tollund, a múmia do pântano

Os humanos inventam norma para certificar qualquer coisa


Breve histórico

No século passado, final da década de 80, começaram a chegar ao Brasil normas britânicas da British Standards Institution para melhoria e padronização da organização de empresas. A primeira foi a BS-5750: Gestão da Qualidade. Logo em seguida tomamos conhecimento da BS-7750: Sistema de Gestão Ambiental (Gestão da Qualidade Ambiental), também para ser aplicada em empresas visando à melhoria do seu desempenho ambiental.

Há também uma organização não governamental criada em 1947, com sede em Genebra, chamada International Organization for Standardization – ISO. Para o caso específico das duas normas britânicas, a ISO criou normas bastante similares – ISO 9001 e ISO 14001.

Naquela oportunidade parecia ser uma coisa fácil e formidável: “implantamos essas normas e nossa organização explodirá no setor”, assim pensaram muitos empresários e executivos brasileiros. E realmente, a adoção das normas tornou-se uma febre no Brasil, em especial quando autores e especialistas nas mesmas falavam que era possível a qualquer empresa obter a “certificação internacional da qualidade”, tanto na ISO 9001, quanto na ISO 14001.

Houve um esforço enorme para a venda da adoção das normas, com argumentos e jargões sempre padronizados:

─ “Você vai agregar valor à sua organização, seus concorrentes vão ficar para trás, seus funcionários serão treinados para terem sinergia nos resultados, você vai saber a qualquer hora que desejar como andam todos os departamentos e diretorias da empresa, o esforço de todos será pela melhoria contínua dos processos e procedimentos de sua empresa”.

A ISO 14001 é uma das normas da longa série normativa ISO 14000. Foi lançada no Brasil em 1996, tal era o entusiasmo por sua adoção em empresas instaladas em nosso território, com destaque para empresas das regiões sudeste e sul. Assim foi criada a versão brasileira da série que, atualmente tem o seguinte título: ABNT NBR ISO 14000:2004.

Pontos fortes das normas ISO

Considerando apenas o mercado empresarial brasileiro, essas normas ampliaram de forma expressiva a demanda por trabalho técnico, apoiada em empresas e instituições de treinamento específico. Isto sem considerar a grande quantidade de eventos dirigidos que abordam apenas a temática destas normas e reúnem milhares de interessados. A educação empresarial deu um grande salto.

Dada à relativa simplicidade do conteúdo das normas ISO, profissionais de várias áreas e origens ingressaram neste ramo de atividade, fato que é comprovado pelo número elevado de grandes corporações brasileiras que criaram cargos específicos (em níveis hierárquicos variados) para executivos de Saúde, Segurança, Ambiente e Qualidade (HSEQ, na sigla inglesa).

Outro benefício que sem dúvida vem sendo obtido é a maior integração e sinergia criada entre várias áreas e funções organizacionais depois de adotadas as normas, bem como algumas padronizações necessárias para aumentar a produtividade, com destaque para processos e procedimentos imprescindíveis à operação de qualquer empresa (privada ou pública).

Foi através do uso sistemático dessas normas que novos modelos puderam ser criados como alternativas a elas mesmas. Esse fato denota uma espécie de reforma induzida no pensamento empresarial da atualidade, principalmente voltado para o desejo profissional de contribuir para a melhoria da gestão.

Pontos fracos das normas ISO

Profissionais da área da educação não veem consistência no treinamento oferecido para gestores da qualidade e de sistemas de gestão ambiental, dado que as normas funcionam como se fossem leis internacionais e esquecem-se de contemplar os fundamentos das ciências da administração e das ciências ambientais.

Profissionais da área de planejamento empresarial (estratégico, tático e operacional) não reconheceram nas ISO a capacidade de serem adaptáveis para criar os diversos elementos que elas não consideram em seus processos, por exemplo: visão empresarial, missão empresarial, competências estratégicas, identificação de cenários internos e externos de uma organização, atores do cenário futuro desejado, proações, objetivos estratégicos e projetos estratégicos.

Além disso, consideram que estas normas “engessam” as organizações para que possam ser certificadas, sem reconhecerem que muitas delas possuem cultura própria e que, se impedidas de realizá-la, irão à falência. Acreditam que o planejamento empresarial não sofre deste problema, ao contrário, estimula a cultura da organização sem perder sua eficiência.

Vários críticos consideram que as normas ISO não respondem às determinações da legislação vigente no Brasil, sobretudo a norma ISO 14001. Seus conceitos básicos são frágeis e incompletos quando comparados aos constantes na lei. Seus processos de gestão e avaliação de resultados não apresentam metodologias específicas, constituem apenas retórica normativa.

Especialistas de diversas áreas não acreditam na internacionalidade de normas e processos em geral. Como exemplo do risco da internacionalidade, no Relatório Final da Rio+20, para que apresentasse algum resultado escrito, os estadistas tiveram que transformar o relatório em um discurso evasivo, difuso, de meras intenções, sem objetivos, ações e resultados previstos no tempo.

Consequências das séries normativas ISO

Pode ser falsidade

Como consequências das normas estamos focando os processos comerciais e de venda de serviços que partiram dessas normas para serem oferecidos ao mercado, o que não significa que elas sejam as culpadas. Na verdade, são usadas e manipuladas como argumento para a venda de serviços que consideramos muito duvidosos em sua qualidade e resultados.

Pelo menos ao longo da última década tudo passou a ser certificável por uma Instituição Acreditadora (organizações que fazem auditoria de 3ª parte para fornecer certificados).

Estamos assistindo à venda de Selos de Certificação (Castidade) para obras de engenharia, afirmando que são sustentáveis, inclusive criando um ranking com cinco níveis de qualidade para a construção. Ou é ou não é, bolas, não precisa possuir cinco níveis!

Há selos para certificação dos chamados “mecanismos de desenvolvimento limpo”. Há selos para que uma empresa garanta que não está gerando gases para o efeito estufa. E, pasmem, há selos oferecidos no mercado que dizem ser capazes de certificar florestas!

Certeza

Toda essa trama de acontecimentos não foi planejada. No início a sociedade desejava apenas amenizar impactos ambientais adversos. Dai surgiu a figura da qualidade ambiental e, em consequência, a gestão ambiental. Hoje a gestão da sustentabilidade amplia a qualidade das ações humanas no ambiente em que vive e produz. Até aqui, tudo bem.

Mas, há “subprodutos oportunistas” que pretendem vender selos e certificações ao invés de gerirem o Ambiente e a Organização nele residente. Neste cenário uma única coisa é certa: inteligência empresarial, visão de cenários futuros e criatividade não podem ser produzidas por nenhuma norma ou “Entidade Superior”, que as selem e as certifiquem em qualquer organização.