Parar, congelar e retomar


Por Equipe deSobre o Ambiente.

Deve-se explicação aos leitores. “Sobre o Ambiente” permaneceu 15 dias parados (de 5/09 a 20/9), resultado da clonagem do cartão de crédito com que foi paga a anuidade do blog. Por óbvio, a empresa proprietária do cartão cancelou várias compras efetuadas pelos estelionatários, dentre elas o pagamento da anuidade do blog.

Viver em um país onde estelionato é tido como crime de pequena monta, “normal em qualquer sociedade”, como dizem, gera sentimentos de frustração, inapetência e ódio. Afinal, “Sobre o Ambiente” foi criado na noite de 28 de abril de 2013 e, desde então, somente viu crescer o interesse de visitantes. Hoje possui 1884 seguidores, com mais de 268 mil acessos.

Assim, há oito dias, fez-se uma reunião de pauta, com vistas a redefinir o Norte do blog. A questão posta sobre a mesa era a seguinte: ─ Deleta-se oSobre o Ambiente” ou retoma-se seu curso.

Na verdade, todos sentiam-se congelados com os efeitos nefastos de estelionatários: queda expressiva na visitação e perda de interesse na postagem de novos artigos[1]. Porém, Simão Macko, o pescador, reavivou a todos com ponderações factuais:

─ “Voto pela continuidade do blog e explico por quê. Sou português, pai de quatro filhos que vivem no Brasil, há muito. Deles tenho netos, bisnetos e um tataraneto, todos brasileiros. Posso afirmar que o país de vocês está parado diante do estelionato praticado, durante 13 anos, por ladrões da pátria. Eles não sabem e muito menos querem governar, apenas precisam roubar para si. O portento da criatura parida por ‘luizinácio’, o larápio, decerto está com os dias contados na presidência. De facto, a opção não é deletar o povo! Ao contrário, por menor que seja nossa contribuição, devemos ajuda-lo a higienizar a república. Portanto, a ser assim, inverto a opção: o quanto antes, é o povo brasileiro que precisa deletar esta canalha”!

Vestimenta nacionalDiante das evidências destacadas por Simão, notórias mundialmente, decidiu-se retomar “Sobre o Ambiente”. Sabe-se que demandará algum tempo para que se volte aos níveis de visitação alcançados ao longo de 2 anos e 9 meses. Porém, contamos com o apoio dos seguidores mais dedicados a estancar a hemorragia moral do governo brasileiro.

Assim, se não for pedir muito, sugere-se que doravante compartilhem nossas postagens nas redes sociais que participam.

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[1] Havia outra variável que prejudicava um pouco a decisão. Ricardo Kohn, na qualidade de coordenador do “Sobre o Ambiente”, está envolvido em palestras acadêmicas sobre seu novo livro. Seu tempo disponível para o blog tornou-se menor. Enfim, ou articula lançamentos em universidades ou dedica-se a redigir artigos.

O risco de dar cursos e palestras


Treinar no Setor Ambiental

Por Ricardo Kohn[1].

Cursos intensivos (de até 72 horas) e palestras de curta duração (1 hora) são processos complexos para serem realizados a contento. Satisfazer aos participantes (alunos) e à empresa promotora do evento não é tarefa simples.

Este artigo tem por finalidade analisar algumas variáveis que devem ser observadas pelo profissional convidado a dar um curso intensivo ou fazer uma palestra. Toma-se como base para análise o setor ambiental brasileiro.

Curso bem ministrado, sala de aula cheia

Infraestrutura de ensino correta, curso bem ministrado: sala de aula cheia e atenta

1. Definição do escopo

O mercado de treinamento oferece duas alternativas normais: o escopo do treinamento é definido pelo contratante do evento; ou o profissional de ensino estabelece o roteiro de sua fala. Não há dúvida, caso defina o escopo da “conversa saudável” que irá manter com o grupo, poderá criar empatia ao apresentar seu conhecimento.

E o motivo é nítido: ao estabelecer o conteúdo da apresentação, o profissional determina também a profundidade das abordagens que fará. Afinal, precisa deixar tempo para responder a questões, solucionar normais debates e esclarecer dúvidas remanescentes.

2. Foco objetivo

Sejam cursos ou palestras, se a finalidade é o ensino ou, diga-se, o despertar de mentes, o “professor” precisa ser focado no tema principal. Claro que pode fazer digressões, notas de rodapé ao conteúdo essencial. Sempre curtas e estimulantes.

Acredita-se que deva criar metáforas e até mesmo provocar risos de seu público. Assim constrói a empatia mútua e o interesse pelo conhecimento, além de facilitar a memorização dos que o assistem.

3. Técnico-científico ou legislação

Certa vez, alguém afirmou: “defina-se, ou Lei ou Ciência do Ambiente. As duas são incapazes de conviverem no Brasil”!

Em todos os países com sistema educacional sério, qualquer evento de treinamento para o setor ambiental possui cunho técnico-científico. E a causa é óbvia: nesses países a legislação é elaborada a partir do estado-da-arte das ciências de referência.

A ser assim, os treinamentos são mais produtivos, pois os profissionais aprendizes focam-se nas teorias, metodologias e exemplos práticos que recebem. Dessa forma, aprendem a dominar as práticas da Gestão do Ambiente.

Em nosso país, todavia, faz-se o inverso. A legislação, impositiva e burra, tem a pretensão de dizer como funcionam as ciências ambientais. Basta ler na maioria das ementas de cursos oferecidos ao mercado. Dão ênfase particular aos requisitos legais, associados aos temas do conhecimento que deveriam transferir aos alunos. Falam muito do “juridiquês ambiental” e propõem pouco para as ciências práticas que explicam o ambiente.

Toma-se o exemplo do caso mais simples: um curso com 16 h de duração sobre a operação que, no passado, era trivial: como obter licenças ambientais. Hoje, os diplomas legais afins a esse processo são tantos, provindos de inúmeras instituições públicas, que, em 16 horas, um “professor honesto” somente falará sobre as disparidades, controvérsias e conflitos criados pela lei vigente.

Ou seja, não restará tempo para transmitir aos alunos o essencial: o que e como fazer para obter as licenças necessárias. Será impossível detalhar como são elaborados e geridos os estudos ambientais, os processos de auditoria interna e um eventual levantamento de passivos ambientais; como programar e gerir audiências públicas, acompanhar as sofridas auditorias públicas e participar de inspeções ambientais feitas in loco, por “peritos públicos”.

Enfim, pode-se afirmar que, ao contrário, é possível realizar operações ambientais realmente simplificadas, sem perder a qualidade de seus resultados. Operações que, para reduzir custos cada vez mais elevados, podem ter um padrão teórico factível, a despeito do amontoado de normas legais que castram a criatividade.

4. Expectativa dos alunos

Em tese, a motivação para participar de um curso caro ou de um seminário de palestras – caríssimo – é conhecer técnicas modernas, aplicáveis ao trabalho diário. Os alunos são profissionais formados, que desejam obter meios de melhorar suas atividades produtivas.

No entanto, nem todos têm essa motivação. Há os que desejam saber das leis envolvidas, a interminável burocracia que criam e qual o melhor caminho para superá-la, desde que sem ônus para sua empresa.

Para quem crê em “Coelhinho da Páscoa” e “Papai Noel” existem soluções. Sem dúvida há somente uma: contrate um excelente escritório em direito ambiental, pois seus advogados conhecem bem o “Labirinto do Minotauro”. Mas pode-se adiantar que gastará mais tempo e dinheiro do que elaborar, da forma técnico-científica adequada, todos os estudos ambientais requeridos.

5. Bom para oprofessor

Para a maioria dos brasileiros alfabetizados, quem profere palestras, conferências, dá aula em cursos intensivos ou ministra cadeira em universidade precisa ser professor em alguma área do conhecimento. Isso é mais do que bom, é ótimo!

Outro fato que merece destaque positivo é a cidade em que acontece palestra ou curso intensivo. Após dezenas de experiências nesses eventos, verificou-se que nas capitais do Norte, Nordeste e Centro-oeste o povo é mais receptivo, empático e interessado em aprender.

6. Ruim para oprofessor

Palestras e conferências em geral, têm público com formação diversificada. De toda forma, aquele que não estiver satisfeito, levanta-se, sai e parte para outro rumo. Não há desgaste relevante na imagem do professor que as profere.

Já nos cursos intensivos as consequências podem ser danosas. Basta que a organização que solicita um treinamento – dado que pouco ou nada conhece sobre o tema – detalhe de forma ostensiva o curso em módulos que acredita serem relevantes. Estejam certos, sempre existe um “gênio interno” disposto a especificar seu futuro cursinho particular.

A partir daí a empresa de treinamento – contratada por menor preço – sai à cata de um “mestre” que a ampare. Pobre do professor que aceitar essa encrenca. Nessas condições é quase impossível satisfazer a turma a ser treinada.

Há empresas que tratam o professor de “instrutor”. O fato é que “instrutor” está mais associado ao amestramento de animais domésticos, do que à educação. A ser assim, trata-se de ofensa aos alunos de qualquer curso. Não importa se possuem nível superior ou se são idosos; durante as aulas todos são alunos e, por civilidade, devem receber as narrativas do professor, concordem com elas ou não.

Em cursos fechados (in house) o professor precisa saber o perfil da turma com que trabalhará: formação, setor de trabalho na empresa e tempo de empresa. É temerário dar aulas para turmas com perfis distintos, por vezes conflitantes: projeto de engenharia, gestão do ambiente e gestão de obras, por exemplo. Têm esperanças distintas de aprendizado e os conflitos se sucedem nas costas do professor.

Existem muitos outros aspectos de cursos intensivos que podem prejudicar o professor. Mas, no adiantado da hora, reserva-se apenas mais um: de novo, a cidade em que ocorre o curso. Sem risco de cometer generalizações, nas regiões sudeste e sul, paulistanos e cariocas se destacam na forma de se comportarem em sala de aula:

  • Paulistanos – embora dedicados a entender os conhecimentos do professor, são atentos e rigorosos. Via de regra, são informados acerca dos temas a serem tratados pelo curso. Com educação, interrompem quando não concordam e pedem explicação lógica. Debatem muito, mas são cordiais e têm como objetivo aumentarem seus conhecimentos.
  • Cariocas – são heterogêneos no domínio da informação ambiental; vão além da variação normal. Entretanto, há os bem-informados que auxiliam ao professor. Porém, dentre estes, é comum emergir uma espécie curiosa, que precisa dar demonstrações públicas de ampla “sapiência”. Por serem narcisos, mal-educados e provocadores conseguem prejudicar a fluência do curso. No mais, os cariocas são ótimos, salvo quando sorriem pela frente e, pelas costasmalham o professor.

7. Sugestão

Em vários países do mundo a profissão de palestrante é concorrida e suficiente para manter um bom nível de vida. Bons professores universitários tornam-se palestrantes em algum momento de suas vidas.

No Brasil essa profissão da educação tem relativamente poucos adeptos, talvez por falta de um mercado próprio. Ainda assim, a maioria dos palestrantes de sucesso parece composta por paulistas.

Pois, seja um palestrante! Assuma esse desafio, palestre sobre a Ciência do Ambiente e crie o espaço que ainda falta. Assim, deseja-se que sua palestra seja épica, um tanto misteriosa, mas de sua exclusiva autoria. Sobretudo, que seja motivadora, estimulante para aqueles que vão gostar dos desafios propostos por você, caro Professor.Ricardo Kohn

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[1] Ricardo Kohn, Especialista em Gestão, com trinta anos de trabalho dedicado à consultoria em estudos, projetos e práticas ambientais, bem como ao treinamento de analistas e gestores em modelos, metodologias e sistemas para a melhoria do desempenho ambiental das organizações produtivas.

Gestão através do ambiente


Por Ricardo Kohn, Especialista em Gestão.

Após o artigo de Simão-pescador, “Conversas com o ambiente”, onde ele narra a visão de seu pai, o melhor “ambientalista” que conhecera na vida, decidi esboçar este ensaio. Nele tento iluminar um pouco uma questão conhecida, embora bastante sombria:

─ Dada a finitude dos bens naturais do planeta, será essencial a mudança nas atitudes das instituições produtivas? Continuarão a ser geridas com vistas a aumentar seu desempenho econômico-financeiro ou buscarão garantir a qualidade de seu desempenho ambiental?

Em tese, é fato que essa “dúvida” foi iniciada no século 18, a partir da Revolução Industrial. Desde então, amplia-se por diversos fatores, em especial quando governos e empresários adotam em suas organizações as ditas “tecnologias de ponta”, que surgem no mercado. No mais das vezes, usam tecnologia apenas por ser a nova tecnologia, sem prever vantagens específicas.

No entanto, em especial no sistema público, dizem que dessa forma aumentam a produtividade do trabalho. Porém, esquecem-se que as organizações precisam se apropriar de insumos para produzir, os quais são bens ambientais do planeta. Quando esses insumos não são renováveis, têm seu estoque limitado; quando se reproduzem de alguma forma, ainda assim são escassos. Sobretudo, em cenários produtivos que requerem mão-de-obra especializada (insumo produtivo limitado e escasso).

O “esquecimento” destes investidores foi ampliado com a ideia do “desenvolvimento sustentável”. Transformaram-na em mera retórica redundante. Se há desenvolvimento, precisa ser sustentável, por óbvio; caso contrário, é apenas crescimento. Aliás, insustentável é o crescimento pífio de empresas e a recessão de países desgovernados, tais como Brasil, Venezuela, Argentina e Grécia.

Todavia, assiste-se a nações social e economicamente desenvolvidas, cujos governos buscam consolidar e sustentar a qualidade de vida alcançada, sem a preocupação de aumentarem o PIB. Alemanha, Noruega, França, Estados Unidos, Canadá, Inglaterra e Japão, por exemplo, investem para manter o cenário em que a qualidade de vida do seu cidadão é a meta básica. O crescimento do PIB, ou não, é fato secundário.

Paris, na pintura do impressionista Jean Béraud - Belle Époque

Paris, na pintura do impressionista Jean Béraud – Belle Époque

Essas são nações que se encontram na vanguarda do desenvolvimento. Possuem cultura sólida, educação incomparável, criam e aplicam tecnologias que reduzam o consumo dos bens ambientais, buscam eliminar “lixos no ambiente”, enfim, executam a gestão através de seu próprio ambiente estabilizado.

Afinal, o Ambiente precisa ser estável para manter sua Sustentabilidade original, de modo a garantir as condições de sobrevivência a todos os seres vivos do planeta.

O pomar


Por Ricardo Kohn, Escritor.

O fundador do pomar – Eustáquio Bruno e Thomaz de Aquino – nasceu no Brasil, em 1899. Era filho de pai português, um rico comerciante da cidade do Porto, e mãe italiana, uma linda artesã, especializada em fazer botas de montaria, nascida em Florença.

Dependendo do grau de intimidade, todos o conheciam por Aquino ou ‘seu Aquino’, embora seus irmãos o chamassem de ‘Taquinho’. Entretanto, após a morte do pai e, pouco depois, o debacle financeiro da família, Aquino viu seus projetos rolarem por água abaixo. Ainda assim, às duras penas, aos 27 anos concluiu a graduação na Escola Superior de Agricultura, situada em Viçosa.

Vista aérea da Escola Superior de Agricultura, em 1933

Vista aérea da Escola Superior de Agricultura, em 1933

De fato, abraçara a missão de cuidar de sua mãe viúva e cinco irmãos. Isso impediu-o de realizar seu projeto de vida: plantar a maior horta do país, a oferecer alimentos orgânicos gratuitos. Porém, sua vida transtornou-se. Resumira-se em acordar às 5 da madrugada, fazer rapidamente a barba com navalha, a higiene facial, sair para superar 14 horas de trabalho diário, retornar à casa, tomar um banho frio, comer algo e desabar na cama feito uma pedra.

Aquino não possuía tempo para laser, sua distração era andar a pé por toda a cidade, diariamente, de um local de trabalho para outro. Possuía sólida consciência política, até hoje de suma importância para a cidadania, mas nenhum interesse em participar dela. Até porque era introvertido e detestava se destacar aos olhos das pessoas. Além disso, ser mais uma patranha, jamais!

No entanto, Aquino foi um grande humanista. Ficava feliz ao doar seu trabalho à comunidade em que vivia, sempre a manter-se no anonimato. Resignava-se assim, ao fingir acreditar que cada cidadão era obrigado a deixar algo relevante para os mais jovens. No mínimo, exemplos concretos como sua ideia fixa: “horta a distribuir alimentos orgânicos gratuitos”.

Foi através dessa humanidade que construiu poucas, mas sólidas amizades. Seu maior amigo chamava-se Gumercindo, nome de guerreiro rebelde rio-grandense do sul. Juntos, Taquinho e Guma, a “convite” das forças armadas, atuaram na Revolução de 30, em terras mineiras. A contragosto, os dois liberais tiveram que lutar a favor do caudilho populista Getulio Vargas, e aguentar os 15 anos da cruel ditadura que se sucedeu no país.

Ao retornarem do quartel, após o mês que durou o “Golpe de 30”, aos 31 anos de idade, Taquinho e Guma estavam bem magros e com a cabeça branca. Não foram reconhecidos por suas famílias. Desiludidos com o futuro da nação, fizeram um pacto de vida: adquirir uma terra, longe de qualquer cidade, e plantar um grande pomar de frutas brasileiras.

Com dedicação e seriedade, Aquino conseguiu bons trabalhos para seus cinco irmãos. Para sua tranquilidade, todos se casaram em 1931 e deixaram a casa que compartiam com ele. Restou-lhe, então, sua doce mãe e a responsabilidade de mantê-la saudável e feliz.

Por outro lado, Gumercindo casara-se cedo e possuía um pequeno patrimônio. Assim, coube-lhe encontrar o terreno para negociarem as condições de pagamento. Enquanto isso, Aquino se desdobrava para economizar o dinheiro da entrada.

Mas eis que, para sua surpresa, em janeiro de 1932, Gumercindo disse-lhe que encontrara o terreno que buscavam. Situava-se próximo ao povoado de Conceição de Ibitipoca, a sudeste de Minas Gerais, num sopé da serra.

Aquino quis conhece-lo em detalhes. Junto com Gumercindo, percorreu a pé o terreno de 88 hectares; anotou as principais espécies de Mata Atlântica existentes, bem como localizou duas grutas, três rios que atravessavam o terreno, com nascente na serra, além de duas cachoeiras, dois lagos e várias corredeiras.

Cachoeira e lago formado no terreno

Cachoeira e lago formado no terreno

Ao fim, encantou-se com a biodiversidade de pássaros e polinizadores da região. Imaginou-se com o hábito de acordar às 5 da madrugada, mas naquele ambiente primitivo, a ouvir a cantoria da passarada. Começara a desenhar um mapa do terreno e de seu próprio futuro.

Pássaros encontrados na região

Pássaros encontrados na região

Foi mais difícil encontrar o proprietário do terreno do que adquiri-lo. Depois de quase um mês, descobriram que o senhor Lopes se mudara para São Paulo, a levar consigo sua doentia fé urbana. Na verdade, estava ansioso para vender a propriedade. De toda forma, o negócio foi bom para Lopes e para os agricultores novatos.

No entanto, Taquinho e Guma tinham muito trabalho a fazer para atingir o intento do “Sítio do Pomar”, conforme dizia a placa, na entrada da trilha de acesso ao terreno. Ou seja, antes de começar o plantio de mudas de árvores frutíferas, precisavam tornar operacional a logística daquele terreno: melhorar sua via de acesso, limpar a área do terreno a ser utilizada, construir uma moradia para três pessoas e um bom galpão de suprimentos. Em suma, faltava dinheiro no bolso dos sócios e foi a hora da decisão.

Tanto Aquino quanto Gumercindo não pestanejaram: para investir no Sítio do Pomar, viram-se obrigados a vender suas casas na cidade. Afinal, ainda eram jovens de 33 anos, sabiam dos riscos envolvidos, mas estavam convictos de empreender no ambiente rural.

Aquino, sobretudo, contou com a compreensão de sua mãe e o apoio inconteste de um irmão, que a acolheu em sua própria casa. Combinou com todos que, de 20 em 20 dias, enquanto estivesse a construir no sítio, retornaria para “estar com a mamãe durante três dias”, pelo menos.

Foram seis anos de trabalho duro, de sol a sol, sem fim-de-semana. Mas o Sítio do Pomar ficou excelente, com acesso seguro para pick-ups e margens floridas (ideia de Júlia, mulher de Guma), a moradia humilde com varanda de frente e o galpão novinho em folha, uma área para criação de cabras e galinhas, com vistas a obter esterco e adubar o solo. Além do belíssimo pomar, plantaram a tão sonhada horta orgânica comunitária, e adquiriram colmeias de abelhas produtivas e calmas. Tudo isso, a manter 48 hectares de Mata Atlântica primitiva intocada.

Os produtos do pomar no mercado mineiro

Os produtos do Sítio do Pomar no mercado mineiro

Todos os trabalhos no sítio requereram a contratação de mão-de-obra no povoado. Assim, Conceição de Ibitipoca viu sua economia começar a crescer. Os terrenos vizinhos ao sítio foram valorizados e as principais estradas de acesso foram asfaltadas pelo governo estadual. Guma aproveitou essas vias de distribuição e colocou os produtos do pomar em todo o mercado mineiro.

Enfim, Taquinho e Guma sempre foram recebidos de braços abertos pelos amigos que fizeram no povoado. Seus projetos, a manter a sustentabilidade do ambiente, muito embora com outras culturas, serviram a outros proprietários de Ibitipoca. Eles próprios participaram dos trabalhos de implantação. Enquanto viveram, tornaram-se referência de humanidade e da produção agrícola na região sudeste de Minas Gerais.

Consultoria é Educação


Ricardo Kohn, Gestor do Ambiente e Escritor.

Ricardo KohnEmbora desde meados do século 20 não pairassem dúvidas acerca da qualidade da consultoria no país, fatos recém descobertos pela polícia federal ameaçaram a reputação de milhares de consultores, tal como, ‘presidiário a vender consultoria‘.

Dessa forma, este artigo visa a mostrar o que é o verdadeiro Consultor, na exata acepção da palavra, a qual justifica sua expressiva contribuição para as nações desenvolvidas.

Em dicionários encontram-se significados congêneres para “consultor”. Mas, por ser genérico e universal, como ponto de partida optou-se por “pessoa qualificada (…) que trata os assuntos técnicos de sua especialidade” – claro, simples e objetivo.

Todavia, por detrás deste “conceito de consultor”, deve-se aportar certas atitudes básicas para ser um bom profissional, tais como: possuir sólidos princípios éticos e morais; estar sempre disposto a partilhar conhecimentos com terceiros; ser humilde na criatividade de suas descobertas; ser capaz de aprender enquanto auxilia; saber ouvir críticas; gostar de debates com fundamento; conhecer os próprios limites; nunca participar de discussões; e, sobretudo, dominar a lógica necessária para defender posições, sejam próprias ou mesmo de terceiros.

Consultores em trabalho de campo – Arqueologia, Geologia e Arquitetura 

Não quer dizer que todos os consultores possuam essas atitudes desde o nascimento. Elas precisam ser aprendidas pela convivência com os sêniores que as detém, no todo ou em parte. De fato, para desenhar as “atitudes básicas” acima, foi necessário memorizar as ações de uma equipe de cinco consultores sêniores[1]. Todos trabalhavam em projetos de engenharia de saneamento básico e resíduos sólidos. Receberam notoriedade nacional pela qualidade das soluções de engenharia que descobriram e dos projetos que desenvolveram para realizá-las.

No entanto, na história da consultoria não há menção à prática de lobby por parte de consultores. Aliás, para que o lobby tenha algum valor, precisa ser honesto. Caso contrário, os lobistas em ação, ao invés de lograrem êxito nas legítimas pressões para obter o que almejam, podem seguir como réus, rumo à justiça. Assim soe ocorrer nas nações mais desenvolvidas.

Da mesma forma, consultores que não sejam cientistas políticos, não atuem em cooptações[2], sobretudo, aquelas que “envolvam transações monetárias”. Como a prática tem demonstrado largamente, no Brasil a legítima cooptação transformou-se num arranjo da “corrupção público-privada”.

Em suma, lobby e cooptação não são tarefas para consultores de qualquer área. Lobista não faz parte da consultoria. Aliás, no Brasil atual distribui ensinamentos para produzir lotes de ladrões.

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[1] Embora haja muitos outros, dentre grandes consultores, ressalta-se os engenheiros Enaldo Cravo Peixoto, Walter Rodemburg Ribeiro Sanches, Gastão Henrique Sengés, Fernando Penna Botafogo Gonçalves e Jorge Costa Nogueira, todos a atuar nas décadas de 1960 e 70. Sob a senioridade desses profissionais foram educados centenas, senão milhares, de bons consultores.

[2] Em tese, com base nas teorias da Administração Pública e da Ciência Política, o processo de cooptação de um indivíduo, grupo ou empresa é realizado através do convencimento lógico para se atingir a alvos legítimos desejados pela nação. No entanto, esses alvos são legais e não se traduzem em qualquer pagamento ou benefício ao cooptado. Ou seja, há riscos concretos para alcança-los e a cooptação sempre deve somar forças produtivas e honestas.

Qual a sua virose?


Simão-pescador, Praia das Maçãs.

Simão-pescador

Simão-pescador

De volta à casa, cá estou em minha biblioteca, após passar 12 dias ao mar, preocupado com doenças transmissíveis. É coisa de velho, bem sei eu. Todavia, descanso a ler uma coleção de textos científicos que falam dos vírus: sua origem, forma de manifestação e possíveis tratamentos. Para objetivar essa conversa digo-lhes que, de facto, há três categorias de vírus nocivos no mundo: os biológicos, os cibernéticos e os políticos.

Os biológicos ocorrem no ambiente primitivo, mas podem afetar de forma nefasta o organismo de seres vivos, com destaque para o do ser humano: aids, ebola, meningite, malária, cólera e gripe são exemplos de doenças causadas pela ação desses monstrinhos ignóbeis. Algumas já possuem vacinas, todas são mais ou menos tratáveis, embora ainda haja enfermidades fatais, sobretudo nos países mais pobres.

Já os cibernéticos são programados por “dementes especializados” e destinam-se a acabar com a paciência de todo e qualquer cidadão, diacho! São milhares de malwares e spywares a inocular “graves enfermidades nos computadores”: a torto e a direita, imitam softwares para navegar pela internet e destroem programas e arquivos essenciais. Os mais atrevidos roubam contas bancárias de desatentos. Mas ainda há outras moléstias online virulentas que também realizam.

Virus político nocivo

Vírus político nocivo e corrupto

Entrementes, como pano de fundo das categorias de vírus controláveis, têm-se os corruptos vírus políticos. Estes são realmente hediondos, capazes de infestar a qualquer Estado-nação com intensa malignidade[1]. Ao fim da infestação, costumam ocorrer dois factos: a fuga do país, por parte daqueles que não deixarão vínculos pessoais, e a miséria do povo infectado, incapaz de possuir outra opção, senão submeter-se.

Tratamento

Por não ser médico, informata ou cientista político atuante[2], só conheço uma forma para tratar doenças viróticas: antecipar-se a elas, não permitir que se instalem. Veja como:

Ações proativas para vírus biológico. Vacine-se contra todas as viroses que a medicina já haja controlado. Afaste-se de regiões onde a incidência destas doenças é notória; se necessário, mude da moradia. Não se aproxime de pessoas que estão doentes, em quarentena. No mais, conte com a sorte e com o bom médico de família.

Ações proativas para vírus cibernético. Vacine seu computador com o melhor antivírus[3] do mercado. Caso desconheça qual seja, peça orientação a um bom informata, há milhões deles que as máquinas de busca encontram na internet! Evite abrir e-mails e nunca clique em links que lhe forem enviados. Jamais instale programas sem consultar seu informata. Nunca visite sites desconhecidos cuja matéria seja de risco. Use seu melhor bom-senso, aprendido desde a infância.

Todo ser humano do século 21 precisa ter, como amigos dedicados, um cão e um analista de informática. Deve agir e retribuir, no mínimo, com o mesmo carinho.

Ações proativas para vírus político. É trágico, não existe vacina no mundo que impeça a infecção por esses selvagens. O contágio sempre acontece, ainda que os benignos estejam distantes, a milhares de quilômetros. Afinal, eles já nascem famintos populistas, a roubar e a mentir de forma desbragada! Além disso, reproduzem-se feito ratos, a partir de 2 meses de idade; têm gestação de até 21 dias. Mas saibam de uma coisa: embora sejam fatais para cidadãos, não são infalíveis nas lutas que provocam numa nação e em sua sociedade civil.

A vacina possível é intrínseca a cada cidadão: ter educação e agir com sensatez. Porém, uma vez constatada a presença nociva desses selvagens, torne-se implacável e inflexível em sua extirpação.

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[1] A malignidade é demonstrada com: (i) desvio de dinheiro público; (ii) distribuição de propina; (iii) evasão de divisas; (iv) lavagem monetária em paraísos fiscais; bem como, (v) a súbita e inexplicável riqueza nababesca de quadrilheiros públicos, que antes não tinham, sequer, aonde caírem mortos.
[2] Muito embora, haja cursado Ciência Política na Universidade de Coimbra (1932-1937).
[3] Quincas, neto postiço e meu professor particular de informática, aconselhou-me o antivírus alemão, NOD32. Baixou do site www.eset.com.br e instalou com sucesso em meu laptop.

Ambientologia para a Educação


Cláudia Reis e Ricardo Kohn. Consultores em Gestão.

Observa-se que há entre os cursos do ensino básico brasileiro – Fundamental [1 e 2] e Ensino Médio – um hiato de conteúdo educacional, sobretudo, entre o Fundamental 2 e o ensino Médio.

Verifica-se que os módulos do ensino fundamental relacionados ao tema “Ciências”, embora oportunos, são superficiais e estanques entre si. Não formam o substrato educacional mínimo para capacitar os alunos às demandas do ensino Médio e Superior. Falta-lhes integração com a forma de raciocinar, a incitar ações subsequentes úteis e tangíveis. Informam, mas não motivam os alunos a desejarem mais conhecimento.

Por sinal, cansam-nos com textos dispersos para decorar e, em vários casos, acabam por “aumentar a evasão das escolas”, tal o desinteresse que proporcionam aos alunos.

Infere-se a partir das premissas acima, que é possível preencher o hiato existente e, por exemplo, integrar os cerca de 30 temas da cadeira de “Ciências”, através de um único tema: a Filosofia do Ambiente, doravante chamada “Ambientologia[1]”.

Finalidades do projeto

Essa proposta de projeto possui quatro finalidades concretas e realizáveis, a saber:

  • Ampliar nos alunos do ensino básico o interesse pelo aprendizado diferenciado das práticas ortodoxas, há muito adotadas sem os efeitos satisfatórios.
  • Reduzir a evasão escolar, sobretudo no ensino Fundamental 2.
  • Internalizar na mente dos alunos, a partir da visão do Ambiente, a importância dos trabalhos em equipe, com o aumento da produtividade escolar de cada um.
  • Por fim, além de conferir o título de “Técnico em Ambientologia” aos alunos que concluírem o ensino médio, prepara-los para se superarem no ensino superior, caso desejem realiza-lo.

Foco do projeto

  • Estimular jovens a refletirem sobre as relações ambientais de causa, efeito, ações de pronta resposta, considerando-as no tempo e no espaço. Todas essas relações são vividas diariamente por jovens, embora nem sempre sejam consideradas, o que pode acarretar perdas de oportunidades e riscos em geral.
  • Além disso, ampliar a visão espacial e temporal dos eventos que ocorrem no Ambiente, como decorrência direta de ações humanas. O pacote educacional proposto deve capacitar alunos do ensino fundamental e médio a formar opinião sobre a importância do Ambiente em suas vidas, decerto mais amplo do que as engenharias e obras que o transformam a cada instante, não raro de forma danosa a seus sistemas ecológicos.
  • Por fim, demonstrar aos jovens uma premissa básica da atualidade no mundo ocidental: “o Ambiente finito do planeta, quando estabilizado com consumo adequado de seus bens ambientais (ar, água, solo, flora, fauna e homem), constitui o pilar essencial para a evolução dos seres vivos (flora, fauna e homem), desde que com a manutenção da dinâmica de seu substrato físico (ar, água e solo) ”.

Descrição do projeto

Para situar os leitores mais velhos desta proposta, o curso Fundamental 1 equivale aos antigos Pré-primário e Primário. O Fundamental 2, é similar ao antigo Ginásio. Por último, o curso Médio equivale aos cursos Científico e Clássico, como denominados no passado.

Salienta-se que, nessa etapa da educação de jovens, a Ambientologia será uma cadeira que possui como base pedagógica as respostas do Ambiente ao resultado de ações praticadas pelo Homem, nem sempre inteligentes sob a ótica ambiental.

─ Curso de nível Fundamental [1]

Destinado a jovens de 6 a 10 anos, o projeto propõe-se a desenvolver 5 (cinco) cartilhas ambientais, a narrar histórias do dia-a-dia que os jovens dessa idade tenham interesse em descobrir e conhecer. O teor das cartilhas visa a motivar crianças Vista escolar da Ambientologiapelas descobertas.

Exemplo de temas para as cartilhas: i. Assim são plantadas as hortas comunitárias; ii. Mude o ambiente de seu bairro: plante flores nas praças; iii. Hortas na cobertura e flores na fachada dos prédios; iv. A alegria da Primavera é contagiante; v. Folhas e flores trazem borboletas e beija-flores para dentro das casas; vi. Sem flores não existem as frutas que adoramos; vii. Podemos lhe ajudar nessa tarefa?

Evidente que as cartilhas ambientais precisam de personagens que “conversam” com as crianças. A exemplo, podem ser duas famílias com filhos em aprendizado inicial.

No Fundamental [1] os módulos de aprendizado são três: Alfabetização em Português, Aritmética, Introdução à Ambientologia e, por opção do aluno, Inglês básico.

─ Curso de nível Fundamental [2]

Destinado a jovens de 11 a 14 anos, o projeto propõe-se a elaborar 4 (quatro) livros didáticos, específicos para o Fundamental 2. Os livros devem ter cunho evolucionista, a começar pelo roteiro educacional que apresentam para a Ambientologia, a qual precisa ser dinâmica: a evoluir do livro 1 até o livro 4.

O tema central também é o Ambiente, em todas as suas proporções e narrativas, por exemplo: como fazer e gerir um simples canteiro de plantas, passando por jardins, sítios e fazendas; perceber as ameaças dos processos de desmatamento, das erosões intensas, que resultam em áreas desertificadas; apresentar as características dos ecossistemas primitivos e sua capacidade de evolução aleatória; até chegar ao maior desafio, que seria algo tal como o Ambiente Primitivo: sem poluição do ar, sem contaminação hídrica, com solos férteis, rios e lagos de água pura, um povoado integrado à floresta e sua fauna silvestre.

Através de narrativas muito bem sequenciadas, amplamente documentadas por fotos e desenhos, a Teoria do Ambiente vai sendo gradativamente transferida aos alunos, como essencial à filosofia de suas vidas, sem ter que falar em Teoria ou Ciência.

A linguagem dos livros será simples e coloquial. Sua narrativa fará menções à linha do tempo da existência do sapiens no planeta, ou seja, do paleolítico até os dias atuais: do antigo caçador-coletor ao atual “caçador-extrator”. Trata-se de oferecer para análise dos alunos uma visão histórica e geográfica do Homo sapiens, bem como sua evolução no Ambiente planetário.

No entanto, subentenderá questões ambientais práticas, que estimulem aos alunos perspicazes a encontrar soluções próprias, tanto para o momento em que vivem, quanto para seus futuros de maior prazo.

As coleções de cartilhas e livros serão impressos em papel reciclado. Porém, o projeto também prevê oferecer os livros também em formato digital (e-book).

Para finalizar, o projeto Ambientologia deverá atender à prática moderna da juventude, através de aplicativos para celular, tablets e computadores pessoais. Constituem jogos que demandam a decisão dos alunos diante das questões ambientais formuladas pela coleção de livros – “environmental games”. Jogos inteligentes estimulam o aprendizado.

No Fundamental [2] os módulos de aprendizado seriam os seguintes: Português e Redação, Matemática, Ambientologia, História, Geografia e Inglês. Por escolha do aluno, ele pode selecionar aulas de Espanhol ou Francês.

─ Curso de nível Médio

Destinado a jovens de 15 a 17 anos, o projeto adotará práticas constantes em “Ambiente e Sustentabilidade – Metodologias para Gestão”, livro já publicado para o ensino de Nível Superior.

Essa obra teria como título “Ambientologia – Metodologias para Gestão”. No entanto, o título foi trocado, pois o autor considerou que seu significado não seria claro, por referir-se a uma “prática pouco conhecida”.

No curso Médio os módulos de aprendizado seriam os seguintes: Redação e Literatura, Matemática avançada, Física, Química, Ambientologia, Inglês, Espanhol, Francês e, no último ano, Ambientologia avançada.

Benefícios do Projeto Ambientologia

A relevância de qualquer projeto se assenta na capacidade de responder às demandas de seu público-alvo, sejam elas explícitas ou não. Desse atributo derivam os benefícios que o projeto oferece à sociedade, que podem ser de variadas ordens.

No caso do ‘Ambientologia’, tratam-se de benefícios educacionais, dos quais deságuam efeitos positivos de ordem social, econômica e motivacional, pelo menos. Destacam-se cinco deles, a saber:

  • Internalização no raciocínio dos jovens da dinâmica do Ambiente, às vezes imprevisível, bem como de seu trato adequado, através do uso dos meios que estejam disponíveis, sejam os acatados pela ciência ou criados por eles próprios.
  • Demonstração aos alunos que as atividades dos ecossistemas humanos precisam possuir desempenho ambiental, visando a garantir a sustentabilidade dos ecossistemas primitivos, ou seja, manter o Ambiente estabilizado.
  • Ampliação da capacidade da lógica dedutiva na formação do conhecimento, com efeitos expressivos na autoestima dos jovens “alunos descobridores”.
  • Aumento da capacidade de antevisão de problemas de causas variadas, com estímulo à inventiva pessoal dos alunos em solucioná-los, no tempo e no espaço.
  • Introdução da variável ambiental na vida dos jovens, através da visão de seus espaços físico, biótico e antropogênico, como fundamento para a tomada de decisão em todas as suas futuras profissões.

Procura-se um Investidor-parceiro para melhorar a Educação dos jovens brasileiros.

……….

[1] Após 42 anos de consultoria em estudos e projetos, descobriu-se que a Ambientologia não seria propriamente uma ciência. Mas uma base filosófica, que facilita a orientação e coordenação da aplicação simultânea das inúmeras ciências que explicam o Ambiente.

Instinto e Razão


Ricardo Kohn, Gestor.

Há momentos em que é preciso interromper tudo o que se está a fazer e questionar-se:

A trilha que decidi seguir na vida pode me conduzir até aonde?A trilha

Para um jovem da “antiga classe média[1], amistoso e sociável, diversos caminhos perfeitos se abriram à frente. Assim os percebia – desafiadores, perfeitos –, pois sua vida começava a nascer: estudos, trabalhos, amores e muitas amizades.

Achava que detinha a razão, mas, de fato, apenas o instinto comandava suas decisões. Portanto, seguiu por todos os caminhos que pode, sem chegar aonde desejava. Aliás, sequer sabia quais eram os próprios desejos, por isso precisava testar as trilhas que descobria.

Todavia, faltava-lhe experiência, que somente a prática intensa consolida. É a partir desta experiência que começam a sobrevir os primeiros sinais da razão aplicada. E também das reais descobertas da vida, é evidente.

Então, com apenas 13 anos de experiência de trabalho, o jovem aceitou outro desafio. Mudar de estado para trabalhar em planejamento empresarial, numa organização que, em 1981, tinha cerca de 22 mil funcionários, distribuídos pelo país inteiro.

Lá descobriu que possuía “um tiquinho de razão” e bastante instinto. Cumpria muito bem com suas funções, embora em 1982 haja publicado um livro de contos, editado pela própria organização! Isso causou uma refrega com sua chefia, que era “enquadrada e oportunista”.

Porém, no ano de 1986, refletiu que já concluíra uma espécie de doutorado em planejamento. Portanto, de posse desse patrimônio, decidiu retornar a seu estado de origem. Queria voltar ao trabalho na consultoria de projetos de engenharia e ambiente, conforme iniciara há 14 anos, em 1972.

Já morando no Rio de Janeiro, diante de seu novo desafio, começou a escrever sem parar, com mais instinto do que razão. Mas não eram contos o que então sonhava. Eram textos técnicos pioneiros, voltados exclusivamente para sua área de trabalho.

Em 1989, com mais de 1000 páginas de textos teórico-conceituais redigidos, pensou que deveria voltar para a universidade. Mas não somente para estudar, também para dar aulas. Foi assim que, com quase 20 anos de experiência de trabalho, fez uma descoberta: “as trilhas da vida atravessam jardins, onde hora se bifurcam, ora convergem para resultados”. Cabe saber como encontra-las. Para isso precisa-se de muito instinto e razão.

Simplicidade e paz

De fato, os caminhos trilhados no passado não se extinguem, nunca se apagam. Ainda que não tenham deixado vívidos legados de felicidade com o trabalho realizado, retornam aos tempos atuais e participam da consolidação de novas experiências e legados.

Hoje, o jovem tem 67 anos. Possui a experiência que mais de 40 anos de trabalho lhe concederam. Busca com seu instinto uma nova bifurcação de sua trilha inicial; deseja ser capaz de encontrá-la na Universidade.

……….

[1] Trata-se da classe média do século 20, década de 1960: com renda familiar hoje equivalente a R$ 15.000,00 mensais e casa própria, numa sociedade que recebia do Estado bons serviços públicos, sobretudo, de educação e saúde.

Violenta erupção nos Três Poderes


Zik Sênior, o eremita.

O desejo científico de geólogos e vulcanistas é descobrir como prever erupções vulcânicas com antecedência. Afinal, existem muitos povoados e até mesmo cidades que ficam no sopé desses montes “vomitadores de lava”. Salvar pessoas é o principal objeto dessas previsões.

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Terremotos são ainda mais inescrutáveis para os cientistas da sísmica. É fácil afirmar que algum dia vão ocorrer em certas regiões da Terra, como no “Círculo de Fogo do Pacífico”. Mas ainda não há como determinar a data do evento, sua intensidade e muito menos onde será seu epicentro, bem com a que profundidade acontecerá. Só é sabido que os que ocorrem em menores profundidades causam maiores transformações no Ambiente a que transformam. São as forças da natureza primordial a se manifestarem.

Todavia, há um “boato científico” no ar. Diz que certas espécies da fauna silvestre se evadem de áreas sensíveis, dias antes de terremotos e erupções vulcânicas ocorrerem. Acho ser boato porque nenhuma experiência realizada foi capaz de confirmar essa estória. Porém, assisti a uma “cerimônia” assaz curiosa: o serviço de xamãs andinos e seus pássaros-videntes, aprisionados em gaiolas. De posse desse “equipamento técnico”, os xamãs diziam ser capazes de prever eventos geológicos, aéreos e marinhos, com ocorrência aleatória no Ambiente da Terra, desde sua formação.

Assim, após uma sessão de cânticos rituais, cada vez que os pássaros sangravam contra as grades da gaiola, os “profetas espirituais” datavam e localizavam terremotos, maremotos, vulcanismos, tufões e tsunamis futuros. A verdade é que nenhum deles aconteceu, pelo menos conforme fora profetizado.

Mas é dessa maneira que os atuais xamãs políticos ganham a vida: através de “serviços” fornecidos por quadrilhas de profetas, a enganar o povo com seus “cânticos de palanque”. Mas há um detalhe que deduzi em minhas investigações. Eventos ambientais, que antes tinham origem estritamente geológica – erupções vulcânicas e terremotos –, ganharam também origem cidadã. Hoje podem ser marcados, datados e localizados com quase 100% de certeza. Por isso, dadas as severas fraturas morais promovidas pelo governo central, está marcada para outubro de 2018 uma grande erupção político-vulcânica que afetará a todas as “estruturas” do país. Seu horário de início está marcado para as 8:00 horas da manhã. Após esta erupção, acontecerá uma sequência de violentos terremotos, com epicentro em todas as capitais estaduais.

Por fim, ocorrerá o Terremoto Brasil, que irá sacudir de forma devastadora o planalto central do país. Porém, os cidadãos brasileiros conduzirão seu epicentro para cinco metros abaixo da Praça dos Três Poderes. Dessa forma, como é esperado, seus efeitos locais serão, por ventura, devastadores.

‘Maravilha’


Por João de Moura Macedo, de Nazareth da Mata, PE.

Erasmo e Euzélia, pais de João de Moura Macedo

Erasmo e Euzélia, pais de João de Moura Macedo

Este breve relato é sobre uma nação muito pouco conhecida, mas que, em minha visão, é o “País da Maravilha“. Faço um resumo de tudo o que li acerca dessa inacreditável nação. Devo dizer que procurei selecionar seus aspectos de maior interesse.

Assim, tento mostrar a imensidão de seu território e a qualidade de seu ambiente; o terreno exclusivo que possui para acolher vegetação e fauna silvestre; e, bem assim, as linhas básicas de convivência de seus cidadãos, os dignos maravilhenses.

Nesse relato optei por seguir a sequência aceita como a história da formação do Ambiente da Terra, assim sintetizada:

  • Primeiro, aconteceram choques entre gigantescos blocos de rocha no espaço sideral, o que veio a dar origem a seu furioso Espaço físico: extremos tremores das rochas que se acomodavam, com fortes emissões de gases e lava, até tornar-se um colosso geológico;
  • Em seguida, após 2,5 bilhões de anos, encerrou-se o resfriamento da crosta colossal, bem como a formação de sua atmosfera. Assim emergiu a vida, o Espaço biótico, que teve origem em pequenas algas marinhas: as cianofíceas;
  • Por fim, estimados a partir da sua origem física, 5,5 bilhões de anos depois, emergiu a bravata do Espaço antropogênico, onde os humanos são os desastrados construtores.

Contudo, embora esta sequência também haja ocorrido na Maravilha, nela não aconteceram as deformações provocadas pelo homem. Seu ambiente ainda é o primitivo e, em grande parte, intocado.

Por isso, acredito que esse documento possa servir de parâmetro para avaliar a humanidade e a educação em mais de 160 países. Devo dizer, países ainda “repetentes no curso primário” promovido pelas Nações Unidas, desde 1945. Tenham a santa paciência, vão catar coquinhos, 70 anos de repetência é motivo para jubilação!

Espaço físico

A sorte geográfica desta nação foi absurda e, de certo modo, ingrata com a maioria dos países do globo. Imagine: seu território se estende por uma área de 8,5 milhões de km2! De norte a sul, o litoral maravilhense possui 9.200 km de extensão, com belezas cênicas inigualáveis.

Nele existem pequenas montanhas, falésias, planícies costeiras, milhares de enseadas, um estuário de mar aberto, dezenas de arquipélagos, centenas de manguezais e até regiões com o litoral rendilhado pelo artesanato da natureza.

O clima da Maravilha apresenta magníficas variações, do equatorial ao frio, com classes intermediárias bem definidas: tropical, subtropical, semiárido e temperado. Isso mesmo, condições de tempo que vão do clima tórrido até geadas e neve.

Na Maravilha não existem vulcões ativos. Todos são morrotes extintos há milênios. Em seu território e na sua costa marítima nunca ocorreram ventos fortes como tufões, ciclones ou furacões. Por outro lado, a Maravilha detém as maiores reservas mundiais de nióbio, vanádio e outros metais estratégicos, afora manchas das chamadas terras raras.

Afirmam pesquisadores do espaço físico que a Maravilha detém 12% da água doce do planeta. Pois, a caminhar terra adentro, é surpreendente o grandioso volume de água com que se depara. São rios, lagos, cachoeiras, riachos, corredeiras e lagunas marginais, todos a transbordar água mineral nativa, pura e potável. É incrível!

Por sua vez, seus solos são profundos em pelo menos ¾ de seu território. Além disso, possuem variados nutrientes, que não cabem ser enumerados aqui. Mas sua composição em nitrogênio, potássio e cálcio é de tal ordem estabilizada, que os torna aptos para a produção espontânea de vegetais e frutos comestíveis.

Essa é a síntese do que a Maravilha oferece como substrato físico à evolução de todas as espécies vivas nela ocorrentes.

Espaço biótico

Grandes manchas vegetacionais ocupam 85% do território maravilhense. Dado seu relevo “de suave a ondulado”, suas notórias vocações climáticas, mais o volume de água que se espraia por seu terreno e a notável qualidade de solos, as coberturas da flora possuem elevada biodiversidade, a apresentar biomas com grande extensão e complexas relações entre suas espécies – fitossociológicas.

Já a fauna ocorrente na Maravilha é soberba, tanto em sua abundância, quanto na extrema diversidade. Seus espécimes tentam encontrar na variedade de florestas, matas, savanas e campos existentes seus habitats ideais, feitos pelo acaso e sob medida.

No entanto, embora as regiões que são cobertas pela vegetação sejam de grande extensão, não é fácil para os incontáveis espécimes da fauna silvestre (mastofauna, avifauna, ictiofauna, primatas, herpetofauna, entomofauna, aracnofauna, malacofauna e anurofauna, dentre outras classes) permanecerem no mesmo “espaço domiciliar”, pois ocorrem os conflitos normais, por vezes, letais.

Mas, ao fim e ao cabo, é a seleção espontânea imposta pelo ambiente que desafia quais espécimes possuem habilidades para se adaptar, sobreviver e procriar.

Vale dizer, o povo maravilhense tem plena consciência da importância desse patrimônio ecológico e o mantém praticamente intacto, há séculos, sem necessidade de leis, polícias e ameaças. Procedem assim por que é um costume incorporado em cada cidadão, após 500 anos de democracia liberal.

Espaço antropogênico

A propósito, depois de criada a democracia ateniense, por volta de 2.700 anos atrás, com base nas propostas de dois pensadores gregos, Sólon e Clístenes, a Maravilha foi a primeira nação do mundo a constituir-se Estado Liberal Democrático, em 1515.

Desde então, nunca foi colônia de outro país, nem pensou em colonizar terras além mar. Sua única constituição federal está impressa em apenas uma folha de papel e até hoje não sofreu qualquer emenda. Por isso, os cidadãos maravilhenses recitam-na de cor, como o poema que mais lhes aprazem.

Na Maravilha não existem leis ou decretos públicos. Ela é regida conforme os costumes de seu povo que, desde sua origem, elegeu uma assembleia nacional para coordena-lo, sem a participação do que chamam grupelhos políticos. Essa instituição não possui um “mandato” e seus membros não recebem qualquer remuneração, apenas uma justa e pequena ajuda de custo.

Contudo, precisam ser substituídos por força da democracia liberal. Por exemplo, há saídas para resguardar intacta a missão assumida por alguém, que não a concluiu dentro do prazo. Há saídas espontâneas, pois qualquer membro sente-se eticamente motivado a substituir a si próprio, quando encontra um cidadão mais útil do que ele, que atenda melhor à sociedade maravilhense. E, por óbvio, acontecem as substituições por falecimento.

Desde seu nascimento como Estado, a constituição maravilhense (1515), redigida em praça pública, estabelece por consenso que serviços de educação e saúde são os pilares básicos de sua governança e evolução. E assim o é, até hoje.

Dessa maneira, não existe um único analfabeto perdido em seu território nacional. Todos os maravilhenses completaram, no mínimo, o ensino médio. E o que é mais notável: 95% deles possui pelo menos um título superior em Gestão do Ambiente, Medicina, Engenharia e Matemática Aplicada. Somente a graduação nessas áreas requer 8 anos de cursos intensivos, teóricos e práticos. A partir daí, formaram-se mestres e doutores, aos pelotões.

Para se ter uma medida, nas cidades maravilhenses existem mais bibliotecas do que lojas de loteria no Brasil inteiro! São instituições públicas, que recebem toneladas de livros de todas as nações cultas do mundo. Afinal, em média, o maravilhense sabe ler, escrever e falar com fluência pelo menos cinco idiomas, além da língua materna.

O hábito de ler, interpretar e aprender é uma tradição de cinco séculos naquela nação. Nas ruas e campos vê-se, diariamente, uma grande quantidade de pessoas a aprender com um livro às mãos. Por força de vários fatores, inclusive a bendita sorte, tornou-se uma epidemia nacional, sem condições de retorno à origem do homo sapiens, insipiente e destruidor agressivo.

Afinal, o que é a Maravilha?

É fruto da exuberante educação construída e distribuída a seus cidadãos, durante séculos. Os maravilhenses souberam organizar suas cidades em pequenas áreas, de forma a não destruírem seu santuário ambiental, tanto o físico, quanto o biótico. Saliento que sua divisão “geopolítica” possui somente dois níveis: o Estado maravilhense e suas cidades. Não existem os estados e os municípios.

Portanto, nunca houve governadores e prefeitos, deputados e vereadores. Eles eliminaram os gastos com o que chamam de “maldita máquina pública”. Para eles são apenas máquinas de produzir burocracia e confusão, enfim, “instrumentos da corrupção”.

As casas, equipamentos urbanos e serviços de uso público foram erigidos entre a vegetação nativa, de modo a mantê-la de pé. Por sinal, em cada cidade está instalado um viveiro de mudas de espécies nativas. São milhares de viveiros implantados na Maravilha. Assim foi criada uma de suas principais fontes de riqueza, pois exporta toneladas de mudas para países civilizados que desejam reflorestar seus territórios.

Os cidadãos maravilhenses são vegetarianos há séculos. Não há gado de corte no país. Em troca, cada cidade possui grandes hortas comunitárias, plantadas em harmonia com a mata. Se for feito um sobrevoo sobre a Maravilha, somente ressaltarão aos olhos do observador somente seus polos industriais, aeroportos e portos. Criará uma sensação curiosa: para que servem industrias e aeroportos se não existem pessoas?

A produção de energia elétrica do país adotou uma solução óbvia. Cada casa, unidade produtiva, unidade de serviço público produz a energia que consome. Há mais de século, cientistas maravilhenses desenvolveram fontes eólicas, solares e de biomassa, visando a consumidores de pequena e média envergadura. Portanto, não existem linhas de transmissão a atravessar o território da Maravilha.

Inversamente, a segurança pública possui uma solução antiquada, creio eu. Como a principal fonte de receita do país é o turista estrangeiro, que possui “costumes estrangeiros”, é o exército quem faz a segurança, pois lá não existem polícias. E ele mantém a tradição medieval da pena de morte para tudo o que a assembleia nacional considerar “crime contra a pátria“.

Não vou entrar no mérito dessa questão, mas há um benefício econômico para a nação: não existem penitenciárias, prisões, celas ou qualquer gênero de “armazém de criminosos”. Além disso, para desmotivar eventuais “intrusos”, todas as famílias do país possuem armas de fogo em casa. Entretanto, a taxa de criminalidade no país é zero e o tempo de vida útil do maravilhense é de 95 anos.

Concluo que essa foi a forma democrática e liberal que o povo do País das Maravilhas escolheu para viver, desde 1515. Suas comunidades são saudáveis, cultas, humildes e muito sociáveis. São capazes de criar soluções, simples ou complexas, que aumentem a produtividade de sua economia, bem como a qualidade de suas vidas. Dessa forma, deixo questões que não consigo responder:

─ “Por qual motivo os países associados às Nações Unidas não adotam essa forma digna de viver”? “Por que preferem se destruir e se corromper com extrema naturalidade“?

O Risco de Rotular


Simão-pescador, Praia das Maçãs.

Simão-pescador

Simão-pescador

Para que entendam o que chamo “risco de rotular”, vou tomar como exemplo o trabalho de notórios cientistas que estudaram a Geologia da Terra. Em algum momento reuniram-se no campo para descobrir como, quando e por quê ocorreram mudanças significativas nas feições físicas do planeta: seus mesoclimas, suas rochas, seus solos e suas águas abundantes.

Após milhares de pesquisas de campo e incontáveis análises laboratoriais, concluíram que deviam classificar as variações periódicas sofridas pela geologia do planeta em cinco intervalos de tempo geológico, do mais amplo ao mais específico: Éon, Era, Período e Época foram os rótulos escolhidos para localizar no tempo a mudança geológica do planeta, ocorrida desde sua formação, estimada em 4,5, bilhões de anos passados, até a atualidade.

Por acaso, encontrei um relógio que marca a História Geológica da Terra, o que facilitou-me a compreensão sobre o processo da Transformação do Ambiente Planetário. Sugiro que, para melhorar o entendimento, entrem neste link: Escala de Tempo Geológico. Diria ser necessário a leigos na matéria, tal como eu.

A ser assim, vive-se na Era Cenozoica, Período Neogênico, Época Holocênica. Até agora, o principal evento planetário ocorrido durante o atual Holoceno, também rotulado por Quaternário, foi o degelo da Terra (rotulado “fim da Era do Gelo”) e a expansão da dita civilização humana. Foi aí que se deu o maior perigo: a invasão dos sapiens. Porém, não se trata de “perigo geológico”. Significa “perigo de apedeutismo”, pois a maioria da população mundial ainda sequer foi civilizada, que dirá educada.

Há “cientistas”, que presumo salientes, a dizer que já se vive no Antropoceno, época em que as transformações planetárias seriam proporcionadas pelo “Homo sapiens”. Dizem que teria iniciado no século XVIII, com a Revolução Industrial ocorrida na Grã-Bretanha.

Discordo frontalmente que o dito Antropoceno seja uma Época Geológica, que tenha no sapiens o único ou principal responsável. Afinal, que eu saiba, o Homem não é um ente geológico, a erupcionar, emitir trilhões de toneladas de gases de enxofre, calcinar a atmosfera, destruir rochas, mover continentes e oceanos.

Sem o auxílio considerável das Forças do Ambiente parece-me incapaz de “mudar as feições físicas do planeta”. Por enquanto, em minha opinião lógica, o Antropoceno não passa de um rótulo arriscado, mera retórica de alarmistas.

Os “defensores do Antropoceno”, insuflados por jornalistas, defendem-no pelos impactos que dizem ocorrer na Terra, onde destacam o Global Warming. Por sinal, pela ignorância predominante, tornou-se o aterrador Aquecimento Global Antropogênico.

Com o medo crescente do dito aquecimento dos oceanos, a morte de peixes em caldeirões marítimos fervilhantes tornou-se o roteiro cinematográfico de meus pesadelos sistemáticos. Não conseguia dormir e passei várias madrugadas a andar na praia. Meu mais velho, preocupado com minha saúde, avisou-me que haveria um encontro de cientistas no Brasil para esclarecer esse “danoso boato“. Disse-me que eu deveria ir.

Assim fiz. Arrumei a maleta e segui para Recife. Consegui hospedagem num pequeno casebre na Praia de Porto de Galinhas. Um ambiente maravilhoso que, de chofre, anulou-me a insônia. Assisti a várias palestras sobre a hipótese da mudança climática. O “fim do mundo num buraco quente“, como rotulado de forma intempestiva por Al Gore, o Presidente do Global Warming. De clima o gajo nada entendia, porém, como artista do cinema mudo, até que não foi tão ruim.

Mas uma palestra pareceu-me precisa. Foi feita pelo Professor Dr. Luiz Carlos B. Molion, do Instituto de Ciências Atmosféricas. Em síntese, sobre o aquecimento global, disse ao plenário da academia, a comparar dados meteorológicos de 2013 e de tempos longínquos [1]:

“… as temperaturas da Terra já estiveram mais altas, com concentrações de CO2 inferiores às atuais. Portanto, não é possível afirmar que esteja a ocorrer um aquecimento global sem precedentes, como querem alguns. Muito menos que esse aquecimento seja provocado pelo aumento da concentração de CO2, decorrente da queima de combustíveis fósseis pelo Homem. Ao contrário, demonstro em meu trabalho que o CO2 não controla o clima global e que haverá um ligeiro resfriamento global nos próximos 20 anos”.

Ao retornar à praia das Maçãs fui direto molhar-me no mar. Meu inconsciente ficou tranquilo com a gelidez das águas. Agora, quase ao meio do dia, o termômetro de casa marca 5 0C. Durante a madrugada, -1 0C. Normal para início de inverno.

Que bosta dePátria Educadora“! Três Vivas ao Holoceno! Chega de rótulos safados!

……….

[1] Ele se referia a dados meteorológicos obtidos por pesquisadores de campo, há 320 mil anos, entre os últimos períodos interglaciares do planeta, “quando as temperaturas estavam de 6 a 10 0C mais elevadas do que as atuais”. Interessante, não acham?

Previsões e ‘profecias’ para 2015


Por Dr. Andrey, Psiquiatra e Vidente.

Um psiquiatra espanhol, de nome Andrey Porra y Porra, enviou para o blog suas previsões e “profecias” para o ano de 2015. Após ler-se o texto com curiosidade, durante dois dias revirou-se a internet à procura deste profissional. Mas nada se encontrou, sequer seu nome. Somente mais tarde, por obra do acaso, soube-se através de um amigo catalão que ele existe.

Por contingências da vida – que não se conseguiu obter detalhes –, Dr. Andrey abandonou a psiquiatria há mais de 40 anos. Desde então, dedicou-se a aprimorar suas habilidades de vidência. Por fim, tornou-se notório, respeitado internacionalmente.

Soube-se que Dr. Andrey é recatado e muito cuidadoso com sua “delicada” profissão. Não atende a clientes em clínicas ou consultórioOs fantasmas da Sexta 13 particular. Somente trabalha nas residências dos clientes. Segundo consta, cobra 1.200 euros por “hora de vidência”, fora transporte e estadia. Até por que, dizem que faz previsões nos cinco continentes, embora para o Brasil, dada nossa estranha verve política, somente faça “profecias”. Contudo, com amplo índice de sucesso, segundo comentam à sorrelfa grandes empresários e xeiques que o consultam.

É curioso, mas hoje em dia Dr. Andrey só aceita novos clientes se forem indicados por clientes antigos, com mais de “20 anos de vidência” com ele. Ele faz previsões sobre qualquer assunto: resultados eleitorais, falecimentos, julgamentos criminais, prisões, empresas fantasmas, novos contratos, receitas futuras, taxa de câmbio, oscilação dos juros básicos, aplicações financeiras e bolsas de valores são suas maiores especialidades.

Entretanto, segundo informes, tem evoluído bastante, pois já se encontra apto a prever quem recebe propinas no serviço público de países africanos e latino-americanos.

A partir daí, fez-se uma reunião editorial e, por consenso, decidiu-se publicar as “2015 Previsões e Profecias de Porra y Porra”, recebidas em 31/12/2014.

Previsões para 2015 – Internacionais

  • Variáveis críticas externas, manipuladas por atores violentos, criarão ameaças radicais para povos da Europa, mas servirão para unir e fortalecer as nações deste continente.
  • Cidades norte-americanas serão alvo de fundamentalistas isolados, os quais serão sumariamente mortos pela polícia local e o FBI, sem causar maiores danos pessoais e patrimoniais. Porém, a violência permanecerá a ocorrer, através de “cyber-ataques” a bases de informações secretas.
  • Grupos fundamentalistas, antes concentrados em certas áreas do planeta, foram desmembrados por força da ação militar. No entanto, alguns de seus remanescentes cometerão brutais ataques terroristas, com inesperadas vítimas fatais, em capitais da Europa Ocidental. Ainda estão na casa do milhão os fundamentalistas remanescentes, sem considerar os jovens que se encontram em treinamento.
  • Crescerão no mundo ocidental violentas fobias políticas, econômicas, culturais e religiosas, mas China, Índia e Japão não serão afetados, nem sequer participarão de respostas que serão tentadas por outros países. Todas sem o devido sucesso.
  • Com a total inversão de valores ocidentais, em países africanos as ações criminosas de grupos fundamentalistas, desencadeará a morte de milhares de civis inocentes, inclusive idosos e crianças.
  • Acontecerá a falência de inúmeras empresas sul-americanas, com ênfase nas dos “países baixos” – Argentina, Brasil e Venezuela. A Bolívia sobreviverá, por força do crescimento de seu PIB, beneficiado pela exportação da cocaína.
  • A Rússia entrará num período de franca decadência econômica, política e moral, a agravar suas relações com a Ucrânia, países do oeste europeu e os Estados Unidos. No entanto, num comportamento suicida, seu líder tornar-se-á ainda mais beligerante.

“Profecias” para 2015 – Brasil

  • O governo não superará as graves dificuldades para conciliar a “manada de ministros de baixa governança” que nomeou. Surgirão conflitos frontais de espaço entre os “donos de pastas”, que serão irremediáveis. Os “interesses difusos” de cada um, quando sobrepostos, não caberão na “área de pasto” que lhes foi concedida. Haverá choques sucessivos e desgastes fatais na governança pública, ampliados pela total incompetência de certos titulares.

A pancada do Azar

  • Em todos os escalões de certos ministérios acontecerá “a marcha da insanidade”, com a nomeação para cargos públicos de perigosos agentes que representam a esquerda radical: têm a missão de implantar a ditadura comunista no país. Tal como foram os desejos de seus ancestrais políticos, nas décadas de 1960 e 1970.
  • Após um decênio de escândalos da corrupção pública, divulgados com precisão pela imprensa mundial, sob a pressão do “FBI Brasileiro” e certos órgãos de controle, será ouvida a estrondosa erupção dos “escândalos subterrâneos”. Assim, serão aclaradas as relações escusas mantidas em instituições, bancos públicos e empresas de setores econômicos que permanecem estatizados no país. O grande tsunami da “extorsão organizada”, da “corrupção no atacado“, causará enorme depressão nas lideranças mundiais.
  • Não serão recuperadas as centenas de bilhões de dólares “afanadas” do setor público. Até porque, poucos serão aqueles que devolverão parte do dinheiro público roubado.
  • Será realizada a “Auditoria das Eleições de 2014”, por força das graves dúvidas de manipulação eletrônica do pleito. Para os auditores ficará comprovado que houve o desvio criminoso de milhões de votos. Porém, a instituição que detém o poder eleitoral sagrará a eleição como perfeita e arquivará o processo.
  • Serão “extintos partidos políticos” que possuem assento no Parlamento, por força da condenação e prisão de muitos de seus líderes e membros eleitos. Movimentos populares pedirão a queda do governo federal e o fechamento temporário do poder legislativo, com vistas a higienizar os quadros de corrupção e a falta de “conduta ética e moral”, estabelecida nesses poderes.
  • O Brasil sofrerá aguda crise social, política e econômica. Sua cambaleante liderança na América do Sul será definitivamente anulada, dando espaço a que potencias mundiais assumam o domínio produtivo e comercial neste continente. Assim nascerão a “América do Sul Made In China” e a América do Sul Made In USA”.

E Dr. Andrey concluiu seu relatório de “previsões e profecias” com três observações:

“Não uso bola de cristal e não sou presunçoso de afirmar que minhas previsões têm 100% de probabilidade de ocorrer. No entanto, Quadro de Pablo Picasso
trabalho num sólido “Banco da Dados e Informações Mundiais” de minha propriedade, que levei 40 anos para consolidar, de forma meticulosa. Atualizo-o diariamente”.

“As ferramentas de trabalho que utilizo são a Psiquiatria e o ‘Modelo Estocástico de Previsões Sócio-Políticas e Econômicas‘ que arduamente consegui desenvolver”.

“Enviei gratuitamente este relatório para vocês – Sobre o Ambiente – pelo fato de seguir seu trabalho e haver notado que já fizeram previsões no passado, embora a título de deboche. O que, por sinal, considero um direito do cidadão. Amanhã, 2 de janeiro, seguirei para os Alpes Suíços para descansar um pouco. Mas saibam, quando quiserem meu pequeno chalé encontra-se aberto para vocês. Aproveitem enquanto eu existo.

Bom trabalho e Felicidades a todos”.

Boas Festas!


É o que se deseja aos Fatores Ambientais que realizam o Ambiente da Terra!

Que todos mantenham relações saudáveis, estáveis, com trocas espontâneas de matéria e energia! Que o Ar seja temperado e úmido; que não evapore Água em excesso. Que a Flora seja exuberante, umedeça o Solo e nutra-o pela decomposição de seus antepassados.

Neste voto de utopia é evidente que também estão inclusos a Fauna e o Homem, com todas as prerrogativas que merecem os seres destes fatores. Boas festas para todos, em igualdade de condições existenciais.

Dentre os homens, inclusive para aqueles dos quais se aguarda a regeneração de atitude, boas festas também! Não que sejam totalmente pervertidos, em absoluto. Afinal, que se saiba, nenhum se encontra perdido.

Entretanto, caminham por uma órbita estreita e particular, que não recebe a energia do Sol. Energia que é a catalisadora da evolução de tudo e todos. Para estes, espera-se que mudem de órbita e realizem apenas relações honestas e prósperas para os demais fatores ambientais.

De toda forma, chega de degeneração moral! Mesmo assim, deseja-se uma nova órbita para os corrompidos!

Nascer do Sol sobre o Ambiente da Amazônia

Nascer do Sol sobre o Ambiente da Amazônia

O Ambiente não possui intenções, independente do Homem intencional que dele é a sexta parte. Também não reflete emoções, pois não se importa com a emoção de seus seres vivos. Para Ele não existem festas ou contagem do tempo. Em suma, no Ambiente não há hipocrisia. Por isso, Ele às vezes aparece ao Homem intencional como um mistério implacável!

A ser assim, a equipe de Sobre o Ambiente deseja Boa Sorte aos fatores ambientais que realizam o Ambiente!

Aurora de 2015, vista da Janela da Mantiqueira – por Lino Matheus

Aurora de 2015, vista da Janela da Mantiqueira – por Lino Matheus

Gestão da Sustentabilidade de Fazendas – 1ª parte


Por Ricardo Kohn, Cláudia Reis e Marcus Sampaio.

Economia somente se desenvolve quando em simbiose com o Ambiente. Constitui um processo de tal dependência que, caso o degrade, extinguirá a si própria.”

1. Introdução

Sabe-se que é um assunto pouco discutido: a sustentabilidade de fazendas produtivas. Sobretudo, é polêmico segundo a ótica das perturbações que uma propriedade rural pode promover no ambiente em que se encontra e também nas propriedades vizinhas.

É ideal que a gestão de uma área rural seja feita de maneira a que as práticas e meios de produção utilizados não promovam rupturas ambientais nos ecossistemas existentes em seu terreno, sejam primitivos ou alterados.

No mais das vezes, a prioridade do pequeno fazendeiro é produzir para alimentar a família e, para isso, investe em ferramentas de trabalho mais eficientes. O mais dedicado também tem um certo orgulho em possuir um pequeno imóvel urbano e um veículo de tração 4 x 4, que o permita trafegar no campo e na cidade. Isso é justo e normal. Mas, acima disso, está sempre interessado em saber um pouco mais sobre como manter a qualidade do ambiente de sua fazenda.

No entanto, há proprietários rurais que são bem curiosos. Têm como única preocupação com o ambiente de suas terras a simples contemplação, são ‘voyeurs ambientais‘. Nos fins de tarde, gostam de se sentar na varanda da casa, situada na cumeeira de um morro, e deslumbrar o visitante urbano a seu lado com a imensidão de seu terreno.

Não há dúvida de que se trata de uma vista maravilhosa. É óbvio que qualquer fazendeiro, produtivo ou não, dá sua vida para sentir isso. Resta saber se o terreno que se está a admirar possui condições espontâneas de manter seus cursos d’água, sua vegetação nativa e a fauna silvestre associada. Além de produzir economicamente, é claro.

Teve-se a oportunidade de conhecer espaços ambientais belíssimos nessas mesmas condições: da varanda numa cumeeira de morro. No entanto, acompanhando a um fazendeiro consciente, sabedor que suas terras perdem a capacidade de produção se não forem muito bem geridas ambientalmente. Esse fazendeiro é Lino Matheus, a quem se dedica este artigo [1].

Uma vista panorâmica da Serra da Mantiqueira

Uma vista panorâmica da Serra da Mantiqueira

2. Artigos correlatos de interesse

Já se publicou artigos que tratam de temas essenciais para a devida compreensão de como se faz a Gestão da Sustentabilidade de Fazendas. Sua leitura não é obrigatória, mas uma sugestão que facilitará bastante ao leitor interessado em se dedicar a essa prática.

Nestes artigos encontram-se conceitos e processos detalhados que fornecem as bases para a Gestão da Sustentabilidade de Fazendas e o plano ambiental que lhe dá suporte. Basta clicar nos links grafados em vermelho:

3. Elementos para o Plano Ambiental

A primeira tarefa para subsidiar a elaboração de um bom plano é realizar o diagnóstico ambiental da fazenda, que será o foco da gestão. Mas que fique claro, desde já: sem um plano não se pode fazer gestão; e sem gestão de boa qualidade, não há produção que mantenha a sustentabilidade do ambiente da fazenda.

Todavia, não se dispõe de uma fazenda concreta para diagnosticar. Sendo assim, seja uma fazenda hipotética, com terreno de 10 hectares (seu ambiente), assim ocupado: 6 ha de mata primitiva; 2 ha de mata alterada, conjugada com campo sujo; 1,5 ha de solo exposto; 0,3 ha de pasto; e 0,2 ha de área construída – casa da fazenda, galpão de suprimentos, pequeno estábulo, via interna de acesso à casa e área para manobrar veículos.

O diagnóstico ambiental precisa prever quais são as ameaças e oportunidades potenciais [2] que o ambiente externo pode impor à fazenda. No caso específico, há uma variável de extrema criticidade que precisa ter monitoração permanente: o clima da região em que se encontra a fazenda. A dinâmica do clima é aleatória, portanto, capaz de definir o sucesso ou a falência do fazendeiro.

Todavia, também precisa identificar quais as potencialidades e vulnerabilidades ambientais da fazenda [3]. Para isso, analisa sua disponibilidade de água, seu relevo, a qualidade dos solos, sua cobertura vegetal, a fauna que lhe é associada e, sobretudo, as expectativas de produção do fazendeiro e seus familiares. Todos esses fatores ambientais, sem exceção, comportam-se em função das variações do clima regional.

Em síntese, o plano para gestão da sustentabilidade precisa ser capaz de impedir que uma ameaça ambiental externa se relacione com vulnerabilidades do ambiente da fazenda. Além disso, precisa ser capaz de propiciar que as potencialidades do ambiente da fazenda sejam utilizadas na consecução das oportunidades ambientais externas.

Essas oportunidades são oferecidas pelo ambiente externo à fazenda, mas poucos são os fazendeiros que as identificam, a tempo e a hora. São rápidas ‘janelas de oportunidade’, que requerem decisões objetivas, mas nunca precipitadas.

3.1. Informações básicas da fazenda

São informações de ordem ambiental que todo fazendeiro precisa conhecer muito bem. No caso hipotético considerado, destacam-se os seguintes fatos e variáveis:

  • Relevo: De plano a suavemente ondulado, em 40% do terreno. Em sua extremidade, a nordeste, há uma cadeia de montanhas, com altitude máxima de 1.800 metros. O relevo é um fato, um dado do problema, pelo menos no tempo gerencial previsto por um plano ambiental.
Vista da cadeia de montanhas

Vista da cadeia de montanhas

  • Disponibilidade de água: Há dois cursos d’água (e seus afluentes) que atravessam a fazenda. Suas nascentes encontram-se na cadeia de montanhas. Logo abaixo do sopé das montanhas, forma-se um pequeno lago com boa vazão. A disponibilidade de água é variável e, se bem monitorada e controlada, constitui uma potencialidade ambiental.
  • Qualidade dos solos: Em 65% da parte plana a suavemente ondulada do terreno, os solos possuem qualidade para culturas agrícolas diversificadas. A qualidade dos solos é variável e, no momento, constitui uma potencialidade ambiental.
  • Cobertura vegetal: A mata primitiva está concentrada na cadeia de montanhas e seus arredores, tendo continuidade nas terras vizinhas. Faz parte do bioma Mata Atlântica. Trata-se da principal potencialidade ambiental da fazenda. Mesmo constituindo uma variável, mantê-la intocada é decisão tomada pelo fazendeiro e seu vizinho imediato.

A área de mata alterada e campo sujo ocupa 2 hectares, 20% do ambiente da fazenda. É uma variável que constitui grave vulnerabilidade ambiental da fazenda. Necessita sofrer intervenções ambientais bem planejadas, de forma a integrar-se ao vetor da sustentabilidade do terreno da fazenda.

  • Fauna associada: A fauna silvestre é abundante e diversificada, sobretudo na área de mata primitiva. Possui espécies raras e endêmicas da ornitofauna. No entanto, na área de mata alterada e campo sujo, ocorrem espécies de hábitos peridomiciliares, que são nocivas, podendo causar acidentes com peçonha e transmitir zoonoses: cobras, aranhas, várias espécies de mosquitos, ratos, carrapatos, etc.

Destaca-se ainda a invasão de espécie exótica à região (javalis e javalis mestiços). Os fazendeiros da região encontram-se prejudicados em suas culturas, ameaçados com a presença dos javalis. Portanto, devem tomar medidas integradas, visando a impedir sua proliferação e “retirá-los” de seus terrenos.

Este é um exemplo do sumário de informações requeridas para elaborar um plano de gestão da sustentabilidade. Mostra o que está adequado e o que necessita ser refeito, ambientalmente reabilitado.

4. Introdução ao Plano de Gestão

Para elaborar um plano que seja capaz de realizar, manter e beneficiar a sustentabilidade do ambiente de uma fazenda é necessário efetuar as seguintes atividades:

  • Identificar as vocações físicas e bióticas do ambiente da fazenda;
  • Identificar as vocações sociais e econômicas da região de inserção da fazenda;
  • Efetuar o levantamento da infraestrutura de acesso à região e à fazenda;
  • Efetuar o levantamento das atividades econômicas ocorrentes e potenciais na região;
  • Estabelecer metas de sustentabilidade para a fazenda;
  • Formular projetos para a sustentabilidade do ambiente da fazenda;
  • Monitorar, avaliar o desempenho e, se necessário, reprogramar os projetos implantados.

Na segunda parte deste artigo, essas atividades serão apresentadas em mais detalhes. De toda forma, convida-se aos leitores interessados a pensar acerca do que a descrição de cada uma dessas sete tarefas deverá conter.

……….

[1] Os registros fotográficos publicados neste texto foram tomados na Fazenda Boa Vista, de propriedade de Lino e Nívea, situada em Bocaina da Minas, MG.

[2] Tecnicamente, são denominadas “Variáveis Ambientais Críticas Externas”.

[3] Tecnicamente, são denominadas “Variáveis Ambientais Críticas Internas”.

Gestão de Fazendas


Por Ricardo Kohn, Cláudia Reis e Itamar Christófaro

Introdução

Há uma ampla literatura sobre como realizar a administração de propriedades rurais. Trata, basicamente, das técnicas agropastoris e de planos empresariais para ampliar resultados econômicos em fazendas de maior porte. Mas esse não é o foco dos artigos que se tenciona publicar neste blog.

Na realidade, este primeiro ensaio visa apenas à introdução do “Ambiente” como uma variável de expressiva relevância nas atividades e práticas de subsistência por parte de pequenos produtores rurais. Ou seja, como famílias subsistem no campo, realizam a produção rural e mantém a qualidade do ambiente que as abriga.

Vista do terreno na Fazenda Boa Vista, Bocaina de Minas

Vista do terreno na Fazenda Boa Vista, Bocaina de Minas

Assim, na sequência dos artigos, serão abordados usos alternativos de fazendas com área de até 20 hectares, visando a atender a necessidades familiares, mas conforme as limitações naturais do espaço ambiental disponível. Por sinal, este espaço fica circunscrito ao terreno da fazenda, acrescido dos de seus vizinhos imediatos.

As limitações naturais são simples e assim resumidas: as dimensões da fazenda; seus tipos de relevo; as declividades ocorrentes; a natureza de seus solos e rochas; os cursos d’água que a atravessam e lagos; sua cobertura florística; a fauna silvestre nativa; suas vizinhanças imediatas; e as áreas de terreno expostas ao clima.

A ocupação e uso de qualquer espaço ambiental deve atentar para os riscos que as limitações acima podem acarretar ao fazendeiro, sua família e eventuais parceiros de produção rural. Todas as limitações são próprias dos chamados “recursos naturais”, como componentes do espaço ambiental.

Porém, segundo esta proposta, “recursos naturais não existem”, sobretudo, se forem explorados pelo homem visando tão-somente à sua provisão econômica, mesmo que lícita.

Entretanto, no lugar de recursos naturais exploráveis, existem os valiosos bens ambientais, que estruturam ecossistemas estáveis e, através da troca sistemática de matéria e energia, relacionam-se de forma espontânea. Assim criam o Ambiente e sua dinâmica, abrigo de todos os seres vivos, inclusive os familiares do fazendeiro.

Cogumelo silvestre, um "bem ambiental" nativo

Cogumelo silvestre, um “bem ambiental” nativo

A expressão “bem ambiental” não é tecnicamente utilizada. Porém, traduz o real conteúdo do que algumas ciências chamam “fatores ambientais básicos”, quando se referem a Ar, Água, Solo, Flora, Fauna e Homem.

Conclui-se que as limitações naturais para a gestão de fazendas, sempre serão efeitos de riscos ambientais proporcionados por variações de comportamento desses fatores ou bens ambientais. Por exemplo:

  • Uma encosta de alta declividade e com o solo argilo-arenoso exposto apresenta risco de desmoronamento e poderá interromper a saída de produtos da fazenda para o mercado – efeito adverso na renda familiar do fazendeiro.
  • Um trecho de corpo d’água, com mata ciliar retirada, possui alto risco de erosão e de desbarrancamento de suas margens, o que provocará assoreamento do corpo d’água e prejudicará uma fonte de alimentação da fazenda – peixes de várias espécies.
  • Várias nascentes próximas que têm suas áreas de entorno desmatadas, apresentam risco de reduzir sua vazão, o que poderá afetar uma importante fonte de abastecimento de água da fazenda – efeito adverso na operação da fazenda, em sua produção e na renda familiar.

Vê-se assim que riscos e efeitos ambientais podem causar prejuízos e danos, tanto a pessoas, quanto ao patrimônio do fazendeiro. Assim, devem ser identificados e avaliados antes mesmo que sucedam, de forma a receberem tratamento objetivo. Tratam-se de medidas antecipadas, proativas, com vistas a garantir e manter a estabilidade dos fatores ambientais afetados.

Considerações básicas da gestão

A gestão de uma fazenda deve ser realizada por meio de um plano ambiental (alvos e medidas para alcança-los) específico e bem engendrado, que atenda a duas diretrizes essenciais:

  • Impedir que ecossistemas estáveis sejam adversamente impactados; e
  • Reabilitar os ecossistemas eventualmente alterados.

A elaboração deste plano, sob o título “Plano para Gestão da Sustentabilidade”, será motivo do próximo artigo sobre gestão de fazendas de pequeno porte.

Espera-se que esta contribuição possa redundar em novas ideias e propostas sobre o tema, especialmente as provindas dos leitores deste blog.

Professores através dos tempos


Pela essência do 15 de Outubro, Dia do Mestre.

São inesquecíveis todos aqueles que contribuem para a formação dos primeiros traços culturais na cabeça de uma criança. Parece-me normal que os “primeiros professores” sejam parte de sua família. São mais eficientes pelos exemplos que dão à criança, do que através de conversas e conselhos. É assim que vejo “brotar uma nova personalidade”.

Porém, há crianças que não possuíram pais. Ou ficaram órfãos ao nascer ou seus pais foram “incipientes no professorado”. Este foi o meu caso, com pais principiantes pela idade e total inexperiência em educação.

Contudo, faço-lhes homenagem nesta data. Se pelo lado materno recebi a sobrecarga do “amor egoísta”, que tanto me sufocava, do lado paterno conheci os efeitos dolorosos de um gratuito chicote a bater-me nas pernas. Sentia-me encurralado e não tinha para onde fugir. Mas, exatamente por isso, agradeço-lhes, pois foi assim que obtive o direito inconsciente de escolher, dentre as pessoas da família, quais seriam os melhores “primeiros professores”.

Hoje, analisando o ocorrido em minha infância, posso explicar meu interesse prematuro pelo aprendizado. Queria ler todos os jornais que pegava, mas permanecia analfabeto. Os adultos debatiam sobre o que liam, não raro brandindo um jornal nas mãos, e eu não podia participar. Com eles, percebi a importância de pitadas da crítica.

Foi assim que, em meados de 1952, aos 4 anos de idade, já sabia ler, escrever e fazer as quatro operações. Devo essa primeira “conquista do saber” aos exageros de minha mãe, pois durante seus ensinamentos, sem que eu tivesse consciência, estava a viver o processo da libertação. Aprender nunca me sufocou. Até por que, não queria ter um “crânio com cérebro baldio dentro”.

Desde o primário até a faculdade tive a sorte de ter bons professores. Cursei primário e ginásio em um pequeno colégio do bairro em que morava. Foi lá, durante o curso Primário, que minha personalidade começou a criar as primeiras raízes mais profundas, as boas e as más.

Nos cursos de Admissão e Ginásio, devo salientar os professores Wellington (Português), Aluízio (Geografia) e a inesquecível Dona Adélia, que ensinava História, a idolatrar os impérios Maia e Asteca. Dedicavam-se aos alunos de modo a vincar seus aprendizados com overdoses de moral e ética. A bula da época não descrevia dores ou qualquer efeito colateral nocivo para a moral e a ética, sobretudo quando aplicadas definitivamente na veia jugular.

Encerrei os estudos no bairro nessa oportunidade, pois no colégio não havia o Científico. Teve início, assim, uma pequena discussão em casa. Meu pai dizia que não tinha como pagar um colégio particular. Pelo lado oposto, minha mãe queria que eu cursasse o Científico no Liceu Franco-Brasileiro. Não vou entrar em detalhes, mas o chicote já fora vendido.

Como fruto das escolhas que fizera na primeira infância, um de meus “primeiros professores” pagou o curso no Franco-Brasileiro. Sofri um bom impacto diante desse fato:

  • Ter que sair diariamente do bairro, onde fora criado e a todos conhecia, e seguir de ônibus para Laranjeiras, a descobrir desconhecidos.

Porém, melhor que tudo, foi montar uma nova prateleira em meu quarto, com livros de Física, Química e Cálculo Matemático. Aos 14 anos senti a sede de obter conhecimentos e conhecer professores para o curso Científico. Pela lógica, imaginava que fossem cientistas.

As instalações do liceu eram superiores em tudo às do colégio do bairro. Mas a diretora era uma pessoa estranha, Dona Eliane “dos dentes verdes”. Os alunos mais velhos, que talvez tenham cursado o liceu desde o primário, chamavam-na pelas costas de “Lili”.

Apenas para mim é que tinha dentes verdes, além de ser autoritária. Por suas grosserias e gritos com alunos de todas as turmas, “Lili” não passava a imagem de 1ª Dama do Liceu. Em verdade, fazia do Liceu um forte com disciplina militar. Contudo, preciso salientar que, de forma quase paradoxal, tratava-se de uma qualificada humanista. Com ela aprendi a ter paciência, foco e disciplina.

Os professores do Franco de meu tempo tinham competência na educação. Um deles, que me cabe ressaltar, Professor Henrique de Paula Bahiana, foi realmente um cientista na área da Química. Na década de 1940, esteve a trabalho em diversos países europeus, convidado por governos para solucionar problemas de saneamento básico e aplicar cursos técnicos. Tive a honra de ter sido seu aluno, durante dois anos do curso Científico, em química inorgânica e orgânica.

Em 1967, com vistas a me qualificar para as provas do pré-vestibular, pesquisei bastante para saber em qual curso deveria matricular-me. Não foi difícil concluir que o Curso Bahiense era cotado como o de melhor desempenho, naquela oportunidade. Meu “primeiro professor” fez a matrícula e depositou o valor mensal do curso.

Recebi aulas dos melhores professores do curso. Os mestres titulares das cadeiras cumpriam um cronograma diário incrível, inclusive com testes nas manhãs de sábado. Porém, como as unidades do Bahiense eram dispersas em regiões e bairros do Rio, com sol ou chuva, eles rodavam diariamente pelas ruas mais do que taxistas, com trabalho repetitivo, dividido em dois turnos.

De início não consegui explicar a mim mesmo o porquê da assiduidade com que davam aulas. Mais ainda, a tranquilidade e elegância com que o faziam. Mas certo dia descobri, na pequena secretaria da unidade em que estudava, que eram os próprios professores que faziam seus planos de aula. Eles não eram impostos ou impositivos, mas sócios em uma única missão a que amavam: educar com qualidade seus alunos. Devo dizer que nunca em minha vida estudantil recebi um volume de conhecimentos similar ao do Curso Bahiense.

Apresento alguns professores do Bahiense daquela época, que acredito terem-me sido essenciais: Henrique de Saules (Trigonometria, Logaritmo e Análise Matemática), Otávio Guimarães Gitirana (Álgebra, Análise Combinatória e Cálculo diferencial), Ubirajara Pinheiro Borges (Geometria), Edgard Cabral de Menezes (Química orgânica e inorgânica), Antenor Romagnolo (Física Newtoniana, Ótica, Calor e Acústica), o próprio Norbertino Bahiense Filho, com suas surpresas da Geometria Descritiva, José Carlos Bazarella (Perspectiva Isométrica e Cavaleira) e Haroldo Manta (Desenho Geométrico). Todos são inesquecíveis em termos da razão e da lógica que diariamente me transmitiram, durante quase um ano. A boa educação é impagável!

Questões pessoais impediram-me de dar sequência imediata no curso universitário. Em síntese, precisava trabalhar para pagar contas e realizar minha liberdade. Assim, somente em 1969 ingressei num curso de Administração Pública.

Aula em anfiteatro de universidade

Aula em anfiteatro de universidade

Realmente, com poucas exceções, a pressão de estudar foi bastante reduzida, se comparada à do pré-vestibular. Talvez por que a ótica universitária fosse distinta, não sei. Mas, pelo menos para mim, isso tornou-se um problema. Estava acostumado com a pressão do Curso Bahiense e na faculdade quase não havia igual demanda.

Outro aspecto que me chamou atenção foi-me apresentado pelas Ciências Sociais, que nunca estudara. Recebi aulas de Metodologia de Pesquisas, Ciência Política e Sociologia. Os professores destas cadeiras tinham qualidades essenciais que desconhecia até então. Confesso que esqueci da engenharia a que me propusera cursar. E mais, praticamente abandonei as demais matérias da faculdade. Exceção feita à cadeira de Administração, função da qualidade do mestre que a lecionava, Professor Paulo Reis Vieira.

Dessa forma, destaco a competência e os ensinamentos que recebi de Simon Schwartzman, com quem estagiei na qualidade de seu assistente. Simon foi meu Mestre em Metodologia de Pesquisas. Com ele, mais que tudo, creio haver aprendido a pensar.

Na faculdade destaco, da mesma forma, os professores e amigos Maul e Fred, a lecionar Estatística, Álgebra Linear e Pesquisa Operacional. Com esses dois pude aprender que errar não é aconselhável.

Ainda assim, faltam importantes menções a professores através dos tempos. Desejava publicar esta crônica ontem, no Dia do Mestre. Mas perdi tempo a escarafunchar a memória, pesquisar documentos, para conclui-la somente hoje. De toda feita, esta é minha homenagem a meus professores.

Ricardo Kohn, Escritor.

Infarto eleitoral


Por Simão-pescador, da Praia das Maçãs.

Simão-pescador

Simão-pescador

Em um colégio de eleitores com cerca de 150 milhões de brasileiros, deu-se o primeiro turno das eleições gerais de 2014. Até agora, pelas informações que recebi de meus filhos, e mais o que diz o noticiário, parece que tudo transcorreu dentro dos padrões daquele país: apenas 80 candidatos presos pela polícia, acusados de haverem cometido “crime eleitoral”. Não faço ideia do que isto significa. Porém, decerto, no horário em que redijo este texto, todos já estão soltos na rua novamente.

Analisando cá de longe o processo eleitoral no Brasil, em nenhuma hipótese concordo com o que um grupo de jornalistas disse certa vez na televisão: ─ “Essa eleição está muito morna”, comentou o primeiro. Em seguida, os demais papagaiaram a mesma besteira. Isso aconteceu a cerca de dois meses atrás, salvo engano meu.

Creio que, influenciados pelas contagens e simulações feitas pelos ditos institutos de pesquisa do país, soltavam a matraca para emitir suas opiniões individuais. Deu-se a calamidade. Dilma era a vencedora, seguida por Marina. Aécio simplesmente foi deixado para terceiro plano. E caso não se segurasse bem nas cordas, perderia até para a moça iracunda, a tal da “Luciana Sogra”. Não estranhe, cá em Portugal a apelidaram desta maneira.

Daqui da Praia das Maçãs, bastante aturdido e indignado, estava a ver algo bem distinto dos “chutes das pesquisas de voto”. Mas, além disso, abismado com o descaramento de notórios jornalistas brasileiros. Pareciam tentar a manipulação do raciocínio de parvos. Perguntei-me então: ─ Afinal, em qual clube tu jogas, oh pá?!

Ficou evidente quando “as pesquisas” deram vitória para Marina no segundo turno. Estavam a pelejar no campo do “Futebol Clube do Acre”, a vestir sua camisa ostensivamente, embora de maneira andrajosa. E o quadro ficou mais grave quando Marina, segundo “pesquisadores”, “passou a vencer” desde o primeiro turno. A esta altura Aécio era um piolho incômodo, digno de pena e ridicularizado por alguns “comentaristas políticos”, sempre oblíquos, por meio de “hediondas gentilezas”. Quase sofri um enfarte eleitoral e, por impulso, desliguei a imprensa.

Porém, meu mais velho telefonou-me do Rio de Janeiro. Avisou-me que eu não poderia perder o último debate entre os candidatos à presidência. Evidente que o assisti. Aécio agigantou-se, tornou-se mais resoluto e firme. Embora educado, em minha opinião, arrasou às paspalhas provocadoras! Sequer lhes fizeram cócegas.

Dilma falou sobre o Brasil de Fantasia que “meu governo criou”. Marina, com a sobrancelha impertinente e fala de tatibitate, tornou-se a piolha da vez. Luciana Sogra, foi calada por Aécio da forma merecida. Enfiou o rabo entre as pernas, sumiu e fez mais nada.

O que resultou da campanha e deste último debate vocês sabem bem melhor do que eu: Aécio está no segundo turno, a chegar cada vez mais próximo de Dilma. Ultrapassá-la não será simples, mas perfeitamente factível. A maioria dos eleitores de Marina faz tempo que gritaram chega de PT, chega de Dilma! Sua migração para Aécio é mais do que esperada. Em minha opinião, é certa.

Para confirmar minha dedução lógica, acabo de receber a notícia, publicada no jornal Folha de São Paulo, que notórios profissionais e acadêmicos, que apoiaram Aécio Neves e Marina Silva no 1º turno, passam a apoiar Aécio no segundo. Segue o texto da carta, que foi assinada ontem, até às 22:15 horas, por 167 cidadãos:

Apoiamos Aécio Neves porque a sociedade brasileira quer mudanças. Porque é preciso dar um basta à conivência com a corrupção e aos retrocessos que marcaram a ação do governo nos últimos anos: a confusão entre partido e Estado e a cooptação de organizações da sociedade civil”.

Porque a democracia requer valores republicanos e exige o respeito às diferenças políticas, culturais e individuais. Apoiamos Aécio Neves porque a estabilidade e o crescimento econômicos são condições indispensáveis para que a redução das desigualdades seja efetiva, e a retomada do desenvolvimento seja sustentável”.

Porque queremos que as pessoas realmente se emancipem da ineficiência e das distorções dos serviços públicos, da pobreza que amesquinha seus horizontes e da falta de acesso a direitos fundamentais em áreas prioritárias como educação, saúde e segurança pública”.

Rogo em saber, como velho pescador português que sou, que ou ainda não fiquei demente ou tenho a grata companhia de outros 167 cidadãos em pleno exercício da demência.

Para ler a notícia completa, com a lista dos que assinaram a carta, clique aqui.

Enfim, sós…


Por Simão-pescador, da Praia das Maçãs.

Simão-Pescador

Simão-Pescador

De acordo com o calendário eleitoral brasileiro, em 5 de outubro de 2013 teve início a “inana política” do povo, que se repete ostensivamente a cada dois anos. Mais uma vez foi impingido, por força de lei, a aceitar calado a invasão de suas moradas por cambadas de charlatões, os sempre “digníssimos” candidatos às eleições de 2014.

O resultado é tal que, de dois em dois anos, o país para de trabalhar por um ano e sujeita-se a essa mixórdia anárquica. Significa dizer que, mantido esse estranho “sistema eleitoreiro”, em um século o país para e “descansa” durante 50 anos!

Tento relatar aqui, constrangido por emoções perniciosas, a indignação de meus filhos e netos que residem na “Praça da Mixórdia”, em que, há 12 anos, o Brasil foi transformado. Por isso, devo voltar no tempo.

Desde que Portugal descobriu o Brasil, de facto tentou inculcar sua cultura ao povo nativo, a que chamam de índios. Fê-lo muitas vezes de forma impositiva e até brutal, não existe dúvida quanto a isso.

Porém, já se passaram 514 anos e muitos povos de culturas diferenciadas da portuguesa contribuíram decisivamente para a formação da cultura brasileira, que é híbrida, sui generis. Entrementes, alguns “intelectualoides” insistem em afirmar que todos os erros brasileiros decorrem da herança lusitana. Ora, vão à merda! De que outra maneira devo responder a tal estupidez?!

Mas é desta eterna estereotipagem irracional, sobretudo no campo da política, que resultam “desvios”, “malfeitos” e “roubos” de um governo, que diz ser culpa exclusiva de seu antecessor. Na atualidade, como um mesmo “partido ao meio” mantém-se no poder há 12 anos, a culpa é do partido que o antecedeu. Ora, digníssimos, sejam honestos durante apenas um dia: enterrem-se no esterco!

O facto é que faltam poucos dias para a eleição. A princípio, a imprensa deveria mudar de assunto. De tal maneira que o povo brasileiro livre pudesse gritar de alegria: Enfim, sós! Mas não será assim que as coisas se darão naquele país. Sei que tenho que me conter e voltar para a pesca, onde sei bem como trabalhar.

Aliás, tenho ido ao mar regularmente, sempre com os pescadores da mesma geração. Mas em duas oportunidades, convenci ao Quincas (meu neto postiço) em participar. Na verdade, eu estava preocupado em mudar de assunto para não cansar meus companheiros de pesca. Só falava sobre os problemas do Brasil que eles não acompanhavam. De certa maneira, deu certo.

Fiquei muito feliz ao ver Quincas a pegar facilmente todos os traquejos do barco. Mesmo com o mar mais batido ele se equilibrava, andava tranquilo no convés e não enjoou uma única vez. Ainda por cima, preparava filés de peixe cru como se fora um mestre japonês. Enfim, tomou conta de tudo e de todos. Tornou-se, sem desejar, o capitão do barco.

Pois é, mas minha alegria foi-se a escafeder. Queria dar as últimas notícias sobre a “política da colônia” e ninguém me dava ouvidos. Era interrompido toda vez que tentava. Já um pouco ansioso com meus amigos, falei alto para que parassem com a festa e me deixassem falar. Puro ciúme infantil, é óbvio. Mas Nelo, meu mais antigo amigo de batalhas, interrompeu-me, a dizer:

─ “Tenha calma Simão, sei que está a doer, mas essasensaçãopassa logo e você vai gostar”.

Deixei-os em paz e voltei à pesca…

Escadas e escadarias inauditas


Uma experiência pessoal.

A primeira vez que me recordo de ter sofrido o impacto de uma escadaria, aconteceu em 1952. Eu tinha 4 anos de idade. Saíra de casa com minha avó para assistir Tom & Jerry, na sessão matinal do cinema Metro, que ocorria aos sábados.

O Metro ficava defronte ao Largo do Passeio Público, no centro da cidade do Rio. Para chegar até ele, eu tinha que pegar um bonde até o Largo da Carioca, seguir pela Rua Senador Dantas e dobrar à direita. Lá estava o cinema Metro!

Adorei os filmes de Tom & Jerry, assim como centenas de milhares de outras crianças. Na escuridão da sala de projeção, as risadas pareciam ecoar com mais valor, criando a cumplicidade de todos com a alegria. O ânimo dos adultos e de suas crianças era muito diferente naquela época.

Mas para sair de casa e ir à rua, tinha que subir uma escadaria larga, ancorada no muro alto e recoberta de concreto, até chegar ao portão de saída. Até hoje ela está lá, com seus 21 degraus. A casa fica em centro de terreno, é arborizada, fresca e silenciosa. O movimento da rua não perturba à família e aos amigos que a visitam. Não se escutam carros, suas buzinas e vozerios. Parece que se está em um ninho protegido. É assim que as vejo em minha infância, a casa e a escadaria.

Foi dessa forma que percebi o que fez uma escadaria em minha vida. Através dela, escalando-a, eu deixava a calma, a brisa e o silencio que tinha, para enfrentar a multidão barulhenta, sob sol a pino. No entanto, no vão que ficava sob ela, havia vasos de plantas que eu gostava de cavucar a terra para depois regar. Ver novos brotos nascendo, flores com abelhas zumbindo, não têm preço para uma criança!

Aliás, assim disse o poeta, em Mensagem à Poesia: “pelo direito de todos terem uma pequena casa, um jardim de frente e uma menininha de vermelho”. Eu não deixaria de acrescentar que “uma escadaria” também é essencial.

Valparaíso, Chile

Escadaria em Valparaíso, Chile

Aos 5 anos de idade fui apresentado a um portento de escadaria: aberta ao céu, sinuosa, construída de pedras e com 312 degraus. Porém, parte de suas margens laterais é até hoje protegida por murada recoberta de eras.

Constituía o acesso ao casarão de dois andares, onde ficava a escola em que cursei o primário. Portanto, encontrávamo-nos todos os dias úteis e, a cada vez que a percorria pela manhã descobria coisas novas: buracos de camaleão na murada, ninhos de pássaros com filhotes e muitas flores a brotar coloridamente. Não era insensível a esses detalhes.

Mais tarde, já com 7 anos, a escada interna do casarão da escola chamou-me a atenção por dois motivos. Primeiro por ser uma escada em caracol, feita em madeira de lei e com os belos desenhos do Pinho de Riga. Segundo, pelo fato de colegas mais velhos, durante o intervalo do recreio, ficarem sempre reunidos ao seu pé.

Levei algum tempo para descobrir o motivo daquelas reuniões perenes. Mas acabei por conferir, pessoalmente, que eram pernas e calcinhas de jovens professoras da escola, que ficavam à mostra quando subiam ao segundo andar. Também fiquei impressionado, deveras.

Essas experiências vão-se acumulando e modificam a atitude das pessoas. De tal sorte que, aos 10 anos de idade, estando eu na casa de um amigo da escola, notei que havia uma bela escada de madeira. Porém, percebi que ele tinha três lindas irmãs mais velhas. Mas, mesmo quando sentado na saleta, ao pé da escada, jamais consegui sequer levantar os olhos para “pesquisar” qualquer uma delas a subir a maldita escada.

Depois disso, não me recordo de escada ou escadaria que me haja chamado atenção na infância. Até cheguei a acreditar que se tratava de uma fase normal de todas as crianças: gostar de subir degraus. Porém, aos 26 anos, trabalhando em uma empresa de engenharia de projetos, o acaso fez-me uma surpresa.

A empresa precisava de um arquiteto para projetar um canteiro de obras que fosse funcional e, ao mesmo tempo, tivesse visual agradável aos olhos dos passantes. Meu diretor incumbiu-me dessa tarefa. Após alguns contatos telefônicos, selecionei dois escritórios e disse que os visitaria para conhecer alguns de seus projetos já realizados.

O primeiro grupo tinha escritório no centro da cidade, próximo à nossa empresa. Eram cinco arquitetos, a ocupar duas salas pequenas, no 25º andar de um prédio comercial. Três mesas estavam vazias e sem papéis. Pareciam sem uso, pois havia poeira acumulada nos tampos. Não pude ver qualquer arquitetura realizada, mas recebi uma proposta e, em seguida, apenas desculpas esfarrapadas.

Segui de táxi rumo ao bairro de Botafogo, numa rua sem saída e arborizada. O outro escritório ficava em uma pequena casa de dois andares, mais um sótão. Toquei a campainha e fui recebido por um dos três sócios. Ao abrir a porta da casa, o primeiro andar estava um pouco escuro, mas havia uma luz tênue que indicava a escada para o segundo andar. Segui por ela preocupado onde estava a pisar. Mas meus olhos se acostumaram à penumbra e, por fim, veio luz do andar de cima.

A casa era “o projeto arquitetônico” da equipe associada. O sótão havia sido transformado em mezanino, com mesa e prancheta para uma arquiteta sorridente. Sobre sua cabeça havia uma claraboia que fornecia luz ao ambiente. Quadros e vasos de flores adornavam o andar.

Claro que fechamos contrato de serviço com a trinca e a solução que desenharam encantou nosso cliente. No retorno à empresa muitas coisas passaram por minha cabeça. Em síntese, diria que, aos 26 anos, descobri que da penumbra vem a luz, basta seguir na direção certa.

Ao subir escadas e escadarias deve-se olhar para baixo e ver o chão que se pisa, mas é essencial olhar para cima e ter certeza aonde pode-se chegar.

A grande criação!


Durante 23 anos, a Uesel – Universidade de Estudos da Selva investiu no trabalho de cientistas especializados em “Comportamento Selvagem”. Contudo, seu amplo laboratório, construído no interior da floresta tropical, iniciou suas atividades com apenas oito acadêmicos voluntários.

Porém, a equipe cresceu gradativamente, com mais acadêmicos, doutorandos, assistentes e técnicos dedicados. Assim, foi erguida a Vila de Estudos, como se fora uma taba, que formava um círculo em torno do laboratório, inclusive com alojamentos sobre palafitas nas áreas molhadas ou inundáveis.

Vista aérea da área selecionada para o laboratório da Uesel

Vista aérea da área selecionada para o laboratório da Uesel

Nos últimos quatro anos, entre pesquisadores e cientistas, de laboratório e de campo, contou com a dedicação de 298 acadêmicos e respectivas equipes, provindos de vários países e eméritos conhecedores de ciências de interesse. Era o escol mundial em Comportamento Selvagem, reunido com o mesmo e único objetivo: criar a chamada “pílula dos predadores”. Mas o que seria isso?

Na década de 1940, um jovem mestre em biologia defendeu, na Uesel, sua tese de doutorado em Antropologia. Tinha ascendência alemã e era tratado por Müller. Foi aprovado com louvor, pela solidez de seus argumentos científicos e, sobretudo, pelos desafios futuros que criara para a ciência. A partir de então, Müller foi honrado com o título de Docente-Pesquisador da Uesel, onde permanece até hoje.

Em síntese, ele demonstrou à banca uma teoria que tornava possível criar uma substância orgânica (“pílula dos predadores”) capaz de docilizar até o mais implacável dos predadores selvagens. E mais, sem qualquer efeito colateral, que não fosse “o silêncio do comportamento selvagem”.

Mas somente em 1990, quase 50 anos mais tarde, o Conselho Universitário da Uesel aprovou por unanimidade o projeto de desenvolver a substância pensada por Müller. Assim, em 1991, foi iniciada a operação do Campus Mata Tropical, da Uesel, e de seu laboratório de experimentos científicos, com área útil de 3.000 m2.

O primeiro passo foi conhecer o estado da arte sobre o comportamento de animais silvestres, com ênfase nas espécies predadoras. Após três anos de intensivo levantamento bibliográfico, realizado em instituições científicas de todo o mundo, dois fatos ficaram evidenciados:

  • Havia uma boa produção de teorias a respeito, essenciais de serem analisadas com muito cuidado; e
  • Inúmeros pesquisadores estrangeiros demonstraram interesse em participar dos trabalhos da Uesel.

Como o processo da identificação do DNA ainda era recente e não considerava as espécies predadoras em seu cardápio, tornava-se mais complexo identificar “substâncias” que pudessem controlar o comportamento animal. Dessa forma, foram incorporados à equipe os melhores neurologistas, botânicos e químicos que se apresentaram interessados.

Na verdade, o Campus Tropical da Uesel ainda tateava no escuro, mas estava decidido que a pílula precisava ser predominantemente orgânica, conforme a teoria defendida no passado pelo Professor Müller. Por sinal, ele acompanhava os trabalhos com muito interesse, enquanto fazia seu primeiro pós-doutorado em Antropologia Animal. Realizou mais dois outros, com ênfase em substâncias relaxantes e substâncias excitantes para animais selvagens.

Diversos experimentos aconteciam em paralelo no laboratório. Eram processos de ensaio e erro, sem dúvida, mas botânicos e químicos, coordenados por neurologistas, começaram a conversar entre si de forma objetiva.

Mas o engano que muitos continuavam a cometer devia-se ao fato de acreditarem que substâncias narcóticas, como morfina, ópio, codeína ou heroína, eram capazes de controlar o comportamento animal. Porém, o Professor Müller lhes reconduzia ao eixo:

─ “Os senhores estão a entender o problema por um ângulo distinto do que a tese propôs. Se fosse assim, tão simples, bastava usar as anestesias já conhecidas”.

E Müller tornava a mostrar a diferença essencial contida na tese:

─ “Nosso objetivo é desenvolver uma substância capaz de, digamos, ‘amansar predadores’, encontrados em qualquer continente, mas sem causar nenhum efeito colateral, que não seja o de silenciar comportamentos agressivos e violentos”.

O ataque de um rinoceronte furioso

O ataque de um rinoceronte furioso

Em síntese, seu foco não era inibir ou estimular o sistema nervoso central de um animal com o uso de drogas, mas o de transformar seu estado, de selvagem e agressivo, para calmo e participativo, com meios encontrados na natureza.

Seguiram-se mais 8 anos de experimentos laboratoriais controlados. Após realizados os testes básicos em ratos das substâncias produzidas, ficou demonstrado que somente três delas talvez obtivessem resultados positivos.

Por outro lado, embora distintas em sua composição, as substâncias eram bem simples de serem produzidas. Apenas a mistura concentrada de seivas, obtida pela trituração de folhas e talos de jovens leguminosas, abundantes em matas tropicais.

Diante desse quadro, o Professor Müller passou a atuar diretamente nos trabalhos. As três substâncias precisavam ser testadas em espécimes da fauna terrestre mais agressiva, desde aracnídeos até grandes mamíferos.

Na falta da existência de uma “Arca de Noé”, a Uesel viu-se obrigada a fazer convênios com outras universidades e dividir os trabalhos, mantendo três de suas equipes na supervisão e controle dos testes, com o uso de cada substância e famílias de animais silvestres.

Iniciados os trabalhos em todos os continentes, logo ficou claro que nenhuma das substâncias produzidas era capaz de “amansar predadores” da forma esperada, sobretudo pela amplitude de espécies da fauna mundial. Todas somente deram certo para conter a fome dos ratos.

Mesmo assim, a teoria do Professor Müller não será esquecida por um fato. Uma das substâncias, apesar de seu resultado fraco, foi além dos ratos e ‘amansou’ crocodilos australianos, ofídios venenosos, aranhas e escorpiões. Não é nada, não é nada, mas significa que havia ciência em criação.

O crocodilo assassino docilizado pela substância orgânica

O crocodilo assassino docilizado pela substância orgânica

O Conselho Universitário da Uesel, diante dos resultados alcançados, decidiu encerrar o Projeto Pastilha dos Predadores e arquivar todos os levantamentos e relatórios executados. Organizou um evento de despedida do Campus Mata Tropical e transferiu os equipamentos de seu laboratório para a sede da universidade.

O Reitor da Uesel, falando em nome do Conselho, abriu o evento e agradeceu a todos os acadêmicos dedicados ao trabalho. Ao final de sua fala, passou a palavra para o Decano da Universidade de Uesel, o notório conhecedor da Antropologia Animal, Professor Müller, não sem antes desejar-lhe felicidades e saúde por aquela data, quando completava 90 anos de idade e 65 de docência na Uesel.

Foi então que Müller, bem tranquilo, falou ao microfone, com sua voz antiga e já rouca:

─ “Acho que a Uesel deve exportar esse raro conhecimento. Já pensaram no uso prático dessa substância para amansar corruptos?”…

Mergulho nas Ilhas Tonga e Fiji


Tonga ou Ilhas Tonga é um país regido por monarquia hereditária, que é a única do Pacífico. Trata-se de um arquipélago situado na Polinésia Ocidental, no continente da Oceania. Já as Fiji, oficialmente a República das Ilhas Fiji, conformam um arquipélago que se situa a oeste de Tonga, portanto, também localizado na Oceania.

Ambas são nações polinésias insulares. Já estiveram no passado sob o domínio da Grã-Bretanha. Talvez, por isso, seus povos, tonganeses e fijianos, convivam tão bem, a manter os mesmos hábitos ancestrais de atenção ao ambiente, à humildade e aos direitos humanos. Por sinal, de forma curiosa, hábitos incompatíveis com a Grã-Bretanha vitoriana.

Ilhas Fiji

No entanto, os tonganeses não recebem muito bem imigrantes asiáticos, especialmente comerciantes chineses provindos de Hong Kong. Vários foram os casos de litígios entre eles, o que resultou na emigração, de volta a China, de grande parte dos chineses.

Por outro lado, os fijianos não admitem o turismo de massa em suas terras. Para eles são terras sagradas que não podem ser vendidas a estrangeiros em geral.

Mas em Fiji também ocorreram problemas políticos com asiáticos. Por volta de 1987, seu governo tinha maioria de ministros indianos, levados para lá pela Grã-Bretanha. Seu povo mais nacionalista, os Taukei, correu com todos de suas terras e armou um golpe militar.

Esta introdução, um tanto confusa, talvez por força dos dois países serem “salpicões” de ilhas, dá lugar a memoráveis imagens tomadas nas profundezas do Pacífico, com sua incrível biodiversidade de espécies marinhas, recifes e corais.

São filmagens feitas por um grupo de mergulhadores ocidentais, com alta resolução e imagens em três dimensões. Espera-se que os monitores dos interessados sejam aptos para captar sua beleza e admirar surpresas em nitidez, cores, formas vivas e movimentos – © Nick Hope. Premiado como melhor vídeo submarino de 2011.

Nova erupção do Tavurvur


Situado na localidade de Kokopo, Papua-Nova Guiné, o Monte Tavurvur entrou novamente em erupção na sexta-feira, 29 de agosto. Porém, foi em 1994 que ocorreu seu mais potente evento vulcânico, chegando a devastar a cidade de Rabaul, na Ilha de Nova Bretanha.

Monte Tavurvur entra de novo em erupção

Monte Tavurvur entra de novo em erupção

Papua-Nova Guiné situa-se na Oceania, no chamado Círculo de Fogo do Pacífico, em decorrência de seus vários vulcões ativos e extintos. Por possuir um território pequeno (452.860 km² de área terrestre) e ser formada por ilhas e arquipélagos, com relevo raso, onde predominam planícies costeiras, é bem vulnerável a terremotos, vulcanismos e tsunamis. Por sinal, são eventos ambientais geologicamente próprios daquela região.

No caso da erupção recente do Monte Tavurvur, há o vídeo feito por um turista norte-americano, que captou o momento exato da eclosão do Monte. Aliás, ele avisa aos presentes no barco de onde filmava que os ruídos do vulcão os atingirá com elevada intensidade.

Sete dias antes desta erupção (23 de agosto), o Bardarbunga, maior e mais perigoso vulcão da Islândia, teve uma erupção sob a camada de gelo (subglacial), após a ocorrência de vários sismos de média intensidade.

A Islândia possui um dos melhores sistemas de pronta-resposta a eventos desta natureza. Visam a salvar pessoas, animais domésticos e gado que habitam nas imediações das caldeiras de lava. No caso do Bardarbunga havia o risco do degelo acelerado de glaciares e o consequente derrame de elevado volume de água drenada nas suas encostas. Pode provocar fortes inundações e até mesmo tsunamis. Nesses caso é comum a destruição de estradas e pontes, que deixam as comunidades sem acesso aos víveres básicos.

Imagem do Bardarbunga em erupção

Imagem do Bardarbunga em erupção

De toda maneira, dentro do possível, desejamos melhor sorte a papuanos e islandeses. Isso não é um consolo, mas caso dependessem de planos de resposta formulados por autoridades brasileiras (políticas) já seriam povos extintos.

O ato de escrever e as dúvidas correlatas


Ricardo Kohn

Ricardo Kohn

Várias são as dúvidas que atormentam a cabeça de um escritor antes e durante a redação de um texto. Mas poucos são os leitores que sabem disso. A maioria apenas exige clareza, boa argumentação e significado relevante após sua leitura. De outro modo, o resultado final do artigo precisa ser capaz de gravar a fogo um “xis” no cérebro do leitor, do contrário ele segue reto para o lixo do esquecimento.

No entanto, para o escritor, a oferta espontânea de textos constitui uma ação voluntária de compartilhar ideias, de oferecer opiniões, de trocar conhecimentos com seus leitores. Enfim, é um ato de esperança, que quase implora para conversar com pessoas interessadas.

A primeira dúvida é a escolha do tema do texto. Por exemplo, para a maioria dos escritores o tema é fundado em fatos diários, onde textos críticos ou “de apoio” têm maior representação no espaço cultural. Neles, “o nome dos bois” precisa ser dado, pois do contrário não causam o impacto desejado. Graças a isso, são os textos que informam ao público mais atento e assim fortalecem a democracia em países civilizados.

Outra dúvida refere-se à natureza do texto a ser redigido. Pode ser uma simples notícia, um editorial, uma opinião e segue a plêiade de gêneros literários: crônica, sátira, ensaio, conto, etc. Mas diria que esta dúvida pode ser resolvida com facilidade. Basta que qualquer gênero seja tratado simplesmente por artigo.  Afinal, a preocupação com a escolha da forma não é relevante para o leitor em geral. Contudo, devo salientar, costumo “classificar” os textos que redijo segundo o gênero que considero pertinente. Mas sem preciosismos. Trata-se de um hábito que mantenho desde que iniciei a redigir.

Entretanto, a maior preocupação do escritor consiste em “como escrever” acerca do tema escolhido e, além disso, conseguir manter o texto amarrado ao seu foco principal. Sempre ocorrem em escritores impulsos de criar subtemas e saírem do foco. Mas é possível contornar esse desvio. Uma boa prática é o uso da nota de rodapé.

Da preocupação em “como escrever” surgem muitas dúvidas, consideradas bastante normais: gramaticais, sintáticas, a escolha de verbetes para cada situação e a conexão interna do texto, ou seja, sua estrutura consistente, mostrada pela sequência adequada dos parágrafos e a conversa lógica entre suas frases, que sempre deve ser clara e informativa [1].

No entanto, se o texto for surpreendente, ainda melhor! Por isso, tento encerrar a maioria de meus artigos com algo dentro do foco, mas que provoque à imaginação do leitor. De maneira sincera, gostaria, através de meus textos, de ser capaz de fazê-lo levantar da cadeira ao fim da leitura, com uma boa interrogação na mente e disposto a refletir mais sobre o tema que abordei.

Escrever para um website ou blog não é diferente, pois as dúvidas do escritor são as mesmas e o processo requer mais alguns cuidados. Por exemplo, para documentar um artigo é razoável que se tenha fotografias adequadas para ilustrar o texto. De certa forma, isso atrai mais leitores. Mas às vezes não há imagens que atendam ao texto. Assim, tenho duas coisas a dizer que julgo importantes, pela razoável experiência adquirida na literatura:

  • Quando não se tiver uma foto consistente com o teor do artigo, usa-se uma imagem que traga leveza visual, com ou sem legenda; e
  • Quanto à nota de rodapé que usei, para não perder o foco deste artigo, não tive a intenção de doutrinar ou “evangelizar” ninguém. Apenas a de completar explicações e motivar a reflexão de pessoas interessadas no assunto.
Texto manuscrito em Siríaco

Texto manuscrito em Siríaco

__________

[1] Não há dúvida que políticos brasileiros dos últimos 12 anos cometem atrocidades com a língua portuguesa, nada “claras e informativas”. Erros de gramática e sintaxe são assustadores. Conexão entre parágrafos e frases não existem quando mentem de improviso. Porém, acima de tudo, não devem ser esquecidos os “verbetes curiosos” que são proferidos, sem qualquer sentido para pessoas com inteligência mediana.

Gostaria de saber, sobretudo, o significado de expressões ditas políticas, tais como “centralidade da necessidade”, “consenso progressivo”, “esforço transversal”, “sonháticos” e “agenda plasmante”. Parece palavrório ordinário vomitado por “filósofo evangélico da Universal”. Aposto que trazem o risco de serem outro embuste para encurralar a sociedade brasileira, já acuada pelo altaneiro cinismo de políticos corruptos.

A incrível e triste história da posta podre e seu cozinheiro desalmado


Tentativa de homenagem ao escritor Gabriel Garcia Márquez.

Hotel Suíça. Era um verdadeiro 10 estrelas, a arrasar conforto em qualquer lugar do mundo. Fora um projeto desenvolvido de 2003, desenho de um arquiteto reconhecido no exterior, habituado a rabiscar palácios e igrejas monumentais. Suas obras foram concluídas em 2006, porém, bem afastadas do centro da cidade. Não respeitava as regras do plano diretor, pois estava  fora da área reservada à hotelaria, desenho de um famoso urbanista que planejou a cidade.

Resultou um prédio de oito andares, com vista do terraço para o lago e a floresta, de estrutura leve que chegava a pairar no espaço. Era todo envidraçado, cheio de canteiros floridos, com cursos e quedas d’água que circulavam ao seu derredor, sem nunca parar de fluir. Uma obra da engenharia.

Um hotelzinho furreca que lembra o Suíça

Dependência de um hotelzinho furreca que lembra o Suíça

Contudo, a água não era desperdiçada. Apenas circulava, através de um simples sistema de vasos comunicantes, movido pelas bombas silenciosas das quatro piscinas do Suíça. Por sua vez, as piscinas tinham “cascatas nas cabeceiras”, que simulavam enchê-las de forma permanente, sem as transbordarem. Essa operação de mera realimentação do sistema não era percebida pelos frequentadores do hotel, todos boquiabertos.

O prédio era circundado por muro de pedra, com 5 metros de altura. Mesmo assim, podia-se contemplar o hotel de vidro. Porém, por motivos óbvios, apenas o interior dos apartamentos não podia ser visto por transeuntes. Mas, além disso, e sem qualquer explicação razoável, a cozinha não podia ser avistada, nem visitada pelos hóspedes. Em suma, devia ser a forma de resguardar a intimidade dos “clientes” e de seus “amigos”. Inclusive, os gerentes do Suíça divulgavam à boca pequena que a “engenharia da intimidade” era a “reserva da casa”.

No entanto, suas dependências de uso coletivo eram todas visíveis, embora sempre turvadas. Aos curiosos não era possível reconhecer as feições das pessoas que se cumprimentavam no interior do hotel, mas viam todo o movimento interno do Suíça, apenas como se “clientes” e “amigos” fossem fantasmas sem cara, os chamados “descarados”.

Desse modo, era possível ver imagens difusas do belo restaurante, adornado por um bar para soberanos, o salão de jogos de cartas, as máquinas de caça níqueis enfileiradas. Até mesmo sua esplêndida adega era quase translúcida. Era provida de divisórias feitas com cristal importado, que mantinha a temperatura interior regulada e não permitia a entrada de luz e calor que afetassem a qualidade das bebidas. Todas, com raríssimas exceções, importadas dos melhores centros produtores do mundo.

Os clientes do Suíça. Os frequentadores do hotel não moravam na cidade. Provinham de outros estados ou mesmo de vários países. Pouco se sabe a respeito deles, além do fato de que sempre estavam lá a fazer “negócios”. O Suíça tomava todas as precauções para que não fossem identificados por intrometidos.

Em linhas gerais, eram pegos por limusines negras e blindadas, com vidros recobertos por uma película escura que impedia a visão do seu interior. Os “clientes” eram recolhidos na pista do aeroporto internacional, ao lado de seus jatinhos particulares, sempre taxiados ao largo dos terminais. Por isso, no aeroporto era proibido entrar com luneta ou binóculos.

Dessa forma, o máximo que se sabia é que chegara alguém para o hotel, pois via-se uma dessas limusines a trafegar pela cidade, com quatro batedores mascarados, ostensivamente armados. De certa maneira, lembravam os “Black Blocs” de hoje, só que sempre a dirigir potentes motocicletas.

A chegada dos clientes era realizada através de uma via interna lateral, que os desembarcava em um lobby de mármore de Carrara, situado aos fundos do hotel. Porém, essa via era protegida por mais vários seguranças, também armados, que impediam a qualquer curioso aproximar-se e bisbilhotar o “visitante”. Ficou-se a saber, após a extinção do Suíça, em 2009, que seus seguranças eram lutadores de MMA, muito bem treinados e violentos.

Os amigos dos clientes. O procedimento do Suíça para conduzir os “amigos locais” até seus clientes era similar em termos da segurança. De resto era distinto, de forma a não chamar a atenção dos moradores da cidade. Usavam possantes caminhonetes blindadas, de cores variadas, mais o aparato de escurecimento dos vidros.

Todavia, o local em que os “amigos” eram recolhidos variava a cada “encontro de negócios”. E nunca era na instituição em que trabalhavam. Da mesma forma, eram desembarcados no lobby, ao fundo do hotel. Era dessa maneira que o Suíça garantia sigilo absoluto dos “encontros de negócios” que somente se realizavam em suas dependências.

A vizinhança do Suíça. A curiosidade da população da cidade em desvendar esse “segredo urbano” foi de tal ordem, com tal intensidade, que um mês após a inauguração do hotel, começou a nascer uma espécie de vila à sua volta. Primeiro chegaram as barracas de campanha; depois foi sendo construída uma favela de barracos, um oratório, um bar e, por fim, um prostíbulo. Em um ano a população dessa “vila livre” tinha mais de cinco mil moradores e fedia pra dedéu.

Não se sabe bem o porquê, mas alguns partidos políticos da base aliada ficaram preocupados com a invasão das terras públicas. Seus políticos mais eminentes fizeram pronunciamentos agressivos no Congresso Nacional contra o que chamaram de “barbaridade urbana”. Mas, por incrível que pareça, todos a favor da propriedade privada, da suntuosidade do célebre “hotel de negócios”.

Porém, logo em seguida, o poder executivo manifestou-se para a garantir a legitimidade das invasões e, em uma resposta arbitrária (como sempre), fundou dois movimentos, os do “sem-terra” e os do “sem-casa”. Vale ressaltar que, mais tarde, num ataque desenfreado de populismo, esses movimentos tornaram-se o principal programa do governo, embora tenham sido inócuos para os esquemas pretendidos. Tanto é verdade que a “vila livre” permaneceu, cresceu e virou quase cidade, tal como um satélite a orbitar o “hotel de negócios”.

A reação dos negociantes”. De fato, nunca se soube quem eram os proprietários do Hotel Suíça. Sobretudo, por que se tratava de uma sociedade anônima, com algumas evidências de que sua “sede laranja” estaria localizada no paraíso das Ilhas Virgens. O que, afinal, dava-lhe o traço religioso da piedade.

Mesmo assim, piedades à parte, os proprietários estavam furiosos por que perdiam negócios com a existência da favela-satélite que cercava e constrangia o hotel. Ela atuava como uma sucuri gigante a apertar com seus potentes anéis o bolso dos sócios do hotel.

Por outro lado, como os “clientes” estavam a reduzir as “visitas”, seus “amigos” também não mais conseguiam os “negócios fáceis” de sempre, com que se locupletavam.

Assim, houve um enlouquecimento coletivo, até que um “cliente” sugeriu uma reunião de todos os envolvidos: os donos reais do Hotel Suíça, todos os “clientes” e seus respectivos “amigos”. Nesse encontro seria decidido o que fazer com a sucuri gigante, causadora de todos os males por que passavam.

Todos concordaram com a sugestão. Todavia, um gerente do hotel considerou que cuidados especiais deviam ser tomados para que a imprensa não descobrisse aquela reunião histórica. Mas não disse quais seriam esses cuidados. Porém, como o risco de divulgação era elevado, um dos acionistas do Hotel Suíça acabou por firmar a solução final:

─ “Não vamos chamar o evento de reunião ou encontro, mas de ‘Ceia da Assunção’. O hotel abrirá suas portas para todos os clientes e amigos. A ceia terá início às 2:00 da madrugada da próxima segunda-feira, quando a cidade já estará em silêncio, sem imprensa. Nosso chef vai preparar, como prato principal, lindas postas de bacalhau que importei da Noruega. Além disso, a adega estará livre desde a entrada e o primeiro prato. Serviremos um prato leve de salmão norueguês defumado; de entrada, caviar russo, escargot e ostras francesas”.

A Ceia da Assunção. Os jatinhos começaram a aterrissar por volta da uma hora da manhã. Era uma noite escura de quarto-minguante. A iluminação das ruas fora reduzida, pois o país enfrentava mais uma crise de energia. As limusines negras, silenciosamente enfileiradas, sem os batedores, chegaram tranquilas ao hotel. A cidade e a “vila livre” estavam adormecidas.

O hotel não tinha luzes acesas. Um eventual passante curioso não poderia ver nada da rua. Os próprios participantes da “Reunião Sucuri Gigante”, conforme ficou conhecida, acharam estranho. Porém, foram surpreendidos com a existência de mais um elevador no lobby, que nunca haviam visto, dada sua posição afastada dos demais. Entraram no elevador e saíram na mais magnífica e espaçosa cozinha que um hotel poderia ter naquela ocasião.

Tinha cerca de 300 m2 bem aparelhados, inclusive com um sistema de câmeras de segurança que oferecia imagens e áudio do interior do hotel e de sua vizinhança. Continha um espaço de 100 m2 reservado para a guarda do hotel, que fora transformado em sala de reunião para aquela oportunidade. Foram recebidos amistosamente pelos três sócios anônimos, que não conheciam até então, acompanhados pelo chef de cuisine, o francês, monsieur Wagallume de Tonnais.

Sentados à mesa, com espaço para 50 pessoas, os acepipes começaram a ser servidos por vários garçons, todos sorridentes, mas silenciosos. As cabeceiras foram ocupadas por sócios do hotel. Então, o dono da solução levantou-se e dirigiu-se aos presentes:

─ “Sem delongas e rapapés, quando necessário, tratem-me por Ostentor. Para não perdermos tempo, recomendo que não façamos debates sobre o destino que vamos dar à nossa tal vizinhança. Concluo que somente temos duas opções: ou fechamos o hotel e encerramos nossos negócios no país ou demolimos a favela”.

O chef de Tonnais preparava o prato principal, mas aguardava a solução que seria dada pelo grupo. E Ostentor continuou:

─ “Mandei imprimir uma cédula de voto com as duas opções. Os senhores só precisam marcar com um ‘xis’ a que preferem que seja executada. Nada melhor para legitimar uma decisão do que um plebiscito social, não acham?”. E soltou uma breve gargalhada.

O terceiro sócio distribuiu as cédulas a todos os presentes. Em dois minutos a votação estava encerrada. Ostentor pegou a “urna” (uma cesta) e anunciou o resultado da contagem.

─ “Senhores, silêncio. Decidimos por unanimidade demolir a favela! A minha segurança vai executar essa ordem. Estou com fome, vamos às postas de bacalhau norueguês e aqui não se fala mais nisso”.

Todos se levantaram e abraçaram-se. Cumprimentaram com acenos de mão ao Ostentor, que acabara de se tornar líder absoluto daquele esquema de negociantes.

Comeram e beberam a mais não poder. Consumiram o salmão defumado, o escargot, o caviar e as ostras chatas e carnudas da Bretanha. Foi então que o próprio chef veio à mesa e serviu a Ostentor. Os demais foram atendidos pelos garçons, mas continuaram a se fartar.

Em agosto de 2009, amanheceu um dia lindo e ensolarado. Quando a polícia e os legistas chegaram, em resposta a um telefonema anônimo, encontraram todos mortos na cozinha do hotel, inclusive a guarda de segurança e os motoristas. Um dos legistas, o mais experiente, disse que tudo indicava que houvera um envenenamento em massa, pela baba fétida que saía da boca dos defuntos, decerto recém abatidos.

Todavia, do outro lado da rua, impedidos de se aproximarem pela ação da polícia, estavam os aflitos mais curiosos da vizinhança, interessados em saber o que acontecera no hotel impenetrável. Dentre eles, se destacavam o francês e sua mulher, moradora de um barraco na vila. Os dois estavam tranquilos.

Ricardo Kohn, Aprendiz de Escritor.