O panaca


Por Zik Sênior, o eremita.

Zik Sênior

Zik Sênior

Como já disse, tenho dificuldade de expressar meus pensamentos, acumulados há 104 anos. E isso é normal. Mas, após publicar uns textos neste blog, descobri que me sinto mais à vontade quando uso a ironia como meio literário. Pois, seguem algumas delas.

Numa visão restrita, panaca é um ser humano considerado ingênuo e simplório. Mas há dicionários que vão além e o definem como “tolo, imbecil e pretensioso”. Acho que são duas coisas distintas, com efeitos diferenciados; ou não? …

Para esclarecer minha dúvida fui consultar o Prof. Memorito[1], Doutor em Psiquiatria. E ele respondeu-me dizendo que usava outra terminologia para se referir ao que chamei de panaca. Classificava-o como parvo. Disse-me que “parvo é o ser humano que carrega um quadro de debilidade mental, psicopatológico, que nem sempre pode ser amenizado. Ao contrário, o quadro pode evoluir e tornar-se mais grave”.

Foi dessa maneira que me lembrei da música de Gonzaguinha – “É” – com um verso objetivo referido ao panaca: “A gente não tem cara de panaca”. Decididamente, ele se referia ao fato do cidadão brasileiro não ser parvo, débil mental, embora às vezes até possa parecer muito…

Mas a música emenda, em sequência, o verso “A gente não tem jeito de babaca”.

Observando o contexto político da época, se bem me recordo, estávamos sob o império das matracas corruptivas de Sarney e Collor. Nesse cenário, a perplexidade do compositor foi marcada também na música, que traduz um misto de revolta e busca da paz. Creio que usou a rima emparelhada para demonstrar que, naquela época, panaca e babaca se completavam perfeitamente[2].

E assim foi, pelo menos até a cassação de Collor, quando a economia do país encontrava-se quebrada e a inflação alcançava a casa dos 80% ao mês. Para o espanto nacional, em outubro de 1992, o rapaz, após renunciar por ameaça de impeachment, desceu a rampa com ar insolente e pretensioso. Mais parecia uma rampeira ultrajada, com jeito de babaca  dentro de sua fatiota.

O medo do débâcle da economia nacional era tão generalizado, que a sucessão do cargo de Presidente da República transcorreu de maneira tranquila. Não causou qualquer espanto ao povo brasileiro. Traduziu-se assim: caiu um delinquente e ascendeu seu vice, Itamar Franco. Até por quê, nenhum grupo político desejava manusear a “massa marrom e quente”, deixada à deriva por Collor e Sarney.

Em síntese, a missão de Itamar era a de reconstruir o Brasil, arrasado por mais de oito planos econômicos que foram testados no país desde a terceira crise do petróleo, em 1979. Contudo, Itamar não era parvo nem babaca. Soube muito bem se cercar de pessoas mais competentes do que ele nas áreas que julgava como chave, sobretudo, economia, saúde e educação. Sua equipe concebeu, elaborou e implantou o Plano Real quase dois anos depois, em 1994.

Não há dúvida – pelo menos para mim – que o Real deu vida mais longa ao país, que ganhou credibilidade internacional. Superou diversas crises mundiais – do México, as Asiáticas e a da Rússia – para desembocar no século 21. Enfrentou fortes estremecimentos da economia internacional e, ainda que um tanto enfraquecida, refez-se naturalmente quando o mercado mundial tornou-se comprador, a partir de fins de 2002.

Estava à frente desse novo samba-enredo a China, fazendo compras espetaculares de commodities. Isso aconteceu já no governo do “senhor da Silva” que, de forma inexplicável, se tornara amigo próximo da dupla Collor-Sarney. Afinal, sua lábia era um conto de fadas corruptas.

O governo de “da Silva”

O “senhor da Silva” manteve a política econômica de seu antecessor, pelo menos no primeiro mandato. Se bem me lembro, quando ainda estava em campanha para as eleições, assinou uma “carta dirigida ao povo brasileiro” dizendo que manteria a mesma política econômica de seu antecessor. Porém, é bem verdade que esta carta foi “específica para empresários estrangeiros”, os quais, por se sentirem ameaçados com a provável eleição do “senhor da Silva”, desde o início de 2002, congelaram bateladas de investimentos do Brasil.

No entanto, apesar de não ser parvo ou panaca, “da Silva”, após a denúncia do escândalo do mensalão, demonstrou publicamente que era arqui-mentiroso tresloucado.

Sua primeira reação em diversas entrevistas foi dizer “não vi nada”. Depois sucedido pelo “nunca ouvi falar”. Mas aos poucos teve que ceder, passando a argumentar que seu partido fez somente o que todos sempre fazem – um singelo e criminoso “caixa 2”.

Dando sequência à “evolução desse nobre pensamento político”, retiro da coluna de Augusto Nunes palavras “comovidas do senhor da Silva”, aceitando que o mensalão realmente acontecera, mas que não soubera de nada. Fora mais outra vítima, além, é claro, dos 190 milhões de brasileiros cinicamente tungados:

─ “Eu me sinto traído por práticas inaceitáveis. Indignado pelas revelações que chocam o país e sobre as quais eu não tinha qualquer conhecimento. Não tenho nenhuma vergonha de dizer que nós temos de pedir desculpas. O PT tem de pedir desculpas. O governo, onde errou, precisa pedir desculpas[3].

Em tese, essa declaração pública seria mais do que o suficiente para um pedido consistente de impeachment. A meu ver, “da Silva” somente não foi destituído do poder por dois fatos: a oposição estava e é fraca e, dessa forma, não poderia correr o risco de recolher assinaturas dos “senhores parlamentares”. Até por quê, em meados de 2005, os poucos integrantes da oposição não tinham como saber quais eram os patranhas com a moral carcomida pelas traças do poder federal. Nem mesmo uma CPI foi possível de ser instalada para investigar atos dos salafrários.

Não posso afirmar que todos os eleitores brasileiros foram panacas. Seria uma ofensa. Mas o fato é que, apesar do mensalão e de outros escândalos de menor envergadura, “da Silva” foi reeleito em outubro de 2006, no segundo turno, com 60% dos votos válidos. Porém, há uma razoável reflexão para esse “acidente de percurso[4].

Já no segundo mandato, o “senhor da Silva” abdicou da ordem econômica, iniciada em 1994. Como dizem, “chutou o pau da barraca” e instaurou a desordem controlada. Há quem diga que seu amestramento se deu em cursos rápidos feitos na Venezuela e no doutorado de visitas a Cuba. É fácil imaginar qual tenha sido sua provável área de concentração.

A partir daí, “da Silva” gastou muito mais tempo “negociando seu futuro” em viagens para o exterior, do que com a bunda sentada em seu gabinete de trabalho. Assim, como diz a imprensa, tornou-se um “notório conferencista internacional“, após receber alguns títulos de doutor honoris causa. Em quê?! A nação gostaria de saber.

Com o início do julgamento do mensalão e as crescentes ameaças legais a seu “companheiro” – que desde 2003 encontrava-se disfarçado de ministro da casa civil, mas hoje é hóspede de penitenciária –, “da Silva” iniciou o trabalho de invenção de sua nova Criatura. Vendeu-a ao povo brasileiro como sendo doutora em economia, gerente infalível, a suprema técnica e mãe dos “grandes projetos” de seu governo.

Não vou me alongar detalhando os escândalos e crises dos mandatos de “da Silva”. Apenas saliento que, em 2010, comentei com alguns amigos:

─ Se esta “Criatura” vencer as eleições precisará ser uma bruxa excepcional para desarmar as bombas de tempo que lhe foram deixadas!”.

Governo da “Criatura”

Quando observo apenas os resultados do mandato que chega ao fim em 2014, verifico o que é a calamidade da desordem herdada e do desgoverno safado que realizou. Segue uma lista com apenas dez resultados alcançados, sem fazer esforço:

─ Preço absurdo de alimentos.
─ Inflação a ultrapassar o teto da meta.
─ PIB ridículo no período.
─ Indústria a andar para trás, como caranguejo.
─ Intervencionismo do desgoverno federal.
─ Alto risco de falta de energia elétrica.
─ Eletrobras quase falida.
─ Petrobrás à beira do colapso.
─ Negócios imundos com várias refinarias de petróleo.
─ Tempestades de propina entre companheiros.

Fico com esses resultados, que são nítidos para qualquer cidadão brasileiro. Mas essa lista pode se tornar descomunal, caso se considere os 12 anos de maldades que foram impostas à Nação Brasileira, para usufruto exclusivo de “fiéis vassalos”.

Gostaria que algum jornalista ou historiador completasse esta lista.


[1] O Prof. Shikimaka Shitemo Memorito é autor de artigo publicado no blog – “Improbidade Psíquica”.

[2]É”, de Gonzaguinha, interpretada por Simone.

[3] Nota: a coluna oferece o vídeo gravado em 12/08/2005, onde “da Silva”, na abertura de uma reunião ministerial, lê o texto completo, acima sintetizado. Decerto, foi redigido por um cara-de-pau relativamente alfabetizado e muito bem pago com o nosso dinheiro público.

[4] Para um eleitorado com cerca de 125 milhões de eleitores em 2006, as abstenções alcançaram a casa dos 24 milhões. Votos nulos e em branco chegaram a 6 milhões. Ou seja, os votos considerados válidos foram realizados por apenas 95 milhões de eleitores, cerca de 50% da população brasileira recenseada em 2010. Não consegui obter dados da população brasileira em 2006. Ainda assim, estimo que os votos de “da Silvaforam da ordem de 35% da população brasileira, o que é o teto máximo alcançado pelo partido, Através der eleitores idiotas, vitrificados pela ideologia comuna-populista que, nitidamente, é falsa.

Dia da Mentira


Simão-pescador, Praia da Maçãs.

Simão-Pescador

Simão-Pescador

Faltam apenas 9 dias para a chegada de mais um 1º de Abril, dia conhecido pelas mentiras que todos gostam de pregar nos amigos. Nos países de língua inglesa, chamam-no de “Dia de Tolos” – Fools Day. Nós, portugueses, consideramos esse título imbecil. Dia de Idiotas só é perfeito para países do Reino Unido.

Mas, de toda a forma, no mundo ocidental essa data é uma espécie de Interstício da Verdade. A mentira é noticiada seriamente, mas trata-se tão-somente de uma infantil brincadeira. Creio, como é dito no Brasil, que é “só de sacanagem”.

Lembro-me dos tempos de infância quando caía nessas “pegadinhas”. Acreditava em tudo o que me contavam e não passava um Dia da Mentira sem ouvir do coro de vozes dissonantes o estridente refrão:

─ “Caiu no 1º de abril!”.

Era sempre seguido de gargalhadas de colegas e amigos, que me ruborizavam e faziam-me sentir raiva da própria inocência.

Trago na memória estes factos que, decerto associado a fatores genéticos e comportamentais – que sei eu?… –, de alguma forma influenciaram-me a capacidade de crítica. Quase tornei-me desconfiado, não tivesse desde cedo a extrema vontade de ser extrovertido.

Hoje, próximo a completar 98 anos de idade, exatamente em 1º de Abril, saudável e extrovertido, reli os textos que publiquei neste site, com destaque para a “Carta aberta da Estremadura”. Pude verificar coisas curiosas, todas endereçadas “a sua senhoria”. Não vou entrar em detalhes sobre elas, mas, em suma, a longa experiência da vida de um pescador artesanal é suficiente para prever quando “o mar não está para peixes”, ainda que estejam “blindados” por furiosos tubarões de goela larga.

Desta maneira, sua senhoria, continuo a desejar-lhe mais do que extrema sorte, pois é muito provável que “seus tubarões de estimação” estejam a planificar coisas estranhas contra a capacidade do país boiar, levando-a, junto com seu antecessor, à reboque para o fundo de águas escuras. Sua herança política realmente foi maldita, disso não tenho dúvida alguma.

Mas, afinal, a senhora continuou a dar margens a isso durante sua jornada em todos os cargos públicos que ocupou. Sua retórica é desatinada, seus espasmos gramaticais são ininteligíveis. Dão a impressão que, há mais de 11 anos, o calendário anual do Brasil possui 365 dias iguais ao 1º de Abril. Todos dedicados ao exercício da patranha e da corrupção.

O justo Direito Humano


Ricardo Kohn, Escritor.

O Direito remonta a duas nações da Mesopotâmia – Babilônia e Pérsia – as primeiras referências conhecidas sobre deveres e direitos do indivíduo. Constam do Código de Hamurabi e, posteriormente, do Cilindro de Ciro. Ambos foram cunhados há mais de 3.500 anos. 

Código de Hamurabi cunhado no totem

Código de Hamurabi cunhado no totem

No entanto, em pleno século 21, está-se diante de um frágil cenário mundial na questão dos direitos que qualquer cidadão precisa possuir: os ditos direitos humanos.

Todavia, para um indivíduo ter direitos inalienáveis, também é essencial que cumpra com deveres consagrados pela sociedade moderna. Ou seja, cada indivíduo precisa atender aos deveres da cidadania.

Essas são as condições básicas da civilidade, a qual permite, em tese, o debate e o convívio de pessoas em sociedades civilizadas. Porém, esse discurso somente é viável para famílias, entre bons amigos e mesmo em pequenos grupos de indivíduos. Todavia, quando se consideram os “Estados Nacionais e sua Soberania”, esse discurso parece utópico.

Em função da cultura e da educação de povos e de seus governantes, ou, mais precisamente, pela falta total delas, a “universalidade dos direitos humanos”, proclamada aos sete ventos pelas Nações Unidas, é mera retórica de microfone. Nesse cenário destacam-se nações que naufragaram na tal da Primavera Árabe – Tunísia, Egito, Líbia, etc.

Contudo, há quadros ainda mais graves. Ocorrem em países que se encontram mergulhados na Síndrome da Bestialidade, onde o direito do cidadão simplesmente não existe. Foi abolido à força. São os casos explícitos das ditaduras de Cuba, Venezuela, Coréia do Norte e Síria, esta última a sofrer uma brutal convulsão civil.

Mas não se encerram com estes dois grupos as ameaças aos direitos civis. Têm-se ainda os Estados acometidos pela Síndrome Carnavalesca, que têm como alvo final a desorganização completa dos seus sistemas político, executivo e jurídico. Há várias nações que, de forma incisiva, demonstram estar possuídas por essa síndrome.

Muito embora sigam por caminhos distintos rumo à derrocada, nelas há sintomas evidentes de alguns fenômenos idênticos, a saber: corrupção governamental, ausência de gestão, discursos sistemáticos a desdizer o que fora dito ontem, promessas e patranhas para seus povos, enriquecimento ilícito de líderes, enfim, a nação torna-se uma tramoia particular das quadrilhas que a dominam.

Pensar na aplicação do princípio de talião nesses países não constitui absurdo. Até porque esse princípio, que data de 1.780 a.C., instituído na Babilônia pelo rei Hamurabi, visava a impedir que os cidadãos fizessem justiça pelas próprias mãos. Assim, instituiu a reciprocidade entre crime e castigo, comumente chamada de “olho por olho, dente por dente”.

Apenas como exemplo, cita-se como um juiz brasileiro aplicaria a Lei de Talião em seus julgamentos:

─ Gostais de “carnavalizar” o país? Pulareis “carnaval” diariamente, durante o resto de vossa vida.

Roubastes? Pois sereis roubado na mesma e exata medida!

Matastes? Sereis morto de forma idêntica e sumária.

Enriquecestes ilicitamente? Perdereis todas as vossas propriedades em igual valor, logo após serdes castrado.

Pelo simples fato de que cidadãos criminosos estariam a cumprir fielmente com seus deveres, o justo direito humano estaria atendido com a aplicação desta lei milenar.

No entanto, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, da ONU, diz o seguinte em seu Artigo 1º:

Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.” Faltou aqui a conclusão: “…, caso contrário, cumprirão as penas da lei”.

De toda forma, cabe ainda explicitar uma restrição no texto desta Declaração Universal:

─ “Válido apenas para seres humanos”.