Lula decidiu ser padre


Por Ricardo Kohn, Escritor.

Ricardo KohnSeu nome era Luiz Luciano Alvorada mas, desde o nascimento, foi apelidado de Lulu, por obra de sua mãe, a arrogante Dona Lana [1].  Todos nós, antigos amigos de Lulu, detestávamos aquela megera, sempre a portar sua cabeleira negra, encorpada pelo laquê. Com ódio a brilhar em sua face, parecia usar o hediondo capacete da Gestapo. Não há dúvida, tínhamos uma enorme má vontade com ela.

Porém, ao fim, a pobre coitada morreu careca. O laquê especial que dizia importar da França era ácido, de tal forma que, com o passar do tempo, dissolveu suas melenas. Mas retorno ao assunto que mais interessa:

─ “Como Lulu transformou-se em Lula”?

No início da educação formal, todos fomos matriculados na mesma escola do bairro. Lulu só entrou para a escola no 3º ano primário. Nele havia duas turmas, cada uma com 60 alunos infernais. O grupo de amigos de Lulu, não chegava a dez crianças. Os demais não conhecíamos, nem de vista. Mas, como era de se esperar, já na primeira semana brincávamos no recreio como “velhos amigos de infância”.

No entanto, Lulu, talvez por ser o mais velho das turmas, não participava dos folguedos infantis matinais. Era estranho, mas aos 11 anos de idade, ele ficava a andar sozinho no pátio de recreio e a roer suas unhas. Parecia-me estar aflito com alguma coisa, talvez o fato de não ter conhecido o pai ou pior: tal como a mãe, sequer saber quem ele foi. Lulu seguiu assim até o dia que o inspetor-chefe da escola chamou-o, pelo microfone, para conversar:

─ “Lulu! Lulu, vamos conversar na minha sala!” A chamada ecoou pelos alto-falantes do pátio.

A partir de então muitas crianças atentaram para um possível teor de seu apelido e passaram a debochar dele. Diziam-lhe que Lulu era melhor como apelido para “cachorro de madame”. Hoje não tenho dúvida que foi a pose asquerosa de sua mãe, a viúva negra, que disparou a maldade inata daqueles meninos.

Após a conversa reservada com o inspetor, passaram-se cerca de dois anos sem que Lulu saísse da sala de aulas no horário do recreio. Mesmo nos intervalos entre as aulas, não conversava com colegas. Basta dizer que quase ninguém se lembrava mais do timbre de sua voz.

Entretanto, percebi que ainda roía as unhas, mas agora até sangrar o sabugo. Uma expressão diabólica parecia se formar em sua face. Confesso que fiquei assustado, sem saber se deveria dar algum tipo de apoio a ele. Mas, afinal, deveria fazer o quê?!, eu que tinha apenas 7 anos.

Foi então que meus pais foram convidados para uma “Reunião de Pais e Mestres”, num dia de sábado. Ao retornarem, papai me disse que o material de alunos estava a ser furtado nas salas de aula: coisas como lapiseira, régua, esquadro e até o caro compasso importado. Fiquei calado, mas confesso que cheguei a pensar nas pessoas humildes, que faziam os serviços da limpeza. Vejam que preconceito estúpido fui capaz de cometer, mesmo que em pensamento.

Com essa dúvida que atormentava, juntei-me a dois amigos, todos com “mania de detetive”, e resolvemos espreitar nas janelas da escola durante os intervalos do recreio. Queríamos descobrir quem furtava, pois não era o pessoal da limpeza, que trabalhava somente a noite.

A escola fora instalada num antigo casarão de dois andares, construído ao centro de um amplo terreno. O pátio de recreio ficava em sua área frontal. Dessa forma, assim que tocava a sineta, enquanto a criançada corria para brincar durante 15 minutos, nós três seguíamos silenciosos, pé ante pé, para investigar pelas vidraças laterais da escola o que acontecia nas salas do curso primário.

Não descobríamos coisa alguma. Até por que, após 10 minutos na espreita, sentíamos bater a fome e íamos direto para o refeitório, aos do fundo do casarão. Aos poucos, os corações desaceleravam e “sanduíche com suco de uva” tornava-se quitute, a ser devorado de forma rápida, “pouco educada”.

No entanto, notei que causávamos espanto aos alunos semi-internos, que almoçavam com calma na escola, pois tinham intervalo para almoço de 45 minutos. Dentre eles, sentado sozinho em mesa à parte, sempre estava Lulu, abatendo um prato de caminhoneiro. Seu olhar ficara esgazeado e atemorizava bastante aos mais jovens, inclusive a mim.

Três anos mais tarde, após o enterro de sua mãe, o comportamento de Lulu se agravou mais. Já cursávamos o início do ginásio e nele, no mais velho, cresciam manchas isoladas de barba, que deixava crescerem feito matagal. Era bem espessa para sua idade. Assim, o inspetor-chefe, sem qualquer educação, chamou sua atenção em público, a dizer-lhe bem alto:

─ “A partir de amanhã, você vai chegar aqui com esta cara limpa! Entendeu bem, Lulu?!”

No dia seguinte, Lulu chegou atrasado, porém com a barba feita. Observei que não trocara de roupa. Nem meias, sapatos e, quiçá, a cueca. E assim foi durante mais de duas semanas, até que sua calça e camisa já apresentavam nódoas de suor, sujeira e cheiro muito ruim.

Por outro lado, os furtos de material de desenho que haviam parado, voltaram a acontecer e com mais intensidade. Era provável que o gatuno precisasse “fazer dinheiro fácil”, pois em um único mês sumiram 113 compassos importados, a maioria cedida aos alunos pela própria escola.

Nos idos da década de 1950, quando esses furtos ocorreram, essa “besteira de material para educação” valia centenas de milhares de moedas, o suficiente para adquirir um bom carro de passeio. Não havia outro jeito, a diretora da escola acionou a polícia local. O chefe da delegacia era advogado, nascera no bairro e sua filha estudava na escola. As crianças em geral achavam graça, por ele ser um senhor baixinho, gorducho e tratado por Dr. Pombo, embora não voasse nem cagasse nos carros.

Numa segunda-feira, durante o recreio, duas caminhonetes da polícia estacionaram no portão de entrada da escola. A diretora, um tanto constrangida, foi receber o delegado Pombo e duas investigadoras, vestidas à paisana. Ainda estava aflita, sem saber como atender àquela situação, quando um jovem estranho adentrou ao pátio da escola. Estava trajado com rara elegância, sapatos de cromo alemão e usava óculos escuros.

Foi então que nós três, “detetives da escola”, exclamamos em uníssono: ­─ “É o Lulu!” Ele dirigiu-se a nós e corrigiu-nos com pouca delicadeza: ─ “Daqui pra frente me chamem de Lula!”.

Ficamos muito confusos, devo dizer. Várias coisas não tinham nexo. Se Lulu não trabalhava, nem tinha parentes vivos, como poderia estar tão bem vestido, com cabelos bem aparados e limpo? A mudança de nome foi para se livrar das nossas chacotas ou ele teria outros motivos? E o mais assustador: por que, já pela manhã, exalava cheiro forte de cachaça?

Nossa diretora assistia a tudo estupefata. Porém, o experiente delegado enviou “suas meninas” para acompanhar Lulu até o carro policial. Ou Lula, que seja! O recreio acabou mais cedo, cessou a alegria e as aulas do dia foram prejudicadas.

Hoje sabemos que as investigações da polícia provaram que Lulu era o ladrão da escola. E ele próprio confessou, disse “é um impulso natural, maior que eu“. Naquela época, foi recolhido em uma instituição para menores infratores – a Funabem – e lá deveria ter sido “reeducado” durante 4 anos. No entanto, agredia com violência física a todos que não aceitavam chamá-lo de Lula.

Como prêmio à sua boçalidade, Lula morreu enforcado pelos próprios “amigos”, justo quando jurava para os “psiquiatras da Funabem” que decidira tornar-se “padre”.

……….

[1] Em Portugal é usada a expressão “lana-caprina”. Significa “coisa de pouca importância, insignificante”.

2 pensamentos sobre “Lula decidiu ser padre

Aguarde nossa resposta...

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s