A Antroposfera devora o Ambiente


Ricardo Kohn[1], Aprendiz de Filósofo.

A fauna silvestre adapta-se ao ambiente e nele evolui há bilhões de anos, sem altera-lo. Há, como esperado, uma relação de cooperação factual entre ambos. Dessa forma, o ambiente é um dado do problema para a existência de todas as espécies silvestres da fauna. Seus habitats são feitos sem consumo de bens primordiais[2], livres de impactos adversos sobre a physis[3]. Enfim, a fauna silvestre mimetiza-se com o ambiente, imita-o para conserva-lo, a permitir que o ciclo de suas espécies prossiga no curso espontâneo da existência.

O sapiens moderno, no entanto, faz justamente o contrário. Devasta o ambiente, impacta sua physis, para depois ocupa-lo. Por meio de máquinas baseadas em tecnologia ditas de ponta, deforma-o para a satisfação de suas necessidades exóticas. Tudo isso para possuir a bela vista que descortina ao longe no horizonte, a valorizar a residência na qual passa suas férias. Nesse ímpeto arbitrário, quase despótico, o sapiens dominante acredita que sua antroposfera[4] é dona absoluta da physis do planeta e, assim, pode dispor de seus bens primordiais da forma que desejar. Afinal, na visão dominante, tratam-se de simples matérias-primas.

Antroposfera devoradora

A prova cabal que a antroposfera devora o ambiente, célere e sistematicamente!

Não detalho os contrastes entre a inteligência silvestre da fauna e a extravagante inteligência do sapiens dominante. Deixo a cargo do leitor refletir acerca das consequências lógicas dessa discrepância de atitudes e condutas.

Porém, o crescimento da antroposfera constitui um processo incontrolável, graças às ficções do sapiens, criadas durante milênios. Mercado, moeda, comércio e patrimônio são as que hoje detém maior influência na construção da antroposfera. A acumulação de riquezas tornou-se o único vetor que mobiliza o sapiens dominante. Aliás, enquanto houver bens primordiais que possa explorar, sua ganância não cederá. Seu único limite é o tamanho do ambiente disponível para ser ocupado.

Sobre isso, sabe-se que a superfície do ambiente terráqueo é da ordem de 510 milhões de km2, dos quais cerca de 70% são recobertos por água e 30%, por solo. Em outras palavras, o sapiens dispõe, em tese, de 153 milhões de km2 para ocupar com sua antroposfera. Contudo, o ambiente estima que, dadas as exigências oportunistas do sapiens dominante – conforto e segurança para seu mercado –, apenas 50% da superfície terrestre estaria disponível para ele, ou seja, algo como 76,5 milhões de km2, a equivaler, aproximadamente, a 15% do ambiente terráqueo.

Porém, todos os sapiens dominantes e raros – ainda precisam superar restrições para ocupar o solo terráqueo, tais como:

  • Áreas desertificadas;
  • Áreas montanhosas escarpadas e com grande altitude;
  • Espaços rochosos recobertos por densas florestas de monção, sem acesso para suas máquinas de desflorestamento.

Nesse cenário, o ambiente pondera que resta ao sapiens somente 1/8 da superfície terráquea que ele antes acreditava estar disponível – 63,75 milhões de km2. Parece ser muito, porém, para acolher 7,5 bilhões de sapiens excêntricos, esta superfície representa nada. Sobretudo, se o ambiente estiver correto, quando observa que 90% dos dominantes habitam áreas da sua antroposfera, onde inventou mercado, comércio, moeda e patrimônio. Em suma, sinto-me obrigado a apostar que a criatura [sapiens] acredita dominar seu criador [ambiente]. Em outras palavras, a antroposfera devasta e devora o ambiente.

_________
Adquira o e-book “PRINCÍPIOS DA FILOSOFIA DO AMBIENTE – Como o Ambiente vê o Sapiens“.

_______

[1] Baseado no ensaio “Princípios da Filosofia do Ambiente”.
[2] Bens primordiais são os fatores básicos que se relacionam aleatoriamente para compor todos os ecossistemas do ambiente terráqueo: ar, água, solo, flora e fauna.
[3] A physis é tudo o que existe no ambiente, à exceção do que seja construído pelo homem”. Alguns filósofos naturalistas da Grécia Antiga a usavam em sua retórica. Deduzo que se referiam aos espaços físico e biótico do ambiente, a comportar sua dinâmica aleatória, função da necessidade e acaso.
[4] Assim como hidrosfera constitui a “esfera das águas”; biosfera, a “esfera da vida“; a antroposfera  é a “esfera dos homens e suas atividades”, onde são gerados estados, nações, cidades, moradias, escolas, indústrias, estradas, ruas, sistemas de esgotos, lixo e infraestrutura em geral.