Laxante violento


Por Simão-pescador, da Praia das Maçãs.

Simão-Pescador

Simão-Pescador

Todos sabem da existência de um remédio branco leitoso, que a mim causava ânsia de vômito quando tomava. Era destinado a tratar prisão de ventre crônica e acidez estomacal. Chamava-se Leite de Magnésia.

Pois é, uma indústria europeia acaba de lançar um novo medicamento que visa a “impedir a falação de asneiras crônicas por parte de políticos e governantes”.

Fui convidado a selecionar um representante especial para comercializar esse remédio em toda a América Latina, com ênfase no Brasil. Segundo extensas pesquisas que realizaram, disseram-me que o mercado brasileiro é monstruoso, “deitado boçalmente em berço esplêndido” (segundo eles).

Aceitei de pronto a oportunidade, muito embora, a meu ver, o presidente da fábrica estivesse por demais entusiasmado com seu novo produto. Isto porque, tenho certeza, é impossível impedir que políticos brasileiros deitem falações plenas de asneiras e mentiras; no máximo conseguirá amenizá-las, mesmo assim, muito pouco. Inda mais neste ano de eleições gerais, em que todas as televisões e rádios do país são obrigadas a conceder tempo gratuito para transmitir a “fala dos candidatos”. É o horário medonho das telecomunicações brasileiras.

Enquanto visitava os laboratórios da fábrica, com todo cuidado, tentei mostrar ao presidente e sua equipe de cientistas o que chamei de eventuais obstáculos ao comércio do produto. Fui muito polido, com certeza, mas não me deram ouvidos. Assim, esqueci do assunto.

Levaram-me para uma área onde a equipe debatia sobre como fazer o marketing com o nome do produto. Pensei cá, com meus botões: ─ “Leite de Asnos cai bem”, mas fiquei em silêncio.

E foi oportuno, porque o líquido não tinha nada de leite. Era grosso, viscoso e amarronzado. Porém, o cérebro humano é muito rápido ao fazer associações inconscientes e atemporais. Senti meu corpo estremecer, uma ligeira ânsia da infância e, de súbito, o nome “Magnésia de Merda” veio-me a mente. De forma ainda incontida, soltei uma infantil gargalhada, que ressoou por todo o ambiente da fábrica.

Senti-me a suar e ruborizado debaixo do olhar severo dos gajos. Pedi-lhes desculpas e sai de fininho, dizendo que acabara de fazer uma associação inesperada entre o novo leite e certos atores da política mundial. Acho que todos me compreenderam, em especial logo após o sorriso e os dois tapinhas nas costas que recebi do presidente da empresa.

Simão, acompanhe-me, vou lhe mostrar uma parte de nosso segredo”, disse-me o presidente, a conduzir-me ao laboratório principal, o de biomedicina.

Conheci o magnífico laboratório e assisti vários experts a trabalhar. Se estava adequado, confesso não ter a menor ideia. Sobre o segredo deles, contaram-me quase nada. Fui informado apenas que a base do líquido viscoso que produzem é hidróxido de magnésio – Mg(OH)2, a mesma do emoliente fecal “Leite de Magnésia”.

Mas há outras substâncias componentes, extraídas de uma espécie da fauna marinha, um tipo de octópode. Segundo explicou o chefe do laboratório, essas substâncias “cessam os efeitos laxantes do hidróxido, são capazes de acalmar candidatos a cargos eletivos e reduzem as rajadas de asneiras e patranhas que sempre proferem em comícios. Mantém-nas em nível adequado para que os eleitores [quase alfabetizados] sejam convencidos de que são aceitáveis”.

A essa altura da visita, já resolvera pensar mais um pouco acerca do convite. Pareceu-me complexo demais para dar resultado. Diria mesmo, safado demais. Ganhei um embrulho contendo dois frascos do tal leite. Decerto, nunca o experimentarei. Mas, ao chegar em minha choupana na praia à noite, li a bula do leite amarronzado.

Nela havia tão-somente uma contraindicação: Indicado somente para humanos idiotas.

No entanto, ao fim da bula constava o seguinte alerta:

Atenção! Em caso de overdose de asneiras e patranhas proferidas, suspendam de imediato o uso de “Leite de Molusco” e procurem seu médico com urgência! 

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