Guinchar o estorvo


Por Ricardo Kohn, Escritor.

Ricardo KohnEis que surgiu o desastrado “caminhão ideológico”, muito espaçoso e mal dirigido, a impedir a trânsito nas vias urbanas em que trafegava. Era enorme, com três eixos no cavalo mecânico e mais cinco na monumental caçamba. Estimo que tivesse entre 25 a 30 m de comprimento.

Ninguém sabia dizer de que fábrica haveria saído aquela geringonça, a impedir a todos o direito de ir e vir. Assim, apelidei-o de “vermelhão”, dada sua cor sanguínea e molesta.

Na cabine dupla, com quase cinco metros de altura, por detrás de vidros negros, via-se o vulto de dois elementos: o motorista e seu acompanhante. Logo formou-se na sua traseira uma grande fila de carros, vans e caminhonetes, a buzinar com estridência. E o vermelhão às vezes respondia agressivo, com seu estrondoso sistema de cornetas a ar. Em meu pequeno carro, encontrava-me bem atrás daquela montanha metálica.

Após atravessar a cidade, previ que o vermelhão dirigia-se ao hipermercado. Apesar dele ser mais alto que o umbral de entrada do estacionamento, não sei como, o motorista fez aparecer dois braços metálicos à frente do caminhão ideológico: assim, demoliu o umbral, e continuou a rodar a 120 km por hora. Entrei logo em seguida no pátio e dobrei à direita, para manter-me a uma distância segura.

Havia dezenas de veículos de passeio estacionados no pátio, mas o motorista do vermelhão ideológico sequer tomou conhecimento deles: passou de caminhão por cima de todos que estavam em sua reta rumo ao mercado, esmigalhou-os, e estacionou o vermelhão junto ao prédio, a ocupar todas as “vagas para deficiente físico”.

Já escutava a sirene da polícia de choque há algum tempo, mas depois também avistei um helicóptero da força a sobrevoar o pátio destruído. A ser assim, vários camburões cercaram o vermelhão. Queriam conter a fúria vermelha de seus ocupantes.

O comandante da tropa de choque pediu calma a seus soldados e, portando um fuzil, dirigiu-se à janela do motorista. A janela abriu-se e aconteceu um rápido diálogo. Não pude ouvir o que falaram, mas, em seguida, a polícia retirou-se com “rabo entre as pernas”.

Cessaram as sirenes; o helicóptero sumiu. Para mim, acontecia um patético desastre. Sentia-me incapaz de realizar qualquer ação contra o destruidor vermelhão. Precisava haver uma multidão agindo nesta mesma direção.

Por uns 10 minutos, o silêncio se instalou naquela área da cidade. Foi igual a uma eternidade, até que, de repente, a caçamba colossal abriu-se suave e desceram dezenas de fanáticos vermelhinhos, a cercar de forma festiva a cabine do caminhão ideológico.

Ao descerem da cabine sob aplausos, o motorista e seu acompanhante, talvez para não serem reconhecidos, usavam máscaras negras. Contudo, um fato chamou-me a atenção: o motorista trajava vestido-tubo vermelho; tratava-se, pois, de uma mulher mal nascida.

Encolhido no carro, com calma pude notar que havia outras mulheres no bando, algumas até com pose de “intelectual burguesa”. Porém, outro fato me alarmou demais: todos traziam armas – de foices e machados, a fuzis de repetição – e alguns portavam bandeira de guerra!

Senti um arrepio a arder sobre o corpo: estava a presenciar o início de uma invasão vermelha à minha pátria? Seriam guerrilheiros ou milicianos contratados na Venezuela?!

Não há dúvida que todos eram nocivos à sociedade. Mas, para minha tranquilidade, tratavam-se apenas de legítimos idiotas brasileiros. E isso ficou inegável quando invadiram com violência o mercado, a quebrar caixas registradoras, roubar dinheiro, destruir patrimônio privado e gritar de forma desbocada:

─ “Estamos com fome, caralho!”. Quão nobres e singelas são as bestas em fúria…

Foi assim que perguntei a mim mesmo: ─ “João Gustavo, o que você deve fazer agora?[1]

Em curtíssimo prazo, precisava decidir se voltava para casa ou permaneceria no pátio, dentro do carro. Optei por dormir no carro, pois o “exército do vermelhão” deixara sentinelas armados para inspecionar e fuzilar qualquer movimento no entorno do mercado.

Para o médio prazo, precisava resolver o seguinte: como “guinchar o estorvo vermelho” embutido no caminhão da ideologia e eliminá-lo do país. Uma das hipóteses que levantei foi solicitar auxílio das Instituições de Estado responsáveis pela Segurança Nacional.

Creio ser a melhor alternativa para realizar “guinchadas definitivas” de estorvos vermelhos, do gênero impeachment pela força. Não se trata de uma questão política, econômica ou social. Trata-se de questão básica da ética e da moral, pautada nos princípios elementares de qualquer nação civilizada.

Por fim, não fiz previsões para o longo prazo. Exausto, adormeci antes de começar a pensar.

A propósito, no dia seguinte, a própria população da cidade cercou o hipermercado e guinchou “a motorista-poste e seu mentor“, de forma definitiva. Foram extraditados para a Indonésia, acusados por tráfico de drogas pesadas. O caminhão foi higienizado, pintado de branco e doado a uma escola pública.

……….

[1] Uso a prática de “falar sozinho” por orientação de especialistas em neurolinguística. Afirmam que “coloca a pessoa do lado de fora do problema e a ajuda a equaciona-lo com mais objetividade”.

2 pensamentos sobre “Guinchar o estorvo

  1. Brilhante. Apenas gostaria de saber qual peça nos somos no tabuleiro de xadrez. Tenho dúvidas se não somos mera massa de manobra, comandados pela mídia induzida com ou sem interesses diversos.
    Abs Adjabir

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    • Prezado Adjabir,

      O movimento Vem Pra Rua, que ocorre em centenas de cidades brasileiras, demonstra de forma clara que, apesar das práticas asquerosas por parte da mídia, nós, Povo Brasileiro, temos livre arbítrio para conquistar nossos caminhos e destinos políticos, econômicos e sociais. Estimo que hoje deveremos alcançar a notável marca de 3 a 5 milhões de cidadãos conscientes nas ruas do Brasil. Com um único propósito democrático: Fora Dilma, Fora Lula, Fora PT.

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