A ansiedade das expectativas


Ricardo Kohn, aprendiz de filósofo.

Ricardo KohnAngústia não é ansiedade, mas promessa de variadas doenças somáticas, por vezes, graves. Ansiedade, de fato, reside na esperança de que certas coisas ocorram, de acordo com as expectativas. Todavia, ansiedades intensas, não raro, transformam-se em angústias, fruto do medo associado ao desespero. Há que se ter atenção, pois seres humanos (os ditos sapiens) sempre são acometidos por ansiedades e, muita vez, angústias. Sim, angústia, aquela sádica senhora que devasta expectativas.

Em síntese, a roda de amigos de que participo – todos ao derredor dos 70 anos – comporta-se da seguinte maneira: alguns ainda criam novas expectativas; outros não veem este cenário como fator de perigo; porém, há dois angustiados. De toda forma, salvo raras exceções, temos vontade de deixar a cidade do Rio, dado que se tornou campeã em tiroteios, latrocínios, tráfico de drogas, distribuição de propina e desemprego em massa. A antroposfera do Rio constitui a amostra perfeita do Brasil Século XXI. A antiga capital do país não se inibe ao multiplicar os crimes tramados em Brasília, a soberana capital mundial da corrupção pública. A ser assim, sobrevém uma questão: ─ “O que um grupo de amigos pode fazer diante desta tragédia”?

Por mais difícil que seja, defendo que nosso grupo não deverá ceder aos riscos da falta de expectativas. Ao contrário, precisa tornar o medo causado por esta tragédia em projetos de sobrevida, com metas de curto prazo, inadiáveis. Afinal, quais de nós serão sadios após os 80 ou, ainda, quantos alcançarão esta idade?

De volta ao Rio – a dita “cidade maravilhosa, cheia de encantos mil”. Todos sabemos que o Estado do Rio se transformou em prostíbulo público, reino da insaciável quadrilha de corruptos que o comanda, há quase duas décadas. Já subtraíram dos cofres públicos cerca de R$ 280 bilhões, mas a justiça brasileira, salvo raras exceções, não consegue manter estes ladrões atrás das grades.

Vitória da corrupção: Rio, cidade-sede dos Jogos Olímpicos 2016

Uma das vitórias da corrupção: Rio, cidade-sede dos Jogos Olímpicos 2016!

Diante deste quadro estarrecedor, minha família passou a refletir sobre alternativas de vida para os anos que nos restam. Em todas as ponderações que fizemos, a premissa básica foi a mesma: abandonarmos a cidade do Rio. Escolhemos a região Sul como destino, mas não queremos residir em capitais. Nossas expectativas apontam para cidades pequenas, com custo de vida reduzido, mas que possuam cultura de origem europeia.

Pretendemos oferecer projetos essenciais, que coevoluam com a qualidade do ambiente regional, bem assim com o espectro da coletividade da qual desejamos participar ativamente; tal como fizemos nas cidades em que já vivemos. Afinal, somos empreendedores, sem receio de corrermos riscos produtivos. Infelizmente, no entanto, temos a tristeza de assistir ao caos instalado no Rio, uma obra deletéria de ordinários corruptos, totalmente adversa à ótica da filosofia naturalista que professamos.

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Valor do Sapiens ou Qualidade do Ambiente?


Ricardo Kohn, aprendiz de filósofo.

Parte-se da premissa que o homem [sapiens] atribui valor monetário a todas as coisas que deseja vender ou adquirir. Por sua vez, o ambiente terráqueo precisa manter a qualidade de sua natureza primordial. Portanto, infere-se que, em tese, tanto o sapiens quanto o ambiente, precisam trabalhar para obterem seus desejos e necessidades.

Todavia, nessas circunstâncias há que se optar entre o valor monetário do sapiens ou a qualidade do ambiente, pois esses cenários não costumam ocorrer ao mesmo tempo. Veja a imobiliária que lança um condomínio de prédios situado em ambiente de restinga; então, de forma evidente, remove a restinga e, em sua antroposfera, constrói o espaço valorizado para o sapiens. Assim, ganha o sapiens com ricos apartamentos, mas, de outro lado, o ambiente da restinga “segue rumo à contínua devastação”.

O que lhe parece este “belo cartão postal”?!

O que lhe parece este “belo cartão postal”?!

Prédios e lixos a consumir a restinga, esgotos in natura a escurecer o azul da lagoa que um dia fora translúcido, emissões gasosas que tonificam a respiração da fauna silvestre, quase extinta. De fato, pode ser um belo cartão postal, mas apenas segundo jacarés sobreviventes e sapiens que não lhes sentem o cheiro.

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Abuso da Imoralidade


Ricardo Kohn, Escritor.

Interrompo minha faina literária para abrir uma discussão sobre um fato que considero sórdido: o Congresso Nacional vota uma lei para permitir que parlamentares corruptos punam o que considerarem abuso da autoridade, incluídos nesse contexto promotores, procuradores e juízes federais.

Um dos fatos mais escabrosos desse “projeto de lei” consiste em permitir que réus julguem seus acusadores e juízes, os quais, de acordo com o Estado de Direito, tenham estabelecido suas penas. Outra canalhice parlamentar – não há expressão mais adequada – é punir procuradores e juízes pela interpretação que fizerem do texto legal. Chamam a isso crime de hermenêutica.

A forma com que aceleram no Congresso o projeto de lei do “abuso da autoridade” apenas demonstra que os políticos corruptos e seus apaniguados encontram-se desesperados, diante do sério risco de habitarem penitenciárias por um longo período de tempo. Em minha visão, espero que isso aconteça o mais rápido possível, pois provas da corrupção cometida não faltam.

Não vou me alongar nesse tema. Faço apenas uma proposta objetiva. Creio que já passou a hora de a sociedade brasileira criar um projeto de lei popular: a lei para conter e punir severamente o Abuso da Imoralidade.

Sessão de socos e pontapés no Congresso Nacional

Pelo momento em que se vive


Ricardo Kohn, Escritor.

O mundo está virado de ponta-cabeça. Decisões de mandatários ameaçam o cidadão médio de todas as nações democráticas. Três casos chamam a atenção: a insanidade bélica do líder imprevisível da Coréia do Norte; a máquina de corrupção instalada no Brasil; e a estupidez ofensiva do novo presidente norte-americano.

Sobre o comportamento da Coréia do Norte não há previsões. Seu líder delinquente, além de ter iniciativas próprias, é massa de manobra de países próximos. No entanto, há o que analisar no Brasil e nos Estados Unidos.

Casa Branca, inaugurada a 1º de novembro de 1800

Casa Branca, inaugurada em 1º de novembro de 1800

O norte-americano médio possui um perfil pessoal bem definido: é inocente, acredita no que lhe dizem, dedica-se a fazer o que sabe, é sempre teimoso e produtivo, mas poucas vezes é hábil nas análises que efetua. Entretanto, é ativo na defesa de seus princípios democráticos e libertários.

Acredito que essa imagem espelha bem milhões de americanos. Basta recordar que, em 4 de julho de 1776, durante a Guerra Revolucionária (1775-1781), seus habitantes declararam a independência do jugo britânico e, naquele mesmo instante, tornaram-se uma República Democrática.

O povo americano é pragmático e luta contra qualquer decisão pública que possa submete-lo a cenários de desastre. Ouso dizer que, pela estupidez sequencial de seus recentes atos executivos, Donald Trump não ficará sequer um ano no cargo.

O brasileiro médio também possui seu perfil delineado: é metido a esperto, mente por motivos mesquinhos, crê saber de tudo, é indolente e improdutivo, adora criticar a quem acaba de conhecer. Por isso, está sempre preocupado com a defesa de seus direitos particulares, mas esquece de seus deveres diante da sociedade.

É essa curiosa criatura, filha imberbe da Nova República, que elege os membros dos poderes executivo e legislativo. Creio que há uma estreita ligação com nossa origem colonial e o tempo que o Brasil gastou para tornar-se República Independente: embora “descoberto” em 1500, colonizado durante 389 anos, foi somente em 15 de novembro de 1889 que se tornou uma república: às vezes ditatorial, outras democráticas, mas muitas vezes enredado pelo populismo porco e a corrupção pública organizada.

Palácio do Planalto, inaugurado em 21 de abril de 1960

Palácio do Planalto, inaugurado em 21 de abril de 1960

A única Constituição dos EUA foi ratificada em julho de 1788. Há 229 anos que independência e democracia caminham sólidas e inabaláveis no Estado norte-americano. Por outro lado, a última Carta Magna brasileira foi promulgada em outubro de 1988, dois séculos depois. Nos 36 anos que se seguiram ela não parou de receber “retalhos”, dada a imensidão de seus títulos, artigos e parágrafos, que só promovem controvérsias e conflitos.

O momento em que se vive é muito delicado. Assim como os norte-americanos, precisamos colocar milhões de brasileiros nas ruas, a gritar: ─ Programa Penitenciária para TodosÉ uma ordem!

Teoria Geral das Quadrilhas


Por Zik Sênior, o ermitão

Zik Sênior

Zik Sênior

Confesso que por décadas senti um pouco de inveja de Karl Ludwig von Bertalanffy, o biólogo austríaco que concebeu a Teoria Geral dos Sistemas (TGS), publicada em todo o mundo a partir da década de 1950. Depois que a estudei a fundo, admirado por sua simplicidade, tornou-se meu livro de cabeceira durante mais de 5 anos.

Acontece que Bertalanffy não comungava com a visão racionalista, “meio quadrada”, de René Descartes. Também não era dialético, como Georg Hegel. Sua formação era biótica, orgânica, evolutiva. Acreditava em teorias capazes de explicar todos os entes vivos e não-vivos do planeta, bem como as relações que mantêm entre si, sempre a promover a evolução dos conjuntos que formam (sistemas).

Contudo, seu objetivo principal era elucubrar uma teoria capaz de analisar e demonstrar como funcionavam as organizações criadas pelo homo sapiens. Li que Bertalanffy despendeu mais de 25 anos nesta árdua labuta.

Hoje, a tomar por base a teoria criada por Bertalanffy, assim como inúmeros cientistas, acredito que posso ensaiar a Introdução à Teoria Geral das Quadrilhas (TGQ). Afinal, cursei Ciência Política em Coimbra (turma de 1932) e consigo analisar os atos inescrupulosos cometidos por quadrilhas, que calcinaram a ética, a moral e a economia do Brasil.

─ Conceito básico

De início, é essencial dizer o que entendo por “quadrilha”, segundo a ótica da TGS:

Quadrilha é toda corja de ladrões organizados que interage para alcançar fins comuns, a construir o rolo compressor da corrupção. Ela obtém melhores resultados do que se todos os corruptos envolvidos roubassem individualmente. Assim, todo conjunto de ladrões, a agir de forma imoral, devassa e integrada, constitui uma Quadrilha. Toda sua corja tem uma única finalidade: desviar dinheiro público para negócios pessoais e, de forma abominável, quebrar bancos e empresas estatais, fundos de pensão, autarquias ministeriais e tudo mais de valor que encontrarem pela frente”.

Óbvio que se trata de um conceito pragmático. Até por que, em meus 108 anos de idade, nunca assisti a algo semelhante no Brasil ou mesmo no mundo! Nos últimos 13 anos, o Estado tornou-se presa submissa da matilha predatória de hienas esfaimadas e selvagens.

Ao aplicar a teoria de Bertalanffy, verifica-se que uma “boa quadrilha (!?)” precisa ser um sistema fechado. Caso contrário, seria defenestrada por ações da Polícia e penas de prisão aplicadas pela Justiça. No entanto, os sistemas fechados descem ladeiras sem freios, rumo à autodestruição, graças à sua entropia. São incapazes de trocar de energia e matéria entre seus elementos e de absorver novas fontes de informação.

Em outras palavras, para a quadrilha não existe a hipótese da troca de informação e dinheiro com canalhas que não pertençam às suas corjas. Assim, a quadrilha destrói-se com a perda gradativa de seu “melhores sequazes”. Seu poder de ladroagem decai continuamente, até tornar-se incapaz de atender à fúria alimentar das Hienas Selvagens

A fundação do Partido das Quadrilhas

Hienas Selvagens são aquelas que, durante os últimos 13 anos, deixaram-nos estarrecidos por um fato: devoraram a poupança do povo brasileiro, de forma sumária e descarada.

Entretanto, foram apenas três hienas que, após aplaudidas por poucos “idiotas da sociedade”, se reuniram para criar uma pequena “súcia”. A trinca visava a transforma-la numa quadrilha especial, poderosa para permanecer imune às práticas da extorsão sistemática do erário.

Em suma, esse foi o processo adotado na formação das súcias, hoje investigadas pela Polícia Federal, pelo FBI, pela Interpol e instituições internacionais que, para sobrevivência dos povos que protegem, sabem enclausurar as corjas organizadas de salteadores públicos.

Porém, importa salientar que o mesmo processo inescrupuloso das súcias foi aplicado na formação do Partido das Quadrilhas Políticas, mais tarde conhecido pela curiosa sigla PQP.

E nasceu a hiena líder

Na década de 1960, as súcias limitavam-se a promover greves e fazer badernas nas portas de fábricas. As hienas esfaimadas ainda eram bandos desorganizados, dispersos e reduzidos. Todavia, havia uma matilha profissional de hienas selvagens que vigiava os acontecimentos e decidiu aderir às badernas. Até por que, durante essa década, tentaria implantar no Brasil a ditadura do proletariado. Não entro em detalhes sobre este fato, mas, naquela ocasião, foi devidamente escorraçada pela nação brasileira. Afinal, as hienas selvagens formavam uma matilha de hienas terroristas, disposta a tudo!

Uma família de Hienas Terroristas ─ ano de 1968

Naquele processo entre greves e badernas, foi da escória de hienas esfaimadas que se deu a escolha doentia da hiena líder. Em minha opinião, tinha uma aparência degradante: era uma figura nanica, com cabelos hirsutos e sujos, orelhas de abano (felpudas), a pança cheia de vermes, sobre um par de pernas secas…

Não acredito que essa liderança haja sido motivada por alguma “habilidade especial” da hiena pançuda. Até por que, era preguiçoso, analfabeto, alcoólatra, imoral, mentiroso, populista, manipulador de idiotas, traidor, dedo-duro, vigarista e cafajeste. Um fenômeno da desgraça!

Ademais ─ diziam os mais interessados de sua corja ─, portava um hálito tenebroso e quase não tomava banho. Assim, num raio de 20 metros, a súcia era obrigada a inalar e agradecer seu fétido olor.

PQP assume o poder: o desastre!

A hiena pançuda – fundadora do Partido das Quadrilhas Políticas (PQP) – iniciou em 1980 a perseguição obstinada por um cargo que lhe desse “máximo poder público”. Em seus “sonhos delirantes”, via-se, de forma compulsiva, a desviar fabulosas somas de dinheiro público para “empresas fajutas de hienas selvagens”. E, claro, a embolsar significativa parcela dos vultosos roubos realizados.

─ “Porra, ninguém é de ferro…”, justificava-se, a andar sonâmbulo pelas madrugadas, no barraco em que se escondia.

Por isso, durante mais de 20 anos, a hiena pançuda azucrinou a vida política e econômica do país. Mas, mesmo assim, não conseguiu o tal cargo de “máximo poder público”. Todavia, de forma miraculosa, metamorfoseou-se: “de pobre proletário em ricaço boçal”.

Pouco após a virada para o século 21, o boçal começou a “botar as manguinhas de fora”. O PQP, que fora fundado e presidido por ele, enfim elegeu-o para a presidência da nação; deu-se início ao desastre político-econômico do país. Em minha visão, o camarada boçal confundiu tudo. Ao invés de ser um Chefe de Estado, tornou-se o “Rei do Quadrilhão”! E é evidente a explicação disso, sobretudo, à luz da teoria de Bertalanffy. Vejam.

Relembrem algumas “habilidades do boçal”, já citadas: mentiroso, populista, manipulador de idiotas, imoral, vigarista e cafajeste. Como alguém dotado dessas “virtudes” comandaria um Estado Nacional, sem destruí-lo?

Assim que, em seu primeiro ato no poder nomeou várias hienas selvagens para dezenas de ministérios amestrados; todas indicadas por seu “indefectível braço esquerdo[1]”, treinado em Cuba e na União Soviética. Vale lembrar que o “braço esquerdo” foi uma proeza de ladravaz e tornou-se o “Príncipe das Súcias do Quadrilhão”.

Bertalanffy diria que a invasão do Estado por uma gigantesca organização criminosa foi uma decisão de desesperados. Com as inúmeras súcias roubando em todas as áreas públicas, a socialização das quadrilhas não poderia dar certo em um sistema fechado.

Explico com a seguinte analogia: dispõe-se de um saco, com capacidade para receber um quilo de vermes, dedicados à tarefa de se alimentarem de um corpo morto; ao multiplicar a quantidade de vermes ou eles se tornarão antropofágicos, comendo a si próprios, ou o saco arrebentará. Nos dois cenários, a Festança do Quadrilhão de Vermes é desmascarada.

Perspectivas

Com o tempo que já vivi (108 anos) minhas perspectivas são sempre para amanhã. Não posso me dar ao luxo de formular cenários político-econômicos de médio e longo prazos. De toda sorte, guardo a certeza que, de uma forma ou de outra, com o preço que custar, a nação unida haverá de desratizar a política brasileira.

——

[1] Aliás, o indefectível hoje se encontra “guardado num presídio”, condenado por promover a ação de “súcias deletérias”, em processos contínuos de corrupção planejada, durante quase uma década.

Parar, congelar e retomar


Por Equipe deSobre o Ambiente.

Deve-se explicação aos leitores. “Sobre o Ambiente” permaneceu 15 dias parados (de 5/09 a 20/9), resultado da clonagem do cartão de crédito com que foi paga a anuidade do blog. Por óbvio, a empresa proprietária do cartão cancelou várias compras efetuadas pelos estelionatários, dentre elas o pagamento da anuidade do blog.

Viver em um país onde estelionato é tido como crime de pequena monta, “normal em qualquer sociedade”, como dizem, gera sentimentos de frustração, inapetência e ódio. Afinal, “Sobre o Ambiente” foi criado na noite de 28 de abril de 2013 e, desde então, somente viu crescer o interesse de visitantes. Hoje possui 1884 seguidores, com mais de 268 mil acessos.

Assim, há oito dias, fez-se uma reunião de pauta, com vistas a redefinir o Norte do blog. A questão posta sobre a mesa era a seguinte: ─ Deleta-se oSobre o Ambiente” ou retoma-se seu curso.

Na verdade, todos sentiam-se congelados com os efeitos nefastos de estelionatários: queda expressiva na visitação e perda de interesse na postagem de novos artigos[1]. Porém, Simão Macko, o pescador, reavivou a todos com ponderações factuais:

─ “Voto pela continuidade do blog e explico por quê. Sou português, pai de quatro filhos que vivem no Brasil, há muito. Deles tenho netos, bisnetos e um tataraneto, todos brasileiros. Posso afirmar que o país de vocês está parado diante do estelionato praticado, durante 13 anos, por ladrões da pátria. Eles não sabem e muito menos querem governar, apenas precisam roubar para si. O portento da criatura parida por ‘luizinácio’, o larápio, decerto está com os dias contados na presidência. De facto, a opção não é deletar o povo! Ao contrário, por menor que seja nossa contribuição, devemos ajuda-lo a higienizar a república. Portanto, a ser assim, inverto a opção: o quanto antes, é o povo brasileiro que precisa deletar esta canalha”!

Vestimenta nacionalDiante das evidências destacadas por Simão, notórias mundialmente, decidiu-se retomar “Sobre o Ambiente”. Sabe-se que demandará algum tempo para que se volte aos níveis de visitação alcançados ao longo de 2 anos e 9 meses. Porém, contamos com o apoio dos seguidores mais dedicados a estancar a hemorragia moral do governo brasileiro.

Assim, se não for pedir muito, sugere-se que doravante compartilhem nossas postagens nas redes sociais que participam.

……….

[1] Havia outra variável que prejudicava um pouco a decisão. Ricardo Kohn, na qualidade de coordenador do “Sobre o Ambiente”, está envolvido em palestras acadêmicas sobre seu novo livro. Seu tempo disponível para o blog tornou-se menor. Enfim, ou articula lançamentos em universidades ou dedica-se a redigir artigos.

Lançada a obra ‘Ambiente e Sustentabilidade’


GEN – Grupo Editorial Nacional | LTC Editora.

AMBIENTE e SUSTENTABILIDADE – Metodologias para Gestão

AMBIENTE e SUSTENTABILIDADE – Metodologias para Gestão

A LTC Editora comunica o lançamento de mais uma obra técnico-científica:

Macedo, R. Kohn, AMBIENTE e SUSTENTABILIDADE – Metodologias para Gestão. GEN – Grupo Editorial Nacional, LTC Editora – Livros Técnicos e Científicos. ISBN 978-85-216-2731-9. Rio de Janeiro, RJ. 636 pg., julho 2015. 1ª edição.

Encontra-se disponível em formato impresso e em e-book. Docentes cadastrados no Grupo Editorial Nacional têm 30% de desconto.

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Gestão: ato ou processo


Por Ricardo Kohn, Consultor em Gestão.

Existe uma extensa literatura que trata da gestão e de seus elementos constituintes. Contudo, há várias formas de aborda-la, tanto função das inúmeras teorias da organização publicadas, quanto das escolas de administração seguidas por seus Ricardo Kohnautores.

Não se tem a pretensão de esgotar esse tema em um artigo, é evidente. Apenas situar alguns aspectos que auxiliem a esclarecer o que é o processo da gestão, às vezes mal interpretado como um simples “ato de gestão”.

Gestão é o processo de administrar alguma coisa; sinônimo de Administração. Essa “alguma coisa” é o “sujeito ou objeto da gestão”. Assim, pode-se gerir uma empresa, um órgão público, um jardim, um município, um paciente médico ou o ambiente em que todos estão inseridos, por exemplo. Enfim, a gestão é aplicável a qualquer entidade que se deseja organizar e otimizar. Essas são suas finalidades primordiais.

Há quem diga que os processos da gestão constituem uma ciência. Mas também existem aqueles que o consideram uma arte. Acredita-se que os mais corretos são os que entendem o processo da gestão como uma ciência que precisa de arte para ser bem-sucedida.

É uma ciência que pode ser aprendida em bons cursos universitários, não há dúvida. Mas requer de seu agente a arte da visão de futuro para ser aplicada com destreza, qualquer que seja seu objeto. Essa visão de futuro, entre outras coisas, demanda experiência do agente e arte para interpretá-lo.

O processo da gestão

Como qualquer processo, o da gestão demanda uma sequência de etapas para ser realizado com qualidade. Toma-se como exemplo a gestão executada por um jardineiro, chamado Burle Max[1]. O objeto da gestão é o jardim de uma residência sofisticada.

Gestão de Jardim

Segundo a escola que se segue, as etapas necessárias à gestão são assim descritas:

  • Diagnóstico do jardimBurle precisa conhecer bem o objeto da gestão. Pergunta ao proprietário se ele possui fotografias recentes do jardim num dia de festa; caso tenha, solicita que as empreste para ver como a família deseja que fique o “pátio de casa”.

Então, percorre todo o jardim e anota os problemas que sua experiência define como graves (impactos adversos). Como o jardim é grande (2.000 m2), desenha-o em planta baixa, a mostrar como se sucedem os canteiros, os vegetais que neles estão plantados, o que precisa podar e cortar, o que deve ser eliminado, os detalhes do pomar aos fundos do terreno, da área recoberta por “mata virgem”, junto ao portão de entrada da residência, os caminhos de serviço do jardim, etc.

Destaca o que o cliente considera relevante para melhorar as feições do jardim e faz um relatório (oral e escrito) para consolidar o diagnóstico documentado do jardim.

  • Prognósticos para o jardim – após o almoço, a tomar um cafezinho, o experiente Burle redige como ficaria o jardim caso ele próprio não houvesse sido contratado. Da mesma forma, relata como o jardim poderá ficar após usar suas habilidades de jardinagem. Destaca as ações normais que precisa realizar, bem como possíveis mudanças no jardim, que considera oportunas para emoldurar a beleza da residência.

Produz relatório contendo os prognósticos alternativos das feições do jardim, sem e com as ações de Burle Max. É recomendável que desenhe uma planta baixa, contendo a nova feição do jardim reabilitado. Entrega ao cliente e aguarda sua aprovação.

  • Cenário futuro do jardim – até agora, a gestão de Burle somente requereu atores internos ao jardim: a família proprietária da casa e ele próprio. Mas é na etapa da formulação de cenários que atores externos ganham relevância, de tal forma que, querendo ou não, participam das melhorias do jardim.

Burle precisará de equipamentos para jardinagem, por exemplo, tesoura de poda, cortador de grama, serra elétrica na área de mata, dentre outros. De toda forma, ruídos com maior intensidade e frequência serão emitidos e afetarão a vizinhança.

Além disso, Burle talvez tenha que adquirir equipamentos que a residência não possua. Nada garante que todos aqueles que precisa para o trabalho, estarão disponíveis nas lojas para jardinagem.

Embora tenha proposto uma nova feição para o jardim, o cenário futuro possível não será como o desejado. Assim, Burle Max precisará gerir o jardim com os equipamentos disponíveis. E mais, informar ao proprietário sobre a mudança nas atividades previstas e mostrar os resultados que podem ser efetivamente alcançados.

  • Desenvolvimento de plano para resultados – para ter eficiência na gestão de jardins, Burle deve elaborar um Plano de Ação para alcançar resultados objetivos, de curto prazo. À cada resultado fixado no tempo, estará associada uma meta de seu trabalho. Igualmente, a cada meta de trabalho deverá existir pelo menos uma ação imediata que a realiza.
  • Execução do plano – decerto, é um plano simples de ser elaborado, mas sua execução com a qualidade esperada precisa ser rápida e depende da sequência das ações imediatas a serem executadas. Recomenda-se que gestores de jardim criem critérios para priorizar as metas e suas ações imediatas. Para tanto, devem considerar, a dificuldade da ação, as medidas do terreno, o número de deslocamentos a fazer e a quantidade de equipamentos utilizados em cada ação.
  • Avaliação dos resultados obtidos – em tese, a esta altura a jardinagem está completa e Burle Max já deve estar em casa. Porém, de fato, ele ainda precisa avaliar o próprio trabalho, buscar falhas na execução das ações imediatas, erros nos prognósticos, em informes imprecisos ao cliente, enfim, Burle precisa rever todo o processo de gestão realizado.

Assim, uma boa forma de terminar o dia é na elaboração do Relatório de Avaliação de Resultados e arquiva-lo em casa, visando a futuras consultas.

  • Replanejamento – caso se estivesse no lugar de Burle, aproveitaria-se a oportunidade para replanejar o processo de gestão realizado. O próximo trabalho seria mais rápido e a experiência adquirida estaria incorporada a seu patrimônio profissional.

Conceito de Gestão

“Processo decisório que demanda conhecer os principais aspectos do objeto a ser gerido [Diagnóstico], a previsão de suas formas de comportamento futuro [Prognósticos], o cenário efetivo que pode ser realizado para o objeto [Cenário futuro], um plano capaz de realizar esse cenário [Plano de Ação], o acompanhamento da realização das ações prorizadas [Execução do plano] e a revisão completa do processo realizado [Avaliação dos resultados obtidos].”

……….

[1] Não se trata do notável paisagista Roberto Burle Max, mas de um jardineiro do Recife, cujos pais fizeram homenagem ao paisagista. Era conhecido por Burle, Burle Max de Souza Fecundo.

A base conceitual e seus conflitos


Por força do relativo distanciamento entre a academia e o mercado, no Brasil há muitos que ainda afirmam: “a teoria é diferente na prática“. Sem entrar no mérito desse “descuido“, acredita-se que as práticas do mercado, por serem mais ágeis, podem se tornar uma “teoria particular”.

No entanto, nas áreas em que as ciências ainda são menos consolidadas, a mídia cria conceitos próprios e os divulga a todo vapor. O setor ambiental, sem dúvida, é premiado com uma boa série de “equívocos conceituais”. Com somente um exemplo, é possível mostrar a sucessão de conflitos que pode ser criada.

─ O que é correto: meio ambiente ou ambiente?

Dicionários da língua portuguesa dão ao verbete “meio” inúmeros significados. Mas existem dois que são específicos e auxiliam na resposta a esta questão, quais sejam:Imagem de divulgação

─ “Meio”, a significar metade, e “meio” com sentido de ambiente. De outra forma, meio é, ao mesmo tempo, sinônimo de metade e de ambiente.

Com base nesses fatos, “meio ambiente” significa “metade do ambiente” ou então “ambiente ambiente”. De um lado seria estranho, de outro uma redundância explícita. Nas culturas reconhecidas como as mais evoluídas do mundo, não existe expressão com “meio” integrado a ambiente. Observe em três idiomas qual é o vocábulo equivalente a “meio ambiente”:

  • Em inglês: Environment.
  • Em francês: Environnement.
  • Em alemão: Umwelt.

Esse argumento já deveria ser suficiente para esclarecer a dúvida, no entanto…

1. Conceito oficial

Segundo reza a Lei no 6.938, de 31 de agosto de 1981, que dispõe sobre a PNMA, Meio Ambiente é “o conjunto de condições, leis, influências e interações de ordem física, química e biológica, que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas”.

1.1. Análise de conteúdo:

  • Qual o significado de “condições, leis, influências e interações” no contexto ambiental?
  • Quais são as entidades ambientais que promovem as “influências e interações”?
  • Como “condições, leis e influências” podem “permitir, abrigar e reger a vida em todas as suas formas”, senão apenas juridicamente, no papel?
  • As “interações” consideradas serão somente as de ordem física, química e biológica?

Conclui-se que esse conceito é similar a uma “Sopa de Pedra”. Nele cabe de tudo. Porém, afora colocar uma pedra no meio do prato, nada mais esclarece. Trata-se de um mero jogo de palavras, com significado ambíguo, genérico e um tanto confuso.

2. Conceito acadêmico

Ambiente é qualquer porção da biosfera que resulta de relações físicas, químicas, biológicas, sociais, econômicas e culturais, catalisadas pela energia solar, mantidas pelos fatores ambientais que a constituem.

Essas porções detêm distintos ecossistemas, que podem ser aéreos, aquáticos e terrestres, e são observáveis através do comportamento de seus fatores físicos [ar, água e solo], bióticos [flora e fauna] e antropogênicos [homem e suas atividades].

2.1. Análise de conteúdo:

  • Biosfera é a camada da Terra integrada à litosfera – que lhe serve de substrato –, onde ocorrem todos os seres vivos do planeta. A atmosfera e a hidrosfera são partes essenciais à biosfera e dela não são desvinculáveis. Assim, biosfera, litosfera, hidrosfera e atmosfera conformam o Ambiente integrado do planeta.
  • Fatores ambientais ou fatores ambientais básicos são os componentes dos ecossistemas da Terra. Estão presentes em qualquer porção que se delimite em sua biosfera. Estes fatores são associados aos espaços ambientais que lhes são afetos, pela ordem: espaço físico [o ar, a água e o solo]; espaço biótico [a flora e a fauna]; e espaço antropogênico [o homem e suas atividades].
  • As relações mantidas entre fatores ambientais são realizadas através de trocas de matéria e energia, que são dinâmicas, interativas e espontâneas. Isto garante a estabilidade e a evolução dos sistemas ecológicos que conformam. Denominam-se relações ambientais.
  • Importante destacar o que deveria ser evidente: as relações ambientais, que se realizam há milênios, são energizadas pela luz solar, e possuem natureza física, química, biológica, social, econômica e cultural.

Por existirem o ar, a água, o solo, a flora e a fauna no mesmo cadinho da evolução da vida, a raça humana é, se tanto, a 6ª parte do ambiente do planeta. Mas nem todos têm sã consciência desse fato.

3. Conclusão

Em qualquer área do conhecimento é necessário estabelecer seus conceitos essenciais. Eles conformarão uma base sólida para a construção do conhecimento, a qual será a fundação de seus processos, metodologias e práticas, até ser beneficiada por acadêmicos visionários. A ser assim, a robustez de conceitos, sem ambiguidades, é fundamental ao aprendizado e à evolução das ciências.

A propósito, não se pode esquecer: o Ambiente não opera conforme determinam os diplomas legais e os juristas responsáveis por sua fabricação. Por sinal, fabricantes que não têm o devido respeito às ciências que o explicam. A Lei da Gravidade, com absoluta certeza, não será abolida por meio de Decreto-Lei.

4. Aos interessados, seguem as palestras

Está-se elaborando apresentações para a realização de palestras sobre o tema “Ambiente e Sustentabilidade”. Se a entidade promotora da palestra disponibilizar a logística necessária ao palestrante, serão conversas gratuitas, com duração de até 45 minutos, e tempo livre para debate. Seguem alguns dos títulos a serem inicialmente oferecidos:

  • Sustentabilidade versus Desempenho Ambiental.
  • Ambiente: a base conceitual e seus conflitos.
  • Identificação da Transformação do Ambiente.
  • Elaboração de Matrizes de Impactos Ambientais.
  • Programação e gestão de Atividades de Campo.
  • Formulação de Cenários Ambientais, atual e futuros.
  • Introdução à Avaliação de Impactos Ambientais.
  • Fundamentos para elaboração de Plano Corporativo Ambiental.
  • Fundamentos para Auditoria de Plano Corporativo Ambiental.
  • Introdução ao levantamento e gestão de Passivos Ambientais.
  • Produção e gestão de Procedimentos [Segurança, Ambiente e Saúde].

Após finalizado o ciclo de lançamento desta obra, que detalha esses e muitos outros temas, serão divulgados seminários e cursos intensivos. Espera-se o interesse dos atuais e futuros Gestores do Ambiente.

Por Ricardo Kohn, Consultor em Gestão.

CEA: 25 anos de evolução


Por Ricardo Kohn, Consultor em Gestão e Escritor.

Este editorial é um depoimento externo à UnespUniversidade Estadual Paulista e seu Centro de Estudos Ambientais (CEA). Constitui a visão de um especialista em gestão, nascido no Paraná, criado e residente no Rio de Janeiro, e agradecido a instituições acadêmicas e professores de São Paulo. Creio que esses fatos comprovam a imparcialidade do texto que se segue.

Em 1991, na qualidade de “palestrante alienígena”, participei do 1º Simpósio Nacional para Análise Ambiental, realizado pela Unesp, em seu campus de Rio Claro. Fora indicado pelo Professor Dr. Miguel Petrere Jr. e aceito pelos organizadores, dentre os quais se destacava uma docente pesquisadora: a Dra. Sâmia Maria Tauk-Tornisielo.

Unesp, Campus Rio Claro

Unesp, Campus Rio Claro

A palestra que proferi intitulava-se “A importância da Avaliação Ambiental”. Fiz dois papers para deixar na universidade, aos cuidados da Professora Sâmia. Narravam os equívocos comumente cometidos por essa prática e propunha um novo modelo para realiza-la com mais robustez, o qual ficou conhecido por MAGIA – Modelo de Avaliação e Gestão de Impactos Ambientais (1986-1989).

Saliento que, naquela ocasião, o CEA – Centro de Estudos Ambientais era uma instituição recém-nascida: um ano de idade. Ainda assim, os professores Sâmia Maria Tauk-Tornisielo, Nivar Gobbi e Harold Gordon Fowler, reuniram e depuraram os papers dos palestrantes para publicar o livro “Análise Ambiental: Uma Visão Multidisciplinar”. Por sinal, esta obra recebeu, em 1992, o Prêmio Jabuti, como o Melhor Livro de Ciências!

As capacidades ecológicas da auto-organização e da coevolução já estavam no DNA do CEA e das relações ambientais mantidas entre os membros de sua notável equipe. Tanto é assim que, em 1994, a Unesp de Rio Claro realizou o 1º Congresso Brasileiro de Análise Ambiental.

Desta feita, fui convidado a proferir uma conferência, que intitulei “Metodologias para a Sustentabilidade Ambiental”. Mas preciso salientar que, por fatos imprevistos, passei a noite em claro, à procura de médicos e hospitais e, pela manhã, minha conferência foi um fracasso. Bem distinta da palestra que fizera em 1991.

Todavia, em 1995, de novo foi publicado o livro do evento – “Análise Ambiental: Estratégias e Ações” – organizado por Sâmia Maria Tauk-Tornisielo et alli. Assim, também tive um capítulo publicado, com o texto da conferência.

Como o congresso teve duração de 5 cinco dias, foi nos jardins da Unesp que lancei meu primeiro livro solo: “Gestão Ambiental – Os Instrumentos Básicos para a Gestão Ambiental de Territórios e de Unidades Produtivas” (1994)[1]. Essa obra foi editada pela Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (ABES), com sede na cidade do Rio de Janeiro. Mas, afinal, lancei-a em Rio Claro, São Paulo!

Devo dizer que, até então, desconhecia um fato muito expressivo: a primeira Faculdade de Ecologia do Brasil fora criada na Unesp, campus Rio Claro, em 1976. Dessa forma, os primeiros ecólogos graduados no país têm hoje 39 anos de formados. Sem dúvida, um importante mérito para o ensino superior brasileiro.

Mesmo não sendo Ecólogo, entendo o que diz o axioma: “tudo o que acontece no Ambiente se dá por necessidade e acaso”. Explico. Desde criança sentia uma imensa vontade de escrever. Aos poucos, essa vontade tornou-se imperativa. Aos 22 anos ganhei um concurso nacional de contos, somente para estudantes universitários. Aos 32 anos, lancei um livro de contos, intitulado “O Lapidador”. Sentia a necessidade de ser escritor. Mas foi por obra do acaso que encontrei Petrere, Sâmia e a Unesp na cidade de Rio Claro. Tornei-me escritor de livros técnicos e acadêmicos dedicados ao setor ambiental.

Mais tarde, em dezembro de 2003, lancei o segundo livro solo, intitulado SLAN – Sistema de Licenciamento Ambiental Nacional: é possível. Foi prefaciado pelo Professor Emérito de Ecologia na USP, Dr. Paulo Nogueira-Neto. Simplesmente, ele foi o fundador do Setor Ambiental Brasileiro, o qual geriu durante cerca de 12 anos, dirigindo a Sema – Secretária Especial do ‘Meio Ambiente’. Foi esse o órgão público, criado em 1973, que organizou o Conama. Depois a Sema foi transformada no Ibama e, mais tarde, de forma indireta, deu à luz ao próprio Ministério doMeio Ambiente’.

Parabéns, Paulo Nogueira-Neto! O senhor é um guerreiro, pois criou o mercado da consultoria ambiental no Brasil, abriu vagas de trabalho para milhares ou até milhões de brasileiros, ansiosos para atuar em prol da estabilidade do ambiente nacional. Porém, sobretudo, criou espaço para o surgimento de novas faculdades e cursos superiores em todos os estados do país!

É nesse contexto que me sinto honrado pelo convite da Dra. Sâmia Tauk-Tornisielo para redigir este editorial, a ser publicado em breve na Revista Holos Environment. A qualidade e aplicabilidade prática de seus inúmeros artigos científicos, sempre elaborados por notórios especialistas nas Ciências do Ambiente, dá sustentação à ideia que a gestão adequada do ambiente é cada vez mais um fato inadiável para a Humanidade.

Por fim, como não poderia deixar de ser, comunico o lançamento de meu terceiro livro: “Ambiente e Sustentabilidade – Metodologias para Gestão”. Esta obra tem previsão para estar pronta em 30 de junho de 2015, impressa e em formato digital. Tenho certeza que poderei fazer palestras sobre os inúmeros temas da Gestão do Ambiente. Aguardo receber convite da Unesp e retornar ao seu campus de Rio Claro.

……….

[1] Tenho orgulho deste trabalho; afinal, dentre outras coisas mais relevantes, creio que fui um dos pioneiros no uso do termo “Gestão Ambiental”, ao invés do anglicismo “Gerenciamento Ambiental”.

Uma obra técnica e literária


Por Ricardo Kohn, Consultor em Gestão e Escritor.

Se bem me recordo, foi em janeiro de 2008 que o amigo e parceiro em estudos ambientais, Professor Antônio Carlos Beaumord[1] ou “Tu” (para os mais próximos), fez-me um desafio literário:

Cactos em floração

Cactos em floração

─ “Ricardo, você é escritor. Entãopor que não reúne todas as suas metodologias num único livro? Acho que seria uma bela contribuição para a Universidade”.

─ “Tu, eu precisaria de vários anos de dedicação para realizar esse trabalho. Mas tenho família e, para sobreviver, sou obrigado a fazer consultoria”, respondi-lhe, não sem alguma tristeza.

Contudo, a ideia de publicar mais um livro técnico não me saiu mais da cabeça; sou um otimista nato. Claro que o “diabinho pousado no ombro esquerdo” não parava de me aporrinhar o ouvido:

“─ No Brasil você não vai ter editora para publicar esse livro! Vai custar muito caro; duvido que você tenha cabeça fria para organizar esse livro…”

Porém, com a crise financeira global iniciada em fins de 2008, o mercado de consultoria no país começou a emagrecer. Senti que a dita “marolinha” era mesmo um longo e devastador tsunami. Pelo menos assim aconteceu com a conta bancária da família.

Com a forte redução dos serviços de consultoria, a única coisa que cresceu em minha vida foi o tempo vago. Confesso que sequer pensei em conseguir uma editora. Segui a ideia do Tu e comecei a organizar o livro. Precisava ocupar meu tempo livre.

Em 2010, exatamente no dia 31 de novembro de 2010, finalizei a obra, ainda que sem revisão. Ficara com 737 páginas A4, distribuídas nos 18 capítulos que seguem:

  • Capítulo 1: Conceitos Básicos para Estudos Ambientais.
  • Capítulo 2: Modelo para Identificação da Transformação Ambiental.
  • Capítulo 3: Estabelecimento das Premissas para Estudos Ambientais.
  • Capítulo 4: Caracterização Ambiental de Empreendimentos.
  • Capítulo 5: Programação e Gestão de Atividades de Campo.
  • Capítulo 6: Elaboração de Diagnósticos Ambientais.
  • Capítulo 7: Consolidação das Premissas de Estudos Ambientais.
  • Capítulo 8: Elaboração das Matrizes de Impactos Ambientais.
  • Capítulo 9: Formulação de Prognósticos Ambientais.
  • Capítulo 10: Formulação de Cenários Ambientais.
  • Capítulo 11: Modelo para Avaliação Quantificada de Impactos Ambientais.
  • Capítulo 12: Desenvolvimento e Gestão de Plano Corporativo Ambiental.
  • Capítulo 13: Auditoria de Plano Corporativo Ambiental.
  • Capítulo 14: Modelos para Estudos Preliminares de Viabilidade Ambiental; Estudo de Impacto Ambiental; Relatório de Impacto Ambiental; Programação e Gestão de Audiências Públicas; Elaboração e Gestão de Projetos Ambientais; Levantamento e Gestão de Passivos Ambientais.
  • Capítulo 15: Desenvolvimento e Gestão de Plano Executivo de Gestão Ambiental de Obras.
  • Capítulo 16: Modelos para Elaboração e Gestão de Procedimentos Ambientais; Organização e Operação de Comitês de Gestão Ambiental e da Sustentabilidade; Organização e Operação de Ouvidoria Ambiental; Código de Conduta Ambiental; Gestão de Licenças Ambientais; Elaboração de Termos de Referência.
  • Capítulo 17: Aprendizado com a consultoria.
  • Capítulo 18: Estudo Preliminar de Viabilidade Ambiental do Planeta Terra.

O acaso e a amizade

Em 2011, executava um projeto de gestão ambiental de obras civis em 12 capitais brasileiras, quando fiz a primeira impressão dos manuscritos em uma laser comercial. Resolvi dividir a livro em cinco volumes. Achei que ficaria mais fácil mostrar apenas um volume a pessoas que conhecessem boas editoras .

De fato, já houvera definido uma editora desejada, mas não consegui acesso a ela. Alguns “amigos”, na “ânsia de ajudar“, disseram-me: “─ Fala com a Josefa em meu nome’, ela dirige a editora. Mas acho que não há interesse nesse assunto”. Foi uma ajuda motivadora. Sequer telefonei para a dita senhora, embora, então, trabalhássemos na mesma organização.

Todavia, em novembro de 2012, fui convidado pela Professora Paula Marinho para fazer uma palestra na Universidade Estácio de Sá, no Campus de Del Castilho. O tema era “O Mercado da Engenharia Ambiental”. Cheguei quase no horário marcado: às 19:10 horas. Tinha 45 minutos para dar o recado, pois havia dois palestrantes à espera, ambos professores da universidade: o Professor Padilha[2], Coordenador Nacional de Engenharia, e o Professor Luis Mauro, Coordenador Local de Engenharia Ambiental.

Durante minha palestra, sempre a provocar aos alunos, notei que o auditório estava a lotar, inclusive com pessoas sentadas nas escadas, espremidas na porta de entrada e no corredor. Falei por cerca de uma hora e fiquei quase outro tanto a responder perguntas. Nenhum professor que aguardava a vez me interrompeu por ter ultrapassado meus 45 minutos, ao contrário. Ao fim, recebi uma saudável salva de palmas dos universitários e professores presentes. Emocionei-me, é claro.

Entretanto, meu único foco era publicar o livro, que até mesmo já batizara de “Ambiente e Sustentabilidade – Metodologias para Gestão”. Sem dúvida, a palestra havia sido proveitosa, conhecera bons professores, mas, é daí? Cadê a minha editora?!

Mal sabia eu que o Professor Padilha, com quem conversara acerca da busca por uma edição de qualidade, tinha como velho conhecido o Diretor Editorial de um grupo que reúne 10 editoras de obras técnicas e científicas. E mais, que ambos eram formados e pós-graduados no IME, em Engenharia Militar.

Assim, mais tarde obtive a informação que o Professor Padilha, por mera questão do acaso, insinuara ao Professor Severo que havia no mercado literário um manuscrito órfão, merecedor da análise de alguma editora do Grupo Editorial Nacional – GEN (clique o link para conhecer). E deu certo!

Mergulho na edição

Dessa forma, graças a uma palestra sem pretensão, proferida em novembro de 2012, assinei contrato com a LTC Editora no início de fevereiro de 2013! Ou seja, como dezembro é mês de festas, o GEN solicitou meus manuscritos para análise em janeiro; e, em 6 de fevereiro, contratou a edição da obra. No máximo, gastou dois meses para tomar a decisão.

Arte da 1ª capa de AMBIENTE e SUSTENTABILIDADE – Metodologias para Gestão

Arte da 1ª capa de AMBIENTE e SUSTENTABILIDADE – Metodologias para Gestão

A vida de autor seria difícil não fosse a qualidade da equipe dedicada à edição de livros. Em meu caso acrescento: não fosse a educação, a competência e a presteza de todos com que mantenho relações profissionais, desde o início de 2013 até hoje, decerto teria adoecido dos nervos.

De início, afobado e feliz, fiz em casa a revisão completa dos manuscritos e encaminhei-os à LTC. Em seguida, respondi às dúvidas da revisora oficial da LTC. Após essa etapa, coube a uma artista gráfica modelar a capa e o miolo do livro. Gostei muito do resultado: parece um quadro abstrato, mas é nitidamente orgânico e biótico. Ilumina o espaço e se destacará nas estantes de livrarias e bibliotecas.

Neste momento, estou a finalizar a revisão das 605 páginas da obra, diagramadas no formato final para impressão industrial. Somente a partir de então os capítulos serão integrados numa peça única. Terei poucos dias para rever a obra inteira, de modo a que esteja pronta no dia 27 de julho próximo, seguindo o cronograma de trabalho da LTC Editora.

Lançamentos da obra

O Grupo Editorial Nacional não realiza o lançamento físico da obra. Usa apenas seus sites na internet e conta com uma ampla rede de livreiros. No entanto, auxilia aos autores a realiza-lo. Por isso, minha proposta é fazer diversas palestras sobre os temas tratados no livro e ter um livreiro presente para oferecer os livros. Obviamente, autografarei cada um.

Dessa forma, meu projeto é divulgar nacionalmente o trabalho. Programar com universidades, fundações, associações nacionaisinstitutos para lançar o livro após uma palestra.

Referência bibliográfica

Kohn de Macedo, R., AMBIENTE e SUSTENTABILIDADE – Metodologias para Gestão. GEN – Grupo Editorial Nacional, Editora LTC – Livros Técnicos e Científicos. ISBN 978-85-216-2731-9. Rio de Janeiro, RJ. 636 pg., Julho 2015. 1ª edição.

……….

[1] Professor Beaumord, Doutorado em “Ecology, Evolution and Marine Biology na University of California, Santa Barbara”. É docente pesquisador do Centro de Ciências Tecnológicas da Terra e do Mar (CTTMar), Universidade do Vale do Itajaí – Univali, bem como consultor internacional em ecossistemas aquáticos.

[2] Professor Padilha, Mestrado em Engenharia Militar no IME – Instituto Militar de Engenharia. É docente na Universidade Estácio de Sá – Unesa.

Ambientologia


Por Ricardo Kohn, Consultor em Gestão.

Há algumas décadas é observado o aumento das preocupações do homem com o destino da Terra. Não por força de agentes cósmicos, externos ao planeta; mas pela ação desastrada de atores internos. Mesmo o “homem comum” – aquele que não adquiriu conhecimento sobre a Dinâmica do Ambiente da Terra –, com ímpetos de solidariedade ao próximo, arrisca palpites e soluções caseiras, que chama de “sustentáveis”.

A dinâmica da Terra resulta de sua estrutura física e de sensibilidades nela identificadas por diversas ciências. Sobre essa dinâmica já foram publicadas toneladas de literatura científica e analítica. Contudo, todas são obras específicas; seus autores tratam o ambiente através dos espaços e segmentos que conhecem. Por exemplo:

  • No espaço físico tratam da climatologia [meteorologia], hidrologia, oceanologia, geomorfologia, geologia [vulcanologia], geotecnia, pedologia, qualidade físico-química da água, etc;
  • No biótico abordam a ecologia, a qualidade biológica da água, vegetação, botânica, fitossociologia, mais as várias classificações da fauna silvestre [mastofauna, avifauna, primatofauna, herpetofauna, ictiofauna, entomofauna, anurofauna, malacofauna, etc];
  • No antropogênico discorrem sobre a demografia, economia, educação, saúde, uso e ocupação do solo, infraestrutura logística, infra de transporte, segurança, arqueologia, cultura, sociologia e antropologia, dentre outros.

Cada profissional dessas áreas oferece uma explicação um tanto limitada para a dinâmica do ambiente. Mas não há dúvida que a ênfase dessa explicação resulta da formação acadêmica que cada autor recebeu, bem como do tempo de experiência que dispendeu em trabalhos específicos.

Adoto um conceito para Ambiente[1] (nota de rodapé) que mostra o que é necessário para entender e prever o comportamento da Terra ou de qualquer de suas áreas e regiões.

Dessa forma, com base em experiências pregressas na execução de trabalhos ambientais, creio ser complexo produzir uma boa visão global da dinâmica aleatória do ambiente. Ou seja, diagnosticar os processos que nele ocorrem, bem como ressaltar seus aspectos essenciais.

Ao longo dos últimos 30 anos, o melhor relatório-produto que pude ler nesta matéria, foi obra de uma rara equipe técnica, composta por 40 consultores. Por sinal, muito bem gerida pelo saudoso e memorável engenheiro, o também oceanógrafo, Fernando Penna Botafogo Gonçalves, a partir de 1986.

Nossa equipe, por definição, teria de ultrapassar sérios obstáculos para obter os resultados esperados pela chefia, tais como:

  • O estudo a ser realizado era para o projeto executivo[2] de uma Usina Hidrelétrica, a ser construída na Amazônia;
  • Nenhum de seus membros havia participado antes da elaboração de qualquer estudo ambiental, inclusive o mestre Botafogo, chefe da Divisão;
  • Apenas três dos 40 profissionais contratados conheciam-se entre si. Os demais eram desconhecidos, estranhos no ninho;
  • A maioria da equipe era recém graduada, sem experiência de trabalho na consultoria. Contudo, quatro dos inexperientes tinham curso de pós-graduação completo.

Em tese, minha função era assessorar a Botafogo: na programação das tarefas da equipe; na gestão dos trabalhos de campo; na análise dos resultados obtidos; e na integração dos relatórios produzidos pelas chefias dos setores físico, biótico e antropogênico.

Digo, em tese, por que isso não ocorreu “conforme combinado”. Posso explicar. Com calma e competência, Fernando arregaçou as mangas e assumiu a liderança direta dos trabalhos. Foi a campo aprender como deveriam ser realizadas as campanhas na mata amazônica e quais seriam as fórmulas para diagnosticar a dinâmica daquele ambiente. Por fim, delegou várias missões a cada membro de sua equipe.

Fazenda Boa Vista, tomada da Pousada

Com essa delegação, realizada à vera, a equipe foi obrigada a compartilhar conhecimentos; todos passaram a se auxiliar mutuamente, ou seja, a trabalhar juntos. Assim, em apenas três meses, os desconhecidos tornaram-se uma família de trabalho.

Entretanto, quando tudo entrava nos eixos, o Engo. Botafogo mudou minhas atribuições no trabalho. Disse-me que, dado meu interesse em elaborar metodologias e modelos, gostaria que eu trabalhasse no desenho de um Modelo para Avaliação e Gestão de Impactos Ambientais, desde que produzisse resultados consistentes.

Após quase dois anos de desenvolvimento, o modelo foi consolidado e ganhou o apelido de ‘MAGIA’. Funciona até hoje, tendo recebido ajustes e vários adendos. Por fim, tornou-se um livro técnico, a ser lançado em 30 de junho deste ano. Falo sobre isso ao final deste artigo.

Mas não criamos a Ambientologia

Trabalhei com Fernando Botafogo na consultoria de projetos, em várias empresas, desde 1972. Junto com nossas famílias, pudemos construir uma sólida amizade. A meu ver, tornou-se o irmão mais velho, dono de criatividade profissional que a todos impressionava.

Por volta de 1990, estava em sua casa de pescador, na lagoa de Araruama, quando iniciamos uma conversa sobre as inúmeras “logias” que os estudos ambientais requerem para serem elaborados, tais como: climatologia, hidrologia, geologia, geomorfologia, pedologia, ecologia, limnologia, fitossociologia, sociologia, arqueologia e assim por diante.

Sem assumir compromissos, nossa ideia era pensar sobre a possibilidade de existir uma ciência que fosse capaz de reunir o conhecimento de todas as Ciências do Ambiente. E foi entre areia, sal e as conchas secas da lagoa, que Botafogo encerrou a conversa:

─ “Ricardo, haveria de ser uma ciência imensa. Raciocine comigo: para uma equipe de 40 pessoas, só no curso da graduação os alunos teriam de estudar durante 160 anos! De toda forma, sugiro que tenha como títuloAmbientologia’. É justo para que essa inteligência tão desejada seja elaborada um dia. Todavia, preste atenção: que eu saiba, ainda não é possível desenvolve-la”.

Pensei nessas palavras durante mais de uma década. Concordei que 40 cursos de graduação demandariam, no mínimo, 160 anos para serem concluídos. Além disso, sem considerar o tempo de vida médio do ser humano (estimado em 79 anos), creio que são raros aqueles dotados de capacidade cognitiva para absorver tanta ciência. E mais raros ainda, se é que existam, os que conseguiriam integra-las em uma única ciência ambiental.

Até onde consegui chegar

De toda forma, segui a trabalhar no desenvolvimento de metodologias para aplicação no setor ambiental. Desejava oferecer a meus clientes novas soluções práticas, de preferência menos custosas e mais rápidas em gerar resultados.

Mas somente em 2012 notei que já houvera elaborado uma boa quantidade de abordagens teóricas e as aplicara com sucesso no mercado consultivo (Brasil, Chile, EUA, Espanha e Itália). Entendi que podia ser boa hora para publicá-las em um livro.

Assim, perguntei a Antônio Carlos Beaumord, um velho amigo dos anos 80 – então com título de “Doctor of Philosophy in Ecology, Evolution and Marine Biology” –, o que deveria fazer para conseguir uma editora que publicasse meu livro. A obra tinha 737 páginas de papel A4, organizadas em 18 capítulos.

A princípio, Beaumord me disse que seria mais fácil verter o livro para o inglês e publica-lo na Califórnia! Lá ele tinha diversos parceiros acadêmicos, que conhecera durante o doutorado. Nos Estados Unidos é normal que um professor se disponha a auxiliar na 1ª edição de bons livros técnicos, disse-me ele.

Porém, após ler os manuscritos, concluiu que tanto a envergadura do trabalho, a profundidade da narrativa, o nível de detalhes no tratamento das metodologias, os estudos de caso reais apresentados, bem como a qualidade pedagógica, dotavam o livro do mérito necessário para ser publicado:

─ “Sem dúvida, trata-se de trabalho que pode se tornar livro texto em cursos superiores sobre a Gestão do Ambiente e da Sustentabilidade. Atende aos preceitos da Academia, seja a brasileira ou a norte-americana”, ponderou o Professor Beaumord.

Edição e publicação do livro

Mas foi através da iniciativa do Professor Padilha, então membro do Centro de Conhecimento em Exatas e Engenharias da UESA, que a possível edição de meu livro teve início em 7 de novembro de 2013. A Editora LTC – Livros Técnicos e Científicos, a pedido do “Mestre Padilha”, recebeu-me para uma conversa acerca das finalidades de meu manuscrito.

A Diretora Editorial da LTC, Professora Carla Nery, conduziu a reunião. Recordo-me que me foi solicitado responder ao “Formulário para Proposição de Obra“. Conforme acordado, junto com o formulário preenchido, enviei informações complementares: meu currículo profissional, a visão do mercado potencial do livro, a análise de pontos fortes e fracos da obra, das ameaças e oportunidades potenciais previsíveis, as formas de solução, etc.

Em 28 de janeiro de 2014 recebi a grata notícia de ter meu trabalho aprovado para publicação pela Editora LTC. Surpreendeu-me. Sim, por que nunca passara por um processo editorial analítico daquela qualidade, com tantas exigências. Por fim, pelo fato de editar e publicar no Brasil, com elevado padrão de excelência, sem arcar com qualquer custo.

Enviei à editora os originais do livro ao longo do mês de março de 2014. Cumpri com todos os padrões e a sequência editorial por ela estabelecidos: caderno-zero; 18 capítulos; e caderno pós-texto. Desde então mantenho contato com as coordenações que trabalham no processo de produção do livro. A primeira previsão de lançamento da obra ficou para trás, em setembro de 2014. A segunda, não aconteceu como prevista, em março passado. A terceira, que deve finalmente ser cumprida, soube que está garantida para 30 de junho de 2015!

E este será meu próximo livro: “Ambiente e Sustentabilidade – Metodologias para Gestão”. Rio de Janeiro, RJ, Editora LTC – Livros Técnicos e Científicos. 650 pg. 1ª Edição”.

Após 42 anos de trabalho na consultoria de estudos e projetos, enfim descobri que a Ambientologia, como apelidada por Fernando Botafogo, não é uma ciência ambiental em si, tal as demais. Mas é uma sólida teoria, capaz de gerir a aplicação simultânea de todas as Ciências do Ambiente. Quatro anos de estudo dedicado são mais do que suficientes para seu pleno aprendizado.

……….

[1] Ambiente é qualquer porção da biosfera que resulta de relações físicas, químicas, biológicas, sociais, econômicas e culturais, catalisadas pela energia solar, mantidas pelos fatores ambientais que a constituem (ar, água, solo, flora, fauna e homem). Todas as porções da biosfera são compostas por distintos ecossistemas, que podem ser aéreos, aquáticos e terrestres, bem como devem ser analisados segundo seus fatores físicos [ar, água e solo], bióticos [flora e fauna] e antropogênicos [homem e suas atividades].

[2] Quero destacar um fato que considero de expressiva importância. Nos idos dos anos 60, 70, 80 e 90, século passado, projetos executivos eram desenvolvidos por empresas de engenharia consultiva. As empreiteiras se limitavam a construir e não “obravam” sem eles. O Brasil ainda operava como os países mais preparados para o desenvolvimento da “engenharia de precisão”.

Reflorestar já!


Parece não haver outra forma de fazer, infelizmente. Mas certas decisões nacionais precisam ser radicais e intolerantes com aqueles que delas se desviarem, sem o quê, ‘fazem água’ e, no máximo, obtém resultados pífios.

Mas debaixo dessa perigosa premissa, tranquilizem-se: estão somente as decisões que visam a garantir a integridade do Patrimônio Ambiental Brasileiro, sem dúvida ainda um dos mais importantes do planeta. No entanto, o cenário atual desse patrimônio é grave e apresenta processos desastrosos, cujos efeitos negativos se multiplicam diária e regionalmente.

Sem dúvida, compreende-se que o ‘novo governo herdará’ (de si mesmo) severas crises de difícil solução – econômica, política, moral e corruptiva parecem ser as prioritárias. Contudo, a ver por outro ângulo, pergunta-se: aonde pretende chegar com sua permanente omissão frente a incêndios e desmatamentos criminosos, realizados em todos os biomas brasileiros? Deseja aguardar, complacente, que o território nacional transforme-se num gigantesco Saara, totalmente estéril?

Deserto do Saara, por Luca Galuzzi, 2007

Deserto do Saara, por Luca Galuzzi, 2007

É nítido que qualquer cidadão medianamente observador encontra neste cenário a semente de mais uma poderosa crise, com consequências temporais e regionais imprevisíveis, que podem acarretar despesas evitáveis, porém estimadas em dezenas de bilhões de reais para conter e sanar verdadeiros desastres ambientais.

As fortes oscilações do clima, o calor e a secura que se instala em grandes áreas do país, afetando a geração de energia e o abastecimento d’água, são apenas os primeiros indícios de uma forte desertificação que advirá caso a Crise Ambiental não seja tratada da forma devida, como evento prioritário da Governança do Ambiente no país.

Sumário da Crise Ambiental

As regiões que foram recobertas pelos biomas Cerrado e Caatinga (cerca de 25% do território nacional) já possuíam essa tendência primitiva, como espelho do clima nelas ocorrente. A ser assim, haveriam de ser geridas com cuidados especiais, ambientais e agronômicos. Mas pouco foi feito. O fato é que estão a ser apagadas do mapa orgânico nacional, com seu uso e ocupação realizado por atividades destrutivas, que não possuem a visão do bioma como um todo, apenas do pequeno naco de terra de cada propriedade.

Brasil, o celeiro do planeta!’, é uma das exclamações mais clamorosas que ainda se escuta. Com essa visão, dotada de ‘burrice latifundiária’, o setor agropecuário brasileiro tornou-se ‘satélite do estômago’ das nações compradoras. Além disso, não possui meios para garantir bons preços de suas commodities no mercado internacional.

Ademais, o solo sofre os efeitos adversos das práticas da monocultura intensiva e necessita ações periódicas de manejo para ‘ser renutrido e descansar’. Dessa forma, a questão que se impõe é saber “como repor a capacidade produtiva do solona elevada velocidadeda demanda por produtos agrícolas que pretende atender”.

Apesar de leigos nessa matéria, acredita-se ser muito difícil obter uma solução por meio de práticas agronômicas conhecidas. Ainda assim, caso seja descoberta, será somente por um tempo limitado. O Solofalecenas mãos cobiçosas do Homem e, junto com ele, também os aquíferos e a vegetação.

Porém, ao contrário, é com extremo vagar que instituições públicas às vezes respondem aos alarmes de ‘incêndios acidentais’ e desflorestamentos ilegais nos biomas Amazônia e Mata Atlântica. Com isso, ambos já sofreram perdas irreparáveis nas matas originais: a Amazônia já perdeu cerca de 40% de sua floresta nativa, e a Mata Atlântica, no entorno de 93%.

É absurdo trocar Matas Nativas por loteamentos, condomínios, pastagens, criação de gado e culturas agrícolas! Há outros meios disponíveis sem necessidade de se tocar nas matas.

No passado, quando alguns poucos cidadãos se rebelavam contra este ato incompreensível e injustificável, críticos mais arrogantes desprezavam a realidade e aplicavam-lhes o jargão de ‘eco-chato’ ou, com nítido menosprezo, de ‘ambientalista’. Queriam silencia-los.

Entretanto, nas três últimas décadas, começou a ficar evidente a tendência preocupante dos rumos do dito Patrimônio Ambiental Brasileiro. Nas bordas limites de seus grandes biomas, forças externas da ocupação humana crescente, sem qualquer critério de controle, causam ‘corrosões’ acentuadas nas manchas da vegetação. É o chamado efeito de borda. Esse fenômeno reduziu de forma gradativa a área total dos biomas, enfraquecendo sua estabilidade espontânea e tornando-os mais vulneráveis a outras ações.

Aos poucos, sobrevieram ondas de calor em regiões e áreas do país, sobretudo decorrentes da derrubada de matas e savanas, que se conjugam com a constante dinâmica da ação solar. Assim, graves efeitos foram promovidos sobre o ambiente, impactando seu clima, seus recursos hídricos, os solos, a flora, a fauna e, por fim, a própria sociedade [1].

Uma ótica de abordagem

Para o caso brasileiro, lógico que sem menosprezar a ciência, segue uma visão mais imediata e pragmática. Até por que reservatórios de usinas hidroelétricas do país já estão a secar, assim como as nascentes de vários mananciais, com os conhecidos efeitos nas condições de fornecimento de energia e de abastecimento d’água para inúmeras cidades.

Diante da realidade brasileira, duramente afetada pela Crise Ambiental, que cresce e evolui em silêncio, é premente a implantação de um Plano Nacional de Ações para EmergênciasPNAE. Dotado de metas de curto, médio e longo prazos, bem como de critérios claros para avaliar os resultados alcançados, terá na sociedade civil organizada uma efetiva rede de fiscalização e controle.

Dispondo de equipe selecionada, composta por acadêmicos e especialistas, é viável elaborar e implantar o PNAE em até doze meses. Porém, para que realize os resultados esperados, sugere-se que algumas diretrizes sejam seguidas:

  • O PNAE não possuirá qualquer vínculo ideológico ou político, nem constituirá uma iniciativa de governo. Precisa ser proposto pela sociedade civil.
  • Por enquanto, o PNAE constituirá um conjunto integrado de ações e projetos que represente o desejo da parcela da população brasileira que se encontra melhor informada.
  • No entanto, projetos de Educação Ambiental serão implantados junto a comunidades que necessitam de melhores informações sobre práticas e benefícios de ‘conservar seu ambiente’. Dessa forma, ganham a participação no controle do PNAE.
  • Projetos de Educação Ambiental serão prioritários para as comunidades que vivem nas bordas dos grandes biomas.
  • Desmatamento Zero’ em todo o território nacional começará a vigorar junto com o início da elaboração do PNAE.
  • Todas as metas do PNAE serão formuladas a partir da visão global do Patrimônio Ambiental Brasileiro que pretende reconstruir e garantir sua conservação. O PNAE não enxergará propriedades, mas os biomas em que estiverem inseridas.
  • O PNAE estabelecerá que ‘incêndios criminosos e desmatamentos ilegais’ serão promovidos a crimes hediondos.
  • A prática chamada ‘Reflorestar Já!’ deverá ser seguida e implantada em todo o território nacional, compreendendo desde casas, ruas, praças, áreas urbanas, áreas militares, até sítios, fazendas, indústrias, matas e savanas degradadas.

Cabe ao poder executivo apenas endossar o PNAE e, quando requerido, alocar recursos para garantir seu sucesso. Isso é a Governança do Ambiente, ou seja, o presto atendimento aos interesses legítimos dos cidadãos.

Somente através desta prática de gestão pública torna-se possível produzir, crescer, distribuir renda para os trabalhadores, assim como, simultaneamente, manter a sustentabilidade dos biomas brasileiros.

Plantação de cacau dentro da Mata Atlântica

Plantação de cacau dentro da Mata Atlântica

[1] Aqui não se discute o mérito do efeito estufa ‘causado por atividades humanas’: efeito estufa antropogênico. Há diversas teses disponíveis, todas elas não demonstradas, mas que o explicam ao ‘gosto de cada cientista, político e artista cinematográfico’.

Lino Matheus e a Mantiqueira


A união de trabalho e perseverança há mais de 40 anos.

Fizemos uma visita de campo à fazenda Boa Vista durante três dias[1]. Ela possui cerca de 95 hectares e está situada no município de Bocaina de Minas. Encontra-se presente nos 729.138 hectares onde emergiu do solo a Serra da Mantiqueira. Ou seja, a serra brasileira que nasceu há cerca de 2,5 bilhões a 3,85 bilhões de anos, na era Arqueana.

Apesar de a Boa Vista possuir pequena expressão geográfica, sobretudo quando comparada ao mosaico de toda a Serra – ocupa apenas 0,013% da área da Serra –, a representa com extrema fidelidade. Diríamos mesmo, com extrema felicidade, graças à gestão adequada do ambiente fazendário que seu proprietário, o senhor Lino Matheus de Sá Pereira, já pratica há décadas naquelas paragens.

Uma vista panorâmica da Serra da Mantiqueira

Uma vista panorâmica da Serra da Mantiqueira

Dados básicos da Serra da Mantiqueira

A Serra encontra-se nos estados de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro e atravessa 39 de seus municípios, sendo 24 de Minas, 13 de São Paulo e 2 municípios do Rio de Janeiro. Possui diversos ecossistemas sensíveis, espargidos em relevo fortemente declivoso, que varia desde 700 metros até seu ponto culminante, a Pedra da Mina, situada na divisa de Minas Gerais e São Paulo, com 2.792 metros de altitude.

Por iniciativa de proprietários de fazendas, em contagem não atualizada e crescente, a Serra possuía, na entrada deste século, 18 Reservas Particulares do Patrimônio Natural – RPPN. A fazenda Boa Vista é uma delas, declarada por órgãos oficiais como Refúgio da Vida Silvestre, dada a riqueza de sua vegetação, sua fauna abundante e diversificada, espécies endêmicas, as numerosas nascentes e cursos d’água, todos muito bem conservados. Aliás, muitos deles mantidos por Lino em seu estado primitivo.

Sobre a riqueza da vegetação da Mantiqueira ressaltamos alguns dados disponíveis:

  • Constitui a maior mancha contínua de Mata Atlântica remanescente no sudeste do Brasil;
  • Detém uma expressiva área ambiental protegida – a APA da Serra da Mantiqueira, com seus 434.108 hectares, ou seja, um terreno com cerca de 58% de toda a Serra. Não se trata de um brinquedo e há que ser muito bem gerido;
  • Dessa forma, precisa ser a ferramenta pública, à disposição da sociedade civil, visando a garantir a estabilidade das fitofisionomias da Mata Atlântica predominantes na Serra: (i) Floresta ombrófila densa; (ii) Floresta ombrófila aberta; (iii) Floresta ombrófila mista – “Mata de araucárias”; (iv) Floresta estacional semidecidual; e (v) Campos de altitude.

Ressaltamos que a APA foi resultado de antigas ações sistemáticas pela conservação da natureza, realizadas por um grupo de amigos de vários locais da Mantiqueira. Esse grupo tinha como líder, novamente o senhor Lino Matheus, então na casa dos 30 e poucos anos. Mas foi somente em 1985 que o governo central, a dizer “que atendia aos interesses da comunidade”, promulgou o Decreto Federal 91.304, para criar a área de proteção. Enfim!

Em 3 de junho de 2005, o então Superintendente do Ibama, Roberto Messias Franco, fez pessoalmente uma homenagem a Lino Matheus pelos 20 anos da criação da APA da Serra da Mantiqueira.

Lino Matheus em sua biblioteca na fazenda

Lino Matheus em sua biblioteca na fazenda

A Mantiqueira, que na língua dos indígenas pioneiros significava algo como “rochas que choram”, constitui um dos mais complexos sistemas orográficos e hidrológicos brasileiros. Suas águas, vertidas pelos ecossistemas, abastecem inúmeras cidades dos três estados mais desenvolvidos do país. As suas próprias capitais (São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro) dependem das nascentes da Mantiqueira para serem abastecidas, em todos os setores sociais, produtivos e comerciais.

Em suma, é importante observar, não como um dado sobre a Serra da Mantiqueira, mas como sua nítida obviedade: a hidrologia prolífica que até hoje lá existe só permanecerá a transbordar enquanto as matas que acolhem suas nascentes forem preservadas.

Caso contrário, a Mantiqueira se tornará estéril, capaz de esterilizar a economia brasileira. Isso é um fato, um dado sensível para o problema de manter a Serra Viva e continuar alimentando a economia do sudeste, a mais forte do país.

Para conceber uma nova era

Foi através de uma conversa telefônica com Ítalo Meneghetti, por acaso, que descobrimos como andava Lino Matheus e o que estava motivado a realizar na fazenda Boa Vista e vizinhanças. Assim , três dias após nossa conversa, chegamos à fazenda para conversar com Lino sobre seu novo projeto: a criação da Fundação Mantiqueira. Talvez seja o projeto mais complexo e importante idealizado por ele. De toda forma, interessamo-nos pelo convite em participar desse esforço.

Lino deseja ser o instituidor da Fundação e, para tanto, está disposto a doar uma área de sua fazenda para dotar a Fundação do patrimônio legalmente necessário. Da mesma forma, definiu sua finalidade, e objetivos que considera serem estratégicos, de forma a que seu desempenho na região seja compatível com a cultura lá existente.

Ao fundo, a futura sede da Fundação Mantiqueira

Ao fundo, a futura sede da Fundação Mantiqueira

Nossa equipe inicial, formada por Ítalo, Kohn, Hernán e Marcus, com base em um pacote de informações sobre a Fundação cedido por Lino, propôs realizar as seguintes atividades iniciais, básicas para instalar a Fundação:

  • Elaborar a descrição detalhada do projeto da Fundação, com suas finalidades e os setores em que deverá atuar – educação, capacitação de pessoas, desenvolvimento de projetos ambientais, implantação desses projetos, etc.
  • Elaborar um modelo de projetos para a Fundação, enfatizando a educação, o treinamento e serviços realizados para terceiros, através de convênios assinados com instituições privadas e públicas.
  • Realizar a análise SWOT da Fundação, ou seja, analisar seus pontos fortes e fracos, bem como as oportunidades e ameaças potenciais, provindas do ambiente externo à Fundação.
  • Estimar três cenários futuros alternativos para a Fundação Mantiqueira, considerando as visões pessimista, conservadora e otimista.
  • Elaborar o fluxo de caixa estimado da Fundação, até atingir seu ponto de equilíbrio, e prever, ano a ano, o aporte de capital necessário.
  • Selecionar instituições que podem oferecer financiamento a fundo perdido ou doações para a Fundação.
  • Aprovar o Estatuto consolidado e instituir a Fundação Mantiqueira.

Acreditamos que todas as partes envolvidas nesse processo concordam com a extrema importância da Serra da Mantiqueira para suporte à economia brasileira. Em outras palavras, a Mantiqueira precisa, tanto quanto possível, permanecer intocada, de forma a que continue a irrigar os principais centros do desenvolvimento do país.

As águas da irrigação da Mantiqueira são volumosas e puras

As águas da irrigação da Mantiqueira são volumosas e puras

Resta-nos agora realizar as atividades iniciais, usando das melhores técnicas disponíveis e dominadas pela equipe. Afinal, a ciência e as técnicas dela derivadas devem ser a poesia que espelha a humanidade e grandeza de pessoas como Lino Matheus. Por isso mesmo, já estão sendo aplicadas com dedicação.

Ricardo Kohn, Consultor em Gestão

[1] A visita de campo foi realizada nos dias 15, 16 e 17 de agosto de 2014.

Então, venceu a Alemanha


Aliás, não havia como ser diferente, sobretudo após os efeitos da dança de roda dos índios Pataxós, com Miroslav Klose feliz ao centro. Os pataxós daquela aldeia rogavam a seus ancestrais pela sorte e sucesso da Seleção Alemã de Futebol na competição mundial.

A formidável integração da equipe Alemã com a equipe Pataxó

A formidável integração da equipe Alemã com a equipe Pataxó

É importante salientar que, por detrás do comportamento dos jogadores selecionados, de sua comissão técnica e da própria Federação Alemã de Futebol, subjazem sólidos alicerces que são o comprometimento com atitudes humanas e a força da cultura alemã atualizada. Inclua-se, acima de todos, seu próprio Estado, onde o governo eleito representa seu povo e os auxilia na arte do convívio, dentro e fora da União Europeia.

Isto ficou evidente ao longo do processo da Copa do Mundo de 2014. De tal sorte, que os craques da seleção, como reflexo da sua cultura, relacionaram-se com comunidades humildes, como se fossem jovens diplomatas da nação alemã. E, na verdade, o foram.

O planejamento alemão

Nada se faz na Alemanha sem exaustivos processos de planejamento, a analisar todos os detalhes e finalidades do projeto. Assim, a Federação Alemã enviou ao Brasil um grupo de técnicos para selecionar o local onde permaneceria sua seleção. Após visitarem as regiões das 12 cidades-sede, foi escolhida a Vila de Santo André, localizada no município de Santa Cruz de Cabrália, Bahia.

Com o apoio de investidores alemães, ergueram o próprio centro de treinamento, contendo 14 casas de dois andares, infraestrutura para treinamento físico, amplo espaço para imprensa e 65 salas de frente para o mar. Sua área construída é de 15 mil m2. Além disso, fizeram dois campos de futebol (um somente para o treinamento dos goleiros) e vias asfaltadas interligando todas as unidades.

Imagem aérea das obras do Campo Bahia

Imagem aérea das obras

Tudo foi construído por profissionais locais, salvo poucos especialistas que a Federação Alemã trouxe do exterior. Mas todos os operários foram brasileiros locais, treinados para se adaptarem aos eficientes métodos construtivos praticados na Alemanha.

Estima-se que os investidores hajam aplicado pelo menos R$ 35 milhões para finalizar as obras em cerca de cinco meses. Com projeto arquitetônico desenhado por um brasileiro – Sandro Pretti, foi batizado de “Campo Bahia”, conforme mostra sua construção no vídeo abaixo – “Catch your dreams“.

“Campo Bahia”, um marco

Aqui reside uma revolução de costumes, inclusive na prática do futebol. O que mais importa no Campo Bahia não é o valor monetário de um simples empreendimento imobiliário. Mas a “educação, o crescimento do turismo, com internet de elevada qualidade“, segundo observou Tobias Junge, um dos investidores envolvidos e radicado no Brasil.

Situada da Costa do Descobrimento, um marco histórico do Brasil, Cabrália será beneficiada com o amplo e duradouro legado construído pela Federação Alemã de Futebol. Porém, muito além disso, parece claro que uma seleção de futebol é o reflexo imediato da qualidade do Estado que representa, através de seu governo.

Porém, ao contrário, se o governo do Estado não possuir eficiência, por falta de princípios e posturas adequadas, alguns indicadores de resultado serão automaticamente demonstrados ao mundo: através de uma seleção muito fraca, com comissão técnica inepta e uma federação futebolística dedicada a negócios escusos. Então, que se mude o governo do Estado e até o futebol poderá melhorar!

Finaliza-se

Haveria muitos mais fatos importantes a serem relatados, mas infelizmente interrompe-se aqui. O que importa é que a seleção alemã vai deixar saudades em todo o Brasil, sobretudo, nas crianças da vila. Esta foi sua primeira vitória obtida no mundial de futebol. A segunda, espera-se, por mérito esportivo, que aconteça no fim da tarde de hoje.

Parabéns Angela Merkel! Seu governo à frente do Estado Alemão mostrou, mais uma vez, os princípios da disciplina, honra e humanidade, que se espraiam para o mundo, inclusive através de seus atletas.

A equipe alemã deixará imensas saudades ao povo da vila

A equipe alemã deixará imensas saudades ao povo da vila

Orientações para proceder a Gestão do Ambiente


Por Ricardo Kohn, Escritor e Consultor em Gestão.

Este é um artigo de maior amplitude teórica e prática sobre a Gestão do Ambiente. Procurou-se integrar boa parte dos artigos técnicos já publicados neste Blog, durante seus dois anos de existência. Sua leitura e análise pode contribuir para aquecer os debates que visam à evolução das práticas de gestão, tendo o Ambiente como seu foco principal.

1. O que é Ambiente

É qualquer porção da biosfera que resulta das relações físicas, químicas, biológicas, sociais, econômicas e culturais, catalisadas pela energia solar, mantidas pelos fatores ambientais que a constituem, quais sejam: o Ar, a Água, o Solo, a Flora, a Fauna e o Homem”.

Dessa forma, todas as porções da biosfera são compostas por distintos ecossistemas, que podem apresentar componentes aéreos, aquáticos e terrestres, bem como serem observados segundo seus elementos do espaço físico (ar, água e solo), do espaço biótico (flora e fauna) e do espaço antropogênico (o homem e suas atividades típicas – habitacionais, industriais, comerciais, de serviços e culturais).

No entanto, países de língua portuguesa e espanhola usam o termo ‘Meio Ambiente’. Nas demais nações ocidentais verifica-se que o somente vocábulo ‘Ambiente’ é usado para se referir à mesma entidade: environment, environnement, umwelt, ambiente.

Dado o fato que na língua portuguesa um dos significados de ‘Meio’ é justamente ‘Ambiente”, dentre outras coisas, opta-se por eliminar esse erro de redundância e usar apenas ‘Ambiente’, tal como nas línguas inglesa, francesa, alemã e italiana, acima exemplificadas.

2. Conceitos básicos relativos ao Ambiente

Seguem alguns conceitos e respectivas definições usados neste artigo. São básicos para o entendimento do que é e como se faz a Gestão do Ambiente.

Conceitos Definições
Ecossistema ou Sistema ecológico Qualquer parcela do Ambiente, na qual se estabelecem relações de diversas ordens entre os fatores bióticos e abióticos que a compõem. Os empreendimentos públicos e privados são conjuntos de fatores ambientais antropogênicos e fazem parte dos ecossistemas em que se situam. Constituem, dessa forma, ecossistemas humanos organizados quando estabelecem relações de troca de energia e matéria dentro de limites aceitáveis.
Fator ambiental Constituem os componentes dos ecossistemas, tanto primitivos, quanto rurais e urbanos, que interagem para conformá-los. Os fatores ambientais considerados básicos são o Ar, a Água, o Solo, a Flora, a Fauna e o Homem.
Espaço ambiental Espaços ambientais constituem uma subdivisão teórica do Ambiente. São organizados por conjuntos afins de segmentos ambientais, de acordo com o tipo de abordagem que se deseja imprimir em uma dada relação entre Empreendimento e sua área de inserção. Por exemplo: Ambiente → {Espaço Físico, Espaço Biótico e Espaço Antropogênico}.
Segmento Ambiental Segmentos ambientais consistem qualquer uma das partições afins em que podem ser subdivididos os espaços ambientais, de acordo com a abordagem do estudo a ser realizado e em conformidade com as características do espaço a que se referem. Por exemplo: Espaço Biótico → {Segmento Aquático, Segmento Florístico e Segmento Faunístico}.
Relações ambientais Consistem nas trocas sistemáticas de energia, matéria e informação entre fatores ambientais e entre cada fator e os ecossistemas de que participam. São trocas espontâneas e essenciais que podem garantir a estabilidade dos sistemas ecológicos.
Estabilidade ambiental Constitui o processo de manutenção espontânea dos ciclos de relações ambientais mantidas entre fatores em permanente interação, conformando ecossistemas estabilizados e, por conseguinte, capacitados para a coevolução.
Organização (o mesmo que Organização produtiva, Empresa, Corporação ou Empreendimento) Constitui um conjunto dinâmico e integrado de recursos de diversas naturezas, apoiado em tecnologias apropriadas, destinadas aos tipos de bens, produtos e serviços que objetiva produzir, física e economicamente organizados, a fim de cumprir um processo produtivo estabelecido. Toda organização opera em um determinado Ambiente. Sua existência, sobrevivência e evolução dependem da maneira com que ela se relaciona com ele, bem como de suas capacidades de adaptação às variações do Ambiente. Depende, portanto, de sua capacidade de gestão do desempenho ambiental.
Área de influência de uma organização Consiste na área territorial estimada que poderá receber impactos ambientais benéficos e adversos, decorrentes de todas as etapas do ciclo de vida de uma organização: projeto, obras, operação e eventual ampliação.
Transformação ambiental Trata-se da sequência de eventos proporcionada pelas relações ambientais mantidas entre um empreendimento e o Ambiente de sua área de influência:

  • Existe uma organização ou um projeto de engenharia;
  • Explicada por intermédio de suas intervenções de engenharia sobre o Ambiente;
  • Que demandam ou ocasionam manejos no Ambiente para que sejam implantadas e operadas;
  • As quais podem proporcionar mudanças de comportamento e/ou de funcionalidade dos fatores ambientais por elas afetados.
Intervenção ambiental Consiste em uma obra de engenharia que acarreta a introdução, concreta ou virtual (quando em projeto), permanente ou temporária, de pelo menos um fator ambiental em um dado Ambiente através da ação humana, capaz de gerar ou de induzir o remanejamento dos fatores ambientais existentes. Um conjunto de intervenções ambientais conforma uma organização.
Alteração ambiental Consiste no remanejamento, espontâneo ou induzido, de conjuntos de fatores ambientais da área de influência da organização, em decorrência da introdução de pelo menos uma intervenção ambiental.
Fenômeno ambiental Constitui qualquer processo ambiental capaz de afetar, específica e diretamente, o comportamento e/ou a funcionalidade pré-existentes de um ou mais fatores ambientais, em decorrência de pelo menos uma alteração ambiental.
Eventos ambientais Trata-se do nome genérico dado a empreendimentos, intervenções, alterações e fenômenos ambientais.
Impacto ambiental Os efeitos de qualquer ordem percebidos no Ambiente que sejam capazes de afetar as variações das transações de energia, matéria e informação, estabelecidas entre o fator ambiental e o sistema ecológico de que participa, beneficiando-o ou prejudicando-o. Empreendimentos, intervenções, alterações e fenômenos ambientais possuem impactos ambientais associados, tanto benéficos como adversos.
Qualidade ambiental A qualidade de um Ambiente expressa as condições e os requisitos básicos que ele detém, de natureza física, química, biológica, social, econômica e cultural, de modo a que os fatores ambientais que o constituem, em qualquer instante, exerçam efetivamente as relações ambientais que lhes são fundamentais e afetas.
Reabilitação ambiental Consiste na implantação e gestão de projetos e ações destinados a re-funcionalizar áreas que hajam sido alteradas, sejam por meio de ações antropogênicas, sejam através de processos espontâneos de sucessão em ecossistemas do Ambiente.
Rupturas ambientais Decorrem das perdas de relações ambientais essenciais para manutenção de um ecossistema estabilizado, proporcionadas por impactos ambientais adversos, antropogênicos ou não.
Retroimpactos ambientais Constituem as respostas do Ambiente impactado sobre todas as organizações e comunidades nele existentes, podendo beneficiá-las ou prejudicá-las. Quanto mais adequadamente for mantida a sustentabilidade do Ambiente afetado por obras e atividades produtivas, menores serão seus retroimpactos adversos.
Sustentabilidade A sustentabilidade é um atributo exclusivo do Ambiente que consiste na sua capacidade e de seus ecossistemas componentes em manter e desenvolver as relações essenciais entre seus fatores constituintes (ar, água, solo, flora, fauna e homem), que lhes permite existir. Alguns especialistas utilizam o termo sustentabilidade ambiental. Do inglês, ‘environmental sustainability’.
Avaliação da sustentabilidade Consiste na avaliação da qualidade ambiental de um território, envolvendo os mesmos elementos utilizados na aferição de sua sustentabilidade: qualidade do ar, qualidade da água, qualidade do solo, qualidade de vida da flora, qualidade de vida da fauna e qualidade de vida humana.
Gestão ambiental O objeto da gestão ambiental é a otimização dos processos da organização que transformam os sistemas ecológicos, primitivos ou não. A gestão ambiental é o processo necessário, mas não suficiente, para garantir que a introdução de um sistema humano organizado em qualquer sistema ecológico (primitivo, alterado ou humano) tenha como resultado um sistema humano organizado. Sua finalidade é a gestão do desempenho ambiental das organizações.
Gestão da Sustentabilidade Consiste no processo gerencial onde são avaliados, planejados e monitorados (i) os processos da transformação ambiental, (ii) os resultados destes processos e (iii) as respostas do Ambiente a estes resultados, beneficiadas através de (iv) um plano ambiental específico.
Conservação ambiental Consiste no uso controlado dos espaços territoriais, visando a garantir a manutenção das funcionalidades ambientais similares às suas funcionalidades primitivas.
Preservação ambiental Consiste no impedimento controlado do uso e da ocupação de ecossistemas primitivos, visando à total manutenção de suas funcionalidades ambientais primitivas.
Diagnóstico ambiental Constitui a construção do conhecimento da região de interesse de um projeto de engenharia ou de um empreendimento existente. Pode ser efetuado por meio da coleta de dados e informações locais (recomendável) ou através de websites especializados, para coletas dos dados secundários disponíveis. Deve ser realizado enfocando os ecossistemas e fatores ambientais afetáveis pela presença do projeto ou da organização existente, assim como aqueles que com eles se relacionam e deles dependem para que possuam estabilidade.
Prognóstico ambiental Os prognósticos ambientais são processos analíticos de previsão justificada e documentada dos quadros mais prováveis da transformação ambiental esperada para a região considerada pelo estudo.
O ato de Avaliar O ato de avaliar pressupõe a realização de três tarefas essenciais:

  • O estabelecimento de um padrão de medida;
  • A mensuração do objeto a ser avaliado segundo esse padrão; e
  • Uma nota, que represente o desvio relativo entre o valor apropriado ao objeto e o padrão previamente estabelecido.

As duas primeiras tarefas consolidam uma análise. A terceira, a elas integrada, realiza a avaliação.

Avaliação de Impactos Ambientais Conhecida através da sigla AIA, é o processo de aferir o desvio relativo entre os impactos ambientais estimados em um cenário ambiental, utilizado como base (padrão), e os impactos estimados para um cenário a ele alternativo.
Monitoração ambiental Processo de acompanhamento e/ou aferição de parâmetros ou indicadores ambientais, devendo ser capaz, sempre que possível, de mensurar as oscilações do comportamento de um dado fator ambiental, em intervalos de tempo pré-estabelecidos e conforme algum padrão previamente definido.
Hipótese Global de Situações de Impacto
(HGSI)
Constitui a identificação preliminar, ainda hipotética, dos eventos ambientais (intervenções, alterações e fenômenos) proporcionados por um projeto de engenharia ou por um empreendimento em sua área de influência. É expressa através de uma árvore de eventos, onde é indicada a relação de causa e efeito dos eventos identificados. A HGSI é a base para a realização dos diagnósticos ambientais, orientando-os para os ecossistemas e fatores ambientais de interesse.
Transitividade do impacto ambiental A transitividade é a energia de transformação que estrutura e mantém a árvore de eventos ambientais – HGSI –, demonstrando que o impacto ambiental de um fenômeno distribui-se por essa árvore, através de seus eventos causadores, ‘do solo até o topo da árvore’.
Matriz de Impactos Ambientais (MIA) Constitui a representação matricial da árvore de eventos ambientais.
Potencialidade ambiental Consistem em áreas territoriais mais resistentes a transformações ambientais, em função de seu relevo, de seu clima, de seus solos, de seus recursos hídricos, de seus biomas e de suas comunidades, inclusive a humana.
Vulnerabilidade ambiental Consistem em áreas territoriais mais sensíveis a transformações ambientais, em função de seu relevo, de seu clima, de seus solos, de seus recursos hídricos, de seus biomas e de suas comunidades, inclusive a humana.A Sustentabilidade é um dos principais focos de estudos e projetos de engenharia que visam a impedir a ocorrência de questões ambientais adversas. Embora o uso do termo ‘Sustentabilidade’ seja relativamente recente no Brasil, diversas universidades ensinam a seu respeito utilizando conceitos diferenciados. De forma mais nítida, e por vezes equivocada, alguns agentes da mídia fazem uso indiscriminado desse conceito, aplicando-o para adjetivar processos que, ou não são sustentáveis, ou deles resulta a Sustentabilidade do Ambiente em que ocorrem.

3. Em que consiste a Sustentabilidade

Para esclarecer o significado deste conceito precisa-se entender (i) em que espaço ele deve ser considerado, (ii) o que o motiva, (iii) quais são os elementos envolvidos na sua realização, e (iv) quais são os benefícios decorrentes de sua aplicação. Enfim, em que cenários tratamos esse processo, que foi denominado por Sustentabilidade Ambiental ou simplesmente Sustentabilidade, a indicar que é uma propriedade exclusiva do Ambiente.

Consiste na capacidade dos ecossistemas constituintes do Ambiente (primitivos e humanos) em realizar, manter e desenvolver as relações ambientais essenciais entre os fatores ambientais básicos existentes no planeta, que são o ar, a água, o solo, a flora, a fauna e o homem.

Todos os fatores ambientais secundários, embora não sejam menos importantes, decorrem dessas relações mantidas entre esses seis fatores básicos. Vale observar que estudiosos e acadêmicos que atuam na área ambiental incluem o fungo como fator ambiental básico.

3.1. Ecossistema primitivo

Em ambientes constituídos por ecossistemas primitivos, onde ainda não exista a presença expressiva de atividades humanas produtivas, essas relações possuem algumas capacidades específicas que as tornam sustentáveis. De uma forma geral, é possível enumerá-las assim:

Capacidade de Estabilidade Ambiental: os fatores ambientais (Ar, Água, Solo, Flora, Fauna e Homem) realizam de forma sistemática trocas de matéria e energia entre si, em expressiva harmonia com as necessidades de cada fator demandante e de acordo com a capacidade dos fatores que fazem as ofertas. É assim que se desenvolvem e evoluem.

O termo Equilíbrio Ecológico ou Ambiental não existe como conceito científico, muito embora seja utilizado até mesmo em textos legais brasileiros, na qualidade de ‘preceitos legais’. O termo correto é Estabilidade Ecológica ou Ambiental.

Capacidade de Retroalimentação Ambiental: tudo o que é gerado ou produzido pelos ecossistemas primitivos de um dado Ambiente é totalmente consumido por seus fatores ambientais constituintes. Não há resíduos de qualquer natureza, não há sobras, não há ‘lixo’ no Ambiente primitivo. Isso demonstra que suas práticas intrínsecas de reciclagem e reuso são espontâneas e completas.

As duas características acima permitem que os componentes dos ecossistemas operem compartilhando processos, ou seja, possuam Capacidade de Coevolução Ambiental.

Capacidade de Autoorganização Ambiental: não existem sistemas de controle externos às relações ambientais mantidas entre os fatores. Esses “controles” são espontâneos e intrínsecos às próprias relações. Desta forma, não há perdas de energia e matéria em processos que não sejam produtivos. Em outras palavras, “não há custos de homem x hora para controlar a produção e a produtividade dos sistemas ecológicos”.

A tendência dos ambientes primitivos estabilizados é a de atingir a níveis de coevolução e autoorganização tais que se podem tornar sistemas de elevada resistência e resiliência, a independer de fluxos de energia e matéria a eles externos. A esta tendência dá-se o nome de Clímax Ecológico ou Ambiental. Há autores que não concordam com a tese da tendência do clímax dos sistemas ecológicos.

Garantidas estas quatro capacidades é possível afirmar que um dado Ambiente possui qualidade ambiental, encontra-se estabilizado e, em consequência, possui sustentabilidade.

Mas, ainda há mais uma capacidade própria dos ecossistemas primitivos. Podem ocorrer em algum momento de suas existências rupturas nas relações ambientais existentes. As trocas de energia e matéria entre seus fatores são alteradas por algum motivo. Então, o sistema ecológico é afetado e pode perder seu funcionamento primitivo. Contudo, o sistema resultante  também passa a buscar a realização das capacidades acima apresentadas para alcançar um novo cenário de sustentabilidade. Este processo, que constitui um renascimento, é chamado por Capacidade de Sucessão Ambiental ou Sucessão de Ecossistemas.

Nos ecossistemas primitivos o Homem constitui um fator componente básico, que é parte ativa do sistema. No entanto, deve ser considerado ou como um componente primitivo ou, sobretudo, como um componente que sabe limitar suas apropriações e demandas sobre os demais fatores, a contribuir para a existência e permanência dos ecossistemas primitivos.

3.2. Ecossistema humano

O Homem constrói seu habitat preferencial. Será aqui denominado ecossistema humano ou sistema humano. Ele se apropria e transforma recursos naturais (fatores ambientais), de acordo com o que considera relevante para ter suas necessidades atendidas, básicas ou não. Ele produz, distribui seus produtos, cria novas atividades econômicas secundárias, gera renda e riqueza. Porém, os sistemas humanos muitas vezes constituem ‘sistemas organizacionais’ e operam de forma distinta dos sistemas ambientais. Seus fatores ambientais básicos são “recursos humanos, informação, tecnologia, recursos naturais e capital”. Segundo esse entendimento, as relações entre seus fatores básicos podem ser explicadas da seguinte forma.

Os sistemas humanos realizam apropriações de recursos naturais e os transformam em produtos ou serviços, tentando buscar a harmonia entre os mercados demandantes e sua capacidade de oferta. É assim que se desenvolvem alguns dos sistemas empresariais. Denominamos este processo por Busca da Estabilidade Organizacional.

Nem tudo o que é produzido pelos sistemas humanos é totalmente consumido pelos mercados a que atendem. Por isso, há sobras, há resíduos de variadas naturezas, há ‘lixo’ no Ambiente empresarial, o qual os sistemas humanos hoje tentam minimizar para reduzir suas despesas. Quase nada é compartilhado, quase tudo visa à competição. Denomina-se este processo por Competição na Evolução Organizacional.

Há inúmeros sistemas de controle que são externos às relações empresariais. Eles são basicamente improdutivos. Desta forma, nos sistemas humanos há perdas de energia e matéria em processos que, afora o controle, nada produzem. Em outras palavras, “há custos de homem x hora para controlar sua produção e produtividade”. Denomina-se este processo por Possibilidade de Organização Organizacional.

A tendência dos sistemas humanos é a de atingir a níveis de evolução e organização tais que se tornem em sistemas de elevada resiliência, adptando-se, quando possível, às variações dos fluxos de insumos, internos e externos (recursos humanos, informação, tecnologia, recursos naturais e capital). Na falta de um título mais técnico, denomina-se esta tendência por Angústia da Vida Organizacional.

Quando estas quatro capacidades conseguem ser aperfeiçoadas pelos sistemas organizacionais, é possível afirmar que um dado sistema humano possui qualidade empresarial, tornando-se um Sistema Humano Organizado, dotado de elevado grau de Desempenho Ambiental, mas nunca de Sustentabilidade.

Todavia, tal como nos sistemas primitivos, os sistemas humanos podem perder as capacidades acima citadas. Dois processos podem acontecer nestes casos: ou interrompem suas operações ou são substituídos por novos sistemas organizacionais. Denomina-se este processo por Dificuldade da Sucessão Organizacional.

Pode-se observar que o conceito da Sustentabilidade está associado a diversos processos que envolvem relações entre fatores ambientais e fatores humanos, entre sistemas primitivos e sistemas humanos.

Todavia, a responsabilidade em garantir e manter a sustentabilidade do Ambiente, em níveis efetivos e aceitáveis, é exclusiva do Homem, dado que ele é o fator que cria os conflitos entre manter estoques e qualidade de recursos naturais ou deles se apropria para a satisfação de suas próprias demandas, inclusive as supérfluas.

Em síntese, conclui-se que todas as atividades de organizações devem possuir desempenho ambiental adequado e compatível, de forma a garantir a sustentabilidade dos ecossistemas em que estejam inseridas, ou seja, manter o Ambiente estabilizado e sustentável sem perder sua capacidade produtiva.

Trata-se de um forte desafio que, de uma forma um tanto abstrata, foi denominado por “desenvolvimento sustentável [1]”, insinuando várias interpretações discutíveis para o adjetivo “sustentável”.

4. A Transformação do Ambiente pelo Homem

Por exemplo, ao reunir um time de especialistas ambientais para iniciar a elaboração de um Estudo de Impacto Ambiental, verifica-se que cada profissional identifica a transformação futura do Ambiente segundo suas premissas de formação acadêmica. Ou seja, os impactos ambientais variam, desde a sua forma de apresentação, até o seu conceito e conteúdo.

Neste item o artigo oferece um modelo teórico-conceitual para que especialistas em várias áreas sejam orientados para “ver da mesma forma os cenários futuros do Ambiente em transformação por atividades humanas”. Vale dizer que esse modelo já foi utilizado em todas as regiões brasileiras, como suporte técnico para milhares de estudos ambientais de variadas naturezas – estudos de impacto, zoneamentos, auditorias, levantamentos de passivo ambiental, etc.

4.1. Entidades da Transformação Ambiental

Os dados do problema são os seguintes: (i) um empreendimento, em projeto, em obras ou mesmo em operação; (ii) a visão preliminar de sua área de influência; e (iii) uma equipe técnica desafiada a descobrir a transformação ambiental dessa área, tanto a já ocorrente, quanto sua provável e inevitável transformação futura.

A base teórica do modelo considera que:

  • Todos os Empreendimentos, sem exceção,
  • Podem ser explicados por intermédio de suas intervenções de engenharia no Ambiente. Um empreendimento é formado por várias unidades construtivas (temporárias) e diversas unidades produtivas (permanentes). São denominadas Intervenções Ambientais;
  • Estas intervenções, para serem construídas, demandam ou induzem manejos no Ambiente. Esses manejos são denominados Alterações Ambientais;
  • Nessa sequência de eventos, as alterações ambientais podem proporcionar mudanças de comportamento e/ou da funcionalidade dos fatores ambientais afetados. Os eventos consequentes dos manejos são denominados Fenômenos Ambientais.

A figura abaixo sintetiza a base teórica da transformação ambiental de um território.

Estrutura conceitual da Transformação Ambiental

Estrutura conceitual da Transformação Ambiental

A estrutura acima diz que qualquer empreendimento é formado por M intervenções ambientais. Uma intervenção poderá gerar ou induzir até N alterações ambientais. E de forma inversa, uma alteração ambiental pode ser consequência de até M intervenções. Por fim, uma alteração ambiental, por sempre afetar a dinâmica do Ambiente, pode modificar o comportamento e/ou a funcionalidade de fatores ambientais, dando origem à manifestação de até P fenômenos ambientais. E a recíproca é verdadeira, ou seja, um fenômeno pode ser derivado de até N alterações distintas.

Analisando a figura acima observa-se que todos os eventos ambientais possuem impactos associados grafados por I e i. Os fenômenos possuem impactos positivos ou negativos, ou seja, benéficos ou adversos. Dada a capacidade da transitividade dos impactos, os eventos superiores também possuem impactos ambientais, que recebem dos fenômenos que geram. Todavia, dado que uma alteração pode gerar fenômenos adversos e benéficos, seus impactos são o somatório das adversidades A e o somatório dos benéficos B. Ou seja, alterações, intervenções e empreendimentos terão impactos negativos e positivos [A; B].

Chama-se a atenção para um fato que é evidente. O Ambiente percebe e sofre tanto os impactos negativos A, quanto os positivos B. Mas nunca sofre a resultante contábil dos mesmos, A + B. Tal procedimento deforma completamente a análise e a avaliação ambiental, tornando inválido qualquer estudo que o aplique.

Na prática da análise da transformação ambiental tem-se duas ferramentas básicas para realiza-la: a Árvore da Transformação Ambiental (ATA) e a Matriz de Impactos Ambientais (MIA), ambas referidas a um empreendimento.

A ATA possui a conveniência da equipe de analistas ver o cenário da transformação prevista em uma única imagem. Contudo, para empreendimentos mais impactantes, com muitos eventos, demanda muito espaço para ser construída.

A figura a seguir apresenta o diagrama genérico de uma ATA.

Diagrama da Árvore da Transformação Ambiental – ATA

Diagrama da Árvore da Transformação Ambiental – ATA

Neste exemplo específico o empreendimento é composto por quatro Intervenções Ambientais (INA), das quais decorrem seis Alterações Ambientais (ALA) que, por sua vez, promovem a manifestação de dez Fenômenos Ambientais (FEN). Observe que todas as relações de causa e efeito entre os eventos encontram-se explicitadas. Um texto específico deverá justificar a sequência desta árvore.

A ferramenta alternativa à árvore é estruturada de forma matricial, através de uma Matriz de Impactos Ambientais. Segue abaixo o exemplo de uma matriz de impactos para um Parque Eólico já em operação.

Como nesse exemplo hipotético a avaliação de impactos ambientais já foi realizada, os eventos adversos estão grafados em vermelho; os benéficos, em azul; por fim, os não significativos, grafados em branco.

Matriz de Impactos Ambientais – Parque Eólico
Intervenções Alterações Fenômenos
Intervenções produtivas
Aerogeradores e unidade de controle do parque
Uso e ocupação do solo
Variação da pressão sobre o sistema viário
Variação da oferta de emprego
Variação da renda familiar
Variação da arrecadação tributária
Variação dos níveis de ruídos e vibrações
Variação da acessibilidade interlocal
Oferta de energia elétrica
Variação da disponibilidade estadual de energia elétrica
Variação do desenvolvimento industrial
Variação do desenvolvimento de comércio e serviços
Variação da arrecadação tributária
Variação da oferta de emprego
Variação da renda familiar
Variação do suporte a serviços sociais básicos
Variação da qualidade de vida no Estado
Variação da pressão sobre o sistema viário
Variação dos níveis de ruídos e vibrações
Variação dos riscos de acidentes viários
Rodovia de acesso ao parque e rodovias vicinais
Oferta de equipamentos viários
Variação da pressão sobre o sistema viário
Variação dos níveis de ruídos e vibrações
Variação da acessibilidade interlocal

Observando a nomenclatura utilizada para a denominação dos eventos que se manifestam na área de influência considerada, verifica-se que as intervenções representam obras de engenharia, as alterações são ações de manejo e os fenômenos são processos variáveis do Ambiente.

4.2. Conteúdo do Cenário da Transformação Ambiental – CTA

A estrutura de apresentação do cenário da transformação ambiental é a própria matriz de impactos ambientais acima. Todavia, nela somente estão disponibilizados os títulos dos eventos. O conteúdo do cenário deve apresentar a caracterização de cada um dos eventos, quais sejam.

  • Caracterização do Empreendimento.
  • Caracterização das Intervenções Ambientais.
  • Caracterização das Alterações Ambientais.
  • Caracterização dos Fenômenos Ambientais.

Em linhas gerais, essas caracterizações devem apresentar o nome do evento, sua localização, sua descrição, suas áreas de ocorrência e manifestações, os eventos causadores, os eventos resultantes e, quando possível, documentação fotográfica.

O CTA deve ser monitorado e atualizado periodicamente, em todas as etapas do ciclo de vida de uma organização, visando a proporcionar a seus executivos a qualidade de seu desempenho ambiental e o nível de sustentabilidade que a organização consegue proporcionar à sua área de influência.

5. Ferramentas para a Gestão do Ambiente

Existem diversos métodos, técnicas e metodologias que podem ser adaptados para a Gestão do Ambiente (Gestão Ambiental + Gestão da Sustentabilidade). No entanto, há três ferramentas específicas para essa finalidade, sobre as quais estão apresentadas a seguir suas características básicas, vantagens e desvantagens.

5.1. ISO 14.001: Sistema de Gestão Ambiental – SGA

A ISO – International Organization for Standardization foi fundada em 1947, com sede em Genebra, na Suíça. Produz e aprova normas internacionais para padronização de processos em várias áreas produtivas.

A área ambiental foi contemplada através da série normativa ISO 14.000. Nesta série, composta por cerca de 29 normas com temas ambientais complementares, destaca-se a norma ISO 14.001, lançada no Brasil em 1996, que visa a beneficiar a gestão ambiental de empresas e instituições.

Embora a 14.001 seja utilizada para certificar organizações em Sistemas de Gestão Ambiental, muitos especialistas da área da gestão consideram-na impositiva em sua burocracia. Ou seja, pouco capaz de se adaptar à cultura de cada organização, a qual varia em função de seus proprietários, dos países em que se localizam, dos mercados a que atendem e até mesmo das equipes técnicas que possuem.

No entanto, para as organizações que atuam no mercado internacional, recomenda-se a implantação e certificação do Sistema de Gestão Ambiental – ISO 14.001.

Em suma, normas internacionais para padronização de processos e procedimentos, que pretendam atender às necessidades de qualquer organização existente, correm o risco de “engessar” processos de empresas produtivas em troca de certificações.

Ao importar modelos de gestão ingleses, norte-americanos ou internacionais corre-se o risco de esquecer a cultura organizacional existente no próprio país. Sem dúvida, é importante adaptá-los e há profissionais brasileiros capacitados para isso.

5.2. Plano Corporativo Ambiental – PCA

O PCA difere bastante dos Sistemas de Gestão Ambiental, posto que não é “amarrado em práticas internacionais”. Ao contrário, veste localmente o corpo da organização produtiva como um agasalho de previsão da produção. Visa a, além do lucro e da rentabilidade da organização, manter a sustentabilidade do Ambiente que transforma, melhorando seu desempenho ambiental.

Para compreender o processo de planificação (ou planejamento), os conceitos de estratégia, tática e operação precisam ser esclarecidos, visando à devida classificação dos elementos de planos de qualquer natureza. Neste caso, Planos Corporativos Ambientais.

A origem desses três conceitos encontra-se nas práticas militares. Posteriormente, foram migradas para organizações produtivas. O texto que se segue busca explicar, ainda que de forma introdutória, a sucessão dos usos e práticas dos processos de planificação, a saber:

Planos militares → Planos empresariais → Planos ambientais.

Para realizar o processo de um plano empresarial é necessário que existam quatro elementos essenciais a estabelecer relações entre si. O primeiro é uma organização produtiva. Ela é o ponto de foco dos planos empresariais. O segundo elemento é o fato de que ela precisa produzir pelo menos um produto. O terceiro, é a existência de um mercado que demande e receba este produto. O quarto e último são os clientes que compõem este mercado e que consomem este produto. Com esses elementos é possível garantir que é realizar processos de planificação é essencial.

Planejam-se as relações desejadas entre estes quatro elementos. Planeja-se para que a organização produtiva possua condições favoráveis de estabelecer relações desejáveis e satisfatórias com todos os demais elementos: produto/serviço bem feito, mercado atendido, clientes felizes. Resultado: sucesso da organização.

No processo do Plano Corporativo Ambiental têm-se os mesmos elementos:

  • A organização produtiva, que é conformada pelo Empreendimento e pelas relações ambientais que mantém com o Ambiente de sua área de influência. São relações mútuas e bidirecionais mantidas entre duas entidades que tentam se integrar (em tese, a organização que deseja se integrar ao Ambiente).
  • Os produtos, que surgem das relações ambientais, chamador por produtos ambientais. São os impactos decorrentes das relações “Organização versus Ambiente”. Conforme foi visto, podem ser adversos e benéficos.
  • O mercado, que é o próprio Ambiente, através de seus espaços físico, biótico e antropogênico, bem como a organização que se deseja planificar, que em algumas oportunidades “adquire” retroimpactos do Ambiente.
  • Os clientes, que são os próprios fatores ambientais que “consomem” estes impactos, quais sejam: o ar, a água, o solo, a flora, a fauna e o homem.

Dada a existência desses elementos e suas relações sistêmicas, entende-se que, mantidas as expectativas das Ciências do Ambiente, Planos Corporativos Ambientais podem e devem ser desenvolvidos para quaisquer organizações produtivas.

5.2.1. Estrutura de desenvolvimento e execução do PCA

Todos os gêneros de planos aqui citados (Militar, Empresarial e Ambiental) podem ter até três níveis de visão e alcance:

  • O plano de nível estratégico, com alvos ou objetivos globais de longo prazo;
  • O plano de nível tático, com alvos ou objetivos de médio prazo; e
  • O plano de nível operacional, com alvos ou metas de curto prazo.

O detalhamento dos níveis do PCA deve responder aos atributos estrutura, formato, conteúdo e processos:

  • A estrutura é dada pelos elementos que constituem cada nível, desenhando a estrutura física do plano;
  • O formato refere-se à redação dos elementos constituintes de cada nível, permitindo aos usuários a identificação do nível a que pertence cada elemento e sua imediata classificação – estratégico, tático ou operacional;
  • O conteúdo desses elementos, contendo a essência, a finalidade e o alcance de cada elemento;
  • Os processos de implantação e gestão dos níveis e respectivos elementos, dando vida própria e animação ao plano.

A figura a seguir mostra um diagrama dos elementos estratégicos (E), táticos (T) e operacionais (O) de um PCA, mostrando como se relacionam. Estão organizados em Alvos (Objetivos e Metas) e Medidas (Programas, Projetos e Ações).

Estrutura para elaboração e execução do PCA

Estrutura para elaboração e execução do PCA

O estabelecimento e formulação dos alvos do PCA seguem a seguinte sequência:

  • Formulação da Visão Ambiental da organização;
  • Formulação da Missão Ambiental, orientando seus Objetivos Estratégicos;
  • Estabelecimento dos Objetivos Estratégicos, demandando Objetivos Táticos;
  • Estabelecimento dos Objetivos Táticos, demandando Metas Ambientais; e
  • Estabelecimento das Metas Ambientais, demandando Projetos e Ações.

E quando o plano é implantado, sua execução acontece na ordem inversa, ou seja:

  • Ações e Projetos são implantados e executados visando a atingir as Metas Ambientais estabelecidas e concluir os Programas Ambientais que lhes deram origem;
  • Programas Ambientais são geridos para atingir Objetivos Táticos, alcançando os Objetivos Estratégicos que lhes deram origem;
  • Objetivos Estratégicos são alcançados visando a consolidar a Missão Ambiental estabelecida.
  • A manutenção da Missão alcançada poderá realizar a Visão Ambiental esperada. Isto porque o alcance da Visão Ambiental de uma organização também depende do desempenho das demais organizações do mesmo setor e de seus fornecedores.

5.3. Auditoria Ambiental

A auditoria ambiental é a terceira ferramenta recomendada para que organizações em geral garantam a qualidade de seus processos destinados à Gestão do Ambiente, ou seja, Gestão Ambiental de seus próprios processos e Gestão da Sustentabilidade do Ambiente que impactam.

O processo de auditar nada mais é do que investigar tarefas em andamento e realizar comparações entre as práticas ambientais realizadas por uma organização com pelo menos os padrões ambientais para organizações do mesmo setor. Mas, sobretudo, sugerir soluções para quadros definidos como “não-conformidades”.

Por esse motivo, os auditores, quer sejam internos ou externos, às vezes não são muito apreciados por funcionários das organizações auditadas. Afinal, são contratados para identificar desvios, erros e relatar fatos e tendências gerenciais que podem ser indesejáveis para a alta administração de organizações produtivas.

Nesse item seguem orientações introdutórias para Auditoria de Planos Corporativos Ambientais – APCA. No entanto, sua sistemática pode ser aplicada a outros sistemas de gestão ou a qualquer conjunto de processos e procedimentos que a organização utilize para atender à qualidade das relações que mantém com o Ambiente.

A figura a seguir oferece o quadro lógico do processo de APCA.

Quadro lógico da APCA

Quadro lógico da APCA

A organização produtiva que contrata uma auditoria define quais são as suas unidades e/ou funções que deseja que recebam auditoria, isto é, define o Escopo da Auditoria.

As auditorias são realizadas com base em (i) leis, (ii) normas, (iii) contratos subscritos, (iv) melhores práticas reconhecidas pelo mercado ou (v) nos elementos do instrumento de gestão utilizado pela organização.

Por outro lado, a empresa auditora precisa aceitar que o conjunto dos elementos constante do Plano Corporativo Ambiental representa a capacidade da organização em Gestão Ambiental e da Sustentabilidade (GAS) e constituirá o Critério da Auditoria, ou seja, o conjunto de padrões ambientais de referência contra os quais a auditoria será realizada.

Quando esses elementos não existem, a capacidade de gestão da organização torna-se mais vulnerável. Nessas situações a legislação em vigor no país passa a ser o Critério (obrigatório) da Auditoria.

Deve-se salientar que a organização que já possua ferramenta específica para GAS e realiza auditorias de forma sistemática é diferenciada em seu desempenho quando comparada às suas concorrentes.

5.3.1. Fases da APCA

Todas as auditorias constituem uma relação bastante profissional entre a organização a ser auditada e uma empresa auditora. O sigilo absoluto das informações coletadas é fator de extrema relevância entre as duas partes e seus funcionários, ou seja, empresas, auditores e entrevistados.

As auditorias precisam evoluir em processos suaves e transparentes, sobretudo por parte dos auditores. Sendo assim, organizam-se em três fases: pré-auditoria, auditoria e pós-auditoria.

A figura a seguir auxilia na visão do conteúdo essencial dessas três fases de uma auditoria, tendo como critério um Plano Corporativo Ambiental.

Fases do processo da auditoria de PCA

Fases do processo da auditoria de PCA

# Fase A: Pré-auditoria

Após uma empresa especializada ser convidada para realizar uma auditoria, a primeira tarefa dos auditores, antes mesmo de aceita-la, é solicitar informações acerca da organização. Garantido o completo sigilo, essas informações são obtidas por meio de contato pessoal, realizado somente pelo auditor líder.

Para consolidar o Plano da Auditoria, as informações de interesse são as seguintes:

  • A planta do layout geral da organização, localizando suas unidades produtivas;
  • Documentos relativos ao seu fluxo de processos pré-produtivo e produtivo;
  • Documentos relativos a seus Sistemas de Melhoria do Desempenho Ambiental;
  • O organograma da organização, com destaque para a função de GAS;
  • Uma cópia de seu manual de gestão ou documento similar;
  • Documentos relativos a auditorias anteriores que haja realizado;
  • Documentos de contratos, normas adotadas e convenções que haja subscrito;
  • Eventuais documentos fotográficos e de vídeo disponíveis; e
  • Outros documentos específicos da atividade da organização a ser auditada.

# Fase B: Auditoria

Inicia-se então a segunda parte dos trabalhos, que constitui a auditoria propriamente dita. A empresa auditora elabora a programação da reunião de abertura e marca a data para o evento. Para tanto, solicita à organização algumas informações sobre o evento de abertura, a saber:

  • Nome completo do funcionário que será responsável pela gerencia das atividades da auditoria na organização, cargo ocupado, telefone fixo, celular e e-mail;
  • Lista dos participantes da reunião, com nome completo e cargo ocupado;
  • Local de realização da reunião de abertura da auditoria, com equipamentos disponíveis de informática, de áudio e de vídeo.

Após a reunião de abertura têm início as atividades de campo. Findo os trabalhos de campo, com relatórios diários de cada auditor, o auditor líder consolida o relatório final da auditoria.

A tarefa seguinte aos trabalhos de campo é a reunião de encerramento da auditoria realizada, com a apresentação das evidências, não conformidades, exceções e observações efetuadas. A última tarefa desta etapa é a elaboração do relatório final dos trabalhos, a cargo do auditor líder, assessorado por sua equipe.

# Fase C: Pós-auditoria

Com base no relatório final da auditoria, a organização auditada elabora um plano de ações corretivas e preventivas. Normalmente, este plano é submetido à empresa auditora a fim de obter sua opinião sobre a efetividade do plano elaborado.

Por fim, é comum e benéfico que a organização faça um contrato de supervisão dos resultados do Plano de Ação, de sorte a obter mais um crédito externo de que suas ações foram devidamente implantadas e de que os resultados esperados foram ou estão sendo alcançados.

5.3.2. Atividades da Fase B: Auditoria

A fase da Auditoria Ambiental propriamente dita possui restrições operacionais que são básicas e estão adiante descritas. Mas antes deve ser analisada a figura abaixo, que apresenta a sequência de suas atividades.

À exceção da primeira, todas as demais atividades são realizadas em campo. Ou seja, com o time de auditores hospedados em hotel próximo à empresa a ser auditada, no chamado “hotel de campo” (gíria de antigos auditores). Embora a reunião de abertura da auditoria normalmente seja feita na empresa auditada, é desejável que a reunião de fechamento seja realizada neste hotel. Durante a realização da auditoria nenhum auditor retorna à residência.

A equipe precisa ser reduzida, contando com 5 (cinco) auditores no máximo, como no caso de plantas industriais de maiores dimensões.

A alocação de cada um em trabalhos de auditagem, cruzamento de informações com a equipe e produção de relatórios, é de 16 horas diárias, independentemente da duração da auditoria. Por isso, diversos auditores líderes afirmam que, para terem qualidade, as auditorias ambientais devem ser realizadas em, no máximo, dez dias de campo.

Etapas da Fase B: Auditoria de PCA

Etapas da Fase B: Auditoria de PCA

5.4. Entrevistas para auditoria de PCA

A maior parte do tempo despendido pela equipe em suas atividades é dedicada a entrevistas programadas com funcionários da organização – Levantamento de evidências e não-conformidades. As competências necessárias para realizar uma boa entrevista não constituem dotes inatos e podem ser desenvolvidas através de treinamento e prática.

Considerando os locais, a duração, as finalidades e o nível de formalidade requerido, é razoável afirmar que as entrevistas de auditoria devem seguir um padrão lógico comum. A figura a seguir apresenta este padrão.

Proposta de padrão para o processo de entrevista

Proposta de padrão para o processo de entrevista

Muito embora as entrevistas possuam características específicas para cada par “entrevistador e entrevistado”, há alguns elementos que não podem faltar nas entrevistas destinadas a auditorias de PCA. O padrão básico é útil para estabelecer um quadro de abordagem em entrevistas capaz de beneficiar os resultados desejados.

Antes de realizar as entrevistas é oportuno obter algumas informações acerca do perfil dos funcionários que serão entrevistados, bem como uma visão geral do que o auditor precisa cumprir em cada entrevista.

Há três elementos que são essenciais em qualquer entrevista de auditoria: (i) a lógica da entrevista, (ii) a predefinição das informações e documentos desejados, e (iii) a organização e o foco do pensamento do auditor.

Estabelecer a lógica de uma entrevista é relativamente simples. O que é básico envolve as questões que se seguem:

  • Quem será entrevistado;
  • Qual cargo ocupa na organização auditada;
  • Quais são a autoridade e as responsabilidades do cargo ocupado;
  • A quem o entrevistado se reporta hierarquicamente.

É fundamental que entrevistador e entrevistado sintam-se confortáveis durante a realização da entrevista. A sala onde se realizará a entrevista deve ser sossegada, preferencialmente sem interrupções, e a entrevista precisa ser objetiva e, tanto quanto possível, rápida.

As respostas desejadas pelo auditor devem ser planejadas. Nenhum profissional deve seguir para uma entrevista sem antes haver listado as informações e documentos que deverá obter do entrevistado.

É interessante elaborar uma linha mestra de cada entrevista, contendo os temas de interesse e a sequência preliminar das questões a serem formuladas. Não se trata propriamente de elaborar um questionário, mas apenas desenhar a orientação da entrevista, visando à memorização do auditor.

Em muitas entrevistas, no entanto, é comum que novas questões sejam formuladas em função das respostas obtidas. Tal como em um trabalho de detetive, o auditor precisa estar atento às respostas que recebe, efetuando anotações sempre que necessário, e a verificar eventuais necessidades de questões complementares antes não previstas.

Em suma, ao encerrar a entrevista o auditor poderá verificar se realmente obteve o que pretendia e se novas informações relevantes foram fornecidas pelo entrevistado.

Há casos isolados de entrevistas com maior duração. Todavia, normalmente não devem ser longas para que possam ser eficientes. De fato, uma série de entrevistas relativamente curtas com maior número de funcionários da organização tem-se mostrado mais eficiente do que poucas entrevistas mais longas.

……….

[1] A expressão “desenvolvimento sustentável”, foi criada em 1987, no Relatório Brundtland, elaborado pela Comissão Mundial sobre Ambiente e Desenvolvimento, sob a presidência da então primeira-ministra da Noruega, Gro Harlem Brundtland.

A definição de “Desenvolvimento Sustentável” ficou com a seguinte redação:

“O desenvolvimento que procura satisfazer as necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazerem as suas próprias necessidades, significa possibilitar que as pessoas, agora e no futuro, atinjam um nível satisfatório de desenvolvimento social e econômico e de realização humana e cultural, fazendo, ao mesmo tempo, um uso razoável dos recursos da terra, preservando as espécies e os habitats naturais”.

Pessoalmente, considero-a um tanto filosófica e utópica, sobretudo pela tentativa de fazer uma “interseção geométrica” entre os Espaços Antropogênico, Biótico e Físico, que estão todos contidos e integrados no “Grande Envelope do Ambiente”.

Análise ambiental para resultados


Por Ricardo Kohn, Escritor e Consultor em Gestão.

Em síntese, analisar o Ambiente significa identificar e caracterizar todas as relações de causa e efeito que nele se processam ao longo do tempo, bem como os principais agentes, que são seus fatores ambientais básicos – Ar, Água, Solo, Flora, Fauna e Homem, assim como seu comportamento interativo, a conformar ecossistemas estabilizados.

Dessas relações sempre decorrem mudanças na dinâmica dos ecossistemas, as quais podem gerar adversidades ambientais, mas também, ao contrário, reabilitar os benefícios primitivos do Ambiente, ou seja, sua sustentabilidade.

À primeira vista, essa narração pode parecer apenas mais uma teoria. Porém, ao ser aplicada em um território, que já foi diverso e abundante, é uma prática surpreendente, sobretudo quando os resultados benéficos das mudanças ocorridas no Ambiente são percebidos por todos os seres vivos da região.

Uma análise ambiental específica, de grande valia científica, foi efetuada no Parque Nacional de Yellowstone. Durante mais de seis décadas, Yellowstone não contou a presença de matilhas de lobos. Assim, um grupo de estudiosos reintroduziu cerca de 60 espécimes. A finalidade era a redução da abundância crítica de cervos e alces, criando uma cadeia trófica com a presença desses predadores. Porém, os resultados do experimento foram além das previsões iniciais dos cientistas.

Parque de Yellowstone

Algumas informações preliminares sobre o parque Yellowstone permitem a visão da amplitude da ação dos cientistas envolvidos. O parque situa-se nos estados do Wyoming, Montana e Idaho.

Encontra-se localizado sobre uma câmara vulcânica de grandes proporções. A área de seu território possui cerca de 8.980 km2. Está assentado sobre um planalto elevado, com média de 2.400 metros de altitude, apresentando um relevo acidentado, com montanhas, vales e depressões do solo. Possui rios, cascatas, lagos, fontes hidrotermais e gêiseres.

Um dos gêiseres em Yellowstone

Um dos gêiseres em Yellowstone

Dadas suas singularidades físicas, a região é estudada desde o século 19, sobretudo após ser legalizada, em 1872, como o primeiro e maior Parque Nacional norte-americano. Graças a essas características, boa parte da vegetação do parque é endêmica. Há documentação sobre cerca de 300 espécies de plantas que somente ocorrem no parque de Yellowstone.

Em decorrência, conforma habitats auxiliados por essas singularidades, a permitir que a região apresente a maior diversidade da megafauna norte-americana.

Antes de prosseguir, sugere-se aos leitores que assistam ao vídeo “Como lobos mudam rios”. É de curta duração e esclarece a análise ambiental para resultados, pois mostra um processo teórico aplicado com sucesso positivo em Yellowstone.

Como se pode constatar pelo vídeo, as relações ambientais iniciadas de forma isolada no segmento faunístico, entre poucos lobos e suas presas naturais, propagaram-se para outros segmentos por força da sua causalidade.

Chegaram ao segmento da flora, proporcionando oportunos incrementos vegetacionais em áreas mais sensíveis. Atingiram ainda aos segmentos do solo e da água, com redução expressiva de processos erosivos e fixação do leito de rios. Retornaram ao segmento faunístico com a atração de novas espécies. Dessa maneira, fazem com que os ecossistemas envolvidos reconstruam e ampliem sua estabilidade ambiental [1] de forma espontânea.

Trata-se, sem dúvida, da permanente poesia que o Ambiente é capaz de criar, com sua lógica própria e aleatória. Lógica esta, sempre explicável quando ocorrem trocas justas e ininterruptas de energia e matéria entre seus fatores componentes: ar, água, solo, flora, fauna e homem.

……….

[1] Estabilidade ambiental: Constitui o processo de manutenção espontânea dos ciclos de relações ambientais mantidas entre fatores em permanente interação, conformando ecossistemas estabilizados e, por conseguinte, capacitados para a coevolução e para sua própria sucessão – Kohn, R., Ambiente e Sustentabilidade – Metodologias para Gestão, Rio de Janeiro, RJ, Editora LTC – Livros Técnicos e Científicos, Grupo Editorial Nacional, 702 pg., 1ª edição. 2014.

A salvação do colibri


Há uma bela poesia humana no ato garantir a vida de um filhote de ave silvestre. Até por que precisa haver muito sentimento humano e longa dedicação. O pequeno pássaro ficará dependente de seu salvador. Talvez para o resto de sua vida.

Recebi esse vídeo de um grande amigo, Homero Dias. Conhecemo-nos em 1964, cursando o científico no Liceu Franco-Brasileiro. Achei as imagens emocionantes por que conta uma pequena história de vida, tanto do frágil beija-flor, quanto do pré-adolescente que não conheço. Nunca nos vimos. De toda forma, rendo-lhe uma homenagem por sua atitude.

Espero que gostem de assistir a esse renascimento do humanismo. É a primeira vez que Sobre o Ambiente publica um vídeo nesse formato aberto.

A edição do vídeo ficou muito boa, com alegre música de fundo, própria para filhotes de pássaros e pré-adolescentes que não admitem destruir.

Matriz de impactos ambientais


Ferramenta essencial para avaliação e gestão de impactos

Em geral, projetos de engenharia requerem a avaliação de seus impactos ambientais, visando a cumprir com requerimentos legais estabelecidos em diversos países. Sem essa avaliação, que é normal em países mais civilizados, não há como gerir da forma adequada suas obras e o empreendimento a que dão origem, depois de concluídas.

No Brasil não é diferente. Contudo, a forma normalmente utilizada precisa de mais suporte técnico-científico. Assim, por força dessa carência, foi desenvolvida, em 1986, a Teoria da Transformação do Ambiente.

Com a aplicação prática desta teoria, resultam duas ferramentas essenciais à avaliação, capazes de estimar as ocorrências de impactos ambientais em uma dada região, com a implantação do projeto de engenharia – obras e operação do empreendimento decorrente. São elas, a HGSI e a Matriz de Impactos Ambientais que a representa em mais detalhes.

Uma breve descrição

A HGSI ou Hipótese Global de Situações de Impacto, constitui a árvore de eventos ambientais que representa a transformação do ambiente. Na copa da árvore encontra-se o evento principal, o Projeto de Engenharia, que é composto pelas intervenções das obras logo abaixo. Essas intervenções promovem várias alterações no ambiente que as recebe. Por fim, as alterações ambientais podem afetar o comportamento e/ou a funcionalidade do ar, da água, solo, flora, fauna e homem, dando origem aos chamados Fenômenos Ambientais.

Todas essas classes de eventos ambientais possuem impactos positivos e/ou negativos. Todavia, são mais visíveis, nas relações de causa e efeito que mantém a árvore de pé, através da Matriz de Impactos, abaixo exemplificada.

Matriz de impactos

Para elaborar a 1ª versão da matriz de impactos [1], alguns aspectos do projeto precisam ser conhecidos pelos analistas, tais como a área em que se localizará, suas vizinhanças, o porte do empreendimento projetado e traços específicos de sua futura operação.

Para o exemplo hipotético da matriz a seguir apresentada, considerou-se os seguintes aspectos do projeto de engenharia:

(i) A matriz refere-se ao projeto de uma Usina Hidrelétrica;

(ii) Será localizada na região Amazônica;

(iii) Tem com vizinhos mais sensíveis ao projeto uma tribo indígena e uma comunidade de pescadores de subsistência;

(iv) Formará um reservatório com área de 1.680 km2; e

(v) Sua potência instalada será de 12 GWh.

Usina hidrelétrica na Amazônia

Usina hidrelétrica na Amazônia

Por outro lado, somente para facilitar a leitura da matriz, fez-se uma avaliação a priori dos impactos dos eventos identificados. De forma bastante simplificada e não recomendável na prática, criou-se três níveis de impacto:

(i) Eventos com impacto positivo, grafados em azul;

(ii) Eventos com impacto negativo, grafados em vermelho;

(iii) Eventos com impacto não significativo, grafados em branco.

Segue a imagem da primeira versão matriz.

Projeto de Engenharia da Usina Hidrelétrica

Intervenções

Alterações ambientais

Fenômenos ambientais

Intervenções construtivas
Canteiro de Obras
Contratação de mão de obra
  Variação da oferta de emprego
Variação do nível de renda
Variação da arrecadação tributária
Variação da pressão sobre serviços sociais básicos
Variação do risco de conflitos com comunidades locais
Variação dos níveis de comércio local
Variação da pressão sobre o sistema viário
Transporte de mão de obra
  Variação da qualidade do ar
Variação da pressão sobre o sistema viário
Variação dos níveis de ruídos e vibrações
Transporte passivo de vetores e agentes etiológicos
  Variação do risco de ocorrência de doenças e zoonoses
Operação de máquinas e equipamentos
  Variação da emissão de ruídos e vibrações
Variação da emissão de gases, particulados e odores
Variação da pressão sobre o sistema viário
Variação do risco de acidentes de tráfego
Formação de vila livre
Essa vila visa a comercializar produtos e serviços, nem sempre considerados legais. A vila livre deve ser considerada como um evento à parte, recebendo tratamento específico para que não seja instalada. Trata-se da ação comercial de comunidades locais atraídas pela disponibilidade de dinheiro dos funcionários da empresa construtora, sobretudo de seus operários. Segue a estimativa de seus fenômenos mais prováveis.
Variação crescente dos processos de desmatamento
Variação de processos erosivos
Variação de processos de assoreamento
Variação da emissão de gases, particulados e odores
Variação da drenagem superficial
Variação da abundância da flora
Variação da abundância da fauna
Variação da biodiversidade da fauna
Variação da presença de espécies de hábitos peridomiciliares
Variação crescente do transporte passivo de vetores e agentes etiológicos
Variação do risco de ocorrência de doenças e zoonoses
Variação dos níveis de comércio ilegal local
Variação dos níveis de conflitos com comunidades locais
Reassentamento da população indígena
Variação crescente dos processos de desmatamento
Variação de processos erosivos
Variação de processos de assoreamento
Variação da emissão de gases, particulados e odores
Variação da drenagem superficial
Variação da abundância da flora
Variação da abundância da fauna
Variação da biodiversidade da fauna
Variação da presença de espécies de hábitos peridomiciliares
Variação dos níveis de conflitos com comunidades locais
Variação da cultura indígena primitiva
Variação do comportamento institucional público
Desmatamentos e limpeza de terrenos
  Variação de processos erosivos
Variação de processos de assoreamento
Variação da emissão de gases, particulados e odores
Variação da drenagem superficial
Variação da abundância da flora
Variação da biodiversidade da flora
Terraplenagem (corte e aterro)
  Variação de processos erosivos
Variação de processos de assoreamento
Variação da emissão de gases, particulados e odores
Variação dos níveis de ruídos e vibrações
Operação de jazidas de empréstimo
  Variação de processos erosivos
Variação de processos de assoreamento
Variação da qualidade do ar
Variação da pressão sobre o sistema viário
Variação dos níveis de ruídos e vibrações
Variação do risco de acidentes no trabalho
Desmontes e transporte de material
  Variação dos níveis de ruídos e vibrações
Variação da emissão de gases, particulados e odores
Variação do risco de acidentes no trabalho
Operação de botaforas
  Variação dos níveis de ruídos e vibrações
Variação da emissão de gases, particulados e odores
Variação do risco de acidentes no trabalho
Evasão da fauna
  Variação da abundância da fauna
Variação da biodiversidade da fauna
Variação dos habitats preferenciais
Variação da competição intra e interespecífica
Atração da fauna
  Variação da presença de espécies de hábitos peridomiciliares
Variação da ocorrência de doenças e zoonoses
Variação da ocorrência de acidentes com animais peçonhentos
Geração de efluentes líquidos
  Variação da qualidade da água dos corpos receptores
Variação da ocorrência de doenças e zoonoses
Variação da pressão sobre serviços sociais básicos (saúde)
Geração e Transporte de resíduos sólidos
  Variação dos riscos de acidentes viários
Variação do risco de ocorrência de doenças e zoonoses
Variação da pressão sobre serviços sociais básicos (saúde)
Vila Residencial e Operária
  Desmatamentos e limpeza de terrenos
  Variação de processos erosivos
Variação de processos de assoreamento
Variação da emissão de gases, particulados e odores
Variação da drenagem superficial
Variação da abundância da flora
Variação da biodiversidade da flora
Terraplenagem (corte e aterro)
  Variação de processos erosivos
Variação de processos de assoreamento
Variação da emissão de gases, particulados e odores
Evasão da fauna
  Variação da abundância da fauna
Variação da biodiversidade da fauna
Variação dos habitats preferenciais
Variação da competição intra e interespecífica
  Atração da fauna
  Variação da presença de espécies de hábitos peridomiciliares
Variação do risco de ocorrência de doenças e zoonoses
Variação do risco de acidentes com animais peçonhentos
Variação da pressão sobre serviços sociais básicos (saúde)
Geração de efluentes líquidos
  Variação da qualidade da água dos corpos receptores
Geração e transporte de resíduos sólidos
  Variação do risco de acidentes viários
Variação do risco de ocorrência de doenças e zoonoses
Variação da pressão sobre serviços sociais básicos (saúde)
Sistemas de saneamento básico e drenagem
  Saneamento
  Variação da qualidade da água dos corpos receptores
Drenagem
Variação da drenagem superficial
Variação de processos erosivos
Variação de processos de assoreamento
Hotel de Passagem e Restaurante
  Contratação de mão de obra
  Variação da oferta de emprego
Variação do nível de renda
Variação da arrecadação tributária
Variação da pressão sobre serviços sociais básicos
Variação dos níveis de comércio local
Variação da pressão sobre o sistema viário
Variação dos níveis de conflitos com comunidades locais
  Desmatamentos e limpeza de terrenos
  Variação de processos erosivos
Variação de processos de assoreamento
Variação da emissão de particulados
Variação da drenagem superficial
Variação da abundância da flora
Variação da biodiversidade da flora
Terraplenagem
  Variação de processos erosivos
Variação de processos de assoreamento
Variação da emissão de gases, particulados e odores
Evasão da fauna
  Variação da abundância da fauna
Variação da biodiversidade da fauna
Variação dos habitats preferenciais
Variação da competição intra e interespecífica
Atração da fauna
  Variação da presença de espécies de hábitos peridomiciliares
Variação da ocorrência de doenças e zoonoses
Variação do risco de acidentes com animais peçonhentos
Variação da pressão sobre serviços sociais básicos (saúde)
Geração de efluentes líquidos
  Variação da qualidade da água dos corpos receptores
Geração e Transporte de resíduos sólidos
  Variação dos riscos de acidentes viários
Variação da ocorrência de doenças e zoonoses
Variação da pressão sobre serviços sociais básicos (saúde)
Estradas de acesso e caminhos de serviço
  Desmatamentos e limpeza de terrenos
    Variação de processos erosivos
Variação de processos de assoreamento
Variação da emissão de particulados
Variação da drenagem superficial
Variação da abundância da flora
Variação da biodiversidade da flora
Terraplenagem
  Variação de processos erosivos
Variação de processos de assoreamento
Variação da emissão de gases, particulados e odores
Evasão da fauna
  Variação da abundância da fauna
Variação da biodiversidade da fauna
Variação dos habitats preferenciais
Variação da competição intra e interespecífica
Intervenções produtivas
Barragem, Vertedouro e Casa de Força
  Desmatamentos e limpeza de terrenos
  Variação de processos erosivos
Variação de processos de assoreamento
Variação da emissão de gases, particulados e odores
Variação da drenagem superficial
Variação da abundância da flora
Variação da biodiversidade da flora
Desmontes
  Variação dos níveis de ruído e vibrações
Variação da emissão de gases, particulados e odores
Variação do risco de acidentes no trabalho
Variação da pressão sobre serviços sociais básicos (saúde)
Terraplenagem
  Variação de processos erosivos
Variação de processos de assoreamento
Variação da emissão de gases, particulados e odores
  Formação do lago
  Variação da produção de hidrófitas
Variação da abundância da flora
Variação da biodiversidade da flora
Variação da qualidade da água do reservatório
Variação da biodiversidade da ictiofauna
Variação da abundância da ictiofauna
Variação da abundância de aves de ambientes aquáticos
Variação da abundância de espécies da herpetofauna
Evasão da fauna
  Variação da abundância da fauna
Variação da biodiversidade da fauna
Variação dos habitats preferenciais
Variação da competição intra e interespecífica
Atração da fauna
  Variação da presença de espécies de hábitos peridomiciliares
Variação da ocorrência de zoonoses
Variação do risco de acidentes com animais peçonhentos
Variação da pressão sobre serviços sociais básicos (saúde)
Subestação de Energia
  Transformação e Transmissão de Energia
  Variação da produção de energia elétrica
Linhas de Transmissão
  Distribuição de Energia e Informação
  Variação do Tráfego de Energia
Variação do Tráfego de Informação
Variação das atividades de comércio e serviços
Variação das atividades de desenvolvimento industrial
    Variação da oferta de emprego
Variação do nível de renda
Variação da arrecadação tributária
Variação da qualidade de vida das pessoas
Variação da pressão sobre serviços sociais básicos

 Considerações finais

A HGSI e a Matriz de Impactos constituem a base para avaliação e gestão. É somente a partir da matriz finalizada que se torna possível ordenar e priorizar os eventos segundo seus impactos quantificados.

A partir desse ponto, torna-se possível elaborar um Plano Corporativo Ambiental que, após ser implantado, permitirá a gestão do empreendimento, visando a garantir seu desempenho ambiental otimizado. Mas estes planos não cabem neste texto, são assunto para artigo específico.

……….

[1] As matrizes de impacto são representações dinâmicas da transformação do Ambiente, dado que parte de suas alterações e fenômenos pode ser otimizada ou é temporária. Por isso, é desejável que tenham diversas versões sucessivas, atualizadas sempre que necessário.

Verga, verga, mas não se parte!


Tal como talo de bambu, enverga-se desde jovem, é dobrável, mas não se corrompe.

Assim precisa ser a sociedade civil brasileira, em resposta ao doloroso processo que lhe vem sendo imposto há quase doze anos. Mas, segue-se a falar apenas do bambu (Guadua ssp.).

Enverga mas não quebra - foto de Ronaldo Kohn

Enverga mas não quebra – foto de Ronaldo Kohn

Igual à vara de bambu tensionada, que se desdobra como chicote sibilante e fugaz, assim é a visão de alguns povos asiáticos. China e Índia são as mais antigas civilizações a produzir diversas coisas usando tranças, varas e toras de bambu, inclusive casas, hotéis e prédios.

Bambu no design da estrutura

Bambu no design da estrutura

Esta gramínea possui excelentes propriedades que merecem ser destacadas: alta resistência mecânica (pode até suportar terremotos), peso bastante menor quando comparado a outros materiais, facilidade de manutenção (trocam-se as partes danificadas) e, sobretudo, preço muito reduzido em relação à construção em alvenaria.

No Equador, por exemplo, uma casa popular feita de bambu, sem enfeites, custa cerca de US$ 400. A mesma casa, se construída em alvenaria, não sai por menos de US$ 10.000. Ou seja, no Equador a casa de bambu custa 4% da de alvenaria!

Não há dúvida que programas habitacionais públicos deveriam pensar sobre o uso do bambu para casas populares. Com o mesmo investimento que é feito através dos tributos pagos por cidadãos, o governo construiria 24 vezes mais casas, sem risco de ver prédios em construção que se partem ao meio (sem enfeites), antes mesmo de serem politicamente inaugurados.

Mas há dois fatos a considerar: (i) o que acontece na floresta tropical diante do crescimento do bambu, seja nativo ou plantado; e (ii) a cultura agrícola de Guadua ssp mais adequada.

Amazônia versus Guadua

Segundo Evandro Ferreira, Engenheiro Agrônomo e Pesquisador do Inpa, em artigo publicado no mês de fevereiro passado – Insustentabilidade da exploração madeireira em florestas com bambu no Acre –, o domínio de florestas pelo bambu gera alterações em suas estruturas, as quais reduzem sua diversidade florística. Isto é, impedem o afluxo espontâneo de novas espécies arbóreas e, em consequência, sua disseminação no espaço que lhe é nativo, com consequente redução da abundância de espécies naturais da região. Diversidade a Abundância constituem a alma das florestas.

A tese de Evandro Ferreira, com a qual se concorda lógica e racionalmente, é que “o bambu apresenta rápido crescimento e grande agressividade na ocupação do sub-bosque das florestas”, além do fato que seu domínio em densas matas, como a da floresta acriana, torna infrutífera “a intervenção recorrente do homem para impedir que mudas [nativas] plantadas não sejam ‘sufocadas’ pelo bambu”.

Embora o autor não haja feito análises complementares acerca dos impactos ambientais regionais adversos sobre a fauna amazônica, sugere-se a leitura de seu excelente artigo. Clique no link acima, grafado em vermelho.

A cultura agrícola necessária

Não há como desistir do uso do bambu como eficaz material de construção: seguro, barato e de fácil manutenção. Porém, deve ser pensada a hipótese de realizar a cultura do bambu em fazendas agrícolas, escolhendo espécies que não proliferam em “touceiras”, mas que permitem plantação e colheita organizada, não destruidora de florestas.

Trecho de mata nativa de bambu

Trecho de mata plantada de bambu

Segundo estudos realizados, existem no Brasil cerca de 50 espécies nativas de bambu que podem ter seu uso racional diferenciado. Cabe à engenharia agronômica estudar e propor quais são as espécies mais adequadas para construção de casas e prédios.

Ainda são poucas as empresas brasileiras de arquitetura que fazem projetos em bambu. Contudo, o número delas tende a crescer. O único inconveniente que ainda se tem no país é a falta de segurança pública, associada ao crescimento da criminalidade.

No entanto, essa sensação de fragilidade caseira é relativa, pois tiros de fuzil de maior potência atravessam paredes de alvenaria e até mesmo paredes metálicas.

Fica-se a imaginar as milhões de favelas do Brasil com casas feitas de bambu. Claro que ainda se está longe disso, mas existem inúmeras casas modernas construídas a partir de espetaculares projetos de bambu. O exemplo inteligente pode subir o morro.

Clínica do Ambiente


O termo Clínica sempre esteve associado à Medicina, representando o estabelecimento onde médicos de várias especialidades fazem e cobram consultas a seus pacientes. Pela essência da atividade que praticam, muitas vezes associada ao ato de salvar uma vida, parecia haver um acordo tácito que somente médicos podiam cobrar pelas consultas.

Porém, isto foi modificado faz algum tempo. Não há como precisar a data em que ocorreu a mudança, mas as consultas de hoje são extensivas a profissionais liberais de outras áreas. Engenheiros, por exemplo, são profissionais que devem cobrar pelas consultas. Até porque, projetam bem, calculam melhor, e garantem a existência de inúmeras vidas.

No dicionário Michaelis um dos significados de “consulta” generaliza o seguinte: “Atendimento que médico, advogado ou técnico dá a clientes que os consultam”. Significa dizer que deve ser natural que qualquer profissional competente cobre por uma consulta que lhe é solicitada.

Inclusive, na prática atual do mercado, verifica-se que profissionais liberais, que são técnicos em áreas específicas, passaram a cobrar para aplicar sua experiência e conhecimentos nas soluções desejadas por clientes corporativos, sejam privados ou públicos.

Como está o mercado da consultoria

Tanto na consultoria de projetos de engenharia, quanto na de estudos ambientais, o mercado brasileiro encontra-se bastante enfraquecido. Projetos de engenharia vem sendo elaborados por empreiteiras, o que é um desastre para a inteligência do setor. Estudos ambientais, por sua vez, tornaram-se “reserva de mercado” para poucas empresas consultoras, com destaque para os estudos relativos aos maiores empreendimentos.

Durante mais de uma década acompanha-se as circunvoluções negativas desse mercado. Em inúmeras conversas mantidas com sócios de empresas consultoras ouviu-se reclamações sobre atraso de pagamentos, falta de novos contratos e perda da perspectiva de um mercado efetivo, mais investidor.

Tendo em vista que a quantidade de profissionais atuantes é grande, atingindo a casa de centenas de milhares, com o estado alarmante a que chegou este mercado, há uma forte tendência de desemprego para técnicos com nível superior (especialistas e consultores).

Decerto, dada sua formação e longa experiência, somente em situações extremas aceitarão o emprego de balconista em lojas do varejo. Nada contra balconistas, mas tudo contra jogar no lixo os custos de uma boa formação e de experiências de trabalho que não têm preço!

Um novo e bom negócio

Mas, nem tudo está perdido no mercado ambiental. Visando a prosseguir atuando no mercado da consultoria, um bom time de profissionais iniciou a implantação da “CLIMA – Clínica do Ambiente”, mas sem relação com a prática da Medicina, Psicologia e áreas afins.

Já definiu algumas linhas de ação e, por ora, debate sobre o melhor modelo de negócios a ser seguido. No entanto, já demarcou o que fazer, para quem fazer e quais instrumentos devem ser utilizados, ou seja, definiu sua missão corporativa.

Missão da CLIMA

Sua missão está formulada através de dois Alvos Estratégicos que visam a resultados práticos com eficiência e objetividade.

AE-01: “Criar e formalizar uma rede nacional de especialistas para atuar na CLIMA, bem como auxiliar às empresas consultoras cadastradas na conquista de novos contratos ambientais”.

Grande parte da rede de especialistas já possui extensas relações profissionais com membros fundadores da CLIMA. A rede tende a crescer com relativa facilidade, inclusive estimulando o cadastro de empresas consultoras. Afinal, é o processo de compartilhamento de negócios que está em pauta.

AE-02: “Atender prontamente e a baixo custo às demandas de ordem ambiental formuladas por um ‘cliente perdido’.

Dois aspectos desse alvo precisam ser esclarecidos: atender prontamente e cliente perdido.

Atender prontamente significa fornecer esclarecimentos a uma pessoa, que representa uma entidade pública ou privada, para que ela possa realizar de forma segura um projeto, cumprindo com os requerimentos técnicos ambientais estabelecidos no país. Esses esclarecimentos são oferecidos em um relatório objetivo, do qual conta o diagnóstico do problema ambiental a ser solucionado e uma receita de solução. Assim sendo, trata-se de uma consulta técnica.

Cliente perdido é todo indivíduo que possui o problema ambiental, mas não sabe a quem recorrer e como deve solucioná-lo. Sempre representa uma entidade pública ou privada. Assim, um profissional da CLIMA, oferece as ações que deverá realizar, as fórmulas alternativas de realização, bem como eventual necessidade de contratação de estudos ambientais, desde que com qualidade e a custos mais baixos.

Espaço ótimo para as futuras instalações da Clínica do Ambiente

Espaço ótimo para as futuras instalações da Clínica do Ambiente

Conclusões da CLIMA

Como é possível verificar por esta apresentação, está-se a iniciar um processo de trabalho inovador. Ele tenciona aproveitar a excelência dos profissionais que já atuam ou desejam atuar no mercado consultivo e compartilhar seus resultados ambientais e monetários.

Todos os participantes devem estar interessados em garantir o Desempenho Ambiental otimizado das corporações produtivas que operam no Brasil e a consequente Sustentabilidade de seu território.

Aguarda-se seu eventual  interesse em ser participante ativo da CLIMA Network.

O ambiente na cidade


Surge novo mercado de trabalho.

1. Sumário da sátira – Brasil

Um enxame de abelhas é mais prudente do que seu similar humano: o enxame de sapiens, que acredita ser inteligente. As abelhas constroem suas residências, seu espaço domiciliar, sem impacto adverso sobre o Ambiente. Aliás, para ser exato, a ele se integram e quase desaparecem aos olhos dos menos treinados. Ferrões ardentes que o digam.

Por sua vez, nós humanos, pelo menos há dois séculos, construímos espaços procedendo justamente ao contrário: antes, devastamos o Ambiente para construir sobre “áreas mais limpas”; depois, já com as construções finalizadas, salpicamos alguns canteiros verdes, iluminações radiantes e aplicamos filas organizadas de árvores exóticas.

Por fim, certos de haver cumprido com algum tipo de dever, cravamos ao lado do portão de entrada do estande grandes cartazes incandescentes. O alvo é vender “Salas Espetaculares para seu Negócio. Invista aqui!

Parecemos “santos pagãos” tentando criar uma evolução que somente é própria da natureza. Talvez nunca tenhamos percebido que somos somente uma das partes ordinárias do Ambiente, tal como insetos e outras da fauna.

2. Sumário da realidade – Mundo

Em algumas cidades históricas do mundo o uso e a ocupação de seu solo ocorreu, digamos, sob a égide do cartesianismo, mesmo antes de Descartes nascer. Basicamente construíam uma praça, talvez como uma reverência espiritual a seu fundador ou colonizador, e com vistas a atender o crescimento populacional. Pois dela podem derivar diversas vias, a cortar o Ambiente primitivo que as circundam. Eram chamadas de “Cidades em Estrela”.

Com ou sem praça, castelos ou igrejas redentoras, também era comum iniciar a ocupação pelas margens de um rio, para ter acesso à água doce. Roma, Paris, Londres, Lisboa e, posteriormente, Nova York, apresentam pelo menos uma dessas duas características [1].

Na construção das cidades fica nítido que o Homem tenciona exercer Domínio sobre o Ambiente. Mas só aplica o processo que se adéqua a seus instintos dominantes. Em suma, sua ação básica é retirar toda a vegetação, nivelar o solo (terraplenar) e, sempre que necessário, desmontar as rochas que obstaculizem o crescimento da urbe. Depois constroem, destroem e reconstroem.

Esse processo ocorre com frequência nas maiores cidades do planeta, há pelo menos dois mil anos. Todavia, de forma paradoxal, enquanto forem mantidos os instintos humanos devastadores, a intensidade dos impactos ambientais negativos decorrentes crescerá, função da evolução tecnológica das modernas máquinas e potentes equipamentos construtivos.

Assim, não sobra Ambiente dentro da urbe. As cidades perdem a capacidade de acolher qualquer tipo de vida, inclusive a humana.

3. Tentativa vencedora

Tem-se conhecimento de profissionais que se dedicam a sanear corpos d’água e criar parques dentro de cidades consolidadas. É um desafio autoimposto por arquitetos, ecólogos, biólogos e voluntários em geral, visando a reintroduzir o Ambiente que fora riscado de seus mapas urbanos.

Essa iniciativa já ocorre em Nova York e Paris. Mas não é pioneira, pois o Central Park, na ilha de Manhattan, é obra feita por engenheiros e inaugurada em 1857. Hoje conta com cerca de 340 hectares de área verde e lagos, a receber manutenção permanente e de qualidade.

Vista aérea do Central Park

Vista aérea do Central Park

Na cidade de Nova York os próprios cidadãos são voluntários em atividades de limpeza de rios, recolhimento de detritos em corpos d’água, criação de hortas comunitárias, criação de jardins suspensos em edifícios, etc.

A monitoração da abundância e diversidade da fauna urbana é realizada em Nova York e já demonstra que o retorno de boas lascas do Ambiente primitivo aumenta a qualidade de vida de animais silvestres, turistas e cidadãos nova-iorquinos.

Mas o caso de Paris é mais complexo, pois praticamente não há áreas disponíveis para esverdear a cidade. Os profissionais envolvidos são obrigados a limitarem-se a áreas estreitas da margem de rios, a praças e bulevares mais amplos.

Vista aérea de Paris

Vista aérea de Paris

No entanto, a eterna teimosia francesa prossegue. O grito cidadão de guerra é sempre do seguinte gênero: ─ “Façamos o máximo pelo Ambiente da metrópole; mas vamos impedir, não importa a que custo, que o solo do entorno de Paris continue a ser tratado de forma desastrada!”

Porém, vale recordar que esta atitude possui passado histórico – a cidadania francesa –, conforme brada seu hino revolucionário: “Aux armes, citoyens!

4. Tentativa derrotada

Embora haja nascido do magnífico traço do urbanista Lucio Costa, Brasília foi mal executada em suas obras. Ou melhor, pessimamente executada! Considerando sua juventude como cidade, os donos dos obreiros então contratados – empreiteiros e seus capatazes – foram incapazes de assentar a cidade no Ambiente nativo que lá existia. Muito ao contrário, deformaram-no para receber as obras previstas.

Sem entrar no mérito dos efeitos nacionais perversos causados por “levar o desenvolvimento para o centro-oeste” dessa maneira, tornando a capital nacional distante da maioria das principais cidades brasileiras, Brasília parece ter sido pensada apenas para ser o sítio da absoluta distopia [2].

A tática utilizada em sua construção, graças à enorme pressa em construir a cidadela, foi a do “desbravamento com terra arrasada”. Quando tiveram a rara oportunidade de erguer uma verdadeira cidade, que se integrasse ao Ambiente que a recebia, optaram por esquecê-lo debaixo de tratores e joga-lo em lixões pela ação de pás-carregadeiras.

Por uma questão de princípio, era essencial garantir a convivência estável entre Brasília e o bioma Cerrado ocorrente na região, com suas belas formações florestais, savânicas e campestres.

Para finalizar a derrota, há períodos mais secos do ano em que a umidade relativa do ar chega a 12% ou pouco mais, o que demonstra o caráter desértico que a cidade desmatada possui.

5. Novo mercado de trabalho

Com as ações já realizadas pela iniciativa privada, através de profissionais norte-americanos e franceses, há sinais concretos de que um novo mercado de trabalho está a se abrir. Tratam-se de atividades destinadas a “reambientalizar cidades”, como instrumento essencial da Governança do Ambiente – artigo já publicado neste blog.

O alvo final dessas atividades é conseguir recriar, gerir e manter a qualidade ambiental dos espaços urbanos, ou seja, minimizar os potentes retroimpactos adversos do Ambiente sobre as cidades e seus cidadãos.

Pode-se garantir que os resultados da reambientalização de cidades são factíveis, desde que bem planejados em suas atividades de campo e contem com equipes de especialistas dedicadas, além de muitos voluntários. Que mais não seja, aguardem. Pretende-se publicar um artigo mais detalhado sobre “Como reambientalizar cidades”.

……….

[1] Há outras variáveis relevantes que afetam o processo de uso e ocupação do solo, mas não são relevantes para a argumentação deste artigo.

[2] Inaugurada em 21 de abril de 1960, com apenas 54 anos de idade, Brasília possui uma história política bastante ficcional. Senão, vejamos:

  • Seu pensador e fundador lá permaneceu a governar o país por menos de um ano.
  • É sucedido por um demente eleito pelo povo, que renunciou ao cargo em somente sete meses.
  • Tomou posse um ser imbuído de transformar o Brasil através do socialismo-sindical, que logo foi cassado por uma ação civil-militar.
  • Brasília tornou-se palco de ditadura durante 21 anos, de 1964 até 1985.
  • Morre em 1985, antes de tomar posse, o Presidente eleito pelo Parlamento – Tancredo Neves.
  • Assume democraticamente seu vice-presidente, um vigarista que comete inúmeros desvarios econômicos durante cinco anos e desagua o país num buraco-negro.
  • É sucedido pelo demente-mor, que completa os desvarios já cometidos e em dois anos é obrigado a renunciar para não sofrer impeachment. Outro vigarista.
  • Passados 32 anos da data da fundação de Brasília, assume a Presidência o primeiro brasileiro disposto a salvar o país da bancarrota, o que alcança às duras penas – Itamar Franco.
  • Tem-se oito anos de um novo Presidente, que mantém o país rumo à credibilidade internacional, o que também consegue, apesar da forte oposição delinquente.
  • A partir de 2003, durante os oito anos de um governante mentiroso e apedeuta, Brasília torna-se palco da corrupção generalizada, a ampliar programas sociais de caráter populista e eleitoreiro.
  • Em 2010, ao completar 50 anos, Brasília torna-se um antro de desgoverno e corrupção desvairada, que foram semeadas pelo apedeuta. O país retorna ao século 19, com a assinatura da “Lei da abolição da moral e da ética”.

É esse o cenário dos 54 anos de Brasília, que a demonstra ser uma distopia político-partidária, teatro de péssima ficção terrorista.

Governança do Ambiente


Este texto é um esboço empírico-conceitual. Portanto, encontra-se aberto a críticas. A única proposição do autor é receber comentários para, quem sabe, reelaborar e melhorar as proposições nele contidas.

O ensaio teve como premissa que a Governança do Ambiente deve resultar do processo da Governança Corporativa, ou seja, ser uma ideia dela derivada. No entanto, sem assumi-la como dogma ou mito, mas somente uma democrática e efetiva ferramenta para a gestão.

……………

Parte-se de uma questão que se considera primordial: ─ “Qual o mais importante e mais rico patrimônio de uma nação?

Há diversas respostas para esta pergunta, muitas delas fundadas em bons argumentos. Por exemplo, a cultura duramente construída pelo povo constitui o patrimônio riquíssimo da nação. Quem tiver dúvida, observe o que sucede na sua ausência.

Outro exemplo: desde que intrínsecos a seu povo, os princípios da moral e da ética de uma nação também constituem excepcional patrimônio a ser ressaltado e protegido.

Por fim, tomando a China como o caso mais singular do planeta, o vertiginoso crescimento econômico, com PIB disparando a taxas formidáveis, também pode ser visto, pelo menos por parte do Estado chinês, como o mais rico patrimônio nacional até então alcançado.

As respostas são inumeráveis. Porém, é provável que em sua maioria sejam relacionadas às ações do indivíduo. Isto é, repostas restritas ao espaço antropogênico. E não há dúvida que os espaços contidos no planeta Terra são bem maiores do que isso.

Dados básicos sobre o Planeta

A superfície total da Terra é da ordem de 510 milhões de km2. Cerca de 71% desta área é recoberta por água salgada. São os oceanos – Ambiente Oceânico –, ainda pouco conhecidos pelo Homem, por ele ser um elemento da biota primitiva com aptidão sobejamente terrestre.

Dos 21% restantes – Ambiente Terrestre –, estudiosos da dinâmica do uso e ocupação do solo, estimam que as áreas urbanas ocupem hoje entre 2 e 3% do Ambiente Terrestre, com tendência de expansão, sobretudo nos países ainda não propriamente desenvolvidos.

Ambiente que pode ser urbano

Ambiente que pode ser urbano

Destinadas a atividades agropecuárias – culturas e pastagens permanentes –, são estimadas áreas equivalentes a cerca de 32% do Ambiente Terrestre, com necessidade de ampliação, visando a alimentar os seres vivos em geral – o Homem e a Fauna.

Por outro lado, as áreas com cobertura vegetal – florestas, matas, savanas, pradarias, etc. – estão na ordem de 30% do Ambiente Terrestre, com possibilidade de expressiva redução por força de atividades humanas.

Para as finalidades deste ensaio não foi necessário destacar as áreas industriais do Ambiente Terrestre, bem como outros usos do solo existentes. Todos estão tratados de forma genérica como usos antropogênicos do solo.

A tabela abaixo sintetiza os números de interesse [1].

Uso do solo no Planeta

Os números mais dinâmicos desta tabela, relativos aos variados usos do Ambiente Terrestre, são gerados por atividades produtivas ocorrentes em todas as nações do planeta, as quais dependem das dimensões e características do Ambiente Oceânico e Terrestre de cada nação.

Parece ser nítido que essa afirmação é bastante lógica e óbvia. No entanto, resta saber de quais atividades resultam efeitos benéficos sobre cada nação e quais, ao contrário, geram a anorexia gradativa de seus espaços físico, biótico e antropogênico.

Para unificar a visão dos leitores, segue o conceito adotado para Ambiente (também chamado esquisitamente de “meio ambiente”):

É qualquer porção da biosfera que resulta de relações físicas, químicas, biológicas, sociais, econômicas e culturais, catalisadas pela energia solar, mantidas pelos fatores ambientais que a constituem (Ar, Água, Solo, Flora, Fauna e Homem). Todas as porções da biosfera são compostas por distintos ecossistemas, que podem ser aéreos, aquáticos e terrestres, bem como devem ser analisados segundo seus fatores físicos, bióticos e antropogênicos” (Kohn de Macedo, R., 2014[2]).

Verifica-se que, de acordo com esta definição, Ambiente pode ser todo o planeta, um canteiro de plantas ou até mesmo uma simples gota d’água. Dependerá da abordagem que se deseja para sua análise e do conhecimento que se deseja de seus elementos constituintes: serão cordilheiras alpinas, espécies endêmicas da flora ou micro-organismos?

De toda sorte, pelo exposto, acredita-se que a questão primordial ─ “Qual o mais importante e rico patrimônio de uma nação?” ─ deve ser respondida da seguinte forma:

─ “O patrimônio fundamental, mais rico e importante de qualquer nação, é seu Ambiente. É de seus elementos constituintes que gestores públicos e privados se utilizam para, em tese, construir o melhor habitat preferencial do ser humano”.

Porém, com essa resposta, surgem aspectos que demandam análise. Por óbvio, o Ambiente de cada nação é restrito em seus limites físicos e possibilidades de uso, mas há casos extremos que merecem uma análise comparativa, pelo menos com base nas variáveis ambientais constantes da tabela – áreas urbanizadas, área de agropecuária e áreas vegetadas.

Japão e Brasil

Há países situados em áreas sujeitas a eventos ambientais que geram catástrofes humanas, possuem território reduzido, cobertura vegetal parca e entremeada por rocha, bem como solos pouco próprios para a agropecuária. Vários deles situam-se no Ambiente do Círculo de Fogo do Pacífico. Mas considera-se o Japão como exemplo da pobreza ambiental: um país insular, com Ambiente de 377.873 km2, extremamente vulnerável, a sofrer terremotos diários.

Contudo, no outro extremo, existem países que esbanjam a força quase ilimitada de recursos naturais disponíveis em seu vasto Ambiente. Possuem imensas manchas de solo ricas em nutrientes e próprias para a agricultura e pecuária; densa cobertura vegetal, com biomas que se multiplicam em abundância e diversidade de espécies vegetais. Não há dúvida, de que o Brasil é um excelente exemplo planetário de riqueza ambiental.

Com área territorial de 8.515.767 km2, dentro do Brasil caberiam 22,5 territórios (ambientes) iguais ao do Japão. Entretanto, em 2012, segundo dados divulgados pelo FMI e pelo Banco Mundial, o PIB Japão foi mais que o dobro do PIB Brasil. Como esse fato pode ser explicado em um mundo que se encontra globalizado?

A tese do Ambiente

Há várias formas de explicação desse fenômeno. Mas optou-se pela seguinte linha lógica: a ciência e a tecnologia mais evoluídas são função direta das dificuldades de viver no Ambiente de cada nação. Ou seja, é o Ambiente que estimula a criação da Ciência em cada país. O aparato tecnológico mais sofisticado e relevante resulta da imposição de ter que sobreviver em Ambiente adverso.

Isso é fato desde a origem do gênero Homo na Terra, a cerca de 2 milhões de anos passados. Dentre as sete ou mais espécies do gênero, a única sobrevivente ganhou a alcunha científica de Homo sapiens. Talvez haja sido por sua capacidade de adaptação ao Ambiente em que vivia, certamente bastante adverso diante das ferramentas de que dispunha.

Nas nações em que as condições do Ambiente ameaçam ao Estado, à Sociedade Civil e ao Mercado Corporativo, os atores mais preocupados em financiarem soluções são investidores, tanto do ponto de vista das ciências essenciais, quanto das tecnologias delas derivadas.

Porém, em nações onde a fartura do Ambiente encontra-se no quintal do cidadão – que lança um grão de milho ao solo e logo cresce um milharal –, as perspectivas do desenvolvimento científico e tecnológico podem ser adiadas ad aeternum. Na maior parte das vezes, a evolução científica fica a cargo de poucos cientistas renitentes, mesmo sabendo que serão raros os atores dispostos a financiar seus experimentos e pesquisas.

É justamente como função desse extremo contraste ambiental, que líderes de Estados menos aquinhoados, junto com corporações privadas, apostam em fortes investimentos nas ciências que essenciais à sua sobrevivência. É comum que nessas nações aconteça o total suporte da sociedade civil organizada, acrescida da iniciativa espontânea de seus cidadãos.

A Governança do Ambiente

Constitui uma proposta empírica para nações bem dotadas de bens ambientais, quase “eco-potências”, mas que decerto ainda não sabem como proceder seu desenvolvimento de forma estabilizada. Serve também para os povos que são “vítimas permanentes” do subdesenvolvimento.

Porém, há três premissas essenciais a serem atendidas pela nação que pensa em implantar a Governança do Ambiente, a saber:

  • Ela é realizada por agentes democráticos, liberais e independentes, quais sejam: (i) a Sociedade civil e suas instituições cidadãs (não-governamentais e apolíticas); (ii) o Mercado produtor e consumidor, através de corporações produtivas e entidades que lhes são próprias; e, por fim, (iii) o Estado, por meio do governo e suas instituições públicas apropriadas.
  • É imprescindível que gestores públicos e corporativos possuam acurado domínio das técnicas da gestão ambiental e da sustentabilidade, tanto em seus processos públicos, quanto em seus negócios privados, respectivamente.
  • Todas as escolas públicas e privadas, desde o nível básico do fundamental até o limite máximo do nível superior, precisam oferecer educação plena de elevada qualidade.

O atendimento gradativo a essas premissas, de forma séria e responsável, pode aumentar a confiabilidade na nação, tornar seus processos ambientais transparentes e monitoráveis, desenvolver técnicas próprias de gestão e elevar os níveis de educação da sociedade civil. Por sinal, fator indispensável a qualquer tipo de governança.

Como resultado positivo, embora indireto, espera-se expressiva redução de atos ilegais que podem ser ordinariamente cometidos por qualquer agente ativo. Sobretudo, em nações que possuam governos autocráticos e sejam menos nutridas da moral e da ética públicas.

Para executar a Governança do Ambiente

A criação de um Conselho de Governança é básica. No entanto, precisa ocorrer uma inversão de posturas entre seus agentes, pois um deles falará ao Conselho em nome do Ambiente da nação. Assim, essa prática cabe às instituições da Sociedade Civil, com suporte das empresas e instituições privadas que compõem o Mercado.

As ações do Conselho visam à manutenção da Sustentabilidade do Ambiente da nação, bem como a garantia da qualidade do Desempenho Ambiental das empresas que constituem seu Mercado produtor. Dessa forma, cabe ao Estado a aprovação das normas legais que garantam a sustentabilidade e o desempenho ambiental adequados, conforme definidos e requeridos pela Sociedade Civil.

Por fim, cabe ao Conselho de Governança as ações de fiscalização no uso das normas legais aprovadas, ficando fora de qualquer votação o agente fiscalizado.

As atividades e processos do Conselho podem ser assim sumarizadas;

  • Elaboração conjunta da agenda ambiental da nação, visando ao curto, médio e longo prazos. Portanto, trata-se da definição de alvos estratégicos, táticos e operacionais.
  • Identificação das partes interessadas na execução da agenda aprovada, onde são identificadas aquelas que poderão ser parceiras na realização de planos, programas e projetos ambientais estruturantes.
  • Implantação da agenda e de sistema para sua monitoração, operando na internet sem qualquer obstáculo para acesso, permitindo o controle dos alvos da agenda, bem como de seus planos, programas e projetos ambientais.
  • Por fim, a avaliação dos resultados alcançados e ajustes dos desvios encontrados, para atualizar a agenda inicialmente concebida.

Como em qualquer processo de Governança, cabe à Sociedade Civil e ao Mercado o controle das ações ambientais promovidas pelo Estado, de forma a legitima-las ou não, em acordo com a agenda aprovada. O Governo precisa ser transeunte, sem gorduras monetárias e submisso aos interesse da sociedade e do mercado que ela constrói.

……………

[1] Os valores constantes da tabela estão arredondados, uma vez que para efetuar considerações acerca de cada uso do solo somente interessam suas ordens de grandeza relativas ao Ambiente da Terra.

[2] Kohn de Macedo, R., Ambiente e Sustentabilidade – Metodologias para Gestão, Rio de Janeiro, RJ, Editora LTC – Livros Técnicos e Científicos, GEN – Grupo Editorial Nacional, 702 pg., 1ª edição. 2015. Em processo de edição, com lançamento previsto para junho próximo.

Governança pública


Trata-se de tema importante a ser tratado neste momento nacional, sobretudo em função de como o Brasil vem sendo governado há mais de uma década.

Todavia, a finalidade deste artigo não é denunciar “problemas e malfeitos”. Em verdade, visa a pensar em meios mais adequados para gerir a “coisa pública” de forma transparente, com o uso de novos instrumentos administrativos e financeiros, os quais continuam a evoluir.

Como bem sintetiza o especialista em Administração Pública, Caio Marini [1], “a governança vai muito além da gestão pública”.

Evolução da administração até chegar à Governança

Data do início do século 20 a criação da teoria da administração que sucedeu a Teoria Clássica e a Teoria Behaviorista (Relações Humanas). Chamou-se Teoria da Burocracia. Foi uma obra de Max Weber, um cientista alemão, graduado e doutorado em Direito.

A burocracia baseava-se numa visão positivista e racional do indivíduo. Weber acreditava que todas as organizações deviam possuir uma estrutura hierárquica e as relações entre chefes e funcionários seriam definidas tanto pela hierarquia, quanto pela fidelidade estrita às normas e procedimentos estabelecidos. Estes, por sua vez, explicitados através das ordens dos chefes, únicos detentores de autoridade formal nas organizações.

Imagem satírica da burocracia

Imagem satírica da burocracia

Na ótica atual, pode-se dizer que as organizações burocratizadas através do uso do modelo weberiano mais pareciam com “campos de extermínio da criatividade”. Porém, verdade seja dita, muitas delas existem até hoje. Algumas sob a forma de governos nacionais.

Entretanto, com a construção da World Wide Web (1991) e o lançamento da Internet, a ampliar de maneira flagrante a comunicação mundial, a burocracia foi quase extinta nas organizações mais complexas. Não havia mais espaço para hierarquia, fidelidade absoluta e obediência cega, como foram definidas por Weber, pois todos os funcionários passaram a ter direito de opinar e lançar suas ideias sobre a mesa de debates.

Ficaram de fora as instituições de países alquebrados, onde o Estado continuou a ser gerido por monocratas. A gestão pública, que podia ser realizada com base nas informações disponíveis, sequer foi percebida como um ato inteligente.

Autocratas, de forma geral, impedem o crescimento adequado da iniciativa privada e soterram o mercado (produtivo e consumidor) com medidas consideradas por muitos como atos de exceção.

Não obstante, foi em nações que já operavam modelos de gestão pública bem afinados, com a máquina de governo leve e azeitada, onde cresceu o fenômeno da Governança. Tornou as corporações privadas mais eficientes e seus Estados bem mais democráticos. Simples assim, quase um passe de mágica, mas sem qualquer magia.

Tentativa de conceito

Governança pode ser definida como “as formas com que indivíduos e organizações, públicas e privadas, administram seus problemas comuns. É um processo contínuo e sistemático, por meio do qual torna-se possível acomodar interesses conflitantes ou distintos e realizar ações de cooperação para acomodá-los a contento de todas as partes, incluída a sociedade civil organizada”.

Governança “diz respeito não apenas a instituições e regimes formais, mas sobretudo a acordos informais e parcerias que atendam aos interesses dos cidadãos e das instituições”.

Condicionantes da Governança Pública  

Governança não é uma forma de governo, mas deve ser uma política de Estado, um processo dotado de inteligência, com exercício constante da democracia participativa e capacidade de diálogo transparente com a sociedade civil.

Não há pré-requisito para implantar o processo de Governança Pública em uma nação. Basta que seu governo seja democrata e tenha absoluta consciência que só se encontrará à frente do Estado por estar a serviço da sociedade; nunca de partidos políticos. Isto mesmo, qualquer governo deve atuar como humilde serviçal da sociedade que o elegeu!

Para realizar a Governança Pública

O primeiro passo consiste na criação do Conselho de Governança, composto por membros do Estado (governo), de corporações privadas (participação do mercado) e de instituições do Terceiro Setor (participação da sociedade civil organizada). Esse conselho visa a garantir ações de cooperação por parte de seus três elementos ativados.

Observa-se que não ocorre divisão de responsabilidades entre Estado, Mercado e Sociedade Civil. Muita embora caiba ao Estado a promoção da equidade, os “três parceiros” têm igual responsabilidade, quais sejam, a de eliminar ações arbitrárias de Estados desestruturados e, sobretudo, desenvolver capacidades de gestão compartilhada e em rede (Governança).

Após criado o Conselho de Governança, sem pompa e circunstância, segue a execução dos trabalhos nacionais:

  • Elaboração conjunta da agenda estratégica de desenvolvimento da nação, visando ao longo prazo, o que confirma o comprometimento de todos em alcançar os resultados esperados.
  • Identificação das partes interessadas na realização da agenda aprovada, onde devem ser identificadas aquelas que poderão ser parceiras na execução de projetos nacionais estruturantes, consolidando assim alianças estratégicas de cidadania.
  • Implantação da agenda e de sistema informatizado de monitoração, para que haja o controle dos projetos nacionais contidos na agenda. O uso da internet é essencial a essa prática, sobretudo através de ferramentas fáceis de serem operadas.
  • Por fim, a avaliação dos resultados alcançados e ajustes dos desvios encontrados, para atualizar a agenda inicialmente concebida. Essa é mais uma atividade típica do Conselho de Governança.

Deve-se acentuar que, nos processos de Governança Pública, cabe à Sociedade Civil e ao Mercado o controle das ações do Estado, de forma a legitima-las ou não, em acordo com a agenda estratégica aprovada.

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[1] Este artigo foi redigido com base em textos publicados pelo professor e especialista Caio Marini, embora com a nossa interpretação do que ele denomina Governança para Resultados. Por sinal, um processo que faz muita falta ao Brasil e que, de forma simplificada, significa “gerir compartilhadamente o Estado de forma a atingir resultados que aumentem a qualidade de vida de seus cidadãos”.