O conto da perereca


Ricardo Kohn, Escritor.

A comunidade dos anuros a considerava um girino de perereca, uma futura rã. Isto por que os sapos adultos de várias famílias, após analisarem em detalhes seu jeito de locomoção nas bordas do lago, sua delicadeza na alimentação, concluíram que ela era fêmea. E mais, Merreca, como a apelidaram com desprezo, não serviria sequer para forragem de almoço, pois era frágil, com aparência de doente e quase não dispunha de carne. De forte tinha somente seu cheiro fétido e intenso.

Assim, sem ter pai e mãe, Merreca foi deixada à própria sorte, nos terrenos enlameados e traiçoeiros do planalto. Afinal, a saparia adulta tinha que montar uma estratégia de defesa, visando a enfrentar à crescente invasão de ratazanas gigantes em suas terras.

A horrenda imagem da ratazana gigante esfomeada

A horrenda imagem da ratazana gigante esfomeada

Elas surgiam do nada, em bandos de esfomeadas, a matar e mastigar tudo o que encontravam pela frente. Pareciam insaciáveis. Saporra, o anuro comandante da defesa, as observava em sua fúria devastadora. Permanecia imóvel sob as pilhas de folhas e galhos secos caídos das árvores (serrapilheira), sem sequer respirar. Porém, após o primeiro ano de ataques, verificou que eram episódicos, pois da mesma forma que surgiam, logo em seguida desapareciam, deixando a comunidade remanescente aliviada durante algumas semanas.

Chamado para depor sobre o caso no Conselho Ancião dos Anuros, Saporra contou o que assistira e, sem querer, criou expectativas nos ancestrais. Disse que, dada a delinquência dos ataques, caso as ratazanas não encontrassem o que comer, era provável que sua sanha antropofágica emergisse e viesse à tona de forma violenta. Assim, comeriam umas às outras.

Após seu depoimento, o Conselho reuniu-se a portas fechadas e, em regime de urgência, decidiu que toda a comunidade de anuros precisava trabalhar para dar aspecto de terra arrasada às áreas atacadas pelas quadrilhas das ratazanas. O Conselho tinha certeza de que os resultados da chamada “limpeza” demandariam bastante tempo, mas os anciãos não encontraram outra saída para salvar a vida futura da Nação Anura: liquidar com as ratazanas através da fome.

Embora haja considerado a decisão do Conselho utópica, quase inatingível, Saporra a aceitou e partiu para executar os trabalhos comandando suas tropas. ”Afinal, como sapos e rãs conseguirão eliminar tudo o que esteja vivo sobre o solo da Nação Anura?”, pensava ele.

Mas, sempre a confiar na sapiência de seus ancestrais, trabalhou muito duro na defesa da nação, chegando ao ponto de comandar toda a sociedade de anuros como se fossem tropas treinadas para a guerra. O pavor das ratazanas esfomeadas era tamanho, que uniu a nação de forma indelével e inextricável.

Após promove-lo por mérito ao posto de General Saporra, o Conselho Ancião convidou-o para que apresentasse os resultados alcançados em seu arriscado trabalho. Saporra, o General, prontamente atendeu ao convite e fez um breve relato oral dos fatos ocorridos.

─ “Há 12 anos, quando iniciamos a “limpeza”, as ratazanas eram cruéis, ameaçadoras, mas conseguíamos fugir de seus ataques. Poucos de nós sucumbiram sob a ação daqueles dentes assassinos. Aos poucos os ataques foram se tornando mais frequentes e violentos. Então, respondemos com limpezas mais intensas, mesmo a correr o risco de sermos chacinados. Custou um pouco, mas há cerca de 4 anos, tenho notado que a frequência dos ataques vem sendo reduzida. Se antes ocorriam de 4 em 4 semanas, passaram a acontecer de dois em dois meses. Conversei com meus coronéis e eles me afirmaram que as ratazanas estavam a ficar menos violentas ou talvez nem tão esfomeadas. Achei que estávamos no caminho certo, embora não soubéssemos os reais motivos dessa trégua, pois a limpeza ainda estava longe de acabar”.

Saporra fez silêncio para beber água e os conselheiros confabularam entre eles, em voz baixa. Em seguida, o mais antigo, bastante aflito, pediu-lhe que conclui-se o relato.

─ “Nos últimos dois anos só recebemos dois ataques. Mesmo assim, as ratazanas eram bem menores e fugiam quando roncávamos mais alto. Ficamos muito felizes, pois pensamos que, enfim, livráramo-nos nossa nação das quadrilhas esfaimadas. Mas não era nada disso que estava a acontecer. Os senhores se lembram da Merreca? Recordam que nossa academia de ciência afirmou que se tratava de uma perereca fêmea? Pois é, na verdade Merreca é hoje um macho adulto do sapo gigantesco do lago Titicaca, um tal de Telmatobius culeus, que passou a predar a todos, inclusive as ratazanas esfomeadas. Come-as como se tratassem de camundongos apavorados“.

O implacável Merrecão esfomeado

O implacável Merrecão esfomeado

Ontem, por fim, Merrecão se apresentou ostensivamente ao General. Avisou-lhe que, seguido por seus sequazes, irá destruir a Nação, mas não sem antes deglutirem todos os anuros locais sufocados. O cheiro daquele sapo enorme era tão intenso e terrível que, sem dúvida, houvera sido a fétida perereca do passado.

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