Viadutos que não desabam


Na cidade de Wuhan, situada na região central da China, foi construído um grande viaduto sobre uma linha férrea de alta velocidade.

No entanto, antes de iniciar a construção, a empresa construtora tinha alguns problemas para resolver: (i) demolir a passagem elevada existente (com duas pistas de 3,5 km de extensão) e (ii) construir em seu lugar um viaduto maior. Porém, com uma séria restrição: (iii) sem interromper os serviços do “trem-bala chinês”.

A demolição com explosivos da estrutura foi realizada a noite. Como a região possui muitos prédios residenciais, com canalização de gás, cabos de energia elétrica e de telefonia, era imprescindível reduzir a expansão da nuvem de fragmentos e poeira. A construtora seguiu a experiência britânica nesse tipo de demolição. Forrou a área do desabamento com sacos de areia e de algodão, para em seguida iniciar a “ordem de fogo”.

A maior demolição de viaduto jamais realizada na China – Foto BBC

A maior demolição de viaduto jamais realizada na China – Foto BBC

Pelos cálculos dos engenheiros, o novo viaduto, projetado com seis pistas e 5 km de extensão, teria seu peso na ordem de 17 mil toneladas. A questão era aonde construí-lo sem parar a linha férrea? Mas, como “cabeça não foi feita para separar orelhas”, a solução foi encontrada.

Engenharia para viadutos seguros que não desabam

Engenharia para viadutos seguros que não desabam

A estrutura do viaduto foi construída em duas seções, com canteiro de obras situados em paralelo à linha férrea. Mas com um importante detalhe de engenharia. Ambas foram construídas sobre um eixo de 15 metros de altura, com capacidade de rotaciona-las e fazer os encaixes sobre os pilares de sustentação e nos bordos da pista existente.

Girando um viaduto de 17 mil toneladas

Girando um viaduto de 17 mil toneladas

Viaduto encaixado nos bordos da pista, sem desabar

Viaduto encaixado nos bordos da pista, sem desabar

De fato, uma verdadeira “obra de arte” chinesa.

Porém, eis os viadutos que desabam!

Em doze cidades brasileiras “tentaram” fazer dezenas de obras urbanas. Segundo o que foi “vendido” pelo governo, eram todas para “melhoria da mobilidade urbana”. Além, é claro, de atender ao dito “Padrão Fifa”.

Segundo a soberana, sempre sob o comando de seu marqueteiro de estimação, somente com a execução do inventado “PAC da Copa” seria realizada a inventada “Copa das Copas”. Inventaram até uma “Lei Geral da Copa[1], válida apenas para as 12 cidades. Viveu-se um inferno de obras urbanas muito mal planejadas. Muitas delas não foram concluídas a tempo de atender a Copa da Fifa; quase todas foram superfaturadas.

Mas foi em Belo Horizonte (MG) que o “PAC da Copa” fez as primeiras vítimas que não eram operários da construção. Um viaduto ainda em obras despencou sobre uma avenida com elevado trânsito, no bairro da Pampulha e, por sorte, somente soterrou dois caminhões e um carro. Mas um micro-ônibus escolar também foi atingido e teve perda total em sua dianteira.

Todavia, como não poderia deixar de ser, a ação inepta e até mesmo criminosa dos gestores do “PAC da Copa” acabou por matar duas pessoas inocentes e feriu outras vinte e três.

Viaduto brasileiro desabado em Belo Horizonte

Viaduto brasileiro desabado em Belo Horizonte – China News

Ao comparar os riscos de segurança das obras do “viaduto chinês” (com 5 km), com os da “passarela brasileira” (com 112 metros), fica óbvio que os responsáveis por esse acidente seriam punidos pelo governo chinês de forma equivalente ao que destruíram, inclusive a perda de vidas humanas.

Para onde segue a engenharia brasileira?

Segue muito bem, obrigado. O que segue mal são as formas de sua contratação pelo sistema público. O critério de menor preço é simplesmente absurdo. Usado a título de fazer economia com o dinheiro público – o que é uma falácia –, o sistema dispõe de “esquemas” que permitem “acordos com a contratada” para que realize uma série de consecutivos “aditivos ao contrato”. Tudo leva a crer que ambas as partes saem ganhando – os sócios da contratada e os donos do Estado.

O governo sempre contrata o menor preço, mas graças aos aditivos paga, em média, ágio de 300 a 400% do valor contratado. A variação dos custos da construção da refinaria Abreu e Lima – de US$ 2, 5 bilhões, para US$ 20 bilhões – é prova cabal desta “ação entre amigos”. Não é à toa que a dívida pública brasileira alcançou R$ 2,12 trilhões, em 2013. Um recorde, equivalente a quase um décimo do PIB da China, o segundo maior do mundo.

Sugere-se, com base na ética da Engenharia, que todas as obras concluídas pela Delta e pela Cowan no Brasil sejam auditadas em termos de sua segurança, envolvendo a proveniência dos insumos construtivos utilizados, sua qualidade, as ferragens das estruturas, etc.

……….

[1] Quem tiver interesse, está disponível em Lei Nº 12.663, de 5 de junho de 2012. Tudo leva a crer que, com base neste diploma legal, o Brasil foi governado pela Fifa durante a Copa de 2014. Essa lei foi feita sob medida para garantir, sem quaisquer riscos, os lucros financeiros da Empresa Fifa e seus associados.

4 pensamentos sobre “Viadutos que não desabam

  1. Insinuar que a obra é do PAC é julgar responsabilidade sobre o governo federal. Quem tocou a obra foi prefeitura de BH ou governo do estado, não sei, ambos aliados do mesmo governo estadual que deixou cair a viga do monotrilho na cidade de São Paulo, e cuja incompetência provocou o desmoronamento da estação Pinheiros, também em São Paulo.

    Sobre para onde vai a engenharia brasileira? Terá que importar pofissionais, porque os nossos não aprendem mais a fazer cálculos estruturais, apenas orçamentos e controle de faturas. Os nossos engenheiros estão virando controllers, gerentes, administradores fajutos. Da construção mesmo estão fugindo, querem ser chefes.

    Sobre a dívida brasileira, ela – ao menos por enquanto – não é superior ao PIB, como é a dívida americana, a italiana, a grega, a espanhola, a portuguesa… Nenhum desses países consegue pagar seus próprios custos.

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    • Salve, prezado Rodrigo!

      Recebemos de braços abertos suas observações. Fizemos realmente uma provocação. Afinal, todas as obras que estavam programadas há mais de duas décadas sempre viraram “Obras de algum PAC”. Aliás, foi bastante noticiado o “PAC da Copa”, sem uso do dinheiro público.

      Sobre a engenharia brasileira observa-se que, com toda a certeza, não estão contratando os melhores, pois ela é muito boa.

      Quanto à dívida pública, preferimos não compará-la com a de outros países, mas apenas com o fato de que R$ 2,12 trilhões é recorde histórico brasileiro.

      Receba nossas saudações.

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