Assim o ambiente vê o político


Dizem alguns especialistas que o ambiente observa o político como se fosse um ornitorrinco, Ornithorhynchus anatinus. Tal como a do político rasteiro, a existência deste bicho é difícil de explicar, quer seja através da teoria darwiniana ou da patranha criacionista.

O ornitorrinco é complicado de explicar

O ornitorrinco é complicado de explicar

De fato, o animal tem cauda natatória dos castores, pelagem para uso terrestre, bico de pato, é mamífero, possui membranas entre dedos, vive na água doce e na terra, põe ovos mas não voa, e é um carnívoro sem dentes. Estranho, incrível mesmo de entender.

Diante do primeiro exemplar que chegou à Inglaterra, em fins do século 18, zoólogos que o examinaram pensaram que se tratava de fraude, uma ‘espécie construída’ por taxidermistas asiáticos. Vejam esse bico, parece que foi encaixado e costurado.

Close do bico visto de frente

Close do bico visto de frente

No entanto, no século 20, após ter sido sequenciado o genoma do Ornithorhynchus anatinus, cientistas verificaram que cerca de 82% de seus genes são iguais ao do Homo sapiens. Tem-se algumas dúvidas a respeito.

Porém, pelos detalhes similares que apresenta, somente se for da subespécie Homo corruptus brasilianensis. Ou seja, teriam saído do planalto central, sabe-se lá como, e se acomodado em lagos na Austrália, do outro lado do planeta.

É bem verdade que, se fossem puros H. corruptuspolíticos da quadrilha –, teriam ido de jatinho emprestado. Mas, de toda forma, há características do animal que lembram muito as do H. corruptus: possui esporões venenosos para liquidar as presas; órgãos sensoriais que captam a presença de alimentos (US$ bilhões); temperatura corporal fria (27 0C); e o jeito sinuoso do réptil.

A propósito, neste exato momento deputados e senadores articulam o aumento dos próprios salários e de cargos do executivo. Sem dúvida, mais uma ação descarada do Homo corruptus brasilianensis. Pobre coitado do ornitorrinco, só serviu de modelo para criar aleijões morais.

Esqueleto de um político, digo, ornitorrinco

Esqueleto de um político, digo, ornitorrinco

Chama de ‘sustentável’ que vende!


Virou anarquia, tudo ganhou o apelido de ‘sustentável’. A matraca dos mercadores, visando a valorizar os produtos que põem à venda, repete de forma incessante, feito gralha estridente:

─ “Se é economicamente viável, se é justo do ponto de vista social eecologicamente correto’, então, com certeza, é sustentável”. Será que é?

Dê bom-dia a qualquer um deles e sempre receberá de volta este desorganizado cardume de palavras. São treinados para isso.

Esta ilustração é anômala perante qualquer teoria

Esta ilustração é anômala perante qualquer teoria

Apenas para fins ilustrativos ocorrem estas ‘interseções’ entre ecológico, social e econômico. No mais das vezes, como argumento falacioso para vender qualquer coisa. No entanto, certos cursos ‘compraram’ essa ilustração para revende-la como técnica factível, em especial a pessoas que não conhecem os conceitos elementares de Ecologia, Economia e Sociologia. Todavia, foi dessa forma – a tratar verossímil como sinônimo de verdadeiro – que se criou no Brasil o supermercado do ‘Sustentável’ [1].

Esses ‘negócios‘ tornaram-se uma endemia em várias metrópoles do país. São Paulo e Rio lideram as ‘ofertas’, sobretudo, no setor imobiliário. O lançamento de prédios e casas em ‘condomínios sustentáveis’ chega a ser pândego, caçoa da inteligência das pessoas.

Ao chegar, o comprador (e sua família) vê um belo terreno terraplenado, sem obras, mas com um estande sofisticado para lançamento do condomínio. As maquetes são excelentes. Para insuflar a imaginação do comprador, há um apartamento com estrutura de gesso, finamente mobiliado e decorado. Afinal, gosto não se discute.

Apartamento de gesso e aflição

Apartamento de gesso e aflição

Mas sempre falta calor humano, por melhor que esteja montada a recepção de venda. Então, entra em cena, conforme ensaiado, a elegante corretora, cheia de calorias para mostrar as ‘coisas sustentáveis’. Do condomínio El Dorado, é claro.

Cria nobres imagens de ‘responsabilidade ambiental e social’ na cabeça do comprador, dá-lhe a sensação de poder, a chance única de adquirir um ‘imóvel sustentável’, construído sob medida para sua família. Isso é perfeito para o nouveau riche. Os machos dessa espécie chegam a ter ereções quando assinam o cheque da entrada do imóvel.

Por fim, a corretora afirma que o investimento tem excelente retorno e apenas ‘de início’ parece ser mais caro. “O que isso significa?”, pensa o comprador. E, a fingir que entendeu, responde surpreendido:

É verdade senhorita, de início, só parece…”.

……….

[1] Observe que as interseções intermediárias – suportável, equitativo e viável – estão com significados desconexos. Não respondem às pretensões do ‘ilustrador’.

Tem um grande potencial


Zik-Sênior, o Ermitão.

Zik Sênior, o eremita

Zik Sênior

Em 1916, na hora da saída do colégio, uma professora disse a meus pais: “esse menino tem um grande potencial”. Eles ficaram tão felizes, que fizeram uma festinha em casa para eu convidar três amigos. Foi servida uma torta de chocolate, regada a Coca-Cola bem gelada. Vale recordar, naquela época existia Coca-Cola em garrafa pequena, feita de vidro verde claro matizado.

A festa foi muito boa, brincamos o dia inteiro: lançamos peão na roda, jogamos mata-a-mata com bola de gude no chão de terra, fizemos várias guerras de carambola e, a partir do meio da tarde, empinamos pipa e papagaio de cima da laje. Foi memorável, ficamos imundos.

De toda feita, levei alguns anos para entender o que seria ‘ter um grande potencial’. Era ainda pequeno e, afinal de contas, a professora parecia meio assanhada para o lado de papai. Podia haver alguma outra intenção dela, sei lá. Quem sabe imaginava que o pai tinha um ‘potencial enorme’?

Porém, foi em 1920, já com 12 anos, que ouvi pela primeira vez a frase que ficou notória: “o Brasil é o país do futuro”. Foi dita numa aula, pelo então professor de História, por motivo que não lembro. Mas recordo-me muito bem que, para ver se entendera suas palavras, insinuei: “O senhor quer dizer que o Brasil tem um grande potencial?”. Ele confirmou. Foi assim que, pela lógica intuitiva, associei tudo o que se dizia ser potencial a algo que ocorreria no futuro.

Hoje, após longas experiências da vida, compreendo que o substantivo potencial refere-se a um conjunto de fatores, próprios de uma pessoa, empresa ou país, que em algum momento do futuro, pode tropeçar em ventos favoráveis à sua evolução.

A meu ver, potencial não é sinônimo de dúvida, longe disso. Mas sempre será, digamos, uma promessa de vento futuro. E promessas só são válidas se forem bem executadas, úteis às pessoas que rogam por verdadeiras mudanças. Não são simples trocas de ‘seis por meia dúzia’.

Um século mais tarde, na faina diária, trajando meu surrado macacão de brim, ainda escuto falarem que o ‘Brasil é o país do futuro, com grande potencial’. Parece que não se mancam! Entram e saem alcateias de canalhas do governo e a safadeza política segue a ser usada para amestrar a população ignorante. É incrível, mas a sociedade brasileira já acreditou em cem anos de promessas ao vento, sobretudo, nos últimos 12 anos, quando essa prática recrudesceu.

Restou um fato: a qualidade da vida futura tem sido uma miragem perturbadora para a maioria dos trabalhadores. Isso sem falar dos inúmeros aposentados, dependentes e idosos que, mesmo a viver em situação precária, pensam ser capazes de conter a ação da quadrilha hospedada no planalto central. É lá que fica instalada a sede do Bordel do Poder. Tola esta pretensão: nós, idosos e assemelhados, não somos ameaça alguma à corja que depreda o Estado e a Nação.

Mesmo diante de cenários políticos e econômicos ruins, não tão desgovernado quanto o atual, durante 98 anos eu dormi muito bem. Cinco horas por dia sempre foram reparadoras para prosseguir com o amanhã. Nunca tive insônia ou pesadelo, nem mesmo durante o julgamento da Ação Penal 470 (Mensalão).

Não há dúvida, até fiquei excitado com a condenação de poucos membros a quadrilha, mas a pressão arterial não subiu. Sempre, às 11 horas da noite, punha a cabeça no travesseiro; em segundos estava relaxado e adormecia pesado. Com certeza devo minha senioridade em parte a isso.

Porém, com os primeiros sinais de ‘ensaio político’ para o ‘apocalipse pela corrupção’, iniciado a meus olhos pelo ‘chefe do Bordel’ em 2009, comecei a perceber que meu sono já não era mais o mesmo. Meu corpo precisava de mais uma hora de descanso diário. Passei a acordar mais tarde, às 5 da manhã, mas pronto para outra jornada de trabalho [1].

Por isso, não dei a devida atenção ao pesadelo renitente que passara a ter. Em síntese, descrevo-o assim: “havia um grande felino que, ameaçadora e esfomeadamente [igual ao chefe do Bordel], cercava a casa durante todas as noites; eu o avistava através das janelas e portas. Em noites de lua cheia, lá estava ele a rosnar e babar, olho no olho, a querer me devorar”.

Mas de súbito, em março de 2010, antes das campanhas eleitorais se iniciarem, o seriado de pesadelos encerrou. Porém, óbvio, não me sentia tranquilo após quase um ano de tortura. Procurei meu velho amigo Hélio, notório psicanalista, mas soube que falecera fazia tempo. Dessa maneira, conforme aprendera, eu mesmo tentei esclarecer as causas do seriado.

De acordo com minha ignorância na matéria, inventei um método a que chamei ‘análise por exclusão’. Primeiro retirei as causas que julgava serem inconcebíveis, por exemplo: minha família, amigos remanescentes, o quintal com mata nativa, a casa, o quarto de dormir, a alimentação e até mesmo a qualidade do colchão.

Porém, foi na identificação das causas do pesadelo que me encalacrei. Permaneci acordado durante cinco dias seguidos, rabiscando teorias no papel, mas nada me pareceu razoável. Ao fim, exausto, tomei uma ducha fria e dormi prostrado. Então, tive um sonho esclarecedor, uma resposta (exata?) do autor em pessoa: meu inconsciente. Disse-me ele algo assim:

“Desde que você nasceu, já estava gravado em seu Arquivo de Esperanças que ‘o Brasil é o país do futuro’. O pesadelo decorreu das milhões de regravações que você tem feito nos últimos 12 anos. Mostram sua falta de apreço às práticas dos Chefes de Bordel eleitos, bem como de suas inomináveis quadrilhas. Não me cabe interpreta-las ou discuti-las; apenas regravá-las. Todavia, há graves conflitos com outra gravação, também original – ‘o Brasil tem um grande potencial’ –, registrada no mesmo Arquivo. Você acredita nisso há 106 anos, mas, ao contrário, assiste pasmado ao país ser mutilado por seus dirigentes, empobrecer de forma assustadora, e caminhar solene para a completa devassidão moral. Dessa forma, nasceu o felino corrupto que, de maneira ostensiva, ameaçava seu consciente durante as noites de descanso. Afinal, já que você optara por lutar contra o apocalipse pela corrupção, teria de ‘matar‘ o felino“.

Ao acordar redigi o sonho, da forma acima transcrita. Era o que recordava. Mal sabia eu que ainda haveria de enfrentar, por pelo menos mais 4 anos, a colheita de frutos desse apocalipse, podres e sem qualquer potencial. Mas aguardo confiante que seja deflagrada uma nova Ação Penal. Que dessa vez ela seja fulminante!

________
[1] A propósito, sou ferreiro-escultor, formado pela prática de meus avós. Forjo estruturas delicadas de ferro, uso madeira antiga, e monto camas, mesas com tampos com pedras de mármore colorido, armários, estantes, cadeiras e coisas do gênero. Tudo é rústico e, modéstia à parte, com bom acabamento.

O que você espera do novo governo?


Responda a enquete abaixo. Pode ser marcada mais de uma opção. A enquete tem prazo de uma semana.

“Desde antes das eleições gerais, a governança pública do país já era precária. A estratégia de campanha adotada pelo governo foi violenta. Usou de meios ‘pouco polidos‘ para atingir a intimidade dos oponentes. Venceu a eleição presidencial, porém com estreita margem de votos“.

“Há quase o consenso geral que o cenário brasileiro nunca mais será o mesmo após o fim das investigações da Polícia Federal, do Ministério Público e da Justiça dos escândalos ocorridos na Petrobras”.

Diante disso, escolha dentre as opções abaixo, o desempenho que espera para o mandato 2015-2018.

Assuntos controversos


Dizem que, em geral, indivíduos de origem latina gostam de debates, qualquer que seja o tema que se apresente, entendam do assunto ou não. Porém, de fato, creio que preferem as intensas discussões: vozes elevadas, socos na mesa e dedos na cara.

Todavia, a experiência mostra que quando encerram o duelo, têm-se dois contendores moídos pela discórdia, no entanto, a andar juntos pela rua, amigos à cata de um bar para trocar as novidades.

Pode parecer paradoxal para quem os presencie nessa situação. Mas, no século passado, houve um caso no Rio, o do cidadão que achava testemunhar o início de uma briga feroz. Ligou aflito para polícia, a implorar urgência na intervenção! Terminou autuado. Processado por ‘denúncia falsa’ e ‘distúrbio da ordem’. Vá entender a controvérsia.

Assuntos discutíveis sempre existirão, interpretações em choque também. Na verdade, o que mudou, e de forma flagrante, foi o ambiente em que ocorrem os debates. Hoje, à exceção de filhos, tudo mais é feito à distância. Perdeu-se o calor humano da pancadaria presencial.

Mas veja o fenômeno das redes sociais. De graça, elas nos levam a todos. Em troca, nos trazem de tudo: desde agressões gratuitas, passando por incontáveis asnices, até chegar a preces de agradecimento a milagre de santas. Pergunto, você gastaria um telefonema para ouvir essas coisas de um ‘amigo’?

Fiz uma análise superficial dos benefícios e custos das redes (na verdade, uma análise de ‘artifício e pé-no-saco’). Acabei por concluir, um pouco a contragosto, que ainda são boas para divulgar artigos, sátiras e crônicas. Afinal, são razoáveis artifícios de comunicação e quase indolores.

Por outro lado, não parece haver dúvida que o grande tema criador de discussões ferrenhas é a Política. É fato em todo o mundo, com ênfase para casos de corrupção e quadrilhas de corruptos.

Todavia, no Brasil dos últimos 4 anos, a decadência política do governo central progrediu muito! A corrupção atingiu a níveis “nunca dantes navegados” na História republicana. E, óbvio, tomou conta dos principais veículos de comunicação: revistas e jornais impressos, bem como todo o aparato da internet – periódicos ponto.com e blogs, não falam de outra coisa.

Stop

De toda forma, voltam a se destacar as redes sociais, pois para elas convergem os veículos com melhor argumentação de seus colunistas, quer sejam críticos aos ‘esquemas do governo’ ou atuem em seu favor.

Por sinal, há uma estranha sensação no ar. Sente-se um cheiro putrefato a indicar que foi criada a quadragésima pasta ministerial. Sua finalidade é gerir a agricultura de notícias do governo, com plantação de monoculturas de informes na mídia. O solo é muito fértil, em se plantando tudo seca.

A propósito, há uma estória recém noticiada, talvez por causa do ‘Assunto do Petrolhão’. Conta que alunos de uma escola pública foram arguidos pela professora municipal para darem exemplos de derivados do petróleo. O resultado ficou assim:

  • Um nerd de 10 anos respondeu de bate-pronto: Gasolina!”.
  • O heterodoxo, mais velho, com cerca de 13 anos, empatou: Naftalina!”.
  • Por fim, Joãozinho, com quase 7 anos, marcou o gol da vitória nas ventas da professora militante: Propina!”.

Retrospectiva de 2014


Tem-se pouco a dizer e nada a comemorar.

Em síntese, o ano de 2014 ficará registrado na História do Brasil como os piores 365 dias que sua população jamais atravessou. Um recorde de sobrevivência da ética e da moral, face aos roubos declarados sob a nefasta ‘desgovernança da nação’.

De fato, não houve sequer um dia com chance de amanhecerem boas perspectivas, de raiar ensolarado. Até hoje, a população foi vítima do horror moral praticado, com ameaças de um partido político aplicar guizos e cordas apertadas ao pescoço de quem pensa diferente. A isso chama-se ‘autocracia de derrotados’.

A negrura da corrupção desenfreada, plantada habilmente pelo líder da corja, levou 11 anos para enfim ser repudiada pela maioria da sociedade. Porém, repúdio não basta; é essencial agir de forma democrática, mas sempre a persistir com vistas à higiene sanitária do país. E não adianta aumentar a vazão de latrinas; será um suicídio coletivo, pois é justamente o povo que navega em águas pútridas, rumo à possível ‘miséria’.

De forma inenarrável, assistiu-se nesse período ao ‘aparelhamento’ de vários setores públicos que deveriam produzir, em especial, de óleo & gás, de energia e transportes (ferrovia, rodovia, transposição de bacias). Foram invadidos por ratazanas de terno, à imagem do ‘grande líder’, amestradas para desviar dinheiro público e distribuir propina para coleções de ladrões apátridas.

Em 2014, com as eleições gerais, o brasileiro teve oportunidade para desinfetar este cenário, mas jogou-a ao lixo. Contudo, mesmo sob ameaça de extorsão do ‘grande líder’ a ‘seu povo’, desfechada pelos palanques em que urrava, a candidata que impunha à força recebeu apoio de apenas 38,16% dos eleitores. Significa dizer que o restante, 61,84% do total de votantes, optou por unir a nação. Votou também para ficar livre de ladrões nacionais e ‘seu único líder’.

Visão

Faltam somente 42 dias para terminar 2014, mas o ano prosseguirá a perder-se no horizonte do tempo, junto com seus antecedentes. Eles nunca se apagam e conformam uma preciosa base de informações históricas, a ser consultada sempre que necessário.

Por isso, não é preciso ser um ‘adivinho nostradâmico’ para concluir que a evasão de ratos e ladrões apátridas aumentará até o fim do ano. Será de forma expressiva, se não em números, decerto na descoberta de outras semeaduras de propina entre amigos, até então escamoteadas.

─ “Como se dará adesgovernançaa partir de 2015?” É questão desclassificatória da prova final, ainda sem resposta. Arrisque a sua…

Arrastão na Petrobras


Simão-pescador, Praia das Maçãs.

Simão-pescador

Simão-pescador

Nasci de minha mãe, a atenta e sisuda Dona Joaquina, na cabina do barco de pesca de meu pai, o saudoso Januário. Guardo nalgum canto da memória a primeira visada que tive logo após ser parido: era uma rede de pesca presa à ponta dum gancho metálico, içada em forma de saco, cheia de pequenos peixes arfantes. “A se debaterem”, imagino hoje.

Aos seis anos de idade já ajudava meu pai a armar sua rede de arrasto. Ela sempre a usava à meia-água, evidente. A pesca que mantinha nossa família seguia de forma severa as regras do mar e dos peixes. Além disso, o pai não tinha condições de adquirir uma rede de asas para arrasto no fundo e muito menos uma embarcação para pesca volumosa. Afinal, mesmo que pudesse, Januário nunca admitiu quem fizesse o ataque, com rede de fundo, aos habitats do ambiente marinho. Sempre dizia aos pescadores mais próximos: Pescar não é ameaçar o sustento futuro de nossas famílias!

Mas já naquela ocasião, a contribuir com minha parte, aprendera a jogar pequenas tarrafas da beira da praia. Os pescadores diziam que isso era próprio para crianças, mas nunca explicaram o por quê. Decerto, a pesca em terra firme não trazia riscos para os putinhos, bem diferente de tarrafar em frágeis barcos de madeira, ao balanço dos ventos em mar aberto.

Até hoje, dentre as artes de pesca, dou preferência às redes de arrasto à meia-água. É o equipamento comum dos pescadores das Maçãs, igual à escova de dentes e xícara de chá: usamos todos os dias.

Agora, imaginem o que pensei quando li, há cerca duns 12 anos, uma notícia sobre o ‘arrastão nas praias’ do Rio de Janeiro. Não era feito com minhas redes de arrasto!

Perdi quase um mês para entender o que seria uma turba de delinquentes a invadir um local público e praticar assalto coletivo. Decerto, ‘estavam a pescar’. Mas fiquei perplexo quando vi na televisão as cenas desses ataques. São atos bárbaros e violentos; inacreditável que ocorram numa nação que já se acha civilizada.

Com o tempo li mais notícias que retratavam o fenômeno do ‘arrastão’ no Rio. Não ocorria somente nas praias. Avenidas, ruas no centro, fileiras de bares nas calçadas, cinemas, tudo mais já fora ‘arrastado’!

República do Arrastão

República do Arrastão

Quando se aproxima o fim do ano, em todo o país surgem também os ‘arrastões oficiais’. Chega a hora de ‘arrastar veículos’. Há uma instituição pública que guincha todos carros estacionados em ditos ‘locais proibidos’. Mas por que ocorrem mais em fins de ano?

Simples, os brasileiros que trabalham com carteira assinada têm direito a 13º salário; muitos tiram férias nessa época. Assim, os ‘arrastadores oficiais’ acham que no fim do ano todos têm dinheiro de sobra para ‘pagar’. Inclusive o conserto dos freios destroçados pela ‘guinchada oficial’.

Entrementes, o ‘arrastão oficial’ se sofisticou. Chegou a ser visto como ‘arrastão federal‘.

Na última década transformou-se em quadrilha organizada, com cargos e funções, sem necessidade de burocracia. Dizem estudiosos da matéria que, dada sua grandeza, deva ser apreciada como ‘governo da República do Arrastão’ ou, na sua forma coloquial, ‘o arrastão da república’.

Bem distinto de seus similares, o ‘arrastão da república’ é quase insondável. Ele não ataca vítimas, sequer as toca, mas se infiltra como um verme e promove a extorsão compactuada de um ente público, até que ele feneça. A Polícia Federal principiou a desvendar as ações da grande matilha que executava o Arrastão na Petrobras.

Há indícios que a mesma tramoia esteja a ser executada em pelo menos três setores públicos: ferroviário, elétrico e rodoviário. Há obras que nunca acabam e só fazem ter seus custos aumentados – a Ferrovia Norte-Sul e a Transposição do São Francisco são dois casos típicos da ‘super-fatura‘, da ação delinquente da rede de arrasto de fundo.

Bem, uma vez que o ‘arrastão federal’ tornou-se prática prioritária de comando, é hora de realiza-lo às avessas: faça-se um ‘arrastão’ no governo, nos partidos políticos e nas quadrilhas aliadas. Afinal, enquanto atuarem dessa forma, continuarão a roubar os impostos pagos por seu povo, povo escravo e trabalhador.

A ser assim, tomo a liberdade para fazer uma sugestão. “Passe-os pelo arrasto de minha rede de fundo. Os que foremrecolhidos e ensacadosserão assados ao alho, regados com sal e vinagre até estrebucharem no ponto“.

─ Por fim, basta seguir a sinalização: penitenciária com eles!

Reflorestar já!


Ricardo Kohn, Consultor em Gestão.

Parece não haver outra forma de fazer, infelizmente. Mas certas decisões nacionais precisam ser radicais e intolerantes com aqueles que delas se desviarem, sem o quê, ‘fazem água’ e, no máximo, obtém resultados pífios.

Mas debaixo dessa perigosa premissa, tranquilizem-se: estão somente as decisões que visam a garantir a integridade do Patrimônio Ambiental Brasileiro, sem dúvida ainda um dos mais importantes do planeta. No entanto, o cenário atual desse patrimônio é grave e apresenta processos desastrosos, cujos efeitos negativos se multiplicam diária e regionalmente.

Sem dúvida, compreende-se que o ‘novo governo herdará’ (de si mesmo) severas crises de difícil solução – econômica, política, moral e corruptiva parecem ser as prioritárias. Contudo, a ver por outro ângulo, pergunta-se: aonde pretende chegar com sua permanente omissão frente a incêndios e desmatamentos criminosos, realizados em todos os biomas brasileiros? Deseja aguardar, complacente, que o território nacional transforme-se num gigantesco Saara, totalmente estéril?

Deserto do Saara, por Luca Galuzzi, 2007

Deserto do Saara, por Luca Galuzzi, 2007

É nítido que qualquer cidadão medianamente observador encontra neste cenário a semente de mais uma poderosa crise, com consequências temporais e regionais imprevisíveis, que podem acarretar despesas evitáveis, porém estimadas em dezenas de bilhões de reais para conter e sanar verdadeiros desastres ambientais.

As fortes oscilações do clima, o calor e a secura que se instala em grandes áreas do país, afetando a geração de energia e o abastecimento d’água, são apenas os primeiros indícios de uma forte desertificação que advirá caso a Crise Ambiental não seja tratada da forma devida, como fato prioritário da governança no país.

Sumário da Crise Ambiental

As regiões que foram recobertas pelos biomas Cerrado e Caatinga (cerca de 25% do território nacional) já possuíam essa tendência primitiva, como espelho do clima nelas ocorrente. A ser assim, haveriam de ser geridas com cuidados especiais, ambientais e agronômicos. Mas pouco foi feito. O fato é que estão a ser apagadas do mapa orgânico nacional, com seu uso e ocupação realizado por atividades destrutivas, que não possuem a visão do bioma como um todo, apenas do pequeno naco de terra de cada propriedade.

Brasil, o celeiro do planeta!’, é uma das exclamações mais clamorosas que ainda se escuta. Com essa visão, dotada de ‘burrice latifundiária’, o setor agropecuário brasileiro tornou-se ‘satélite do estômago’ das nações compradoras. Além disso, não possui meios para garantir bons preços de suas commodities no mercado internacional.

Ademais, o solo sofre os efeitos adversos das práticas da monocultura intensiva e necessita ações periódicas de manejo para ‘ser renutrido e descansar’. Dessa forma, a questão que se impõe é saber “como repor a capacidade produtiva do solona elevada velocidadeda demanda por produtos agrícolas que pretende atender”.

Apesar de leigos nessa matéria, acredita-se ser muito difícil obter uma solução por meio de práticas agronômicas conhecidas. Ainda assim, caso seja descoberta, será somente por tempo limitado. O Solofalecenas mãos cobiçosas do Homem e, junto com ele, também os aquíferos e a vegetação.

Porém, ao contrário, é com extremo vagar que instituições públicas às vezes respondem aos alarmes de ‘incêndios acidentais’ e desflorestamentos ilegais nos biomas Amazônia e Mata Atlântica. Com isso, ambos já sofreram perdas irreparáveis nas matas originais: a Amazônia já perdeu cerca de 40% de sua floresta nativa, e a Mata Atlântica, no entorno de 93%.

É absurdo trocar Matas Nativas por loteamentos, condomínios, pastagens, criação de gado e culturas agrícolas! Há outros meios disponíveis sem necessidade de se tocar nas matas. No passado, quando alguns poucos cidadãos se rebelavam contra este ato incompreensível e injustificável, críticos mais arrogantes desprezavam a realidade e aplicavam-lhes o jargão de ‘eco-chato’ ou, com nítido menosprezo, de ‘ambientalista’. Queriam silencia-los.

Entretanto, nas três últimas décadas, começou a ficar evidente a tendência preocupante dos rumos do dito Patrimônio Ambiental Brasileiro. Nas bordas limites de seus grandes biomas, forças externas da ocupação humana crescente, sem qualquer critério de controle, causam ‘corrosões’ acentuadas nas manchas da vegetação. É o chamado efeito de borda. Esse fenômeno reduziu de forma gradativa a área total dos biomas, enfraquecendo sua estabilidade espontânea e tornando-os mais vulneráveis a outras ações.

Aos poucos, sobrevieram ondas de calor em regiões e áreas do país, sobretudo decorrentes da derrubada de matas e savanas, que se conjugam com a constante dinâmica da ação solar. Assim, graves efeitos foram promovidos sobre o ambiente, impactando seu clima, seus recursos hídricos, os solos, a flora, a fauna e, por fim, a própria sociedade [1].

Uma ótica de abordagem

Para o caso brasileiro, lógico que sem menosprezar a ciência, segue uma visão mais imediata e pragmática. Até por que reservatórios de usinas hidroelétricas do país já estão a secar, assim como as nascentes de vários mananciais, com os conhecidos efeitos nas condições de fornecimento de energia e de abastecimento d’água para inúmeras cidades.

Diante da realidade brasileira, duramente afetada pela Crise Ambiental, que cresce e evolui em silêncio, é premente a implantação de um Plano Nacional de Ações para EmergênciasPNAE. Dotado de metas de curto, médio e longo prazos, bem como de critérios claros para avaliar os resultados alcançados, terá na sociedade civil organizada uma efetiva rede de fiscalização e controle.

Dispondo de equipe selecionada, composta por acadêmicos e especialistas, é viável elaborar e implantar o PNAE em até doze meses. Porém, para que realize os resultados esperados, sugere-se que algumas diretrizes sejam seguidas:

  • O PNAE não possuirá qualquer vínculo ideológico ou político, nem constituirá uma iniciativa de governo. Precisa ser proposto pela sociedade civil.
  • Por enquanto, o PNAE constituirá um conjunto integrado de ações e projetos que represente o desejo da parcela da população brasileira que se encontra melhor informada.
  • No entanto, projetos de Educação Ambiental serão implantados junto a comunidades que necessitam de melhores informações sobre práticas e benefícios de ‘conservar seu ambiente’. Dessa forma, ganham a participação no controle do PNAE.
  • Projetos de Educação Ambiental serão prioritários para as comunidades que vivem nas bordas dos grandes biomas.
  • Desmatamento Zero’ em todo o território nacional começará a vigorar junto com o início da elaboração do PNAE.
  • Todas as metas do PNAE serão formuladas a partir da visão global do Patrimônio Ambiental Brasileiro que pretende reconstruir e garantir sua conservação. O PNAE não enxergará propriedades, mas os biomas em que estiverem inseridas.
  • O PNAE estabelecerá que ‘incêndios criminosos e desmatamentos ilegais’ serão promovidos a crimes hediondos.
  • A prática chamada ‘Reflorestar Já!’ deverá ser seguida e implantada em todo o território nacional, compreendendo desde casas, ruas, praças, áreas urbanas, áreas militares, até sítios, fazendas, indústrias, matas e savanas degradadas.

Cabe ao poder executivo apenas endossar o PNAE e, quando requerido, alocar recursos para garantir seu sucesso. Isso é a Governança do Ambiente, ou seja, o presto atendimento aos interesses legítimos dos cidadãos.

Somente através desta prática de gestão pública torna-se possível produzir, crescer, distribuir renda para os trabalhadores, assim como, simultaneamente, manter a sustentabilidade dos biomas brasileiros.

Plantação de cacau dentro da Mata Atlântica

Plantação de cacau dentro da Mata Atlântica

[1] Aqui não se discute o mérito do efeito estufa ‘causado por atividades humanas’: efeito estufa antropogênico. Há diversas teses disponíveis, todas elas não demonstradas, mas que o explicam ao ‘gosto de cada cientista, político e artista cinematográfico’.

Brasil República


Sábado que vem, 15 de novembro, o Brasil completa 125 anos de República. Todavia, nesse curto prazo foi governado por distintos regimes políticos. Destaca-se a democracia, a ditadura, uma tentativa de fascismo brasiliensis ainda em trânsito no Congresso e, por fim, o modelo político básico, criado por “mentores” há 12 anos. Apelidou-se de “populismo-corruptivo”, na falta de título mais esclarecedor.

Proclamação da República

Proclamação da República

Porém, como todos sabem, o cidadão comum não sente seu cheiro nauseabundo quando o vê de longe, assentado impunemente na secura no planalto central. Por isso, é facilmente vendido ao povo como se fora uma democracia, embora trate-se de circo de fracassos, sistemáticos e factuais.

O populismo-corruptivo é cruel por consumir os princípios essenciais da nação, desgastá-la fatalmente com patranhas de projetos irrealizáveis que, na prática diária, servem apenas para desviar dinheiro público com destino a contas paradisíacas de “mentores et caterva”.

No entanto, este modelo de governo tem prazo final de validade. Diversos fatores impedem sua permanência, mas dois são definitivos: o fim do dinheiro público e o tempo de vida útil dos “mentores”. Isto porque os vassalos executivos não possuem condição de perpetrar os complexos processos requeridos, sobretudo a utilizar instituições públicas moralmente falidas perante a nação.

Como é possível ver nos resultados das contas de 2014, por fim distribuídas à imprensa, o dinheiro finalmente acabou. De tanto ser carregado como vento em malha de filó, o dinheiro público sumiu e acabou.

Porém, desgraçadamente, ainda restará à sociedade aguardar o falecimento dos mentores. Decerto, não faltará muito tempo. Contudo, é possível que o pior cenário nacional ainda não haja acontecido.

Desta forma, para o quadriênio que se inicia em breve, deseja-se muita sorte aos cidadãos brasileiros. E a propósito, Feliz 2019!

Fauna urbana


O ambiente do território brasileiro, com cerca de 8,515 milhões de km2, já foi o primeiro do mundo em abundância e diversidade da fauna silvestre. Seus ecossistemas básicos e em transição garantiam espaços domiciliares para um sem número de espécies faunísticas.

Embora algumas competissem do ponto de vista trófico, a maioria das espécies compartilhava habitats, áreas de reprodução, de dessedentação, de caça e de fuga. Todas assim procediam, por necessidade e acaso, e contribuíram durante largo período para a manutenção da estabilidade ecológica do ambiente brasileiro.

Todavia, esse cenário foi gradativamente transformado pela ocupação humana, com usos variados, mas, sobretudo, visando à exploração dos recursos primitivos: tanto os minerais e fósseis, quanto as áreas de solo agricultável e para pastagens de gado.

Hoje esse mesmo ambiente, embora ainda de valor incalculável, é parcialmente ocupado por mais de 200 milhões de habitantes (fauna racional), mais concentrados em sua faixa litorânea, que possui 7.491 quilômetros de extensão, graças à sinuosidade de certos trechos.

Ao longo das três últimas décadas, teve-se a oportunidade de atuar em consultoria ambiental e aplicar treinamentos em todas as regiões brasileiras e seus biomas. Durante essas estadas deparou-se com cenários ambientais incríveis: eram remanescentes de sistemas ecológicos estabilizados, que formavam um ambiente dotado da sustentabilidade original.

Uma enseada e pescadores de subsistência

Uma enseada e pescadores de subsistência

Entretanto, e com maior frequência, também se registrou áreas totalmente alteradas pela ação inconsequente do homem. A pouca vegetação que ainda lhes restava era frágil, secundária e descontinua. A fauna primitiva evadira-se há muito, cedendo lugar às oportunistas, chamadas “espécies de hábitos peridomiciliares”, tais como ratos, baratas, larvas, aranhas e mosquitos. Estas vivem em qualquer local que encontrem restos deixados pela fauna dita racional.

O que causa perplexidade é o fato da degradação ambiental, promovida de forma insana pelo homem, impactar de forma adversa e significativa a vida das comunidades humanas locais, sobretudo indígenas e famílias paupérrimas, rurais e urbanas. Torna-se complexo sobreviver em áreas de terra arrasada; a vegetação, a fauna e o homem original estão a sofrer um processo, senão de extinção, decerto de tortura diária.

Há um garimpeiro de pó de ouro neste talude

Há um garimpeiro de pó de ouro neste talude

Desmatamento e destruição do solo

Desmatamento e destruição do solo

A espécie humana precisa, o quanto antes, aprender a coexistir em habitats públicos, áreas de trabalho, de cultura, de lazer, sem a necessidade de sofrer processos de caça e, para subsistir, ter que criar áreas de fuga. Mas é isto que se assiste nas regiões do país, tanto em cidades quanto no campo: o povo acuado, a sentir medo de sair de casa e ser “caçado por seu irmão”. É um quadro patético, porém factual, com aparência de crescer diariamente.

Pois é, ontem estava-se acuado em casa a trabalhar quando, de súbito, surgiu um belo tucano jovem na grande amendoeira da rua. “Este não faz parte da fauna urbana do Rio”, pensou-se. Decerto, tratava-se de um fugitivo da Floresta da Tijuca ou do Maciço da Pedra Branca.

Embora tenha-se avistado o jovem de corpo inteiro, foi difícil fotografa-lo, pois não parava quieto. Afinal, estava com fome, a buscar sementes, larvas, aranhas e insetos (fauna peridomiciliar) meio às folhagens da copa da árvore.

Quando se mostrou sem folhagem à frente, apresentou peito alaranjado, em contraste com a penugem negra do dorso. Estima-se sua altura em 30 cm; uma bela ave inesperada na urbe, em rua com razoável trânsito de veículos.

Fez-se oito registros do tucano ousado, mas apenas dois ficaram com melhor foco e menos tremidos. Mesmo assim, a ave encontrava-se envolta na “erva de passarinho”, o que dificulta ver nas tomadas sua imagem completa.

Um pouco mais tarde, como sempre, apareceram pombos em revoada, a largar excrementos na rua e sobre veículos, bem como egocêntricos saguis correndo sobre inúmeros fios desencapados. Negou-se fotografá-los a ambos.

Ministério da Corrupção


Simão-pescador, Praia das Maçãs.

Simão-pescador

Simão-pescador

Estava eu a ler um bom estudo sobre a Idade Média [1], publicado recentemente, e a fazer minhas anotações. Buscava informação sobre a chamada Idade das Trevas, que decorreu do declínio do Império Romano e quase arruinou o continente europeu. Os reinos daquela época eram comandados por imperadores e sua trupe de ministros, digamos assim.

Entretanto, as “Trevas” impuseram-lhes duas condições para nomearem seus ministros. A primeira, sem dúvida a mais importante, era a existência no reino da coisa a ser administrada. Por exemplo, como não existiam processos de geração de energia na Idade Média, não caberia ter um ministro para gerir eletricidade e petróleo. Além de ser uma ótima economia nas trevas.

A outra, era secundária. Consistia no ato da Seleção Imperial entre os vassalos disponíveis. “Sem ofício nem benefício”, eles levavam a vida em festas, a se locupletarem à custa dos burgueses que produziam, mantidos sob regime similar à escravidão. Obviamente, cada imperador de reino escolhia para ministros os vassalos que lhe prometiam mais riquezas, obscura que fossem suas origens.

Esta condição continua a viger até hoje em vários países, sobretudo na América do Sul, suportada por dinastias de presidentes totalitários e omissos.

É facto que alguns países sul-americanos encontram-se sob a égide desta pobre condição. Venezuela, Argentina, Equador e Bolívia são os mais degradados, econômica e socialmente. Mas é uma questão de parecença, dado que não acompanho em detalhes suas tragédias governistas.

Doutra feita, sigo de perto o cenário do Brasil e o considero bastante grave. Trata-se de um paradoxo, pois precisa de tantas e incontáveis reformas, com custos estruturais de elevada ordem, que será mais fácil demoli-lo e projetar outro país. Necessita de um novo arquitecto, diverso da “doutora” que acaba de ser reeleita, uma vez que só fez sujidade ao longo de seu mandato, deixando para si própria um descomunal legado de lodo in natura.

Estive a analisar as reformas que soem ser imprescindíveis ao Estado Brasileiro: reforma política, burocrática, econômica, fiscal, monetária, ministerial e outras de que não recordo agora. Mas logo conclui que não há como realiza-las em sincronia, pelo menos se contar com as facções de “técnicos populistas” aparelhados pelo governo.

Como a maioria das reformas deverá ser aprovada pelo Congresso Nacional, sugiro que a “doutora” faça somente o que está ao alcance das mãos: a reforma dos ministérios, com todas as economias que dela advirão. Afinal, trinta e nove equipas ministeriais é um escândalo para qualquer gestor público. Dispense os vassalos, doutora!

De toda forma, só espero que a “exímia gestora” não siga a mesma política da Idade das Trevas: nomear uma trupe de ministros para ministrar apenas coisas que já existam. Dessa maneira, o país ficaria sem qualquer regente público para Educação, Saúde, Infraestrutura, Segurança e Economia. Seria o desespero do povo. Mas vale lembrar que, em troca, ganharia um espaçoso Ministério da Corrupção.

Futura sede do Ministério da Corrupção

Futura sede do Ministério da Corrupção

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[1] Epstein, S. A. An Economic and Social History of Later Medieval Europe, 1000-1500. Cambridge: Cambridge University Press, 2009.

Psicanálise nacional


Qualquer terapia psíquica – psiquiátrica, psicanalítica, psicológica – pressupõe a existência de um indivíduo que comete ações “pouco previsíveis”, às vezes nefastas à sociedade, e, do outro lado, um profissional habilitado que busca reconduzi-lo à normalidade social.

Porém, importa observar que terapias desse gênero resultam da iniciativa de indivíduos que reconhecem precisar de auxílio. Ninguém é obrigado a torna-se paciente de psiquiatra, mas apenas perceber que necessita de algum tipo de ajuda para conviver melhor em sociedade.

Qualquer pessoa que viva conforme à normalidade social pensa com base nos princípios da ética e age conforme os padrões morais da sociedade a que pertence. No entanto, não se deve esquecer que “a moral é a prática da ética” [1]. A ser assim, cabe uma pergunta:

─ “O que precisará ser feito quando a moral instituída pela Nação [2] não resultar dos princípios essenciais da ética?

Relação ética e moral

Relação ética e moral

De início, deve-se reconhecer que não se trata de uma Nação, mas apenas grupos estanques de pessoas que se relacionam de maneira imprevisível, todas com vistas a realizar interesses pessoais.

Em nações civilizadas, ética e moral são atributos espontâneos, premissas para a vida em sociedade. Contudo, a ética busca ser universal, enquanto a moral é individual. Verdadeira é a Nação que busca cunhar em seu povo os mesmos padrões morais de comportamento, sem tolher sua liberdade. Ainda assim, haverá exceções que, por mera questão de ética, são coibidas por instituições competentes.

Todavia, em certas “nações emergentes” o mesmo não acontece e o motivo é sempre o mesmo: governantes e políticos apátridas aprisionam boa parte da nação a seus próprios esquemas e interesses. É neste quadro que se erguem poderosos impérios do populismo, com vistas à manipulação das massas por meio de benesses imorais, já que a ética encontra-se abolida. A liberdade do povo é uma cenoura inalcançável, a balançar diante de seu nariz.

Em síntese, a Nação torna-se um hospício governado por indivíduos que cometem atos imprevisíveis, nefastos à sociedade. Esses já não têm mais cura. No entanto, seu povo precisa entender, com urgência, que necessita de sessões de psicanálise. Somente com essa terapia terá chances de retornar à normalidade social.

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[1] Por questão de ética, é ideal que antes de executar qualquer ação o indivíduo responda a três princípios básicos: Eu quero? Eu posso? e Eu devo? O primeiro exprime sua necessidade, aquilo que precisa ou deseja; o segundo, sua competência em obter o que acredita que precisa; por fim, o terceiro é a questão vital, pois considera os direitos da sociedade, que costumam limitar as ações de cada indivíduo nela inserido. Assim se procede uma ação com ética, a partir de uma base teórica e filosófica.

Por sua vez, a moral está implícita na ação executada, por isso mais visível, uma vez que é o resultado concreto da aplicação dos três princípios éticos. Exemplo: : um indivíduo quer ficar milionário sem trabalhar. : Todavia, não possui formação educacional ou ideia para realizar empreendimentos privados. : Porém, descobre o caminho de tornar-se político, montar esquemas fraudulentos e receber propina desviada do sistema público. Ele deve seguir esse caminho? Essa é a métrica usada para analisar a moral de pessoas diante dos fundamentos éticos.

[2] Diz-se que Nação é “o conjunto de indivíduos que falam o mesmo idioma, habituados a usos e costumes bem similares, acrescido das instituições que criaram”. No entanto, sem considerar aqueles que o governam, posto que são transitórios. De outro modo, espera-se que Nação seja “o povo reunido, com suporte das instituições que cria para servi-lo”. Enquanto houver condições de vida no planeta, somente o povo e suas instituições, ambos dotados de ética, buscarão ser permanentes.

Geleia Geral


Ricardo Kohn, Consultor em Gestão.

O cenário da nação está intrigante, sobretudo após a confirmação do resultado oficial das urnas. O fenômeno que se evidencia, pelo menos na cidade do Rio, é a apatia que reina nas ruas. Neste fim de semana, foi notável a redução do número de veículos e transeuntes na cidade. Escutou-se o silêncio . Aconteceram passeatas Fora Dilma, Fora PT! em várias capitais, mas em seguida aquietaram-se.

Porém, há outros indicadores mais abrangentes da aparente preguiça brasileira. Por exemplo, recebeu-se uma quantidade bem menor de e-mails e mensagens; ficou claro que o movimento nas redes sociais esteve bastante reduzido. Até mesmo colunistas tradicionais não atuaram da mesma forma nos periódicos online em que publicam seus textos.

Dessa maneira, com a redução do fluxo de bites, a internet ficou menos lenta. Talvez sejam efeitos do cansaço eleitoral, pois até a presidente reeleita deu férias a si própria. Foi passar o Dia de Finados na Bahia, decerto protegida por batalhão da guarda nacional.

Secessão

Ameaça de Secessão

A política de curral ou curral da política

Com tempo e silêncio suficientes para pensar sobre as ocorrências políticas que culminaram neste doloroso 2014, faz-se algumas reflexões.

As agressões durante a campanha eleitoral, efetuadas pelo primeiro-ministro sem cargo, que deviam ser em defesa da competência de sua criatura, foram dirigidas à pessoa do candidato de oposição. O que este sujeito imoral conseguiu foi a divisão social do país, entre pobres e ricos, “nós e eles”. Não teve a mínima inteligência para prever que estava a armar um grande pacote explosivo para a criatura desgovernada tentar o governo, em caso de vitória. E, de alguma forma, a terrorista foi reeleita.

Começaram as atualizações de preço de serviços e produtos vendidos pelo poder público. Isso era esperado, não obstante as declarações de campanha da reeleita que atestavam suas “boas” intenções: “juros e preços não crescerão no meu novo governo”. Além de uma possível carestia de produtos e serviços, não haverá qualquer novidade no “novo governo” da soberana idiota.

Com o aumento do preço de insumos básicos – energia e, decerto, gasolina – a “inflação controlada” vai crescer. Mas fiquem tranquilos, crescerá “controladamente”. Como se isso fosse possível num país com a economia em estado pleno de recessão.

A economia nacional encontra-se sob a tutela de um ministro demissionário. A escolha do futuro dono da principal pasta ministerial está uma bagunça. Por incrível que pareça, os nomes mais fortes cogitados pelo governo – sob direção da idiota reeleita e seu primeiro-ministro sem cargo – são banqueiros. Decerto, se por descuido aceitar, não se sujeitará aos comandos da idiota.

Cerca de 51 milhões de eleitores permanecem em dúvida quanto à honestidade das urnas eletrônicas usadas no Brasil. Através de ministros e de seu corregedor, o TSE nega-se a permitir que sejam realizadas auditorias técnicas independentes do pleito de 2014. Isto cria dúvidas, quase certezas.

Contudo, há depoimentos registrados de especialistas nesta matéria que acusam o software de contabilização de votos de ser primário em seus protocolos de segurança. É vulnerável a invasões que visem à manipulação dos resultados. Contratados pelo TSE, fizeram poucos testes da urna e do software em 2013, mas facilmente provaram que o sistema eleitoral brasileiro é bisonho, pode ser adulterado até mesmo por principiantes. Basta que recebam treinamento primário.

Acrescenta-se que, diante do relatório detalhado sobre as anomalias encontradas na urna e no software, entregue pela equipe de especialistas da Universidade Federal de Brasília, o TSE manteve-se impávido e tudo leva a crer que nada fez. Dessa forma, nas eleições de 2014, será que foi oferecida para o povo a mesma “armadilha de votos”?

Delações premiadas continuam a espocar. Há informes, ainda não apurados pela imprensa, que diretores de empreiteiras estariam interessados em “tirarem os seus rabos da reta” através da mesma conversa jurídica; porém, com “esclarecimentos complementares”. É justamente aí que residem mais riscos e perigos para a estabilidade do curral governista.

O Congresso Nacional poderá sofrer impactos significativos das delações, com cassação de mandatos. Mas, além disso, ficará fragmentado a partir de 2015. A própria “base aliada” já está seccionada e ameaça eliminar o poder absoluto do executivo. Fatos recém denunciados sobre os escândalos da petroleira comprovam que muitos “mamavam” nas mesmas obras. Mas ainda falta “dar nome aos bois”. A parcela informada da população aguarda-os. Ainda não há como prever qual será sua reação e com que intensidade responderá a mais outra lista da vergonha. Tudo bem, mas um mínimo de ordem precisa ser mantido.

Enfim, o Estado Brasileiro tornou-se uma Geleia Geral. Ninguém sabe, ninguém viu ou ouviu. Porém, um mestre-cuca afirma ser necessário acrescentar mais maisena, se não o Estado cai e se esborracha na merda.