O desmanche da inteligência


Ricardo Kohn, Aprendiz de Filósofo.

Desde há cerca de 12 milênios, para construir seu habitat[1] o sapiens arcaico precisou integrar habilidades de comunicação, cognição, razão e lógica, as quais constituíam sua sapiência. A partir destas aptidões conseguiu erguer choupanas, a imitar as “construções” aleatórias do ambiente, realizadas ao acaso por forças de sua natureza primordial. Ou seja, não tinha ciência do que fazia, mas precisava de proteção para garantir a existência da própria espécie. Com o crescimento de sua população, ajuntamentos de choupanas – singelas obras de barro e palha –, tornaram-se megacidades, construídas de aço, concreto, vidro e asfalto, por assim dizer.

Vista aérea de Dubai

Vista aérea de Dubai

Mas há uma questão que este cenário encerra: ─ “O que foi necessário fazer para que povoações de choupanas se transformassem em megacidades”?

Creio haver sido a inteligência do sapiens dedicada a projetos de engenharia, a qual sequer existia a 12 mil anos atrás. As choupanas eram construídas pelo instinto da sobrevivência, não graças à criatividade de desenhos. No entanto, mais tarde, cidades como Dubai e Abu Dhabi foram construídas[2] em observância aos preceitos de seus projetos urbanístico e arquitetônico. É razoável inferir que a antroposfera somente atende a finalidades práticas caso haja sido imaginada e projetada, dado que na ausência dos imprescindíveis estudos e projetos não há construção capaz de atender às demandas do sapiens moderno. Assim, verifico que estudos e projetos são a inteligência da construção. Sem eles, edificações racham e desabam ou, como sabemos, nunca terminam de ser construídas. Por isso existem no mundo milhões de empresas de projeto (consultoras) e de obras (construtoras). Elas se complementam nas habilidades requeridas para atender às exigências do sapiens, muitas vezes devastadoras.

Porém, nas duas últimas décadas, em grandes centros urbanos brasileiros – destaco Rio de Janeiro e São Paulo –, todos assistimos à quase extinção das tradicionais empresas de consultoria, aquelas que elaboravam projetos de engenharia e estudos do ambiente. Por outro lado, foi neste período, iniciado a partir de 2003, que ocorreu um expressivo crescimento de certas construtoras, não mais que meia dúzia; ainda que haja milhares delas espalhadas pelo país.

De fato, apenas seis empreiteiras dominaram o mercado sul-americano da construção civil. Às pressas, elas rabiscavam “anteprojetos sumários” dentro de seus próprios canteiros de obras – na linguagem popular, “projetos feitos nas coxas”. Enquanto isso, milhares de toneladas de suas ferramentas de devastação – tratores, correntões e máquinas de terraplenagem – moldavam os terrenos de forma temerária. O ambiente sofreu barbaridades com estas construtoras, que o devoraram de forma agressiva; a importância de estudos e projetos foi ignorada. Tarefas específicas às feições de cada terreno não foram definidas. Na verdade , os terrenos foram devastados para receber equipamentos elétricos e petrolíferos implantados. Não havia qualquer motivo para realizar essas obras, a exceção de socializar a corrupção. A grande criação do famoso estadista, futuro presidiário.

Na ausência de projetos executivos, seus orçamentos foram várias vezes revistos para cima; chegaram a decuplicar os valores iniciais aprovados. Cito três obras desta sórdida engrenagem: (i) Complexo Petroquímico, Rio de Janeiro; (ii) Usina Hidrelétrica Belo Monte, Pará; e (iii) Refinaria Abreu Lima, Pernambuco. Pasmem, as do Complexo Petroquímico e da Refinaria ainda não estão concluídas[3]. Administrada por quadrilhas organizadas de corruptos, a estatal que as contratou quase foi à garra. Isto por que, durante mais de uma década, extorquiram-na em bilhões de dólares.

Como observei, “estudos e projetos são a inteligência da construção”. As legítimas empresas de consultoria ofereciam inteligência e economia para as obras que projetavam. Mas, na falta delas, uma classe de “novas consultoras” foi aperfeiçoada no Brasil. É possível traçar o perfil sumário de seus proprietários: (i) ocupam altos cargos públicos; (ii) possuem empresas que dizem ser “de consultoria”; (iii) não precisam possuir escritório[4]; (iv) resumem-se em telefones celulares e “sofisticadas listas de contatos” – diretores de estatais, fundos de pensão e bancos públicos; (v) não necessitam de funcionários, basta o consultor-chefe; em síntese, (vi) essas “novas consultoras” têm a missão de “usar espertezas[5] para aumentar o preço das obras de interesse dos consultores-chefe”.

Foram muitas as consultoras comandadas por um “corrupto ativo provido com diversos celulares”. Assim criaram o mercado das espertezas, para onde seguiram grupos especializados na lavagem de dinheiro e na criação de empresas-fantasmas, dentre outras que demonstraram a impressionante organização da canalhada. Vale dizer, o PIB da Corrupção cresceu de maneira formidável! Nossa desgraça é que se deu às custas da falência do Tesouro e do desmanche da inteligência nacional. Não será fácil recupera-los, porém, não nos esqueçamos que em breve teremos eleições gerais.

_________
Adquira o e-book “PRINCÍPIOS DA FILOSOFIA DO AMBIENTE – Como o Ambiente vê o Sapiens“.
__________

[1] Neste caso, habitat ou antroposfera constituem o espaço construído pelo sapiens.
[2] Não entro no mérito dos locais de implantação destas duas cidades, nem nas ameaças que sofrem em decorrência de suas situações geográficas. Porém, é certo que um movimento de placas tectônicas ou um esperneio do mar [tsunami] pode destruir a ambas, em questão de minutos. Que o acaso as proteja!
[3] Sugiro aos interessados que pesquisem na internet o estágio em que hoje estas obras se encontram.
[4] Há um caso do “consultor’ que prestou serviços trancado em cela de prisão. Por óbvio, foi remunerado pelos préstimos que alcançou.
[5] Sinônimo de “vigarice”, inverso da “inteligência”.