Para que serve a Gestão do Ambiente


Ricardo Kohn, Consultor em Gestão.

Introdução

Segundo arqueólogos e pesquisadores, o homo sapiens surgiu no ambiente terrestre há cerca de 190.000 anos. Estimam que seu comportamento moderno date de 50.000 anos atrás. Sempre buscou construir seu habitat preferencial, dispondo dos meios de que se apropriava do ambiente. E ainda se comporta assim, mesmo a saber que o ambiente da Terra é finito.

O homo sapiens evoluiu de (i) pequenos grupos nômades de caçadores-coletores (10.000 anos atrás); (ii) passou pela fixação de grupos maiores, graças à agricultura ainda precária; (iii) até chegar a construir as cidades, com sistemas de transporte, moradias, fábricas, escritórios de trabalho, universidades, instituições científicas, etc.

Embora, no tempo e no espaço, esses três cenários sejam distintos, há um fato comum entre eles: tudo foi construído pelo “homem inteligente” sobre o ambiente terrestre, a despeito das consequências nefastas que resultaram nesse ambiente.

Há outra variável a ser considerada nessa evolução: a produção de ciências para que o homo sapiens pudesse melhorar, em proveito próprio, a apropriação dos bens de propriedade do ambiente, a que chama docemente de recursos naturais. Assim nasceram, a partir da filosofia e da matemática, as ciências que são consideradas básicas: geologia, hidrologia, pedologia, biologia, ecologia, física e química. No entanto, causa perplexidade que a evolução dessas ciências se deu, sobretudo, nos últimos 200 anos!

Infere-se assim que o homo sapiens moderno somente começou a usar sua inteligência nos últimos 4% de seu tempo de existência no ambiente do planeta. Nesse mesmo período aprimorou várias tecnologias derivadas das ciências. Merece destacar as diversas engenharias, em constante aprimoramento, que lhe permitiram construir cidades, bem como incontáveis artefatos de paz e guerra, de vida e morte.

Legado do homo sapiens

Seu mais importante legado foi a produção do conhecimento, não há dúvida. Todavia, esse conhecimento não é acessível para a maioria dos habitantes do planeta. Esse fato é explicado pela Economia, que estabelece valor monetário para todas as coisas que representem serviço ou produto, fruto do trabalho humano.

Porém, o “humano inteligente” criou outras áreas do conhecimento e difundiu-as como se fossem ciências: Antropologia, Arqueologia, Sociologia e “CiênciaPolítica, por exemplo. Deve-se refletir se constituem ciência ou tecnologia. Na ótica deste artigo, tratam-se de para-ciências[1]. Vejamos.

Classificação de Ciência, Tecnologia e Para-ciência

Há uma tendência na formação superior brasileira que precisa ser revista: chamar de ciências várias tecnologias que nelas se apoiaram para serem elaboradas.

Até por que, há os que entendem, da forma correta, a tecnologia como a ciência aplicada. Todavia, devem adotar redação mais apropriada: a tecnologia resulta da aplicação de ciências conhecidas e confirmadas.

A ser assim, uma ciência deve abordar temas acadêmicos, possuir conceitos próprios, bem como teorias que correlacionam conceitos e processos, os quais constituem estruturas que visam a melhorar o conhecimento humano.

Por sua vez, a tecnologia precisa ser destinada à realização de atividades práticas, com base nas ciências conhecidas. Pressupõe, por parte de seus usuários, o conhecimento razoável das ciências utilizadas.

Porém, tem-se a 3ª classe de abordagem ao conhecimento humano, que é a para-ciência. Possui conceitos e processos próprios, usa conceitos de outras áreas, possui uma abordagem teórica básica e metodologias para aplicação prática. Pode-se dizer que é próxima da ciência, mas usa tecnologias pré-existentes.

Esse é o caso de áreas do conhecimento humano, como Engenharia, Arquitetura, Medicina, Economia, Antropologia, Arqueologia, Sociologia, Política[2] e, mais recentemente, Gestão do Ambiente. Todas são “para-ciências”.

Homo sapiens no Ambiente

Há cerca de somente 45 anos, iniciou-se a preocupação crescente com a Natureza. A engenharia e a economia, conforme operavam, possuíam a capacidade de devastá-la. Dado a isso, vários movimentos de “ativismo ambiental” nasceram naquela oportunidade.

Em países do 1º mundo esse ativismo logo se transformou em cursos de nível superior. Leis foram promulgadas para determinar como o homo sapiens deve se relacionar com o ambiente. Porém, um fato chamou a atenção. As leis se baseavam nas ciências básicas e não duelavam com suas teorias, conceitos e processos. No mais das vezes, as leis foram regidas pela Ecologia, que trata da coleção de ecossistemas que conformam o ambiente.

No ocaso brasileiro, o ativismo ambiental foi carnavalizado. Leis foram promulgadas com propostas bizarras. Chocam-se frontalmente com as ciências que deveriam atender e criaram verdadeiras muralhas burocráticas, a duplicar o custo dos trabalhos de controle ambiental que determinam.

De início, empresas privadas e fundações começaram a oferecer cursos intensivos de 5 dias. Mesmo assim, somente ensinavam como aplicar as leis promulgadas em estudos ambientais. O primeiro curso de nível superior foi criado em 1976: Graduação em Ecologia, na (Unesp) Universidade Estadual Paulista, Campus de Rio Claro.

Hoje diversas universidades oferecem cursos de nível superior em Engenharia Ambiental, Ecologia e Gestão Ambiental, entre outros. Observa-se que o processo da gestão e da engenharia são distintos. Além disso, o conteúdo da Engenharia Ambiental não deve ser semelhante ao da Gestão do Ambiente. Até por que, o ser humano ainda não possui, que se saiba, a “habilidade” de projetar e construir o ambiente primitivo.

Conceito de Gestão

A gestão requer a existência de um objeto a ser gerido. Pode ser uma equipe de pessoas, uma empresa, uma escola, um serviço público, um município ou um estado, por exemplo.

Para efetuar a gestão são realizadas atividades que a antecedem. Eis o processo que culmina com a gestão propriamente dita.

  • Conhecer as entidades do objeto que se relacionam e de que forma se relacionam (diagnosticar);
  • Identificar as ameaças e oportunidades decorrentes dessas relações (análise SWOT[3]);
  • Baseado em variáveis críticas, internas e externas às entidades do objeto, estimar como elas se relacionarão (prognosticar e cenarizar);
  • Identificar e mensurar os efeitos positivos e negativos, presentes e futuros, sobre o desempenho das entidades relacionadas, bem como caracterizar os efeitos sobre as partes afetadas (avaliar);
  • Elaborar um plano de ação para otimizar os efeitos identificados (planejar);
  • Gestão: implantar o plano, monitorar e aferir os resultados alcançados, ajustando-o sempre que necessário (replanejar).

A Gestão do Ambiente

O processo mantém-se o mesmo, acima sumarizado. Seu objeto é o Ambiente. As entidades que se relacionam são “atividades humanas e o ambiente da região em que se localizam”.

A finalidade da Gestão do Ambiente é manter a Sustentabilidade da região afetada, a garantir que as atividades humanas apresentem Desempenho Ambiental adequado, de forma a manter a Estabilidade do Ambiente, como fora em sua origem.

Visando a esclarecer aos leitores, conceitua-se Ambiente da seguinte forma:

“É qualquer porção da biosfera que resulta de relações físicas, químicas, biológicas, sociais, econômicas e culturais, catalisadas pela energia solar, mantidas pelos fatores ambientais que a constituem. Essas porções possuem distintos ecossistemas, que podem ser aéreos, aquáticos e terrestres, e são analisáveis pelo comportamento de seus fatores físicos (ar, água e solo), bióticos (flora e fauna) e antropogênicos (homem e suas atividades)”.

Da mesma maneira, Sustentabilidade é um atributo exclusivo do Ambiente, que consiste em sua capacidade – e na de seus ecossistemas componentes – de manter e desenvolver relações ambientais estáveis entre seus fatores constituintes – ar, água, solo, flora, fauna e homem.

Tela do computador de um aficionado em Gestão do Ambiente

Tela do computador de um especialista na Gestão do Ambiente

Conclusões

Em síntese, quando bem aplicada, a Gestão do Ambiente é a ferramenta essencial para o controle de qualidade da Economia e da Engenharia. Sem aplicar suas teorias e práticas, as grandes decisões empresariais e públicas continuarão a se pautar no retorno financeiro de investidores e na factibilidade da engenharia em realiza-las a baixo custo.

Acredita-se que a “para-ciênciaGestão do Ambiente mereça ter espaço acadêmico e prático na Universidade Brasileira. Decerto não afetará os demais cursos e, sobretudo, o de Ecologia, pois foi concebida a partir de seus princípios conceituais.

Bibliografia

Este artigo tem como fundamento as teorias e práticas obtidos na seguinte obra:

______

[1] O prefixo grego “para-” significa “proximidade, semelhança, intensidade”. Criou-se o neologismo “para-ciência”, de maneira a classificar um conteúdo teórico e prático que constitua a transição entre ciência e tecnologia.

[2] A pretensão humana, sempre arrogante, denominou a Política de Ciência Política!

[3] De forma simplificada, a análise SWOT identifica os pontos forte e fracos do objeto a ser gerido, bem como as oportunidades e ameaças que incidem sobre o objeto. Trata-se de tecnologia testada.

Ensaio sobre a oportunidade


Surgiu uma oportunidade. E agora, o que faço com ela?

Uma boa ideia é sempre um livro difícil de ser redigido. Seus autores devem ter muito cuidado quando começarem a trata-la, de modo a transforma-la em um “bom projeto preliminar”.

─ Mas o que é um “projeto preliminar”?

Consiste em redigir a ideia de forma clara e concisa. Visa a consolidar a ideia dos próprios autores, bem como a permitir sua apresentação a potenciais interessados em viabilizá-la, sejam investidores ou não. No entanto, ainda sem especificar seus custos de investimento, processos necessários à sua realização e outros elementos retratem como executá-la. Isso é feito através de um Modelo de Negócio, completado com a Análise SWOT (Pontos Fortes e Fracos do projeto e Oportunidades e Ameaças ao projeto).

1. Modelo de Negócio

Trata-se do documento básico que deve conter dez elementos capazes de explicar as linhas iniciais da viabilidade técnica-econômica de qualquer ideia. Segue a estrutura e conteúdo deste documento:

  • Alvos do projeto

Denomina o projeto e apresenta quais as atividades produtivas a serem realizadas, bem como seus resultados esperados em termos de serviços/produtos.

  • Mercado potencial

Discrimina setores econômicos atendidos pelo projeto, bem como os prováveis maiores consumidores de seus serviços/produtos, arrolando as pessoas físicas e jurídicas que se destacam.

  • Competências estratégicas

Descreve as propostas de valorização já embutidas no projeto, que o destacam de ações similares. Ou seja, os fatores que potencializam seu sucesso, como exclusividade no mercado, redução de custos, inovação tecnológica, etc.

  • Canais de distribuição

Discrimina os meios e as formas de comunicação com que o projeto chegará e se manterá no mercado – website, e-mail marketing, associação de marcas famosas, etc.

  • Relação com clientes

Discrimina e descreve as formas pretendidas pelo projeto para o estabelecimento das relações com sua clientela – ouvidoria, auxílio pessoal, canais de voz, etc.

  • Linhas de receita

Discrimina e descreve os serviços/produtos previstos no projeto que gerarão receita e que serão comercializados em seu mercado potencial.

  • Recursos-chave

Discrimina os recursos necessários para elaborar o projeto final da ideia e implantá-lo. Tratam-se dos recursos humanos, técnicos e logísticos requeridos, sem dimensionar seus custos e despesas – equipe técnica, instrumentos de informática, oficina de trabalho, etc.

  • Parceiros-chave

Discriminar quais são as organizações que valorizarão o projeto, uma vez estabelecidas parcerias e convênios formalmente documentados. Devem ser considerados os alvos do projeto, seu mercado potencial e suas linhas de receita.

  • Atividades-chave

Discriminar por nível de prioridade e descrever as atividades principais a serem realizadas para garantir a sequência de vida do projeto. Não se trata de elaborar um cronograma, mas das ações e processos a serem realizados para a evolução do projeto. Considerar os parceiros-chave estabelecidos.

  • Estrutura de custos

Discriminar todos os itens de custo do projeto, em especial aqueles relativos aos canais de distribuição e aos recursos-chave – implantação e manutenção da oficina de trabalho, equipamentos, website, etc.

2. Análise SWOT

Análise SWOT (Strengths, Weaknesses, Opportunities and Threats) significa, em português, a análise de Pontos Fortes e Fracos do projeto, bem como das Oportunidades que atende no mercado consumidor e das Ameaças que o mercado concorrente oferece ao projeto.

Modelo para Análise SWOT

Modelo para Análise SWOT

Para o cenário futuro interno do projeto a análise é feita com base em questões formuladas para identificar seus Pontos Forte e Fracos, envolvendo suas Variáveis Ambientais Críticas Internas:

  • Qual a capacidade e tempo de resposta previstos para o projeto atender às orientações e determinações legais vigentes?
  • Qual estrutura da gestão é prevista no projeto?
  • Quais são os padrões de desempenho autoimpostos previstos pelo projeto?
  • Quais são as tecnologias dedicadas à gestão previstas pelo projeto?

Já para o cenário externo ao projeto, a análise trabalha com as Variáveis Ambientais Críticas Externas, capazes de identificar as principais Oportunidades e Ameaças que afetam ao desempenho do projeto. As questões básicas a serem respondidas são:

  • Quais as expectativas das agências públicas, do mercado consumidor e da sociedade organizada quanto às propostas de projetos para o mesmo setor?
  • Quais projetos são considerados concorrentes do projeto e quais são suas respectivas posturas e desempenhos?
  • Quais são as tecnologias consagradas disponíveis no mercado brasileiro, capazes de beneficiar o desempenho comercial do projeto?
  • Quais organizações lideram o desempenho econômico-financeiro do setor do projeto no Brasil e quais são suas posições relativas em um ranking nacional?

3. Potenciais interessados

De posse do Modelo de Negócio e da Análise SWOT do projeto, seus autores vão selecionar ou consolidar os atores do mercado que serão contatados para viabilizar o projeto.

Há pelo menos três grupos que podem ter interesses distintos: (i) investidores, que financiarão o desenvolvimento do projeto; (ii) negociadores, que abrirão espaços institucionais para a realização e evolução do projeto (não confundir com “lobistas”); e (iii) consultores, que terão interesse em atuar no desenvolvimento do projeto e serão necessários – sobretudo, mentores e advogados.

Importante ressaltar que um mesmo ator poderá participar nos três níveis: investe, negocia e dá mentoria ou presta consultoria.

4. Apresentação do projeto

Chega-se à etapa final do tratamento de uma boa ideia: sua apresentação aos potenciais interessados. Toda a documentação que foi produzida deverá receber um tratamento de alta qualidade em termos de comunicação para os investidores potenciais selecionados. Estes serão os únicos que terão conhecimento completo do Modelo de Negócio e da Análise SWOT.

Negociadores e consultores terão apresentações específicas, próprias às suas necessidades de atuação.