Cultura livre ou retorno à caverna


Por Ricardo Kohn, Escritor.

Ricardo KohnCrê-se que o principal desafio da humanidade no século 21 é anular líderes que disseminam o ódio entre as pessoas, através da ação de grupos terroristas que dominam. “Podemos fazer isto juntos”, assim dizia a canção da esperança, we can work it out[1].

Não há por que deitar falação sobre o terrorismo invasor: o dito Estado Islâmico, o grupo Al-Qaeda, o Hamas, o Talibã e outros mais. As atrocidades que cometem em diversos países, a dizimar famílias indefesas e destruir patrimônios históricos, de há muito são sabidas e veiculadas pela imprensa mundial. Resta, porém, uma indagação:

Para onde esses abomináveis seres querem conduzir a Humanidade?

Acredita-se que desejam regredir milênios. Involuir até a época em que caçadores-coletores abandonaram seu hábito nômade e predador para fixaram-se com produção de alimentos, através do próprio trabalho. A sudeste da Turquia, em uma região chamada “Göbekli Tepe”, foram descobertos indícios da primeira área agrícola da história e a consequente fixação humana.

Registro de Göbekli Tepe, com datações de 9 a 12 mil anos passados

Registro de Göbekli Tepe, com datações de 9 a 12 mil anos passados

Ao admitir, com base no trabalho de arqueólogos alemães, que Göbekli Tepe foi o primeiro assentamento do homem, deduz-se que neste local ocorreu o “início da convivência humana”. Conviver é um processo civilizatório, que cria estreitas relações sociais, mútua aceitação entre as pessoas. Assim acreditava a comunidade de Göbekli Tepe, há doze milênios.

Infere-se que a partir dos hábitos adquiridos por essa convivência milenar, provieram todas as culturas hoje existentes. À exceção de uma: a cultura invasora de terroristas abomináveis, que hoje permeia o mundo no século 21, de forma quase global.

Não se tenta explicar as motivações desta cultura traiçoeira. Sabe-se apenas que possui profundas raízes religiosas, além de impor às comunidades vitimadas seus trastes sociais e ideológicos, a impedir que se compreenda qual é sua estratégia de dominação.

E no Brasil…

Por absoluta falta de expressão geopolítica, o Brasil ainda não foi alvo do interesse desses terroristas. Aqui ocorre apenas “a invasão cultural de trastes políticos”. Porém, com resultados éticos e morais não menos desastrosos: aprisionaram o povo e arrasaram com sua economia.

Entretanto, recorda-se que em meados do século 20, a nação brasileira possuía sólida cultura. Na cidade do Rio de Janeiro ficava sua empresa matriz. Nela nasceram a poesia e a música moderna brasileiras. Houve outros criadores, mas João Gilberto, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade e Milton Nascimento – que viveram no Rio ou se lançaram nessa cidade – foram os alicerces da cultura nacional naquele período. Aliás, com cultura livre e consolidada, um povo jamais se deixa oprimir.

Sem entrar no mérito da questão, a partir de 1964 instalou-se a ditadura militar no país. E foi na cidade do Rio que a crítica a esse regime foi mais incisiva. Reação espontânea, pautada pela cultura da liberdade democrática. Mesmo a ser uma crítica com fundo musical, irradiou-se pelo país inteiro.

De início, os universitários não sabiam que, ao saírem para os movimentos de rua do “pós-1964”, carregavam sobre os próprios ombros o peso de oportunistas infiltrados; bandos deles, todos mal-intencionados. De fato, já era o prenúncio da invasora cultura abominável. Não se tornaram terroristas, na acepção atual da palavra. Contudo, os mais pervertidos sentiam-se honrados ao serem reconhecidos como “guerrilheiros urbanos”.

Mais tarde, universitários, músicos, poetas e atores, todos mais sensatos, abandonaram essa modalidade de crítica, própria da cultura libertária. Nas ruas ficaram os desavisados, além dos apátridas, guerrilheiros urbanos. Formavam grupos pequenos, sem expressão.

Ao sentirem-se “traídos” pelas circunstâncias, mudaram a tática. Passaram a roubar bancos, sequestrar embaixadores e executar cidadãos. Diziam ser os condutores dos destinos da nação, os fazedores da revolução. Na verdade, foi a primeira demonstração explícita da cultura invasora de guerrilheiros, com ações hostis, carregadas de terror.

Notórios analistas políticos acreditam que a ditadura militar teria durado menos tempo, não fossem as ameaças desses guerrilheiros, que, segundo entrevista de Fernando Gabeira[2], queriam implantar a “ditadura do proletariado” no país. Essa análise parece ser bem razoável.

De fato, após 21 anos de ditadura militar, a cultura libertária carioca arrefeceu. A rebeldia dos poetas e músicos foi abrandada. Certos atores deixaram o país, alguns ficaram idosos, outros faleceram, e ainda há os que optaram pela conivência, em troca de dinheiro público. Não aconteceu a tão esperada reposição dos valores culturais. Por fim, de forma meritória, São Paulo tornou-se a capital cultural do Brasil. Assim se mantêm, a exportar cultura liberal e democrática para toda a América Latina.

Porém, sem dúvida, os governos Sarney e Collor foram o fecho de ouro do período ditatorial. Esses dignos crápulas endossaram a corrupção pública e derrotaram a economia nacional. Nesse período teve início “a invasão cultural de trastes políticos”. Mas foi interrompida durante o governo Itamar Franco, com o processo de criação do Plano Real, que se tornou a salvação do país, então à beira da banca rota, após a passagem dos “anjos” Sarney e Collor.

Coube à governança de Fernando Henrique Cardoso implantar o Real e ajustá-lo à realidade do comércio entre as nações. Ao fim do mandato, Cardoso e sua equipe concluíram que estavam diante de um grave impasse: ou aprovavam a reeleição presidencial ou o Real correria o risco de ser destruído por lixos políticos. Por óbvio, optaram pela reeleição. Ao fim, lograram deixar para o Estado Brasileiro vários legados republicanos, dentre eles a moeda forte, a credibilidade internacional e as instituições que as sustentavam.

Hoje, após 12 anos de violência da “cultura invasora de trastes políticos”, o país encontra-se novamente à beira da banca rota. O principal desafio brasileiro neste século é extirpar líderes que disseminam o ódio entre cidadãos, através da ação dos cleptocratas da caverna.

Podemos fazer isto juntos”, diz a cultura da liberdadeWe Can Work it Out!

……….

[1] Lançada pelos Beatles a meio século atrás, em 1965.

[2] O vídeo desta entrevista está publicado no artigo “Comichão da mentira”. Pesquise no blog.

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