Já se passaram 56 anos…


Ricardo Kohn, Escritor.

Morava no Rio, em Santa Teresa, mas cursava o 1º ano científico no Liceu Franco-Brasileiro, no bairro de Laranjeiras. No fim do ano de 1962, por volta da uma da tarde, peguei um bonde lotado na Estação da Carioca, no centro do Rio. Era sábado (tínhamos aulas aos sábados) e fora convidado para assistir a uma audição de piano. Uma das futuras pianistas era minha namorada; não queria me atrasar.

Lembro-me que o motorneiro já avisara estar prestes a sair da estação, a tilintar o sino do bonde. Assim, subi no estribo esquerdo do reboque, fora do caminho de cobradores.

O antigo bonde de Santa Teresa, com carro elétrico e reboque

O antigo bonde de Santa Teresa, com carro elétrico e reboque

De fato, nunca ficava no caminho deles. Perambulavam pelo estribo, a cobrar cada passageiro, com as mãos coalhadas de notas velhas e sebosas, presas entre os dedos para dar trocos.

Embora a maioria dos cobradores fosse boa gente, havia os que tentavam se roçar em jovens do estribo. Por isso, sempre viajava no lado esquerdo, mesmo quando sentava em um banco do reboque.

Logo no início da viagem, para entrar no bairro o motorneiro tinha que trafegar sobre os Arcos da Lapa. O vento na face era gostoso. Sobretudo, para os que viajavam no estribo e não sentiam receio da altura. Naquela máquina de ferros sobre trilhos, sacolejava-se sobre ruas, carros e o telhado de casarões antigos, a quase 20 metros de altura do solo.

Para os mais jovens éramos heróis dos bondes de Santa Teresa; para adultos, apenas idiotas.

O acidente

Finda a travessia do aqueduto da Lapa, estava-se em Santa Teresa, no início da rua Joaquim Murtinho. Os motorneiros giravam o manete de cobre para acelerar o comboio e subir até a Estação do Curvelo.

Naquele dia – 7 de novembro de 1962 – eu estava distraído, pendurado no estribo a brincar com uma criança risonha no colo de sua avó. Foi assim que, na primeira curva da Joaquim Murtinho, meu corpo projetou-se para fora do reboque; fiquei exposto numa via de mão dupla. Um outro bonde que descia a rua bateu em minha cabeça, arrancando-me de tudo. Caí entre os dois pares de trilhos de ferro e a luz se apagou

Três dias depois acordei sem saber em que ambiente me encontrava: deitado numa cama de hospital, com mais de 160 pontos na cabeça. Não quebrei ossos, mas aprendi que nunca fora um herói