O risco de dar cursos e palestras


Treinar no Setor Ambiental

Por Ricardo Kohn[1].

Cursos intensivos (de até 72 horas) e palestras de curta duração (1 hora) são processos complexos para serem realizados a contento. Satisfazer aos participantes (alunos) e à empresa promotora do evento não é tarefa simples.

Este artigo tem por finalidade analisar algumas variáveis que devem ser observadas pelo profissional convidado a dar um curso intensivo ou fazer uma palestra. Toma-se como base para análise o setor ambiental brasileiro.

Curso bem ministrado, sala de aula cheia

Infraestrutura de ensino correta, curso bem ministrado: sala de aula cheia e atenta

1. Definição do escopo

O mercado de treinamento oferece duas alternativas normais: o escopo do treinamento é definido pelo contratante do evento; ou o profissional de ensino estabelece o roteiro de sua fala. Não há dúvida, caso defina o escopo da “conversa saudável” que irá manter com o grupo, poderá criar empatia ao apresentar seu conhecimento.

E o motivo é nítido: ao estabelecer o conteúdo da apresentação, o profissional determina também a profundidade das abordagens que fará. Afinal, precisa deixar tempo para responder a questões, solucionar normais debates e esclarecer dúvidas remanescentes.

2. Foco objetivo

Sejam cursos ou palestras, se a finalidade é o ensino ou, diga-se, o despertar de mentes, o “professor” precisa ser focado no tema principal. Claro que pode fazer digressões, notas de rodapé ao conteúdo essencial. Sempre curtas e estimulantes.

Acredita-se que deva criar metáforas e até mesmo provocar risos de seu público. Assim constrói a empatia mútua e o interesse pelo conhecimento, além de facilitar a memorização dos que o assistem.

3. Técnico-científico ou legislação

Certa vez, alguém afirmou: “defina-se, ou Lei ou Ciência do Ambiente. As duas são incapazes de conviverem no Brasil”!

Em todos os países com sistema educacional sério, qualquer evento de treinamento para o setor ambiental possui cunho técnico-científico. E a causa é óbvia: nesses países a legislação é elaborada a partir do estado-da-arte das ciências de referência.

A ser assim, os treinamentos são mais produtivos, pois os profissionais aprendizes focam-se nas teorias, metodologias e exemplos práticos que recebem. Dessa forma, aprendem a dominar as práticas da Gestão do Ambiente.

Em nosso país, todavia, faz-se o inverso. A legislação, impositiva e burra, tem a pretensão de dizer como funcionam as ciências ambientais. Basta ler na maioria das ementas de cursos oferecidos ao mercado. Dão ênfase particular aos requisitos legais, associados aos temas do conhecimento que deveriam transferir aos alunos. Falam muito do “juridiquês ambiental” e propõem pouco para as ciências práticas que explicam o ambiente.

Toma-se o exemplo do caso mais simples: um curso com 16 h de duração sobre a operação que, no passado, era trivial: como obter licenças ambientais. Hoje, os diplomas legais afins a esse processo são tantos, provindos de inúmeras instituições públicas, que, em 16 horas, um “professor honesto” somente falará sobre as disparidades, controvérsias e conflitos criados pela lei vigente.

Ou seja, não restará tempo para transmitir aos alunos o essencial: o que e como fazer para obter as licenças necessárias. Será impossível detalhar como são elaborados e geridos os estudos ambientais, os processos de auditoria interna e um eventual levantamento de passivos ambientais; como programar e gerir audiências públicas, acompanhar as sofridas auditorias públicas e participar de inspeções ambientais feitas in loco, por “peritos públicos”.

Enfim, pode-se afirmar que, ao contrário, é possível realizar operações ambientais realmente simplificadas, sem perder a qualidade de seus resultados. Operações que, para reduzir custos cada vez mais elevados, podem ter um padrão teórico factível, a despeito do amontoado de normas legais que castram a criatividade.

4. Expectativa dos alunos

Em tese, a motivação para participar de um curso caro ou de um seminário de palestras – caríssimo – é conhecer técnicas modernas, aplicáveis ao trabalho diário. Os alunos são profissionais formados, que desejam obter meios de melhorar suas atividades produtivas.

No entanto, nem todos têm essa motivação. Há os que desejam saber das leis envolvidas, a interminável burocracia que criam e qual o melhor caminho para superá-la, desde que sem ônus para sua empresa.

Para quem crê em “Coelhinho da Páscoa” e “Papai Noel” existem soluções. Sem dúvida há somente uma: contrate um excelente escritório em direito ambiental, pois seus advogados conhecem bem o “Labirinto do Minotauro”. Mas pode-se adiantar que gastará mais tempo e dinheiro do que elaborar, da forma técnico-científica adequada, todos os estudos ambientais requeridos.

5. Bom para oprofessor

Para a maioria dos brasileiros alfabetizados, quem profere palestras, conferências, dá aula em cursos intensivos ou ministra cadeira em universidade precisa ser professor em alguma área do conhecimento. Isso é mais do que bom, é ótimo!

Outro fato que merece destaque positivo é a cidade em que acontece palestra ou curso intensivo. Após dezenas de experiências nesses eventos, verificou-se que nas capitais do Norte, Nordeste e Centro-oeste o povo é mais receptivo, empático e interessado em aprender.

6. Ruim para oprofessor

Palestras e conferências em geral, têm público com formação diversificada. De toda forma, aquele que não estiver satisfeito, levanta-se, sai e parte para outro rumo. Não há desgaste relevante na imagem do professor que as profere.

Já nos cursos intensivos as consequências podem ser danosas. Basta que a organização que solicita um treinamento – dado que pouco ou nada conhece sobre o tema – detalhe de forma ostensiva o curso em módulos que acredita serem relevantes. Estejam certos, sempre existe um “gênio interno” disposto a especificar seu futuro cursinho particular.

A partir daí a empresa de treinamento – contratada por menor preço – sai à cata de um “mestre” que a ampare. Pobre do professor que aceitar essa encrenca. Nessas condições é quase impossível satisfazer a turma a ser treinada.

Há empresas que tratam o professor de “instrutor”. O fato é que “instrutor” está mais associado ao amestramento de animais domésticos, do que à educação. A ser assim, trata-se de ofensa aos alunos de qualquer curso. Não importa se possuem nível superior ou se são idosos; durante as aulas todos são alunos e, por civilidade, devem receber as narrativas do professor, concordem com elas ou não.

Em cursos fechados (in house) o professor precisa saber o perfil da turma com que trabalhará: formação, setor de trabalho na empresa e tempo de empresa. É temerário dar aulas para turmas com perfis distintos, por vezes conflitantes: projeto de engenharia, gestão do ambiente e gestão de obras, por exemplo. Têm esperanças distintas de aprendizado e os conflitos se sucedem nas costas do professor.

Existem muitos outros aspectos de cursos intensivos que podem prejudicar o professor. Mas, no adiantado da hora, reserva-se apenas mais um: de novo, a cidade em que ocorre o curso. Sem risco de cometer generalizações, nas regiões sudeste e sul, paulistanos e cariocas se destacam na forma de se comportarem em sala de aula:

  • Paulistanos – embora dedicados a entender os conhecimentos do professor, são atentos e rigorosos. Via de regra, são informados acerca dos temas a serem tratados pelo curso. Com educação, interrompem quando não concordam e pedem explicação lógica. Debatem muito, mas são cordiais e têm como objetivo aumentarem seus conhecimentos.
  • Cariocas – são heterogêneos no domínio da informação ambiental; vão além da variação normal. Entretanto, há os bem-informados que auxiliam ao professor. Porém, dentre estes, é comum emergir uma espécie curiosa, que precisa dar demonstrações públicas de ampla “sapiência”. Por serem narcisos, mal-educados e provocadores conseguem prejudicar a fluência do curso. No mais, os cariocas são ótimos, salvo quando sorriem pela frente e, pelas costasmalham o professor.

7. Sugestão

Em vários países do mundo a profissão de palestrante é concorrida e suficiente para manter um bom nível de vida. Bons professores universitários tornam-se palestrantes em algum momento de suas vidas.

No Brasil essa profissão da educação tem relativamente poucos adeptos, talvez por falta de um mercado próprio. Ainda assim, a maioria dos palestrantes de sucesso parece composta por paulistas.

Pois, seja um palestrante! Assuma esse desafio, palestre sobre a Ciência do Ambiente e crie o espaço que ainda falta. Assim, deseja-se que sua palestra seja épica, um tanto misteriosa, mas de sua exclusiva autoria. Sobretudo, que seja motivadora, estimulante para aqueles que vão gostar dos desafios propostos por você, caro Professor.Ricardo Kohn

……….

[1] Ricardo Kohn, Especialista em Gestão, com trinta anos de trabalho dedicado à consultoria em estudos, projetos e práticas ambientais, bem como ao treinamento de analistas e gestores em modelos, metodologias e sistemas para a melhoria do desempenho ambiental das organizações produtivas.

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