Pelo momento em que se vive


Ricardo Kohn, Escritor.

O mundo está virado de ponta-cabeça. Decisões de mandatários ameaçam o cidadão médio de todas as nações democráticas. Três casos chamam a atenção: a insanidade bélica do líder imprevisível da Coréia do Norte; a máquina de corrupção instalada no Brasil; e a estupidez ofensiva do novo presidente norte-americano.

Sobre o comportamento da Coréia do Norte não há previsões. Seu líder delinquente, além de ter iniciativas próprias, é massa de manobra de países próximos. No entanto, há o que analisar no Brasil e nos Estados Unidos.

Casa Branca, inaugurada a 1º de novembro de 1800

Casa Branca, inaugurada em 1º de novembro de 1800

O norte-americano médio possui um perfil pessoal bem definido: é inocente, acredita no que lhe dizem, dedica-se a fazer o que sabe, é sempre teimoso e produtivo, mas poucas vezes é hábil nas análises que efetua. Entretanto, é ativo na defesa de seus princípios democráticos e libertários.

Acredito que essa imagem espelha bem milhões de americanos. Basta recordar que, em 4 de julho de 1776, durante a Guerra Revolucionária (1775-1781), seus habitantes declararam a independência do jugo britânico e, naquele mesmo instante, tornaram-se uma República Democrática.

O povo americano é pragmático e luta contra qualquer decisão pública que possa submete-lo a cenários de desastre. Ouso dizer que, pela estupidez sequencial de seus recentes atos executivos, Donald Trump não ficará sequer um ano no cargo.

O brasileiro médio também possui seu perfil delineado: é metido a esperto, mente por motivos mesquinhos, crê saber de tudo, é indolente e improdutivo, adora criticar a quem acaba de conhecer. Por isso, está sempre preocupado com a defesa de seus direitos particulares, mas esquece de seus deveres diante da sociedade.

É essa curiosa criatura, filha imberbe da Nova República, que elege os membros dos poderes executivo e legislativo. Creio que há uma estreita ligação com nossa origem colonial e o tempo que o Brasil gastou para tornar-se República Independente: embora “descoberto” em 1500, colonizado durante 389 anos, foi somente em 15 de novembro de 1889 que se tornou uma república: às vezes ditatorial, outras democráticas, mas muitas vezes enredado pelo populismo porco e a corrupção pública organizada.

Palácio do Planalto, inaugurado em 21 de abril de 1960

Palácio do Planalto, inaugurado em 21 de abril de 1960

A única Constituição dos EUA foi ratificada em julho de 1788. Há 229 anos que independência e democracia caminham sólidas e inabaláveis no Estado norte-americano. Por outro lado, a última Carta Magna brasileira foi promulgada em outubro de 1988, dois séculos depois. Nos 36 anos que se seguiram ela não parou de receber “retalhos”, dada a imensidão de seus títulos, artigos e parágrafos, que só promovem controvérsias e conflitos.

O momento em que se vive é muito delicado. Assim como os norte-americanos, precisamos colocar milhões de brasileiros nas ruas, a gritar: ─ Programa Penitenciária para TodosÉ uma ordem!

Decisão de Michelle Obama


Reflexão pública não custa caro, ao contrário.

Na qualidade de Primeira Dama dos EUA, a Juris Doctor Michelle Obama [1] parece haver escandalizado o mundo ao sugerir que todos os seus convidados para a a festa de seus 50 anos [2], a ser realizada na Casa Branca neste mês de janeiro, comam antes de sair de casa.

Michelle Obama está preocupadíssima com a mídia mundial

Michelle Obama está preocupadíssima com a mídia mundial

Achei a atitude da Dra. Michelle dotada de profundo espírito público, sobretudo a considerar o crash da economia norte-americana a partir de 2008, causado pela ganância de “financistas” e pela total incompetência do texano-idiota, senhor George W. Bush.

Ao contrário, seria uma lástima se, no momento em que economia norte-americana começa a se solidificar – conforme é esperado –, a Primeira Dama servisse a seus convidados champanhe de primeira linha, caviar russo, loco, ostras e vieiras chilenas, vôngoles e, como pratos principais, um cardápio sofisticado da cozinha francesa, pagando rios de dólares aos três melhores chefs de cuisine franceses, todos importados para a data.

Esta seria a atitude própria de uma analfabeta do 3º mundo ou de uma vigarista aboletada no poder. Por sinal, se considerarmos também o “Primeiro Damo”, os brasileiros já viveram (e vivem) esse cenário hediondo em diversas ocasiões e de inúmeras formas. Sobretudo, nos casos de bilhões de reais em empréstimos a países africanos e latino-americanos, perdoados pela “presidência da república”. Conhecem este cenário muito bem, assim como suas consequências aéticas, imorais e economicamente nefastas. Aqui sequer falo da corrupção que está a reboque desses bilhões.

Reprodução do site Sabor Digital

O mijão -Reprodução do site Sabor Digital

Retornando a Dra. Michelle. Uma série de pampanátas (babacas), ditos jornalistas, condenou a atitude de Michelle, dizendo-a uma flagrante falta de educação, um constrangimento para seus queridos convidados. Chega a ser patético para um profissional da imprensa não ter nada melhor para noticiar de forma tendenciosa e superficial.

A festa é da aniversariante, promovida por ela na Casa Branca. E a Dra. Michelle, mantendo sua ampla simpatia, decidiu com essa simples condição: “vou servir somente “comes e bebes”; quem quiser “encher a pança” faça-o antes em casa”. Decerto usou outras palavras.

Para finalizar esse registro, atenção senhores jornalistas! Perguntem à dona Roseana Sarney, quem vai pagar por seu simplório pedido de 90 quilos de lagosta fresca, camarão, salmão e sorvetes para sua comilança de 2014? A um custo aproximado de hum milhão de reais, por acaso terá sido uma receita médica de rotina?

Retornem ao passado recente e perguntem ao molusco quanto custaram e quem pagou as festanças realizadas na Granja do Torto? Ao custo de vários milhões de reais, pagos com dinheiro público. Não acham, senhores jornalistas, que se trata de uma barbárie pública?!

Granja do Torto, um nome perfeito para a “residência oficial da republiqueta“: tem-se uma Granja e nela habita um Torto ou…


[1] Graduada em Direito pela Universidade de Princeton e Juris Doctor pela Universidade de Harvard.

[2] Nascida em Chicago, a 17 de janeiro de 1964.