Conversas com o Ambiente


Simão-pescador, Praia das Maçãs.

Simão-pescador

Simão-pescador

A primeira vez que fui pescar em mar aberto tinha 6 anos de idade. Fiquei maravilhado com a imensidão do oceano à volta de nosso pequeno barco. Foi nele que recebi a primeira aula de meu pai, o melhor pescador da costa portuguesa, modéstia à parte. Hoje, aos 97 anos, estou consciente que mantive certos valores do “velho Macko” – como seus amigos o diziam.

Sem demonstrar pressa ou mudança no humor, Macko sempre me ensinou a conversar com o ambiente marítimo – o mar, os ventos, correntes marítimas e peixes em geral. Dizia-me ele, enquanto manejava linhas e anzóis: ─ “Filho, só não temos como conversar com o Sol; ele é absoluto, definitivo”.

A meu ver, na pesca artesanal portuguesa Macko foi definitivo em linhas, nós e laços. Sabia-os a todos, como poucos. Para o pai, anzóis eram meros adereços aplicados ao final de linhas. Na juventude, muita vez o vi pescar em quantidade, apenas com “laços de linha”, sem anzol.

Vista similar ao nosso ambiente marítimo

Vista similar ao nosso ambiente marítimo

Em certas noites, Macko fazia assados de peixe na praia para reunir amigos. Aos 10 anos, quando comecei a participar desses eventos, conversava com os animais que via, apelidados aqui nas Maçãs por “tatuíra“. Um tatu pequeníssimo, de peso imponderável, que é trazido pelo mar e se enterra na areia da praia, ao fim da rebentação.

Descobri que os tatuíras são crustáceos inofensivos; pobre deles. Eu cavava rápido a areia para captura-los. E ria sem parar com as cócegas de suas patinhas na palma de minhas mãos; aflitos, a esforçarem-se para fugir. Como eu só possuía instinto, não notava que “minha infantil brincadeira”, de facto, era tortura para eles.

De longe, Macko assistia meu comportamento. Um dia aproximou-se e, com interesse, explicou-me o que acontecia aos tatuíras, “prisioneiros de mim”. Disse-me como vivem, do que se alimentam, que auxiliam a outros seres vivos e são muito frágeis às mãos do homem. Entristeci ao entender que aquele pequenino também possuía amigos, que dele dependiam para sobreviver. Assim, aos 10 anos, firmei minha primeira decisão de vida: jamais capturarei tatuíras.

Velho Macko faleceu enquanto dormia; eu tinha 27 anos de idade, então. Senti demais sua partida, mas tive de assumir as rédeas do que ele deixara: seus amigos, nossa casa, mais de 2.000 livros, o pequeno barco, petrechos de pesca e sua intensa atividade.

Há tempos conhecera outro crustáceo com “atividades subterrâneas”, muito usado como isca para robalos. Um bicho estranho, com garras dianteiras, bem maior que os tatuíras. Aqui essa espécie é conhecida como “Corrupto” (Callichirus major). Sei que no Brasil tem o mesmo apelido, pois, conforme demonstram seus espécimes políticos, “Corruptos são inumeráveis, multiplicam-se de forma acelerada, nunca aparecem e são difíceis de capturar”.

Callichirus major

Callichirus major, vulgo Corrupto

Mas quando soube que seu processo de sua busca e captura destruía o solo e microrganismos, conversei com o ambiente e optei por não utilizá-lo como isca. Achei mais prudente deixar o “Corruptoenterrado nas profundezas. Afinal, meu velho Macko pescava sem iscas e anzóis! Os brasileiros deveriam fazer o mesmo: enterrar bem fundo os seus.

Com o tempo descobri que para conversar com o ambiente e obter informações úteis, precisava saber lê-lo e prever sua conduta futura. Mas, além de Macko, não tinha com quem conversar sobre esse assunto. Era tema restrito a pai e filho. Decerto, ele sabia lê-lo e prevê-lo como poucos, porém não teve tempo de me explicar como fazer.

Contudo, dentre os livros que herdara, encontrei textos sobre preservação e conservação do Ambiente. Pasmem, todos traziam dedicatórias dirigidas a mim, assinadas por meu pai, o Velho Macko! Sugeriam que eu entendesse o rio que atravessa nosso terreno, bem como a mata e a fauna ocorrentes em suas margens, pois eram a parte do ambiente terrestre que tinha a preservar.

Resultado: ambiente terrestre preservado

Resultado: ambiente terrestre preservado

A partir de 1960, com minhas atividades de pesca já consolidadas, dediquei-me a estudar o “meio ambiente”, como aqui é chamado, de forma ignorante. Adquiri dezenas de livros sobre Ciências do Ambiente: ecologia, biologia, hidrologia, antropologia e filosofia. Estudo-os até hoje e aplico os ensinamentos que deles recebo, toda vez que os abro. Tornaram-se parte essencial de minha vida.

No início de 2013, recebi convite de Ricardo Kohn para escrever em seu blog, o Sobre o Ambiente. Confesso que tive dificuldades em aceitar: não tinha computador e sequer sabia o que seria “navegar na internet“. Mas após orientações de Quincas, meu neto postiço, enviei o primeiro artigo para o blog, uma sátira política intitulada “Carta Aberta da Estremadura – Portugal”.

Continuo a estudar e aplicar notórias práticas ambientais em tudo o que faço na vida. De facto, neste momento, estou ansioso paraImagem de divulgação adquirir o que parece ser a obra da vida de Ricardo Kohn, prevista para ser lançada ao final deste mês de julho:

  • Macedo, R Kohn, Ambiente e Sustentabilidade – Metodologias para Gestão. Rio de Janeiro, RJ, Editora LTC – Livros Técnicos e Científicos , 636 pg., 1ª edição.

Afinal, meu pai, o Velho Macko, foi o primeiro “ambientalista” que conheci no mundo. Tenho, a correr em minhas veias, sua melhor herança.

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Clique no título do e-book “PRINCÍPIOS DA FILOSOFIA DO AMBIENTE – Como o Ambiente vê o Sapiens“.

Como sair da lama


Ricardo Kohn, Consultor em Gestão.

Não é necessário ser economista para ver que a péssima gestão da macroeconomia não é uma variável, mas um dado do problema brasileiro. Dentre seus principais efeitos, destaca-se o crescimento contínuo do desemprego, sobretudo, na faixa de renda acima de 20 salários mínimos.

O quadro geral de curto e médio prazo é grave para todos os setores econômicos. No entanto, função da experiência de trabalho, foca-se apenas em dois setores privados: os da consultoria de engenharia e de ambiente. Ambos se encontram a caminho do esfacelamento, com o fim e perda de contratos, a demissão de funcionários, sobretudo de alguns especialistas, além do inevitável fechamento de empresas, detentoras de boa parte do patrimônio da inteligência consultiva.

LamaçalProjetos de engenharia e estudos ambientais bem elaborados constituem a base da construção civil, setor que pode atender a um grande número de trabalhadores que pertencem à faixa de menor renda. Contudo, sem os serviços da consultoria[1], ou param-se obras indispensáveis ou seus prazos são dilatados, a justificar o famoso sobrepreço. E, assim, tem-se mais desemprego, mais gente a tentar sair da lama.

Por outro lado, o governo federal permanece na mesma toada: elevadas despesas de custeio, decerto superiores ao que arrecada para esta finalidade; nível de investimento muito baixo; e total incompetência na atração de investidores privados.

Em suma, o crescimento da inflação, bem além do teto superior da meta, resulta da manutenção de forte demanda pública – pressão de despesas do governo em atividades não-produtivas, sem alvos definidos, e mal explicadas. Por sinal, “lideradas” pela Presidência da República e seu malogrado Comboio de Mamutes: 39 ministérios com eternos resultados insipientes.

Recessão econômica, inflação elevada, taxa básica de juros absurda, desemprego em alta, enfim, o solo do lamaçal econômico, criado pela incompetência soberana, tende a se tornar um implacável pântano nacional. Acredita-se que a questão básica é a seguinte:

─ “Como a sociedade pode desvencilhar-se desta cilada”?

A resposta a esse quadro estrutural se resume em uma única ação: contra-atacar. Através de lideranças nacionais, notórias pela experiência pregressa bem-sucedida, a sociedade encontrará oportunidades potenciais de investimento, meio às ameaças que lhe são impostas.

Com o aumento de profissionais desempregados, o setor da educação brasileira, precário por definição, precisa oferecer “treinamentos úteis”, que aumentem a produtividade em todas as atividades humanas.

Aguardar do governo qualquer iniciativa neste sentido é perda de tempo. O setor público somente promete uma “Pátria Educadora”, falida antes do próprio nascimento. Há que se buscar investidores privados que, com criatividade, reencaminhem a educação às finalidades a que se destina, há séculos.

……….

[1] Não confundir consultoria com “propinaria travestida”, feita até por presidiário de penitenciária, como no caso de José Dirceu, o petralha.

Instinto e Razão


Ricardo Kohn, Gestor.

Há momentos em que é preciso interromper tudo o que se está a fazer e questionar-se:

A trilha que decidi seguir na vida pode me conduzir até aonde?A trilha

Para um jovem da “antiga classe média[1], amistoso e sociável, diversos caminhos perfeitos se abriram à frente. Assim os percebia – desafiadores, perfeitos –, pois sua vida começava a nascer: estudos, trabalhos, amores e muitas amizades.

Achava que detinha a razão, mas, de fato, apenas o instinto comandava suas decisões. Portanto, seguiu por todos os caminhos que pode, sem chegar aonde desejava. Aliás, sequer sabia quais eram os próprios desejos, por isso precisava testar as trilhas que descobria.

Todavia, faltava-lhe experiência, que somente a prática intensa consolida. É a partir desta experiência que começam a sobrevir os primeiros sinais da razão aplicada. E também das reais descobertas da vida, é evidente.

Então, com apenas 13 anos de experiência de trabalho, o jovem aceitou outro desafio. Mudar de estado para trabalhar em planejamento empresarial, numa organização que, em 1981, tinha cerca de 22 mil funcionários, distribuídos pelo país inteiro.

Lá descobriu que possuía “um tiquinho de razão” e bastante instinto. Cumpria muito bem com suas funções, embora em 1982 haja publicado um livro de contos, editado pela própria organização! Isso causou uma refrega com sua chefia, que era “enquadrada e oportunista”.

Porém, no ano de 1986, refletiu que já concluíra uma espécie de doutorado em planejamento. Portanto, de posse desse patrimônio, decidiu retornar a seu estado de origem. Queria voltar ao trabalho na consultoria de projetos de engenharia e ambiente, conforme iniciara há 14 anos, em 1972.

Já morando no Rio de Janeiro, diante de seu novo desafio, começou a escrever sem parar, com mais instinto do que razão. Mas não eram contos o que então sonhava. Eram textos técnicos pioneiros, voltados exclusivamente para sua área de trabalho.

Em 1989, com mais de 1000 páginas de textos teórico-conceituais redigidos, pensou que deveria voltar para a universidade. Mas não somente para estudar, também para dar aulas. Foi assim que, com quase 20 anos de experiência de trabalho, fez uma descoberta: “as trilhas da vida atravessam jardins, onde hora se bifurcam, ora convergem para resultados”. Cabe saber como encontra-las. Para isso precisa-se de muito instinto e razão.

Simplicidade e paz

De fato, os caminhos trilhados no passado não se extinguem, nunca se apagam. Ainda que não tenham deixado vívidos legados de felicidade com o trabalho realizado, retornam aos tempos atuais e participam da consolidação de novas experiências e legados.

Hoje, o jovem tem 67 anos. Possui a experiência que mais de 40 anos de trabalho lhe concederam. Busca com seu instinto uma nova bifurcação de sua trilha inicial; deseja ser capaz de encontrá-la na Universidade.

……….

[1] Trata-se da classe média do século 20, década de 1960: com renda familiar hoje equivalente a R$ 15.000,00 mensais e casa própria, numa sociedade que recebia do Estado bons serviços públicos, sobretudo, de educação e saúde.

Uma obra técnica e literária


Por Ricardo Kohn, Consultor em Gestão e Escritor.

Se bem me recordo, foi em janeiro de 2008 que o amigo e parceiro em estudos ambientais, Professor Antônio Carlos Beaumord[1] ou “Tu” (para os mais próximos), fez-me um desafio literário:

Cactos em floração

Cactos em floração

─ “Ricardo, você é escritor. Entãopor que não reúne todas as suas metodologias num único livro? Acho que seria uma bela contribuição para a Universidade”.

─ “Tu, eu precisaria de vários anos de dedicação para realizar esse trabalho. Mas tenho família e, para sobreviver, sou obrigado a fazer consultoria”, respondi-lhe, não sem alguma tristeza.

Contudo, a ideia de publicar mais um livro técnico não me saiu mais da cabeça; sou um otimista nato. Claro que o “diabinho pousado no ombro esquerdo” não parava de me aporrinhar o ouvido:

“─ No Brasil você não vai ter editora para publicar esse livro! Vai custar muito caro; duvido que você tenha cabeça fria para organizar esse livro…”

Porém, com a crise financeira global iniciada em fins de 2008, o mercado de consultoria no país começou a emagrecer. Senti que a dita “marolinha” era mesmo um longo e devastador tsunami. Pelo menos assim aconteceu com a conta bancária da família.

Com a forte redução dos serviços de consultoria, a única coisa que cresceu em minha vida foi o tempo vago. Confesso que sequer pensei em conseguir uma editora. Segui a ideia do Tu e comecei a organizar o livro. Precisava ocupar meu tempo livre.

Em 2010, exatamente no dia 31 de novembro de 2010, finalizei a obra, ainda que sem revisão. Ficara com 737 páginas A4, distribuídas nos 18 capítulos, que se seguem:

  • Capítulo 1: Conceitos Básicos para Estudos Ambientais.
  • Capítulo 2: Modelo para Identificação da Transformação Ambiental.
  • Capítulo 3: Estabelecimento das Premissas para Estudos Ambientais.
  • Capítulo 4: Caracterização Ambiental de Empreendimentos.
  • Capítulo 5: Programação e Gestão de Atividades de Campo.
  • Capítulo 6: Elaboração de Diagnósticos Ambientais.
  • Capítulo 7: Consolidação das Premissas de Estudos Ambientais.
  • Capítulo 8: Elaboração das Matrizes de Impactos Ambientais.
  • Capítulo 9: Formulação de Prognósticos Ambientais.
  • Capítulo 10: Formulação de Cenários Ambientais.
  • Capítulo 11: Modelo para Avaliação Quantificada de Impactos Ambientais.
  • Capítulo 12: Desenvolvimento e Gestão de Plano Corporativo Ambiental.
  • Capítulo 13: Auditoria de Plano Corporativo Ambiental.
  • Capítulo 14: Modelos para Estudos Preliminares de Viabilidade Ambiental; Estudo de Impacto Ambiental; Relatório de Impacto Ambiental; Programação e Gestão de Audiências Públicas; Elaboração e Gestão de Projetos Ambientais; Levantamento e Gestão de Passivos Ambientais.
  • Capítulo 15: Desenvolvimento e Gestão de Plano Executivo de Gestão Ambiental de Obras.
  • Capítulo 16: Modelos para Elaboração e Gestão de Procedimentos Ambientais; Organização e Operação de Comitês de Gestão Ambiental e da Sustentabilidade; Organização e Operação de Ouvidoria Ambiental; Código de Conduta Ambiental; Gestão de Licenças Ambientais; Elaboração de Termos de Referência.
  • Capítulo 17: Aprendizado com a consultoria.
  • Capítulo 18: Estudo Preliminar de Viabilidade Ambiental do Planeta Terra.

O acaso e a amizade

Em 2011, executava um projeto de gestão ambiental de obras civis em 12 capitais brasileiras, quando fiz a primeira impressão dos manuscritos em uma laser comercial. Resolvi dividir a livro em cinco volumes. Achei que ficaria mais fácil mostrar apenas um volume a pessoas que conhecessem boas editoras .

De fato, já houvera definido uma editora desejada, mas não consegui acesso a ela. Alguns “amigos”, na “ânsia de ajudar“, disseram-me: “─ Fala com a Josefa em meu nome’, ela dirige a editora. Mas acho que não há interesse nesse assunto”. Foi uma ajuda motivadora. Sequer telefonei para a dita senhora, embora, então, trabalhássemos na mesma organização.

Todavia, em novembro de 2012, fui convidado pela Professora Paula Marinho para fazer uma palestra na Universidade Estácio de Sá, no Campus de Del Castilho. O tema era “O Mercado da Engenharia Ambiental”. Cheguei quase no horário marcado: às 19:10 horas. Tinha 45 minutos para dar o recado, pois havia dois palestrantes à espera, ambos professores da universidade: o Professor Padilha[2], Coordenador Nacional de Engenharia, e o Professor Luis Mauro, Coordenador Local de Engenharia Ambiental.

Durante minha palestra, sempre a provocar aos alunos, notei que o auditório estava a lotar, inclusive com pessoas sentadas nas escadas, espremidas na porta de entrada e no corredor. Falei por cerca de uma hora e fiquei quase outro tanto a responder perguntas. Nenhum professor que aguardava a vez me interrompeu por ter ultrapassado meus 45 minutos, ao contrário. Ao fim, recebi uma saudável salva de palmas dos universitários e professores presentes. Emocionei-me, é claro.

Entretanto, meu único foco era publicar o livro, que até mesmo já batizara de “Ambiente e Sustentabilidade – Metodologias para Gestão”. Sem dúvida, a palestra havia sido proveitosa, conhecera bons professores, mas, é daí? Cadê a minha editora?!

Mal sabia eu que o Professor Padilha, com quem conversara acerca da busca por uma edição de qualidade, tinha como velho conhecido o Diretor Editorial de um grupo que reúne 10 editoras de obras técnicas e científicas. E mais, que ambos eram formados e pós-graduados no IME, em Engenharia Militar.

Assim, mais tarde obtive a informação que o Professor Padilha, por mera questão do acaso, insinuara ao Professor Severo que havia no mercado literário um manuscrito órfão, merecedor da análise de alguma editora do Grupo Editorial Nacional – GEN (clique o link para conhecer). E deu certo!

Mergulho na edição

Dessa forma, graças a uma palestra sem pretensão, proferida em novembro de 2012, assinei contrato com a LTC Editora no início de fevereiro de 2013! Ou seja, como dezembro é mês de festas, o GEN solicitou meus manuscritos para análise em janeiro; e, em 6 de fevereiro, contratou a edição da obra. No máximo, gastou dois meses para tomar a decisão.

Arte da 1ª capa de AMBIENTE e SUSTENTABILIDADE – Metodologias para Gestão

Se desejar adquirir, clique na capa

A vida de autor seria difícil não fosse a qualidade da equipe dedicada à edição de livros. Em meu caso acrescento: não fosse a educação, a competência e a presteza de todos com que mantenho relações profissionais, desde o início de 2013 até hoje, decerto teria adoecido dos nervos.

De início, afobado e feliz, fiz em casa a revisão completa dos manuscritos e encaminhei-os à LTC. Em seguida, respondi às dúvidas da revisora oficial da LTC. Após essa etapa, coube a uma artista gráfica modelar a capa e o miolo do livro. Gostei muito do resultado: parece um quadro abstrato, mas é nitidamente orgânico e biótico. Ilumina o espaço e se destacará nas estantes de livrarias e bibliotecas.

Neste momento, estou a finalizar a revisão das 605 páginas da obra, diagramadas no formato final para impressão industrial. Somente a partir de então os capítulos serão integrados numa peça única. Terei poucos dias para rever a obra inteira, de modo a que esteja pronta no dia 27 de julho próximo, seguindo o cronograma de trabalho da LTC Editora.

Lançamentos da obra

O Grupo Editorial Nacional não realiza o lançamento físico da obra. Usa apenas seus sites na internet e conta com uma ampla rede de livreiros. No entanto, auxilia aos autores a realiza-lo. Por isso, minha proposta é fazer diversas palestras sobre os temas tratados no livro e ter um livreiro presente para oferecer os livros. Obviamente, autografarei cada um.

Dessa forma, meu projeto é divulgar nacionalmente o trabalho. Programar com universidades, fundações, associações nacionaisinstitutos para lançar o livro após uma palestra.

Adquira a obra no link abaixo

Kohn de Macedo, R., AMBIENTE e SUSTENTABILIDADE – Metodologias para Gestão. GEN – Grupo Editorial Nacional, Editora LTC – Livros Técnicos e Científicos. ISBN 978-85-216-2731-9. Rio de Janeiro, RJ. 636 pg., Julho 2015. 1ª edição.

……….

[1] Professor Beaumord, Doutorado em “Ecology, Evolution and Marine Biology na University of California, Santa Barbara”. É docente pesquisador do Centro de Ciências Tecnológicas da Terra e do Mar (CTTMar), Universidade do Vale do Itajaí – Univali, bem como consultor internacional em ecossistemas aquáticos.

[2] Professor Padilha, Mestrado em Engenharia Militar no IME – Instituto Militar de Engenharia. É docente na Universidade Estácio de Sá – Unesa.

Atenção! ‘Quatro planos ambientais’


Por Ricardo Kohn, Consultor em Gestão.

Leia o prefácio de nosso próximo livro técnico.

A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que a população mundial esteja na casa dos 7,2 bilhões de pessoas. PrevêRicardo Kohn que alcance a 8,2 bilhões de habitantes até 2025, devendo chegar a 9,6 bilhões, em 2050. A ser assim, a cada século que passa o espaço terrestre per capta reduz-se de forma significativa.

Porém, desde há milhões de anos que a Terra possui a mesma superfície, limitada em cerca de 510 milhões de km2. É composta por água e solo. Foi a evolução da dinâmica entre esses dois fatores, junto com sua atmosfera, que permitiu a instalação da flora no planeta e que sua fauna florescesse. Culminou com os primatas hominídeos, classe faunística em que, até agora, o homem é o fim da linha desta evolução.

Todavia, a partir de meados do século 19, após a consolidação da Revolução Industrial, a Terra começou a dar sinais mais nítidos de que a presença do homem, com suas habilidades construtivas e produtivas, precisava ser muito bem planejada. Sobretudo, no que concerne ao uso e alteração de seus fatores físicos: o ar, a água e o solo, que constituem o substrato da vida da flora, da fauna e do próprio homem.

Desde então, as habilidades da inteligência humana transformam “bens ambientais”, que são essenciais à evolução do Ambiente do planeta, em “recursos naturais” com valor econômico. Recursos estes, tratados como se fossem ilimitados, que após processados são oferecidos ao mercado de consumo, como “produtos de valor agregado”.

Em boa parte, o processo da transformação de bens ambientais em produtos com valor agregado é aceitável, desde que obedeça a certas condições restritivas. A mais relevante é o nível de desempenho ambiental alcançado pelo processo: precisa ser positivo para o Ambiente, sem causar rupturas nas relações ambientais impostas pelo homem aos demais fatores ambientais envolvidos: ar, água, solo, flora e fauna. Do contrário, fatos ocorrentes mostram que todos os bens e fatores serão extintos: não haverá produtos e valor, não haverá mercado. Ter-se-á tão-somente impactos ambientais negativos, a construir a chamada “terra arrasada”.

A visão do desenvolvimento que foca apenas a Economia como seu fundamento é majoritária no mundo. Mas também são conhecidos os efeitos nocivos desta abordagem. Nações frágeis, na miséria, como ocorre na África subsaariana. A pobreza crescente que se irradia pelas castas inferiores da Índia que, aliás, enriquece. Os investimentos brasileiros que redundam em obras megalômanas interrompidas, a corrupção instalada, a demolição sumária do Ambiente e o alto risco para a geração mínima de empregos são fenômenos ambientais comprovados e, de fato, indiscutíveis.

É paradoxal que o homem impacte de forma tão adversa o Ambiente que a ele deu origem e permite que beneficie a qualidade de sua própria vida. Afinal, é da qualidade do ar, da água e do solo que sobrevém a qualidade da vida na Terra: da flora, da fauna e do homem. Há que se trabalhar rapidamente para garantir a estabilidade de todos.

A contribuição teórica e prática a que se propõe o livro “Os Quatro Planos Ambientais” é fornecer ferramentas de gestão desenhadas para manter a estabilidade do Ambiente e de seus espaços – físico, biótico e antropogênico –, enquanto as relações ambientais realizadas entre os variados ecossistemas são mantidas na sua melhor plenitude.

Dessa forma, a Economia é um dentre os diversos segmentos ambientais antropogênicos a serem planificados, tais como: demografia, educação, saúde, segurança, uso e ocupação do solo, infraestrutura logística, infraestrutura de transporte, arqueologia, cultura, sociologia e antropologia.

O livro detalhará como os ‘quatro planos ambientais’ devem ser desenvolvidos, implantados e geridos através de seus resultados, segundo sua programação. Têm níveis e finalidades distintas, podendo serem adotados pelos setores público e privado. São eles:

  • Plano Corporativo Ambiental (PCA), para proporcionar a empresas públicas e privadas o estabelecimento de alvos estratégicos, táticos e operacionais a serem alcançados e as medidas necessárias para realiza-los. Além disso, sem perda de sua efetividade, pode ser adaptado para atender a governos nacionais e estaduais.
  • Plano Executivo para Gestão Ambiental de Obras, com estrutura similar à do PCA, é destinado a empresas de construção civil e montagem, com vistas à minimização ou anulação de impactos adversos proporcionados pelas obras em geral.
  • Plano para Gestão da Sustentabilidade, é destinado a governos municipais e grandes propriedades rurais. Parte das vocações ambientais e geoeconômicas do território, define alvos táticos, metas operacionais, programas e projetos e, se necessário, convida investidores a aportarem recursos com o retorno proporcionado pelo mercado.
  • Plano de Análise e Gestão de Riscos e Impactos Ambientais, que deve ser adotado por empresas que possuam processos e atividades com perigos, riscos e impactos adversos associados.

A crescente demanda não atendida por água, energia e alimentos pode tornar a Terra um planeta ingovernável. Sem planejar suas ações para médio e longo prazo, o homem caminha para o caos. Afinal, a ciência que desenvolveu ainda não construiu um “puxadinho terrestre” para esconder seus lixos e excessos.

Revolução do Ambiente


Por Ricardo Kohn, consultor em Gestão.

Introdução

Ao se analisar o atual cenário do Ambiente [1] do Planeta, verifica-se a ocorrência de uma série de fenômenos adversos (com impacto negativo), que se manifestam em grandes regiões da Terra (alta distributividade) e, possuem elevada potência de transformação (intensidade) das áreas em que ocorrem (degradação).

Se nada for feito para cessar as causas de boa parte desses fenômenos (eventos ambientais de ordem política e econômica), suas manifestações permanecerão a atuar até que os fatores ambientais por eles impactados [2] sejam extintos (duração máxima). Isso não é uma profecia, mas fruto de raciocínio lógico e factual. Senão, vejamos.

Classificação de eventos ambientais

Sempre que se deseja analisar esse cenário ambiental de forma mais consistente, organiza-se os eventos ambientais adversos em três classes distintas:

  • A classe dos eventos físicos, próprios de geodiversidade terrestre, é a que detém os eventos mais intensos e localmente violentos: terremotos, maremotos, erupções vulcânicas, tsunamis, incêndios florestais espontâneos [3] e grandes vendavais – tornados, tufões e ciclones. Estudiosos envolvidos em sua explicação ainda não encontraram qualquer ação humana que seja capaz de gerar a manifestação desses eventos.
  • A classe dos eventos bióticos é extremamente sensível e possui dois tipos básicos de causa. Ou decorre dos eventos físicos do planeta, até então incontroláveis, ou é promovida pelo próprio ser humano. De toda forma, impactos adversos sobre a biota trazem inumeráveis efeitos negativos. O que varia entre os dois gêneros de causação – físico e antropogênico – é a área de manifestação (distributividade) e o tempo de manifestação dos eventos causadores (duração).
  • Por fim, tem-se a classe dos eventos antropogênicos. É nitidamente a mais adversa e paradoxal. Não apenas graças à intensidade e distributividade planetária de seus impactos negativos, mas pela quantidade de naturezas que possuem seus eventos e a alta frequência diária com que ocorrem. É um paradoxo pelo fato que o Homem, seu único ator ativo, ameaça e destrói a si próprio, enquanto pensa que evolui. De fato, apenas tornou-se uma ‘subespécie da sub-fauna’.

Mundialmente, durante as oito últimas décadas, personificado pelos ‘governantes’ que elegeu, o ser humano tem dado mostras inequívocas de sua extrema ignorância e agressividade.

Democratizou-se o debate

Em março de 2004, ocorreu em Roma um fórum internacional que reuniu especialistas em Políticas para Gestão Ambiental, provindos de cerca de 110 nações. A ONU cedeu suas instalações, situadas na Via Termas di Caracalla. O fórum foi promovido pelo ‘Ministério do Território e do Ambiente da Itália’.

Recebi um convite do Chile para participar, com passagem de avião e despesas de hotel já pagas. Ao chegar em Roma, no prédio onde se iniciava o evento, fui avisado que deveria ir até a secretaria para receber textos impressos, alguns euros para despesas de alimentação e pegar crachá de identificação. Nele estava impresso meu nome e o país a que representava: Chile.

Solicitei a troca, mas esclareci que também não era representante formal do Brasil no evento, apenas um consultor brasileiro. Assim, naquela segunda-feira, prossegui rumo à abertura do encontro.

Não estava previsto na agenda dos debates, porém, por proposta do Ministro do Ambiente da Inglaterra, que abriu o fórum com fala direta e objetiva, o tema principal dos debates tornou-se “Principais impactos adversos promovidos pelo Homem e suas instituições – Discussão de casos e Paradigmas de solução”.

Dois dias depois, pensei que as seculares propostas da Democracia Ateniense talvez ainda estivessem a pairar sobre as ruínas do Fórum Romano e, com base nelas, os presentes fizeram a escolha. O fato é que o clima dos dois salões em que aconteceram os debates tornou-se amistoso e cooperativo. Decididamente, informal. Todos falaram com todos ou, pelo menos, tentaram.

Um pouco da participação

Na noite do segundo dia houve um coquetel de confraternização. Pessoas cordiais, vinhos de primeira linha, ótimos acepipes, quando alguém na multidão gritou meu nome:

─ “Quem é Ricardo Kohn, representante do Brasil?!

Virei-me e vi um jovem próximo dos 45 anos, com o braço esquerdo erguido e nele um copo de uísque com gelo; de fato, não se tratava de um escocês, conclui. Acenei de volta e tivemos um encontro brasileiro. Seu crachá trazia o nome Badaró, BP Gas, Bahia, mas ele tinha sotaque mineiro.

Expliquei-lhe que não representava o Brasil, mas fora convidado pelo Chile, graças aos contatos de um grande amigo chileno – Jaime Irigoyen. De toda forma, ao acaso, fomos brindados pelos presentes como ‘a delegação do Brasil’, numa espécie de ‘sacanagem internacional’.

Contudo, a maioria dos países de fato enviou delegações. Debati com algumas em ‘mesas de negócio’. Mas devo destacar as delegações da Costa Rica, Inglaterra, Alemanha e Austrália, tanto por haverem enviado Ministros do Ambiente como chefes de delegação, quanto pela forma objetiva e pragmática com que abordaram o tema ‘impactos antropogênicos adversos’.

Encerramento do Fórum Internacional

O Fórum encerrou-se no fim da tarde de sábado, 6 de março de 2004. O Ministro do Ambiente da Alemanha foi convidado para fazer o discurso de encerramento. Havia alguma ansiedade dos participantes, pois estavam presentes no auditório mais de 500 especialistas em políticas ambientais públicas. Suas últimas palavras foram marcantes e guardo-as até hoje:

─ “Para concluir, considero ‘a desflorestação de mata nativa e secundária’, quer por meio de seu corte irresponsável, quer através de incêndios criminosos, como o mais violento dos eventos antropogênicos que ainda ocorrem neste planeta. Os países que, de fato, possuam Governança do Ambiente, têm condições de impedir essa destruição. Os custos de mantê-la descontrolada deverá remeter qualquer nação rumo à completa miséria, tanto material, quanto ética e moral”.

Mesmo passados quase 11 anos, desde quando ouvi essas palavras, motivo-me cada vez mais a trabalhar para a Governança do Ambiente. Sobretudo, no Brasil, onde o cenário atual de seu ambiente está a ser destroçado de maneira impiedosa. Não há visão de seu futuro cenário ambiental, sequer para o médio prazo. Nenhum agente público responsável faz ideia como se encontrará o cenário do território brasileiro daqui a dez anos, em 2025.

Iniciar a revolução

Há uma questão original que precisa ter resposta imediata:

─ “Como estará o ambiente brasileiro em 2025, ou seja, como se comportarão seu clima, seu ecossistema aquático, seu solo, a vegetação, a fauna silvestre e a qualidade de vida de sua população?

Em minha opinião, esse quadro de fatores e suas relações ambientais estará bem próximo da extinção, se não colapsado por completo. De forma figurada, a tendência do país é tornar-se um imenso corpo estéril, mas pleno de insanidades: políticas, econômicas e produtivas.

Neste país, as instâncias de poder, públicas e privadas, ainda negam-se a conhecer a existência do ambiente brasileiro. Chamam-no de ‘meio-ambiente’ e acham que consiste em coleções de minas a explorar, de poços de petróleo a exaurir; de solos incansáveis a serem desnutridos até o fim dos tempos, desde que a baixo custo. Acham, enfim, que podem detonar à vontade suas jazidas pedra e calcário, derrubar suas florestas para fazer telhados de luxo, enquanto, na surdina, arquitetam ‘corrupções triplex’.

Em termos da qualidade de vida, desconhecem o que resulta para a população desfrutar do ambiente estabilizado. Mas vendem-no de forma torpe, por incontáveis dólares depositados em suas próprias contas bancárias.

Querem bilhões de dólares. Quanto mais lavados, melhor (a nota é falsa).

Querem bilhões de dólares. Quanto mais lavados, melhor (a nota é falsa).

A ser desta forma, a questão original muda seu foco e fica assim enunciada:

─ “Como será possível impedir e reverter a degradação do ambiente do território brasileiro, antes de 2025?

Trata-se de prever como ficará o ambiente brasileiro no futuro e de que forma se deve trabalhar pela Revolução do Ambiente, que precisa ser de ordem técnica e cultural. Há duas linhas de ação básicas e interligadas para realiza-la.

A primeira é de ordem técnica, de gestão pública, e precisa obter resultados em curto prazo. Visa a revolucionar totalmente o setor ambiental público brasileiro. Questões que envolvem sua estrutura atual, tais como ‘ministério ou agência nacional’, ‘instituição de Estado ou órgão de governo’, ‘dependência do poder executivo ou autonomia de ação’, devem ser debatidas com a sociedade civil realmente organizada.

A partir daí, é imprescindível a implantação de uma ‘política para gestão de pessoas’, desenhada de forma a trazer para os quadros públicos desse setor profissionais experientes e com a mesma ótica proposta pela segunda linha de ação, a seguir.

A segunda linha tem seus alvos para o médio e longo prazo, pois visa a transformar valores culturais consolidados no Brasil, há séculos. Em síntese, trata-se de revolucionar a educação em todos os níveis – do primário ao superior –, tornando-a capaz de demonstrar que “a Economia somente se desenvolve quando em simbiose com o Ambiente”.

Enfim, constitui um processo de tal dependência que, caso o degrade, a economia nacional extinguirá a si própria. Essa é a visão essencial da Governança do Ambiente.

Até numa nação pobre, o ambiente pode ser o substrato da civilidade

Até numa nação pobre, o ambiente pode ser o substrato da civilidade

Haveria uma terceira, mas de ordem policial e jurídica. Abro mão de considera-la, por ser um efeito e não causa da degradação ambiental do território brasileiro. Algemas e penitenciárias, eternamente aplicadas, resolvem o problema.

……….

[1] Conceito de Ambiente: “É qualquer porção da biosfera que resulta de relações físicas, químicas, biológicas, sociais, econômicas e culturais, catalisadas pela energia solar, mantidas pelos fatores ambientais que a constituem (ar, água, solo, flora, fauna e homem). Todas as porções da biosfera são compostas por distintos ecossistemas, que podem ser aéreos, aquáticos e terrestres, bem como devem ser analisados segundo seus fatores físicos, bióticos e antropogênicos” (Kohn de Macedo, R.).

[2] Fatores ou bens ambientaisFísicos: Ar, Água e Solo. Bióticos: Flora e Fauna. Antropogênicos: o Homem e suas atividades, em especial habitação, produção e comércio.

[3] Os incêndios florestais espontâneos são classificados como eventos físicos, pois decorrem do contato de fagulhas elétricas provindas do espaço com grande volume de matéria natural comburente. Seus resultados adversos são de ordem física, biótica e antropogênica, mas próprios de matas específicas, como as florestas de eucaliptos da Austrália.

Professores através dos tempos


Pela essência do 15 de Outubro, Dia do Mestre.

São inesquecíveis todos aqueles que contribuem para a formação dos primeiros traços culturais na cabeça de uma criança. Parece-me normal que os “primeiros professores” sejam parte de sua família. São mais eficientes pelos exemplos que dão à criança, do que através de conversas e conselhos. É assim que vejo “brotar uma nova personalidade”.

Porém, há crianças que não possuíram pais. Ou ficaram órfãos ao nascer ou seus pais foram “incipientes no professorado”. Este foi o meu caso, com pais principiantes pela idade e total inexperiência em educação.

Contudo, faço-lhes homenagem nesta data. Se pelo lado materno recebi a sobrecarga do “amor egoísta”, que tanto me sufocava, do lado paterno conheci os efeitos dolorosos de um gratuito chicote a bater-me nas pernas. Sentia-me encurralado e não tinha para onde fugir. Mas, exatamente por isso, agradeço-lhes, pois foi assim que obtive o direito inconsciente de escolher, dentre as pessoas da família, quais seriam os melhores “primeiros professores”.

Hoje, analisando o ocorrido em minha infância, posso explicar meu interesse prematuro pelo aprendizado. Queria ler todos os jornais que pegava, mas permanecia analfabeto. Os adultos debatiam sobre o que liam, não raro brandindo um jornal nas mãos, e eu não podia participar. Com eles, percebi a importância de pitadas da crítica.

Foi assim que, em meados de 1952, aos 4 anos de idade, já sabia ler, escrever e fazer as quatro operações. Devo essa primeira “conquista do saber” aos exageros de minha mãe, pois durante seus ensinamentos, sem que eu tivesse consciência, estava a viver o processo da libertação. Aprender nunca me sufocou. Até por que, não queria ter um “crânio com cérebro baldio dentro”.

Desde o primário até a faculdade tive a sorte de ter bons professores. Cursei primário e ginásio em um pequeno colégio do bairro em que morava. Foi lá, durante o curso Primário, que minha personalidade começou a criar as primeiras raízes mais profundas, as boas e as más.

Nos cursos de Admissão e Ginásio, devo salientar os professores Wellington (Português), Aluízio (Geografia) e a inesquecível Dona Adélia, que ensinava História, a idolatrar os impérios Maia e Asteca. Dedicavam-se aos alunos de modo a vincar seus aprendizados com overdoses de moral e ética. A bula da época não descrevia dores ou qualquer efeito colateral nocivo para a moral e a ética, sobretudo quando aplicadas definitivamente na veia jugular.

Encerrei os estudos no bairro nessa oportunidade, pois no colégio não havia o Científico. Teve início, assim, uma pequena discussão em casa. Meu pai dizia que não tinha como pagar um colégio particular. Pelo lado oposto, minha mãe queria que eu cursasse o Científico no Liceu Franco-Brasileiro. Não vou entrar em detalhes, mas o chicote já fora vendido.

Como fruto das escolhas que fizera na primeira infância, um de meus “primeiros professores” pagou o curso no Franco-Brasileiro. Sofri um bom impacto diante desse fato:

  • Ter que sair diariamente do bairro, onde fora criado e a todos conhecia, e seguir de ônibus para Laranjeiras, a descobrir desconhecidos.

Porém, melhor que tudo, foi montar uma nova prateleira em meu quarto, com livros de Física, Química e Cálculo Matemático. Aos 14 anos senti a sede de obter conhecimentos e conhecer professores para o curso Científico. Pela lógica, imaginava que fossem cientistas.

As instalações do liceu eram superiores em tudo às do colégio do bairro. Mas a diretora era uma pessoa estranha, Dona Eliane “dos dentes verdes”. Os alunos mais velhos, que talvez tenham cursado o liceu desde o primário, chamavam-na pelas costas de “Lili”.

Apenas para mim é que tinha dentes verdes, além de ser autoritária. Por suas grosserias e gritos com alunos de todas as turmas, “Lili” não passava a imagem de 1ª Dama do Liceu. Em verdade, fazia do Liceu um forte com disciplina militar. Contudo, preciso salientar que, de forma quase paradoxal, tratava-se de uma qualificada humanista. Com ela aprendi a ter paciência, foco e disciplina.

Os professores do Franco de meu tempo tinham competência na educação. Um deles, que me cabe ressaltar, Professor Henrique de Paula Bahiana, foi realmente um cientista na área da Química. Na década de 1940, esteve a trabalho em diversos países europeus, convidado por governos para solucionar problemas de saneamento básico e aplicar cursos técnicos. Tive a honra de ter sido seu aluno, durante dois anos do curso Científico, em química inorgânica e orgânica.

Em 1967, com vistas a me qualificar para as provas do pré-vestibular, pesquisei bastante para saber em qual curso deveria matricular-me. Não foi difícil concluir que o Curso Bahiense era cotado como o de melhor desempenho, naquela oportunidade. Meu “primeiro professor” fez a matrícula e depositou o valor mensal do curso.

Recebi aulas dos melhores professores do curso. Os mestres titulares das cadeiras cumpriam um cronograma diário incrível, inclusive com testes nas manhãs de sábado. Porém, como as unidades do Bahiense eram dispersas em regiões e bairros do Rio, com sol ou chuva, eles rodavam diariamente pelas ruas mais do que taxistas, com trabalho repetitivo, dividido em dois turnos.

De início não consegui explicar a mim mesmo o porquê da assiduidade com que davam aulas. Mais ainda, a tranquilidade e elegância com que o faziam. Mas certo dia descobri, na pequena secretaria da unidade em que estudava, que eram os próprios professores que faziam seus planos de aula. Eles não eram impostos ou impositivos, mas sócios em uma única missão a que amavam: educar com qualidade seus alunos. Devo dizer que nunca em minha vida estudantil recebi um volume de conhecimentos similar ao do Curso Bahiense.

Apresento alguns professores do Bahiense daquela época, que acredito terem-me sido essenciais: Henrique de Saules (Trigonometria, Logaritmo e Análise Matemática), Otávio Guimarães Gitirana (Álgebra, Análise Combinatória e Cálculo diferencial), Ubirajara Pinheiro Borges (Geometria), Edgard Cabral de Menezes (Química orgânica e inorgânica), Antenor Romagnolo (Física Newtoniana, Ótica, Calor e Acústica), o próprio Norbertino Bahiense Filho, com suas surpresas da Geometria Descritiva, José Carlos Bazarella (Perspectiva Isométrica e Cavaleira) e Haroldo Manta (Desenho Geométrico). Todos são inesquecíveis em termos da razão e da lógica que diariamente me transmitiram, durante quase um ano. A boa educação é impagável!

Questões pessoais impediram-me de dar sequência imediata no curso universitário. Em síntese, precisava trabalhar para pagar contas e realizar minha liberdade. Assim, somente em 1969 ingressei num curso de Administração Pública.

Aula em anfiteatro de universidade

Aula em anfiteatro de universidade

Realmente, com poucas exceções, a pressão de estudar foi bastante reduzida, se comparada à do pré-vestibular. Talvez por que a ótica universitária fosse distinta, não sei. Mas, pelo menos para mim, isso tornou-se um problema. Estava acostumado com a pressão do Curso Bahiense e na faculdade quase não havia igual demanda.

Outro aspecto que me chamou atenção foi-me apresentado pelas Ciências Sociais, que nunca estudara. Recebi aulas de Metodologia de Pesquisas, Ciência Política e Sociologia. Os professores destas cadeiras tinham qualidades essenciais que desconhecia até então. Confesso que esqueci da engenharia a que me propusera cursar. E mais, praticamente abandonei as demais matérias da faculdade. Exceção feita à cadeira de Administração, função da qualidade do mestre que a lecionava, Professor Paulo Reis Vieira.

Dessa forma, destaco a competência e os ensinamentos que recebi de Simon Schwartzman, com quem estagiei na qualidade de seu assistente. Simon foi meu Mestre em Metodologia de Pesquisas. Com ele, mais que tudo, creio haver aprendido a pensar.

Na faculdade destaco, da mesma forma, os professores e amigos Maul e Fred, a lecionar Estatística, Álgebra Linear e Pesquisa Operacional. Com esses dois pude aprender que errar não é aconselhável.

Ainda assim, faltam importantes menções a professores através dos tempos. Desejava publicar esta crônica ontem, no Dia do Mestre. Mas perdi tempo a escarafunchar a memória, pesquisar documentos, para conclui-la somente hoje. De toda feita, esta é minha homenagem a meus professores.

Ricardo Kohn, Escritor.

A grande criação!


Durante 23 anos, a Uesel – Universidade de Estudos da Selva investiu no trabalho de cientistas especializados em “Comportamento Selvagem”. Contudo, seu amplo laboratório, construído no interior da floresta tropical, iniciou suas atividades com apenas oito acadêmicos voluntários.

Porém, a equipe cresceu gradativamente, com mais acadêmicos, doutorandos, assistentes e técnicos dedicados. Assim, foi erguida a Vila de Estudos, como se fora uma taba, que formava um círculo em torno do laboratório, inclusive com alojamentos sobre palafitas nas áreas molhadas ou inundáveis.

Vista aérea da área selecionada para o laboratório da Uesel

Vista aérea da área selecionada para o laboratório da Uesel

Nos últimos quatro anos, entre pesquisadores e cientistas, de laboratório e de campo, contou com a dedicação de 298 acadêmicos e respectivas equipes, provindos de vários países e eméritos conhecedores de ciências de interesse. Era o escol mundial em Comportamento Selvagem, reunido com o mesmo e único objetivo: criar a chamada “pílula dos predadores”. Mas o que seria isso?

Na década de 1940, um jovem mestre em biologia defendeu, na Uesel, sua tese de doutorado em Antropologia. Tinha ascendência alemã e era tratado por Müller. Foi aprovado com louvor, pela solidez de seus argumentos científicos e, sobretudo, pelos desafios futuros que criara para a ciência. A partir de então, Müller foi honrado com o título de Docente-Pesquisador da Uesel, onde permanece até hoje.

Em síntese, ele demonstrou à banca uma teoria que tornava possível criar uma substância orgânica (“pílula dos predadores”) capaz de docilizar até o mais implacável dos predadores selvagens. E mais, sem qualquer efeito colateral, que não fosse “o silêncio do comportamento selvagem”.

Mas somente em 1990, quase 50 anos mais tarde, o Conselho Universitário da Uesel aprovou por unanimidade o projeto de desenvolver a substância pensada por Müller. Assim, em 1991, foi iniciada a operação do Campus Mata Tropical, da Uesel, e de seu laboratório de experimentos científicos, com área útil de 3.000 m2.

O primeiro passo foi conhecer o estado da arte sobre o comportamento de animais silvestres, com ênfase nas espécies predadoras. Após três anos de intensivo levantamento bibliográfico, realizado em instituições científicas de todo o mundo, dois fatos ficaram evidenciados:

  • Havia uma boa produção de teorias a respeito, essenciais de serem analisadas com muito cuidado; e
  • Inúmeros pesquisadores estrangeiros demonstraram interesse em participar dos trabalhos da Uesel.

Como o processo da identificação do DNA ainda era recente e não considerava as espécies predadoras em seu cardápio, tornava-se mais complexo identificar “substâncias” que pudessem controlar o comportamento animal. Dessa forma, foram incorporados à equipe os melhores neurologistas, botânicos e químicos que se apresentaram interessados.

Na verdade, o Campus Tropical da Uesel ainda tateava no escuro, mas estava decidido que a pílula precisava ser predominantemente orgânica, conforme a teoria defendida no passado pelo Professor Müller. Por sinal, ele acompanhava os trabalhos com muito interesse, enquanto fazia seu primeiro pós-doutorado em Antropologia Animal. Realizou mais dois outros, com ênfase em substâncias relaxantes e substâncias excitantes para animais selvagens.

Diversos experimentos aconteciam em paralelo no laboratório. Eram processos de ensaio e erro, sem dúvida, mas botânicos e químicos, coordenados por neurologistas, começaram a conversar entre si de forma objetiva.

Mas o engano que muitos continuavam a cometer devia-se ao fato de acreditarem que substâncias narcóticas, como morfina, ópio, codeína ou heroína, eram capazes de controlar o comportamento animal. Porém, o Professor Müller lhes reconduzia ao eixo:

─ “Os senhores estão a entender o problema por um ângulo distinto do que a tese propôs. Se fosse assim, tão simples, bastava usar as anestesias já conhecidas”.

E Müller tornava a mostrar a diferença essencial contida na tese:

─ “Nosso objetivo é desenvolver uma substância capaz de, digamos, ‘amansar predadores’, encontrados em qualquer continente, mas sem causar nenhum efeito colateral, que não seja o de silenciar comportamentos agressivos e violentos”.

O ataque de um rinoceronte furioso

O ataque de um rinoceronte furioso

Em síntese, seu foco não era inibir ou estimular o sistema nervoso central de um animal com o uso de drogas, mas o de transformar seu estado, de selvagem e agressivo, para calmo e participativo, com meios encontrados na natureza.

Seguiram-se mais 8 anos de experimentos laboratoriais controlados. Após realizados os testes básicos em ratos das substâncias produzidas, ficou demonstrado que somente três delas talvez obtivessem resultados positivos.

Por outro lado, embora distintas em sua composição, as substâncias eram bem simples de serem produzidas. Apenas a mistura concentrada de seivas, obtida pela trituração de folhas e talos de jovens leguminosas, abundantes em matas tropicais.

Diante desse quadro, o Professor Müller passou a atuar diretamente nos trabalhos. As três substâncias precisavam ser testadas em espécimes da fauna terrestre mais agressiva, desde aracnídeos até grandes mamíferos.

Na falta da existência de uma “Arca de Noé”, a Uesel viu-se obrigada a fazer convênios com outras universidades e dividir os trabalhos, mantendo três de suas equipes na supervisão e controle dos testes, com o uso de cada substância e famílias de animais silvestres.

Iniciados os trabalhos em todos os continentes, logo ficou claro que nenhuma das substâncias produzidas era capaz de “amansar predadores” da forma esperada, sobretudo pela amplitude de espécies da fauna mundial. Todas somente deram certo para conter a fome dos ratos.

Mesmo assim, a teoria do Professor Müller não será esquecida por um fato. Uma das substâncias, apesar de seu resultado fraco, foi além dos ratos e ‘amansou’ crocodilos australianos, ofídios venenosos, aranhas e escorpiões. Não é nada, não é nada, mas significa que havia ciência em criação.

O crocodilo assassino docilizado pela substância orgânica

O crocodilo assassino docilizado pela substância orgânica

O Conselho Universitário da Uesel, diante dos resultados alcançados, decidiu encerrar o Projeto Pastilha dos Predadores e arquivar todos os levantamentos e relatórios executados. Organizou um evento de despedida do Campus Mata Tropical e transferiu os equipamentos de seu laboratório para a sede da universidade.

O Reitor da Uesel, falando em nome do Conselho, abriu o evento e agradeceu a todos os acadêmicos dedicados ao trabalho. Ao final de sua fala, passou a palavra para o Decano da Universidade de Uesel, o notório conhecedor da Antropologia Animal, Professor Müller, não sem antes desejar-lhe felicidades e saúde por aquela data, quando completava 90 anos de idade e 65 de docência na Uesel.

Foi então que Müller, bem tranquilo, falou ao microfone, com sua voz antiga e já rouca:

─ “Acho que a Uesel deve exportar esse raro conhecimento. Já pensaram no uso prático dessa substância para amansar corruptos?”…

─ Contra-atacar!


Cenário do mercado

Tomando por base o ano de 2001, pela falta da memória detalhada sobre os anos anteriores, observa-se que o mercado ambiental (de treinamento, estudos e projetos) vem se acanhando de forma intensiva no Brasil.

Hoje são poucas as empresas que têm bons contratos nestas áreas. Menos ainda, aquelas que recebem em dia as faturas emitidas, pelas quais pagam tributos antecipados. Muitas vezes esperam meses para serem remuneradas por seus clientes. Alguns deles são “gigantes quebrados”.

Em âmbito geral, recorda-se que, nas décadas de 1980 e 1990, quando então o mercado de consultoria de projetos mostrava um bom crescimento, quem nele desejasse atuar com mais destaque, era razoável atualizar sua capacitação através de treinamento adequado, fosse por meio de curso intensivo ou de nível superior.

Mas, como resultado dos últimos seis anos (2008-2014), por diversos motivos, o cenário do mercado que se avizinha não é nada promissor. A tendência é a do aumento do desemprego de profissionais de maior qualidade e mais experiência de trabalho. Obviamente, aqueles mais produtivos, eficientes e que percebem melhor remuneração.

Cenário da Universidade

Universidades, até mesmo de São Paulo, Minas Gerais e do Rio de Janeiro, estão a sofrer expressiva redução no número de alunos em várias de suas faculdades. Isso está ocorrendo, mesmo com a oferta de bolsas integrais e parciais para estimular o fazimento dos cursos de graduação.

Além disso, algumas faculdades estão reduzindo seu portfólio de cursos, por falta da quantidade mínima de novos alunos. É um cenário triste, pela escassez de mão-de-obra capacitada que deve ser prevista para o curto e médio prazo. É como se a indústria da educação houvesse reduzido/parado sua produção de valores técnicos e acadêmicos, posto que não há demanda suficiente do mercado para viabilizá-la.

Observa-se que há um engano nessa estratégia, que é financeira e não educacional. Afinal, aluno bem formado não é produto, mas um decisivo valor agregado a processos produtivos.

Análise dos cenários

Nota: não estão consideradas as áreas básicas da Saúde, Transporte, Infraestrutura, e Segurança, pois a análise não aborda questão de mérito.

Se as previsões acima estiverem próximas da realidade, sem necessidade de serem precisas, tanto para o mercado ambiental, quanto para as universidades, tudo leva a crer que a principal causa da vulnerabilidade dos cenários foram investimentos insuficientes, em especial no período 2008-2014. Governo e, sobretudo, empresários, parecem haver optado por outras alternativas de aplicação de seu capital.

Porém, foram aportes insuficientes não apenas por força do volume de investimentos realizados, que poderiam ter sido até mesmo elevados. Mas função da diversidade de áreas produtivas que deveriam ter recebido mais aporte de capital para Educação Universitária e Gestão do Ambiente. Assim, em consequência, como funções de Estado que são, auxiliariam na evolução do país.

No entanto, os investimentos foram mais concentrados em Energia, Petróleo e Esporte, e se tornaram incapazes de rever e reajustar a Educação Universitária, bem como fortalecer a dinâmica do mercado relacionado à Gestão do Ambiente.

Aliás, esta Gestão está intimamente ligada às práxis decorrentes da Universidade, porquanto, demanda ações com base em teorias utilizadas pelo mercado. Assim, investir na Universidade é sinônimo de ampliar a mão-de-obra capacitada disponível no mercado.

A Universidade é berço do Mercado - Oxford University

A Universidade é berço do Mercado – Oxford University

Pediu-se a opinião de vários docentes e universitários sobre o decréscimo de alunos nas salas da graduação. Além do investimento precário, também atribuíram este processo à “política de cotas” implantada no país. O fato é que jovens cotistas, sem a instrução básica necessária, chegam à Universidade com notas bem baixas, quando comparadas às requeridas para os não-cotistas.

Entretanto, mesmo dispondo de bolsas de estudo, muitos não conseguem acompanhar o nível das aulas e abandonam os cursos. Ao cabo, zeram as vagas que obtiveram, e reduzem o número de graduandos em salas de aula.

Em palestras proferidas sobre práticas da Gestão do Ambiente, teve-se a oportunidade de assistir a esses “quadros esvaziados”, em turmas da engenharia civil, engenharia ambiental, biologia, gestão ambiental e turismo. Fala-se em salas vazias de universidades públicas e privadas – 20, 15, 12 alunos por sala. O problema é grave e parece ser brasileiro e generalizado.

Para tratar os cenários

O tratamento desses quadros de mercado e universitário é complexo. Demanda tempo e investimentos, dada a situação de “terra arrasada” a que se chegou. No entanto, é possível à iniciativa privada realizar medidas de curto prazo para amenizar seus impactos adversos. Essas medidas não tratam do mercado ambiental, apenas o da capacitação educacional, com os seguintes focos:

  • Oferecer treinamento para estudantes selecionados; e
  • Oferecer ações educacionais compensatórias para estudantes em geral.

Estudantes selecionados. Suas turmas recebem treinamento intensivo em campo, ou seja, a teoria e sua prática imediata. Os cursos devem ser certificados por instituições renomadas de educação. Essa medida permitirá que a instituição provedora dos cursos eleve seu preço. A margem financeira decorrente servirá para manter a instituição e oferecer cursos gratuitos a estudantes em geral.

Para obter mais informações sobre esse tipo de curso, sua filosofia encontra-se detalhada no artigo “Não vou trocar de óculos”, publicado em fevereiro deste ano.

Estudantes em geral. Da mesma forma, as turmas recebem treinamento gratuito em campo. Porém, sua intensidade dependerá do interesse e esforço dos participantes. O objetivo é capacitar pessoas para realizar serviços e trabalhos no Ambiente, assim como estimulá-las para cursos mais profundos em conhecimento e práticas.

Não há dúvida que se trata de uma “medida compensatória” que a instituição provedora se obriga a realizar para a população mais carente de apoio. Sempre com a mesma dedicação e empenho a que atende aos estudantes selecionados. Porém, sem trata-los como raça ou sub-raça. São humanos iguais aos demais, apenas precisam de ter suas realidades entendidas e tratadas como realmente são. Joga-los em uma universidade por meio de “cotas”, equivale a induzi-los a serem ovelhas premiadas no covil de lobos.

Quanto ao mercado, nada há o que a sociedade possa fazer diretamente, pois depende de políticas específicas do governo, que ampliem o leque das áreas produtivas e respectivos investimentos. No atual cenário econômico do país, que se encontra sem capital para investir, uma opção acertada seria aumentar as concessões públicas, desde que livres das “regras do Estado”, e realizar muitas parcerias público-privadas em funções-chave do Estado.

Em suma, não é razoável que ninguém permaneça estático, inativo. Afinal, existem oportunidades baseadas na necessidade vital da Educação. Por isso, há que se contra-atacar os prejuízos!

Viadutos que não desabam


Na cidade de Wuhan, situada na região central da China, foi construído um grande viaduto sobre uma linha férrea de alta velocidade.

No entanto, antes de iniciar a construção, a empresa construtora tinha alguns problemas para resolver: (i) demolir a passagem elevada existente (com duas pistas de 3,5 km de extensão) e (ii) construir em seu lugar um viaduto maior. Porém, com uma séria restrição: (iii) sem interromper os serviços do “trem-bala chinês”.

A demolição com explosivos da estrutura foi realizada a noite. Como a região possui muitos prédios residenciais, com canalização de gás, cabos de energia elétrica e de telefonia, era imprescindível reduzir a expansão da nuvem de fragmentos e poeira. A construtora seguiu a experiência britânica nesse tipo de demolição. Forrou a área do desabamento com sacos de areia e de algodão, para em seguida iniciar a “ordem de fogo”.

A maior demolição de viaduto jamais realizada na China – Foto BBC

A maior demolição de viaduto jamais realizada na China – Foto BBC

Pelos cálculos dos engenheiros, o novo viaduto, projetado com seis pistas e 5 km de extensão, teria seu peso na ordem de 17 mil toneladas. A questão era aonde construí-lo sem parar a linha férrea? Mas, como “cabeça não foi feita para separar orelhas”, a solução foi encontrada.

Engenharia para viadutos seguros que não desabam

Engenharia para viadutos seguros que não desabam

A estrutura do viaduto foi construída em duas seções, com canteiro de obras situados em paralelo à linha férrea. Mas com um importante detalhe de engenharia. Ambas foram construídas sobre um eixo de 15 metros de altura, com capacidade de rotaciona-las e fazer os encaixes sobre os pilares de sustentação e nos bordos da pista existente.

Girando um viaduto de 17 mil toneladas

Girando um viaduto de 17 mil toneladas

Viaduto encaixado nos bordos da pista, sem desabar

Viaduto encaixado nos bordos da pista, sem desabar

De fato, uma verdadeira “obra de arte” chinesa.

Porém, eis os viadutos que desabam!

Em doze cidades brasileiras “tentaram” fazer dezenas de obras urbanas. Segundo o que foi “vendido” pelo governo, eram todas para “melhoria da mobilidade urbana”. Além, é claro, de atender ao dito “Padrão Fifa”.

Segundo a soberana, sempre sob o comando de seu marqueteiro de estimação, somente com a execução do inventado “PAC da Copa” seria realizada a inventada “Copa das Copas”. Inventaram até uma “Lei Geral da Copa[1], válida apenas para as 12 cidades. Viveu-se um inferno de obras urbanas muito mal planejadas. Muitas delas não foram concluídas a tempo de atender a Copa da Fifa; quase todas foram superfaturadas.

Mas foi em Belo Horizonte (MG) que o “PAC da Copa” fez as primeiras vítimas que não eram operários da construção. Um viaduto ainda em obras despencou sobre uma avenida com elevado trânsito, no bairro da Pampulha e, por sorte, somente soterrou dois caminhões e um carro. Mas um micro-ônibus escolar também foi atingido e teve perda total em sua dianteira.

Todavia, como não poderia deixar de ser, a ação inepta e até mesmo criminosa dos gestores do “PAC da Copa” acabou por matar duas pessoas inocentes e feriu outras vinte e três.

Viaduto brasileiro desabado em Belo Horizonte

Viaduto brasileiro desabado em Belo Horizonte – China News

Ao comparar os riscos de segurança das obras do “viaduto chinês” (com 5 km), com os da “passarela brasileira” (com 112 metros), fica óbvio que os responsáveis por esse acidente seriam punidos pelo governo chinês de forma equivalente ao que destruíram, inclusive a perda de vidas humanas.

Para onde segue a engenharia brasileira?

Segue muito bem, obrigado. O que segue mal são as formas de sua contratação pelo sistema público. O critério de menor preço é simplesmente absurdo. Usado a título de fazer economia com o dinheiro público – o que é uma falácia –, o sistema dispõe de “esquemas” que permitem “acordos com a contratada” para que realize uma série de consecutivos “aditivos ao contrato”. Tudo leva a crer que ambas as partes saem ganhando – os sócios da contratada e os donos do Estado.

O governo sempre contrata o menor preço, mas graças aos aditivos paga, em média, ágio de 300 a 400% do valor contratado. A variação dos custos da construção da refinaria Abreu e Lima – de US$ 2, 5 bilhões, para US$ 20 bilhões – é prova cabal desta “ação entre amigos”. Não é à toa que a dívida pública brasileira alcançou R$ 2,12 trilhões, em 2013. Um recorde, equivalente a quase um décimo do PIB da China, o segundo maior do mundo.

Sugere-se, com base na ética da Engenharia, que todas as obras concluídas pela Delta e pela Cowan no Brasil sejam auditadas em termos de sua segurança, envolvendo a proveniência dos insumos construtivos utilizados, sua qualidade, as ferragens das estruturas, etc.

……….

[1] Quem tiver interesse, está disponível em Lei Nº 12.663, de 5 de junho de 2012. Tudo leva a crer que, com base neste diploma legal, o Brasil foi governado pela Fifa durante a Copa de 2014. Essa lei foi feita sob medida para garantir, sem quaisquer riscos, os lucros financeiros da Empresa Fifa e seus associados.

Como proceder a Gestão do Ambiente


Por Ricardo Kohn, Escritor e Consultor em Gestão.

Este é um artigo de maior amplitude teórica e prática sobre a Gestão do Ambiente. Procurou-se integrar boa parte dos artigos técnicos já publicados neste blog, durante seus dois anos de existência. Sua leitura e análise pode contribuir para aquecer os debates que visam à evolução das práticas de gestão, tendo o Ambiente como seu foco principal.

1. O que é Ambiente

É qualquer porção da ecosfera que resulta das relações físicas, químicas, biológicas, sociais, econômicas e culturais, catalisadas pela energia solar, mantidas pelos fatores ambientais que a constituem, quais sejam: o Ar, a Água, o Solo, a Flora, a Fauna e o Homem”.

Dessa forma, todas as porções da biosfera são compostas por distintos ecossistemas, que podem apresentar componentes aéreos, aquáticos e terrestres, bem como serem observados segundo seus elementos do espaço físico (ar, água e solo), do espaço biótico (flora e fauna) e do espaço antropogênico (o homem e suas atividades típicas – habitacionais, industriais, comerciais, de serviços e culturais).

No entanto, países de língua portuguesa e espanhola usam o termo ‘Meio Ambiente’. Nas demais nações ocidentais verifica-se que o somente vocábulo ‘Ambiente’ é usado para se referir à mesma entidade: environment, environnement, umwelt, ambiente.

Dado o fato que na língua portuguesa um dos significados de ‘Meio’ é “Ambiente”, dentre outras coisas, opta-se por eliminar esse erro de redundância e usar apenas ‘Ambiente’, tal como nas línguas inglesa, francesa, alemã e italiana, acima exemplificadas.

2. Conceitos básicos relativos ao Ambiente

Seguem alguns conceitos e respectivas definições usados neste artigo. São básicos para o entendimento do que é e como se faz a Gestão do Ambiente.

Conceitos Definições
Ecossistema ou Sistema ecológico Qualquer parcela do Ambiente, na qual se estabelecem relações de diversas ordens entre os fatores bióticos e abióticos que a compõem. Os empreendimentos públicos e privados são conjuntos de fatores ambientais antropogênicos e fazem parte dos ecossistemas em que se situam. Constituem, dessa forma, ecossistemas humanos organizados quando estabelecem relações de troca de energia e matéria dentro de limites aceitáveis.
Fator ambiental Constituem os componentes dos ecossistemas, tanto primitivos, quanto rurais e urbanos, que interagem para conformá-los. Os fatores ambientais considerados básicos são o Ar, a Água, o Solo, a Flora, a Fauna e o Homem.
Espaço ambiental Espaços ambientais constituem uma subdivisão teórica do Ambiente. São organizados por conjuntos afins de segmentos ambientais, de acordo com o tipo de abordagem que se deseja imprimir em uma dada relação entre Empreendimento e sua área de inserção. Por exemplo: Ambiente → {Espaço Físico, Espaço Biótico e Espaço Antropogênico}.
Segmento Ambiental Segmentos ambientais consistem qualquer uma das partições afins em que podem ser subdivididos os espaços ambientais, de acordo com a abordagem do estudo a ser realizado e em conformidade com as características do espaço a que se referem. Por exemplo: Espaço Biótico → {Segmento Aquático, Segmento Florístico e Segmento Faunístico}.
Relações ambientais Consistem nas trocas sistemáticas de energia, matéria e informação entre fatores ambientais e entre cada fator e os ecossistemas de que participam. São trocas espontâneas e essenciais que podem garantir a estabilidade dos sistemas ecológicos.
Estabilidade ambiental Constitui o processo de manutenção espontânea dos ciclos de relações ambientais mantidas entre fatores em permanente interação, conformando ecossistemas estabilizados e, por conseguinte, capacitados para a coevolução.
Organização (o mesmo que Organização produtiva, Empresa, Corporação ou Empreendimento) Constitui um conjunto dinâmico e integrado de recursos de diversas naturezas, apoiado em tecnologias apropriadas, destinadas aos tipos de bens, produtos e serviços que objetiva produzir, física e economicamente organizados, a fim de cumprir um processo produtivo estabelecido. Toda organização opera em um determinado Ambiente. Sua existência, sobrevivência e evolução dependem da maneira com que ela se relaciona com ele, bem como de suas capacidades de adaptação às variações do Ambiente. Depende, portanto, de sua capacidade de gestão do desempenho ambiental.
Área de influência de uma organização Consiste na área territorial estimada que poderá receber impactos ambientais benéficos e adversos, decorrentes de todas as etapas do ciclo de vida de uma organização: projeto, obras, operação e eventual ampliação.
Transformação ambiental Trata-se da sequência de eventos proporcionada pelas relações ambientais mantidas entre um empreendimento e o Ambiente de sua área de influência:

  • Existe uma organização ou um projeto de engenharia;
  • Explicada por intermédio de suas intervenções de engenharia sobre o Ambiente;
  • Que demandam ou ocasionam manejos no Ambiente para que sejam implantadas e operadas;
  • As quais podem proporcionar mudanças de comportamento e/ou de funcionalidade dos fatores ambientais por elas afetados.
Intervenção ambiental Consiste em uma obra de engenharia que acarreta a introdução, concreta ou virtual (quando em projeto), permanente ou temporária, de pelo menos um fator ambiental em um dado Ambiente através da ação humana, capaz de gerar ou de induzir o remanejamento dos fatores ambientais existentes. Um conjunto de intervenções ambientais conforma uma organização.
Alteração ambiental Consiste no remanejamento, espontâneo ou induzido, de conjuntos de fatores ambientais da área de influência da organização, em decorrência da introdução de pelo menos uma intervenção ambiental.
Fenômeno ambiental Constitui qualquer processo ambiental capaz de afetar, específica e diretamente, o comportamento e/ou a funcionalidade pré-existentes de um ou mais fatores ambientais, em decorrência de pelo menos uma alteração ambiental.
Eventos ambientais Trata-se do nome genérico dado a empreendimentos, intervenções, alterações e fenômenos ambientais.
Impacto ambiental Os efeitos de qualquer ordem percebidos no Ambiente que sejam capazes de afetar as variações das transações de energia, matéria e informação, estabelecidas entre o fator ambiental e o sistema ecológico de que participa, beneficiando-o ou prejudicando-o. Empreendimentos, intervenções, alterações e fenômenos ambientais possuem impactos ambientais associados, tanto benéficos como adversos.
Qualidade ambiental A qualidade de um Ambiente expressa as condições e os requisitos básicos que ele detém, de natureza física, química, biológica, social, econômica e cultural, de modo a que os fatores ambientais que o constituem, em qualquer instante, exerçam efetivamente as relações ambientais que lhes são fundamentais e afetas.
Reabilitação ambiental Consiste na implantação e gestão de projetos e ações destinados a re-funcionalizar áreas que hajam sido alteradas, sejam por meio de ações antropogênicas, sejam através de processos espontâneos de sucessão em ecossistemas do Ambiente.
Rupturas ambientais Decorrem das perdas de relações ambientais essenciais para manutenção de um ecossistema estabilizado, proporcionadas por impactos ambientais adversos, antropogênicos ou não.
Retroimpactos ambientais Constituem as respostas do Ambiente impactado sobre todas as organizações e comunidades nele existentes, podendo beneficiá-las ou prejudicá-las. Quanto mais adequadamente for mantida a sustentabilidade do Ambiente afetado por obras e atividades produtivas, menores serão seus retroimpactos adversos.
Sustentabilidade A sustentabilidade é um atributo exclusivo do Ambiente que consiste na sua capacidade e de seus ecossistemas componentes em manter e desenvolver as relações essenciais entre seus fatores constituintes (ar, água, solo, flora, fauna e homem), que lhes permite existir. Alguns especialistas utilizam o termo sustentabilidade ambiental. Do inglês, ‘environmental sustainability’.
Avaliação da sustentabilidade Consiste na avaliação da qualidade ambiental de um território, envolvendo os mesmos elementos utilizados na aferição de sua sustentabilidade: qualidade do ar, qualidade da água, qualidade do solo, qualidade de vida da flora, qualidade de vida da fauna e qualidade de vida humana.
Gestão ambiental O objeto da gestão ambiental é a otimização dos processos da organização que transformam os sistemas ecológicos, primitivos ou não. A gestão ambiental é o processo necessário, mas não suficiente, para garantir que a introdução de um sistema humano organizado em qualquer sistema ecológico (primitivo, alterado ou humano) tenha como resultado um sistema humano organizado. Sua finalidade é a gestão do desempenho ambiental das organizações.
Gestão da Sustentabilidade Consiste no processo gerencial onde são avaliados, planejados e monitorados (i) os processos da transformação ambiental, (ii) os resultados destes processos e (iii) as respostas do Ambiente a estes resultados, beneficiadas através de (iv) um plano ambiental específico.
Conservação ambiental Consiste no uso controlado dos espaços territoriais, visando a garantir a manutenção das funcionalidades ambientais similares às suas funcionalidades primitivas.
Preservação ambiental Consiste no impedimento controlado do uso e da ocupação de ecossistemas primitivos, visando à total manutenção de suas funcionalidades ambientais primitivas.
Diagnóstico ambiental Constitui a construção do conhecimento da região de interesse de um projeto de engenharia ou de um empreendimento existente. Pode ser efetuado por meio da coleta de dados e informações locais (recomendável) ou através de websites especializados, para coletas dos dados secundários disponíveis. Deve ser realizado enfocando os ecossistemas e fatores ambientais afetáveis pela presença do projeto ou da organização existente, assim como aqueles que com eles se relacionam e deles dependem para que possuam estabilidade.
Prognóstico ambiental Os prognósticos ambientais são processos analíticos de previsão justificada e documentada dos quadros mais prováveis da transformação ambiental esperada para a região considerada pelo estudo.
O ato de Avaliar O ato de avaliar pressupõe a realização de três tarefas essenciais:

  • O estabelecimento de um padrão de medida;
  • A mensuração do objeto a ser avaliado segundo esse padrão; e
  • Uma nota, que represente o desvio relativo entre o valor apropriado ao objeto e o padrão previamente estabelecido.

As duas primeiras tarefas consolidam uma análise. A terceira, a elas integrada, realiza a avaliação.

Avaliação de Impactos Ambientais Conhecida através da sigla AIA, é o processo de aferir o desvio relativo entre os impactos ambientais estimados em um cenário ambiental, utilizado como base (padrão), e os impactos estimados para um cenário a ele alternativo.
Monitoração ambiental Processo de acompanhamento e/ou aferição de parâmetros ou indicadores ambientais, devendo ser capaz, sempre que possível, de mensurar as oscilações do comportamento de um dado fator ambiental, em intervalos de tempo pré-estabelecidos e conforme algum padrão previamente definido.
Hipótese Global de Situações de Impacto
(HGSI)
Constitui a identificação preliminar, ainda hipotética, dos eventos ambientais (intervenções, alterações e fenômenos) proporcionados por um projeto de engenharia ou por um empreendimento em sua área de influência. É expressa através de uma árvore de eventos, onde é indicada a relação de causa e efeito dos eventos identificados. A HGSI é a base para a realização dos diagnósticos ambientais, orientando-os para os ecossistemas e fatores ambientais de interesse.
Transitividade do impacto ambiental A transitividade é a energia de transformação que estrutura e mantém a árvore de eventos ambientais – HGSI –, demonstrando que o impacto ambiental de um fenômeno distribui-se por essa árvore, através de seus eventos causadores, ‘do solo até o topo da árvore’.
Matriz de Impactos Ambientais (MIA) Constitui a representação matricial da árvore de eventos ambientais.
Potencialidade ambiental Consistem em áreas territoriais mais resistentes a transformações ambientais, em função de seu relevo, de seu clima, de seus solos, de seus recursos hídricos, de seus biomas e de suas comunidades, inclusive a humana.
Vulnerabilidade ambiental Consistem em áreas territoriais mais sensíveis a transformações ambientais, em função de seu relevo, de seu clima, de seus solos, de seus recursos hídricos, de seus biomas e de suas comunidades, inclusive a humana.A Sustentabilidade é um dos principais focos de estudos e projetos de engenharia que visam a impedir a ocorrência de questões ambientais adversas. Embora o uso do termo ‘Sustentabilidade’ seja relativamente recente no Brasil, diversas universidades ensinam a seu respeito utilizando conceitos diferenciados. De forma mais nítida, e por vezes equivocada, alguns agentes da mídia fazem uso indiscriminado desse conceito, aplicando-o para adjetivar processos que, ou não são sustentáveis, ou deles resulta a Sustentabilidade do Ambiente em que ocorrem.

3. Em que consiste a Sustentabilidade

Para esclarecer o significado deste conceito precisa-se entender (i) em que espaço ele deve ser considerado, (ii) o que o motiva, (iii) quais são os elementos envolvidos na sua realização, e (iv) quais são os benefícios decorrentes de sua aplicação. Enfim, em que cenários tratamos esse processo, que foi denominado por Sustentabilidade Ambiental ou simplesmente Sustentabilidade, a indicar que é uma propriedade exclusiva do Ambiente.

Consiste na capacidade dos ecossistemas constituintes do Ambiente (primitivos e humanos) em realizar, manter e desenvolver as relações ambientais essenciais entre os fatores ambientais básicos existentes no planeta, que são o ar, a água, o solo, a flora, a fauna e o homem.

Todos os fatores ambientais secundários, embora não sejam menos importantes, decorrem dessas relações mantidas entre esses seis fatores básicos. Vale observar que estudiosos e acadêmicos que atuam na área ambiental incluem o fungo como fator ambiental básico.

3.1. Ecossistema primitivo

Em ambientes constituídos por ecossistemas primitivos, onde ainda não exista a presença expressiva de atividades humanas produtivas, essas relações possuem algumas capacidades específicas que as tornam sustentáveis. De uma forma geral, é possível enumerá-las assim:

Capacidade de Estabilidade Ambiental: os fatores ambientais (Ar, Água, Solo, Flora, Fauna e Homem) realizam de forma sistemática trocas de matéria e energia entre si, em expressiva harmonia com as necessidades de cada fator demandante e de acordo com a capacidade dos fatores que fazem as ofertas. É assim que se desenvolvem e evoluem.

O termo Equilíbrio Ecológico ou Ambiental não existe como conceito científico, muito embora seja utilizado até mesmo em textos legais brasileiros, na qualidade de ‘preceitos legais’. O termo correto é Estabilidade Ecológica ou Ambiental.

Capacidade de Retroalimentação Ambiental: tudo o que é gerado ou produzido pelos ecossistemas primitivos de um dado Ambiente é totalmente consumido por seus fatores ambientais constituintes. Não há resíduos de qualquer natureza, não há sobras, não há ‘lixo’ no Ambiente primitivo. Isso demonstra que suas práticas intrínsecas de reciclagem e reuso são espontâneas e completas.

As duas características acima permitem que os componentes dos ecossistemas operem compartilhando processos, ou seja, possuam Capacidade de Coevolução Ambiental.

Capacidade de Autoorganização Ambiental: não existem sistemas de controle externos às relações ambientais mantidas entre os fatores. Esses “controles” são espontâneos e intrínsecos às próprias relações. Desta forma, não há perdas de energia e matéria em processos que não sejam produtivos. Em outras palavras, “não há custos de homem x hora para controlar a produção e a produtividade dos sistemas ecológicos”.

A tendência dos ambientes primitivos estabilizados é a de atingir a níveis de coevolução e autoorganização tais que se podem tornar sistemas de elevada resistência e resiliência, a independer de fluxos de energia e matéria a eles externos. A esta tendência dá-se o nome de Clímax Ecológico ou Ambiental. Há autores que não concordam com a tese da tendência do clímax dos sistemas ecológicos.

Garantidas estas quatro capacidades é possível afirmar que um dado Ambiente possui qualidade ambiental, encontra-se estabilizado e, em consequência, possui sustentabilidade.

Mas, ainda há mais uma capacidade própria dos ecossistemas primitivos. Podem ocorrer em algum momento de suas existências rupturas nas relações ambientais existentes. As trocas de energia e matéria entre seus fatores são alteradas por algum motivo. Então, o sistema ecológico é afetado e pode perder seu funcionamento primitivo. Contudo, o sistema resultante  também passa a buscar a realização das capacidades acima apresentadas para alcançar um novo cenário de sustentabilidade. Este processo, que constitui um renascimento, é chamado por Capacidade de Sucessão Ambiental ou Sucessão de Ecossistemas.

Nos ecossistemas primitivos o Homem constitui um fator componente básico, que é parte ativa do sistema. No entanto, deve ser considerado ou como um componente primitivo ou, sobretudo, como um componente que sabe limitar suas apropriações e demandas sobre os demais fatores, a contribuir para a existência e permanência dos ecossistemas primitivos.

3.2. Ecossistema humano

O Homem constrói seu habitat preferencial. Será aqui denominado ecossistema humano ou sistema humano. Ele se apropria e transforma recursos naturais (fatores ambientais), de acordo com o que considera relevante para ter suas necessidades atendidas, básicas ou não. Ele produz, distribui seus produtos, cria novas atividades econômicas secundárias, gera renda e riqueza. Porém, os sistemas humanos muitas vezes constituem ‘sistemas organizacionais’ e operam de forma distinta dos sistemas ambientais. Seus fatores ambientais básicos são “recursos humanos, informação, tecnologia, recursos naturais e capital”. Segundo esse entendimento, as relações entre seus fatores básicos podem ser explicadas da seguinte forma.

Os sistemas humanos realizam apropriações de recursos naturais e os transformam em produtos ou serviços, tentando buscar a harmonia entre os mercados demandantes e sua capacidade de oferta. É assim que se desenvolvem alguns dos sistemas empresariais. Denominamos este processo por Busca da Estabilidade Organizacional.

Nem tudo o que é produzido pelos sistemas humanos é totalmente consumido pelos mercados a que atendem. Por isso, há sobras, há resíduos de variadas naturezas, há ‘lixo’ no Ambiente empresarial, o qual os sistemas humanos hoje tentam minimizar para reduzir suas despesas. Quase nada é compartilhado, quase tudo visa à competição. Denomina-se este processo por Competição na Evolução Organizacional.

Há inúmeros sistemas de controle que são externos às relações empresariais. Eles são basicamente improdutivos. Desta forma, nos sistemas humanos há perdas de energia e matéria em processos que, afora o controle, nada produzem. Em outras palavras, “há custos de homem x hora para controlar sua produção e produtividade”. Denomina-se este processo por Possibilidade de Organização Organizacional.

A tendência dos sistemas humanos é a de atingir a níveis de evolução e organização tais que se tornem em sistemas de elevada resiliência, adptando-se, quando possível, às variações dos fluxos de insumos, internos e externos (recursos humanos, informação, tecnologia, recursos naturais e capital). Na falta de um título mais técnico, denomina-se esta tendência por Angústia da Vida Organizacional.

Quando estas quatro capacidades conseguem ser aperfeiçoadas pelos sistemas organizacionais, é possível afirmar que um dado sistema humano possui qualidade empresarial, tornando-se um Sistema Humano Organizado, dotado de elevado grau de Desempenho Ambiental, mas nunca de Sustentabilidade.

Todavia, tal como nos sistemas primitivos, os sistemas humanos podem perder as capacidades acima citadas. Dois processos podem acontecer nestes casos: ou interrompem suas operações ou são substituídos por novos sistemas organizacionais. Denomina-se este processo por Dificuldade da Sucessão Organizacional.

Pode-se observar que o conceito da Sustentabilidade está associado a diversos processos que envolvem relações entre fatores ambientais e fatores humanos, entre sistemas primitivos e sistemas humanos.

Todavia, a responsabilidade em garantir e manter a sustentabilidade do Ambiente, em níveis efetivos e aceitáveis, é exclusiva do Homem, dado que ele é o fator que cria os conflitos entre manter estoques e qualidade de recursos naturais ou deles se apropria para a satisfação de suas próprias demandas, inclusive as supérfluas.

Em síntese, conclui-se que todas as atividades de organizações devem possuir desempenho ambiental adequado e compatível, de forma a garantir a sustentabilidade dos ecossistemas em que estejam inseridas, ou seja, manter o Ambiente estabilizado e sustentável sem perder sua capacidade produtiva.

Trata-se de um forte desafio que, de uma forma um tanto abstrata, foi denominado por “desenvolvimento sustentável [1]”, insinuando várias interpretações discutíveis para o adjetivo “sustentável”.

4. A Transformação do Ambiente pelo Homem

Por exemplo, ao reunir um time de especialistas ambientais para iniciar a elaboração de um Estudo de Impacto Ambiental, verifica-se que cada profissional identifica a transformação futura do Ambiente segundo suas premissas de formação acadêmica. Ou seja, os impactos ambientais variam, desde a sua forma de apresentação, até o seu conceito e conteúdo.

Neste item o artigo oferece um modelo teórico-conceitual para que especialistas em várias áreas sejam orientados para “ver da mesma forma os cenários futuros do Ambiente em transformação por atividades humanas”. Vale dizer que esse modelo já foi utilizado em todas as regiões brasileiras, como suporte técnico para milhares de estudos ambientais de variadas naturezas – estudos de impacto, zoneamentos, auditorias, levantamentos de passivo ambiental, etc.

4.1. Entidades da Transformação Ambiental

Os dados do problema são os seguintes: (i) um empreendimento, em projeto, em obras ou mesmo em operação; (ii) a visão preliminar de sua área de influência; e (iii) uma equipe técnica desafiada a descobrir a transformação ambiental dessa área, tanto a já ocorrente, quanto sua provável e inevitável transformação futura.

A base teórica do modelo considera que:

  • Todos os Empreendimentos, sem exceção,
  • Podem ser explicados por intermédio de suas intervenções de engenharia no Ambiente. Um empreendimento é formado por várias unidades construtivas (temporárias) e diversas unidades produtivas (permanentes). São denominadas Intervenções Ambientais;
  • Estas intervenções, para serem construídas, demandam ou induzem manejos no Ambiente. Esses manejos são denominados Alterações Ambientais;
  • Nessa sequência de eventos, as alterações ambientais podem proporcionar mudanças de comportamento e/ou da funcionalidade dos fatores ambientais afetados. Os eventos consequentes dos manejos são denominados Fenômenos Ambientais.

A figura abaixo sintetiza a base teórica da transformação ambiental de um território.

Estrutura conceitual da Transformação Ambiental

Estrutura conceitual da Transformação Ambiental

A estrutura acima diz que qualquer empreendimento é formado por M intervenções ambientais. Uma intervenção poderá gerar ou induzir até N alterações ambientais. E de forma inversa, uma alteração ambiental pode ser consequência de até M intervenções. Por fim, uma alteração ambiental, por sempre afetar a dinâmica do Ambiente, pode modificar o comportamento e/ou a funcionalidade de fatores ambientais, dando origem à manifestação de até P fenômenos ambientais. E a recíproca é verdadeira, ou seja, um fenômeno pode ser derivado de até N alterações distintas.

Analisando a figura acima observa-se que todos os eventos ambientais possuem impactos associados grafados por I e i. Os fenômenos possuem impactos positivos ou negativos, ou seja, benéficos ou adversos. Dada a capacidade da transitividade dos impactos, os eventos superiores também possuem impactos ambientais, que recebem dos fenômenos que geram. Todavia, dado que uma alteração pode gerar fenômenos adversos e benéficos, seus impactos são o somatório das adversidades A e o somatório dos benéficos B. Ou seja, alterações, intervenções e empreendimentos terão impactos negativos e positivos [A; B].

Chama-se a atenção para um fato que é evidente. O Ambiente percebe e sofre tanto os impactos negativos A, quanto os positivos B. Mas nunca sofre a resultante contábil dos mesmos, A + B. Tal procedimento deforma completamente a análise e a avaliação ambiental, tornando inválido qualquer estudo que o aplique.

Na prática da análise da transformação ambiental tem-se duas ferramentas básicas para realiza-la: a Árvore da Transformação Ambiental (ATA) e a Matriz de Impactos Ambientais (MIA), ambas referidas a um empreendimento.

A ATA possui a conveniência da equipe de analistas ver o cenário da transformação prevista em uma única imagem. Contudo, para empreendimentos mais impactantes, com muitos eventos, demanda muito espaço para ser construída.

A figura a seguir apresenta o diagrama genérico de uma ATA.

Diagrama da Árvore da Transformação Ambiental – ATA

Diagrama da Árvore da Transformação Ambiental – ATA

Neste exemplo específico o empreendimento é composto por quatro Intervenções Ambientais (INA), das quais decorrem seis Alterações Ambientais (ALA) que, por sua vez, promovem a manifestação de dez Fenômenos Ambientais (FEN). Observe que todas as relações de causa e efeito entre os eventos encontram-se explicitadas. Um texto específico deverá justificar a sequência desta árvore.

A ferramenta alternativa à árvore é estruturada de forma matricial, através de uma Matriz de Impactos Ambientais. Segue abaixo o exemplo de uma matriz de impactos para um Parque Eólico já em operação.

Como nesse exemplo hipotético a avaliação de impactos ambientais já foi realizada, os eventos adversos estão grafados em vermelho; os benéficos, em azul; por fim, os não significativos, grafados em branco.

Matriz de Impactos Ambientais – Parque Eólico
Intervenções Alterações Fenômenos
Intervenções produtivas
Aerogeradores e unidade de controle do parque
Uso e ocupação do solo
Variação da pressão sobre o sistema viário
Variação da oferta de emprego
Variação da renda familiar
Variação da arrecadação tributária
Variação dos níveis de ruídos e vibrações
Variação da acessibilidade interlocal
Oferta de energia elétrica
Variação da disponibilidade estadual de energia elétrica
Variação do desenvolvimento industrial
Variação do desenvolvimento de comércio e serviços
Variação da arrecadação tributária
Variação da oferta de emprego
Variação da renda familiar
Variação do suporte a serviços sociais básicos
Variação da qualidade de vida no Estado
Variação da pressão sobre o sistema viário
Variação dos níveis de ruídos e vibrações
Variação dos riscos de acidentes viários
Rodovia de acesso ao parque e rodovias vicinais
Oferta de equipamentos viários
Variação da pressão sobre o sistema viário
Variação dos níveis de ruídos e vibrações
Variação da acessibilidade interlocal

Observando a nomenclatura utilizada para a denominação dos eventos que se manifestam na área de influência considerada, verifica-se que as intervenções representam obras de engenharia, as alterações são ações de manejo e os fenômenos são processos variáveis do Ambiente.

4.2. Conteúdo do Cenário da Transformação Ambiental – CTA

A estrutura de apresentação do cenário da transformação ambiental é a própria matriz de impactos ambientais acima. Todavia, nela somente estão disponibilizados os títulos dos eventos. O conteúdo do cenário deve apresentar a caracterização de cada um dos eventos, quais sejam.

  • Caracterização do Empreendimento.
  • Caracterização das Intervenções Ambientais.
  • Caracterização das Alterações Ambientais.
  • Caracterização dos Fenômenos Ambientais.

Em linhas gerais, essas caracterizações devem apresentar o nome do evento, sua localização, sua descrição, suas áreas de ocorrência e manifestações, os eventos causadores, os eventos resultantes e, quando possível, documentação fotográfica.

O CTA deve ser monitorado e atualizado periodicamente, em todas as etapas do ciclo de vida de uma organização, visando a proporcionar a seus executivos a qualidade de seu desempenho ambiental e o nível de sustentabilidade que a organização consegue proporcionar à sua área de influência.

5. Ferramentas para a Gestão do Ambiente

Existem diversos métodos, técnicas e metodologias que podem ser adaptados para a Gestão do Ambiente (Gestão Ambiental + Gestão da Sustentabilidade). No entanto, há três ferramentas específicas para essa finalidade, sobre as quais estão apresentadas a seguir suas características básicas, vantagens e desvantagens.

5.1. ISO 14.001: Sistema de Gestão Ambiental – SGA

A ISO – International Organization for Standardization foi fundada em 1947, com sede em Genebra, na Suíça. Produz e aprova normas internacionais para padronização de processos em várias áreas produtivas.

A área ambiental foi contemplada através da série normativa ISO 14.000. Nesta série, composta por cerca de 29 normas com temas ambientais complementares, destaca-se a norma ISO 14.001, lançada no Brasil em 1996, que visa a beneficiar a gestão ambiental de empresas e instituições.

Embora a 14.001 seja utilizada para certificar organizações em Sistemas de Gestão Ambiental, muitos especialistas da área da gestão consideram-na impositiva em sua burocracia. Ou seja, pouco capaz de se adaptar à cultura de cada organização, a qual varia em função de seus proprietários, dos países em que se localizam, dos mercados a que atendem e até mesmo das equipes técnicas que possuem.

No entanto, para as organizações que atuam no mercado internacional, recomenda-se a implantação e certificação do Sistema de Gestão Ambiental – ISO 14.001.

Em suma, normas internacionais para padronização de processos e procedimentos, que pretendam atender às necessidades de qualquer organização existente, correm o risco de “engessar” processos de empresas produtivas em troca de certificações.

Ao importar modelos de gestão ingleses, norte-americanos ou internacionais corre-se o risco de esquecer a cultura organizacional existente no próprio país. Sem dúvida, é importante adaptá-los e há profissionais brasileiros capacitados para isso.

5.2. Plano Corporativo Ambiental – PCA

O PCA difere bastante dos Sistemas de Gestão Ambiental, posto que não é “amarrado em práticas internacionais”. Ao contrário, veste localmente o corpo da organização produtiva como um agasalho de previsão da produção. Visa a, além do lucro e da rentabilidade da organização, manter a sustentabilidade do Ambiente que transforma, melhorando seu desempenho ambiental.

Para compreender o processo de planificação (ou planejamento), os conceitos de estratégia, tática e operação precisam ser esclarecidos, visando à devida classificação dos elementos de planos de qualquer natureza. Neste caso, Planos Corporativos Ambientais.

A origem desses três conceitos encontra-se nas práticas militares. Posteriormente, foram migradas para organizações produtivas. O texto que se segue busca explicar, ainda que de forma introdutória, a sucessão dos usos e práticas dos processos de planificação, a saber:

Planos militares → Planos empresariais → Planos ambientais.

Para realizar o processo de um plano empresarial é necessário que existam quatro elementos essenciais a estabelecer relações entre si. O primeiro é uma organização produtiva. Ela é o ponto de foco dos planos empresariais. O segundo elemento é o fato de que ela precisa produzir pelo menos um produto. O terceiro, é a existência de um mercado que demande e receba este produto. O quarto e último são os clientes que compõem este mercado e que consomem este produto. Com esses elementos é possível garantir que é realizar processos de planificação é essencial.

Planejam-se as relações desejadas entre estes quatro elementos. Planeja-se para que a organização produtiva possua condições favoráveis de estabelecer relações desejáveis e satisfatórias com todos os demais elementos: produto/serviço bem feito, mercado atendido, clientes felizes. Resultado: sucesso da organização.

No processo do Plano Corporativo Ambiental têm-se os mesmos elementos:

  • A organização produtiva, que é conformada pelo Empreendimento e pelas relações ambientais que mantém com o Ambiente de sua área de influência. São relações mútuas e bidirecionais mantidas entre duas entidades que tentam se integrar (em tese, a organização que deseja se integrar ao Ambiente).
  • Os produtos, que surgem das relações ambientais, chamador por produtos ambientais. São os impactos decorrentes das relações “Organização versus Ambiente”. Conforme foi visto, podem ser adversos e benéficos.
  • O mercado, que é o próprio Ambiente, através de seus espaços físico, biótico e antropogênico, bem como a organização que se deseja planificar, que em algumas oportunidades “adquire” retroimpactos do Ambiente.
  • Os clientes, que são os próprios fatores ambientais que “consomem” estes impactos, quais sejam: o ar, a água, o solo, a flora, a fauna e o homem.

Dada a existência desses elementos e suas relações sistêmicas, entende-se que, mantidas as expectativas das Ciências do Ambiente, Planos Corporativos Ambientais podem e devem ser desenvolvidos para quaisquer organizações produtivas.

5.2.1. Estrutura de desenvolvimento e execução do PCA

Todos os gêneros de planos aqui citados (Militar, Empresarial e Ambiental) podem ter até três níveis de visão e alcance:

  • O plano de nível estratégico, com alvos ou objetivos globais de longo prazo;
  • O plano de nível tático, com alvos ou objetivos de médio prazo; e
  • O plano de nível operacional, com alvos ou metas de curto prazo.

O detalhamento dos níveis do PCA deve responder aos atributos estrutura, formato, conteúdo e processos:

  • A estrutura é dada pelos elementos que constituem cada nível, desenhando a estrutura física do plano;
  • O formato refere-se à redação dos elementos constituintes de cada nível, permitindo aos usuários a identificação do nível a que pertence cada elemento e sua imediata classificação – estratégico, tático ou operacional;
  • O conteúdo desses elementos, contendo a essência, a finalidade e o alcance de cada elemento;
  • Os processos de implantação e gestão dos níveis e respectivos elementos, dando vida própria e animação ao plano.

A figura a seguir mostra um diagrama dos elementos estratégicos (E), táticos (T) e operacionais (O) de um PCA, mostrando como se relacionam. Estão organizados em Alvos (Objetivos e Metas) e Medidas (Programas, Projetos e Ações).

Estrutura para elaboração e execução do PCA

Estrutura para elaboração e execução do PCA

O estabelecimento e formulação dos alvos do PCA seguem a seguinte sequência:

  • Formulação da Visão Ambiental da organização;
  • Formulação da Missão Ambiental, orientando seus Objetivos Estratégicos;
  • Estabelecimento dos Objetivos Estratégicos, demandando Objetivos Táticos;
  • Estabelecimento dos Objetivos Táticos, demandando Metas Ambientais; e
  • Estabelecimento das Metas Ambientais, demandando Projetos e Ações.

E quando o plano é implantado, sua execução acontece na ordem inversa, ou seja:

  • Ações e Projetos são implantados e executados visando a atingir as Metas Ambientais estabelecidas e concluir os Programas Ambientais que lhes deram origem;
  • Programas Ambientais são geridos para atingir Objetivos Táticos, alcançando os Objetivos Estratégicos que lhes deram origem;
  • Objetivos Estratégicos são alcançados visando a consolidar a Missão Ambiental estabelecida.
  • A manutenção da Missão alcançada poderá realizar a Visão Ambiental esperada. Isto porque o alcance da Visão Ambiental de uma organização também depende do desempenho das demais organizações do mesmo setor e de seus fornecedores.

5.3. Auditoria Ambiental

A auditoria ambiental é a terceira ferramenta recomendada para que organizações em geral garantam a qualidade de seus processos destinados à Gestão do Ambiente, ou seja, Gestão Ambiental de seus próprios processos e Gestão da Sustentabilidade do Ambiente que impactam.

O processo de auditar nada mais é do que investigar tarefas em andamento e realizar comparações entre as práticas ambientais realizadas por uma organização com pelo menos os padrões ambientais para organizações do mesmo setor. Mas, sobretudo, sugerir soluções para quadros definidos como “não-conformidades”.

Por esse motivo, os auditores, quer sejam internos ou externos, às vezes não são muito apreciados por funcionários das organizações auditadas. Afinal, são contratados para identificar desvios, erros e relatar fatos e tendências gerenciais que podem ser indesejáveis para a alta administração de organizações produtivas.

Nesse item seguem orientações introdutórias para Auditoria de Planos Corporativos Ambientais – APCA. No entanto, sua sistemática pode ser aplicada a outros sistemas de gestão ou a qualquer conjunto de processos e procedimentos que a organização utilize para atender à qualidade das relações que mantém com o Ambiente.

A figura a seguir oferece o quadro lógico do processo de APCA.

Quadro lógico da APCA

Quadro lógico da APCA

A organização produtiva que contrata uma auditoria define quais são as suas unidades e/ou funções que deseja que recebam auditoria, isto é, define o Escopo da Auditoria.

As auditorias são realizadas com base em (i) leis, (ii) normas, (iii) contratos subscritos, (iv) melhores práticas reconhecidas pelo mercado ou (v) nos elementos do instrumento de gestão utilizado pela organização.

Por outro lado, a empresa auditora precisa aceitar que o conjunto dos elementos constante do Plano Corporativo Ambiental representa a capacidade da organização em Gestão Ambiental e da Sustentabilidade (GAS) e constituirá o Critério da Auditoria, ou seja, o conjunto de padrões ambientais de referência contra os quais a auditoria será realizada.

Quando esses elementos não existem, a capacidade de gestão da organização torna-se mais vulnerável. Nessas situações a legislação em vigor no país passa a ser o Critério (obrigatório) da Auditoria.

Deve-se salientar que a organização que já possua ferramenta específica para GAS e realiza auditorias de forma sistemática é diferenciada em seu desempenho quando comparada às suas concorrentes.

5.3.1. Fases da APCA

Todas as auditorias constituem uma relação bastante profissional entre a organização a ser auditada e uma empresa auditora. O sigilo absoluto das informações coletadas é fator de extrema relevância entre as duas partes e seus funcionários, ou seja, empresas, auditores e entrevistados.

As auditorias precisam evoluir em processos suaves e transparentes, sobretudo por parte dos auditores. Sendo assim, organizam-se em três fases: pré-auditoria, auditoria e pós-auditoria.

A figura a seguir auxilia na visão do conteúdo essencial dessas três fases de uma auditoria, tendo como critério um Plano Corporativo Ambiental.

Fases do processo da auditoria de PCA

Fases do processo da auditoria de PCA

# Fase A: Pré-auditoria

Após uma empresa especializada ser convidada para realizar uma auditoria, a primeira tarefa dos auditores, antes mesmo de aceita-la, é solicitar informações acerca da organização. Garantido o completo sigilo, essas informações são obtidas por meio de contato pessoal, realizado somente pelo auditor líder.

Para consolidar o Plano da Auditoria, as informações de interesse são as seguintes:

  • A planta do layout geral da organização, localizando suas unidades produtivas;
  • Documentos relativos ao seu fluxo de processos pré-produtivo e produtivo;
  • Documentos relativos a seus Sistemas de Melhoria do Desempenho Ambiental;
  • O organograma da organização, com destaque para a função de GAS;
  • Uma cópia de seu manual de gestão ou documento similar;
  • Documentos relativos a auditorias anteriores que haja realizado;
  • Documentos de contratos, normas adotadas e convenções que haja subscrito;
  • Eventuais documentos fotográficos e de vídeo disponíveis; e
  • Outros documentos específicos da atividade da organização a ser auditada.

# Fase B: Auditoria

Inicia-se então a segunda parte dos trabalhos, que constitui a auditoria propriamente dita. A empresa auditora elabora a programação da reunião de abertura e marca a data para o evento. Para tanto, solicita à organização algumas informações sobre o evento de abertura, a saber:

  • Nome completo do funcionário que será responsável pela gerencia das atividades da auditoria na organização, cargo ocupado, telefone fixo, celular e e-mail;
  • Lista dos participantes da reunião, com nome completo e cargo ocupado;
  • Local de realização da reunião de abertura da auditoria, com equipamentos disponíveis de informática, de áudio e de vídeo.

Após a reunião de abertura têm início as atividades de campo. Findo os trabalhos de campo, com relatórios diários de cada auditor, o auditor líder consolida o relatório final da auditoria.

A tarefa seguinte aos trabalhos de campo é a reunião de encerramento da auditoria realizada, com a apresentação das evidências, não conformidades, exceções e observações efetuadas. A última tarefa desta etapa é a elaboração do relatório final dos trabalhos, a cargo do auditor líder, assessorado por sua equipe.

# Fase C: Pós-auditoria

Com base no relatório final da auditoria, a organização auditada elabora um plano de ações corretivas e preventivas. Normalmente, este plano é submetido à empresa auditora a fim de obter sua opinião sobre a efetividade do plano elaborado.

Por fim, é comum e benéfico que a organização faça um contrato de supervisão dos resultados do Plano de Ação, de sorte a obter mais um crédito externo de que suas ações foram devidamente implantadas e de que os resultados esperados foram ou estão sendo alcançados.

5.3.2. Atividades da Fase B: Auditoria

A fase da Auditoria Ambiental propriamente dita possui restrições operacionais que são básicas e estão adiante descritas. Mas antes deve ser analisada a figura abaixo, que apresenta a sequência de suas atividades.

À exceção da primeira, todas as demais atividades são realizadas em campo. Ou seja, com o time de auditores hospedados em hotel próximo à empresa a ser auditada, no chamado “hotel de campo” (gíria de antigos auditores). Embora a reunião de abertura da auditoria normalmente seja feita na empresa auditada, é desejável que a reunião de fechamento seja realizada neste hotel. Durante a realização da auditoria nenhum auditor retorna à residência.

A equipe precisa ser reduzida, contando com 5 (cinco) auditores no máximo, como no caso de plantas industriais de maiores dimensões.

A alocação de cada um em trabalhos de auditagem, cruzamento de informações com a equipe e produção de relatórios, é de 16 horas diárias, independentemente da duração da auditoria. Por isso, diversos auditores líderes afirmam que, para terem qualidade, as auditorias ambientais devem ser realizadas em, no máximo, dez dias de campo.

Etapas da Fase B: Auditoria de PCA

Etapas da Fase B: Auditoria de PCA

5.4. Entrevistas para auditoria de PCA

A maior parte do tempo despendido pela equipe em suas atividades é dedicada a entrevistas programadas com funcionários da organização – Levantamento de evidências e não-conformidades. As competências necessárias para realizar uma boa entrevista não constituem dotes inatos e podem ser desenvolvidas através de treinamento e prática.

Considerando os locais, a duração, as finalidades e o nível de formalidade requerido, é razoável afirmar que as entrevistas de auditoria devem seguir um padrão lógico comum. A figura a seguir apresenta este padrão.

Proposta de padrão para o processo de entrevista

Proposta de padrão para o processo de entrevista

Muito embora as entrevistas possuam características específicas para cada par “entrevistador e entrevistado”, há alguns elementos que não podem faltar nas entrevistas destinadas a auditorias de PCA. O padrão básico é útil para estabelecer um quadro de abordagem em entrevistas capaz de beneficiar os resultados desejados.

Antes de realizar as entrevistas é oportuno obter algumas informações acerca do perfil dos funcionários que serão entrevistados, bem como uma visão geral do que o auditor precisa cumprir em cada entrevista.

Há três elementos que são essenciais em qualquer entrevista de auditoria: (i) a lógica da entrevista, (ii) a predefinição das informações e documentos desejados, e (iii) a organização e o foco do pensamento do auditor.

Estabelecer a lógica de uma entrevista é relativamente simples. O que é básico envolve as questões que se seguem:

  • Quem será entrevistado;
  • Qual cargo ocupa na organização auditada;
  • Quais são a autoridade e as responsabilidades do cargo ocupado;
  • A quem o entrevistado se reporta hierarquicamente.

É fundamental que entrevistador e entrevistado sintam-se confortáveis durante a realização da entrevista. A sala onde se realizará a entrevista deve ser sossegada, preferencialmente sem interrupções, e a entrevista precisa ser objetiva e, tanto quanto possível, rápida.

As respostas desejadas pelo auditor devem ser planejadas. Nenhum profissional deve seguir para uma entrevista sem antes haver listado as informações e documentos que deverá obter do entrevistado.

É interessante elaborar uma linha mestra de cada entrevista, contendo os temas de interesse e a sequência preliminar das questões a serem formuladas. Não se trata propriamente de elaborar um questionário, mas apenas desenhar a orientação da entrevista, visando à memorização do auditor.

Em muitas entrevistas, no entanto, é comum que novas questões sejam formuladas em função das respostas obtidas. Tal como em um trabalho de detetive, o auditor precisa estar atento às respostas que recebe, efetuando anotações sempre que necessário, e a verificar eventuais necessidades de questões complementares antes não previstas.

Em suma, ao encerrar a entrevista o auditor poderá verificar se realmente obteve o que pretendia e se novas informações relevantes foram fornecidas pelo entrevistado.

Há casos isolados de entrevistas com maior duração. Todavia, normalmente não devem ser longas para que possam ser eficientes. De fato, uma série de entrevistas relativamente curtas com maior número de funcionários da organização tem-se mostrado mais eficiente do que poucas entrevistas mais longas.

……….

[1] A expressão “desenvolvimento sustentável”, foi criada em 1987, no Relatório Brundtland, elaborado pela Comissão Mundial sobre Ambiente e Desenvolvimento, sob a presidência da então primeira-ministra da Noruega, Gro Harlem Brundtland.

A definição de “Desenvolvimento Sustentável” ficou com a seguinte redação:

“O desenvolvimento que procura satisfazer as necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazerem as suas próprias necessidades, significa possibilitar que as pessoas, agora e no futuro, atinjam um nível satisfatório de desenvolvimento social e econômico e de realização humana e cultural, fazendo, ao mesmo tempo, um uso razoável dos recursos da terra, preservando as espécies e os habitats naturais”.

Pessoalmente, considero-a um tanto filosófica e utópica, sobretudo pela tentativa de fazer uma “interseção geométrica” entre os Espaços Antropogênico, Biótico e Físico, que estão todos contidos e integrados no “Grande Envelope do Ambiente”.

Esperança para 2015


No calendário ocidental (o Gregoriano), um século possui 36.525 dias. Por conseguinte, um milênio, tem 36.525.000 dias. Assim, adotando para início dessa contagem a data da morte de Jesus, na chamada “Era Cristã” [1], do dia 01 de janeiro de 0001 até hoje, passaram-se 36.529.935 dias.

Trinta e seis milhões de dias é um período de tempo razoável, sobretudo se o medirmos em horas. Façam os cálculos, são mais de 876 milhões de horas “consumidas” por todas as nações do planeta. Isto se deve ao fato do calendário Gregoriano ser formalmente adotado em todo o mundo. Tornou-se uma medida universal do tempo, que visa a facilitar as imprescindíveis boas relações entre os povos.

Fico a pensar se existiria um historiador no planeta capaz de narrar todos os acontecimentos ocorridos em 36.529.935 dias, contar a História Universal desta Era. Creio que não, seria quase impossível. Mas para isso existem milhões de historiadores interessados em escrever diariamente partes da história que assistem acontecer. Ainda assim, segundo suas visões, mesmo que com base nas mesmas informações obtidas pela leitura do noticiário e por entrevistas com testemunhas oculares.

Uma imagem da difícil esperança

Uma imagem da difícil esperança

A narrativa do futuro

A História é a narrativa do passado. Mas há também a previsão do futuro, que constitui o que chamo de narrativa do futuro. Esta permite a estimativa dos possíveis cenários futuros da vida de uma dada coletividade.

Desde o século 20, a narrativa do futuro tornou-se prática trivial adotada por executivos de empresas produtivas. É ela quem aponta as tendências do comportamento das variáveis críticas do mercado e permite a identificação de oportunidades para que a empresa possa evoluir na economia de livre mercado.

Por sua vez, essa economia foi desenhada pelo filósofo e economista escocês, Adam Smith, no século 18. Teve a expressiva relevância de constituir uma grave ameaça necessária aos direitos feudais remanescentes, os quais acabou por extinguir.

Porém, na visão atual de certos “políticos ditos progressistas”, o desenho de Adam Smith, criado com ênfase em valores morais e éticos, é uma ameaça às relações humanas na nação que pretendem que seja estável. Por isso, chamam a qualquer de seus usos derivados de “capitalismo selvagem”.

Todavia, políticos brasileiros desse gênero, embora sejam realmente selvagens, também fazem a previsão de cenários futuros. Quando estão operando no interior do sistema público do país, consideram como constantes tudo o que acreditam ser capazes de garantir por força de seu poder. Para eles, variáveis livres de mercado simplesmente não existem. Justo por isso, as previsões que fazem são profecias manipuladas, que tratam somente de seus esquemas particulares.

Para finalizar esta parte, devo fazer uma breve comparação. Enquanto o sistema de livre mercado, em tese, é regido por práticas democráticas, honestas, e liberais, o “sistema progressista brasileiro” é monocrático, corrupto e quer seguir rumo à ditadura. Seu bando de defensores pretende que seja implantado um socialismo cubano ou bolivariano ou “coisa” que o valha. Já conseguiram um Capitalismo Interventor de Estado, que se esfarela diariamente, quando se vê diante da economia de mercado.

Esperança para o dia seguinte

Não fosse a óbvia necessidade de os Estados Nacionais estabelecerem boas relações diplomáticas e comerciais entre si, não haveria meses, anos, décadas, séculos e milênios. Não teria sido inventado qualquer calendário. Só existiriam os dias corridos: os passados, o atual e os futuros. Por exemplo, hoje seria o 36.529.935º dia da Era Cristã.

É difícil recordar como se faz a redação ordinal desse número, mas vou tentar: “trinta e seis milionésimos, quingentésimo vigésimo nono milésimo, noningentésimo trigésimo quinto” dia da Era Cristã. Acho que está correto ou bem próximo.

Assim, a principal esperança que evoco refere-se à atuação do estadista que governará o Brasil a partir de 1º de janeiro de 2015, pois há doze anos que a nação não sabe o que é ter um estadista. Então, usando uma analogia, que o estadista eleito “reabra os portos às nações amigas”. Que estabeleça boas relações diplomáticas com todas as nações realmente democráticas. Que cumpra rigorosamente o calendário de suas propostas de campanha. Que seja um R$ gestor público na escolha do seu mínimo e eficiente ministério. Por fim, mas não por último, que permita a legítima regência da “mão invisível” de Adam Smith na formação dos preços do mercado.

Por quê Esperança para 2015? Simples, é um fato: 2014 já acabou sem sequer ter começado.

……….

[1] O Judaísmo e o Islamismo possuem Eras próprias, com escalas distintas de tempo. Para o Judaísmo está-se a viver no ano 5.773, contado a partir da data de nascimento de Adão. Para o Islamismo, no ano 1.435, contado a partir da fuga de Maomé, de Meca para Medina.

Análise ambiental para resultados


Ricardo Kohn, Gestor do Ambiente.

Em síntese, analisar o Ambiente significa identificar e caracterizar todas as relações de causa e efeito que nele se processam ao longo do tempo, bem como os principais agentes, que são seus fatores ambientais básicos – Ar, Água, Solo, Flora, Fauna e Homem, assim como seu comportamento interativo, a conformar ecossistemas estabilizados.

Dessas relações sempre decorrem mudanças na dinâmica dos ecossistemas, as quais podem gerar adversidades ambientais, mas também, ao contrário, reabilitar os benefícios nativos do Ambiente, ou seja, sua sustentabilidade.

À primeira vista, essa narração pode parecer apenas mais uma teoria. Porém, ao ser aplicada em um território, que já foi diverso e abundante, resulta uma prática surpreendente, sobretudo quando os resultados benéficos das mudanças ocorridas no Ambiente são percebidos por todos os seres vivos da região.

Uma análise ambiental específica, de grande valia científica, foi efetuada no Parque Nacional de Yellowstone. Durante mais de seis décadas, Yellowstone não contou a presença de matilhas de lobos. Assim, um grupo de estudiosos reintroduziu cerca de 60 espécimes. A finalidade era a redução da abundância crítica de cervos e alces, criando uma cadeia trófica com a presença de predadores. Porém, os resultados do experimento foram além das previsões iniciais dos cientistas.

Parque Yellowstone

Algumas informações preliminares sobre o parque Yellowstone permitem a visão da amplitude da ação dos cientistas envolvidos. O parque situa-se nos estados do Wyoming, Montana e Idaho.

Encontra-se localizado sobre uma câmara vulcânica de grandes proporções. A área de seu território possui cerca de 8.980 km2. Está assentado sobre um planalto elevado, com média de 2.400 metros de altitude, apresentando um relevo acidentado, com montanhas, vales e depressões do solo. Possui rios, cascatas, lagos, fontes hidrotermais e gêiseres.

Um dos gêiseres em Yellowstone

Um dos gêiseres em Yellowstone

Dadas suas singularidades físicas, a região é estudada desde o século 19, sobretudo após ser legalizada, em 1872, como o primeiro e maior Parque Nacional norte-americano. Graças a essas características, boa parte da vegetação do parque é endêmica. Há documentação sobre cerca de 300 espécies de plantas que somente ocorrem no parque de Yellowstone.

Em decorrência, conforma habitats auxiliados por essas singularidades, a permitir que a região apresente a maior diversidade da megafauna norte-americana.

Antes de prosseguir, sugere-se ao leitor que assista ao vídeo “Como lobos mudam rios”. É de curta duração e esclarece a análise ambiental para resultados, pois mostra um processo teórico aplicado com sucesso em Yellowstone.

Como se pode constatar pelo vídeo, as relações ambientais iniciadas de forma isolada no segmento faunístico, entre poucos lobos e suas presas naturais, propagaram-se para outros segmentos por força da sua causalidade.

Chegaram ao segmento da flora, proporcionando oportunos incrementos vegetacionais em áreas mais sensíveis. Atingiram ainda aos segmentos do solo e da água, com redução expressiva de processos erosivos e fixação do leito de rios. Retornaram ao segmento faunístico com a atração de novas espécies. Dessa maneira, fazem com que os ecossistemas envolvidos reconstruam e ampliem sua estabilidade ambiental [1] de forma espontânea.

Trata-se, sem dúvida, da permanente poesia que o Ambiente é capaz de criar, com sua lógica própria e aleatória. Lógica esta, sempre explicável quando ocorrem trocas justas e ininterruptas de energia e matéria entre seus fatores componentes: ar, água, solo, flora, fauna e homem.

……….

[1] Estabilidade ambiental: Constitui o processo de manutenção espontânea dos ciclos de relações ambientais mantidas entre fatores em permanente interação, conformando ecossistemas estabilizados e, por conseguinte, capacitados para a coevolução e para sua própria sucessão – Kohn, R., Ambiente e Sustentabilidade – Metodologias para Gestão, Rio de Janeiro, RJ, Editora LTC – Livros Técnicos e Científicos, Grupo Editorial Nacional, 702 pg., 1ª edição. 2014.

Matriz de impactos ambientais


Ricardo Kohn, Gestor do Ambiente.

Em geral, projetos de engenharia requerem a avaliação de seus impactos ambientais, visando a cumprir com requerimentos legais estabelecidos em diversos países. Sem essa avaliação, que é normal em países mais civilizados, não há como gerir da forma adequada suas obras e o empreendimento a que dão origem, depois de concluídas.

No Brasil não é diferente. Contudo, a forma normalmente utilizada precisa de mais suporte técnico-científico. Assim, por força dessa carência, foi desenvolvida, em 1986, a Teoria da Transformação do Ambiente.

Com a aplicação prática desta teoria, resultam duas ferramentas essenciais à avaliação, capazes de estimar as ocorrências de impactos ambientais em uma dada região, com a implantação do projeto de engenharia – obras e operação do empreendimento decorrente. São elas, a HGSI e a Matriz de Impactos Ambientais que a representa em mais detalhes.

Uma breve descrição

A HGSI ou Hipótese Global de Situações de Impacto, constitui a árvore de eventos ambientais que representa a transformação do ambiente. Na copa da árvore encontra-se o evento principal, o Projeto de Engenharia, que é composto pelas intervenções das obras logo abaixo. Essas intervenções promovem várias alterações no ambiente que as recebe. Por fim, as alterações ambientais podem afetar o comportamento e/ou a funcionalidade do ar, da água, solo, flora, fauna e homem, dando origem aos chamados Fenômenos Ambientais.

Todas essas classes de eventos ambientais possuem impactos positivos e/ou negativos. Todavia, são mais visíveis, nas relações de causa e efeito que mantém a árvore de pé, através da Matriz de Impactos, abaixo exemplificada.

Matriz de impactos

Para elaborar a 1ª versão da matriz de impactos [1], alguns aspectos do projeto precisam ser conhecidos pelos analistas, tais como a área em que se localizará, suas vizinhanças, o porte do empreendimento projetado e traços específicos de sua futura operação.

Para o exemplo hipotético da matriz a seguir apresentada, considerou-se os seguintes aspectos do projeto de engenharia: (i) A matriz refere-se ao projeto de uma Usina Hidrelétrica; (ii) Será localizada na região Amazônica; (iii) Tem como vizinhos mais sensíveis ao projeto uma tribo indígena e uma comunidade de pescadores de subsistência; (iv) Formará um reservatório com área de 1.680 km2; e (v) Sua potência instalada será de 12 GWh.

Usina hidrelétrica na Amazônia

Usina hidrelétrica na Amazônia

Por outro lado, somente para facilitar a leitura da matriz, fez-se uma avaliação a priori dos impactos dos eventos identificados. De forma bastante simplificada e não recomendável na prática, criou-se três níveis de impacto:

(i) Eventos com impacto positivo, grafados em azul;
(ii) Eventos com impacto negativo, grafados em vermelho;
(iii) Eventos com impacto não significativo, grafados em branco.

Segue a imagem da primeira versão matriz.

Projeto de Engenharia da Usina Hidrelétrica

Intervenções

Alterações ambientais

Fenômenos ambientais

Intervenções construtivas
Canteiro de Obras
Contratação de mão de obra
  Variação da oferta de emprego
Variação do nível de renda
Variação da arrecadação tributária
Variação da pressão sobre serviços sociais básicos
Variação do risco de conflitos com comunidades locais
Variação dos níveis de comércio local
Variação da pressão sobre o sistema viário
Transporte de mão de obra
  Variação da qualidade do ar
Variação da pressão sobre o sistema viário
Variação dos níveis de ruídos e vibrações
Transporte passivo de vetores e agentes etiológicos
  Variação do risco de ocorrência de doenças e zoonoses
Operação de máquinas e equipamentos
  Variação da emissão de ruídos e vibrações
Variação da emissão de gases, particulados e odores
Variação da pressão sobre o sistema viário
Variação do risco de acidentes de tráfego
Formação de vila livre
Essa vila visa a comercializar produtos e serviços, nem sempre considerados legais. A vila livre deve ser considerada como um evento à parte, recebendo tratamento específico para que não seja instalada. Trata-se da ação comercial de comunidades locais atraídas pela disponibilidade de dinheiro dos funcionários da empresa construtora, sobretudo de seus operários. Segue a estimativa de seus fenômenos mais prováveis.
Variação crescente dos processos de desmatamento
Variação de processos erosivos
Variação de processos de assoreamento
Variação da emissão de gases, particulados e odores
Variação da drenagem superficial
Variação da abundância da flora
Variação da abundância da fauna
Variação da biodiversidade da fauna
Variação da presença de espécies de hábitos peridomiciliares
Variação crescente do transporte passivo de vetores e agentes etiológicos
Variação do risco de ocorrência de doenças e zoonoses
Variação dos níveis de comércio ilegal local
Variação dos níveis de conflitos com comunidades locais
Reassentamento da população indígena
Variação crescente dos processos de desmatamento
Variação de processos erosivos
Variação de processos de assoreamento
Variação da emissão de gases, particulados e odores
Variação da drenagem superficial
Variação da abundância da flora
Variação da abundância da fauna
Variação da biodiversidade da fauna
Variação da presença de espécies de hábitos peridomiciliares
Variação dos níveis de conflitos com comunidades locais
Variação da cultura indígena primitiva
Variação do comportamento institucional público
Desmatamentos e limpeza de terrenos
  Variação de processos erosivos
Variação de processos de assoreamento
Variação da emissão de gases, particulados e odores
Variação da drenagem superficial
Variação da abundância da flora
Variação da biodiversidade da flora
Terraplenagem (corte e aterro)
  Variação de processos erosivos
Variação de processos de assoreamento
Variação da emissão de gases, particulados e odores
Variação dos níveis de ruídos e vibrações
Operação de jazidas de empréstimo
  Variação de processos erosivos
Variação de processos de assoreamento
Variação da qualidade do ar
Variação da pressão sobre o sistema viário
Variação dos níveis de ruídos e vibrações
Variação do risco de acidentes no trabalho
Desmontes e transporte de material
  Variação dos níveis de ruídos e vibrações
Variação da emissão de gases, particulados e odores
Variação do risco de acidentes no trabalho
Operação de botaforas
  Variação dos níveis de ruídos e vibrações
Variação da emissão de gases, particulados e odores
Variação do risco de acidentes no trabalho
Evasão da fauna
  Variação da abundância da fauna
Variação da biodiversidade da fauna
Variação dos habitats preferenciais
Variação da competição intra e interespecífica
Atração da fauna
  Variação da presença de espécies de hábitos peridomiciliares
Variação da ocorrência de doenças e zoonoses
Variação da ocorrência de acidentes com animais peçonhentos
Geração de efluentes líquidos
  Variação da qualidade da água dos corpos receptores
Variação da ocorrência de doenças e zoonoses
Variação da pressão sobre serviços sociais básicos (saúde)
Geração e Transporte de resíduos sólidos
  Variação dos riscos de acidentes viários
Variação do risco de ocorrência de doenças e zoonoses
Variação da pressão sobre serviços sociais básicos (saúde)
Vila Residencial e Operária
  Desmatamentos e limpeza de terrenos
  Variação de processos erosivos
Variação de processos de assoreamento
Variação da emissão de gases, particulados e odores
Variação da drenagem superficial
Variação da abundância da flora
Variação da biodiversidade da flora
Terraplenagem (corte e aterro)
  Variação de processos erosivos
Variação de processos de assoreamento
Variação da emissão de gases, particulados e odores
Evasão da fauna
  Variação da abundância da fauna
Variação da biodiversidade da fauna
Variação dos habitats preferenciais
Variação da competição intra e interespecífica
  Atração da fauna
  Variação da presença de espécies de hábitos peridomiciliares
Variação do risco de ocorrência de doenças e zoonoses
Variação do risco de acidentes com animais peçonhentos
Variação da pressão sobre serviços sociais básicos (saúde)
Geração de efluentes líquidos
  Variação da qualidade da água dos corpos receptores
Geração e transporte de resíduos sólidos
  Variação do risco de acidentes viários
Variação do risco de ocorrência de doenças e zoonoses
Variação da pressão sobre serviços sociais básicos (saúde)
Sistemas de saneamento básico e drenagem
  Saneamento
  Variação da qualidade da água dos corpos receptores
Drenagem
Variação da drenagem superficial
Variação de processos erosivos
Variação de processos de assoreamento
Hotel de Passagem e Restaurante
  Contratação de mão de obra
  Variação da oferta de emprego
Variação do nível de renda
Variação da arrecadação tributária
Variação da pressão sobre serviços sociais básicos
Variação dos níveis de comércio local
Variação da pressão sobre o sistema viário
Variação dos níveis de conflitos com comunidades locais
  Desmatamentos e limpeza de terrenos
  Variação de processos erosivos
Variação de processos de assoreamento
Variação da emissão de particulados
Variação da drenagem superficial
Variação da abundância da flora
Variação da biodiversidade da flora
Terraplenagem
  Variação de processos erosivos
Variação de processos de assoreamento
Variação da emissão de gases, particulados e odores
Evasão da fauna
  Variação da abundância da fauna
Variação da biodiversidade da fauna
Variação dos habitats preferenciais
Variação da competição intra e interespecífica
Atração da fauna
  Variação da presença de espécies de hábitos peridomiciliares
Variação da ocorrência de doenças e zoonoses
Variação do risco de acidentes com animais peçonhentos
Variação da pressão sobre serviços sociais básicos (saúde)
Geração de efluentes líquidos
  Variação da qualidade da água dos corpos receptores
Geração e Transporte de resíduos sólidos
  Variação dos riscos de acidentes viários
Variação da ocorrência de doenças e zoonoses
Variação da pressão sobre serviços sociais básicos (saúde)
Estradas de acesso e caminhos de serviço
  Desmatamentos e limpeza de terrenos
    Variação de processos erosivos
Variação de processos de assoreamento
Variação da emissão de particulados
Variação da drenagem superficial
Variação da abundância da flora
Variação da biodiversidade da flora
Terraplenagem
  Variação de processos erosivos
Variação de processos de assoreamento
Variação da emissão de gases, particulados e odores
Evasão da fauna
  Variação da abundância da fauna
Variação da biodiversidade da fauna
Variação dos habitats preferenciais
Variação da competição intra e interespecífica
Intervenções produtivas
Barragem, Vertedouro e Casa de Força
  Desmatamentos e limpeza de terrenos
  Variação de processos erosivos
Variação de processos de assoreamento
Variação da emissão de gases, particulados e odores
Variação da drenagem superficial
Variação da abundância da flora
Variação da biodiversidade da flora
Desmontes
  Variação dos níveis de ruído e vibrações
Variação da emissão de gases, particulados e odores
Variação do risco de acidentes no trabalho
Variação da pressão sobre serviços sociais básicos (saúde)
Terraplenagem
  Variação de processos erosivos
Variação de processos de assoreamento
Variação da emissão de gases, particulados e odores
  Formação do lago
  Variação da produção de hidrófitas
Variação da abundância da flora
Variação da biodiversidade da flora
Variação da qualidade da água do reservatório
Variação da biodiversidade da ictiofauna
Variação da abundância da ictiofauna
Variação da abundância de aves de ambientes aquáticos
Variação da abundância de espécies da herpetofauna
Evasão da fauna
  Variação da abundância da fauna
Variação da biodiversidade da fauna
Variação dos habitats preferenciais
Variação da competição intra e interespecífica
Atração da fauna
  Variação da presença de espécies de hábitos peridomiciliares
Variação da ocorrência de zoonoses
Variação do risco de acidentes com animais peçonhentos
Variação da pressão sobre serviços sociais básicos (saúde)
Subestação de Energia
  Transformação e Transmissão de Energia
  Variação da produção de energia elétrica
Linhas de Transmissão
  Distribuição de Energia e Informação
  Variação do Tráfego de Energia
Variação do Tráfego de Informação
Variação das atividades de comércio e serviços
Variação das atividades de desenvolvimento industrial
    Variação da oferta de emprego
Variação do nível de renda
Variação da arrecadação tributária
Variação da qualidade de vida das pessoas
Variação da pressão sobre serviços sociais básicos

 Considerações finais

A HGSI e a Matriz de Impactos constituem a base para avaliação e gestão. É somente a partir da matriz finalizada que se torna possível ordenar e priorizar os eventos segundo seus impactos quantificados.

A partir desse ponto, torna-se possível elaborar um Plano Corporativo Ambiental que, após ser implantado, permitirá a gestão do empreendimento, visando a garantir seu desempenho ambiental otimizado. Mas estes planos não cabem neste texto, são assunto para artigo específico.

……….

[1] As matrizes de impacto são representações dinâmicas da transformação do Ambiente, dado que parte de suas alterações e fenômenos pode ser otimizada ou é temporária. Por isso, é desejável que tenham diversas versões sucessivas, atualizadas sempre que necessário.

Clínica do Ambiente


O termo Clínica sempre esteve associado à Medicina, representando o estabelecimento onde médicos de várias especialidades fazem e cobram consultas a seus pacientes. Pela essência da atividade que praticam, muitas vezes associada ao ato de salvar uma vida, parecia haver um acordo tácito que somente médicos podiam cobrar pelas consultas.

Porém, isto foi modificado faz algum tempo. Não há como precisar a data em que ocorreu a mudança, mas as consultas de hoje são extensivas a profissionais liberais de outras áreas. Engenheiros, por exemplo, são profissionais que devem cobrar pelas consultas. Até porque, projetam bem, calculam melhor, e garantem a existência de inúmeras vidas.

No dicionário Michaelis um dos significados de “consulta” generaliza o seguinte: “Atendimento que médico, advogado ou técnico dá a clientes que os consultam”. Significa dizer que deve ser natural que qualquer profissional competente cobre por uma consulta que lhe é solicitada.

Inclusive, na prática atual do mercado, verifica-se que profissionais liberais, que são técnicos em áreas específicas, passaram a cobrar para aplicar sua experiência e conhecimentos nas soluções desejadas por clientes corporativos, sejam privados ou públicos.

Como está o mercado da consultoria

Tanto na consultoria de projetos de engenharia, quanto na de estudos ambientais, o mercado brasileiro encontra-se bastante enfraquecido. Projetos de engenharia vem sendo elaborados por empreiteiras, o que é um desastre para a inteligência do setor. Estudos ambientais, por sua vez, tornaram-se “reserva de mercado” para poucas empresas consultoras, com destaque para os estudos relativos aos maiores empreendimentos.

Durante mais de uma década acompanha-se as circunvoluções negativas desse mercado. Em inúmeras conversas mantidas com sócios de empresas consultoras ouviu-se reclamações sobre atraso de pagamentos, falta de novos contratos e perda da perspectiva de um mercado efetivo, mais investidor.

Tendo em vista que a quantidade de profissionais atuantes é grande, atingindo a casa de centenas de milhares, com o estado alarmante a que chegou este mercado, há uma forte tendência de desemprego para técnicos com nível superior (especialistas e consultores).

Decerto, dada sua formação e longa experiência, somente em situações extremas aceitarão o emprego de balconista em lojas do varejo. Nada contra balconistas, mas tudo contra jogar no lixo os custos de uma boa formação e de experiências de trabalho que não têm preço!

Um novo e bom negócio

Mas, nem tudo está perdido no mercado ambiental. Visando a prosseguir atuando no mercado da consultoria, um bom time de profissionais iniciou a implantação da “CLIMA – Clínica do Ambiente”, mas sem relação com a prática da Medicina, Psicologia e áreas afins.

Já definiu algumas linhas de ação e, por ora, debate sobre o melhor modelo de negócios a ser seguido. No entanto, já demarcou o que fazer, para quem fazer e quais instrumentos devem ser utilizados, ou seja, definiu sua missão corporativa.

Missão da CLIMA

Sua missão está formulada através de dois Alvos Estratégicos que visam a resultados práticos com eficiência e objetividade.

AE-01: “Criar e formalizar uma rede nacional de especialistas para atuar na CLIMA, bem como auxiliar às empresas consultoras cadastradas na conquista de novos contratos ambientais”.

Grande parte da rede de especialistas já possui extensas relações profissionais com membros fundadores da CLIMA. A rede tende a crescer com relativa facilidade, inclusive estimulando o cadastro de empresas consultoras. Afinal, é o processo de compartilhamento de negócios que está em pauta.

AE-02: “Atender prontamente e a baixo custo às demandas de ordem ambiental formuladas por um ‘cliente perdido’.

Dois aspectos desse alvo precisam ser esclarecidos: atender prontamente e cliente perdido.

Atender prontamente significa fornecer esclarecimentos a uma pessoa, que representa uma entidade pública ou privada, para que ela possa realizar de forma segura um projeto, cumprindo com os requerimentos técnicos ambientais estabelecidos no país. Esses esclarecimentos são oferecidos em um relatório objetivo, do qual conta o diagnóstico do problema ambiental a ser solucionado e uma receita de solução. Assim sendo, trata-se de uma consulta técnica.

Cliente perdido é todo indivíduo que possui o problema ambiental, mas não sabe a quem recorrer e como deve solucioná-lo. Sempre representa uma entidade pública ou privada. Assim, um profissional da CLIMA, oferece as ações que deverá realizar, as fórmulas alternativas de realização, bem como eventual necessidade de contratação de estudos ambientais, desde que com qualidade e a custos mais baixos.

Espaço ótimo para as futuras instalações da Clínica do Ambiente

Espaço ótimo para as futuras instalações da Clínica do Ambiente

Conclusões da CLIMA

Como é possível verificar por esta apresentação, está-se a iniciar um processo de trabalho inovador. Ele tenciona aproveitar a excelência dos profissionais que já atuam ou desejam atuar no mercado consultivo e compartilhar seus resultados ambientais e monetários.

Todos os participantes devem estar interessados em garantir o Desempenho Ambiental otimizado das corporações produtivas que operam no Brasil e a consequente Sustentabilidade de seu território.

Aguarda-se seu eventual  interesse em ser participante ativo da CLIMA Network.

Governança pública


Trata-se de tema importante a ser tratado neste momento nacional, sobretudo em função de como o Brasil vem sendo governado há mais de uma década.

Todavia, a finalidade deste artigo não é denunciar “problemas e malfeitos”. Em verdade, visa a pensar em meios mais adequados para gerir a “coisa pública” de forma transparente, com o uso de novos instrumentos administrativos e financeiros, os quais continuam a evoluir.

Como bem sintetiza o especialista em Administração Pública, Caio Marini [1], “a governança vai muito além da gestão pública”.

Evolução da administração até chegar à Governança

Data do início do século 20 a criação da teoria da administração que sucedeu a Teoria Clássica e a Teoria Behaviorista (Relações Humanas). Chamou-se Teoria da Burocracia. Foi uma obra de Max Weber, um cientista alemão, graduado e doutorado em Direito.

A burocracia baseava-se numa visão positivista e racional do indivíduo. Weber acreditava que todas as organizações deviam possuir uma estrutura hierárquica e as relações entre chefes e funcionários seriam definidas tanto pela hierarquia, quanto pela fidelidade estrita às normas e procedimentos estabelecidos. Estes, por sua vez, explicitados através das ordens dos chefes, únicos detentores de autoridade formal nas organizações.

Imagem satírica da burocracia

Imagem satírica da burocracia

Na ótica atual, pode-se dizer que as organizações burocratizadas através do uso do modelo weberiano mais pareciam com “campos de extermínio da criatividade”. Porém, verdade seja dita, muitas delas existem até hoje. Algumas sob a forma de governos nacionais.

Entretanto, com a construção da World Wide Web (1991) e o lançamento da Internet, a ampliar de maneira flagrante a comunicação mundial, a burocracia foi quase extinta nas organizações mais complexas. Não havia mais espaço para hierarquia, fidelidade absoluta e obediência cega, como foram definidas por Weber, pois todos os funcionários passaram a ter direito de opinar e lançar suas ideias sobre a mesa de debates.

Ficaram de fora as instituições de países alquebrados, onde o Estado continuou a ser gerido por monocratas. A gestão pública, que podia ser realizada com base nas informações disponíveis, sequer foi percebida como um ato inteligente.

Autocratas, de forma geral, impedem o crescimento adequado da iniciativa privada e soterram o mercado (produtivo e consumidor) com medidas consideradas por muitos como atos de exceção.

Não obstante, foi em nações que já operavam modelos de gestão pública bem afinados, com a máquina de governo leve e azeitada, onde cresceu o fenômeno da Governança. Tornou as corporações privadas mais eficientes e seus Estados bem mais democráticos. Simples assim, quase um passe de mágica, mas sem qualquer magia.

Tentativa de conceito

Governança pode ser definida como “as formas com que indivíduos e organizações, públicas e privadas, administram seus problemas comuns. É um processo contínuo e sistemático, por meio do qual torna-se possível acomodar interesses conflitantes ou distintos e realizar ações de cooperação para acomodá-los a contento de todas as partes, incluída a sociedade civil organizada”.

Governança “diz respeito não apenas a instituições e regimes formais, mas sobretudo a acordos informais e parcerias que atendam aos interesses dos cidadãos e das instituições”.

Condicionantes da Governança Pública  

Governança não é uma forma de governo, mas deve ser uma política de Estado, um processo dotado de inteligência, com exercício constante da democracia participativa e capacidade de diálogo transparente com a sociedade civil.

Não há pré-requisito para implantar o processo de Governança Pública em uma nação. Basta que seu governo seja democrata e tenha absoluta consciência que só se encontrará à frente do Estado por estar a serviço da sociedade; nunca de partidos políticos. Isto mesmo, qualquer governo deve atuar como humilde serviçal da sociedade que o elegeu!

Para realizar a Governança Pública

O primeiro passo consiste na criação do Conselho de Governança, composto por membros do Estado (governo), de corporações privadas (participação do mercado) e de instituições do Terceiro Setor (participação da sociedade civil organizada). Esse conselho visa a garantir ações de cooperação por parte de seus três elementos ativados.

Observa-se que não ocorre divisão de responsabilidades entre Estado, Mercado e Sociedade Civil. Muita embora caiba ao Estado a promoção da equidade, os “três parceiros” têm igual responsabilidade, quais sejam, a de eliminar ações arbitrárias de Estados desestruturados e, sobretudo, desenvolver capacidades de gestão compartilhada e em rede (Governança).

Após criado o Conselho de Governança, sem pompa e circunstância, segue a execução dos trabalhos nacionais:

  • Elaboração conjunta da agenda estratégica de desenvolvimento da nação, visando ao longo prazo, o que confirma o comprometimento de todos em alcançar os resultados esperados.
  • Identificação das partes interessadas na realização da agenda aprovada, onde devem ser identificadas aquelas que poderão ser parceiras na execução de projetos nacionais estruturantes, consolidando assim alianças estratégicas de cidadania.
  • Implantação da agenda e de sistema informatizado de monitoração, para que haja o controle dos projetos nacionais contidos na agenda. O uso da internet é essencial a essa prática, sobretudo através de ferramentas fáceis de serem operadas.
  • Por fim, a avaliação dos resultados alcançados e ajustes dos desvios encontrados, para atualizar a agenda inicialmente concebida. Essa é mais uma atividade típica do Conselho de Governança.

Deve-se acentuar que, nos processos de Governança Pública, cabe à Sociedade Civil e ao Mercado o controle das ações do Estado, de forma a legitima-las ou não, em acordo com a agenda estratégica aprovada.

______

[1] Este artigo foi redigido com base em textos publicados pelo professor e especialista Caio Marini, embora com a nossa interpretação do que ele denomina Governança para Resultados. Por sinal, um processo que faz muita falta ao Brasil e que, de forma simplificada, significa “gerir compartilhadamente o Estado de forma a atingir resultados que aumentem a qualidade de vida de seus cidadãos”.

Estudos Ambientais: objetivos e indispensáveis


Que sejam claros e objetivos para se tornarem indispensáveis ao mercado.

Passados 38 anos da criação do Mercado Nacional de Estudos Ambientais, verificam-se três processos ocorrentes, que são básicos e racionais para a economia do setor:

  • A elaboração de metodologias ambientais, visando a atender às demandas do mercado;
  • Inúmeros cursos de graduação e pós-graduação que são oferecidos por universidades, para fortalecer esse mercado específico; e, por fim,
  • O expressivo contingente de estudantes que deseja realizar esses cursos, visando a atuar nesse mercado.

Na prática, as melhores metodologias compõem a Ciência do Ambiente. A Universidade, por sua vez, oferece-a a seus alunos. Por fim, os que são Formados com maior dedicação e afinco, a aplicam em empresas do Mercado.

Nos países que detém economia mais sólida e que possuem bom nível de civilidade, este é o processo normal da evolução das profissões que requerem uma formação superior. Para visualizar a sequência desse processo, veja o diagrama a seguir.

A filtragem própria da ação do Mercado

A filtragem própria da ação do Mercado

Em qualquer sistema econômico é o mercado que promove o desenvolvimento científico e, em consequência, a inovação com oferta de tecnologias. Essa assertiva pode ser considerada arriscada, dado que, em tese, fazer ciência depende apenas de escolas apropriadas, centros de pesquisa e cabeças inovadoras.

Todavia, na visão aqui defendida, professores, alunos, cientistas e pesquisadores são parte do mercado produtor e consumidor de novas abordagens científicas. E no segmento ambiental não é diferente, pois esse mesmo processo ocorreu no Brasil, enquanto houve um bom mercado produtor e consumidor.

Apenas em função de sua tenra idade, boa parte da Ciência do Ambiente disponível foi criada e desenvolvida por estudiosos avulsos do tema, fora dos quadros da Academia. Claro que as universidades também contribuíram para realizar essa tarefa. No entanto, seus cientistas e pesquisadores sempre levaram em conta os conhecimentos acumulados pelos especialistas no assunto.

De toda forma, no curto período 1986-2007, a Universidade formou e cedeu ao mercado várias turmas de profissionais de qualidade ao setor ambiental, tanto para atuarem em organizações públicas, quanto em empresas privadas.

Estudos Ambientais versus Investimentos

A partir de 2008, em função da crise financeira mundial, embora a Universidade mantenha sua fábrica em plena atividade, o mercado gradativamente foi-se acanhando.

No Brasil, os investimentos públicos e privados foram reduzidos a partir dessa data. A política adotada pelo governo era apenas a de fortalecer o consumo interno:

─ “Comprem geladeira, televisão, máquina de lavar e um carro que nunca tiveram”, dizia o canhestro chefe do executivo que, após liberar o crédito, acreditava que poderia aumentar a demanda num mercado global. Essa medida pontual causou um pequeno impacto na economia, mas somente durante o ano de 2010. E, obviamente, não se sustentou[1].

Por outro lado, a legislação ambiental tornou-se ainda mais restritiva aos investimentos produtivos, por demandar estudos ambientais cada vez mais complexos e onerosos para que fossem implantados novos empreendimentos.

A resultante dessas duas variáveis – a queda do investimento e a crescente interferência legal – fez com que o mercado de estudos ambientais sofresse expressiva redução. Afinal, sem investimentos não há estudos de impacto, implantação de programas ambientais ou auditorias. Vale dizer, estas eram as principais práticas demandadas por esse mercado.

Em suma, é triste ver o cenário em que vive hoje a consultoria ambiental no país: perda de incontáveis postos de trabalho, fechamento de empresas dedicadas ao setor, aquisição de consultoras nacionais por empresas estrangeiras e, ainda que de forma legal, os principais contratos ambientais pertencem ao portfólio de empresas da engenharia civil.

Nada contra as consultoras em engenharia, mas elas só dominaram o mercado ambiental até o início dos anos 1990. Tê-las de novo à frente, em 2014, pode ser um perigoso retrocesso para o setor, assim como seria estranho se escritórios de advocacia passassem a elaborar projetos de engenharia.

Sugestão

Há meios para reverter o cenário de possível estagnação do setor. De outra forma, reorientá-lo com um novo rumo Norte. Embora o mercado seja seu maior estímulo, cabe à Academia transferir sua inteligência. Assim sendo, cabe aos especialistas a produção de textos didáticos e práticos, que orientem universitários para atuarem neste segmento econômico.

Há empresas que precisam participar da Fábrica de Inteligência. São obras da iniciativa privada e que foram organizadas para oferecer treinamento intensivo no uso de metodologias ou modelos atualizados que compõem a Ciência do Ambiente. Essas empresas têm como foco principal os profissionais do setor e aqueles que cursam o último período da graduação.

Tendo como premissa estratégica que investimentos produtivos voltarão a ocorrer no país, acredita-se que os estudos ambientais precisam se tornar mais objetivos e, em consequência, menos onerosos. Cabe ao Estado rever a legislação ambiental vigente, de forma acompanhar a dinâmica do mercado, e permitir que os Estudos Ambientais sejam aceitos e indispensáveis, sem dores para os bolsos dos investidores.

______

[1] O canhestro não tinha ideia que a oferta de produtos manufaturados estava congelada. Acelerar o consumo interno naquelas condições, derrubando a taxa básica de juros, era o mesmo que dinamitar a inflação. Por sinal, a inflação foi represada de maneira arriscada, por força da chamada “contabilidade criativa”, que atrapalhou as finanças das empresas estatais envolvidas.

Não vou trocar de óculos


Por Ricardo Kohn, Escritor e Consultor em Gestão.

Diversas abordagens teóricas das Ciências do Ambiente pedem (quase imploram) para serem levadas aos educandos de maneira diversa da que tem sido tradicionalmente adotada.

Não há dúvida que a tradição universitária conseguiu alcançar um nível magnífico para seus cursos: salas de aula confortáveis, uso de notebooks por alunos, auditório para palestras de especialistas, seminários, coffee-breaks, slides de alta qualidade e belos vídeos projetados em telões. É bem verdade que esse é o cenário de pouquíssimas universidades brasileiras, mas a tendência é que seja replicado por mais Escolas.

Todavia, de forma mais específica, a teoria relativa à Gestão do Ambiente necessita de algo além do que essa excelente prática acadêmica é capaz de ensinar. É sobre essa afirmação que ofereço uma proposta.

Evolução

Em passado não muito remoto, as salas de aula só dispunham de quadro-negro, punhados de gizes coloridos e, no limite da tecnologia, um retroprojetor rotativo. Era uma engenhoca mecânica que, para funcionar direito, exigia a “cerrada marcação do mestre sobre a máquina”. A educação superior apresentava um quadro meio bizarro.

No entanto, até fins da década de 1970, quando ainda não existiam tecnologias capazes de dar suporte às aulas – similares às atuais –, a inventiva criava a ação. Por livre opção, visando a oferecer mais realidade às suas turmas, alguns “mestres especiais”, de forma espontânea e abnegada, conduziam seus educandos para investigar in loco, no campo, o objeto de estudo que antes fora debatido em sala. E olhem bem, davam aulas de graduação em administração, engenharia e arquitetura. Imaginem o que fariam com a Gestão do Ambiente?

"Sala de aula no campo"

“Sala de aula no campo”

Faço uma analogia ao deduzir que a educação universitária brasileira parece “jogar na retranca”. Pois, ainda hoje, subutiliza métodos educacionais conhecidos, esquecendo-se de transferir para o presente algumas das suas melhores práticas do ensino, criadas e aplicadas no passado.

Motivação

Não obstante a evolução de métodos e práticas de ensino, hoje capazes de produzir aulas presenciais magníficas, nelas, o Ambiente, foco principal do interesse dos alunos da Gestão do Ambiente, tem sido um “protótipo invisível”, uma abstração que, embora esteja carregada de tecnologia, somente traz cheiro de ar condicionado.

Não há terra molhada por perto, não se escuta o farfalhar das corredeiras, não há brisa, nem piado de pássaros. Os conceitos recebidos em sala não são vistos pelos alunos como coisas concretas! Assim, mestres e alunos mais parecem leões famintos trancafiados em jaulas. Falta-lhes espaço para a criatividade, pois necessitam de campos abertos.

Faltam alunos com disposição de aprender?

Faltam alunos com disposição de aprender?

Dizem alguns cientistas da teoria do conhecimento que tudo no Ambiente deve ser interpretado a partir da posição em que se encontrar o observador que o visualiza e da qualidade das lentes que se estiver portando. Em suma, trata-se de uma questão de perspectiva, para obter a capacidade de observa-lo em seus melhores detalhes.

Por analogia, quando se vai ao teatro, em tese é possível escolher a localização para assistir à peça: galeria, plateia, balcões, frisas, camarotes, etc. De cada posição selecionada tem-se uma perspectiva própria.  Os mais devotados a essa arte chegam a portar pequenos binóculos para aproximar o palco e assistir à peça em detalhes (herdei um deles de minha avó). Assim, ainda que eles próprios não saibam, confirmam, através de atos inconscientes, a experiência dos velhos gregos que fundaram a teoria do conhecimento – os epistemólogos.

Voltando à realidade, o mesmo pode ocorrer nas salas de aula. O ator principal é o “mestre” e a plateia são seus educandos. Porém, nas salas há limites severos: são menores e fechadas e, embora tenham janelas, ninguém ousa abri-las. Querem manter os efeitos do gélido ar condicionado em seu restrito ambiente.

Dúvidas e esclarecimentos

Seguindo a linha de raciocínio de epistemólogos atuais, antes de tudo é necessário encontrar a melhor posição para observar o Ambiente. Assim torna-se possível aprender algo acerca da dinâmica dos ecossistemas que o compõem, bem como conhecer os agentes e vetores que promovem sua permanente transformação.

Decerto, a melhor posição para obter esses conhecimentos não se encontra no interior de um prédio urbano, mas fora dele. Na verdade, encontra-se no interior do próprio Ambiente que se deseja conhecer. Em minha experiência foi importante “senti-lo na própria pele”, vivenciá-lo em sua performance, acompanhar de perto sua dinâmica. Diria mesmo, sentir seu cheiro real e o de suas comunidades naturais.

Mas ainda resta saber como identificar a lente de qualidade adequada, ou seja, a teoria ambiental através da qual é possível enxergar e detalhar o Ambiente que se deseja conhecer: o primitivo, o rural e o urbano. O setor da educação acredita piamente que existem muitas. Mas, francamente, discordo dessa posição e posso explicar o motivo.

Na área das ciências humanas e sociais a maioria das instituições públicas brasileiras ainda acredita que os “preceitos legais” devam determinar o que pode ser Teoria e Ciência. Na área das Ciências do Ambiente essa espécie de aberração existe há décadas e permanece a ser intensificada neste século.

Creio que, por mera questão lógica, deva ser exatamente o contrário: especialistas, teóricos, cientistas e pesquisadores independentes precisam propor as leis ambientais que, depois de muito debatidas, poderão ser acatadas pelo Parlamento do país. Nada me parece mais óbvio do que isso.

Curso Sobre o Ambiente

A partir dos argumentos apresentados decidi divulgar uma ideia que tenho há algum tempo, qual seja: realizar cursos Sobre o Ambiente com mais ênfase nas atividades de campo. Por exemplo, o professor apresentaria a teoria do tema em sala de aula durante 50% do tempo do curso. A outra metade seria realizada em campo, com os alunos aplicando, testando e vivenciando a teoria recebida. É lógico que a presença do “mestre” é essencial.

Claro que há questões de logística a serem superadas nesse processo. Mas nada que um bom planejamento não resolva.

Acredito que os resultados dessa prática beneficiarão a todos, alunos e professores. O velho chavão “a teoria é diferente na prática” seria anulado. Daria lugar a uma postura bem mais razoável e produtiva: “a melhor prática sempre resulta da teoria bem aplicada”.

Escolas de engenharia de minas, biologia, engenharia florestal, geologia ou agronomia, dentre outras, têm tudo para tornar mais concreta essa postura universitária.

Entretanto, instituições de ensino superior brasileiras ainda não oferecem uma grade de cursos ambientais com esse formato. Porém, há uma boa demanda, pois muitos brasileiros já frequentaram cursos desse gênero em escolas canadenses, europeias e norte-americanas.

Não pretendo trocar as lentes do meu óculos. Foi através delas que creio haver aprendido a me posicionar no Ambiente. Por isso acho que um projeto-piloto de curso intensivo, com características de sala e campo, deva ser testado por uma universidade brasileira ou mesmo por uma empresa de treinamento. Embora já esteja conversando com universidades, coloco-me à disposição para discutir essa ideia.

Vereda em mata de restinga

Vereda em mata de restinga

Educar ou amestrar


Ricardo Kohn, Escritor.

Aqueles que educam ou promovem a educação em uma sociedade, estão a visar o futuro da nação. Sobretudo, das nações democráticas que pressentem o valor de possuírem uma sociedade civilizada e produtiva. Vários são os estudos das Nações Unidas, bem como de notáveis Universidades, que demonstram, de forma inequívoca, que a educação de uma sociedade não é um sonho, mas projeto inadiável e imprescindível a ser executado.

Entretanto, no outro extremo, à beira do precipício, há os que desejam manipular contingentes de pessoas, amestrar o que chamam de “povo” ou “sociedade de massa”. Parecem crer que, somente pela dominação, organizarão o espaço que desejam para realizar “a minha gestão pública“, de preferência sem forças de oposição. Têm profundo ódio da educação, de debates e reflexões, pois vendem-se em palanques, a propalar ideologias a serem trilhadas, mas já extintas em passado longínquo. Afinal, ideologias não educam, no máximo amestram, dado que obrigam ao gado ideologizado trilhar atalhos entre penhascos escuros.

Ensaiando o gestual para o palanque

Ensaio do gestual de palanque

Por incrível que pareça, em pleno século 21, esses dois personagens coexistem, apesar de ocuparem posições opostas na sociedade.

Os educadores normalmente possuem elevado nível de formação e consistência em sua argumentação. São professores e pesquisadores que fazem das escolas um espaço de socialização do conhecimento e de experiências. Na área das ciências humanas permitem (e até esperam) que seus alunos divirjam dos “contextos estabelecidos”. Ensinam como participar de debates democráticos. Induzem-nos a pensar, a refletir e assim criar próprias convicções, com premissas justificáveis. Portanto, não adotam cartilhas ideológicas a serem perseguidas, apenas estimulam debates.

Os amestradores, no mais das vezes, são incultos, agressivos e arrogantes [1]. Até porque, de alguma maneira, um dia eles mesmos foram os amestrados. Seguem de forma obstinada as receitas de cartilhas ideológicas. Não admitem que um participante do culto de amestramento tenha qualquer  divergência sobre o que dizem, embora mintam descaradamente e contem casos que nunca aconteceram. Têm pelo menos dois desejos ardentes: ocuparem cargos públicos nas altas esferas, de preferência como políticos de destaque para os amestrados, e, com “esquemas de corrupção“, ficarem milionários rapidamente.

Os cidadãos formados por esses atores da sociedade são rebatimentos dos processos por que passaram. Suas ações durante toda a vida são uma espécie de “força resultante” do que receberam com mais ênfase: educação ou amestramento. Os educados formam a sociedade, a nação. Ao contrário, os amestrados organizam quadrilhas de políticos para roubar a nação.

Não há dúvida que, vistos por esse prisma, educar e amestrar são dois processos muito distintos, que podem conduzir a cenários favoráveis de desenvolvimento ou a insustentáveis desgraças nacionais. A escolha é sua, senhora sociedade.


[1] Podem existir amestradores com formação e cultura. No entanto, não possuem diversidade de pensamento e seguem sempre a mesma cartilha, que sempre há de ser esquerdológica“.

Ensaio sobre Oportunidade


Surgiu uma oportunidade de negócio. O que faço com ela?

Uma boa ideia é sempre um livro difícil de ser redigido. Seus autores devem ter muito cuidado quando começarem a trata-la, de modo a transforma-la em um “bom projeto preliminar”.

─ Mas o que é um “projeto preliminar”?

Consiste em redigir a ideia de forma clara e concisa. Visa a consolidar a ideia dos próprios autores, bem como a permitir sua apresentação a potenciais interessados em viabilizá-la, sejam investidores ou não. No entanto, ainda sem especificar seus custos de investimento, processos necessários à sua realização e outros elementos retratem como executá-la. Isso é feito através de um Modelo de Negócio, completado com a Análise SWOT (Pontos Fortes e Fracos do projeto e Oportunidades e Ameaças ao projeto).

1. Modelo de Negócio

Trata-se do documento básico que deve conter dez elementos capazes de explicar as linhas iniciais da viabilidade técnica-econômica de qualquer ideia. Segue a estrutura e conteúdo deste documento:

  • Alvos do projeto

Denomina o projeto e apresenta quais as atividades produtivas a serem realizadas, bem como seus resultados esperados em termos de serviços/produtos.

  • Mercado potencial

Discrimina setores econômicos atendidos pelo projeto, bem como os prováveis maiores consumidores de seus serviços/produtos, arrolando as pessoas físicas e jurídicas que se destacam.

  • Competências estratégicas

Descreve as propostas de valorização já embutidas no projeto, que o destacam de ações similares. Ou seja, os fatores que potencializam seu sucesso, como exclusividade no mercado, redução de custos, inovação tecnológica, etc.

  • Canais de distribuição

Discrimina os meios e as formas de comunicação com que o projeto chegará e se manterá no mercado – website, e-mail marketing, associação de marcas famosas, etc.

  • Relação com clientes

Discrimina e descreve as formas pretendidas pelo projeto para o estabelecimento das relações com sua clientela – ouvidoria, auxílio pessoal, canais de voz, etc.

  • Linhas de receita

Discrimina e descreve os serviços/produtos previstos no projeto que gerarão receita e que serão comercializados em seu mercado potencial.

  • Recursos-chave

Discrimina os recursos necessários para elaborar o projeto final da ideia e implantá-lo. Tratam-se dos recursos humanos, técnicos e logísticos requeridos, sem dimensionar seus custos e despesas – equipe técnica, instrumentos de informática, oficina de trabalho, etc.

  • Parceiros-chave

Discriminar quais são as organizações que valorizarão o projeto, uma vez estabelecidas parcerias e convênios formalmente documentados. Devem ser considerados os alvos do projeto, seu mercado potencial e suas linhas de receita.

  • Atividades-chave

Discriminar por nível de prioridade e descrever as atividades principais a serem realizadas para garantir a sequência de vida do projeto. Não se trata de elaborar um cronograma, mas das ações e processos a serem realizados para a evolução do projeto. Considerar os parceiros-chave estabelecidos.

  • Estrutura de custos

Discriminar todos os itens de custo do projeto, em especial aqueles relativos aos canais de distribuição e aos recursos-chave – implantação e manutenção da oficina de trabalho, equipamentos, website, etc.

2. Análise SWOT

Análise SWOT (Strengths, Weaknesses, Opportunities and Threats) significa, em português, a análise de Pontos Fortes e Fracos do projeto, bem como das Oportunidades que atende no mercado consumidor e das Ameaças que o mercado concorrente oferece ao projeto.

Modelo para Análise SWOT

Modelo para Análise SWOT

Para o cenário futuro interno do projeto a análise é feita com base em questões formuladas para identificar seus Pontos Forte e Fracos, envolvendo suas Variáveis Ambientais Críticas Internas:

  • Qual a capacidade e tempo de resposta previstos para o projeto atender às orientações e determinações legais vigentes?
  • Qual estrutura da gestão é prevista no projeto?
  • Quais são os padrões de desempenho autoimpostos previstos pelo projeto?
  • Quais são as tecnologias dedicadas à gestão previstas pelo projeto?

Já para o cenário externo ao projeto, a análise trabalha com as Variáveis Ambientais Críticas Externas, capazes de identificar as principais Oportunidades e Ameaças que afetam ao desempenho do projeto. As questões básicas a serem respondidas são:

  • Quais as expectativas das agências públicas, do mercado consumidor e da sociedade organizada quanto às propostas de projetos para o mesmo setor?
  • Quais projetos são considerados concorrentes do projeto e quais são suas respectivas posturas e desempenhos?
  • Quais são as tecnologias consagradas disponíveis no mercado brasileiro, capazes de beneficiar o desempenho comercial do projeto?
  • Quais organizações lideram o desempenho econômico-financeiro do setor do projeto no Brasil e quais são suas posições relativas em um ranking nacional?

3. Potenciais interessados

De posse do Modelo de Negócio e da Análise SWOT do projeto, seus autores vão selecionar ou consolidar os atores do mercado que serão contatados para viabilizar o projeto.

Há pelo menos três grupos que podem ter interesses distintos: (i) investidores, que financiarão o desenvolvimento do projeto; (ii) negociadores, que abrirão espaços institucionais para a realização e evolução do projeto (não confundir com “lobistas”); e (iii) consultores, que terão interesse em atuar no desenvolvimento do projeto e serão necessários – sobretudo, mentores e advogados.

Importante ressaltar que um mesmo ator poderá participar nos três níveis: investe, negocia e dá mentoria ou presta consultoria.

4. Apresentação do projeto

Chega-se à etapa final do tratamento de uma boa ideia: sua apresentação aos potenciais interessados. Toda a documentação que foi produzida deverá receber um tratamento de alta qualidade em termos de comunicação para os investidores potenciais selecionados. Estes serão os únicos que terão conhecimento completo do Modelo de Negócio e da Análise SWOT.

Negociadores e consultores terão apresentações específicas, próprias às suas necessidades de atuação.

ReGet Me…


De volta ao tema ambiental

Sistema ReGet Me, um projeto-desafio tentador.

Ricardo Kohn

Ricardo Kohn

Na primeira década deste século, mais exatamente no início de 2005, tomamos conhecimento de um projeto ambiental muito interessante, que ainda estava na fase de concepção. Um grupo de vários especialistas em questões ambientais se reunira para consolidar sua concepção e detalhá-lo. Tratava-se de um sistema informatizado, a ser operado em plataforma web, com aplicativos para atender às demandas de estudos, projetos e ações ambientais.

Entramos em contato com o grupo e fizemos uma visita a seu escritório de Belo Horizonte. Trabalhavam com gestão de obras havia mais de 30 anos. No entanto, desde o final da década de 1990, tinham encontrado diversos obstáculos para concluí-las sem prejuízo. Quase todos de ordem ambiental, envolvendo órgãos públicos de vários estados e municípios.

Acompanhamos cada vez mais de perto os trabalhos e, em fins de 2005, fomos convidados a participar do projeto, introduzindo processos para a gestão ambiental e da sustentabilidade, além de, a pedido do líder, tentar a captação de recursos para o ReGet Me.

Sem nos alongarmos, o projeto acabou parando, pois a empresa de engenharia se desfez com o falecimento de seus dois sócios. Os demais seguiram seus caminhos profissionais e nos legaram a propriedade do projeto.

Em meados de 2007 foi feito um sumário descritivo do Projeto ReGet Me, conforme segue abaixo. Para os que se dedicam ou tenham interesse em investir no setor ambiental, vale a pena compreender o alcance desta proposta.

I. Motivação do projeto

Com pequenas ações individuais simultâneas, comunidades isoladas de diversos países do planeta já realizaram ações globais de expressiva relevância. Assim aconteceu em inúmeros casos, tais como a economia de água, a limpeza de terrenos baldios, a identificação de focos de mosquitos, a coleta seletiva de lixo, a reciclagem de produtos inutilizados e muitos outros.

O que caracterizou esses processos foram dois fatores básicos: (i) uma efetiva demanda social a ser atendida e (ii) a organização espontânea de uma rede de cidadãos, por onde fluem os convites de adesão e participação.

Especialmente quando os casos eram considerados mais graves, foram criados movimentos comunitários específicos para fazer face às demandas sociais estabelecidas. Organizações não-governamentais existentes atuaram no sentido de fortalecer e acelerar os resultados esperados.

Empresas industriais assumiram alguns temas como item de responsabilidade social ou “de preservação do meio ambiente”. A imprensa entrou em ação e ofereceu suas contribuições: entrevistas, documentários, eventos, relatórios internacionais foram ventilados e discutidos.

Os assuntos tornaram-se tão expressivos que inúmeros efeitos colaterais tiveram início: empresas específicas foram criadas para oferecer soluções inteligentes; fundos de desenvolvimento destinaram capital para investimentos em projetos dedicados aos temas; e políticos fizeram campanhas espetaculares.

Neste momento do século XXI os chamados “mutirões sociais” ganharam expressão espacial. Tornaram-se grandes corridas tecnológicas. A internet, as telecomunicações, a tecnologia da informação constituem as forças de sua disseminação e solução. Ganhou-se capacidade de aglutinação de esforços, que irradiou uma forte sinergia empresarial.

Contudo, o grande mutirão atual (e que permanecerá em ação por muitas décadas) é o mais grave de toda a história da Humanidade. Trata-se de responder às oscilações climáticas do planeta e a todas as suas possíveis consequências: aumento da temperatura, ameaça de elevação dos níveis dos mares – com inundação de países insulares e inúmeras cidades litorâneas em todos os continentes – possível escassez de água, desertificações, perda de grandes espaços produtivos, eventos climáticos devastadores, miséria e fome de muitos povos, extinção de muitas espécies da flora e da fauna.

O Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), órgão ligado às Nações Unidas, divulgou em 06/04/2007 relatório apontando um cenário grave sobre os principais impactos dos “resmungos da Terra” sobre a economia global, caso medidas concretas da inteligência não sejam buscadas. No Brasil, há impactos significativos em vários lugares, como na Amazônia, no semiárido nordestino e nas regiões litorâneas.

O que se verifica é uma aparente proporcionalidade entre dois tempos históricos. No tempo passado, a limpeza do terreno baldio era realizada pela comunidade associada em mutirão, que utilizava “a tecnologia das próprias mãos”. Nos dias atuais, todo o planeta encontra-se ameaçado e cientistas tentam tecnologias limpas de ponta, que buscam melhorias.

Mas esta proporcionalidade entre problemas e suas soluções é apenas aparente. No tempo passado, a limpeza do terreno baldio era realizada e mantida através de ações comunitárias e educação. No tempo presente, o terreno baldio é o próprio planeta e sua sujeira ganhou vida própria, tornou-se autônoma e se multiplica de forma espontânea. Os mutirões de pessoas ou de cientistas provavelmente ainda não são suficientes para realizar a limpeza. Mudaram as dimensões do terreno, a sujeira ganhou múltiplas formas, as ameaças são graves e crescentes, e o tempo de trabalho para a limpeza é limitado. Talvez não chegue a 100 anos.

Por estes motivos acreditamos que, em tese, devemos atuar como o fizemos desde a origem dos tempos: com pequenas ações simultâneas resultando em ações globais. Todavia, ao invés de realizarmos apenas ações cidadãs individuais, devemos realizar ações setoriais simultâneas. Cada setor econômico deve fazer a sua parte na limpeza do terreno baldio planetário.

Para auxiliar na solução deste problema, em fins de 2007 foi concebido e detalhado o projeto do Sistema ReGet Me, a ser operado em rede, pela internet.

II. A proposta

O ReGet Me constitui uma rede internacional de sistemas informatizados para a execução de práticas ambientais legalmente instituídas no Brasil e no mundo ocidental, assim como de outras práticas e processos delas derivadas.

Seu projeto nasceu a partir de uma iniciativa dos setores da engenharia, ambiental e da tecnologia da informação. É uma rede composta de processos e conhecimentos ambientais que busca atender a todos os setores econômicos, utilizando ferramentas tecnológicas que auxiliam sobremaneira “na limpeza e na manutenção do terreno baldio planetário”.

De um lado auxilia a profissionais. De outro, a todas as organizações produtivas, privadas e públicas, que o utilizarem, independentemente de onde se localizem no planeta e do tipo de transformação ambiental que realizam através de suas atividades.

III. Os produtos

As operações e ferramentas do ReGet Me somam 26 aplicativos de ordem ambiental. Atendem a todas as etapas do ciclo de vida de uma organização, ou seja, projeto de engenharia, obras e ampliações, operação da organização, sustentabilidade de seus resultados no ambiente e mesmo o seu eventual descomissionamento. Além disso, possui ferramentas para realizar a viabilidade, licenciamento, plano ambiental e a gestão da sustentabilidade de uma organização produtiva, bem como de suas práticas de segurança e saúde no trabalho.

III. Aplicativos ambientais do ReGet Me

Os aplicativos do ReGet Me permitem que usuários elaborem e compartilhem, em ambiente internet, os seguintes serviços:

  • Identificação da Transformação Ambiental de um território.
  • Estabelecimento das Premissas Iniciais de Estudos Ambientais (requisitos legais, área preliminar de influência e matriz preliminar de impactos ambientais).
  • Elaboração da Caracterização de Empreendimentos, com informações sobre projetos, obras, operação e descomissionamento.
  • Realização e Gestão de Campanhas de Campo.
  • Elaboração de Diagnóstico Ambiental Completo da área de influência de um projeto ou de uma organização existente.
  • Consolidação das Premissas dos Estudos.
  • Elaboração da Matriz de Impactos Ambientais em sua versão final, atendendo às necessidades de prognósticos ambientais para a área de influência em estudo.
  • Formulação de Prognósticos Ambientais, considerando até três cenários futuros da área de influência.
  • Formulação de Cenários Ambientais futuros detalhados.
  • Avaliação Qualiquantitativa de Impactos Ambientais para todos os cenários formulados.
  • Desenvolvimento, Implantação e Gestão de Planos Corporativos Ambientais.
  • Realização de Auditoria de Planos Corporativos Ambientais.
  • Elaboração de Estudo Preliminar de Viabilidade Ambiental, visando a oferecer suporte à tomada de decisão de investidores acerca da implantação ou não de um projeto de engenharia.
  • Desenvolvimento de Estudo de Impacto Ambiental para projeto de engenharia, visando a seu licenciamento.
  • Elaboração de Relatório de Impacto Ambiental – Rima.
  • Programação e Gestão de Audiências Públicas.
  • Elaboração e Gestão de Projetos Ambientais.
  • Levantamento e Gestão de Passivos Ambientais.
  • Desenvolvimento, Implantação e Gestão de Planos Executivos para Gestão Ambiental de Obras.

O Sistema ReGet Me também possui aplicativos para atividades de administração ambiental de organizações produtivas.

  • Elaboração e Gestão de Procedimentos Ambientais.
  • Implantação e Gestão de Comitê de Gestão Ambiental e da Sustentabilidade.
  • Implantação e Gestão de Ouvidoria Ambiental.
  • Desenvolvimento e divulgação de Código de Conduta Ambiental.
  • Gestão da Obtenção e Renovação de Licenças Ambientais.
  • Elaboração de Termos de Referência para estudos ambientais.

Todos os trabalhos acima apresentados, quando são estabelecidos legalmente, contemplam a legislação brasileira vigente.

O Projeto ReGet Me vai além dos aplicativos de que dispõe. Oferece palestras, seminários e cursos intensivos para todos os interessados.

IV. Benefícios do Sistema ReGet Me

  • Acessibilidade: todas as ferramentas do sistema são residentes em plataforma web, podendo ser acessadas de qualquer região que possua acesso à internet.
  • Comunicação: através da rede ReGet Me as comunicações entre todos os atores, públicos e privados, diretamente ligados a cada processo ambiental em elaboração, podem ser permanentes e gratuitas.
  • Sinergia: o sistema permite que haja compartilhamento de conhecimentos e de soluções ambientais entre organizações produtivas de um mesmo grupo empresarial.
  • Flexibilidade: todos os aplicativos constituintes do sistema podem ser customizados pelos próprios usuários, em conformidade com suas necessidades, bem como com a legislação ambiental vigente.
  • Operacionalidade: o sistema permite que seja efetuada a gestão de equipes e de processos à distância.
  • Economia: redução de custos dos processos ambientais atendidos pelo projeto.
  • Agilidade: redução de prazos de processos e de licenciamentos ambientais.
  • Variedade: os usuários corporativos do sistema podem desenvolver outros processos integrados ao ReGet Me que sejam de seu interesse.

V. Mercado potencial

No Brasil existem cerca de 8 mil corporações produtivas que já realizam há algum tempo investimentos e despesas de ordem ambiental, em função das demandas legais estabelecidas para suas atividades pré-produtivas, produtivas e pós-produtivas.

Não possuímos uma medida de grandeza do volume de recursos financeiros destinados à gestão ambiental de empreendimentos e projetos. Mas, sem dúvida, alguns bilhões de reais são anualmente despendidos em questões ambientais por estas 8 mil organizações.

O uso da rede de aplicativos do sistema pelas organizações que já dispõem de área ambiental própria permitirá uma expressiva redução de dispêndios, além de agilidade e qualidade em seus processos ambientais, tanto respondendo aos requisitos legais estabelecidos, quanto à sua própria política ambiental.

VII. Mercado concorrente

Até o momento não existem no mercado brasileiro e internacional sistemas sequer similares ao ReGet Me. Da mesma forma ainda não existem iniciativas de desenvolvimento destes web-sistemas, muito embora em alguns setores já existam sistemas operando em plataforma web.

Por fim, merece salientar que, partindo do zero em inovações tecnológicas desta natureza, um similar ao Sistema ReGet Me demandaria pelo menos 3 anos para ser concebido, detalhado, desenvolvido e implantado. O custo desse processo seria da ordem de 3,6 milhões de reais. Parte deste investimento já fora realizado. Ou seja, o ReGet Me já se encontrava concebido e detalhado em 2007. Faltava desenvolvê-lo, testá-lo e implantá-lo.

VIII. Abrangência do Negócio

O ReGet Me pode ser oferecido de diversas formas aos mercados potenciais de vários países, em especial na América Latina. Pode ser oferecido para pessoas físicas e para organizações produtivas. Mas também pode ser apresentado a governos nacionais, que passam a oferecer o sistema a organizações que são legalmente demandadas para a realização dos processos e das práticas ambientais instituídas.

IX. Nova proposta

Essa proposta procurou investidores no período de meados de 2007 a fins de 2008. Chegou a oferecer a parceria majoritária no projeto. Foram feitas apresentações detalhadas do ReGet Me em instituições e bancos de fomento nacionais. Todos afirmaram que o projeto era de alta qualidade, mas que deveriam ser buscados investidores privados.

Sendo assim, estamos disponíveis a todos os interessados em investir no setor ambiental para apresentarmos o Projeto ReGet Me.

Invasão de Privacidade


Invasão de Privacidade

Onde se esconde a privacidade de um país, seria debaixo do tapete?

Segundo publicado ontem (06/09) pelo site do jornal Folha de São Paulo, “a presidente Dilma Rousseff disse nesta sexta-feira que o americano Barack Obama se comprometeu a enviar uma resposta dos Estados Unidos sobre a espionagem feita a dados e telefones dela, de ministros e de outros assessores do governo brasileiro até a próxima quarta (11)”.

O site da Folha continua: “Em entrevista coletiva em São Petersburgo, na Rússia, (…) a mandatária disse que Obama assumiu a responsabilidade ‘direta e pessoal’ pelo monitoramento de seus dados telefônicos e eletrônicos. E que enviará à ONU um projeto para definir um novo marco para invasão de privacidade”.

Obama ao ouvido de Dilma

Obama ao ouvido de Dilma

Muito bem, a reunião do G20 foi encerrada ontem e seu principal tema foi a sanção armada norte-americana ao governo da Síria, a qual foi apoiada por 11 países presentes. O tema da “espionagem” não foi tão relevante, mas somente relacionado ao Brasil e ao México, as maiores economias da América Latina.

Observações do blog

O havaiano Barack Obama, nascido em Honolulu, portanto em solo americano, por se tratar do principal estadista norte-americano, nunca falaria em “espionagem feita” sob a responsabilidade dos Estados Unidos. De forma alguma se sujeitaria a afrontas de qualquer líder mundial, muito menos a qualquer presidente de país latino-americano, onde muitas vezes a autoridade moral é escassa.

Da mesma forma, não teria lógica Obama assumir a responsabilidade ‘direta e pessoal’ sobre processos de segurança digital que os EUA já realiza há décadas, muito antes dele se tornar presidente norte-americano pela primeira vez. Na gestão pública dos Estados Unidos a autoridade pública é bastante descentralizada, pois o Presidente não interrompe de forma gratuita processos em andamento e delega às suas instituições todo o poder de decisão e ação específicos. Exatamente o inverso do que acontece no Brasil da atualidade.

Será que a presidente Dilma Rousseff, em seu afã autoritário, não se apercebe que faz afirmações políticas inconsequentes contra o principal estadista da nação que ainda possui liderança mundial em todos os setores, gostemos ou não?

Pois esteja certa de uma coisa, um dia eles se cansam. Possuem inúmeros meios para responder a ameaças, em especial se realmente ouviram as gravações das falas telefônicas de seus ministros e assessores. Lembre-se de uma coisa, os telefonemas pairam no ar do planeta e podem ser capturados pelos países que detêm tecnologias poderosas. E não são poucos, tanto que na reunião do G20 não tocaram na dita “espionagem norte-americana”, pois preferiram esconder as suas.

Sobre esse assunto escrevemos um artigo chamado Soberania é quase virgindade. Ele tenta esclarecer a realidade do momento em que vivemos. Para lê-lo clique aqui.

Contudo, achamos muito prudente que o Brasil envie a ONU um projeto para propor a discussão de um novo marco mundial para invasão de privacidade. E que saiba defende-lo de forma legítima, educada e imparcial.

Outra ótica da invasão de privacidade

O conceito de privacidade e sua eventual invasão por terceiros é bastante discutível e dinâmico na atualidade. Em uma entrevista concedida à revista Veja, em 2011, o advogado Renato Opice Blum, então Coordenador do curso de Direito Digital da Fundação Getulio Vargas, respondeu a seus interlocutores, dentre outras, à seguinte questão:

─ Como preservar a privacidade?

Blum argumentou assim:

─ “É possível diminuir os riscos. Mas sempre digo que o conceito de privacidade ao qual nos habituamos está mudando. Talvez esteja até acabando. Mais cedo ou mais tarde os dados vão escapar ao nosso controle. Só não sabemos quando ou como isso vai ocorrer. Todos serão monitorados, os que fazem a coisa errada e os que agem corretamente. Quem não estiver fazendo nada de errado não precisa preocupar-se com isso”.

Como se faz a Avaliação de Impactos Ambientais – AIA


Ricardo Kohn, Especialista em AIA.

1. O teor do conceito de avaliação

O ato genérico de avaliar – às vezes entendido equivocadamente como sinônimo de analisar – pressupõe a existência do objeto a ser mensurado, segundo uma métrica estabelecida, e a possibilidade de exprimi-lo segundo um valor contido nesta métrica. Ou seja, avalia-se alguma coisa, a partir de um padrão conhecido. Todavia, somente se for possível utilizar esse mesmo padrão para medir propriedades de interesse do objeto, de modo a indicar e confirmar a existência e a importância do objeto avaliado onde ele ocorre.

Por exemplo, o objetivo é avaliar a quantidade de água de um corpo hídrico. O objeto é a água e uma de suas possíveis métricas é o sistema que expressa o seu volume, em litros. Assim, volume é o atributo da água utilizado para medi-la. Se a finalidade da medição é a de garantir disponibilidade quantitativa do líquido para algum processo, estamos no caminho correto. Contudo, se a funcionalidade da água estiver sendo considerada segundo a sua potabilidade, para finalidades de abastecimento humano, então somente o atributo volume não é o mais adequado. Será mais correto selecionar outros atributos que indiquem a qualidade da água, demonstrando-a ser própria para o consumo humano. Várias métricas poderão ser utilizadas, cada qual capaz de expressar a qualidade da água que se deseja, por exemplo: potencial hidrogeniônico, oxigênio dissolvido, demanda bioquímica de oxigênio, presença de metais pesados, presença de coliformes fecais e assim por diante.

Mas o que estamos fazendo com essas medidas? Ao aferi-las, realizamos uma avaliação da qualidade da água ou uma análise da água?

A simples medida de qualquer dos atributos considerados é parte de um processo de análise quantitativa. A este processo analítico podemos associar fatos, evidências, tendências e conjecturas, de forma a introduzir o elemento final do processo analítico: o enfoque qualitativo. Mas ainda assim, somente estaremos realizando uma análise, que é básica para qualquer ação ou crítica que venha a ser efetuada. A análise qualiquantitativa é o fundamento essencial para a crítica, pois sem ela o exercício da crítica resume-se a punhados de opiniões. E as opiniões, muito embora possam representar uma longa experiência pregressa, devem ser criteriosamente utilizadas, sobretudo quando delas possam advir ações que impliquem riscos associados. Em outras palavras: beber um pouco de água de um poço desconhecido, ainda que aparentemente límpido, mas apenas baseado no aconselhamento de um ancião (alguém de quem se diria, “já bebeu muita desta água…”), pode levar o dono da sede ao hospital mais próximo. As decisões precisam considerar variáveis mais consistentes, precisam dos resultados de um processo completo de avaliação.

Para realizar uma avaliação, além dos elementos analíticos, é necessário possuir um padrão de medida, contra o qual são comparadas as aferições procedidas. E para programar ações e projetos, a fim de decidir acerca de suas implantações, é imprescindível efetuar avaliações, capazes de fornecer, além do conhecimento analítico do objeto de interesse, conhecimentos relativos aos desvios de comportamento ou de funcionalidade do objeto, segundo os padrões estabelecidos. Enfim, é necessário proceder um processo de avaliação. A figura a seguir apresenta este processo.

Diagrama do processo de avaliação

Diagrama do processo de avaliação

Sendo assim, concluímos que o ato de avaliar pressupõe a realização de três tarefas básicas e essenciais:

  • Primeira: o estabelecimento de pelo menos uma métrica para avaliação;
  • Segunda: a mensuração do padrão e do objeto a ser avaliado segundo essa métrica;
  • Terceira: uma nota que represente o desvio relativo entre o valor apropriado ao objeto e o valor apropriado ao padrão.

As duas primeiras tarefas consolidam a análise. A terceira realiza a avaliação, ou seja, a análise do objeto é dada por N1. A avaliação do objeto é dada por N1 – N0.

Deve ser observado que a operação matemática utilizada para medir o desvio foi a subtração. Poderia ter sido a outra. Neste exemplo não importa qual a fórmula de mensuração do desvio. O relevante é que existe um desvio e que ele pode ser mensurado.

2. Em que consistem os impactos ambientais

Vários são as definições encontradas para Impactos Ambientais. A primeira está na legislação federal brasileira, mais especificamente no texto da Resolução no 01/86 do Conama – Conselho Nacional do ‘Meio Ambiente’, de 23 de janeiro de 1986, que em seu Artigo 1o conceitua:

Para fins desta Resolução, considera-se impacto ambiental qualquer alteração das propriedades físicas, químicas e biológicas do meio ambiente, causada por qualquer forma de matéria ou energia resultante das atividades humanas que, diretamente ou indiretamente, afetam:

I –         A saúde, a segurança e o bem-estar da população;
II –       As atividades sociais e econômicas;
III –      A biota;
IV –      As condições estéticas e sanitárias do meio ambiente;
V –       A qualidade dos recursos ambientais.

Na análise desse enunciado há algumas dúvidas. Por exemplo:

  • Serão apenas as alterações das propriedades de ordem física, química e biológica aquelas capazes de afetar a saúde, a segurança e o bem-estar da população, as atividades econômicas e sociais, a biota e etc? As alterações do comportamento social e econômico também não teriam essas mesmas capacidades?
  • Serão somente as atividades humanas as responsáveis por efeitos sobre o ambiente? Não deveriam ser consideradas também, para oferecer universalidade ao conceito, as alterações ambientais não antropogênicas como ventos, ciclones, chuvas, erupções vulcânicas, sismos naturais e tsunamis?
  • A biota não é uma parte do conjunto dos recursos ambientais? Então porque destacá-la no texto do conceito?
  • As condições estéticas, em muitas oportunidades, não constituem questões de valor? Como é possível afirmar que uma alteração estética é um impacto ambiental? Aos olhos de quem?
  • Os impactos ambientais são alterações de propriedades do ambiente ou são os efeitos dessas alterações sobre a qualidade do ambiente e de vida do homem?
  • Não estaria faltando neste conceito uma menção explícita ao fato de que os impactos ambientais podem ser adversos e benéficos, ou seja, positivos e negativos?

Boa parte agências ambientais brasileiras utiliza essa conceituação. E essa postura é correta, pois caso contrário haveria uma coleção de conceitos diferentes, o que dificultaria o diálogo. No entanto, acreditamos que esta conceituação pode e precisa ser ajustada, respondendo a todas as questões acima apresentadas. Assim, fizemos a seguinte proposta conceitual, que complementa e fortalece o conceito legalmente estabelecido, a qual é utilizada em nossas práticas de trabalho há cerca de três décadas:

Consideram-se impactos ambientais todos os efeitos sensíveis provenientes das alterações de ordem física, química, biológica, social, econômica e cultural do ambiente, adversos e benéficos, causados por qualquer processo de transformação ambiental, antropogênico ou não, que, diretamente ou indiretamente, afetem:

  • A qualidade presente e futura dos recursos e fatores ambientais;
  • A estabilidade presente e futura dos ecossistemas, constituídos ou decorrentes da atividade do homem;
  • A saúde, a segurança e o bem-estar presente e futuro do indivíduo e das comunidades de que participa;
  • As atividades sociais, econômicas e culturais, ocorrentes e previstas;
  • As possibilidades de reabilitação e do uso de fatores ambientais afetados.

Como fatores ou bens ambientais devem ser considerados o ar, a água, o solo, a flora, a fauna e o homem. Como recursos ambientais, qualquer sistema ecológico estabelecido através das relações de ordem física, química, biológica, social, econômica e cultural mantidas pelos fatores ambientais acima discriminados.

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A destruição ambiental da Usina Belo Monte … Uma fábrica de propina

3. O porquê da AIA

Nos dias atuais, podemos afirmar, sem riscos de cometer enganos, que a avaliação de impactos ambientais é um dos principais fatores de avaliação do desempenho de todo e qualquer projeto ou negócio, de toda e qualquer organização produtiva que se crê madura e, portanto, um importante instrumento de sua gestão. A definição e a eficiência das medidas, ações e projetos ambientais destinados à otimização de quadros de transformação ambiental é função da solidez e objetividade com que é efetuada essa avaliação.

Os processos de AIA devem ser realizadas após efetuadas quatro etapas básicas:

  • O diagnóstico ambiental da região de interesse;
  • A caracterização do projeto ou do empreendimento;
  • Os prognósticos ambientais das relações mantidas entre o empreendimento e a mesma região;
  • A formulação dos cenários ambientais da região de interesse.

Os processos de diagnosticar uma situação existente e prognosticar quadros ambientais alternativos de transformação ambiental constituem a base da avaliação ambiental. Torna-se assim essencial aos modelos desse campo de estudos instrumentalizarem-se para cumprir adequadamente esses processos.

A avaliação de impactos ambientais deve seguir o mesmo critério do ato genérico de avaliar. Ou seja, realizar as seguintes tarefas:

  • Aferir a qualidade ambiental da área em estudo, diagnosticando a situação existente, a qual é assumida como padrão básico da avaliação. Nada melhor do que utilizar como padrão da avaliação a própria realidade ambiental que se deseja otimizar;
  • Efetuar prognósticos ambientais para a região de interesse, com e sem a presença da atividade transformadora (o empreendimento) que está sendo avaliada, mensurando seus respectivos impactos ambientais; e, por fim,
  • Avaliar os desvios entre esses prognósticos, analisando as suas causas e consequências mais prováveis sobre a estabilidade dos ecossistemas afetados e sobre o desempenho do empreendimento, através de retroimpactos previsíveis.

Como é possível observar, as tarefas acima quase repetem o processo genérico apresentado para a análise e a avaliação de qualquer objeto. Porém, ainda falta um elemento relevante: qual a escala métrica a ser utilizada na avaliação de impactos ambientais. Podemos antecipar dizendo que será a escala de Unidades de Qualidade Ambiental (u.q.a.).

3.1. Finalidades e benefícios da AIA

O setor da educação, através da distribuição da informação e do conhecimento, tornou-se o grande responsável pela formação de uma nova consciência mundial. No entanto, nem sempre pela qualidade da informação e dos conhecimentos oferecidos, mas justamente pela carência de informações precisas, mais definitivas e de conhecimentos atualizados acerca de temas considerados essenciais. Ainda assim, muitos temas vêm sendo democratizados pela força das tecnologias de que se utilizam.

A disponibilidade de recursos e fatores ambientais face às expectativas da vida no planeta constitui hoje uma séria questão que está disponível para a reflexão de qualquer estudante de segundo grau. A consciência do esgotamento futuro de importantes bases de suporte ambiental do planeta fez com que o Homem se lançasse às estrelas. Ainda hoje nossa civilização é dependente dos combustíveis fósseis, cuja previsão de esgotamento pode ser relativamente próxima.  Quais serão as nossas respostas a esses desafios?

“O estoque de recursos e fatores ambientais é ainda mais ameaçado cada vez que uma tecnologia, antes esquecida em alguma memória empresarial, dada sua inviabilidade econômica, é convidada a ingressar no mercado vestindo a mesma roupagem de sua origem. O que a viabiliza nesses casos são as ameaças de escassez de algum recurso básico e a manutenção de altos níveis de demanda. Nesse quadro, o Homem demonstra a si mesmo que sua trajetória pode estar em rota de choque com o caos (…). Na pressuposição de haver investido apenas na melhoria de sua qualidade de vida, paralelamente, ainda que sem guerras nucleares, a espécie humana também aprimora a qualidade de sua extinção”.

“Não há nenhuma nova descoberta nessa análise. Porém, cada vez é mais importante que mais indivíduos se conscientizem da seguinte realidade: se forem consideradas as áreas urbanizadas do planeta; as áreas geladas; os desertos; as regiões em processo de desertificação; as áreas de solo estéril; a poluição hídrica; as regiões de litígio e as áreas improdutivas por motivos de diversas naturezas, o saldo disponível para a agricultura, a pecuária, o crescimento urbano e industrial leva à conclusão que a teoria malthusiana faz sentido, a despeito da evolução tecnológica que deveria tê-la refutado. Ou seja, mantidos os atuais índices de crescimento demográfico mundial e a atual qualidade e distribuição do espaço produtivo, as atividades econômicas essenciais à sociedade estarão seriamente comprometidas em curto espaço de tempo e o simples abastecimento se tornará, não apenas politicamente inviável, como já o é hoje, mas fisicamente irrealizável. Quais serão nossas respostas a esses desafios?”

Todos os governos nacionais e todas as empresas produtivas precisam rever rapidamente suas políticas e estratégias de ação, assim como seus valores, comportamentos e padrões básicos de desempenho.

Essa constatação também não é nova. Mas a partir dela é razoável admitir a consolidação da consciência mundial acerca da manutenção da estabilidade dos ecossistemas.  Através dela é também possível compreender movimentos e reações mais ou menos radicais contra apropriações produtivas desses espaços que não reflitam produtos e serviços demandados pelo consenso social, legitimados por necessidades reais e palpáveis da inteligência, e que não apresentem condições adequadas quanto à conservação dos recursos e fatores ambientais de que se utilizam.  Esses movimentos são um dos fundamentos para a futura multiplicação e diversificação reais da qualidade de vida da sociedade humana.

É nesse quadro que se verifica o desenvolvimento e uma relativa hegemonia do setor de ambiental na sociedade moderna. Seus conceitos, suas teorias, suas abordagens ao mundo real convidam aos demais setores da economia e seus instrumentos operacionais à seguinte reflexão: as estruturas produtivas existentes, da forma com que estão organizadas, possuem competência para atuar e continuar a viver nessa nova realidade?

Certamente não se trata da necessidade de desenvolver uma nova teoria das organizações. Trata-se, na verdade, de adaptar as estruturas organizacionais existentes, em curto espaço de tempo, de forma a aguardar, sem maiores riscos, que as novas feições do ambiente determinem através das experiências e das culturas de cada nação, os traços básicos da empresa produtiva, compatível com as demandas da sociedade organizada do século XXI. A esse respeito, entretanto, algumas considerações já podem ser feitas.

O Homem possui hoje diversos motivos para “deslinearizar” o seu pensamento com relação ao permanente crescimento econômico e tecnológico, tido como agente incontestável de melhoria da qualidade de sua vida. Parece estar evidente de que a contínua evolução desses fatores de apropriação e acumulação de riquezas em um ambiente finito só pode assegurar o desastre. Parece estar claro também que há motivos bastante nítidos e relevantes para que as organizações, públicas e privadas, não permaneçam confundindo melhoria da qualidade de vida de uma sociedade com aumento do padrão de consumo de alguns de seus segmentos sociais. Está claro que esse equívoco já conduz a situações socioeconômicas ingovernáveis, porquanto ilegítimas e desumanas, ou ainda pior: conduz a cenários geofísicos do planeta que não mais consideram a espécie humana.

No bloco dos países desenvolvidos ouvimos opiniões acerca do tamanho das organizações. Em alguns setores elas já vêm reduzindo suas estruturas monolíticas e desconcentrando seus processos, de forma a que permaneçam gerenciáveis e, sobretudo, orientáveis segundo a visão de seus investidores e executivos.

Isto porque gigantescos empreendimentos industriais e agropecuários de algumas nações ainda operam como se tivessem consciência e iniciativa próprias, não raras vezes diversas das de seus idealizadores. Parece um conto de fadas (ou de bruxas…).

No bloco dos países mais vulneráveis um fenômeno distinto vem ocorrendo: estratégias de redução de custos e despesas organizacionais destinadas à maximização de lucros estão associadas a quedas intencionais da qualidade dos produtos e serviços que oferecem.  As organizações sofrem um tratamento ambíguo – aumento de produtividade e redução da qualidade dos insumos utilizados – que lhes permite, em curtos espaços de tempo, atingir metas recordes de vendas e de lucratividade. Contudo, em muitas oportunidades isso lhes custa a própria vida e o emprego de milhares de pessoas, além do fato de gerarem volumes absurdos de efluentes, gases, odores, resíduos, escórias e descartes.

Em síntese, acelera-se o crescimento de organizações produtivas e resume-se seu tempo de vida. São negócios efêmeros, que apesar de não terem sido implantados para se autodestruírem, assim se lhes ocorre, porquanto são próprios de economias falimentares e da ausência de valores morais e éticos associados à produção.

Muitos outros aspectos poderiam ser aqui focalizados, mas a conclusão final seria a mesma: nenhuma organização portadora dessas deformações terá condições de sobreviver no quadro de mercado que já se encontra delineado neste início de século.  Mais que isso, será incapaz até mesmo de realizar seus objetivos de curto prazo envolvendo lucro e rentabilidade.

A própria mudança de valores que se assiste no mundo efetuará seleções e censuras definitivas a esses modelos de efemérides organizacionais. O mercado demanda e comporta atuações mais lúcidas do ponto de vista da qualidade de vida da sociedade. A cada dia que passa mais e mais instrumentos legais vêm sendo desenvolvidos e aprimorados para essa finalidade.

É possível ir mais longe nessa afirmação. Independentemente de “habitar” o primeiro, segundo ou terceiro mundo, a organização produtiva já sofre pressões crescentes das sociedades a que servem e daquelas que as assistem. Esta pressão decorre do grande volume de informações que trafega pelas redes internacionais e pelo desenvolvimento e sedimentação da capacidade crítica universal, a qual comporta a consciência de cada indivíduo isolado como proprietário indireto de tudo que lhe é servido, cabendo-lhe, por conseguinte, adquirir ou não. Como resultado, assiste-se no século XXI ao processo de realinhamento de grandes corporações, arrumando a casa com base em princípios mais prudentes. Assiste-se ao renascimento de corporações onde qualidade, segurança, gestão ambiental e responsabilidade são ingredientes básicos, essenciais para suas existências.

É nesse contexto que a prática efetiva da Avaliação de Impactos Ambientais torna-se a ferramenta essencial para a economia e a sobrevivência empresarial. A ser assim, sugerimos a aquisição de uma obra técnica especializada. Clique no link abaixo:

Kohn de Macedo, R. Ambiente e Sustentabilidade – Metodologias para Gestão. Rio de Janeiro, RJ. GENGrupo Editorial Nacional, LTC Editora. 636 pg. 1ª edição. Julho 2015 – Impresso e e-book.

Escola para formação de Estadistas


Por ações públicas que visem a resultados de longo prazo.

No censo do IBGE, em 2010, a população brasileira foi recenseada com cerca de 190 milhões de habitantes. O mesmo instituto estimou que, em 2011, seriamos 194 milhões. Em 2050 é esperada uma população da ordem de 260 milhões de habitantes no país.

Em outras palavras, no curto intervalo de 37 anos, o Estado Brasileiro será obrigado a atender demandas sociais, econômicas, políticas e culturais de mais 70 milhões de cidadãos, o que equivale à população estimada da França, no fim deste ano de 2013.

Pelo lento andar da carruagem brasileira, movida por uma parelha de jumentos, é muito provável que os futuros movimentos de protestos se degenerem e não possam ser mais contidos.

Charge publicada na Suíça. Parece que não funcionou...

Charge publicada na Suíça. “Parece que não funciona mais”

Daí tem-se a imperiosa necessidade de um Estadista que, na visão de Oscar Wilde, é “aquele que pensa nas futuras gerações e não nas próximas eleições”. Este último é o idiota político, que não possui competência para gerir qualquer nação e adapta-la à evolução das 191 nações que, segundo a ONU, têm soberania nacional reconhecida no planeta.

Escolas para Estadistas

Muitas nações já elegeram estadistas históricos. Algumas ainda os detêm, mesmo depois de inúmeras sucessões democráticas. Dentre eles houve excepcionais cientistas políticos, grandes negociadores, excelentes economistas, bons financistas e assim por diante. Mas, por que foram e são bons Estadistas?

Vista da Universidade de Oxford, UK

Vista da Universidade de Oxford, UK

Pelo menos no hemisfério ocidental, são pessoas preparadas e dedicadas para exercerem a função de Estadistas. Não surgiram do nada. Os melhores foram treinados durante muitos anos por diversos professores que detinham os fundamentos da moral e da ética, das relações pessoais, da capacidade de partilhar conhecimentos, da disciplina, da ciência política, das relações internacionais, da economia e os transferiram em seus detalhes para os cérebros de jovens responsáveis, potenciais Estadistas.

Universidade de Harvard, USA

Universidade de Harvard, USA

No mundo há diversas universidades que, embora não se dediquem exclusivamente a essa causa – formar Estadistas – foram e são capazes de produzi-los com fluência e dignidade. Oxford, no Reino Unido, e Harvard, nos EUA, são dois excelentes exemplos.

Biblioteca da Universidade de Oxford, UK

Biblioteca da Universidade de Oxford, UK

Considera-se que este é o único modo de produção: uma escola preparada para construí-los. Não parece haver  outra fórmula. Estadistas de qualidade não caem do céu e não são produzidos pela dita “experiência política”, a qual gera bem mais vícios deprimentes do que virtudes públicas.