Discurso ‘estarrecedor’ [sic]


Por Simão-pescador, da Praia das Maçãs.

Simão-pescador

Simão-pescador

Estava eu na biblioteca de casa, ocupado a arrumar antigos documentos de diversas origens e finalidades: lista de compras para o barco, notas fiscais, cartas que ainda recebo, certidões, atestados e outros. Foi quando descobri que guardara impresso um e-mail que me chegou do Brasil, em fevereiro de 2014. Encontrei-o num envelope pardo que eu mesmo intitulara de “Discurso”.

O texto fora transcrito de uma gravação feita por amigas de duas de minhas noras brasileiras. Ao final, tento explicar o que ocorreu. Mas antes, leia o tal discurso.

Em tempo, tomei a liberdade de colocar um [sic] após cada escorregão gramatical e sintático cometido. Achei mais de quarenta deles, sem considerar as “licenças poéticas”, que abri mão por gentileza. Mas vamos ao bruto:

Companheiras e companheiros, camaradas e camarados [sic], estou muito feliz de estar com vocês por aqui hoje [sic] para fazer um comunicado pro meu futuro governo [sic]. Quero que vocês saibam de muita coisa sobre o futuro que eu vou construir de novo pra vocês” [sic].

No meu próximo governo, que eu quero deixar bem claro, que vai começar em 2015 [sic], eu vou mudar muita coisa, quer dizer, eu vou mudar tudo, tudo o que precisa ser mudado [sic]. Entenderam?! Farei as mudanças que vocês que sempre que me imploraram [sic] e que eu nunca tive tempo nem saco de fazer” [sic].

Que eu vou acabar com as polícias, com todas as polícias do meu país. Mas que eu vou criar novas polícias pra substituir as polícias que eu acabei de acabar [sic], fui clara?! Vou contratar policiais mais insinuantes [sic], selecionados nas milícias do MST, MTST, dos Black Blocs e do PCC, todos agora são nossos parceiros sociais nessa empreitada” [sic].

Que eu vou integrar ao corpo, quer dizer, ao do meu executivo [sic], os Mídia Ninja, que são muito úteis para a intensa comunicação do meu novo governo com o mesmo povo de sempre [sic]. Aquele ninja beiçola [sic], com cara idiota e do cabelo enrolado [sic], é esperto e vai ser meu ministro das comunicações. Não há ninguém mais adequado para…, pra…, pra entender o povo” [sic].

Aliás, decidi de uma vez por todas demitir do cargo o careca idiotista [sic], que há de catar coquinhos na seca árida [sic], pelas entranhas do nordeste [sic]. O castigo dele é que ele vai vaquejar nas costas do jumento [sic], sobre o sol inclemente” [sic].

Que sempre saibam vocês todos que eu sou uma competente revolucionária [sic], faço de tudo que se for preciso [sic], como sempre fiz! Me entenderam bem? Vocês não imaginam do que sou capaz, só que eu não faço ameaças [sic], que eu só cumpro o que faço [sic]. Tenho certeza que vocês me compreendem a importância [sic] das minhas ideias rejuv… re-ju-ves-ce-ni-da… das minhas novas ideias, porra [sic]!”

Que eu não vou permitir de forma nenhuma, ouviram, nenhuma mesmo [sic], que ninguém sabote essa minha proposta democrática de governo [sic], só se me matando [sic]. Mas isso não vai nunca acontecer [sic]. Afinal, eu tenho as minhas forças pessoais, bem aparelhadas como as da KGB e da Gestapo [sic], que me garantem minha integritude” [sic].

Para finalizar eu quero comunicar a vocês que vou abençoa-los em 2015, com minha grande paz de espírito e de governo [sic]. Para continuar o desenvolvimento do país, que eu iniciei sozinha [sic], vou criar mais outros 40 ministérios; isso mesmo, vou ter mais quarenta ministros eloquentes [sic] e suas equipes. Saibam que, a partir de hoje, todos vocês estão empregados com cargos de chefia nesses aparelhos, analfabetos ou não” [sic].

Mas determino a todos que tragam seus familiares e companheiros confiáveis para que uma das minhas assessorias monte um aparelho pra cada um administrar [sic]. Mas não me incomodem com mais chatices. Fiquem em casa ouvindo rádio, vão passear por aí [sic], esbanjem seus salários, comprem televisão, geladeira e bicicletas, sim, muitas bicicletas de pedalar [sic], pois vou implantar a Política Nacional da Bicicleta 100% Brasileira, e só me apareçam pela frente de novo em 2015” [sic].

Sintam-se à vontade para me bater muitas palmas [sic] de forma ordeira. Atenção, que eu exijo ordem [sic]! Sei que eu me mereço a mim [sic] para ser a Soberana de vocês” [sic].

Considerações sobre o discurso

Minhas duas noras e amigas estavam a bebericar na Cervejaria Ramiro, uma boa casa de Lisboa, que serve ótimos pratos de peixe e frutos do mar. Uma delas pediu licença, saiu da mesa e, logo em seguida, retornou a dizer, constrangida: ─ “Há uma senhora trancada ao banheiro, a fazer um discurso cheio de empáfia para alguém”.

Ostras na Cervejaria Ramiro

Realmente, quando as meninas chegaram junto ao banheiro, com a porta trancada por dentro, ouviram uma voz feminina a dizer para alguém: ─ “Presta atenção, vou discursar de novo!

Foi então que fizeram silêncio e começaram a gravar pelo I-Phone. O discurso não durou três minutos, até elas ouvirem a fechadura da porta ranger. Saiu então uma senhora de baixa estatura, corpo com formato de losango, a trajar uma roupa espetaculosa. Vestido de fundo negro com lascas de tecido prateados e dourados. Ela usava muitas joias e os grandes brincos circulares emergiam da cabeleira hirsuta escovada. Essas foram as palavras das meninas e eu não discuto com elas.

Mas elas me disseram mais: que a senhora saiu do banheiro muito arrogante, a ostentar no frontispício o impávido colosso de sua grave burrice fundamentalista. Sequer olhou ou cumprimentou as meninas aflitas.

Discursara asneiras à si própria, diante de um espelho opaco. Qual seria sua intenção?… Treinamento?… Gatunagem?…

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