Travesti de político


Ricardo Kohn, Escritor.

Chega-se ao 2º turno. Há dois finalistas dispostos a combaterem. De um lado, Jair Bolsonaro, que demonstra com fatos indiscutíveis a ausência da segurança pública no país, segundo ele, criada pelos quatro governos petistas que se sucederam. Além disso, e sobretudo, a medonha corrupção orquestrada que se abateu sobre o Estado Brasileiro, com suas imorais consequências para a economia da nação.

No outro corner, estonteado, encontra-se Fernando Haddad, amestrado por seu diretor de teatro, na verdade, por Lula, o transformista, atrás das grades por 12 anos. Em entrevistas, a iludir desinformados, Haddad afirma ser o democrata que governará o país em prol da riqueza do povo brasileiro. Todavia, consta de seu Currículo Lattes a seguinte formação acadêmica: (i) Graduado em Advocacia (1985); (ii) Mestrado em Economia, com apresentação da monografia “O Caráter Socioeconômico do Sistema Soviético” (1990); (iii) Doutorado em Filosofia, com a defesa da tese “De Marx a Habermas – o Materialismo Histórico e seu Paradigma Adequado” (1996).

Deduz-se que Haddad dedicou pelo menos 12 anos de sua vida universitária a estudar a economia da União Soviética, o Materialismo Histórico (Karl Marx) e o Novo Marxismo, segundo a visão de um idiota, o filósofo Jürgen Habermas. Hoje, diz de si para si, defronte o espelho de seu quarto: ─ “Sou o cérebro do comunismo moderno”. Em seguida, sofre surtos de diarreia, segundo dizem.

Logotipo travestido da campanha petralha

Travesti de partido político

Desse modo, que a decência nos acuda, pois ─ “Onde estaria o dito democrata”?! ─ “Como criaria riquezas para distribuir a seu povo”?! Quem sabe, talvez através de sua soviética bondade ditatorial-proletária. Em suma, “caro travesti de comunista, em que lixeira você largou sua moral esbagaçada”?!

Política dos Cofres Arrombados


Zik-Sênior, o Ermitão.

Zik Sênior

Zik Sênior

Nasci em 1908, filho de família abastada. Assim, em abril, completei 110 anos. Mas sinto-me bem de saúde e mantenho a paz dos eremitas, sem que tenha cumprido qualquer penitência. Nunca fiz penitências; sou ateu e gosto de viver no que chamam solidão. Nela – na solidão – não tenho vizinhos que me amofinem, nem intrusos que molestem o silêncio da mata que margeia minha pequena casa; aliás, casa que construí com pedras, ripas de madeira e muita vidraça. De dentro dela, em qualquer local, aprecio a fauna silvestre que perambula pela mata, os pássaros a gorjear, o cântico das águas. Com esta ótica, descobri que a solidão não existe.

Por outro lado, desde a adolescência, consegui manter-me atualizado com a tecnologia. Tanto é assim, que possuo um notebook, acesso à internet, e o tal do “celular inteligente”. Com eles mantenho-me informado sobre os acontecimentos diários. Sentado à minha mesa de trabalho, pesquiso o que desejo em websites. Quando preciso relaxar, basta elevar o olhar e, através da vidraça, ver a dinâmica da mata à minha frente.

Esta é minha humilde casa

Esta é minha humilde casa na mata

Em minhas pesquisas matinais, busco artigos sobre economia e política. O motivo é evidente: estou aposentado e vivo da renda que obtive com meu trabalho; 76 anos de trabalho. Assim, pensava que, caso as decisões políticas de governantes fossem nefastas, minhas economias seguiriam para o lixo. Acreditava que, na minha idade, isto seria fatal. Mas estava enganado. Explico por quê.

Durante a vida assisti a decisões políticas absurdas, a que chamo de genocidas: acompanhei inúmeras guerras, inclusive duas Mundiais; como outros, sofri efeitos maléficos do cracking da Bolsa de NY; durante cerca de três décadas, vivia angustiado com a dita Guerra Fria, pois o mundo estava à beira do embate nuclear. Aqui no Brasil, na qualidade de ferrenho opositor, enfrentei a ditadura de Vargas; convivi com 25 anos de ditadura militar; afora, com os 30 anos do populismo selvagem que conseguiu idiotizar a nação.

Ao fim, em pleno século XXI, Era da Informação, o país permanece dividido entre Esquerda e Direita. O que causa perplexidade é a existência de um tal Centrão; na verdade, Corruptão, aqui em casa conhecido como “Bloco do Pagou-Levou”. É formado por ladrões de nascença, com gene da corrupção gravado no DNA.

Reclamar do quê? Sobrevivi a tudo isso. Hoje, aos 110 anos, tenho credibilidade para narrar essas “peripécias políticas”, digamos assim. A um tempo atrás, acho que estraguei meu título de eleitor. Mas esse ano darei o meu voto. Sou democrata, conservador, e acredito no livre mercado que me trouxe até aqui: lúcido, com sanidade mental. Como nunca fui corrupto, votarei para presidente num cidadão que extermine a Política dos Cofres Arrombados.

Lembro-me que, certa vez, por saber minha idade, um catarinense me sugeriu: ─ “Trate bem o solo em que tu pisas; um dia ele será teu teto”. Assim espero.

Armem-se, cidadãos!


Ricardo Kohn, Escritor.

Arme-se com argumentos sólidos, pois do contrário perderá o embate com os delinquentes! Use sua razão ao extremo. Porém, é básico escutar mais do que falar. Não gaste verbo à toa. Sempre tenha em mente reflexões que se contraponham à verborragia idiota dos delinquentes.

Desde já, saiba que estará sob ataque; às vezes cerrado! Afinal, esteja certo que os delinquentes são implacáveis. Todavia, têm pontos fracos: (i) mentem muito e, não raro, são descarados; (ii) acham-se famosos e insuperáveis; além disso, (iii) dizem possuir capacidade para produção em série de delinquentes. Mas tudo leva a crer que isto é blefe. De todo modo, tenha atenção, pois eles sonham atacar-lhe como quadrilha, dado que estão desesperados. Portanto, arme-se com argumentos fortes!

Cidadã que se defende

Esta cidadã se defende!

Esse cenário atingiu aos píncaros em certos países desenvolvidos. Por exemplo, nos Estados Unidos há muitos cidadãos comuns com porte legal de arma de fogo. Portam-na inclusive quando fazem compras em supermercado! É uma prática normal de precaução, na defesa da própria vida. Afinal, nunca se sabe se ao lado do cidadão encontra-se um delinquente. A ser assim, nada se compara à presença ostensiva de uma 9 mm na cintura. De fato, trata-se da ferramenta capaz de desestimular delinquentes audaciosos. É muito provável, aliás, que se todos os cidadãos de bem pudessem portar arma de fogo, não ocorreriam cerca de 60.000 assassinatos/ano no Brasil!

Entretanto, na nação brasileira a delinquência foi além, assumiu a política. O que não faltam no país são delinquentes políticos. É notório que muitos milhares deles tiveram a audácia de roubar cofres públicos. Pergunta-se: ─ Quantos foram investigados? ─ Quantos, indiciados? ─ Quantos se tornaram réus? ─ Quantos, condenados? ─ Quantos continuam presos?

Presos?! Que blasfêmia cometida contra “amáveis delinquentes políticos”! Apenas uma ninharia deles encontra-se a dormitar em celas de luxo. Porém, aguarda que certos “justiceiros da justiça” – todos delinquentes jurídicos, devidamente nomeados – votem em favor de sua debandada geral.

A ser assim, armem-se, cidadãos! Há que se contra-atacar com poderosos argumentos, a impedir que a nação continue a ser esta vergonha mundial, dominada por vagabundos!

Dólar na calcinha


Ricardo Kohn, Aprendiz de Filósofo.

Todos lembram de um assessor de deputado federal cearense, preso num aeroporto paulista, em 2012. Carregava R$ 209 mil em sua mala, além de US$ 100 mil espremidos na cueca. O que me espantou, à época, foi a Polícia Federal não haver instalado uma severa “Operação Cueca”. Até por que, além do oprimido assessor, cumpridor de ordens, os reais protagonistas desse cenário eram dois políticos irmãos, presidentes PT do Ceará e do PT Nacional, uma empreiteira a sobrefaturar continuamente e o maleável Banco do Nordeste, notório pelas sucessivas corrupções de que participava.

Após as investigações superficiais do incidente da cueca, nenhum político foi preso pelo crime. Mas essa moda quase pegou, pois, cueca tornou-se meio de transporte especial de propina.

A caríssima cueca-cofrinho: 1 mi de US$

A caríssima cueca-cofrinho: 1 mi de US$

Veja, em 2018, numa estrada do município catarinense de Sombrio, um homem foi preso pela PRF quando foi constatado que carregava US$ 20 mil em uma pochete, presa à cueca. Foi conduzido à delegacia da PF de Criciúma, mas logo foi solto. Justificou que voltava do Uruguai e, como não havia achado atrativo o valor dos produtos à venda, permanecia com os dólares; vale observar, os dólares foram retidos pela Polícia Federal.

Todavia, dois eventos-cueca isolados – um, em 2012; outro, 2018 – não garantem que sejam a prática normal das quadrilhas de corruptos nacionais, ao contrário, podem ser coincidências. Neste invólucro ínfimo, por vezes malcheiroso, não cabem milhões de dólares. É pura questão de espaço, cueca não é carro-forte. Assim, por mera curiosidade, gostaria de saber qual foi o idiota que teve a estúpida ideia de usar cueca-cofrinho para despesas pessoais – até US$ 100 mil.

A título de conselho, devo dizer-lhe: ─ Prezado idiota, com as enormes bundonas que há no Congresso, cada calcinha pode transportar, no mínimo, US$ 600 mil. Aposto que a PF nunca mandará uma parlamentar arriar a calcinha… Desse modo, você só precisa escolher o melhor partido de corrputos para efetuar sua trampa.

Primatas constroem a Antroposfera


Ricardo Kohn, Aprendiz de Filósofo.

Há cerca de 4,6 bilhões de anos, num ponto aleatório do espaço sideral, gigantescos blocos de rocha travaram o jogo da existência, ao acaso. A energia que os alimentava nesse furioso embate era de origem desconhecida. Todavia, após milhares de milênios, os blocos se permitiram coexistir: expeliram grandes volumes de gases quentes [desgaseificação], desaqueceram-se, e se mantiveram em razoável estabilidade até os dias atuais. Deste modo, ao acaso, blocos rochosos formaram a Litosfera de um novo astro, magnetizada por minerais metálicos, a que se chama Ambiente Tectônico [de um astro perdido no espaço sideral].

Os gases expelidos, atraídos pelo magnetismo da Litosfera, permaneceram em seu entorno e acabaram por formar a Atmosfera do novo astro, a que se chama Ambiente Atmosférico [de um astro desconhecido a navegar pelo cosmo]. É notório que outros corpos siderais se chocaram com o astro recém-formado. Mas existe a teoria que esses corpos celestes continham, dentre outros componentes [minerais, água e organismos unicelulares], gases incorporados às suas estruturas físicas. Assim, infere-se que, pela lógica, hajam contribuído para ampliar a Atmosfera do novo astro.

Na medida em que houve o gradual resfriamento da Litosfera do astro, grandes volumes de líquido decorrentes da condensação de gases emergiram de suas rochas, a formar sua Hidrosfera; chama-se por Ambiente Aquático, que então ocupava por volta de 60% da superfície do astro. Além disso, ocorreram as primeiras formações de nuvens na Atmosfera, a dar início a precipitações líquidas sobre o astro, agora confirmado tratar-se de um planeta, uma vez que sua Litosfera não se resfriava mais, não emitia luz própria, além de possuir dimensões largas e aparente autonomia de existência no cosmo.

Todavia, durante pelo menos 4,2 bilhões de anos, este planeta permaneceu inerte, a tostar suas rochas e solos sob as inclementes tempestades solares. Afora isso, foi trombado por milhões de asteroides, meteoros e cometas. A ser assim, mesmo debaixo dessa tempestade de ameaças, seu Ambiente Físico [Litosfera, Atmosfera e Hidrosfera] manteve-se estável. De outra forma, era como se os bens de propriedade do ambiente físico [rochas, gases da natureza e corpos d’água] “sentassem à mesa para resolver como permaneceriam úteis uns aos outros”.

Evidente que essas reuniões nunca ocorreram. No entanto, os seres vivos surgiram de maneira quase mágica. Aconteceram para formar a Biosfera ou “esfera da vida” do planeta. Embora haja inúmeras abordagens sobre o que é e como foi formada a Biosfera, opta-se por sua forma mais simples, qual seja: é o conjunto das espécies florísticas primordiais e, a ele agregado, o conjunto das espécies faunísticas primordiais. Ou seja, a Biosfera envolve a flora e a fauna primordiais, incluídos os fungos; nada além.

Parece não haver dúvida que ela se formou em função do suporte físico oferecido pelo planeta. É sobre ele que a Biosfera se agrega, aleatoriamente, por necessidade e acaso. Desse modo, é certo que o Ambiente Biótico resultou das relações mantidas entre a Litosfera, a Atmosfera e a Hidrosfera. É provável que essas relações tenham promovido reações físico-químicas que resultaram em organismos vivos. Entretanto, ninguém sabe ao certo como a Biosfera se formou, embora haja teorias sobre a chamada “sopa primordial”, um produto de laboratório talvez capaz de transformar elementos orgânicos/inorgânicos em seres vivos[1].

Todavia, o que mais importa é debater quais benefícios a Biosfera trousse para o planeta físico. Assim, para efeito desta narrativa, retorna-se à reunião hipotética entre as rochas, gases da natureza e corpos d’água. Se estes bens primordiais fossem capazes de conversar entre si, concluiriam que a cobertura vegetal biosférica tornaria o planeta mais protegido da inclemência solar; que a evaporação de suas águas seria recomposta por chuvas; que a fauna primordial a ela agregada demonstraria sua mobilidade planetária; que desse modo o planeta físico se tornaria mais complexo. Verificariam que os Ambientes Físico e Biótico deveriam interagir, a manter relações ambientais de reciprocidade entre seus bens constituintes que, apesar de aleatórias, permitiriam a manutenção e/ou evolução dos bens primordiais básicosar, água, solo, flora e fauna.

Muito embora a imaginação possa dar voz a entes físicos e a seres que não falam, há cerca de 6 milhões de anos, todos esses desejos tornaram-se reais com a assunção da “esfera das relações do ambiente”, a que se chama Ecosfera. Dela resultou a consolidação do Ambiente [terráqueo].

Tudo corria bem com a evolução do Ambiente, até que por volta de 2 milhões de anos atrás, apareceram novos grupos de primatas. Porém, dentre eles, o grupo mais recente [com origem estimada a 200 mil anos atrás] se comportava de forma diversa dos demais símios. Perambulavam pelo planeta em busca de carne fresca; matavam os grandes sauros, pois eram vorazes; reproduziam-se em larga escala; perseguiam-se e matavam-se uns aos outros.

Então, num dia perdido há 12 mil anos, resolveram fixar-se em cavernas e choupanas. Construíram seus espaços com galhos e fustes da flora silvestre, que dizimavam sem piedade. Eram egocêntricos, temerários, dominadores, agressivos e achavam-se invencíveis. Embora, na ótica do Ambiente fossem supérfluos, inadequados com seu conteúdo vazio e físico frágil.

De fato, em sua maioria, até hoje são seres vazios. Todavia, por reproduzirem-se em larga escala e de forma nefasta, procriaram uma imensa população de primatas sapiens. Por sinal, liderada por seres idiotas, dominadores e agressivos que se acham insuperáveis! Assim, quando empilhados aos bilhões de habitantes, tornaram-se uma ameaça temerária ao Ambiente.

Favela da Rocinha, imagem da Antroposfera

Favela da Rocinha, uma das Deusas da Antroposfera

Esse cenário chama-se Antroposfera. Com somente 10 mil anos de existência, constitui a esfera do planeta construída pelo sapiens, o temerário primata. Desde então, para executar suas obras, demole a Litosfera, polui a Atmosfera, contamina a Hidrosfera e devasta a Biosfera. Por se considerar invencível e insuperável, em breve chegará o tempo em que os primatas sapiens viverão num astro deformado, a navegar pelo cosmo, debilitado e ao acaso. O planeta não existirá mais graças aos arranha-céus que nele são dependurados, diariamente. Conclui-se que, após 4,6 bilhões de anos de trabalho intenso, se transformará em “terra arrasada“, sem qualquer significado.

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[1] Neste artigo não se debate esta teoria. Aqueles que desejarem conhecer algo sobre o tema, sugere-se que pesquisem por “sopa primordial”.

Ao filósofo Millôr Fernandes


Ricardo Kohn, Escritor.

Ricardo KohnEm agosto de 1923, mais um carioca analfabeto nascia no Meyer. Foi batizado com o nome Milton Viola Fernandes. Seu apelido – Millôr – somente aconteceu mais tarde, creio, quando já era notório jornalista, aos 19 anos de idade. Porém, o que importa foram suas contribuições culturais, tanto as de fundo crítico e irônico, como, por vezes, as dotadas de fabuloso nonsense. Durante sua vida escreveu artigos para jornais e revistas, quase sempre acompanhados por seus desenhos ilustrativos; redigiu e adaptou várias peças de teatro; escreveu inúmeros livros, onde destaco “A Verdadeira História do Paraíso”, por sinal, lançado numa noite de autógrafos conhecida como “Noite da Contra-incultura”; traduziu obras de muitos autores clássicos, onde destaco Sófocles, Shakespeare, Cervantes, Molière, Pirandello, Beckett e Brecht; em Buenos Aires, venceu um concurso de desenhos; em Ipanema autoproclamou-se campeão de frescobol do posto 9; se bem recordo, em 1973, Millôr foi promovido a cidadão mineiro pela Câmara Municipal de Conceição-de-Mato-Dentro. Talvez pela grandeza de sua obra, por certo desconhecida daquela vereança simpática.

Bananas pra nossa cultura

Este pensador carioca deixou um grande legado cultural, tanto para sua geração, quanto para um futuro incerto, sobre o qual nunca fez qualquer previsão concreta, apenas sutis provocações. Considerava-se relativamente ateu, mas um dia ponderou que “o cara só é sinceramente ateu quando está muito bem de saúde”. Disse ainda que “acreditar que não acreditamos em nada é crer na crença do descrer”. Assim, por dedução, infiro que desejava dizer: “… crer na crença do descrer é ser ateu convicto”.

Não me recordo por quê, mas, certa feita, Millôr escreveu: “no Paleolítico ninguém acreditava no Neolítico”. Porém, inferiu com maior agudeza de espírito quando redigiu seu próprio evangelho. Transcrevo uma de suas verdades virtuosas: “Todo Juiz, mergulhado num julgamento de corrupção, sofre um impulso pra cima igual ao peso dos corruptos por ele inocentados[1].

Por óbvio, as consequências dessa virtuosidade devem ser debatidas. Interpreto-a como se fora uma aplicação da Física Pura! O “impulso pra cima” acontece na conta bancária do julgador, por força da energia potencial que transforma a “corrupção de seus inocentados” na sua própria “alegria monetária”. A agir dessa maneira, o magistrado acumula “energia cinética” (US$) mais que suficiente para viajar felicíssimo por todos os continentes, comprar mansões, milhares de hectares de terra, iates e carrões, tudo nababesca e escancaradamente. É natural inferir que este “impulso pra cima”, a beneficiar meia dúzia de togados, tem tudo para constituir o motor que dinamiza a miséria de milhões de brasileiros. Até os dias de hoje…

Contudo, mesmo na ausência de Millôr Fernandes, os brasileiros conseguiram alcançar o topo da muralha do século XXI, ainda que sob o fogo da artilharia política, mentirosa e corrupta. Lembro-me que ele publicou uma frase que, embora cômica, era uma sentença condenatória: “As pessoas que falam muito, mentem sempre, porque acabam esgotando seu estoque de verdades[2].

Não há dúvida que as mentiras são hábito milenar, pelo menos com a idade de Adão e Eva. Porém, nos dias brasileiros atuais, alcançaram um patamar com arquitetura quase perfeita. No meio político, até mesmo o cumprimento “bom-dia” é falso, quando não se trata de violenta praga rogada.

Há 15 anos, os fatos a que a nação assiste são obra de delinquentes: desvio de bilhões de dólares dos cofres da Petrobras; o mesmo a suceder com os da Eletrobras; obras ultra superfaturadas; farta distribuição de propina para “companheiros ”; violência ostensiva nas grandes metrópoles; tráfico pesado de armas e drogas, a culminar com 60.000 assassinatos anuais.

Clássico

Os “minúsculos três poderes” estão malbaratados; ouço o “salve-se quem puder”. Não fossem as incansáveis ações da Polícia Federal, do Ministério Público e de alguns Juízes da 1ª Instância, a nação estaria vitimada pela “corja corrupta” que se encravou solene no Estado.A justiça farda mas não talha

Nesse cenário preliminar, sinto-me inclinado a refletir de acordo com a filosofia milloriana. Talvez, se ainda estivesse presente, aos 95 anos Millôr concluísse: “no Brasil, desde o Neolítico ninguém acreditava no Político”.

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[1]Saite” Millôr Online, em Bíblia do Caos, sessão 009, item IV.
[2] Revista Veja 334 (29 de janeiro de 1975).

Dicotomia e conflitos


Ricardo Kohn, Aprendiz de Filósofo.

Dicotomias são pontos-de-vista extremos e opostos, não raro, a motivar conflitos entre os atores. Porém, para a lógica, constituem a divisão da opinião sobre um dado assunto em Conflitoduas posições antagônicas. Dessa forma, embora pouco esclareçam em si mesmas, pelo menos mostram a envergadura dos conflitos, dado que focalizam o assunto através de seus cenários extremos. Desse modo, são opiniões em choque, formuladas nos limites em que o assunto pode variar. De outra forma, basta um ator dizer “sim” que o outro retruca, de pronto: “nunca”! Veja exemplos:

  • Vamos seguir “em frente” – Não; precisamos “voltar já”, imediatamente!
  • Sempre fui “conservador” – Sou um “furioso progressista”.
  • Julgo com base na “letra da lei” – Sempre julgo de acordo com meus “interesses particulares”.
  • Gosto da “economia de livre mercado” – Tenho certeza que o “comunismo” é muito melhor.
  • Voto com a “extrema direita”! – Luto pela “esquerda radical”!

Estes são os “falastrões dicotômicos”, ineptos para refletir e ponderar sobre qualquer coisa. Escutam apenas a si próprios, surdos a qualquer visão argumentada. Afinal, consideram-se proprietários exclusivos do que chamam “razão absoluta”.

Neste primeiro quarto de século, observa-se que esse fenômeno pode tornar-se global, a assumir proporções inacreditáveis nas esferas do poder em certos países. Há quem especule tratar-se de patologia grave, transmitida por “picadas de mosquito”. Decerto, não acontece assim. A transmissão ocorre pela ausência de valores básicos desses atores: ética, moral, respeito aos bens públicos e privados.

Todavia, no Brasil seu vírus maligno foi infestado por meio da espetacular corrupção pública e da total insegurança dela derivada. Esse cenário explica-se de forma evidente: provem do embate sistemático entre quadrilhas sofisticadas, tanto de políticos ladrões, quanto de traficantes de drogas. Ao centro, encontra-se a sociedade brasileira: humilhada, oprimida e quase subjugada. Mas acalmem-se, a desfaçatez do Carnaval começa amanhã!

Furo privilegiado


Ricardo Kohn, Aprendiz de Filósofo.

Furo privilegiadoFuro’ é um vocábulo complexo, com vários sentidos e diversos efeitos provenientes de seu uso, tanto na palavra escrita, quanto na falada. Creio que o furo mais comum se refere à abertura feita por alguém com o uso de ferramenta pontiaguda: furo, sinônimo de buraco, orifício ou rombo. Destarte, este substantivo possui verbos associados – furar, emburacar e arrombar –, mas que não são sinônimos obrigatórios. Sim, por que o ato de furar um tecido com agulha é diverso do de arrombar uma muralha com um possante aríete. Por sua vez, emburacar significa meter-se num buraco ou sofrer grandes prejuízos, algo como ter um ‘furo privilegiado’ na conta bancária.

Além disso, há os ‘furos‘ gerados aleatoriamente pela natureza primordial, sem necessidade da atuação do sapiens. Por exemplo, vejo o tronco de uma árvore antiga, tombado no solo da floresta, a apresentar vários furos, causados pela oxidação da matéria orgânica; vejo também furos no topo de montanhas do mundo, as chamadas ‘crateras de vulcão’. Afinal, pela lógica, não parece haver dúvida que toda cratera é um ‘furo primordial’.

Furo’ também se encontra na imprensa, pois existe o ‘furo de notícias’: aquele que é dado em primeira-mão por algum repórter, às vezes a tratar a língua portuguesa de forma bizarra. Na ânsia de ser ‘o primeiro a dar o furo’, fica nervoso e, sem cerimônia, noticia a pessoa que ‘entrou para dentro’, a coisa que ‘subiu para cima’ e até a ‘nebulosidade no céu’ – queria que as nuvens estivessem aonde?!

Enfim, estes eventos são oferecidos diariamente pelos noticiários apedeutas a que, por falta de alternativa, estamos condenados a assistir. Afinal, há um tema em julgamento pela Alta Corte, que poderá proporcionar a extinção do indecente ‘foro privilegiado’. Isto alimenta duas tênues esperanças nacionais:

  • Que os políticos ladrões sejam julgados e presos com rapidez;
  • Que a nação brasileira não sofra efeitos nefastos em seufuro privilegiado’.

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O desmanche da inteligência


Ricardo Kohn, Aprendiz de Filósofo.

Desde há cerca de 12 milênios, para construir seu habitat[1] o sapiens arcaico precisou integrar habilidades de comunicação, cognição, razão e lógica, as quais constituíam sua sapiência. A partir destas aptidões conseguiu erguer choupanas, a imitar as “construções” aleatórias do ambiente, realizadas ao acaso por forças de sua natureza primordial. Ou seja, não tinha ciência do que fazia, mas precisava de proteção para garantir a existência da própria espécie. Com o crescimento de sua população, ajuntamentos de choupanas – singelas obras de barro e palha –, tornaram-se megacidades, construídas de aço, concreto, vidro e asfalto, por assim dizer.

Vista aérea de Dubai

Vista aérea de Dubai

Mas há uma questão que este cenário encerra: ─ “O que foi necessário fazer para que povoações de choupanas se transformassem em megacidades”?

Creio haver sido a inteligência do sapiens dedicada a projetos de engenharia, a qual sequer existia a 12 mil anos atrás. As choupanas eram construídas pelo instinto da sobrevivência, não graças à criatividade de desenhos. No entanto, mais tarde, cidades como Dubai e Abu Dhabi foram construídas[2] em observância aos preceitos de seus projetos urbanístico e arquitetônico. É razoável inferir que a antroposfera somente atende a finalidades práticas caso haja sido imaginada e projetada, dado que na ausência dos imprescindíveis estudos e projetos não há construção capaz de atender às demandas do sapiens moderno. Assim, verifico que estudos e projetos são a inteligência da construção. Sem eles, edificações racham e desabam ou, como sabemos, nunca terminam de ser construídas. Por isso existem no mundo milhões de empresas de projeto (consultoras) e de obras (construtoras). Elas se complementam nas habilidades requeridas para atender às exigências do sapiens, muitas vezes devastadoras.

Porém, nas duas últimas décadas, em grandes centros urbanos brasileiros – destaco Rio de Janeiro e São Paulo –, todos assistimos à quase extinção das tradicionais empresas de consultoria, aquelas que elaboravam projetos de engenharia e estudos do ambiente. Por outro lado, foi neste período, iniciado a partir de 2003, que ocorreu um expressivo crescimento de certas construtoras, não mais que meia dúzia; ainda que haja milhares delas espalhadas pelo país.

De fato, apenas seis empreiteiras dominaram o mercado sul-americano da construção civil. Às pressas, elas rabiscavam “anteprojetos sumários” dentro de seus próprios canteiros de obras – na linguagem popular, “projetos feitos nas coxas”. Enquanto isso, milhares de toneladas de suas ferramentas de devastação – tratores, correntões e máquinas de terraplenagem – moldavam os terrenos de forma temerária. O ambiente sofreu barbaridades com estas construtoras, que o devoraram de forma agressiva; a importância de estudos e projetos foi ignorada. Tarefas específicas às feições de cada terreno não foram definidas. Na verdade , os terrenos foram devastados para receber equipamentos elétricos e petrolíferos implantados. Não havia qualquer motivo para realizar essas obras, a exceção de socializar a corrupção. A grande criação do famoso estadista, futuro presidiário.

Na ausência de projetos executivos, seus orçamentos foram várias vezes revistos para cima; chegaram a decuplicar os valores iniciais aprovados. Cito três obras desta sórdida engrenagem: (i) Complexo Petroquímico, Rio de Janeiro; (ii) Usina Hidrelétrica Belo Monte, Pará; e (iii) Refinaria Abreu Lima, Pernambuco. Pasmem, as do Complexo Petroquímico e da Refinaria ainda não estão concluídas[3]. Administrada por quadrilhas organizadas de corruptos, a estatal que as contratou quase foi à garra. Isto por que, durante mais de uma década, extorquiram-na em bilhões de dólares.

Como observei, “estudos e projetos são a inteligência da construção”. As legítimas empresas de consultoria ofereciam inteligência e economia para as obras que projetavam. Mas, na falta delas, uma classe de “novas consultoras” foi aperfeiçoada no Brasil. É possível traçar o perfil sumário de seus proprietários: (i) ocupam altos cargos públicos; (ii) possuem empresas que dizem ser “de consultoria”; (iii) não precisam possuir escritório[4]; (iv) resumem-se em telefones celulares e “sofisticadas listas de contatos” – diretores de estatais, fundos de pensão e bancos públicos; (v) não necessitam de funcionários, basta o consultor-chefe; em síntese, (vi) essas “novas consultoras” têm a missão de “usar espertezas[5] para aumentar o preço das obras de interesse dos consultores-chefe”.

Foram muitas as consultoras comandadas por um “corrupto ativo provido com diversos celulares”. Assim criaram o mercado das espertezas, para onde seguiram grupos especializados na lavagem de dinheiro e na criação de empresas-fantasmas, dentre outras que demonstraram a impressionante organização da canalhada. Vale dizer, o PIB da Corrupção cresceu de maneira formidável! Nossa desgraça é que se deu às custas da falência do Tesouro e do desmanche da inteligência nacional. Não será fácil recupera-los, porém, não nos esqueçamos que em breve teremos eleições gerais.

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[1] Neste caso, habitat ou antroposfera constituem o espaço construído pelo sapiens.
[2] Não entro no mérito dos locais de implantação destas duas cidades, nem nas ameaças que sofrem em decorrência de suas situações geográficas. Porém, é certo que um movimento de placas tectônicas ou um esperneio do mar [tsunami] pode destruir a ambas, em questão de minutos. Que o acaso as proteja!
[3] Sugiro aos interessados que pesquisem na internet o estágio em que hoje estas obras se encontram.
[4] Há um caso do “consultor’ que prestou serviços trancado em cela de prisão. Por óbvio, foi remunerado pelos préstimos que alcançou.
[5] Sinônimo de “vigarice”, inverso da “inteligência”.

A ansiedade das expectativas


Ricardo Kohn, Aprendiz de Filósofo.

Angústia não é ansiedade, mas promessa de variadas doenças somáticas, por vezes, graves. Ansiedade, de fato, reside na esperança de que certas coisas ocorram, de acordo com as expectativas. Todavia, ansiedades intensas, não raro, transformam-se em angústias, fruto do medo associado ao desespero. Há que se ter atenção, pois seres humanos (os ditos sapiens) sempre são acometidos por ansiedades e, muita vez, angústias. Sim, angústia, aquela sádica senhora que devasta expectativas.

Em síntese, a roda de amigos de que participo – todos ao derredor dos 70 anos – comporta-se da seguinte maneira: alguns ainda criam novas expectativas; outros não veem este cenário como fator de perigo; porém, há dois angustiados. De toda forma, salvo raras exceções, temos vontade de deixar a cidade do Rio, dado que se tornou campeã em tiroteios, latrocínios, tráfico de drogas, distribuição de propina e desemprego em massa. A antroposfera do Rio constitui a amostra perfeita do Brasil Século XXI. A antiga capital do país não se inibe ao multiplicar os crimes tramados em Brasília, a soberana capital mundial da corrupção pública. A ser assim, sobrevém uma questão: ─ “O que um grupo de amigos pode fazer diante desta tragédia”?

Por mais difícil que seja, defendo que nosso grupo não deverá ceder aos riscos da falta de expectativas. Ao contrário, precisa tornar o medo causado por esta tragédia em projetos de sobrevida, com metas de curto prazo, inadiáveis. Afinal, quais de nós serão sadios após os 80 ou, ainda, quantos alcançarão esta idade?

De volta ao Rio – a dita “cidade maravilhosa, cheia de encantos mil”. Todos sabemos que o Estado do Rio se transformou em prostíbulo público, reino da insaciável quadrilha de corruptos que o comanda, há quase duas décadas. Já subtraíram dos cofres públicos cerca de R$ 280 bilhões, mas a justiça brasileira, salvo raras exceções, não consegue manter estes ladrões atrás das grades.

Vitória da corrupção: Rio, cidade-sede dos Jogos Olímpicos 2016

A euforia da corrupção: Rio, cidade-sede dos Jogos Olímpicos 2016!

Diante deste quadro estarrecedor, minha família passou a refletir sobre alternativas de vida para os anos que nos restam. Em todas as ponderações que fizemos, a premissa básica foi a mesma: abandonarmos a cidade do Rio. Escolhemos a região Sul como destino, mas não queremos residir em capitais. Nossas expectativas apontam para cidades pequenas, com custo de vida reduzido, mas que possuam cultura de origem europeia.

Pretendemos oferecer projetos essenciais, que coevoluam com a qualidade do ambiente regional, bem assim com o espectro da coletividade da qual desejamos participar ativamente; tal como fizemos nas cidades em que já vivemos. Afinal, somos empreendedores, sem receio de corrermos riscos produtivos. Infelizmente, no entanto, temos a tristeza de assistir ao caos instalado no Rio, uma obra deletéria de ordinários corruptos, totalmente adversa à ótica da filosofia naturalista que professamos.

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Assim Fala o Ambiente

Durante um ano supervisionei a redação do ensaio “Princípios da Filosofia do Ambiente”. É dedicado aos que argumentam objetivamente, com base na lógica diferenciada.

Neste ensaio a ótica está invertida se comparada à tradicional postura da filosofia, qual seja, aquela que mantém o Homo sapiens como um ser superior a todas as coisas e a decidir sobre como usar o Ambiente. Em sua visão ufanista tudo o existe é de sua propriedade e serve somente para servi-lo.

No entanto, em “Como o Ambiente vê o Sapiens” fica claro que o sujeito da filosofia é o Ambiente; o Sapiens, apenas seu objeto de uso. De fato, o Ambiente reflete, pratica e ensina sua própria filosofia. Caberá ao Sapiens agradecer e ovacioná-la; acaso a entenda.

Para adquirirem esta obra inédita, cliquem aqui ou então na imagem da capa abaixo. Seu preço de lançamento é R$ 24,90, menos que o prazer fugaz de uma taça de vinho.

Abraça-os, o eterno
Ambiente

Capa

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Valores do Sapiens ou a ‘Qualidade do Ambiente’?


Ricardo Kohn, Aprendiz de Filósofo.

Parte-se da premissa que o homem [sapiens] atribui valor monetário a todas as coisas que deseja vender ou adquirir. Por sua vez, o ambiente terráqueo precisa manter a qualidade de sua natureza primordial. Portanto, infere-se que, em tese, tanto o sapiens quanto o ambiente, precisam trabalhar para obterem seus desejos e necessidades.

Todavia, nessas circunstâncias há que se optar entre o valor monetário do sapiens ou a qualidade do ambiente, pois esses cenários não costumam ocorrer ao mesmo tempo. Veja a imobiliária que lança um condomínio de prédios situado em ambiente de restinga; então, de forma evidente, remove a restinga e, em sua antroposfera, constrói o espaço valorizado para o sapiens. Assim, ganha o sapiens com ricos apartamentos, mas, de outro lado, o ambiente da restinga “segue rumo à contínua devastação”.

O que lhe parece este “belo cartão postal”?!

O que lhe parece este “belo cartão postal”?!

Prédios e lixos a consumir a restinga, esgotos in natura a escurecer o azul da lagoa que um dia fora translúcido, emissões gasosas que tonificam a respiração da fauna silvestre, quase extinta. De fato, pode ser um belo cartão postal, mas apenas segundo jacarés sobreviventes e sapiens que não lhes sentem o cheiro.

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Declaração Global dos Deveres Humanos


Ricardo Kohn, Aprendiz de Filósofo.

1. Contexto histórico

Pesquisadores creem que o mais antigo conflito comprovado entre sapiens ocorreu no leste da África, onde arqueólogos encontraram restos de 12 caçadores-coletores, chacinados por volta de 10.000 anos atrás, segunda a datação de Carbono-14. Devo dizer que, em minha opinião, o Homo sapiens foi o responsável ativo pela extinção das várias espécies humanas [Gênero Homo] com que conviveu. Observe na tabela abaixo:

Algumas espécies que descendem do Australopithecus

Espécie humana Existência estimada Região de ocorrência
Homo ergaster De 1,8 milhões há 1,2 milhões anos África (Quênia) e Ásia
Homo erectus De 1,8 milhões há 300 mil anos África, Europa, Ásia e Indonésia
Homo rudolfensis De 1,9 milhões há… anos África (Quênia)
Homo soloensis De … há 50 mil anos Ilha de Java, na Indonésia
Homo denisova De … há 50 mil anos Sibéria
Homo neanderthalensis De 500 mil há 29 mil anos Europa e Ásia
Homo floresiensis De 700 mil há 13 mil anos Ilha de Flores, na Indonésia
Homo sapiens De 200 mil anos até o presente Em todos os continentes

Desde que se tem informação da existência do sapiens, datada há cerca de 200 mil anos, ele coexistiu com outras espécies: o neanderthalensis, o denisova, o soloensis e o floresiensis tiveram presença confirmada em diversas regiões do ambiente terráqueo – Europa, Ásia, Sibéria e ilhas da Indonésia. Não foi por acaso que estas e outras espécies foram extintas. Paleontólogos e arqueólogos elaboraram hipóteses com vistas a explicar sua extinção. A que considero menos provável é a da miscigenação do sapiens com as demais. Parece-me uma falácia bio-demográfica, diante de uma simples questão:

─ “Como o sapiens, a mais jovem das espécies humanas, poderia ter população suficiente para ocupar Europa, Ásia, Sibéria e ilhas da Indonésia em pouco tempo, copular entre si e com todas as demais, a permanecer geneticamente dominante?” Isso me soa absurdamente falso.

2. Guerras entre nações

A hipótese da destruição furiosa das espécies com que o sapiens conviveu é mais verossímil, além de coincidir com o que, há muito, ele comete contra seus irmãos: o genocídio diário e sistemático em várias regiões do mundo, através de guerras entre povos e nações. É simples encontrar na Internet a lista das principais guerras que foram iniciadas pela índole desumana e psicótica do sapiens dominante. Para não me aprofundar sem necessidade, cito apenas o resultado de duas guerras mundiais: 10 milhões de mortos durante a Iª Guerra Mundial (1914-1918) e 50 milhões de mortos durante a IIª Guerra Mundial (1939-1945). Afora isso, as brutais devastações sofridas pelo ambiente europeu, com inimaginável custo de reconstrução a ser arcado por seus povos.

Ao fim da IIª Grande Guerra, após a rendição inconteste da Alemanha nazista – assinada em 30 de abril de 1945 –, o que restou aos povos do mundo foi o medo, o terror de enfrentar nova guerra com a mesma envergadura. Afinal, até esta data, somente no século XX, duas guerras já haviam tirado a vida de cerca de 70 milhões de cidadãos, entre civis e militares.

Vista de Berlim, em maio de 1945

Os países-membros que então lideravam a Organização das Nações Unidas – decerto, Grã-Bretanha e Estados Unidos – promoveram uma Assembleia Geral onde seria debatida uma declaração que definisse quais seriam os direitos humanos básicos. Para esses dois países, estavam relacionados à quatro liberdades: (i) liberdade da palavra e da livre expressão; (ii) liberdade de viver sem medo; (iii) liberdade de suprir necessidades e (iv) liberdade de religião. Observo que estas liberdades nunca existiram no regime comunista da União Soviética. A ser assim, questiono: uma declaração desse gênero não se tornaria uma ameaça à paz, um meio para instigar mais conflitos?

3. Declaração Universal dos Direitos Humanos

Enfim, a declaração acabou assinada em Assembleia Geral da ONU, a 10 de dezembro de 1948. Obteve 48 votos a favor, nenhum contra e 8 abstenções (União Soviética, Ucrânia, Polônia, Bielorrússia, Checoslováquia, Iugoslávia, África do Sul e Arábia Saudita). Ao analisar seu texto, verifiquei que é óbvio e até mesmo infantil. Porém, paradoxalmente, é presunçoso ao declarar-se uma coisa universal, a abranger o Cosmos. Todavia, nada oferece que seja capaz de remediar a ganância pelo poder do sapiens dominante e, sobretudo, impedir suas guerras e genocídios que, até hoje, devastam o ambiente terráqueo e os primatas da humanidade.

De fato, desde 1947 já se instalara um conflito inconsequente entre Estados Unidos e União Soviética – 40 anos de Guerra Fria. Mesmo após assinada a tal declaração universal, cerca de 20 milhões de pessoas, entre militares e civis, tiveram a vida ceifada em conflitos bárbaros, cujo único pano de fundo era a cínica disputa pelo poder mundial. De um lado, o comunismo bolchevique, liderado pela União Soviética; de outro, o capitalismo britânico, protagonizado pelos Estados Unidos. De fato, nunca trocaram um tiro sequer, pois lutavam de forma indireta, nas terras de nações aliadas, a massacrar civis de outras nações – Guerra do Vietnã, Guerra da Coreia. Foi assim que a grave crise do pós-guerra se tornou irreversível a médio prazo, com ou sem contar com um documento pretensioso que ousasse definir “os direitos do Homo sapiens sobre o Universo”.

A propósito, caso hoje estivesse a fazer a prova de redação para ingressar em alguma faculdade, este texto seria minha contribuição. Daria a ele o título mais oportuno: “Declaração Global dos Deveres Humanos”. Afinal, os sapiens civilizados conseguem cumprir com seus deveres essenciais. Mas, ao contrário, definir direitos básicos para o sapiens dominante é dar a própria cabeça ao cutelo da decapitação. Deve-se impor deveres a este primata destruidor!

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Ambiente, a origem da engenharia


Ricardo Kohn, Aprendiz de Filósofo.

Desde há bilhões de anos, nos espaços da Terra – ambiente terráqueo – existem as fácies dinâmicas de sua natureza primordial[1], “construídas” pela ação de eventos fortuitos, como terremotos, vulcanismos, furacões e tsunamis. No entanto, uma das funções essenciais do ambiente é ser o regente exclusivo desses eventos. Assim, pergunto: o que significa ser maestro de uma sinfonia de terremotos ou de uma orquestra de furacões e tsunamis?

É óbvio que maestros não são músicos, mas regentes da orquestra, de seu compasso e da evolução musical. Portanto, o ambiente não atua nas sinfonias de terremotos. Porém, como regente, faz com que sua natureza primordial permaneça estabilizada, a despeito da violência dos eventos fortuitos que nela ocorrem – eventos do ambiente.

Por volta de 70 mil anos atrás, grupos de sapiens arcaicos abrigavam-se em cavernas da Uma grande cavernanatureza primordial. Bebiam a água de rios e cascatas, alimentavam-se da flora e da fauna silvestres. Comportavam-se de forma similar aos demais primatas então existentes. Deste modo, ainda eram bens do ambiente, embora sujeitos às intemperanças da natureza. No entanto, talvez por receio de serem extintos em eventos desse gênero, refletiram sobre como a physis houvera sido “construída”. Foi assim que, 50 milênios depois, o mais sábio questionou aos demais:

─ “Será que algum dia conseguiremos engenhar cavernas maiores e mais seguras”? E a resposta surgiu em seguida:

─ “Primeiro precisamos entender como o ambiente fabrica suas cavernas e depois imitá-lo

Sem dúvida, era imprescindível conhecer a “engenharia do ambiente”, sempre realizada ao acaso. Foi assim que, mais tarde, árvores viraram casas; florestas de sequoias se tornaram condomínios de prédios; colmeias viraram fábricas; trilhas da fauna silvestre se transformaram em ruas e avenidas. Iniciava-se a construção da antroposfera do sapiens, paradoxalmente, um ordinário plagiador do ambiente que devasta.

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[1] Natureza primordial é sinônimo de physis e constitui o resultado da dinâmica das relações mantidas entre os bens que são propriedade exclusiva do ambiente: ar, água, solo, flora e fauna. O universo da natureza primordial é a Terra.

A Antroposfera devora o Ambiente


Ricardo Kohn[1], Aprendiz de Filósofo.

A fauna silvestre adapta-se ao ambiente e nele evolui há bilhões de anos, sem altera-lo. Há, como esperado, uma relação de cooperação factual entre ambos. Dessa forma, o ambiente é um dado do problema para a existência de todas as espécies silvestres da fauna. Seus habitats são feitos sem consumo de bens primordiais[2], livres de impactos adversos sobre a physis[3]. Enfim, a fauna silvestre mimetiza-se com o ambiente, imita-o para conserva-lo, a permitir que o ciclo de suas espécies prossiga no curso espontâneo da existência.

O sapiens moderno, no entanto, faz justamente o contrário. Devasta o ambiente, impacta sua physis, para depois ocupa-lo. Por meio de máquinas baseadas em tecnologia ditas de ponta, deforma-o para a satisfação de suas necessidades exóticas. Tudo isso para possuir a bela vista que descortina ao longe no horizonte, a valorizar a residência na qual passa suas férias. Nesse ímpeto arbitrário, quase despótico, o sapiens dominante acredita que sua antroposfera[4] é dona absoluta da physis do planeta e, assim, pode dispor de seus bens primordiais da forma que desejar. Afinal, na visão dominante, tratam-se de simples matérias-primas.

Antroposfera devoradora

A prova cabal que a antroposfera devora o ambiente, célere e sistematicamente!

Não detalho os contrastes entre a inteligência silvestre da fauna e a extravagante inteligência do sapiens dominante. Deixo a cargo do leitor refletir acerca das consequências lógicas dessa discrepância de atitudes e condutas.

Porém, o crescimento da antroposfera constitui um processo incontrolável, graças às ficções do sapiens, criadas durante milênios. Mercado, moeda, comércio e patrimônio são as que hoje detém maior influência na construção da antroposfera. A acumulação de riquezas tornou-se o único vetor que mobiliza o sapiens dominante. Aliás, enquanto houver bens primordiais que possa explorar, sua ganância não cederá. Seu único limite é o tamanho do ambiente disponível para ser ocupado.

Sobre isso, sabe-se que a superfície do ambiente terráqueo é da ordem de 510 milhões de km2, dos quais cerca de 70% são recobertos por água e 30%, por solo. Em outras palavras, o sapiens dispõe, em tese, de 153 milhões de km2 para ocupar com sua antroposfera. Contudo, o ambiente estima que, dadas as exigências oportunistas do sapiens dominante – conforto e segurança para seu mercado –, apenas 50% da superfície terrestre estaria disponível para ele, ou seja, algo como 76,5 milhões de km2, a equivaler, aproximadamente, a 15% do ambiente terráqueo.

Porém, todos os sapiens dominantes e raros – ainda precisam superar restrições para ocupar o solo terráqueo, tais como:

  • Áreas desertificadas;
  • Áreas montanhosas escarpadas e com grande altitude;
  • Espaços rochosos recobertos por densas florestas de monção, sem acesso para suas máquinas de desflorestamento.

Nesse cenário, o ambiente pondera que resta ao sapiens somente 1/8 da superfície terráquea que ele antes acreditava estar disponível – 63,75 milhões de km2. Parece ser muito, porém, para acolher 7,5 bilhões de sapiens excêntricos, esta superfície representa nada. Sobretudo, se o ambiente estiver correto, quando observa que 90% dos dominantes habitam áreas da sua antroposfera, onde inventou mercado, comércio, moeda e patrimônio. Em suma, sinto-me obrigado a apostar que a criatura [sapiens] acredita dominar seu criador [ambiente]. Em outras palavras, a antroposfera devasta e devora o ambiente.

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[1] Baseado no ensaio “Princípios da Filosofia do Ambiente”.
[2] Bens primordiais são os fatores básicos que se relacionam aleatoriamente para compor todos os ecossistemas do ambiente terráqueo: ar, água, solo, flora e fauna.
[3] A physis é tudo o que existe no ambiente, à exceção do que seja construído pelo homem”. Alguns filósofos naturalistas da Grécia Antiga a usavam em sua retórica. Deduzo que se referiam aos espaços físico e biótico do ambiente, a comportar sua dinâmica aleatória, função da necessidade e acaso.
[4] Assim como hidrosfera constitui a “esfera das águas”; biosfera, a “esfera da vida“; a antroposfera  é a “esfera dos homens e suas atividades”, onde são gerados estados, nações, cidades, moradias, escolas, indústrias, estradas, ruas, sistemas de esgotos, lixo e infraestrutura em geral.

Só restou a filosofia


Ricardo Kohn, Aprendiz de Filósofo.

Desde há pelo menos duas décadas, a imprensa em geral centra seu noticiário em fatos da delinquência: tráfico de drogas, pedofilia, estupros, latrocínios, assassinatos em massa e, sobretudo, corrupção descarada. Veículos da imprensa se esmeram em narrar os detalhes dos crimes cometidos, assim como o sofrimento de familiares [dos executados, estuprados e drogados]. Em síntese, para as grandes empresas de comunicação, mostrar “o sangue alheio” tornou-se negócio lucrativo. Sólida mesmo, só restou a filosofia.

Porém, aqueles sapiens que se submetem a receber essa avalanche diária de crimes sofrem efeitos danosos em suas reflexões. Os veículos mais poderosos reformatam rapidamente seu noticiário, função da decadência da sociedade a que fingem informar. É óbvio que, com muita destreza e eficiência, contribuem fortemente para o ocaso desta mesma sociedade. Afinal, possuem redes mundiais de repórteres e comentaristas, sempre a trazer “em primeira mão” as notícias mais repugnantes. É insuportável o clima criado pela imprensa. A ser assim, apenas restou a filosofia.

Não há dúvida que os mais perigosos veículos da imprensa são canais de televisão. Muitas vezes mostram imagens da “realidade concreta” que não passam de “realidades imaginadas”. Em poucas horas de um dia criam, recriam, dizem e desdizem a transmissão das ditas realidades concretas. Causam uma enorme confusão de informes, sempre em busca de serem “em primeira mão”, a “darem o furo” pelas reportagens… É com base nessa “incitação de manadas” que é calculado o preço para seus patrocinadores e publicidades. Como realidade concreta, somente restou a filosofia.

Nasci no sul, em 1948, embora more no Rio há 64 anos. Com certeza, na segunda metade do século 20 não existia a fúria atual do tráfico de drogas, da pedofilia, dos estupros, dos latrocínios e da corrupção em massa. Naquela época ainda havia alguma filosofia na imprensa.

É espantoso, destarte, o cenário de conflito que a imprensa proporcionou, com a invenção do “nós contra eles”. Nasce no século 21, quando políticos corruptos, ávidos por poder, ganham espaço em veículos da imprensa, a divulgarem as mentiras de seu populismo. A eterna desculpa da imprensa é a tal da “imparcialidade”. Por isso, oferece seus meios para que os repugnantes se justifiquem diante do povo a que odeiam, pois só precisam do nosso voto para continuarem na ladroagem organizada. De fato, só nos resta a filosofia.

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Resgate do bom senso


Ricardo Kohn, Aprendiz de Filósofo.

Parece-me que bom senso não é uma habilidade inata do Homo sapiens. Creio que no seu DNA não há um gene responsável por esse traço de caráter. Aliás, não me recordo de portar “bom senso” ao nascer. Contudo, lembro-me bem de ouvir dos mais velhos uma sugestão diária: ─ “Menino, use seu bom senso”. Custei a perceber o que me diziam. Refletia indeciso sobre o que deveria ser bom senso. Porém, mesmo sem sabe-lo, acostumei-me à sugestão ancestral. Afinal, haveria de ter pelo menos uma razão lógica associada ao fato de possuir “bom senso”. Assim, em um dia perdido da juventude, a prudência aconselhou-me a aguardar o nascimento espontâneo desta sabedoria. Fiquei surpreso ao descobrir que bom senso era um tipo de sabedoria, mesmo ainda a desconhecer seu néctar.

Durante a adolescência ─ quando todos anseiam ser adultos ─, esqueci-me do bom senso. Graças a isso, presenciei atitudes insensatas de amigos. Fui imprudente em vários atos que cometi. Todos pagamos o justo preço das consequências. Diria hoje, da falta de bom senso. Aos poucos comecei a descobrir que esta faceta de caráter deve ser vista como uma arte da escultura. Entalha-se o bom senso através de processos de ensaio e erro, do aprendizado que provém das topadas que cometemos no caminho da maturidade.

Isto é Arte! A escultura quase perfeita de Lu Li Rong

Hoje ocorrem debates acalorados sobre algumas “exposições de arte viva”, por assim dizer. Ofereceram ao público variadas exibições de nudez humana. Não entro no mérito dessas exposições, foco apenas nos dois grupos que se digladiam com posturas opostas. De um lado,  os “progressistas”, que acham normais as demonstrações públicas feitas por homens pelados, pois constituem a livre expressão da arte. De outro, os “conservadores”, que acusam os donos desses eventos de destruidores da família, promotores da pedofilia, a afrontar princípios básicos de religiões. Ambas as argumentações me parecem esquisitas, fracas, pois nelas falta o bom senso, carecem de sensatez, são imprudentes.

A propósito, há uma íntima correlação entre bom senso, prudência e sensatez. Todos esses traços de caráter ─ que são artes da escultura ─ requerem capacidade de observar fatos, de refletir sobre eles, descobrir suas finalidades e entender os argumentos alheios, ainda que baseados em esquisitas alegorias[1], com vistas a embolsar dinheiro dos tolos.

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[1] Para a filosofia as “alegorias” são textos que encerram o valor simbólico das imagens e da narrativa, em decorrência das escolas a que pertencem.

Filósofo aprendiz


Ricardo Kohn, Escritor.

Pelo menos durante um dia da vida, creio ser provável que um bom número de cidadãos haja sonhado em ser filósofo. Isto por que existe a leveza intelectual associada à prática da boa filosofia. Costumo dizer que fazer filosofia é duelar com a lógica e a razão das palavras, em busca de descobertas. Afinal, elas ganham vida própria assim que são lançadas no papel. E o filósofo é o espadachim que se deixa levar, mas atento para manter a essência do texto, de modo a que não lhe escape e termine seduzido pela dança das palavras.

Graças a esses aspectos, há questões a considerar:

  • Em sua origem, o que a filosofia significava para o cidadão comum?
  • Como o filósofo deve proceder perante seus discípulos?
  • Quais são as consequências de o cidadão ser parte do seleto grupo de filósofos, muito embora não haja sido convidado?

Antes tratar destas questões, importa mostrar onde se situa a filosofia. Para Bertrand Russel[1]todo conhecimento definido […] pertence à ciência; e todo dogma, quanto ao que ultrapassa o conhecimento definido, pertence à teologia. Mas entre a teologia e a ciência existe uma terra de ninguém, exposta aos ataques de ambos os campos: essa terra de ninguém é a filosofia”. Na literatura histórica, não encontrei reflexão mais objetiva que esta.

A origem da filosofia ocidental acontece na Grécia Antiga – século VI a.C. –, por meio de uma escola fundada por Tales de Mileto, na Jônia, colônia grega situada no Mar Egeu. A Magna Grécia era notória como líder mundial do pensamento e a Escola de Mileto demarcou a origem da filosofia ocidental. Para cidadãos comuns, filosofia era o espaço em que ouviam e podiam questionar as reflexões de seus mestres. Foi o ambiente semeado por pensadores gregos, onde havia a liberdade da palavra em prol da cultura, com vistas a educar cidadãos para descobrirem como refletir com lógica.

Filosofia é exatamente isso: saber pensar, ponderar, refletir, argumentar, deduzir e inferir coisas sobre os temas oferecidos à mesa de diálogos. Deduzo que, para se tornar filósofo, não há regras ou normas que limitem qualquer cidadão comum. A prática da filosofia é aberta a todos, sem exceção. Dessa forma, infiro que ninguém precisa ser convidado para ser filósofo, basta saber qual espaço poderá ocupar com sua filosofia.

Como Filósofo Aprendiz optei por ingressar na filosofia, através de uma obra sucinta, Ícone da capaintitulada “Princípios da Filosofia do AmbienteComo o Ambiente vê o Sapiens”. É possível prever por este título que se trata de uma filosofia que inverte a egolatria filosófica presente nas reflexões de vários filósofos do medievo. Aqui o Ambiente é o sujeito e o Sapiens, seu objeto.

Os capítulos deste ensaio apresentam-se em 172 páginas, com a seguinte estrutura:

  • A Introdução da obra, onde parto de uma equação filosófica: Ambiente + Sapiens Impactos + Áreas Devastadas + Lixo + Restos do Ambiente.
  • O Sumário Histórico da Filosofia Ocidental, que visa a situar em qual espaço cultural a Filosofia do Ambiente poderá se assentar.
  • A Base Conceitual Científica, onde apresento conceitos que julgo relevantes sobre os processos ambientais, as características funcionais do ambiente e suas respectivas argumentações analíticas.
  • Os Primatas da Humanidade, onde busco compreender o comportamento do sapiens, como um reagente instável, às vezes espúrio, na equação filosófica enunciada.
  • Os Fundamentos da Filosofia do Ambiente, que apresenta algumas premissas em que devem se fundar a filosofia do ambiente. Essas premissas estimulam a realização de debates, os quais procuro formular através de questões com respostas provocativas, sobretudo, as relativas ao mundo em que se vive atualmente.
  • O Ambiente Terráqueo, onde revelo, através de constatações factuais, as principais ameaças à sua qualidade e, por óbvio, à vida de todos os seres vivos que habitam a Terra. Debato ameaças significativas impostas pelo homem aos espaços físico, biótico e antropogênico do ambiente terráqueo.
  • Como o Ambiente vê o Sapiens traz uma narrativa sumária da origem e evolução do Homo sapiens na Terra. Em “Assim fala o Ambiente”, coloco-me em seu lugar, com vistas a refletir sobre o sapiens como se eu fosse o ambiente. Esse exercício de lógica permitiu-me inferir sobre a conduta das espécies e subespécies do Homo sapiens, segundo a taxonomia do ambiente.
  • A Base Conceitual Filosófica apresenta a revisão dos conceitos científicos, segundo a ótica do ambiente, assim como sua argumentação analítica. A base filosófica está realizada a partir de “Assim fala o Ambiente” e do “Decálogo do Ambiente”.
  • Em Inferências Filosóficas procuro refletir sobre quatro temas: (i) as Religiões do Homem Dominante (Homo dominans); (ii) as Ciências do Ambiente; (iii) a Avaliação Filosófica de Impactos sobre o Ambiente; e ofereço (iv) Parábolas do Ambiente.
  • Em O Homem Primordial, apresento uma estratégia de ação para cooptar várias das subespécies do Homo dominans (Homem dominante) e torna-las Homo rarus (Homem raro), a espécie que, além de qualquer dúvida, é um bem do ambiente.
  • Concluo com o Epílogo, onde arremato conclusões e formulo expectativas.

Esperava lançar a versão digital deste livro em dezembro. Mas consegui publica-lo em 9 de novembro de 2017. Quem desejar conhece-lo clique aqui. Sugiro aos amigos que o adquiram e o divulguem nas redes sociais, no ambiente de trabalho, em faculdades e em escolas de nível médio. Desde já, agradeço a todos.

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[1]
Bertrand Arthur William Russell, matemático e filósofo, nascido a 18 de maio de 1872, no País de Gales. Prêmio Nobel de Literatura, em 1950. Atuou em vários países como professor de matemática avançada. Faleceu aos 97 anos, em 2 de fevereiro de 1970, na mesma nação britânica.

Guerra Civil no Rio


Ricardo Kohn, atento à filosofia.

Contexto
Chamavam-se favelas os conjuntos de precárias moradias que eram construídos por todo o país, após findada a IIa Guerra Mundial. Suas populações eram formadas por cidadãos que viviam à beira da miséria, necessitavam de abrigo e de estarem próximos a locais de trabalho. Afinal, “favelados” também precisam trabalhar, como condição lógica para superar a pobreza. Pois, pergunto-lhe: ─ “Você era pobre ou miserável nos anos ‘50”? Se era, sabe do que estou a falar.

Na cidade do Rio, quando ainda capital federal [Estado da Guanabara], o número de favelas era relativamente reduzido. Após a transferência da capital para a região centro-oeste, ao iniciar a década de ‘60 foram realizadas importantes obras públicas[1] na cidade. Todavia, sem que os operários construíssem moradias temporárias. Afinal, bons urbanistas cariocas, como Lúcio Costa, Sérgio Bernardes e Affonso Reidy, possuíam visão estratégica, a impedir a formação de enclaves urbanos. Tanto é assim, que o número de favelas não cresceu nesse período [1961-1965]. Dezenas delas foram relocadas por meios de projetos habitacionais – favelas da Catacumba, do Esqueleto, do Pasmado e do Pinto, são exemplos.

Mais tarde, sob a égide da ditadura militar, num ato arbitrário do governo Geisel, cometido em 1975, o Estado da Guanabara foi fundido ao Estado do Rio. O novo ente federado passou a chamar-se Estado do Rio de Janeiro, o que demonstra a absoluta falta de imaginação no comando militar do governo federal. Por que não mantiveram Estado da Guanabara? Afinal, a cidade do Rio, sua capital, era bem mais conhecida que Niterói, capital do Estado do Rio. Mais rica, dotada de maior base cultural; por óbvio, com belíssimos espaços naturais e, definitivamente, uma cidade histórica: foi a capital do Estado Brasileiro durante 339 anos versus os infames 57 anos da “Ilha da Corrupção”, a maldita Brasília.

Tudo leva a crer que esta fusão de estados, em consequência de uma ponte, foi uma grossa asneira. De todo modo, beneficiou bastante a Niterói. Basta refletir, pois lá existem somente 5 favelas, enquanto a cidade do Rio ostenta 763 favelas – IBGE, censo de 2010.

Convivência em favelas

Desde cedo, convivi com jovens criados em duas favelas de Santa Teresa: a do Morro da Coroa e a do Morro dos Prazeres. A nobre Coroa e os inesquecíveis Prazeres, como indicam seus apelidos. O que tenho a dizer sobre eles? Simples; eram jovens iguais a mim, embora com muito mais experiência para lidar com incertezas. Ademais, assim como eu, demonstravam alegria e sonhavam com tempos melhores. Estudavam, trabalhavam, faziam festas e convidavam amigos. Eu fui um deles, dentre muitos. Nunca fui tratado como um “estrangeiro na favela”. Aliás, sempre me senti igual a eles, os dignos e honestos favelados.

Além dos morros em que se iniciou a favelização daquele bairro – Coroa e Prazeres –, hoje nele existem diversas favelas: Fallet, Fogueteiro, Escondidinho, Coroado, Pereira e Júlio Otoni.

Desde há cerca de duas décadas – ou próximo a isso –, a imprensa simplesmente conseguiu extinguir as favelas; sumiu do mapa com todas elas. Tal como num passe de mágica, passou a noticiar os fatos ocorridos no que denomina comunidades. Infiro que, neste caso, esta expressão é falsa. De fato, comunidade significa “conjunto de indivíduos [fauna, flora ou sapiens] que vivem juntos na mesma área e que, em geral, interagem e dependem uns dos outros; sociedade”. Ou seja, nada diz que explique o que cria todas as favelas do mundo: precariedade, pobreza e até miséria. A hipocrisia [ou cinismo] de certos “intelectuais” brasileiros atingiu a esse ponto: mudam o nome da miséria humana e estão solucionados os problemas. Plim! Plim!

A filosofia dos feudos do tráfico

Demógrafos estimam que, entre 160 a 180 mil pessoas, vivem na favela da Rocinha, a qual, por lei, foi tornada bairro urbano, com comércio pungente, sobretudo, a venda de drogas, em prol da facção dos criminosos que a “administra”. Justo por isso, seus milhares habitantes são obrigados, por força da filosofia dos fuzis, a pagar preços exorbitantes por vários produtos e serviços, tais como bujões de gás, garrafões de água, aluguéis, fornecimento de energia, televisão a cabo e internet. Há situações em que pagam caro para garantir, inclusive, a própria vida.

Diante desse cenário, é comum que analistas concluam haver um “governo paralelo” na Rocinha. Penso diferente. Em minha ótica, existe uma “ditadura instalada na Rocinha”, que opera livre das ações de qualquer governo. Afinal, a Rocinha tornou-se o mais importante feudo do tráfico no Brasil, o reino onde impera o poder do chefe dos traficantes. Com todos os itens que nela são comercializados, diária e impunemente, há de se convir, trata-se de um mercado local com 180 mil pessoas, dominado pela filosofia dos fuzis, com altíssima taxa de furto, na casa dos bilhões de Reais. É quase uma cidade média que exporta drogas para todo o país. Isso inflama a cobiça dos chefes de feudos, em pelo menos 350 favelas. Todos os seus chefes sonham em dominar o terreno da Rocinha.

Devo inferir que, pela lógica, sem qualquer racionalidade, choques armados mais violentos entre os feudos do tráfico devem ser aguardados no Rio. Pobre dos povos que neles vivem e não têm como sair. Está-se diante de uma guerra civil.

__________

[1] De 1961 a 1965, destaco as seguintes obras realizadas no Rio: nova adutora do Guandu; o aterro e início do Parque do Flamengo; 21 viadutos; Plano Diretor do Sistema de Esgotos Sanitários; construção de cerca de 700 km da Rede de Esgotos Sanitários; construção de outros tantos quilômetros da Rede de Abastecimento d’água; projeto e execução dos sete quilômetros iniciais do Interceptor Oceânico da Zona Sul; Túnel Rebouças; Túnel Major Vaz; conclusão do Túnel Santa Bárbara; aterro e ampliação da Marina da Glória; aterro e ampliação da praia do Flamengo; aterro e ampliação da praia de Botafogo; aterro e duplicação da praia de Copacabana; Parque Ari Barroso; retificação, alargamento e novo traçado do Rio Berquó, em Botafogo; retificação, alargamento e novo traçado do Rio Papa-Couve, no Catumbi; Avenida das Américas; prolongamento da Avenida Brasil; instalação de 18 (dezoito) chafarizes em vários pontos da cidade; nova via de tráfego ligando a praia de Botafogo à rua Humaitá; ampliação e modernização da elevatória de esgotos Saturnino de Brito; elevatória de esgotos André Azevedo; galeria geral de esgotos para Ipanema e Leblon; galeria geral de esgotos da Avenida Bartolomeu Mitre; ampliação e modernização da elevatória de esgotos da Rua Santa Clara; ampliação da estação de tratamento de esgotos da Penha; nova estação de recalque da elevatória subterrânea da Hípica; e a Avenida Novo Rio, que liga a Avenida Brasil à Avenida dos Democráticos.

Tagarelice de suposições


Ricardo Kohn, escritor.

Em certos telejornais existe um hábito curioso. Repórteres que cobrem fatos nos locais de ocorrência insistem em usar o verbete “suposto”. Dizem eles, quase emocionados: liderados pelo suposto chefe da facção; degolado pelo suposto assassino (!); a quadrilha de colarinho-branco é comandada pelo suposto Rei do Quadrilhão; cometeram um suposto desvio do erário; está na UTI acometido de suposta febre amarela (!); e assim prossegue a ladainha do telejornal.

Acredito que esse suposto noticiário seja fruto de uma diretriz, entalhada a ferro-e-fogo, pelo suposto editor-chefe, sempre marionete dos que mandam na emissora.

Como seria noticiado um suposto jardim, semeado de supostas flores a desabrochar

Como seria noticiado um suposto jardim, semeado de supostas flores a desabrochar, supostamente.

Consultei o dicionário para confirmar o significado do verbo supor: 1. Alegar ou afirmar hipoteticamente para tirar alguma indução; 2. Admitir como possível, conjecturar, imaginar, presumir; 3. Formar hipóteses sobre.

Concluí que qualquer noticiário feito com base em suposições ou é falso ou só impede que o editor-chefe suje as cuecas. Além de duelar com as imagens mostradas, nada informa ao telespectador que, por sinal, paga caro para assistir supostos comentaristas e repórteres amestrados.

Por óbvio, há exceções. São os jornalistas que não abrem mão de narrar a verdade factual, sem propelir suposições cretinas. Porém, são poucos, a maioria é feita de “lambe-sacos” e “tagarelas supositórias”.

A continuar com essa ladainha televisiva, plena de suposições, as empresas proprietárias das emissoras poderão falir. Ou não! Que tal mudar o nome do jornal para Supositório Jornalístico?…

Profecias para 2017


Por Zik-sênior, o ermitão.

Zik Sênior

Zik Sênior

É redundante analisar o que aconteceu em 2016; parece falta do que fazer, é pataquada! Todos sabem que a única ação relevante que ocorreu durante o ano passado foi a de desmascarar a corrupção generalizada que se instalou no Estado Brasileiro, desde as eleições de 2002. Foram 14 anos de bandalha.

O país tornou-se um ninho de quadrilhas; a corrupção foi socializada pelo cafetão do povo. O pensamento dele ainda arde em meus ouvidos: ─ “Todos nós temos direito a comandar uma quadrilha-de-assalto ao tesouro público”.

A ser assim, faço uma pergunta elementar: ─ “O que precisa ser feito em 2017”?

E a resposta é simples: ─ “Colar cacos institucionais que ainda restam e incinerar o lixo público remanescente”. Afora isso, estou preocupado. Nesse cenário, só me resta fazer profecias para 2017, as quais posso ver na lâmpada do futuro:

─ Em julho, por erro de cirurgia plástica, o rosto de uma senadora começará a desbarrancar. Vai brotar-lhe um narigão de bruxa com verrugas, seus olhos ficarão vermelhos e empapuçados, cabelos a cairdentes a apodrecer. Que lástima…

─ Durante 2017, inúmeros prefeitos recém-eleitos sofrerão graves problemas de saúde. Muitos falecerão, mas a maioria terá diarreia crônica diante do que recebeu de seu antecessor.

─ Em abril, “Lola da Silva” será enviado para a Papuda, antes mesmo de se tornar “dodecaréu”. Capacíssimo! Na História do planeta, será o 1º Campeão Mundial em Corrupção… “Uma inesquecível vitória“, segundo dirá o próprio a um repórter.

─ No mês da sorte – agosto –, acontecerão 20 prisões de políticos e autoridades. Condenados por “mera picuinha” de 9 juízes da 1ª instância. Confesso, gostaria que fossem 200 ou 300 prisões…

─ Por falar nisso, ao longo do mês de junho, dois juízes da Alta Corte sofrerão impeachment, por justa-causa: calhordice amestrada.

─ Em setembro, a esbravejar num palanque, “Lindinho” sofrerá tremeliques, a parecer um enfarto; mas logo uma equipe médica do SUS descobrirá que o “rapaz apenas se borrara nas calças”. Cuidado, jovem, esforços exagerados podem matar…

─ Em novembro, a “anta desvairada” será atacada por populares revoltados, após um comício que cometerá no Nordeste. Eles nada entenderão do que ela falará. Isso enraivece qualquer pessoa decente…

─ Neste ano, o Dr. Canalheiros será caçado no país pela Polícia Federal. Depois de fugir muito por todas as regiões, será descoberto no porão imundo de sua casa de campo, escondido a beira-mar. Veja quanta água…

Tsunami política

Resultado da tsunami política

No apagar das luzes, ainda consigo ver mais uma profecia na lâmpada:

─ No último trimestre de 2017, a PF fará um arrastão em Brasília, São Paulo. Minas Gerais e Rio de Janeiro. Vejo 480 policiais conduzindo a “moçada” com algemas e mordaça, senão eles xingam e cospem

Em 2017, salve-se quem puder!

Alienígenas à solta


Ricardo Kohn, escritor.

E, por fim, foi comprovado: “os alienígenas realmente existem e vivem no Brasil, instalados de norte a sul do país. Ao que se sabe, existem milhares deles à solta, a trafegar na escuridão com propósitos inconfessáveis“, diria Hitchcock.

Segundo informe de um agente especial da inteligência britânica, Mr. Ian Weaver, a Scotland Yard, com suporte norte-americano – NSA, CIA e FBI –, montou uma força-tarefa dedicada a traçar o perfil nebuloso desses aliens e realizar ações higienizadoras. O pouco que me foi dito é fruto de árdua investigação, altamente confidencial, em curso há quase quinze anos.

Conversei com o agente Weaver no The World’s End, Hight Street, Edimburg. Isso esclarece os relatos que recebi: escoceses não se dão bem com ingleses. Sobretudo, após a 10ª dose de single malt, quando ingleses são vistos como inimigos figadais.

The World’s End – Histórico Pub Escocês

The World’s End – Histórico Pub Escocês

Comíamos saladas e carnes para guarnecer o estômago. Porém, em dado momento Weaver levantou-se e seguiu em direção ao banheiro. Ao retornar ouvi sua voz exaltada:

─ “Fuck The Scotland Yard! I’m not a boy scout!

Fiquei apreensivo, pois Ian Weaver é um ruivo com quase 2 metros de altura e pesa 120 quilos, sem gorduras. Porém, recuperado pela água gelada que jogara no rosto, falou sobriamente acerca das descobertas da força-tarefa: os principais traços do perfil ameaçador dos aliens do presente, que buscam ocupar e derrotar a nação brasileira. Fez uma espécie de taxonomia dos alienígenas à solta, a qual partilho com os leitores.

1. Aparência física: os aliens são feitos de pasta mole, de massa imoral de modelar. Assumem a fisionomia que mais lhes convier no momento, desde um juiz da alta corte, passando por molusco ordinário, até chegar a ladrão de galinhas ou mesmo a uma vagabunda brejeira.

2. Comunicação: em tese, os aliens são capazes de aprender todos os idiomas falados no planeta. No entanto, são precários na sintaxe e, sobretudo, na conexão lógica entre as frases. Assim, na comunicação com terceiros, sempre resultam parágrafos sem sentido, talvez pela possível redução de seus neurônios no ambiente da Terra.

3. Habitat: tudo indica que os aliens são capazes de viver em qualquer tipo de comunidade, em especial aquelas que possuam proximidade com as vítimas que estão selecionadas: pessoas, setor privado, empresas estatais e inúmeras instituições públicas. Weaver disse ser normal que possuam vários habitats no país. Contudo, o preferencial é Brasília.

4. Alimentação: os alimentos dos aliens são variados. Depende da aparência que assumirem no momento. Por exemplo, no mesmo dia, podem almoçar em um restaurante de luxo com políticos e empresários. Mais tarde, jantar na favela, pela “amizade de negócios” que estabeleceram com o chefe do tráfico.

No entanto, pelas experiências de laboratório feitas em aliens capturados, há pelo menos dois traços comuns a todos: (i) quando roubam grandes quantias de dinheiro público, ficam enfastiados e não necessitam de mais alimentos; e (ii) canibalizam seres humanos, tanto física, quanto monetariamente.

5. Reprodução: os aliens machos evitam acasalar com as fêmeas da sua espécie. O motivo é simples. Após a cópula, elas normalmente os devoram. Dessa forma, adaptaram-se para acasalar com fêmeas humanas. Segundo Weaver, tudo leva a crer que, durante a cópula, eles transmitem sua psicopatia aos filhotes humanos produzidos. Chamam a isso de “força do amor filial”. Não se sabe ainda a causa dessa transmissão, se é genética ou fruto da manipulação mental.

6. Interesse: em suma, o interesse original dos aliens é tomar o país de assalto. Todavia, como não possuem exército, buscam a conquista por meio da falência do Estado. Tentam quebrar as principais empresas estatais. Desviam dinheiro público, pagam propina aos companheiros e enriquecem a si próprios.

A propósito, o agente Ian Weaver tem uma tese que me pareceu possível:

─ “Eles roubam para implantar aDitadura Alienígena do Proletariadono Brasil”.

7. Vícios: mesmo com todas as cruéis habilidades que praticam nos brasileiros, os aliens não são perfeitos em suas ações imorais. Quero crer que no planeta desconhecido de onde provém, não existem bebidas como cerveja e cachaça. Pois bem, o agente especial disse-me que, a começar pelo “Comandante dos Alienistas” (o molusco ordinário), 90% deles viciou-se nessas bebidas. Muitos, quando sem carro e motorista, colapsam pelas sarjetas.

Segundo o agente Weaver, o gerente da força-tarefa obteve informes que retratavam uma situação patética: o assassinato sumário de um alien municipal por uma quadrilha de aliens federais, que se considerara roubada. Houve temor que essa prática se tornasse um vício, tal a cachaça. Muito embora haja ocorrido outros assassinatos políticos, em situações bizarras de fogo-amigo, o gerente decidiu não levar as investigações adiante.

O agente especial narrou outros vícios menores dos alienígenas. Mas disse-me que, por serem menos insidiosos – aliens malhando a mulher de outros aliens; aliens cuspidores; aliens pederastas; aliens predadores –, foram arquivados para eventuais investigações futuras.

Despedi-me de Ian Weaver e deixei o pub – The World’s End – rumo ao aeroporto. Durante o voo de retorno ao Rio, integrei todas as anotações que fizera de nossa conversa. Fiquei circunspecto por dois motivos:

Como um investigador escocês sabe tanto acerca do Brasil, no século 21?

Acho de passei a crer que os alienígenas estão à solta!

Soldado-raso da Matemática


Ricardo Kohn, escritor.

Ao fim da década de ’30, nascer na floresta Amazônica e, ainda assim, sobreviver, era “indicador de elevada espiritualidade”, segundo a crença dos moradores de Arapuruca. Mas foi o que aconteceu com o mais novo morador do vilarejo, batizado nas águas do igarapé que atravessava a comunidade. Em homenagem a seu avô português, foi nomeado Raul Simas Neto.

Dr. Reinaldo Simas, seu saudoso pai, foi um médico que abnegara a própria vida para cumprir o juramento da profissão. Embora residisse em Manaus, deslocava-se com a família e atendia a várias populações ribeirinhas, moradoras no interior do Amazonas. Dava consultas, fazia exames, distribuía remédios e aplicava vacinas para as zoonoses da região. Tudo às custas do “Consultório do Dr. Simas”.

Após 12 anos dedicados à clínica geral, o sisudo Reinaldo conversou com sua mulher. Pensava como seria possível criar condições para a vida futura de Raul. Disse-lhe:

─ “Ione, temos que pensar na vida do Raulzinho. Ele precisa cursar boas escolas e ter uma formação superior adequada. Os tempos futuros dele não nos pertencerão”…

Foi assim que o médico definiu, de forma lógica, quase matemática, a equação capaz de criar um futuro melhor para Raulzinho. E Dona Ione, munida do sentimento da bem-aventurança, iniciou o transporte da família para o Rio de Janeiro.

Instalaram-se no bairro de Ramos e matricularam Raulzinho no Colégio Cardeal Arcoverde. Lá ele cursou ginásio e científico, destacando-se nas disciplinas da matemática e estatística.

Após concluído o ciclo básico, Raul ingressou no Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA). Morou durante 5 anos nos alojamentos do ITA, em São José dos Campos. Formou-se com louvor em engenharia eletrônica, turma de 1962.

Tinha sede de retornar para casa e conseguir trabalho adequado, onde aplicaria os complexos ensinamentos que recebera. Seu sonho era ingressar na Petrobras.

Fez concurso público para Engenheiro de Manutenção da Petrobras. Logrou êxito, mas foi alocado na Refinaria Duque de Caixas como “mero operário de manutenção da REDUC”. Lá permaneceu por dois anos, sem perspectivas de carreira.

Com a bagagem acadêmica que possuía, Raul resolveu dar tempo ao mercado de trabalho. Assim, matriculou-se no curso noturno da Faculdade Nacional de FilosofiaUniversidade do Brasil –, para se aprimorar em modelagem matemática. Do próprio ITA, já recebera bons conhecimentos de Pesquisa Operacional, porém, formou-se em Matemática na F.N.Fi.

equacoes-complexas

Na visão de Raul, abrira-se um novo segmento do mercado: o relativo ao desenvolvimento de algoritmos e modelos matemáticos destinados a otimizar projetos de engenharia. Junto com outros quatro especialistas, fundaram uma empresa dedicada, que ganhou o nome criativo de “Matema”.

Raul e eu conhecemo-nos em 1971, num seminário de Matemática Aplicada. Recebera um convite e decidi comparecer. Embora não fosse conhecedor da matéria – nada entendi dos algoritmos apresentados –, após concluído o seminário, a matemática tornou-se para mim a base da lógica, o fundamento do raciocínio: – “Quod erat demonstrandum[1], por assim dizer.

Nesse evento, meu então professor de Pesquisa Operacional, Frederico, apresentou-me Raul Simas Neto. Entre outras coisas, Fred gostava de citar o nome completo das pessoas, o que mostrava sua prodigiosa memória. Por outro lado, meu instinto notou que ele nutria admiração pessoal e acadêmica por Raul, muito embora, também fosse um cidadão consciente e houvesse obtido mais títulos universitários.

Passou algum tempo para que nos aproximássemos. Afinal, não pertencíamos a mesma geração. Raul é 10 anos mais velho. No entanto, acredito que a causa foi o interesse mútuo pela literatura e a obra de escritores universais. Ambos gostamos de escrever contos e crônicas; no eterno verão da cidade do Rio nunca postergamos uma conversa de bar, com petiscos, regada a chope gelado.

Bem, passaram-se 45 anos e chegamos ao final de 2016. Somos avôs com a cabeça quase branca. Atualmente, posso afirmar, somos da mesma geração, apenas com uma Grande Guerra entre as datas de nossos nascimentos.

Temo-nos falado mais por telefone, pois a economia não está a permitir a prática de exageros. Em nossa última conversa, Raul afirmou que precisava trabalhar, mesmo após aposentado. Seu interesse é aplicar “métodos quantitativos” para resolver problemas que hoje não faltam ao país.

Disse-lhe que ele continuava 10 anos luz à frente de nossa época. Mas respondeu-me com espanto:

─ “Que isso?!, sou um soldado-raso da Matemática”.

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[1] Em português, “como queríamos demonstrar” ou “cqd”.

Pequena luz na escuridão


Ricardo Kohn, Escritor.

Lucas nasceu no pós-guerra, filho de família remediada. Porém, com esforço da avó, estudou em bons colégios. Diz o grupo de amigos da época do qual faço parte , que era uma pessoa incomum: “todo dia acordava feliz e em busca de algo novo; amava fazer amizades; falava com todos, sem restrição”. Nunca pensou se corria algum risco com essas atitudes. Lucas não era estrategista.

Desde criança mostrava habilidades nativas. Por exemplo, capacidade de observar o mundo a seu redor, sem fazer críticas; era um curioso contumaz. Possuía criatividade ao formular soluções para percalços diários. Partilhava as soluções que encontrava com todos e ficava feliz com isso. Lucas, o jovem inocente.

a-luz-na-escuridao

Mais tarde, a cursar uma universidade pública, perguntava aos professores “como aplico essa teoria no meu trabalho”? Sua preocupação era a prática que desejava realizar. “A teoria eu aprendo nos livros”, pensava Lucas, o adolescente desafiador.

Quando cursava o 1º ano na faculdade, foi indicado para o cargo de Secretário do Diretório Acadêmico. Lucas era democrata e liberal; a chapa que o convidou tinha perfil autocrático, de esquerda. A curiosidade fez com que aceitasse o convite. Desejava saber o que era Diretório Acadêmico e como funcionava. Pois bem, foi eleito Secretário Geral do Diretório Acadêmico, com mais votos que a chapa de esquerda! Tinha liderança, porém nunca se interessou em saber quem o indicara. Lucas, o universitário iluminado.

Durante o 2º ano, começou a trabalhar numa empresa de projetos. Atuava junto a engenheiros de primeira linha. Com eles assistiu seu maior desejo tornar-se realidade: praticar as teorias. Porém, aos poucos, surgia nele um conflito: “sigo na faculdade ou persigo meu trabalho”? Em dois meses, decidiu. Trocou certos professores pelos mestres da engenharia. Assistia às aulas apenas de professores que, nas suas palavras, “não vomitavam decorebas”. Lucas, o pragmático.

Três anos após, obviamente, não concluiu a graduação; no entanto, tornara-se “bacharel em práticas”. Aprendera a fazer seus trabalhos, apenas com a prática e a leitura técnica. Pode-se dizer que se tornara professor de si mesmo. Lucas, o invejado autodidata.

Semana passada encontrei-me com ele. Almoçamos juntos. Não nos víamos há quase 30 anos. Sua reação foi o doce sorriso franco, o mesmo de sempre. Trocamos um forte abraço. Os poucos fios de cabelo que ainda lhe restam estão brancos. Mesmo assim, Lucas é jovem para a idade.

Nosso reencontro durou mais de nove horas! Fomos os últimos a “sermos expulsos” do restaurante. Pude concluir que ele vincara os mesmos valores que construíra desde a infância: inocente, desafiador, iluminado, pragmático e autodidata.

Sinto grande admiração por Lucas: tornou-se um estrategista: a pequena luz que mostra a escuridão em que se vive! Marcamos nova data para não esquecermos que ainda há futuro…