Política dos Cofres Arrombados


Zik-Sênior, o Ermitão.

Zik Sênior

Zik Sênior

Nasci em 1908, filho de família abastada. Assim, em abril, completei 110 anos. Mas sinto-me bem de saúde e mantenho a paz dos eremitas, sem que tenha cumprido qualquer penitência. Nunca fiz penitências; sou ateu e gosto de viver no que chamam solidão. Nela – na solidão – não tenho vizinhos que me amofinem, nem intrusos que molestem o silêncio da mata que margeia minha pequena casa; aliás, casa que construí com pedras, ripas de madeira e muita vidraça. De dentro dela, em qualquer local, aprecio a fauna silvestre que perambula pela mata, os pássaros a gorjear, o cântico das águas. Com esta ótica, descobri que a solidão não existe.

Por outro lado, desde a adolescência, consegui manter-me atualizado com a tecnologia. Tanto é assim, que possuo um notebook, acesso à internet, e o tal do “celular inteligente”. Com eles mantenho-me informado sobre os acontecimentos diários. Sentado à minha mesa de trabalho, pesquiso o que desejo em websites. Quando preciso relaxar, basta elevar o olhar e, através da vidraça, ver a dinâmica da mata à minha frente.

Esta é minha humilde casa

Esta é minha humilde casa na mata

Em minhas pesquisas matinais, busco artigos sobre economia e política. O motivo é evidente: estou aposentado e vivo da renda que obtive com meu trabalho; 76 anos de trabalho. Assim, pensava que, caso as decisões políticas de governantes fossem nefastas, minhas economias seguiriam para o lixo. Acreditava que, na minha idade, isto seria fatal. Mas estava enganado. Explico por quê.

Durante a vida assisti a decisões políticas absurdas, a que chamo de genocidas: acompanhei inúmeras guerras, inclusive duas Mundiais; como outros, sofri efeitos maléficos do cracking da Bolsa de NY; durante cerca de três décadas, vivia angustiado com a dita Guerra Fria, pois o mundo estava à beira do embate nuclear. Aqui no Brasil, na qualidade de ferrenho opositor, enfrentei a ditadura de Vargas; convivi com 25 anos de ditadura militar; afora, com os 30 anos do populismo selvagem que conseguiu idiotizar a nação.

Ao fim, em pleno século XXI, Era da Informação, o país permanece dividido entre Esquerda e Direita. O que causa perplexidade é a existência de um tal Centrão; na verdade, Corruptão, aqui em casa conhecido como “Bloco do Pagou-Levou”. É formado por ladrões de nascença, com gene da corrupção gravado no DNA.

Reclamar do quê? Sobrevivi a tudo isso. Hoje, aos 110 anos, tenho credibilidade para narrar essas “peripécias políticas”, digamos assim. A um tempo atrás, acho que estraguei meu título de eleitor. Mas esse ano darei o meu voto. Sou democrata, conservador, e acredito no livre mercado que me trouxe até aqui: lúcido, com sanidade mental. Como nunca fui corrupto, votarei para presidente num cidadão que extermine a Política dos Cofres Arrombados.

Lembro-me que, certa vez, por saber minha idade, um catarinense me sugeriu: ─ “Trate bem o solo em que tu pisas; um dia ele será teu teto”. Assim espero.

Assim caminha o Brasil


Ricardo Kohn, Escritor.

Está-se a descer os últimos degraus do fosso profundo, após o quê abre-se a escuridão do irremediável.

Fosso Brasil

Fosso Brasil

Goste-se ou não, as leis, as relações humanas, as econômicas e tudo mais, nascem da política. Em tese, os parlamentares que redigem a legislação, logo em seguida submetem-se a ela, assim como toda a sociedade. Desse modo, quanto mais evoluída a nação, melhor será a rigorosa aplicação das leis aprovadas. Infere-se assim que o caminhar de qualquer nação, de forma indelével, é regido pela ação política.

A nação brasileira está muito bem servida de parlamentares; têm-se políticos a dominar seus três poderes. Tanto é assim que se construiu uma cidade-capital para dar boa-vida aos políticos, bem como, às suas trupes (ou corjas). Naquele Planalto Central, distante da civilização, foi criada a “Ilha da Fantasia”: além das assustadoras verbas de gabinete, nela os felizes políticos recebem mansões, potentes lanchas para passear no lago, além de carros do ano (com motorista).

Desde de abril de 1960, mesmo que aos trancos e barrancos, a “Ilha” tem sido operada por políticos. Deve-se salientar, no entanto, que por lá viveram notáveis atores da real-democracia, uns poucos deles dignos da função para a qual foram eleitos. Foi assim a partir dos anos ‘80, com o retorno de um modelo quase liberal de governo, por vezes democrático.

Após a passagem para o século XXI, amplamente comemorada pela população, em um evento patético a nação elegeu um ogro alucinado; dono de retórica carismática, com viés socialista-oportunista. Levou tempo, foi complexo, mas após quatro mandatos de seu partido, hoje o ogro xinga e vocifera contra as paredes de sua cela na prisão.

Durante cerca de 20 anos, assistiu-se a fatos não explicados: assassinatos e acidentes fatais de pessoas contrárias ao populismo oportunista do ogro. Cita-se, a exemplo, o assassinato do prefeito de Campinas, em 2001. O inquérito policial explicou que a execução se dera sem qualquer motivo identificado. No entanto, a família do defunto acreditava que fora cometido um crime político.

Segue o sequestro, seguido da tortura e execução, do prefeito de Santo André (2002), bem como a subsequente morte de sete pessoas que talvez pudessem esclarecer aquela brutalidade.

Na página dos acidentes tem-se a queda do avião que tirou a vida do ministro do STF, Teori Zavascki, ocorrido em Paraty (2017). Por sinal, na mesma região em que Ulysses Guimarães sofreu um acidente fatal (1992), com a queda do helicóptero em que viajava.

Outro acidente foi o que tirou a vida de um candidato à presidência nas eleições de 2014. Viajava em um jatinho novo, com seu primeiro voo realizado em 2011. No entanto, aquela aeronave se espatifou contra um prédio no bairro de Santos, sem sobreviventes.

Na atualidade, especula-se com a lógica: após receber a programação detalhada da ação e sofrer intenso treinamento, uma facção de assassinos comete um atentado terrorista contra o candidato Jair Bolsonaro (2018).

Há outros casos similares, onde as investigações nada concluíram. Todavia, segundo investigadores criminalistas, não há coincidências quando vários crimes são cometidos, sucessivamente. Parece que existe nos bastidores dos crimes políticos uma cabeça capaz de orientar e programar as execuções necessárias. Decerto, não é a do ogro.

Enfim, corre-se o risco de descer os últimos degraus do fosso profundo, após o quê abre-se a escuridão do desconhecido. Assim caminhará a nação brasileira se as ações policiais e da justiça não forem implacáveis.

De dois séculos, às cinzas…


Ricardo Kohn, Gestor do Ambiente.

Embora quase tudo já tenha sido escrito e debatido acerca do inominável incêndio do Museu Nacional, faço um breve registro sobre as causas e resultados desta infame governança da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), na qualidade de responsável pela integridade do museu, bem como de seu extraordinário patrimônio histórico: cerca de 21 milhões de itens cobiçados pela ciência.

Vista do Palácio, erguido em 1808

Palácio em que se encontrava o Museu Nacional, erguido em 1808

Às vésperas de completar 92 anos, o empresário Israel Klabin[1] disse à repórter de um jornal[2]: ─ “Este incêndio é fruto de um modelo arcaico de governança que não permite a modernização do país. Um funcionalismo que olha o Brasil de forma cartorial e funciona para si mesmo”.

O auge do incêndio

O auge da destruição

Todavia, há cerca de 20 anos, Klabin conseguiu aprovar junto ao Banco Mundial um investimento de US$ 80 milhões, com vistas a reformar e modernizar o Museu Nacional. No entanto, para liberar esta quantia, o banco solicitou que houvesse uma governança moderna, capacitada para gerir o museu.

Contudo, o investimento obtido por Klabin nunca saiu do Banco Mundial, pois a proposta foi rejeitada pelas “preciosas cabeças” da UFRJ. O motivo alegado foi a dita imposição do Banco para que uma instituição civil, sem fins lucrativos, administrasse o museu. Ou seja – na minha visão –, para manter a vida íntegra daquele gigantesco patrimônio público, o museu deveria ser retirado dos porões obscuros e ideológicos da UFRJ. Por sinal, “superatarefada” em administrar a dezena de prédios que, estranhamente, estão sob sua gestão. Aliás, oferecer cursos acadêmicos de qualidade para quê?! Melhor ser administradora de imóveis: demole, reconstrói; demole, reconstrói. A imprescindível manutenção predial, muito mais simples, pode ser esquecida.

Desde 1946, quando o museu passou a ser administrado pela Universidade do Brasil (atual UFRJ), a boa governança determinava que o prédio fosse devidamente inspecionado e, como resultado, elaborado um programa de manutenção permanente do que fora o Palácio Imperial, residência da família imperial portuguesa. Ou seja, quase sete décadas se passaram e nada de relevante foi feito. Ao contrário, pelo menos desde há 20 anos, o desleixo dos gestores tornou o prédio do Museu Nacional uma vala de gambiarras elétricas. O resultado, todos sabem.

Os destroços do Museu, após 200 anos

Os destroços do Museu, após 200 anos

Finalizo esse registro a comentar os vícios ideológicos da Reitoria da UFRJ e da Diretoria do Museu Nacional. Em todas as entrevistas que deram insinuaram que a culpa foi do governo federal, que não repassava dinheiro suficiente para manutenção do museu. No entanto, encheram o prédio do museu com laboratórios, pesquisadores e funcionários, os quais teriam espaço no próprio campus da UFRJ. Porém, para atores do apocalipse, erros e desvios cometidos sempre são culpa de terceiros, “dos inimigos“.

Nos últimos 15 anos, assisti ao absurdo aparelhamento ideológico de universidades federais do país. Competência em governança, definitivamente, não é critério de seleção.

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[1] Israel Klabin é engenheiro civil, matemático e gestor do ambiente. Em sua carreira, foi fundador do Instituto Superior de Estudos Brasileiros, onde serviu ao Estado Brasileiro como planejador do desenvolvimento regional, tendo sido coautor das diretrizes para o desenvolvimento do Nordeste brasileiro. Foi membro do Conselho de Desenvolvimento da PUC-RJ, além de membro do Conselho Superior da Sociedade Nacional de Agricultura. Dentre outras atividades, tais como Presidente do Grupo Klabin S.A. e Prefeito da Cidade do Rio de Janeiro, fez parte do Conselho Internacional da Universidade de Tel Aviv.
[2] Brazil Journal: leia o artigo “Como um plano para salvar o Museu Nacional fracassou”, assinado por Mariana Barbosa.

Armem-se, cidadãos!


Ricardo Kohn, Escritor.

Arme-se com argumentos sólidos, pois do contrário perderá o embate com os delinquentes! Use sua razão ao extremo. Porém, é básico escutar mais do que falar. Não gaste verbo à toa. Sempre tenha em mente reflexões que se contraponham à verborragia idiota dos delinquentes.

Desde já, saiba que estará sob ataque; às vezes cerrado! Afinal, esteja certo que os delinquentes são implacáveis. Todavia, têm pontos fracos: (i) mentem muito e, não raro, são descarados; (ii) acham-se famosos e insuperáveis; além disso, (iii) dizem possuir capacidade para produção em série de delinquentes. Mas tudo leva a crer que isto é blefe. De todo modo, tenha atenção, pois eles sonham atacar-lhe como quadrilha, dado que estão desesperados. Portanto, arme-se com argumentos fortes!

Cidadã que se defende

Esta cidadã se defende!

Esse cenário atingiu aos píncaros em certos países desenvolvidos. Por exemplo, nos Estados Unidos há muitos cidadãos comuns com porte legal de arma de fogo. Portam-na inclusive quando fazem compras em supermercado! É uma prática normal de precaução, na defesa da própria vida. Afinal, nunca se sabe se ao lado do cidadão encontra-se um delinquente. A ser assim, nada se compara à presença ostensiva de uma 9 mm na cintura. De fato, trata-se da ferramenta capaz de desestimular delinquentes audaciosos. É muito provável, aliás, que se todos os cidadãos de bem pudessem portar arma de fogo, não ocorreriam cerca de 60.000 assassinatos/ano no Brasil!

Entretanto, na nação brasileira a delinquência foi além, assumiu a política. O que não faltam no país são delinquentes políticos. É notório que muitos milhares deles tiveram a audácia de roubar cofres públicos. Pergunta-se: ─ Quantos foram investigados? ─ Quantos, indiciados? ─ Quantos se tornaram réus? ─ Quantos, condenados? ─ Quantos continuam presos?

Presos?! Que blasfêmia cometida contra “amáveis delinquentes políticos”! Apenas uma ninharia deles encontra-se a dormitar em celas de luxo. Porém, aguarda que certos “justiceiros da justiça” – todos delinquentes jurídicos, devidamente nomeados – votem em favor de sua debandada geral.

A ser assim, armem-se, cidadãos! Há que se contra-atacar com poderosos argumentos, a impedir que a nação continue a ser esta vergonha mundial, dominada por vagabundos!

Eleições 2018: o pardieiro imoral


Ricardo Kohn, Eleitor.

Ricardo Kohn

Ricardo Kohn

Após os últimos 15 anos de delinquência institucional, instalada desde 2003, a política brasileira conseguiu eliminar todos os seus vestígios de racionalidade. Ou melhor, de suposta racionalidade, uma vez que cidadãos de até 25 anos nunca a conheceram ao vivo – a racionalidade pública. De fato, muitos jovens não perceberam que são partícipes na formulação da razão pública, fruto de sociedades educadas e pluralistas; livres e democráticas.

Mas o que se assiste neste ano de eleições gerais no Brasil? Vê-se a parafernália de 35 partidos políticos, cada um a conduzir sua matilha de candidatos (muitas hienas de estimação), na busca de mais tempo na TV. Foi assim que eclodiram absurdas coligações partidárias: antes eram inimigos mortais; agora, fieis amantes durante o curto período eleitoral. Tanto é fato que, apesar de serem 35 partidos, há somente 13 candidatos à presidência da República. Conseguiram travestir a deformação estrutural da política brasileira.

Qual nação do mundo suportou a ação simultânea de 35 facções políticas? Qual já teve 13 candidatos a “Chefe de Estado”, na mesma disputa eleitoral? A ganância pelo poder reside na vileza com que cada um deles se arma para “esquentar eleitores”.

No estágio em que se encontram, às vésperas do pleito, não há fórmula capaz de medir o desempenho eleitoral destes cidadãos. Afinal, segundo filósofos do direito, “salvo três deles, os dez restantes sequer possuem resquícios de razão pública”. São oportunistas, narcisos e, por estarem centrados em seus egos, sentem asco do “cheiro de povo requentado”.

Segue-se para outra seara: a dos tais “institutos de pesquisa” e suas “estimativas” de intenção de voto. Acredita-se que a prática da pesquisa haja nascido no ambiente acadêmico, quando estudiosos efetuavam levantamentos de dados, com vistas a provar (ou não) um fenômeno que consideravam possível. Em seguida, foram usadas para conhecer a opinião do mercado sobre um produto a ser lançado. Somente mais tarde – mantida a ótica da opinião do mercado – surgiram as “pesquisas políticas”. Nelas, políticos-candidatos são tratados como produtos, e não precisam ser novidade. Contudo, para conseguirem resultado nas pesquisas, haja modelagem matemática, haja algoritmo estocástico!

Mesmo diante dos óbvios desafios lógicos para predizer o comportamento de políticos-candidatos, “institutos de pesquisa” tornaram-se negócios lucrativos, sobretudo em ano de eleições gerais. Os chefes dessas empresas são pagos por um cliente para fazer uma pesquisa de intenção de voto. Em sigilo, é possível que lhe perguntem: ─ “O senhor deseja que as nossas estimativas favoreçam a quem”?

Após assinado o contrato, a equipe do instituto segue rumo ao Sacro-santo Salão da Magia. Realiza 2.471 telefonemas, preenche as cartelas de intenção de voto e consolida os números sob a ação de máquinas de torrar, triturar e liquefazer intenções. Bastam duas sessões de tortura de números que sai pronta a massa de modelar, sempre ao gosto do cliente. Estas são as notórias “estimativas invertebradas”: não ficam de pé sob a ação da crítica, pois são roupas penduradas em cabide. Por sinal, o fato mais extravagante é o caso do presidiário-candidato que consta em 1º lugar nas pesquisas (39%), enquanto 70% dos eleitores deseja que ele permaneça encarcerado. Isto não resultou de qualquer pesquisa, mas de um disparate entalhado no corpo da nação, a ferro e fogo!

Em suma, tem-se hoje a bagatela de 35 partidos políticos, com seus 13 presidenciáveis, além das estimativas de intenção de voto (todas invertebradas). Neste panelaço de barro, exposto ao calor extremo do fogo à lenha, falta o ingrediente que, em tese, cura o bolo eleitoral, que “dá pega”: trata-se da imprensa.

Em regimes de livre mercado a democracia requer liberdade de imprensa. Afinal, por exemplo, é através do livre debate que deve ser buscada a solução para problemas da gestão pública. No entanto, com vistas a manipular debates, certos profissionais usam a mídia para estimular lutas intestinas entre “direita e esquerda”. Desse modo, não acontece o imprescindível diálogo, mas apenas duelo entre monólogos surdos. Ao fim, sagra-se vencedor apenas o interesse de poderosos grupos de comunicação. Grupos que conduzem pseudodebates por meio da ação interventora de seus mediadores profissionais. Afora isso, também é notável o mal-uso sistemático da imprensa nas entrevistas de presidenciáveis. Considera-se esta “estratégia da inocência” ameaçadora à democracia, a qual, paradoxalmente, clama pela liberdade da imprensa.

Segue-se com o mistério das urnas eletrônicas que operam no Brasil. Desde as eleições de 2014 a credibilidade deste sistema de votação “foi para o espaço”, caiu por terra. Uma parcela considerável dos eleitores acredita que há “desvio de votos”. Até por que, os vencedores daquele pleito desviaram bilhões em dinheiro público! Mas esta parcela teve incremento expressivo, após um matusquela, presidente do TSE decidir – “gratuitamente” – que não havia dinheiro para implantar impressoras em todas as urnas eletrônicas do país. Desse modo, acontecerá mais uma eleição geral sem que seja possível a sociedade demonstrar a evidente prática do furto de votos.

Seria ótimo de fosse assim

Assim, com impressora, seria ótimo!

O voto não deve ser declarado. Até por que, não se trata de aposta no guichê do hipódromo, em cavalo que se espera vencedor. Voto é ato da cidadania, onde cada eleitor escolhe quem acredita ser digno, íntegro e competente para tirar o país do poço de lama em que se arrasta há 15 anos. Porém, vale lembrar, mesmo nas corridas de cavalo, há animais subestimados em que ninguém aposta. Por isso mesmo pagam prêmios elevados e, não raro, ganham corridas.

Nós, brasileiros, podemos obter magníficos resultados nas Eleições 2018. Basta sabermos apostar no cavalo certo! Do contrário, seremos obrigados a viver no pardieiro moral em que nos hospedaram”.

Decálogo do Ambiente


Ricardo Kohn, Escritor.

Este texto é parte de capítulo do livro “Princípios da Filosofia do AmbienteComo o Ambiente vê o Sapiens”. Nele há dois personagens que conversam: o autor e o Ambiente. Para facilitar o entendimento, indico quem está a fazer cada narrativa, as quais se sequenciam dando lógica ao tema. Prossigo.

Assim fala o Ambiente. Verifico que, desde há 20 mil anos, o sapiens dominante é o único criador de conflitos em minha natureza primordial (physis). Promove violências gratuitas, assassina à esmo, realiza corrupção, comete genocídios, trafica seus semelhantes, pratica escravagismo, faz rebeliões, guerras e revoluções armadas. Com base em reflexões sobre o óbvio, inferi que o alto valor das drogas que o dominante trafica em minha physis, seria mais que suficiente para tirar da miséria os milhões de submissos que ele arrasa, diariamente. Nos dias atuais – é notório –, com as moedas do sapiens corrupto, assisto a muitos dominantes criarem quadrilhas de traficantes que não passam de terroristas.

A barbárie dominante

Cena comum durante 12 milênios de barbárie do sapiens dominante

Por ora encerro minha falação, embora tivesse mais a dizer sobre as ameaças que o sapiens dominante promove em minha physis.  Mas esse foi o depoimento a que fui chamado a dar, de teor crítico à conduta da espécie humana que me restou para observar: em grande parte presunçosa, sedenta pelo poder a qualquer custo e, sobretudo, nefasta à minha natureza primordial.

Espero que aqueles que me leem entendam que, sobretudo, não existem exageros ou luxos na minha forma de reger meus bens primordiais. Pois ambos – exagero e luxo – possuem o danoso custo de tudo aquilo que é fútil.

O autor. Há um texto de Voltaire que, na visão do Ambiente, fundamenta seu decálogo. Voltaire, imerso na ironia de sua solidão, foi o iluminista que redigiu a seguinte parábola:

“Que ingenuidade, que pobreza de espírito, dizer que os animais são máquinas privadas de conhecimento e sentimento, que procedem sempre da mesma maneira, que nada aprendem, nada aperfeiçoam! Será por que falo que julgas que tenho sentimento, memória, ideias? Pois bem, calo-me. Vês-me entrar em casa aflito, procurar um papel com inquietude, abrir a escrivaninha, onde me lembra de tê-lo guardado, encontrá-lo, lê-lo com alegria. Percebes que experimentei os sentimentos de aflição e prazer, que tenho memória e conhecimento. Vê com os mesmos olhos esse cão que perdeu o amo e procura-o por toda parte com ganidos dolorosos, entra em casa agitado, inquieto, desce, sobe e vai de aposento em aposento, e enfim encontra no gabinete o ente amado, a quem manifesta sua alegria pela ternura dos ladridos, com saltos e carícias. Bárbaros agarram esse cão, que tão prodigiosamente vence o homem em amizade, pregam-no em cima de uma mesa e dissecam-no vivo para mostrarem-te suas veias mesentéricas. Descobrem nele todos os mesmos órgãos de sentimentos de que te gabas. Responde-me maquinista, teria a natureza entrosado nesse animal todos os órgãos do sentimento sem objetivo algum? Terá nervos para ser insensível? Não sujes a natureza com tão impertinente contradição”.

Muito embora a reflexão de Voltaire esteja restrita aos animais, exemplificados pelo cão, nosso amigo doméstico, interpreto-a como extensiva a toda a fauna silvestre. Que, aliás, o sapiens dominante insiste em denomina-la selvagem.

Em síntese, o decálogo a seguir traduz o que o Ambiente pensa sobre a impertinência do dominante. Dessa forma, quem fala não sou eu, mas as forças da natureza, as quais, por descuido ou inocência, receberam o dominante como filho pródigo. Dessa forma, o Ambiente Terráqueo oferece este decálogo a este dito sapiens, único ser incompatível que lhe apareceu pela frente. Então… Assim fala o Ambiente:

  1. Quero que tu saibas, dominante: não detenho qualquer virtude filosófica, mas sou, de fato, a única virtude do Universo; aonde quer que eu exista há evolução;
  2. Assim como o ar, a água, o solo, a flora e a fauna, que formam minha physis, acreditei que tu eras outro resultado de minha evolução; tu conseguiste me enganar;
  3. Porém, sequer chegaste a ser a necessidade fisiológica de um segundo da minha existência;
  4. Apesar da degradação sistemática que tu me impões, mesmo após entender quem tu és, continuo a elaborar meus futuros, aleatória e espontaneamente;
  5. Mas tu causas desordens na minha existência: de graça, ofereço-te ar puro, água límpida e potável, solos saudáveis, flora e fauna exuberantes. Mas o que me devolves afora ar, água e solos contaminados, florestas devastadas e fauna assassinada?;
  6. Quero que saibas: minha physis é inteligente e possui sentimentos; difere de ti, besta ignorante, destruidor de tudo o que encontras, inclusive dos primatas da tua própria espécie;
  7. Saibas ainda que, a despeito das tuas emanações gasosas, minha atmosfera logo se refaz, assim como as águas e os solos de meu planeta;
  8. A despeito de ti, minhas matas erguem-se em volta de teus prédios e logo os rodeiam, a esmigalha-los entre possantes laços de troncos vivos, pois, diante de mim, teus magníficos prédios são ínfimas peças de papel;
  9. Saibas que minha fauna é frágil e várias espécies poderão ser extintas por ti. No entanto, crio outras somente para demonstrar tua impotência;
  10. Por fim, nunca te esqueças, sou o único com poder de decidir a hora da tua extinção; tua sorte é que dificilmente gasto energia à toa.

O autor. A partir deste decálogo, percebo que o Ambiente se apresenta como o Criador de todas as coisas, o Senhor Absoluto: visível, concreto, palpável. O que me parece bem parecido com o Deus de crenças, um ser etéreo e invisível, mas que está “ativo” há milênios, por força do pavor antropológico da repetição: viver e morrer aos poucos, diariamente; viver e morrer aos poucos, diariamente…

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Para ler sobre este tema, adquira o e-book “Princípios da Filosofia do Ambiente – Como o Ambiente vê o Sapiens”. Click no link.

O que você descobre neste blog


Os Quatro deSobre o Ambiente”.

Quando este blog foi lançado, seu foco era monitorar a corrupção pública instalada no Brasil e analisar seus impactos sobre nossa sociedade, todos por demais violentos. O fato que nos motivou inicialmente foi o primoroso escândalo do Mensalão, o qual se encontrava em fim de julgamento. Sequer imaginávamos que, a operar em segundo plano, o Petrolão já estava ativado.

Todavia, dentre nós, não havia sequer um jornalista, mas apenas estudiosos do ambiente – éramos quatro redatores, três brasileiros e um português –, todos hoje com mais de 60 anos. Competir com jornalistas em narrativas sobre corrupção parecia perda de tempo. Além do fato que são milhares deles, dispersos pelo país. Mesmo assim, seguimos em frente, pois alguém nos garantiu numa conversa de boteco: ─ “São dezenas de milhares deles, mas apenas meia dúzia presta”. Foi assim que a disputa ficou praticamente empatada: 6 a 4…

Restava-nos intitular o blog, de modo a torna-lo capaz de oferecer bons conteúdos. Após debates sobre a existência ou não dos ditos “ecossistemas humanos”, por três votos a um, decidimos nomear o site de “Sobre o Ambiente”. Isto se deve ao fato de o ambiente ser o proprietário de todos os ecossistemas terráqueos, inclusive o tal humano. A ser assim, tudo cabe nele – no ambiente –, de bons a ruins conteúdos.

Contudo, reduzimos os itens de conteúdo do blog, embora sem perder sua capacidade de informação. Para isso, identificamos três temas que podiam se relacionar e integrarem-se, quando necessário. São estes:

  • Ciências e práticas destinadas a manter o ambiente (e seus ecossistemas) estabilizado, em evolução;
  • Política, sobretudo aquela praticada por personagens com alto grau de corrupção comprovada, estejam em presídios ou soltos;
  • Filosofia naturalista, como pano de fundo, destinada a vivificar os textos produzidos.

A integração entre Filosofia, Ciência e Política se realiza através das várias naturezas literárias disponíveis. Todos devemos buscar conhece-las. Dentre elas, citamos os incríveis textos filosóficos, os poderosos artigos acadêmicos, os imprevisíveis contos, as curiosas crônicas, as provocativas sátiras, as surpreendentes parábolas e até mesmo tentativas de redigir poesia moderna.

Orquídeas no tronco

Ambiente: orquídeas no tronco e, quase invisível, uma quina de concreto.

É justamente pelo uso deste aparato da literatura que “Sobre o Ambiente” não é uma enciclopédia. Não pretende ensinar coisa alguma, embora trate da educação em suas sátiras. Está aberto para o pequeno público que o segue. Quem o desejar, pode enviar textos para nossa análise e, quem sabe, publicação. Que mais não seja, semana passada, ultrapassamos 400.000 visualizações, feitas por seguidores e visitantes do blog, provindos de todos os continentes.

Em síntese, “Sobre o Ambiente” ganhou vida própria. É um espaço destinados aos bons debates. Isto significa, ser um blog paradoxal, provocador, surpreendente, ficcional e irônico, embora sério nas inferências que publica; muitas vezes, a inverter verdades aceitas como absolutas.

Nós quatro (redatores) temos crenças particulares, as quais não declinamos: são contraditórias. Por sua vez, “Sobre o Ambiente” as integra e diz de si mesmo: ─ “Tenho a dúvida dos ateus, mas guardo-a no silêncio dos agnósticos”.

Abutre, o carniceiro


Ricardo Kohn, Escritor.

Há pelo menos 20 espécies de abutre distribuídas pelo mundo. Todas alimentam-se de carniça [cadáveres de animais em decomposição]. Afora alguns ornitólogos que os estudam, as pessoas em geral sentem arrepios diante desse comportamento. Que eu saiba, os sapiens sequer pensam em ingerir carne putrefata. Falo com a consciência dos omnívoros, pois não deixo de saborear as suaves saladas tropicais, acompanhadas de filé mignon ou picanha ‘ao sal grosso’. “Maître, por favor… ao ponto”.

Todavia, há veganos que nos acusam de “abutres-humanos”. Acho exagerado, pois não somos necrófagos, a não ser na cabeça frágil dos que se alimentam de frutos, flores, gramas e raízes. Sequer admitem saborear ovos e queijos; leite? Nem pensar, tem origem animal. Devo estar errado, mas me parece faltarem as vitaminas essenciais no cérebro de veganos radicais. Isto posto, sigo com os abutres.

Grandes abutres

A África é o continente que abriga a maior quantidade de exemplares desta espécie necrófaga. Explica-se pela quantidade de animais silvestres que sofre a ação de predadores, sobretudo em ambientes descampados e até desérticos. Daí resultam inúmeras carcaças à disposição, o cardápio preferido dos abutres.

Abutre-Real

Grupo de Abutres-Reais, no Senegal

O Abutre-do-Egito é conhecido pelo pseudônimo “galinha-do-faraó”. Mas, cá entre nós, chamar abutre de galinha é desonroso, uma humilhação para os faraós. Também ocorrem no continente africano o grande Abutre-do-Cabo (África do Sul) e o Abutre-Real, este a possuir a maior envergadura dentre todos os necrófagos conhecidos: chega a mais de 2,80 m, com altura por volta de 1,3 metros, a pesar cerca de 12 quilos. São os carniceiros dominantes, que demonstram realeza com o poder destruidor de suas garras e bicos.

Abutre da Guiné

Abutre-da-Guiné

Na costa ocidental da África vive o Abutre-da-Guiné. É colorido, quase elegante, mas somente se alimenta de carniça. Por sua vez, na África central, tem-se o Abutre-de-Rüpell . É encontrado nos territórios da Etiópia, Sudão, Tanzânia e Guiné. Trata-se de uma ave poderosa, com altura de 1,1 m e envergadura de 2,60 metros. Porém, a principal ferramenta de sua necrofagia é a visão aguçada. Na procura de alimento, o Rüpell voa em círculos, a atingir altitude de até 8.000 m. Observa as carcaças deixadas nas planícies do semiárido africano e vai busca-las como se fosse abutre dominante. No entanto, caso se depare com o Abutre-Real, fica quieto e aguarda silencioso na fila.

Abutre-de-Rupell

Abutre-de-Rüpell, o necrófago das alturas

Outra ave de origem africana é o Abutre-Barbudo. Possui bom porte (1,1 m de altura, 2,70 m de envergadura, mas tem pouco peso). Como um fanático especializado, dedica-se a comer a espinha dorsal das carcaças, triturando seus ossos com o bico, como se fora uma torquês hidráulica. Talvez por isso haja ingerido as proteínas necessárias para voar por grandes distâncias e instalar seu habitat na Europa e na Ásia.

De acordo com a bibliografia que pesquisei, nas Américas não há abutres como os aqui referidos. Existe o gigantesco Condor que voa pelos céus andinos e californianos. Dizem que, quando se encontra em esfomeado, também deglute carniças. Todavia, no mais das vezes, alimenta-se de animais vivos que abate – pequenos roedores, raposas, coiotes e veados, entre outros.

Abutre-barbudo

Abutre-Barbudo, a mostrar seu bico poderoso

Saliento que em territórios sul-americanos encontram-se inumeráveis bandos de urubus-vagabundos. São animais negligentes, pois preferem comer lixo a cadáveres de rato. Creio se tratar de uma adaptação estomacal à oferta de alimentos. A tonelagem do lixo sul-americano é imensa, descartada impunemente em inúmeros rincões daquele continente.

Novos-Abutres

Embora pareça nome de banda funk, os Novos-Abutres foram identificados no Brasil, Argentina, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia e Venezuela. Sua caracterização taxonômica ainda se encontra incompleta, mas é possível falar sobre alguns aspectos da sua ecologia.

Os Novos-Abutres são uma espécie que vive em habitats urbanos, nidificando em imensos apartamentos de cobertura e enormes mansões, sempre em cidades sob o comando de abutres similares. Mas também aceitam nidificar nas capitais federais, desde que ocupem cargos com elevado poder de decisão política e monetária.

Não têm asas para voar, mas adquirem jatinhos particulares. Diariamente podem percorrer milhares de quilômetros, em busca de alimento. Os locais escolhidos dependem da disponibilidade de presas (pessoa física ou jurídica), mas preferem alimentar-se em sofisticados restaurantes, com áreas reservadas para “comerem suas presas”. Sempre trazem seus seguranças armados, provindo da Escola Cubana de Abutres-Jumento. Ao convencerem as presas, de forma rápida e definitiva, asseguram o fluxo monetário de seu ecossistema familiar.

De fato, os Novos-Abutres se alimentam de poderosas contas bancárias, tendo como principais presas o Estado e empresários mais ricos. Nas últimas décadas, devido a ações da polícia, alguns deles passaram de uma alimentação frugal, baseada em pratos sofisticados, para uma ração precária. Até por que, os que permanecem capturados, hoje se alimentam em ínfimas jaulas de presídio.

Globalizar as diferenças


Ricardo Kohn, Aprendiz de Filósofo.

Ecossistema estabilizado

Os mais ricos ecossistemas do globo detêm alta diversidade de seus incontáveis elementos constituintes[1]. Conforme analisados por várias ciências, estes elementos relacionam-se entre si de forma aleatória. Assim, formam sistemas, uma vez que todos trocam matéria e energia entre si, de modo espontâneo e gratuito. A riqueza que obtêm por meio desta postura é a sólida estabilidade que adquirem, sem necessitar de leis, polícia, promotores e juízes para lhes estabelecer limites. Ecossistemas estáveis enriquecem (evoluem) por meio de relações de troca baseadas na necessidade e acaso.

Mas nem por isso os ecossistemas são anarquistas. Ao contrário, possuem uma ordem de relações espontâneas, mas severa. Sobretudo, em seu espaço biótico: garantem-na através de ações fortuitas promovidas por sua natureza primordial. Por exemplo, no decorrer de vários milênios muitas espécies da fauna primeva foram extintas. Algumas teorias ponderam sobre a causa desse fato. Acredita-se naquela que fez esta inferência: “a fauna foi extinta por negar-se a trocar matéria e energia com outros elementos dos ecossistemas. Isto por que não possuía a aptidão necessária para manter a convivência cooperativa, essencial à evolução no ambiente[2] em que viviam”.

Por outro lado, desde há 50 mil anos, primatas da espécie Homo sapiens comportam-se no globo de maneira ameaçadora. Alteram os ecossistemas em que determinam viver com a construção de acampamentos, vilas, cidades e metrópoles, a erigir um espaço de sua exclusiva propriedade: a antroposfera. Para isso, extraem toda matéria e energia dos ecossistemas que encontram pela frente. Porém, sequer efetuam relações de troca com o ambiente. Apenas, devastam-no com obras.

Desse modo, há questões sobre as quais se deve refletir:

Ao considerar a cultura de cada nação de origem, o Sapiens aceita o comportamento daqueles que lhe parecemestrangeiros? Obviamente, não.

Todo Sapiens têm as mesmas atitudes perante os distintos povos de sua mesma espécie? Tudo leva a crer que não.

Alguns povos Sapiens encontram-se à beira de graves conflitos? Sim, pois desde que surgiram no planeta, já formavam grupos de assalto para tomar terras e moradias de seus irmãos, sempre tratados como inimigos ameaçadores.

Até quando o Sapiens pretende prosseguir com a construção da sua antroposfera? Parece que será até a extrema redução da matéria e energia do planeta, resultando no caos temporário do ambiente terráqueo. Sim, temporário, pois os ecossistemas se reabilitam, através da constante “convivência cooperativa” entre seus diferentes elementos constituintes.

Deduz-se, assim, que o ambiente globaliza os diferentes, sem efetuar, a priori, qualquer restrição. Por isso, globaliza as diferenças, tornando-as ativas de modo a acionar sua natureza primordial – este sim, o fator de manutenção espontânea daqueles elementos que detêm as habilidades da plena cooperação; embora outros se auto extinguam, exatamente pela falta delas. Portanto, infere-se que a extinção de elementos sem habilidade cooperativa constitui a forma normal da manutenção espontânea dos ecossistemas em evolução.

Mais 9 milhões de acres protegidos no Chile

Mais 9 milhões de acres doados para conservação do ambiente ─ Chile

Diante deste cenário, como tem sido construída até agora, a antroposfera do sapiens constitui uma aberração, porquanto somente consome matéria e energia para continuar a crescer, sem habilidade de cooperação. Conclui-se que, sem sabedoria, o Homo sapiens é o único primata que, somente por sua própria obra e graça, está condenado à auto extinção. Arrisca-se dizer que os ecossistemas do ambiente planetário saberão apagar o antroposférico lixo sapiens, tal como nunca houvesse existido.

__________
[1] Os elementos que constituem os ecossistemas decorrem das interações de 5 (cinco) fatores ambientais que lhes são básicos: Ar, Água, Solo, Flora, Fauna e Homem (mas apenas os da subespécie Sapiens rarus).
[2] De acordo com sua lógica aleatória, o ambiente envolve conjuntos de ecossistemas distintos, que buscam manter estabilidade por necessidade e acaso.

Os pântanos estão a secar


Ricardo Kohn, Gestor do Ambiente.

Dizem as ciências do ambiente que manguezais ou mangues são ecossistemas em transição – de marítimos para terrestres –, berços de boa parte da fauna silvestre do planeta. Situam-se em fozes de rios e protegem o nascimento de peixes, crustáceos, ostras e certos predadores, os quais embora tenham seu habitat preferencial no continente, alimentam-se neste ambiente. Por sinal, informa-se aos novos gourmets que destes manguezais são extraídos, às vezes pela força, os ditos “frutos do mar”; aqueles de que se refastelam à mesa, ao sabor de bons vinhos.

De fato, a biodiversidade dos mangues é sensível a ações provindas de agentes externos, sobretudo aquelas cometidas pelo sapiens. Por volta de 300 anos atrás, a costa brasileira era rica, recoberta por inúmeros manguezais. Mas, em grande parte, foram desflorestados – deflorados – e sua fauna jovem acabou por se perder: ou foi predada pelos carnívoros mais atentos ou servida em restaurantes. É lamentável, mas muitos mangues se tornaram alimento para Estações de Tratamento de Esgotos – ETE. A Alegria dos esgotos Brizola

Existem manguezais em cerca de 123 países, a recobrir uma pequena área global, estimada em 152 mil km2. As principais ações que os impactam negativamente envolvem projetos portuários, industriais e de rodovias costeiras. Como se não bastassem, a própria população local descarta lixo nas áreas de mangue. Os efeitos diretos desse cenário são impactos adversos de larga escala: desmatamentos, alterações da drenagem superficial do solo, erosões, colmatações, assoreamentos, evasão da fauna, sua extinção local, além dos prejuízos sociais, estimados em US$ 42 bilhõesONU, 2014.

Imagem de manguezal devastado

Vista de um manguezal sem vida, devastado

O ambiente de manguezal responde às agressões que sofre, através de retroimpactos. Uma vez devastados, tornam-se pântanos, com tendência à secarem quando submetidos ao calor solar. Desse modo, com o roubo de suas fontes de nutrientes, merecem ser analisados como pântanos corrompidos. Portanto, deixam de ser observados pelas ciências do ambiente e, na qualidade de corrompidos, são explicados pela política.

Por que a política? Simples. As fontes estatais de nutrientes dos políticos secaram. Não há mais aonde roubar. Só lhes restaram os pântanos secos e corrompidos. Deseja-se aos suínos da política uma boa estadia no chiqueiro em que transformaram a nação. Alegria! Alegria!

Dólar na calcinha


Ricardo Kohn, Aprendiz de Filósofo.

Todos lembram de um assessor de deputado federal cearense, preso num aeroporto paulista, em 2012. Carregava R$ 209 mil em sua mala, além de US$ 100 mil espremidos na cueca. O que me espantou, à época, foi a Polícia Federal não haver instalado uma severa “Operação Cueca”. Até por que, além do oprimido assessor, cumpridor de ordens, os reais protagonistas desse cenário eram dois políticos irmãos, presidentes PT do Ceará e do PT Nacional, uma empreiteira a sobrefaturar continuamente e o maleável Banco do Nordeste, notório pelas sucessivas corrupções de que participava.

Após as investigações superficiais do incidente da cueca, nenhum político foi preso pelo crime. Mas essa moda quase pegou, pois, cueca tornou-se meio de transporte especial de propina.

A caríssima cueca-cofrinho: 1 mi de US$

A caríssima cueca-cofrinho: 1 mi de US$

Veja, em 2018, numa estrada do município catarinense de Sombrio, um homem foi preso pela PRF quando foi constatado que carregava US$ 20 mil em uma pochete, presa à cueca. Foi conduzido à delegacia da PF de Criciúma, mas logo foi solto. Justificou que voltava do Uruguai e, como não havia achado atrativo o valor dos produtos à venda, permanecia com os dólares; vale observar, os dólares foram retidos pela Polícia Federal.

Todavia, dois eventos-cueca isolados – um, em 2012; outro, 2018 – não garantem que sejam a prática normal das quadrilhas de corruptos nacionais, ao contrário, podem ser coincidências. Neste invólucro ínfimo, por vezes malcheiroso, não cabem milhões de dólares. É pura questão de espaço, cueca não é carro-forte. Assim, por mera curiosidade, gostaria de saber qual foi o idiota que teve a estúpida ideia de usar cueca-cofrinho para despesas pessoais – até US$ 100 mil.

A título de conselho, devo dizer-lhe: ─ Prezado idiota, com as enormes bundonas que há no Congresso, cada calcinha pode transportar, no mínimo, US$ 600 mil. Aposto que a PF nunca mandará uma parlamentar arriar a calcinha… Desse modo, você só precisa escolher o melhor partido de corrputos para efetuar sua trampa.

Programa para Comunidades Indígenas


Ricardo Kohn, Gestor do Ambiente.

Um amigo de trabalho solicitou-me a elaboração de uma proposta para a melhoria de vida de povos indígenas no Brasil. Diante desse pedido genérico, segue o que foi possível elaborar em três dias.

I. Finalidade

Este programa tem como objetivo tornar comunidades indígenas mais autônomas em termos socioeconômicos, porém, a manter suas culturas específicas. Desse modo, em oficinas de campo, cada comunidade apresentará à equipe de trabalho suas necessidades tangíveis. A partir delas, serão criados conjuntos de projetos que as atendam, de acordo com a realidade ambiental e social de cada uma.

Comunidade indígena

II. Metodologia da abordagem

O programa será realizado através da seguinte abordagem metodológica.

1. Aquisição de conhecimentos básicos

Para adquirir conhecimentos iniciais sobre as comunidades indígenas em geral, deve-se fazer entrevistas com especialistas da FUNAI e coletar informações secundárias disponíveis. Dados do censo do IBGE auxiliarão o entendimento da equipe técnica alocada ao programa. Outros atores institucionais poderão ser integrados para a formação dos conhecimentos básicos necessários.

Observa-se que, baseado no conhecimento adquirido, apenas uma comunidade indígena será indicada pela equipe técnica para fins de um projeto-piloto. Ademais, submetida à apreciação e aprovação da entidade contratante.

2. Seleção de equipamentos de campo

Os trabalhos de campo junto à comunidade aprovada – denominados por “oficinas de campo” – demandam meios que precisam ser selecionados ou produzidos. Destacam-se notebooks, máquinas fotográficas para registros do ambiente em que vive a comunidade, gravadores, e equipamentos de proteção individual. Além disso, sobretudo, a lista das questões básicas a serem feitas aos indígenas da comunidade, base para qualquer entrevista de campo.

3. Realização de oficinas de campo

Uma “oficina de campo” constitui a reunião entre representantes de duas partes, onde são feitas entrevistas mútuas de negociação. Ambas as partes sabem o que precisam, mas, neste caso específico, somente a equipe técnica possui foco: melhorar a qualidade de vida do povo indígena daquela comunidade.

É normal que cada oficina dure de 6 a 8 horas. Isto por que os representantes indígenas são orientados a formar grupos de cinco pessoas para debaterem temas oferecidos pela equipe técnica, tais como: falta sistemática de luz, perda da qualidade da água que consomem, ausência de arruamentos, áreas com lixões, intensa incidência de chuvas, erosões do solo, desmatamentos, proliferação de vetores de endemias, desbarrancamento de taludes e outros efeitos adversos à qualidade de suas vidas. É a sucessão de oficinas que permitirá à equipe técnica identificar e priorizar os problemas que ameaçam a comunidade indígena em questão.

4. Identificação de vulnerabilidades

Para efeito deste programa, as vulnerabilidades consistem em áreas territoriais mais sensíveis a transformações promovidas pelo homem, função de seu relevo, seu clima, seus solos, seus recursos hídricos, seus biomas e suas comunidades, inclusive a indígena.

Caberá à equipe técnica, com base nos resultados das oficinas de campo, listar e justificar as vulnerabilidades encontradas.

5. Identificação de oportunidades potenciais

Para efeito deste programa, oportunidades são processos potenciais que podem criar cenários benéficos ao território em que vive a comunidade, por força de medidas planejadas para este fim, que visem à sua reabilitação. De outra forma, são processos ocorrentes que podem beneficiar a comunidade indígena através de atividades produtivas, ofertas de trabalho, assim como condições mais adequadas de moradia, saúde, educação e segurança.

Caberá à equipe técnica, a partir dos resultados obtidos nas oficinas de campo, listar e explicar as oportunidades potenciais existentes.

6. Projetos para a comunidade

De forma objetiva, os projetos em questão possuem duas categorias: (i) os que visam a reduzir ou anular as vulnerabilidades identificadas, e (ii) aqueles que transformarão as oportunidades potenciais em processos tangíveis, que beneficiem a comunidade indígena.

Há várias formas adequadas para apresentar os projetos. Não obstante, em todas elas devem constar a fonte de seu financiamento, através de investidores dispostos a realiza-los a fundo perdido.

Quando a proposta de projetos para a comunidade estiver finalizada, torna-se necessária a negociação dos projetos elencados com representantes indígenas. Portanto, mais uma oficina de campo deve ser realizada, com vistas a ajustar a proposta às demandas indígenas. Deve-se salientar que representantes da FUNAI são essenciais nesta oficina de campo.

III. Consolidação do Banco de Projetos

Uma criançaO “Programa para Comunidades Indígenas” constitui um processo contínuo de negociação de projetos. Nenhum deles será implantado sem a anuência formal da comunidade em questão. A ser assim, propõe-se que seja elaborado um “Banco de Projetos Aprovados”. Trata-se de um banco de dados – impresso e digital – que além de ser usado na comunidade selecionada, servirá de base para todas as comunidades indígenas do país.

Afora esse expressivo benefício econômico, o “Banco de Projetos Aprovados” também será um conjunto de “Medidas Compensatórias” para as obras e a operação de empreendimentos, inclusive com capacidade para atender a empreendimentos que venham a ser projetados, construídos e operados em todo território brasileiro.

1. Detalhamento dos projetos aprovados

Como se conceituam “Projetos”?

Projetos são conjuntos de tarefas convergentes a serem realizadas em um intervalo de tempo preestabelecido, dotados de recursos humanos, técnicos e logísticos limitados, visando ao atingimento de pelo menos um alvo operacional, normalmente de curto prazo”.

Com base nesta conceituação, detalhar um projeto significa organizar informações sobre tempo limitado, recursos específicos, alvos a serem atingidos, os custos de implantação do projeto, custos de andamento, trabalhos de campo, além dos tributos que incidem sobre todos esses elementos.

Em síntese, detalhar um projeto envolve descrever sua (i) metodologia de desenvolvimento; seu (ii) plano de trabalho detalhado; (iii) os recursos a serem alocados, no tempo; o (iv) orçamento detalhado destes recursos; bem como as (v) parcelas de investimento necessárias à consecução de suas metas.

1. Considerações finais

Dadas as informações recebidas para elaborar esta proposta, não há como fazer estimativas de recursos, prazo e custos para o desenvolvimento deste programa.

Brasil em Quatro Tempos


Ricardo Kohn, Escritor.

Acredita-se ser urgente uma expressiva reforma do Estado Brasileiro, focada na visão do livre mercado. Para resolver tal intento inicia-se com a descentralização do poder; segue-se com a limpeza geral do Estado; continua-se com um exuberante enxugamento; e conclui-se com a privatização de empresas públicas, todas prejudicais ao cumprimento da missão do Estado, qual seja: garantir educação, saúde e segurança a seus cidadãos. Desse modo, pretende-se assegurar que o Tesouro Nacional seja menos espoliado pelas incontáveis quadrilhas de corruptos, as quais prosseguem a pulular pelo país, tal pipocas acéfalas que dançam nas panelas da sociedade.

1º Tempo – o Golpismo

Imperador Pedro II

Imperador Pedro II

Com a deposição de Pedro II, o Brasil se tornou uma República (1889). O novo governo da União impôs o poder absoluto. De fato, a dita proclamação da república ocorrera a partir de um golpe militar, liderado por um marechal que, por sinal, sofria de dispneia. Décadas mais tarde, até criaram um verso que crianças cantarolavam nas escolas: “marechal Deodoro da Fonseca, perna fina e bunda seca”! Foi o primeiro deboche a um presidente da República.

Por conveniência, os donos do poder sempre gostaram de capachos para limpar a lama de suas botas. Muito embora o sistema republicano fosse presidencialista, o povo brasileiro tornou-se o capacho de seus dois primeiros dirigentes: os ditadores Deodoro da Fonseca (1889-1891) e seu vice, o também marechal Floriano Peixoto (1891-1894). Para dominar o poder absoluto, ambos ordenaram a extradição sumária da família imperial portuguesa. A ser assim, de 1889 a 1894, a recém-nascida república brasileira não chegou sequer a cumprimentar de longe a democracia; aliás, seu povo teve os direitos usurpados pelas ditaduras de então. Na verdade, a tal proclamação da república instalou um novo Império do Brasil, comandado por militares incompetentes, portadores de graves doenças.

Dado esse cenário inicial da República Federativa do Brasil, o primeiro terço do século XX foi marcado por várias crises econômicas, políticas e sociais. Chegaram ao seu auge com a Revolução de 1930, liderada por Getúlio Vargas, um populista extra e ordinário. Contando com o apoio de militares, o então presidente Washington Luiz foi deposto. Em seguida, Vargas fechou o Congresso, exonerou governadores e os substituiu por interventores federais. Ao cabo, foi nomeado “chefe do governo provisório” (1930-1934). Afinal, segundo a estória, prometera implantar reformas democráticas!

No entanto, em 1932 a oligarquia paulista tentou recuperar o poder através de uma revolução armada e, em 1935, socialistas se ajuntaram num movimento para a tomada do poder central, e deflagraram a Intentona Comunista. Embora derrotados, serviram de motivo para impedir novas eleições diretas. Foi desse modo que, em 1937, Vargas e seus asseclas militares realizaram outro golpe de Estado. Criaram o notório Estado Novo que serviu para estabelecer mais um regime ditatorial (1937-1945), dando a Vargas poder absoluto[1] de governar o que restara da nação. Foram 8 anos de populismo e corrupção pública, sempre garantidos pela violenta Guarda Pretoriana daquele ditador.

2º Tempo – a Mixórdia

Esse período tem início com o governo de Juscelino Kubitschek (JK, 1956-1961) e encerra-se com dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso (FHC, 1995-2002). Desse modo, o 2º tempo (1956-2002) foi iniciado e encerrado com a socialdemocracia como alicerce central do poder. Crises políticas, sociais e econômicas desabrocharam impunes no âmbito daquele socialismo, embora nunca realmente implantado.

Pode-se dizer que Kubitschek dedicou a maior parte de seu mandato à construção da nova capital. Recorda-se que o nome “Brasília” nasceu de uma sugestão feita em 1821, por José Bonifácio de Andrada e Silva. Portanto, mais antigo que a própria independência do Brasil. Já naquela oportunidade, religiosos e profetas aclamavam em seus púlpitos a futura grandeza de Brasília, a utópica cidade que garantiam se tornar a “Terra Prometida”, a “Terra da Esperança[2].

Com a estrutura de governo quase transferida para o Planalto Central, em janeiro de 1961, JK foi sucedido por Jânio Quadros, o Meteórico. Sua campanha para a presidência alardeava seu propósito de combater a corrupção – usava uma vassoura como ícone de limpeza e honestidade. Entretanto, em agosto do mesmo ano – menos de 7 meses após assumir –, renunciou ao cargo, sem explicações. Vale salientar que Jânio era um político com ideologia conservadora, adepto ao livre mercado e anticomunista. Com sua renúncia, após convulsões nas vísceras político-militares do país, o vice-presidente João Goulart (Jango) acabou por assumir o cargo vago (1961-1964).

Explica-se. Jango era gaúcho, nascido em São Borja. Filho de Vicente Goulart, dono de propriedades rurais com larga influência na região. Afinal, era amigo íntimo de Getúlio Vargas que, antes de se suicidar (?), apoiara Jango no início de sua carreira política: filiou-o ao PTB, partido que ele próprio fundara em 1945, tal uma seita particular, com base socialdemocrata e, obviamente, populista, própria dos ditadores sul-americanos de então. Destaca-se o general argentino, Juan Domingo Perón, receptor de nazistas e amigo próximo de Getúlio Vargas.

Quando Jânio Quadros renunciou ao governo, Jango visitava a República Popular da China, então ainda escrava do poder absoluto imposto por Mao Tsé-Tung. Os ministros militares daquela época tentaram impedir sua posse, pois apostavam que Jango mantinha ligações com o comunismo chinês e, possivelmente, o soviético[3].

De todo modo, meio a balbúrdia, Jango tomou posse da presidência em fins de 1961. No entanto, para acalmar o ânimo militar, foi implantado o sistema parlamentarista. Naquele mesmo ano, Tancredo Neves foi nomeado 1º Ministro. Por sinal, representava o PSD de Minas Gerais. Assim, mais uma vez, permanecia a vigorar a visão improdutiva da dita socialdemocracia.

Com Jango, cresce o poder de intervenção do Estado; empresas de todos os setores fenecem. O Plano Trienal proposto não foi aprovado pelo Congresso, dado a centralização de poder que fazia sobre a economia, sobretudo, a estatização de vários segmentos industriais – energia elétrica, refino do petróleo, setor farmacêutico –, e a legalização do Partido Comunista Brasileiro.

Instigado por um vermelho populista (Leonel Brizola), Jango cometeu ignomínias políticas. A mais grave se deu em março de ’64, conhecida como “Comício da Central do Brasil”. Diante de milhares de pessoas, com bandeiras vermelhas a tremular o apoio da esquerda, Jango (Brizola ao lado) insistia na desapropriação de refinarias que não pertenciam a Petrobras, além de implantar por decreto a Reforma Agrária, sem ao menos negociar com proprietários de terras, como fora seu próprio pai.

Verifica-se que meio a essa baderna, nesta arruaça, deu-se fim ao período “dito democrático” (1946-1964). O pano de fundo era Guerra Fria (EUA x USSR), mas Jango – a marionete abestalhada pelo corrupto Brizola –, parecia querer optar pela ditadura do proletariado, que de fato nunca existiu, a não ser páginas pseudo-filosóficas de Karl Max. Assim, com vistas a garantir a lei e a ordem, foi instalada a ditadura militar em abril de ’64, a qual, absurdamente, permaneceu ativa por 21 anos (1964-1985). No comando do governo central sucederam-se os seguintes militares: marechal Castelo Branco, marechal Costa e Silva, general Garrastazu Médici, general Ernesto Geisel e general João Figueiredo. Salienta-se que as ações extremas da “linha-dura” tiveram início sob as ordens de Costa e Silva. Há quem as justifique como resposta às atividades de grupos terroristas, tais como, Comando de Libertação Nacional (Colina), Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e Vanguarda Armada Revolucionária (VAR-Palmares), entre outros de menor peso. Diante desse cenário, nesse período a sociedade brasileira teve duas opções: ou conviver com a ditadura militar instalada, de cunho capitalista, ou aceitar a ditadura do proletariado, acompanhada das óbvias ameaças do comunismo à república democrática.

De fato, a maioria da população apoiou o governo militar de Castelo Branco, mesmo que fundado no autoritarismo. Naquela ocasião, diante dos quadros execráveis disponíveis, era melhor do que continuar a viver com as demências de Jango, sempre manipulado pelo vermelho safado, o corrupto-oportunista Leonel Brizola! Afinal, se a nação perdesse menos, pensava-se, talvez estivesse a ganhar alguma coisa.

Em suma, durante os 21 anos de Regime Militar o país recebeu vários projetos de infraestrutura. Do ponto de vista logístico, foi positivo, mas sem considerar a determinação do poder central: a estatização dos fatores produtivos. De outro lado, quanto aos aspectos econômicos e sociais, o comando militar resultou em desastres: a disparada da inflação, o óbvio desemprego, queda da produção, dívida externa a ultrapassar a casa de US$ 100 bilhões, e a nação fragilizada diante das crises globais (elevação da taxa de juros internacionais e choque dos preços do petróleo).

O retorno ao Estado Democrático foi consequência do desarranjo das instituições envolvidas. Os militares, liderados pelo General Golbery, determinaram a abertura política, desde que através de eleições indiretas. Assim, o novo presidente da República foi eleito pelo Congresso Nacional. Naquela contenda, de um lado teve-se Paulo Maluf, o representante dos militares; do outro, um opositor, Tancredo Neves. A vitória foi de Tancredo, mas estranhamente faleceu de doença grave antes de tomar posse. Dessa forma inimaginável, subiu ao trono o vice da chapa, um desconhecido escritor maranhense, José Ribamar Ferreira de Araújo Costa, vulgo Sarney.

Sem alongar a história, durante seu governo (1985-1990) Sarney implantou três planos econômicos – Cruzado, Cruzado II e Plano Verão. Todos fizeram água e a economia seguiu direto ao brejal, quer dizer, para o brejo. Como presidente da República, foi um boçal econômico. Congelou os preços de produtos e ordenou que os responsáveis por qualquer aumento fossem presos! Afora isso, distribuiu (sem licitação) mais de mil concessões públicas de rádio e TV, inclusive para sua própria família. Isto em troca de o Congresso dar-lhe mais um ano de desgoverno.

Mas com foco nos escorregões literários do maranhense, Millôr Fernandes publicou a síntese de sua obra: ─ “… até hoje as pessoas me cumprimentam como se eu tivesse escrito sobre “Marimbondos de Fogo” (um livro no qual Sarney atingiu apenas a mediocridade). Só em “Brejal dos Guajas” atingiria a oligofrenia literária, o bestialógico em estado puro”. Ressalta-se que Sarney dos Guajas, o incompetente e corrupto ostensivo, deixou para seu sucessor um pequeno problema: inflação de 1.764%, ao ano.

Quem o sucedeu foi Fernando Collor, o “Caçador de Marajás” (1990-1992).  Era um jovem bastante ativo que amava dar demonstrações públicas de virilidade. Dizia-se campeão de karatê e fazia corridas diárias pelas ruas de Brasília, acompanhado de estafetas. Filho de rica família formada por políticos profissionais[4], com vistas a conter a inflação que lhe deixara Zé Ribamar, o Caçador nomeou sua prima para o cargo de Ministra da Fazenda – Zélia Cardoso de Mello.

Durante sua breve estadia no ministério, Zélia cometeu dois planos econômicos – o Collor e o Collor II. No Plano Collor, implantado na calada da noite, Zélia congelou nos bancos os ativos dos brasileiros que fossem acima de Cr$ 50.000 (Cruzeiros). No Collor II, foram determinados novos congelamentos de preços. Desse modo, sem dinheiro a circular no mercado, instalou-se a rebelião popular e o afastamento da prima Zélia, em 1991, tornou-se inadiável. A última tentativa econômica de Collor foi com o Plano Marcílio, porém, incapaz de conter a hiperinflação – estava por volta de 1.200%, em 1991.

Apesar de liberal, defender as privatizações e o enxugamento do Estado – caso inédito até então – o egocentrismo de Collor deixou-o de calcinhas em público. Seu tesoureiro de campanha, o alagoano Paulo César Farias, vulgo PC, sofria denúncias de corrupção (o notório Esquema PC). Dada a estreita intimidade mantida pelos dois e a denúncia pública de seu irmão, Pedro Collor, investigações foram abertas e comprovaram diversos atos de corrupção cometidos por PC e Cia. Por ser legalmente responsável por aqueles que contrata, Collor de Melo sofreu processo de impeachment e foi condenado no Congresso. No entanto, já partira para Miami, onde morou cerca de 8 anos. Assim como seu pai, nunca foi preso e hoje, pasmem, é Senador da República!

Como vice-presidente de Collor, o engenheiro Itamar Franco (1992-1995) herdou o Palácio do Planalto. A hiperinflação colorizada voava na casa dos 2.300%. Justo por isso, havia um ódio instalado na população brasileira, que resultara das vigarices sucessivas armadas por Sarney e Collor. Porém, Itamar, talvez por ser mineiro, era bom negociador. Muito embora sua doutrina fosse a maldita socialdemocracia, nomeou bons ministros e mandou-os pensar na economia do país, ou seja, como estancar a hiperinflação e o que precisava ser feito.

Edmar Bacha

Economista Edmar Bacha

Foi então que seu Ministro da Fazenda, o acadêmico Fernando Henrique Cardoso (FHC), encontrou na PUC-RJ a possível solução para aquele quadro. Tratava-se do professor Edmar Bacha e sua equipe de economistas. Juntos com Bacha, três deles destacaram-se como criadores do Plano Real, além de gerirem sua complexa estratégia de implantação: Gustavo Franco, André Lara Resende e Pedro Malan. Através de medida provisória (MP-434) publicada por Itamar, o Plano Real iniciou sua implantação a 27 de fevereiro de 1994. Em junho do mesmo ano, vésperas das eleições gerais, a taxa de inflação já caíra para 46,58%. Itamar tinha vários candidatos à presidência que desejava apoiar. No entanto, todos desistiram desta ideia. Por fim, Itamar optou por indicar Fernando Henrique, que se sagrou vencedor já no primeiro turno.

Embora também se tratasse de um socialdemocrata convicto – aquela coisa imprevisível e muitas vezes imprestável –, Fernando Henrique (1995-2002) prosseguiu com medidas econômicas destinadas a consolidar a nova moeda e dar segurança da nação. Assim como a maioria da população brasileira, acredita-se que a privatização de bancos estaduais, da Vale do Rio Doce e da Telebras foram medidas capazes de atrair o capital estrangeiro para o país. É óbvio que a oposição, centrada na “velha esquerda”, urrava sem parar.

Todavia, havia questões importantes a considerar: ─ “A venda de bancos estaduais interromperia um ciclo organizado da corrupção pública que neles ocorria”? ─ “A sociedade brasileira obteria benefícios decorrentes do Plano Real e das privatizações”?

As crises econômicas do México (1994), da Ásia (1997) e, sobretudo, a da Rússia (1998), teriam trazido consequências ainda mais funestas para o país, caso as privatizações não houvessem ocorrido. Chega-se a refletir, aliás, que ainda faltaram muitas privatizações!

Contudo, FHC cometeu um grave erro político: aprovar no Congresso a Emenda Constitucional que lhe permitiu ser eleito para um segundo mandato (1999-2002). Mesmo assim, tornou a vencer o oponente no 1º turno. Porém, abriu espaço para a oposição radical e furiosa – a do PT e seus asseclas.

3º Tempo – a Extorsão

Este período teve início com os mandatos presidenciais do operário Luís Inácio Lula da Silva, o Molusco, (2003-2010), a passar pelos da economista Dilma Rousseff, o Poste (2011-2016), e, talvez, encerrar no mandato tampão do advogado Michel Temer, o Temerário (2016-2018).

Desde que o Brasil se tornou república, nunca houve um tempo de extorsão mais arrasador para a nação brasileira. Organizações criminosas foram criadas no período do Molusco, dedicadas a socializar a corrupção na cúpula dos poderes. Porém, o rei selvagem do populismo, parece ser caso encerrado. Encontra-se trancafiado por 12 anos, condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Além disso, após cumprir esta etapa na prisão, ficará inelegível por 8 anos. Sem contar outras penas que poderão ser somadas à sua já extensa “folha corrida”, uma vez que é réu em mais 7 processos. Nada mal…

Durante os “anos de chumbo” (1968-1974), o Poste pautava-se por dogmas marxista-leninistas; sofria da ideia fixa de implantar no Brasil, por força das armas, a “ditadura do proletariado” – aliás, por ser demente, acredita nisso até hoje. Com certeza, tratava-se de um poste que portava luz igual à de uma vela apagada. Apesar da sua demência, décadas mais tarde (2003), renasceu para a política através do execrável populismo do Molusco criador, o aberrante corrupto já citado.

Estes dois personagens, notórios em todos os continentes – Molusco e Poste –, conseguiram resultados soberbos: arrasaram a economia brasileira e implantaram o novo sistema de governo: a cleptocracia controlada pelo Molusco em pessoa, óbvio. Afora isso, ambos ainda são motivo de chacotas mundiais. E assim serão, enquanto viverem…

Para sintetizar o fundamento destes quatro mandatos pseudo-esquerdistas, cita-se a frase do saudoso diplomata Roberto Campos: “O PT é um partido de trabalhadores que não trabalham, estudantes que não estudam e intelectuais que não pensam”. Salienta-se que o PT sempre foi um partido de tramoias ou, mais, o Partido dos Trampeiros, aqueles que montam grandes trapaças com dinheiro público.

Logo após o Senado determinar o impeachment do Poste, seu vice, Michel Temerário, assumiu a chefia do executivo (agosto de 2016). Na breve fala de sua posse, nada disse contra a ratoeira econômica que acabara de herdar: inflação crescente, em alta; PIB em regressão violenta; juros maiores que os praticados pelos agiotas da máfia de Chicago; balança comercial arrombada; inigualável déficit fiscal; o dólar a disparar; por fim, ainda havia o programa “Desemprego para Todos”, que funcionava a pleno vapor (por sorte, não era elétrico).

Naquela ocasião, o doutor Temerário parecia adorar problemas sem solução. Para resolve-los nomeou uma razoável equipe econômica. Entretanto, nos demais ministérios, colocou velhos corruptos, todos sob o foco afiado da Lava-Jato! Além, é claro, de um corrupto idiota para comandar a Casal Civil. Parece claro que, desde 1889, o 3º Tempo constitui o pior desastre moral e econômico a que foi submetida a nação brasileira.

4º Tempo – a Desratização

Desde o início da República (1889), a sociedade brasileira assistiu seu poder ser tomado por doutrinas que buscavam o poder absoluto centralizado: várias ditaduras militares e uma civil, a ameaça pérfida do fascismo, o populismo exacerbado, a “simpatia” pelo nazismo, a presença quase constante da manipuladora socialdemocracia, a iminência do comunismo e, por fim, a “descarada cleptocracia” que se instalou no poder central. Foi desse modo que políticos ardilosos consumiram 129 anos de vida da população, a produzir medos e incertezas, além de aumentar o poder do Estado, visto pelo comportamento de seus governos centrais que empobreceram a nação em proveito próprio.

Todavia, ainda existem no Brasil inúmeros cidadãos otimistas, embora sejam minoria. No entanto, a depender do resultado das eleições gerais deste ano, acredita-se que poderá amanhecer um 4º tempo (janeiro de 2019). Será o tempo que a população estará capaz de reverter o cenário fatal em que vive, embora sequer admita. Mesmo que ainda se encontre na exata direção para onde o país caminha, a passos largos: o cenário de sua falência moral e econômica. Não há dúvida que este quadro ficou mais grave após os terremotos do corrupto 3º tempo, quando a sociedade se submeteu ao populismo e perdeu-se à deriva, alheia à própria vida.

Dessa forma, torna-se inadiável desratizar o Estado, ainda que sem envenenar ratos de qualquer espécie. Pode parecer uma visão amadora, mas os votos focados nas próximas eleições são suficientes para higienizar a nação.

De início, o foco dos eleitores deve basear-se no programa de governo anunciado pelos bons candidatos, ou seja, aqueles que não respondam a processos criminais, nem possuam “folha corrida” na Polícia Federal ou no Ministério Público. De fato, responder apenas a esse requisito básico, reduzirá bastante a lista de pretensos candidatos ao poder central.

Quanto ao Programa de Governo, espera-se que quatro fatos estejam na visão de algum candidato que mereça receber o voto popular:

  • Acreditar na economia de livre mercado, pois chega de ditadura, populismo e socialdemocracia;
  • Descentralizar o poder central para os governos estaduais e municipais;
  • Limpar o Estado e enxugar seus cargos, funções e benesses espúrias, tais como: salários exagerados, lotes de assessores comissionados, carros com motorista, viagens ao exterior, auxílios especiais e empáfias similares;
  • Privatizar empresas, bancos e autarquias públicas, pois todas, além de estimular a corrupção pública, impedem o cumprimento da missão do Estado: garantir Educação, Saúde e Segurança a seus cidadãos.

Salienta-se que, sob a gestão do monarca Pedro II (1.840-1.889), o Império do Brasil era uma potência mundial, bem mais rico e consolidado que o Brasil de hoje.

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[1] Desde meados do século XIX, o historiador britânico John Dalberg-Acton [1834–1902] já ponderava com sua lógica cartesiana: ─ “O poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente”.
[2] Hoje é notório que se trata da “Terra da Corrupção”, o sítio de onde se alastram quadrilhas com dois focos fundamentais: manter a incompetência instalada no poder central e socializar a corrupção pública, ou seja, determinar que qualquer “companheiro” tem direito a fundar sua própria quadrilha. Porém, desde que 2% do que arrecadarem sejam desviados para os cofres da “Quadrilha Central”.
[3] Realça-se que alguns políticos sabiam que Jango mantinha estreitas relações com dois partidos de esquerda, à época: o PCB (Partido Comunista Brasileiro, extinto) e o PSD (Partido Socialista Brasileiro), que há poucos anos se tornou populista, a praticar o impraticável “socialismo democrático”; que nada mais é do que “socialismo light”, sem “lutas de classe”.
[4] Arnon de Melo, pai de Collor, foi governador de Alagoas, deputado federal, três vezes senador, mas também notório assassino. No plenário do Senado, diante de muitos colegas, matou a tiros um senador do Acre, José Kairala, enquanto mirava no seu odiado senador, o alagoano Silvestre Péricles. Arnon nunca foi julgado. Foi, decerto, exemplo de virilidade para seu filho.

Primatas constroem a Antroposfera


Ricardo Kohn, Aprendiz de Filósofo.

Há cerca de 4,6 bilhões de anos, num ponto aleatório do espaço sideral, gigantescos blocos de rocha travaram o jogo da existência, ao acaso. A energia que os alimentava nesse furioso embate era de origem desconhecida. Todavia, após milhares de milênios, os blocos se permitiram coexistir: expeliram grandes volumes de gases quentes [desgaseificação], desaqueceram-se, e se mantiveram em razoável estabilidade até os dias atuais. Deste modo, ao acaso, blocos rochosos formaram a Litosfera de um novo astro, magnetizada por minerais metálicos, a que se chama Ambiente Tectônico [de um astro perdido no espaço sideral].

Os gases expelidos, atraídos pelo magnetismo da Litosfera, permaneceram em seu entorno e acabaram por formar a Atmosfera do novo astro, a que se chama Ambiente Atmosférico [de um astro desconhecido a navegar pelo cosmo]. É notório que outros corpos siderais se chocaram com o astro recém-formado. Mas existe a teoria que esses corpos celestes continham, dentre outros componentes [minerais, água e organismos unicelulares], gases incorporados às suas estruturas físicas. Assim, infere-se que, pela lógica, hajam contribuído para ampliar a Atmosfera do novo astro.

Na medida em que houve o gradual resfriamento da Litosfera do astro, grandes volumes de líquido decorrentes da condensação de gases emergiram de suas rochas, a formar sua Hidrosfera; chama-se por Ambiente Aquático, que então ocupava por volta de 60% da superfície do astro. Além disso, ocorreram as primeiras formações de nuvens na Atmosfera, a dar início a precipitações líquidas sobre o astro, agora confirmado tratar-se de um planeta, uma vez que sua Litosfera não se resfriava mais, não emitia luz própria, além de possuir dimensões largas e aparente autonomia de existência no cosmo.

Todavia, durante pelo menos 4,2 bilhões de anos, este planeta permaneceu inerte, a tostar suas rochas e solos sob as inclementes tempestades solares. Afora isso, foi trombado por milhões de asteroides, meteoros e cometas. A ser assim, mesmo debaixo dessa tempestade de ameaças, seu Ambiente Físico [Litosfera, Atmosfera e Hidrosfera] manteve-se estável. De outra forma, era como se os bens de propriedade do ambiente físico [rochas, gases da natureza e corpos d’água] “sentassem à mesa para resolver como permaneceriam úteis uns aos outros”.

Evidente que essas reuniões nunca ocorreram. No entanto, os seres vivos surgiram de maneira quase mágica. Aconteceram para formar a Biosfera ou “esfera da vida” do planeta. Embora haja inúmeras abordagens sobre o que é e como foi formada a Biosfera, opta-se por sua forma mais simples, qual seja: é o conjunto das espécies florísticas primordiais e, a ele agregado, o conjunto das espécies faunísticas primordiais. Ou seja, a Biosfera envolve a flora e a fauna primordiais, incluídos os fungos; nada além.

Parece não haver dúvida que ela se formou em função do suporte físico oferecido pelo planeta. É sobre ele que a Biosfera se agrega, aleatoriamente, por necessidade e acaso. Desse modo, é certo que o Ambiente Biótico resultou das relações mantidas entre a Litosfera, a Atmosfera e a Hidrosfera. É provável que essas relações tenham promovido reações físico-químicas que resultaram em organismos vivos. Entretanto, ninguém sabe ao certo como a Biosfera se formou, embora haja teorias sobre a chamada “sopa primordial”, um produto de laboratório talvez capaz de transformar elementos orgânicos/inorgânicos em seres vivos[1].

Todavia, o que mais importa é debater quais benefícios a Biosfera trousse para o planeta físico. Assim, para efeito desta narrativa, retorna-se à reunião hipotética entre as rochas, gases da natureza e corpos d’água. Se estes bens primordiais fossem capazes de conversar entre si, concluiriam que a cobertura vegetal biosférica tornaria o planeta mais protegido da inclemência solar; que a evaporação de suas águas seria recomposta por chuvas; que a fauna primordial a ela agregada demonstraria sua mobilidade planetária; que desse modo o planeta físico se tornaria mais complexo. Verificariam que os Ambientes Físico e Biótico deveriam interagir, a manter relações ambientais de reciprocidade entre seus bens constituintes que, apesar de aleatórias, permitiriam a manutenção e/ou evolução dos bens primordiais básicosar, água, solo, flora e fauna.

Muito embora a imaginação possa dar voz a entes físicos e a seres que não falam, há cerca de 6 milhões de anos, todos esses desejos tornaram-se reais com a assunção da “esfera das relações do ambiente”, a que se chama Ecosfera. Dela resultou a consolidação do Ambiente [terráqueo].

Tudo corria bem com a evolução do Ambiente, até que por volta de 2 milhões de anos atrás, apareceram novos grupos de primatas. Porém, dentre eles, o grupo mais recente [com origem estimada a 200 mil anos atrás] se comportava de forma diversa dos demais símios. Perambulavam pelo planeta em busca de carne fresca; matavam os grandes sauros, pois eram vorazes; reproduziam-se em larga escala; perseguiam-se e matavam-se uns aos outros.

Então, num dia perdido há 12 mil anos, resolveram fixar-se em cavernas e choupanas. Construíram seus espaços com galhos e fustes da flora silvestre, que dizimavam sem piedade. Eram egocêntricos, temerários, dominadores, agressivos e achavam-se invencíveis. Embora, na ótica do Ambiente fossem supérfluos, inadequados com seu conteúdo vazio e físico frágil.

De fato, em sua maioria, até hoje são seres vazios. Todavia, por reproduzirem-se em larga escala e de forma nefasta, procriaram uma imensa população de primatas sapiens. Por sinal, liderada por seres idiotas, dominadores e agressivos que se acham insuperáveis! Assim, quando empilhados aos bilhões de habitantes, tornaram-se uma ameaça temerária ao Ambiente.

Favela da Rocinha, imagem da Antroposfera

Favela da Rocinha, uma das Deusas da Antroposfera

Esse cenário chama-se Antroposfera. Com somente 10 mil anos de existência, constitui a esfera do planeta construída pelo sapiens, o temerário primata. Desde então, para executar suas obras, demole a Litosfera, polui a Atmosfera, contamina a Hidrosfera e devasta a Biosfera. Por se considerar invencível e insuperável, em breve chegará o tempo em que os primatas sapiens viverão num astro deformado, a navegar pelo cosmo, debilitado e ao acaso. O planeta não existirá mais graças aos arranha-céus que nele são dependurados, diariamente. Conclui-se que, após 4,6 bilhões de anos de trabalho intenso, se transformará em “terra arrasada“, sem qualquer significado.

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[1] Neste artigo não se debate esta teoria. Aqueles que desejarem conhecer algo sobre o tema, sugere-se que pesquisem por “sopa primordial”.

Faroeste Carioca


Ricardo Kohn, Aprendiz de Filósofo.

Seja motivado por tiroteios entre facções do narcotráfico ou pelo fato que agentes da segurança pública – Polícias e Forças Armadas – precisam intervir, inúmeros conflitos ocorrem nas favelas do Rio, diariamente. Resultado: dezenas de mortes gratuitas! Mas como andam as prisões dos chefes do tráfico? ─ Eventuais, muito raras.

Arte gráfica das trocas de balaço

Arte gráfica das trocas de balaço

Com base no levantamento realizado pelo Instituto Pereira Passos [2017], existem 1018 favelas na cidade do Rio. Acredita-se que as principais facções [CV, ADA e PCC] dominam o tráfico na maioria delas. O que significa controlar algo em torno de 90% das favelas que ocupam. Observa-se que a área coberta pela cidade carioca é da ordem de 1.200 km2. Por sua vez, a área afetada pelo tráfico é de, pelo menos, 800 km2. Isto decorre da distribuição geográfica das facções na metrópole e do rico mercado de viciados em narcóticos.

Segundo fontes da “intervenção federal” no Rio, dentre as 1018 favelas, as mais críticas são “Rocinha, Complexo da Maré, Complexo do Alemão, Jacarezinho, Acari, Cidade de Deus, Mangueira, Turano, Parada de Lucas e Vila Cruzeiro”. No entanto, isto não reduz as ameaças de vida ao cidadão comum.

John Wayne no Rio

John Wayne, no Rio

Tanto é assim que, nas últimas décadas, tem sido expressivo o crescimento dos tiroteios e mortes em toda a cidade. A população carioca está com medo de sair de casa, pois não há espaço aberto onde não possa ser assaltada ou sacrificada. Ficou comum assistir-se a caixas de banco explodirem, ao roubo de cargas nas estradas, a desconhecidos exaltados que, por vezes, se matam a tiros, gratuitamente. A cidade do Rio vive num clima de faroeste. Os cariocas e seus visitantes submetem-se ao terror imposto por traficantes.

Seria uma solução patética, mas no velho oeste norte-americano, cada cidadão daquele país sabia resolver esses problemas: rifle nas mãos e revolver no coldre. Será que chegamos a este cenário?

PEC ameaça o Ambiente Brasileiro


Ricardo Kohn, Gestor do Ambiente.

Com finalidades práticas, o Processo de Licenciamento Ambiental foi implantado no Brasil, em 23 de janeiro de 1986, a partir da Resolução Conama No 001. Seu objetivo, a meu ver, era proteger o Ambiente Brasileiro das incursões feitas pela engenharia em terrenos frágeis, com notórias vulnerabilidades de uso e ocupação pelo dito Homo sapiens. Saliento que esta Resolução apenas operacionalizou uma parcela da Política Nacional do “Meio Ambiente”, datada de 31 de agosto de 1981 (Lei No 6.938).

Após 32 anos de vigência, a Resolução demonstrou-se adequada, embora haja sido prejudicada pela burocracia burra de funcionários públicos, que acabaram por torna-la um alçapão com armadilhas para investidores. Acabaram por inventar três licenças ambientais, as quais assim sumarizo:

  • Licença Prévia (LP) – a ser concedida mediante a aprovação dos estudos ambientais referentes ao projeto do empreendimento;
  • Licença de Instalação (LI) – a ser concedida mediante a aprovação de um plano para otimizar o desempenho ambiental das obras e da futura operação do empreendimento;
  • Licença de Operação (LO) – a ser concedida após a análise do órgão ambiental envolvido, para confirmar se o “como construído” está em acordo com o que até então foi licenciado.

Durante mais de três décadas, inúmeras normas foram criadas, a se tornarem uma muralha quase intransponível para os estudiosos do Ambiente, em última análise, os responsáveis pelos Estudos de Impacto Ambiental definidos na norma original.

Não tenho dúvida que o Processo das Licenças Ambientais (PLA) precisa e deve ser simplificado, desde que mantenha sua natureza original: a avaliação sistemática de impactos ambientais, nas etapas de projeto, obras e operação de um novo empreendimento.

Todavia, em 2018, surge a discussão da malfadada PEC 65, proposta por um tal Acir Gurgacz (que existe e é senador por Rondônia), relatada por Blairo Maggi (dono da soja e do senado em Mato Grosso). Propõe que, a partir da aprovação de um mero Estudo Preliminar de Impacto Ambiental, nenhuma obra poderá ser suspensa ou cancelada (!). Na prática, isso significa que o processo das licenças ambientais deixará de existir. Ou seja, de acordo com o cérebro precário destes senadores encerram-se as avaliações essenciais, que sempre visaram a demonstrar se um projeto de engenharia é ambientalmente viável ou não.

PEC 65, Nunca!

PEC 65… NUNCA!

Esses dois “interessados” esqueceram-se que, além deles, há centenas ou milhares de cidadãos diretamente envolvidos com o processo do licenciamento ambiental. Em Estados Democráticos, todos precisam ter a palavra nas audiências públicas. Classifico-os como notórios atores legais do processo. São eles:

  • O empreendedor e sua equipe, na qualidade de responsáveis pelo investimento que será realizado, seja em uma nova organização produtiva, seja na ampliação de uma já existente;
  • Funcionários do órgão público responsável pelas licenças; pelo estabelecimento de termos de referência; pela avaliação dos documentos produzidos por empresa consultora; pelo estabelecimento de compensações ambientais, caso se façam necessárias; bem como, pela emissão de licenças relativas a cada etapa do licenciamento;
  • A sociedade civil, representada por instituições da área de influência do projeto, a envolver ONG de diversas naturezas, universidades, partidos políticos, associações de classe, associações de moradores e vizinhança do projeto;
  • O Ministério Público Federal e Estadual, através de procuradores e promotores;
  • Outras instituições públicas que administram setores específicos, tais como ICMBio, FUNAI, IPHAN e INCRA, entre outras;
  • Por fim, a empresa consultora e equipe de trabalho que realizou os estudos ambientais para obtenção das licenças.

Aqueles que já participaram de audiências públicas de licenciamento sabem muito bem o que acontece entre estes educados atores: tumultos, conflitos e, às vezes, pancadarias, são típicos para projetos considerados discutíveis, justo por serem mais impactantes.

Proposta para o processo de Licenças Ambientais

A ser assim, com vistas a amenizar tumultos e conflitos, proponho as seguintes medidas normativas, baseadas na racionalidade, bem como nas práticas ambientais que ocorrem em nações desenvolvidas:

  • Em substituição da Licença Prévia, criar a Licença de Localização, que demandará um Estudo Preliminar de Viabilidade Ambiental (EPVA). Os EPVA, por possuírem seções mais sucintas e objetivas sobre os espaços físico, biótico e antropogênico, podem ser elaborados de forma mais rápida e menos onerosa que os EIA. Todavia, são conclusivos quanto à localização ou não do empreendimento na região desejada pelo investidor. Este não precisará possuir um projeto básico ou executivo de engenharia; basta um croqui do empreendimento com suas dimensões e dados básicos de sua operação – insumos, processos produtivos e descartes, entre outras.
  • Objetivar o EIA, tornando-o estudo complementar do EPVA realizado, dotado de um processo detalhado de avaliação parametrizada de impactos, bem como de um Plano Executivo de Gestão Ambiental (PEXA) das relações promovidas pelas obras do empreendimento com sua área de impactos potenciais. O PEXA deve ser estruturado com metas, programas e projetos ambientais que visem à manutenção da qualidade ambiental da região afetada. Após aprovar o EIA e o PEXA, o órgão competente concede a Licença de Construção.
  • Criar a Licença de Gestão Ambiental das Obras, que demandará do investidor e da empresa construtora firmarem um compromisso contratual com o órgão público de controle ambiental, com vistas a implantar o Plano Executivo para Gestão Ambiental das obras (PEXA). Saliento que a equipe de gestão ambiental das obras precisa ser desvinculada da construtora e terá gerência própria. O Gestor Ambiental das obras emitirá relatórios periódicos para o órgão ambiental competente. Uma vez finalizada a construção, tendo sido aprovado o Relatório Consolidado das Obras, será concedida a Licença de Operação.

De fato, para manter esta Licença, a empresa em operação terá prazo de até 1 (hum) mês para implantar o Plano Executivo de Gestão Ambiental de suas práticas produtivas. Da mesma forma, o Gestor Ambiental da empresa emitirá relatórios periódicos para o órgão ambiental competente. Este, por sua vez, poderá efetuar inspeções ambientais na empresa, de modo a aferir a qualidade ambiental existente, tal como foi apresentada nos relatórios. Com essa proposta de trabalho, o órgão ambiental poderá monitorar as variáveis da operação da nova empresa, com vistas a manter sua Licença de Operação.

A tabela abaixo mostra a sequência deste processo e seus prazos de resposta:

Processo de Licenças Ambientais – PLA

Investidor e Consultora Órgão ambiental público
Estudo necessário Elaboração Licença ambiental Prazo de resposta
EPVA 2 meses Licença de Localização (LL) Até 2 meses
EIA e PEXA para obra 4 meses Licença de Construção (LC) Até 2 meses
Relatório final das obras 1 mês Licença de Operação (LO) Até 1 mês

Desse modo, o PLA completo de qualquer projeto pode ser realizado com baixíssimo custo, no prazo de até 5 meses. Observo que não levo em conta o cronograma das obras, uma vez que é variável, função da natureza do projeto de engenharia.

Considerações

De fato, a Resolução No 001/1986 do Conama proporcionou um expressivo impacto positivo no mercado de trabalho brasileiro. Destaco quatro setores que logo responderam à sua publicação:

  • Educação, através de cursos universitários em vários níveis – graduação, mestrado, doutorado, MBA e pós-graduações;
  • Ampliação do mercado de trabalho para profissões relacionadas às Ciências Humanas – antropologia, arqueologia e sociologia, dentre outras – e sua integração com as práticas da engenharia. Assim, graças a esta Resolução, foi criada a Engenharia Ambiental;
  • Fundação de inúmeras empresas de Consultoria Ambiental, sobretudo nas capitais de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais;
  • Por fim, a Geração de Conhecimento, visível nas incontáveis obras técnicas publicadas no país, durante os últimos 30 anos.

Dessa forma, esta Resolução induziu a estruturação de um Mercado Ambiental, antes inexistente no país. Centenas de milhares de profissionais encontram-se integrados a este mercado e dele dependem para produzir.

Diante deste cenário, sem dúvida factual, seria absurda a aprovação da PEC 65/2012! Trata-se de uma proposta feita por dois parlamentares – por sinal, duvidosos –, a defender “interesses pessoais” inexplicáveis, contra a necessidade de milhares de brasileiros, honestos e trabalhadores.

Lava-jato: ação de contra-ataque


Ricardo Kohn, Escritor.

Em 2008, o dono de uma indústria de Londrina denuncia que o ex-deputado federal pelo Paraná, José Janene, cometera crimes contra a administração pública, com ajuda do doleiro Alberto Youssef, o qual voltara a realizar esquemas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

No ano seguinte, a Polícia Federal fez investigações sobre uma suposta lavagem de dinheiro para o narcotráfico, realizada num posto de combustível de Brasília. Era o Posto da Torre, onde também operava uma casa de câmbio. Naquela ocasião não havia suspeita que políticos recebessem propina do narcotráfico. Contudo, no curso de 2013 foi deflagrada a operação Miqueias, destinada a tirar de circulação pessoas envolvidas com dinheiro do tráfico de drogas. A visão da PF, todavia, indicava que o Posto da Torre [codinome PT] poderia ser um antro de doleiros que recebiam percentuais do narcotráfico.

Posto da Torre, setor hoteleiro sul, área central de Brasília

Posto da Torre: “o ninho imundo da corrupção pública“, Brasília

Foi durante este período que a monitoração telefônica de Alberto Youssef confirmou a suspeita da PF. Quatro doleiros estavam envolvidos com facções criminosas, a aplicar tramoias para a evasão de divisas do país. Eram eles: o dono do PT [Posto de Torre], Carlos Chater; Nelson Kodama; Raul Srour; e o próprio Youssef. Além, é claro, do falecido (ou abatido?) José Janene, um dos incontáveis ladravazes políticos do país.

Afora isso, a Polícia Federal também descobriu que Alberto Youssef presenteara o então diretor de Abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa, com uma Land Rover Evoque, zero quilômetro. Foi a partir desse fato que a PF deflagrou uma nova operação, no dia 17 de março de 2014. Decerto, uma óbvia consequência da operação Miqueias. Deve-se a delegada da PF de Curitiba, Erika Marena, o apelido desta operação – Lava-jato. Com base nas informações que dispunha, a delegada observou que, além de um posto de combustível, havia uma rede de lavanderias que constituíam a logística da quadrilha para movimentar valores do tráfico.

Todavia, uma questão óbvia remanesce na escuridão: ─ “A quadrilha de doleiros conseguiu envolver a Petrobras com o narcotráfico”?!

A nova operação

A primeira equipe de investigação da Lava-jato foi designada em 2014, no estado do Paraná. Era formada por Procuradores da República [coordenados por Deltan Dallagnol] em ação conjunta com agentes da Polícia Federal. Iniciou reduzida, uma vez que ainda era desconhecido o volume de dinheiro desviado pela quadrilha de doleiros. Contudo, em 2015, com a descoberta de indícios alarmantes, tornou-se necessário designar mais duas equipes: uma para atuar no Rio de Janeiro e outra, no estado de São Paulo. Embora houvesse outros instrumentos de investigação (dentre eles, a Receita Federal), acredito que estas três forças-tarefas [Paraná, Rio de Janeiro e São Paulo] têm sido fundamentais. Isto por que, até 2017, conseguiram condenar várias quadrilhas de corruptos a um total de 1.861 anos de prisão[1]. Desse modo, no conjunto, espera-se que 188 condenados[2] passem quase 2 séculos enjaulados em “celas privilegiadas”. Na minha opinião, devem ser tratados como sucata moral, prontos para serem justiçados de acordo com as determinações da lei.

Justiça ordinária

Embora haja tantos condenados pela Lava-jato, em 1ª e 2ª instâncias, a maioria dos corruptos políticos permanece em liberdade. O principal motivo é a vigarice do “foro privilegiado”, o famigerado “foro especial por prerrogativa de função”. Esse foro tornou-se a vacina que cada corrupto recebe ao obter um cargo público que o declare como “autoridade”. Ele só pode ser julgado pelos tribunais superiores – STJ e STF. A ser assim, com base na lei brasileira, cerca de 55.000 pessoas que ocupam cargos públicos desfrutam descaradamente desta benesse que, sem dúvida, estupra a ética em sua expressão mais elementar. Ainda que o Artigo 5º da Constituição Federal determine justamente o contrário: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza (…)”.

Não espero conhecer os estranhos dogmas e contradições da justiça brasileira. Todavia, consigo refletir com lógica sobre direitos e deveres dos réus. No mundo civilizado, ética e moral fazem parte da família de princípios que declara quais são os direitos e deveres do sapiens, seja ele um cidadão honesto ou um condenado por crime hediondo. A meu ver, corrupção pública é crime hediondo, muitas vezes associado ao tráfico de drogas.

Retorno no tempo para mostrar que a razão nunca é perversa. Ao recordar o processo da Ação Penal 470[3] [2005 a 2014], realizado no Supremo Tribunal Federal (Justiça superior), observo que o então Ministro-relator foi capaz de quebrar paradigmas seculares: pela primeira vez na sua História, o STF condenou 24 políticos e empresários corruptos, os quais outrora eram protegidos, na qualidade de “espertalhões imunes à lei”. Ressalto que, nos processos da Lava-jato, até hoje o STF não condenou sequer um corrupto público, mesmo a dispor de fartos indícios e provas.

Por outro lado, verifico que o fim do julgamento do Mensalão e o início da Lava-jato – com o Escândalo do Petrolão – estavam integrados: ambos ocorreram em 2014! Hoje é notório que a “Grande Quadrilha” nunca parou de roubar dinheiro público. Desse modo, logrou um contínuo e intenso processo de corrupção, cujo ataque ao Erário durou por volta de 14 anos. De acordo com “estimativas otimistas” de órgãos de controle, cerca de R$ 42,8 bilhões foram desviados do Tesouro Público. Creio em valores maiores, no mínimo duplicados, com desvios superiores a US$ 26 bilhões.  Todavia, vale observar, é provável que matilhas pequenas permaneçam a descascar o Erário, mesmo que em menor escala, a desviar de cofres públicos poucos milhões de dólares.

Em suma, o cara imoral, ao ocupar qualquer cargo dito privilegiado, torna-se capaz de tudo para enriquecer, da noite para o dia: assalta estatais, desvia dinheiro de fundos públicos, tortura “companheiros”, fuzila testemunhas de crimes, estimula a execução daqueles que possam “delatar seus esquemas”. Creio que, se for o caso, “suicidará a própria mulher”.

Justiça superior

Dia após dia, desde 2014, se agiganta a fila de corruptos públicos empilhados nas portas da Justiça Superior, a dar voltas na Praça dos Três Poderes. É provável que maioria “trabalhe” lá, ou melhor, “enriqueça lá”…

Desse modo, resta uma questão: ─ “Senhores ministros, a nação desesperada quer saber quando estes corruptos serão encarcerados”?

No âmbito do STF, é nítido que ocorre grave ameaça à justiça. Quase a metade daquele esquadrão de “doutos juízes” encontra-se ferreamente engastada na defesa de certos condenados. Além disso, ataca a justiça proclamada pelos demais. É dessa forma que a impunidade de corruptos públicos se multiplica, a despeito dos fatos incriminadores demonstrados por membros eméritos daquela Corte.

Por óbvio, vive-se um inenarrável processo de “suprema delinquência jurídica”. Impõem-se que medidas inadiáveis sejam aplicadas para impedir a continuidade deste cenário, que desmoraliza a justiça e, sobretudo, vai arrasar o país. Até por que, durante quatro governos do mesmo partido tiveram a audácia de “socializar a corrupção nacional”.

Violência urbana

As tramoias da “Grande Quadrilha” se irradiam barbaramente em certos antros criminosos da sociedade. Possuem extrema capilaridade, pois são exemplos notáveis da impunidade,  consagrada aos corruptos públicos que possuem o dito “foro privilegiado”. Diante desse fato, os agentes do narcotráfico intensificaram suas ações. Em pouco tempo o Brasil tornou-se o principal centro de distribuição de drogas para Europa e América do Norte. Nos maiores centros urbanos o crescimento da violência gratuita contra cidadãos já é considerado comum. Contudo, destaco a cidade do Rio, onde o cenário de crimes encontra-se insuportável: quem sai de casa para o trabalho tem sérias dúvidas se conseguirá retornar à sua família ou se tornará apenas mais uma “estatística fúnebre”.

Retorno ao início do texto. Considero razoável que a lavagem de dinheiro do narcotráfico esteja por detrás das quadrilhas de corruptos públicos. Afinal, a operação Miqueias foi deflagrada para identificar se havia doleiros a lavar o dinheiro de traficantes. Descobriram quatro deles, os mesmos que seguiram investigados, julgados e condenados pela operação Lava-jato.

Questiono-me de onde saiu tanto dinheiro para financiar o início das ações da “Grande Quadrilha”, fundada em 2003. Os cofres da Petrobras (e da Eletrobras) ainda não haviam sido roubados; por não ser estúpido, o “clube de empreiteiros” nunca realiza financiamentos a fundo perdido. Afora isso, a possibilidade de “extorsão consensual” parece-me remota. Só me resta pensar no impensável: ─ “Os chefes da Grande Quadrilha já estariam milionários com o dinheiro lavado do narcotráfico”.

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[1] Informação de 16 de junho de 2017, segundo o website do Ministério Público Federal.
[2] Dado do website do Ministério Público Federal, em 16 de junho de 2017.
[3] A Ação Penal 470 foi o notório “Escândalo do Mensalão”, com denúncias iniciadas no ano de 2005 e julgamento concluído em março de 2014.

Ao filósofo Millôr Fernandes


Ricardo Kohn, Escritor.

Ricardo KohnEm agosto de 1923, mais um carioca analfabeto nascia no Meyer. Foi batizado com o nome Milton Viola Fernandes. Seu apelido – Millôr – somente aconteceu mais tarde, creio, quando já era notório jornalista, aos 19 anos de idade. Porém, o que importa foram suas contribuições culturais, tanto as de fundo crítico e irônico, como, por vezes, as dotadas de fabuloso nonsense. Durante sua vida escreveu artigos para jornais e revistas, quase sempre acompanhados por seus desenhos ilustrativos; redigiu e adaptou várias peças de teatro; escreveu inúmeros livros, onde destaco “A Verdadeira História do Paraíso”, por sinal, lançado numa noite de autógrafos conhecida como “Noite da Contra-incultura”; traduziu obras de muitos autores clássicos, onde destaco Sófocles, Shakespeare, Cervantes, Molière, Pirandello, Beckett e Brecht; em Buenos Aires, venceu um concurso de desenhos; em Ipanema autoproclamou-se campeão de frescobol do posto 9; se bem recordo, em 1973, Millôr foi promovido a cidadão mineiro pela Câmara Municipal de Conceição-de-Mato-Dentro. Talvez pela grandeza de sua obra, por certo desconhecida daquela vereança simpática.

Bananas pra nossa cultura

Este pensador carioca deixou um grande legado cultural, tanto para sua geração, quanto para um futuro incerto, sobre o qual nunca fez qualquer previsão concreta, apenas sutis provocações. Considerava-se relativamente ateu, mas um dia ponderou que “o cara só é sinceramente ateu quando está muito bem de saúde”. Disse ainda que “acreditar que não acreditamos em nada é crer na crença do descrer”. Assim, por dedução, infiro que desejava dizer: “… crer na crença do descrer é ser ateu convicto”.

Não me recordo por quê, mas, certa feita, Millôr escreveu: “no Paleolítico ninguém acreditava no Neolítico”. Porém, inferiu com maior agudeza de espírito quando redigiu seu próprio evangelho. Transcrevo uma de suas verdades virtuosas: “Todo Juiz, mergulhado num julgamento de corrupção, sofre um impulso pra cima igual ao peso dos corruptos por ele inocentados[1].

Por óbvio, as consequências dessa virtuosidade devem ser debatidas. Interpreto-a como se fora uma aplicação da Física Pura! O “impulso pra cima” acontece na conta bancária do julgador, por força da energia potencial que transforma a “corrupção de seus inocentados” na sua própria “alegria monetária”. A agir dessa maneira, o magistrado acumula “energia cinética” (US$) mais que suficiente para viajar felicíssimo por todos os continentes, comprar mansões, milhares de hectares de terra, iates e carrões, tudo nababesca e escancaradamente. É natural inferir que este “impulso pra cima”, a beneficiar meia dúzia de togados, tem tudo para constituir o motor que dinamiza a miséria de milhões de brasileiros. Até os dias de hoje…

Contudo, mesmo na ausência de Millôr Fernandes, os brasileiros conseguiram alcançar o topo da muralha do século XXI, ainda que sob o fogo da artilharia política, mentirosa e corrupta. Lembro-me que ele publicou uma frase que, embora cômica, era uma sentença condenatória: “As pessoas que falam muito, mentem sempre, porque acabam esgotando seu estoque de verdades[2].

Não há dúvida que as mentiras são hábito milenar, pelo menos com a idade de Adão e Eva. Porém, nos dias brasileiros atuais, alcançaram um patamar com arquitetura quase perfeita. No meio político, até mesmo o cumprimento “bom-dia” é falso, quando não se trata de violenta praga rogada.

Há 15 anos, os fatos a que a nação assiste são obra de delinquentes: desvio de bilhões de dólares dos cofres da Petrobras; o mesmo a suceder com os da Eletrobras; obras ultra superfaturadas; farta distribuição de propina para “companheiros ”; violência ostensiva nas grandes metrópoles; tráfico pesado de armas e drogas, a culminar com 60.000 assassinatos anuais.

Clássico

Os “minúsculos três poderes” estão malbaratados; ouço o “salve-se quem puder”. Não fossem as incansáveis ações da Polícia Federal, do Ministério Público e de alguns Juízes da 1ª Instância, a nação estaria vitimada pela “corja corrupta” que se encravou solene no Estado.A justiça farda mas não talha

Nesse cenário preliminar, sinto-me inclinado a refletir de acordo com a filosofia milloriana. Talvez, se ainda estivesse presente, aos 95 anos Millôr concluísse: “no Brasil, desde o Neolítico ninguém acreditava no Político”.

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[1]Saite” Millôr Online, em Bíblia do Caos, sessão 009, item IV.
[2] Revista Veja 334 (29 de janeiro de 1975).

Dicotomia e conflitos


Ricardo Kohn, Aprendiz de Filósofo.

Dicotomias são pontos-de-vista extremos e opostos, não raro, a motivar conflitos entre os atores. Porém, para a lógica, constituem a divisão da opinião sobre um dado assunto em Conflitoduas posições antagônicas. Dessa forma, embora pouco esclareçam em si mesmas, pelo menos mostram a envergadura dos conflitos, dado que focalizam o assunto através de seus cenários extremos. Desse modo, são opiniões em choque, formuladas nos limites em que o assunto pode variar. De outra forma, basta um ator dizer “sim” que o outro retruca, de pronto: “nunca”! Veja exemplos:

  • Vamos seguir “em frente” – Não; precisamos “voltar já”, imediatamente!
  • Sempre fui “conservador” – Sou um “furioso progressista”.
  • Julgo com base na “letra da lei” – Sempre julgo de acordo com meus “interesses particulares”.
  • Gosto da “economia de livre mercado” – Tenho certeza que o “comunismo” é muito melhor.
  • Voto com a “extrema direita”! – Luto pela “esquerda radical”!

Estes são os “falastrões dicotômicos”, ineptos para refletir e ponderar sobre qualquer coisa. Escutam apenas a si próprios, surdos a qualquer visão argumentada. Afinal, consideram-se proprietários exclusivos do que chamam “razão absoluta”.

Neste primeiro quarto de século, observa-se que esse fenômeno pode tornar-se global, a assumir proporções inacreditáveis nas esferas do poder em certos países. Há quem especule tratar-se de patologia grave, transmitida por “picadas de mosquito”. Decerto, não acontece assim. A transmissão ocorre pela ausência de valores básicos desses atores: ética, moral, respeito aos bens públicos e privados.

Todavia, no Brasil seu vírus maligno foi infestado por meio da espetacular corrupção pública e da total insegurança dela derivada. Esse cenário explica-se de forma evidente: provem do embate sistemático entre quadrilhas sofisticadas, tanto de políticos ladrões, quanto de traficantes de drogas. Ao centro, encontra-se a sociedade brasileira: humilhada, oprimida e quase subjugada. Mas acalmem-se, a desfaçatez do Carnaval começa amanhã!

Meditações


Ricardo Kohn, Aprendiz de Filósofo.

Vejo a meditação como a conversa entre uma pessoa e sua sombra. Trata-se de um processo de criação praticado na solidão, comum aos sapiens que tentam estimular seus cérebros.  Por acaso, neste exato momento estou a meditar. Percebo, contudo, que há o Paradoxo da Meditação: de um lado, o medo de encontrar o desconhecido que mora em mim; de outro, a importância das descobertas que surgem, sempre esclarecedoras. Assim, para seguir a meditar sei que preciso superar este paradoxo – medo versus esclarecimentos. Creio que a forma mais simples é “fingir que se medita sobre eles” e não sobre si mesmo. Até por que, se os “eles” a que me refiro são amigos ou inimigos, pouco importa: basta saber pensar para meditar com as virtudes da natureza.

Todavia, meu objetivo não é redigir um “Manual de Meditação”, embora existam muitos. A meu ver, todos anacrônicos e patéticos. Na verdade, a meditação é um hábito milenar que teve origem em filosofias orientais. Nasceu como um desafio para o indivíduo imergir em si mesmo; ter a visão de muitas dúvidas e poucas quase-certezas; fazer sua autodepuração espontânea; por fim, alimentar a evolução da inteligência primordial da espécie humana rara – os poucos “sapiens raros” que ainda conseguem sobreviver na antroposfera[1].

Importa salientar que a meditação virtuosa jamais foi influenciada por crenças espirituais, uma vez que, por volta de 10 milênios atrás, afora o Sol, as ditas “divindades máximas do Universo” sequer haviam sido inventadas pelo “sapiens dominante”, o hipócrita soberano da antroposfera.

O Sol alimenta a natureza primordial de Botswana

Há décadas reflito sobre o Ambiente e sua physis[2]. Busco entender sua formação na Terra, assim como as graves ameaças à sua existência e as possíveis sequências de sua evolução. Após muito meditar, percebi que antes do surgimento dos primeiros grupos de primatas humanos – a 200 mil anos atrás –, o Ambiente foi a própria Terra, que deveria atender pelo apelido Planeta Ambiente. Afinal, ainda não existia a antroposfera e os bens de propriedade do Ambiente ainda estavam intactos – ar, água, solo, bem como a flora e fauna silvestres –, livres das ações transgressoras do sapiens dominante.

Assim, decidi dar voz ao Ambiente (maluquice ou oportunidade de meditação?), a vê-lo como proprietário exclusivo de todas as coisas terráqueas. Então, disse-me “ele”:

─ “Minha physis é inteligente e carrega intensos sentimentos”.

Matutei bastante sobre esta frase. Por fim, encontrei evidências factuais que o Ambiente detém habilidades que o tornam capaz de observar, analisar e responder às transgressões que ocorrem em seu terreno. Por isso, infiro que o Ambiente possui razão e lógica próprias, decerto distintas das atribuídas ao dito sapiens. Saliento que suas respostas às transgressões que sofre não são iguais às reações normais demonstradas por Isaac Newton. Caso o fossem, haveriam de ser contra-ataques intensos às agressões que lhe são impingidas pelo sapiens dominante, há milênios. Porém, o Ambiente não existe em função do sapiens, ao contrário, o sapiens dominante é que constitui seu objeto de uso. Aliás, precisa torcer – e muito – para que a “inteligência da physis” o trate com “intensos sentimentos” – seja lá o que isto signifique.

Tudo me conduz a concluir que o Ambiente é o cérebro ativo dos planetas. Por sinal, fez-me esta segunda afirmação:

─ “Não detenho virtudes filosóficas, mas sou a maior virtude material do Universo: aonde quer que eu exista, sempre haverá evolução”.

Devo discordar da premissa “não detenho virtudes filosóficas”. Até por que, é um aspecto da filosofia da natureza, capitaneada por escolas pré-socráticas, fundadas com as virtudes da Grécia Antiga, na cidade de Mileto, entre outros locais. Ao contrário, incontinente, louvo a certeza formulada: “aonde quer que eu exista, sempre haverá evolução”. Em minha opinião, é uma virtude que constitui um axioma matemático: “sem Ambiente, Universo não existe”; o que se dirá de sua esperada evolução…

Meditar seguidamente é vulcânico, mesmo para os acostumados com a queima intensa das cadeias neuronais. Encerro aqui, a manter a privacidade de minhas meditações.

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[1] Antroposfera, ou esfera do Homem, representa tudo o que é construído pelo sapiens no Ambiente.
[2] Physis é tudo o que forma o Ambiente, à exceção do que for construído pelo sapiens. O mesmo que natureza primordial, entendida através de suas esferas vitais: atmosfera, litosfera, hidrosfera, criosfera, biosfera e pelas relações que mantém entre si na ecosfera terráquea.

Furo privilegiado


Ricardo Kohn, Aprendiz de Filósofo.

Furo privilegiadoFuro’ é um vocábulo complexo, com vários sentidos e diversos efeitos provenientes de seu uso, tanto na palavra escrita, quanto na falada. Creio que o furo mais comum se refere à abertura feita por alguém com o uso de ferramenta pontiaguda: furo, sinônimo de buraco, orifício ou rombo. Destarte, este substantivo possui verbos associados – furar, emburacar e arrombar –, mas que não são sinônimos obrigatórios. Sim, por que o ato de furar um tecido com agulha é diverso do de arrombar uma muralha com um possante aríete. Por sua vez, emburacar significa meter-se num buraco ou sofrer grandes prejuízos, algo como ter um ‘furo privilegiado’ na conta bancária.

Além disso, há os ‘furos‘ gerados aleatoriamente pela natureza primordial, sem necessidade da atuação do sapiens. Por exemplo, vejo o tronco de uma árvore antiga, tombado no solo da floresta, a apresentar vários furos, causados pela oxidação da matéria orgânica; vejo também furos no topo de montanhas do mundo, as chamadas ‘crateras de vulcão’. Afinal, pela lógica, não parece haver dúvida que toda cratera é um ‘furo primordial’.

Furo’ também se encontra na imprensa, pois existe o ‘furo de notícias’: aquele que é dado em primeira-mão por algum repórter, às vezes a tratar a língua portuguesa de forma bizarra. Na ânsia de ser ‘o primeiro a dar o furo’, fica nervoso e, sem cerimônia, noticia a pessoa que ‘entrou para dentro’, a coisa que ‘subiu para cima’ e até a ‘nebulosidade no céu’ – queria que as nuvens estivessem aonde?!

Enfim, estes eventos são oferecidos diariamente pelos noticiários apedeutas a que, por falta de alternativa, estamos condenados a assistir. Afinal, há um tema em julgamento pela Alta Corte, que poderá proporcionar a extinção do indecente ‘foro privilegiado’. Isto alimenta duas tênues esperanças nacionais:

  • Que os políticos ladrões sejam julgados e presos com rapidez;
  • Que a nação brasileira não sofra efeitos nefastos em seufuro privilegiado’.

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O desmanche da inteligência


Ricardo Kohn, Aprendiz de Filósofo.

Desde há cerca de 12 milênios, para construir seu habitat[1] o sapiens arcaico precisou integrar habilidades de comunicação, cognição, razão e lógica, as quais constituíam sua sapiência. A partir destas aptidões conseguiu erguer choupanas, a imitar as “construções” aleatórias do ambiente, realizadas ao acaso por forças de sua natureza primordial. Ou seja, não tinha ciência do que fazia, mas precisava de proteção para garantir a existência da própria espécie. Com o crescimento de sua população, ajuntamentos de choupanas – singelas obras de barro e palha –, tornaram-se megacidades, construídas de aço, concreto, vidro e asfalto, por assim dizer.

Vista aérea de Dubai

Vista aérea de Dubai

Mas há uma questão que este cenário encerra: ─ “O que foi necessário fazer para que povoações de choupanas se transformassem em megacidades”?

Creio haver sido a inteligência do sapiens dedicada a projetos de engenharia, a qual sequer existia a 12 mil anos atrás. As choupanas eram construídas pelo instinto da sobrevivência, não graças à criatividade de desenhos. No entanto, mais tarde, cidades como Dubai e Abu Dhabi foram construídas[2] em observância aos preceitos de seus projetos urbanístico e arquitetônico. É razoável inferir que a antroposfera somente atende a finalidades práticas caso haja sido imaginada e projetada, dado que na ausência dos imprescindíveis estudos e projetos não há construção capaz de atender às demandas do sapiens moderno. Assim, verifico que estudos e projetos são a inteligência da construção. Sem eles, edificações racham e desabam ou, como sabemos, nunca terminam de ser construídas. Por isso existem no mundo milhões de empresas de projeto (consultoras) e de obras (construtoras). Elas se complementam nas habilidades requeridas para atender às exigências do sapiens, muitas vezes devastadoras.

Porém, nas duas últimas décadas, em grandes centros urbanos brasileiros – destaco Rio de Janeiro e São Paulo –, todos assistimos à quase extinção das tradicionais empresas de consultoria, aquelas que elaboravam projetos de engenharia e estudos do ambiente. Por outro lado, foi neste período, iniciado a partir de 2003, que ocorreu um expressivo crescimento de certas construtoras, não mais que meia dúzia; ainda que haja milhares delas espalhadas pelo país.

De fato, apenas seis empreiteiras dominaram o mercado sul-americano da construção civil. Às pressas, elas rabiscavam “anteprojetos sumários” dentro de seus próprios canteiros de obras – na linguagem popular, “projetos feitos nas coxas”. Enquanto isso, milhares de toneladas de suas ferramentas de devastação – tratores, correntões e máquinas de terraplenagem – moldavam os terrenos de forma temerária. O ambiente sofreu barbaridades com estas construtoras, que o devoraram de forma agressiva; a importância de estudos e projetos foi ignorada. Tarefas específicas às feições de cada terreno não foram definidas. Na verdade , os terrenos foram devastados para receber equipamentos elétricos e petrolíferos implantados. Não havia qualquer motivo para realizar essas obras, a exceção de socializar a corrupção. A grande criação do famoso estadista, futuro presidiário.

Na ausência de projetos executivos, seus orçamentos foram várias vezes revistos para cima; chegaram a decuplicar os valores iniciais aprovados. Cito três obras desta sórdida engrenagem: (i) Complexo Petroquímico, Rio de Janeiro; (ii) Usina Hidrelétrica Belo Monte, Pará; e (iii) Refinaria Abreu Lima, Pernambuco. Pasmem, as do Complexo Petroquímico e da Refinaria ainda não estão concluídas[3]. Administrada por quadrilhas organizadas de corruptos, a estatal que as contratou quase foi à garra. Isto por que, durante mais de uma década, extorquiram-na em bilhões de dólares.

Como observei, “estudos e projetos são a inteligência da construção”. As legítimas empresas de consultoria ofereciam inteligência e economia para as obras que projetavam. Mas, na falta delas, uma classe de “novas consultoras” foi aperfeiçoada no Brasil. É possível traçar o perfil sumário de seus proprietários: (i) ocupam altos cargos públicos; (ii) possuem empresas que dizem ser “de consultoria”; (iii) não precisam possuir escritório[4]; (iv) resumem-se em telefones celulares e “sofisticadas listas de contatos” – diretores de estatais, fundos de pensão e bancos públicos; (v) não necessitam de funcionários, basta o consultor-chefe; em síntese, (vi) essas “novas consultoras” têm a missão de “usar espertezas[5] para aumentar o preço das obras de interesse dos consultores-chefe”.

Foram muitas as consultoras comandadas por um “corrupto ativo provido com diversos celulares”. Assim criaram o mercado das espertezas, para onde seguiram grupos especializados na lavagem de dinheiro e na criação de empresas-fantasmas, dentre outras que demonstraram a impressionante organização da canalhada. Vale dizer, o PIB da Corrupção cresceu de maneira formidável! Nossa desgraça é que se deu às custas da falência do Tesouro e do desmanche da inteligência nacional. Não será fácil recupera-los, porém, não nos esqueçamos que em breve teremos eleições gerais.

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[1] Neste caso, habitat ou antroposfera constituem o espaço construído pelo sapiens.
[2] Não entro no mérito dos locais de implantação destas duas cidades, nem nas ameaças que sofrem em decorrência de suas situações geográficas. Porém, é certo que um movimento de placas tectônicas ou um esperneio do mar [tsunami] pode destruir a ambas, em questão de minutos. Que o acaso as proteja!
[3] Sugiro aos interessados que pesquisem na internet o estágio em que hoje estas obras se encontram.
[4] Há um caso do “consultor’ que prestou serviços trancado em cela de prisão. Por óbvio, foi remunerado pelos préstimos que alcançou.
[5] Sinônimo de “vigarice”, inverso da “inteligência”.

Microesculturas da Natureza


Ricardo Kohn, Aprendiz de Filósofo.

O fotógrafo londrino, Levon Biss, dedicava-se a produzir campanhas publicitárias de notórios ícones de sua geração. Após 18 anos dedicados a este gênero de fotos, sentiu a repetitividade das tarefas. Percebeu que suas fotos não mais lhe traziam prazer profissional; tinham a função de serem descartáveis. Até que um dia Sebastian, seu filho, lhe entregou um pequeno besouro que achara no jardim. Após examiná-lo em um microscópio, Levon fez diversos registros e verificou que, com lentes e iluminação adequadas, era possível ver detalhes de um inseto de 5 mm. Assim, teve início o “Projeto Microesculturas”.

Fez fotos de outros insetos e contatou a “Oxford University Museum of Natural History”, onde há uma bela coleção de espécimes da entomofauna mundial. O museu, ao ver a qualidade do trabalho fotográfico, permitiu que Levon registrasse 37 dos seus insetos. Após quase três anos de trabalho, estavam prontos e impressos a fotos dos pequenos animais. Todavia, em placas indoors de 2 a 3 metros de altura.

Scarab

Escaravelho – Amazoniam Purple Warrior

Este material já foi exposto em diversos países – Suíça, Dinamarca, Alemanha, Canadá, Itália, União dos Estados Árabes e Inglaterra, entre outros. O sucesso tem sido notável, em especial para os mais jovens, curiosos pela natureza primordial.

Para ter ideia do que foi necessário fazer, explorem o site de Levon: Microsculpture – The Insect Portraits of Levon Biss. Ele é dinâmico, as imagens dos 37 insetos se alternam na primeira página. Sugiro que iniciem pela palestra que Levon fez no TED Talk, Canadá. Depois, vislumbrem cada inseto da coleção, com o nível de zoom que desejarem. Por fim, assistam ao vídeo que consta na primeira página do site. Mostra o processo de produção dos espetaculares indoors.

Orchid Cuckoo BeeAbelha – Orchid Cuckoo

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A ansiedade das expectativas


Ricardo Kohn, Aprendiz de Filósofo.

Angústia não é ansiedade, mas promessa de variadas doenças somáticas, por vezes, graves. Ansiedade, de fato, reside na esperança de que certas coisas ocorram, de acordo com as expectativas. Todavia, ansiedades intensas, não raro, transformam-se em angústias, fruto do medo associado ao desespero. Há que se ter atenção, pois seres humanos (os ditos sapiens) sempre são acometidos por ansiedades e, muita vez, angústias. Sim, angústia, aquela sádica senhora que devasta expectativas.

Em síntese, a roda de amigos de que participo – todos ao derredor dos 70 anos – comporta-se da seguinte maneira: alguns ainda criam novas expectativas; outros não veem este cenário como fator de perigo; porém, há dois angustiados. De toda forma, salvo raras exceções, temos vontade de deixar a cidade do Rio, dado que se tornou campeã em tiroteios, latrocínios, tráfico de drogas, distribuição de propina e desemprego em massa. A antroposfera do Rio constitui a amostra perfeita do Brasil Século XXI. A antiga capital do país não se inibe ao multiplicar os crimes tramados em Brasília, a soberana capital mundial da corrupção pública. A ser assim, sobrevém uma questão: ─ “O que um grupo de amigos pode fazer diante desta tragédia”?

Por mais difícil que seja, defendo que nosso grupo não deverá ceder aos riscos da falta de expectativas. Ao contrário, precisa tornar o medo causado por esta tragédia em projetos de sobrevida, com metas de curto prazo, inadiáveis. Afinal, quais de nós serão sadios após os 80 ou, ainda, quantos alcançarão esta idade?

De volta ao Rio – a dita “cidade maravilhosa, cheia de encantos mil”. Todos sabemos que o Estado do Rio se transformou em prostíbulo público, reino da insaciável quadrilha de corruptos que o comanda, há quase duas décadas. Já subtraíram dos cofres públicos cerca de R$ 280 bilhões, mas a justiça brasileira, salvo raras exceções, não consegue manter estes ladrões atrás das grades.

Vitória da corrupção: Rio, cidade-sede dos Jogos Olímpicos 2016

A euforia da corrupção: Rio, cidade-sede dos Jogos Olímpicos 2016!

Diante deste quadro estarrecedor, minha família passou a refletir sobre alternativas de vida para os anos que nos restam. Em todas as ponderações que fizemos, a premissa básica foi a mesma: abandonarmos a cidade do Rio. Escolhemos a região Sul como destino, mas não queremos residir em capitais. Nossas expectativas apontam para cidades pequenas, com custo de vida reduzido, mas que possuam cultura de origem europeia.

Pretendemos oferecer projetos essenciais, que coevoluam com a qualidade do ambiente regional, bem assim com o espectro da coletividade da qual desejamos participar ativamente; tal como fizemos nas cidades em que já vivemos. Afinal, somos empreendedores, sem receio de corrermos riscos produtivos. Infelizmente, no entanto, temos a tristeza de assistir ao caos instalado no Rio, uma obra deletéria de ordinários corruptos, totalmente adversa à ótica da filosofia naturalista que professamos.

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