Gestão de Fazendas


Por Ricardo Kohn, Cláudia Reis e Itamar Christófaro

Introdução

Há uma ampla literatura sobre como realizar a administração de propriedades rurais. Trata, basicamente, das técnicas agropastoris e de planos empresariais para ampliar resultados econômicos em fazendas de maior porte. Mas esse não é o foco dos artigos que se tenciona publicar neste blog.

Na realidade, este primeiro ensaio visa apenas à introdução do “Ambiente” como uma variável de expressiva relevância nas atividades e práticas de subsistência por parte de pequenos produtores rurais. Ou seja, como famílias subsistem no campo, realizam a produção rural e mantém a qualidade do ambiente que as abriga.

Vista do terreno na Fazenda Boa Vista, Bocaina de Minas

Vista do terreno na Fazenda Boa Vista, Bocaina de Minas

Assim, na sequência dos artigos, serão abordados usos alternativos de fazendas com área de até 20 hectares, visando a atender a necessidades familiares, mas conforme as limitações naturais do espaço ambiental disponível. Por sinal, este espaço fica circunscrito ao terreno da fazenda, acrescido dos de seus vizinhos imediatos.

As limitações naturais são simples e assim resumidas: as dimensões da fazenda; seus tipos de relevo; as declividades ocorrentes; a natureza de seus solos e rochas; os cursos d’água que a atravessam e lagos; sua cobertura florística; a fauna silvestre nativa; suas vizinhanças imediatas; e as áreas de terreno expostas ao clima.

A ocupação e uso de qualquer espaço ambiental deve atentar para os riscos que as limitações acima podem acarretar ao fazendeiro, sua família e eventuais parceiros de produção rural. Todas as limitações são próprias dos chamados “recursos naturais”, como componentes do espaço ambiental.

Porém, segundo esta proposta, “recursos naturais não existem”, sobretudo, se forem explorados pelo homem visando tão-somente à sua provisão econômica, mesmo que lícita.

Entretanto, no lugar de recursos naturais exploráveis, existem os valiosos bens ambientais, que estruturam ecossistemas estáveis e, através da troca sistemática de matéria e energia, relacionam-se de forma espontânea. Assim criam o Ambiente e sua dinâmica, abrigo de todos os seres vivos, inclusive os familiares do fazendeiro.

Cogumelo silvestre, um "bem ambiental" nativo

Cogumelo silvestre, um “bem ambiental” nativo

A expressão “bem ambiental” não é tecnicamente utilizada. Porém, traduz o real conteúdo do que algumas ciências chamam “fatores ambientais básicos”, quando se referem a Ar, Água, Solo, Flora, Fauna e Homem.

Conclui-se que as limitações naturais para a gestão de fazendas, sempre serão efeitos de riscos ambientais proporcionados por variações de comportamento desses fatores ou bens ambientais. Por exemplo:

  • Uma encosta de alta declividade e com o solo argilo-arenoso exposto apresenta risco de desmoronamento e poderá interromper a saída de produtos da fazenda para o mercado – efeito adverso na renda familiar do fazendeiro.
  • Um trecho de corpo d’água, com mata ciliar retirada, possui alto risco de erosão e de desbarrancamento de suas margens, o que provocará assoreamento do corpo d’água e prejudicará uma fonte de alimentação da fazenda – peixes de várias espécies.
  • Várias nascentes próximas que têm suas áreas de entorno desmatadas, apresentam risco de reduzir sua vazão, o que poderá afetar uma importante fonte de abastecimento de água da fazenda – efeito adverso na operação da fazenda, em sua produção e na renda familiar.

Vê-se assim que riscos e efeitos ambientais podem causar prejuízos e danos, tanto a pessoas, quanto ao patrimônio do fazendeiro. Assim, devem ser identificados e avaliados antes mesmo que sucedam, de forma a receberem tratamento objetivo. Tratam-se de medidas antecipadas, proativas, com vistas a garantir e manter a estabilidade dos fatores ambientais afetados.

Considerações básicas da gestão

A gestão de uma fazenda deve ser realizada por meio de um plano ambiental (alvos e medidas para alcança-los) específico e bem engendrado, que atenda a duas diretrizes essenciais:

  • Impedir que ecossistemas estáveis sejam adversamente impactados; e
  • Reabilitar os ecossistemas eventualmente alterados.

A elaboração deste plano, sob o título “Plano para Gestão da Sustentabilidade”, será motivo do próximo artigo sobre gestão de fazendas de pequeno porte.

Espera-se que esta contribuição possa redundar em novas ideias e propostas sobre o tema, especialmente as provindas dos leitores deste blog.