Babuínos e petralhas: irmãos de sangue


Por Simão-pescador, da Praia das Maçãs.

A África

Sempre tive muito interesse em conhecer o continente africano. Queria saber por que sua evolução foi lenta nos últimos três séculos, o contraste entre suas nações, talvez derivado da cultura dos povos que o colonizaram. Ingleses, franceses, portugueses e holandeses usaram a África como se fora uma torta recursos ambientais valiosos a ser fatiada, de acordo com fome de cada reino dominante.

Pelo que me foi dado a ler, a cultura holandesa foi menos gananciosa. Ao contrário, deixaram marcas indeléveis de sua capacidade de produção, de comercio internacional e da arquitetura na bela Cidade do Cabo, África do Sul.

Vista panorâmica atual da Cidade do Cabo, cidade-irmã de São Francisco e Rio de Janeiro

Vista panorâmica atual da Cidade do Cabo, cidade-irmã de São Francisco e Rio de Janeiro

Um pouco perdido como Bartolomeu Dias[1], no entanto, vincado pelo ímpeto de construir, próprio de Jan van Riebeeck[2], em 1989, juntei-me ao grupo de amigos que decidira navegar em comboio até a Cidade do Cabo, a descer o Atlântico e entrar pela Baía da Mesa.

Não conheceria o continente inteiro, mas já me bastavam passar alguns dias numa das mais belas cidades do mundo, entranhada entre rochas milenares e vegetação africana. Queria sentir a expressão intensa de seu ambiente e o forte apelo cultural citadino. Sem dúvida, uma herança neerlandesa e, posteriormente, inglesa.

Desde a entrada na barra da baía, nosso comboio foi recepcionado por barcos de salvamento da marinha sul-africana. Decerto, avistaram a bandeira portuguesa à proa e seus marinheiros nos saudaram com acenos amistosos e apitos de convés. De facto, um carinho inesperado. Nelo e eu nos emocionamos, como de hábito.

Ao chegarmos ao centro da cidade já iniciara o anoitecer. Restava-nos comer um bom peixe assado e agendar o dia seguinte. Combinamos percorrer a cidade a pé, a sentir a alma do povo capetoniano; passar nossas rudes mãos nas paredes de prédios antigos e apalpar a arte do arquiteto; por fim, saber das lendas e mitos populares, caso ainda as tivessem.

Magnífica vista noturna da Cidade do Cabo – Cape Town

Magnífica vista noturna da Cidade do Cabo – Cape Town

No alojamento de pescadores, Nelo me disse que concordara com o grupo, mas tinha outros factos que o motivaram para fazer aquela viagem: desejava conversar com os cientistas que, há 5 anos, faziam pesquisas sobre o comportamento dos babuínos, invasores selvagens que saqueavam casas e pessoas da cidade. Nessa circunstância, decidi acompanha-lo; avisamos ao grupo de nossa opção.

Pela manhã seguimos até a prefeitura, que deu-nos permissão para conhecer os grupos de babuínos. Porém, sempre com um biólogo que participava das pesquisas. Entrementes, avisaram-nos de pronto: ─ “Não levem nada que seja comestível”.

David, biólogo da prefeitura, explicou melhor: ─ “Babuínos invadem carros parados, roubam bolsas e pacotes de turistas abestados. E o mais grave: são agressivos e entram em conflito com as pessoas”.

Os babuínos ladrões

Seguimos por uma estrada em direção ao que parecia ser um subúrbio rural da cidade: menor número de casas, terrenos bem amplos e várias plantações de eucalipto para corte – habitat excelente para os babuínos, segundo David.

Nelo e eu notamos que havia pessoas fardadas nas laterais da estrada. Eram jovens que tinham nas mãos uma, digamos, “vara de marmelo”. Não foi difícil perceber o que faziam: eram os “monitores da prefeitura” a afugentar os babuínos que atacavam carros parados de turistas. Bastava apitar e brandir a vara no ar que os selvagens se afastavam um pouco.

Ecologia dos babuínos

Saímos da estrada por uma via vicinal e logo encontramos um casal de cientistas. Estavam entretidos com binóculos, à cata de primatas. Falaram-nos acerca da ecologia dos babuínos, às vezes com termos técnicos que não compreendíamos. Nelo ficou boquiaberto com o conhecimento que possuíam. Mas, em suma, foi isso que entendi sobre os ditos-cujos:

  • Grupos distintos deste primata são sociáveis entre si. Mas eu iria além: “são muito associáveis quando diante de bens alheios”.
  • Os grupos de babuínos se locomovem sempre e com grande rapidez. De tal forma, que parecem ser milhares deles, quando na verdade, de acordo com o último levantamento efetuado pelos cientistas, somam apenas 380 indivíduos. Assim, vou além: são enganadores e peteiros.
  • Há grupos deste primata que dormem cada noite em novo local. E é fácil de explicar: esses são osbabuínos perigosos”, procurados pela polícia do país.
  • Todos os babuínos da região possuem características similares às espécies silvestres cuja existência depende das atividades do homem, como hábitos de alimentação, descartes, etc. – espécies peridomiciliares.

A meu ver, o interesse do casal de cientistas era manter sua pesquisa ativa pela eternidade. Não me pareceram preocupados com a “formação das quadrilhas de babuínos” e as ignóbeis consequências sobre a população da Cidade do Cabo.

Flagrante do macho babuíno roubando uma cidadã

Flagrante do macho babuíno roubando uma cidadã

Já nas conversas com os monitores da prefeitura, enfim soubemos dos reais problemas causados pela arruaça desses primatas, ladrões quase humanos. Faço uma pequena síntese dos factos que nos foram narrados:

  • Babuínos invadem residências, ameaçam as famílias moradoras e roubam alimentos. Os mais jovens ficam sobre muros e telhados, de vigia, a fazer estardalhaço. Os machos adultos que lideram o bando são os ladrões mais violentos.
  • Babuínos adultos são mais agressivos com mulheres e crianças em suas casas. Ainda assim, os cidadãos locais não têm o hábito de abate-los. São muito raros os casos de fuzilamento de líderes.
  • Babuínos cercam carros parados nas estradas e tentam expulsar seus ocupantes. Roubam tudo o que encontrarem no interior do veículo e mostram os dentes em sinal de ameaça.
Babuínos saqueadores na Cidade do Cabo

Babuínos saqueadores na Cidade do Cabo

  • O comportamento agressivo e violento dos babuínos intensificou-se nos últimos 4 anos. A maioria dos monitores prevê um ataque em massa de todos os grupos deste primata deletério. Ou seja, o ataque de um “exército de babuínos” sobre a Cidade do Cabo. Para isso, basta ter um único chefe, o macho Alfa.

Sugestões revolucionárias

De volta a Praia das Maçãs, loucos para descansar, nosso grupo de amigos permaneceu dois dias em silêncio. Estávamos parvos com o que viramos na Cidade do Cabo. Porém, Quincas, meu neto postiço, promoveu uma reunião para debatermos o assunto. “Quem sabe não poderão dar sugestões para auxiliar na solução dos problemas?”, ponderava ele.

Fui eleito “cozinheiro do evento”. Preparei uma bela caldeirada de frutos do mar para acender os velhos amigos. O vinho ajudou bastante, não tenho dúvida. Todavia, meus medos fizeram vinculações entre a Cidade do Cabo e o Brasil. E posso explicar.

Enquanto Nelo explanava como trancafiaria os machos adultos de babuínos, a descrever as armadilhas a serem usadas, minha mente estava no Brasil, país em que vive minha família. Afinal, recentemente o apedeuta fez ameaças de “soltar seu exército de petralhas nas ruas do país”, para lutar contra os movimentos democráticos que pedem a saída imediata do “poste soberano”.

Não posso negar que associei grupos de babuínos às quadrilhas de petralhas. As imagens das ações de ambos pareceram-me muito semelhantes, senão idênticas:

  • Adorar bens alheios versus tomar bens públicos.
  • Cercar residências para aterrorizar as famílias versus aparelhar a máquina pública para aterrorizar a nação.
  • Roubar alimento nas geladeiras versus roubar cofres de estatais.
  • Mentir e enganar desbragadamente, ambos o fazem.

Creio que já relatei demais, embora haja outras semelhanças que deveria mostrar. Porém, sintetizo:

  • Babuínos e petralhas são irmãos de sangue. Os primeiros, definham se não roubarem bens das famílias. Os segundos, odeiam ao povo, que deseja e impõem sua saída do governo que capotou.

……….

[1] Chamado de “o explorador”, diz a lenda que, em 1486, o português Bartolomeu Dias contornou a ponta sul do continente africano a caminho das Índias e relatou aquelas terras ao Rei. Isto é babosice! Porém, de toda forma, duas coisas devo lembrar: Bartolomeu era, de facto, uma “besta quadrada”, pois nunca quis saber por onde passava; e estava esfomeado para garantir ótimos resultados monetários de “seus negócios indianos”.

[2] Jan van Riebeeck foi o inteligente navegador holandês que, em 1652, rumo a Índia, criou um porto de apoio na Baía da Mesa e estabeleceu o primeiro assentamento europeu permanente na África do Sul, dando origem a Cidade do Cabo. Hoje é uma urbe bastante industrializada, com quatro grandes centros comerciais, porto e aeroporto internacional privados, bem como transporte público de qualidade.

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