Alienígenas à solta


Ricardo Kohn, escritor.

E, por fim, foi comprovado: os alienígenas realmente existem e vivem no Brasil, instalados de norte a sul do país. Ao que se sabe, existem milhares deles à solta, a trafegar na escuridão com propósitos inconfessáveis, diria Hitchcock.

Segundo informe de um agente especial da inteligência britânica, Mr. Ian Weaver, a Scotland Yard, com suporte norte-americano – NSA, CIA e FBI –, montou uma força-tarefa dedicada a traçar o perfil nebuloso desses aliens e realizar ações higienizadoras. O pouco que me foi dito é fruto de árdua investigação, altamente confidencial, em curso há quase quinze anos.

Conversei com o agente Weaver no The World’s End, Hight Street, Edimburg. Isso esclarece os relatos que recebi: escoceses não se dão bem com ingleses. Sobretudo, após a 10ª dose de single malt, quando ingleses são vistos como inimigos figadais.

The World’s End – Histórico Pub Escocês

The World’s End – Histórico Pub Escocês

Comíamos saladas e carnes para guarnecer o estômago. Porém, em dado momento Weaver levantou-se e seguiu em direção ao banheiro. Ao retornar ouvi sua voz exaltada:
─ “Fuck The Scotland Yard! I’m not a boy scout!

Fiquei apreensivo, pois Ian Weaver é um ruivo com quase 2 metros de altura e pesa 120 quilos, sem gorduras. Porém, recuperado pela água gelada que jogara no rosto, falou sobriamente acerca das descobertas da força-tarefa: os principais traços do perfil ameaçador dos aliens do presente, que buscam ocupar e derrotar a nação brasileira. Fez uma espécie de taxonomia dos alienígenas à solta, a qual partilho com os leitores.

1. Aparência física: os aliens são feitos de pasta mole, de massa imoral de modelar. Assumem a fisionomia que mais lhes convier no momento, desde um juiz da alta corte, passando por molusco ordinário, até chegar a ladrão de galinhas ou mesmo a uma vagabunda brejeira.

2. Comunicação: em tese, os aliens são capazes de aprender todos os idiomas falados no planeta. No entanto, são precários na sintaxe e, sobretudo, na conexão lógica entre as frases. Assim, na comunicação com terceiros, sempre resultam parágrafos sem sentido, talvez pela possível redução de seus neurônios no ambiente da Terra.

3. Habitat: tudo indica que os aliens são capazes de viver em qualquer tipo de comunidade, em especial aquelas que possuam proximidade com as vítimas que estão selecionadas: pessoas, setor privado, empresas estatais e inúmeras instituições públicas. Weaver disse ser normal que possuam vários habitats no país. Contudo, o preferencial é Brasília.

4. Alimentação: os alimentos dos aliens são variados. Depende da aparência que assumirem no momento. Por exemplo, no mesmo dia, podem almoçar em um restaurante de luxo com políticos e empresários. Mais tarde, jantar na favela, pela “amizade de negócios” que estabeleceram com o chefe do tráfico.

No entanto, pelas experiências de laboratório feitas em aliens capturados, há pelo menos dois traços comuns a todos: (i) quando roubam grandes quantias de dinheiro público, ficam enfastiados e não necessitam de mais alimentos; e (ii) quando canibalizam seres humanos, tanto física, quanto monetariamente.

5. Reprodução: os aliens machos evitam acasalar com as fêmeas da sua espécie. O motivo é simples. Após a cópula, elas normalmente os devoram. Dessa forma, adaptaram-se para acasalar com fêmeas humanas. Segundo Weaver, tudo leva a crer que, durante a cópula, eles transmitem sua psicopatia aos filhotes humanos produzidos. Chamam a isso de “força do amor filial”. Não se sabe ainda a causa dessa transmissão, se é genética ou fruto da manipulação mental.

6. Interesse: em suma, o interesse original dos aliens é tomar o país de assalto. Todavia, como não possuem exército, buscam a conquista por meio da falência do Estado. Tentam quebrar as principais empresas estatais. Desviam dinheiro público, pagam propina aos companheiros e enriquecem a si próprios.

A propósito, o agente Ian Weaver tem uma tese que me pareceu possível:
─ “Eles roubam para implantar aDitadura Alienígena do Proletariadono Brasil”.

7. Vícios: mesmo com todas as cruéis habilidades que praticam nos brasileiros, os aliens não são perfeitos em suas ações imorais. Quero crer que no planeta desconhecido de onde provém, não existem bebidas como cerveja e cachaça. Pois bem, o agente especial disse-me que, a começar pelo “Comandante dos Alienistas” (o molusco ordinário), 90% deles viciou-se nessas bebidas. Muitos, sem carro e motorista, colapsam pelas sarjetas.

Segundo o agente Weaver, o gerente da força-tarefa obteve informes que retratavam uma situação patética: o assassinato sumário de um alien municipal por uma quadrilha de aliens federais, que se considerara roubada. Houve temor que essa prática se tornasse um vício, tal a cachaça. Muito embora haja ocorrido outros assassinatos políticos, em situações bizarras de fogo-amigo, o gerente decidiu não levar as investigações adiante.

O agente especial narrou outros vícios menores dos alienígenas. Mas disse-me que, por serem menos insidiosos – aliens malhando a mulher de outros aliens; aliens cuspidores; aliens pederastas; aliens predadores –, foram arquivados para eventuais investigações.

Despedi-me de Ian Weaver e deixei o pub – The World’s End – rumo ao aeroporto. Durante o voo de retorno ao Rio, integrei todas as anotações que fizera de nossa conversa. Fiquei circunspecto por dois motivos:

Como um investigador escocês sabe tanto acerca do Brasil, no século 21?
Acho de passei a crer nos alienígenas à solta!

Um pensamento sobre “Alienígenas à solta

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