O neurônio que se perdeu


Sou um neurônio abandonado.  Chamam-me Lost. Tudo aconteceu em menos de um nanosegundo. Todos os bilhões de neurônios, meus colegas de trabalho, simplesmente debandaram desse cérebro…

Era assim eu conversava com meus colegas

Era assim que eu conversava com meus colegas

A intensidade das conexões sinápticas (as nossas “estradas neuronais”) reduziram-se de forma drástica. Os “corredores do encéfalo” estavam vazios, nada existia ali além de mim mesmo. Estava muito solitário, perdera grande parte da capacidade de transferir informação, de comandar ações e respostas do ser vivo em que me abrigava.

Imagine você, eu passei a gastar mais de 10 segundos para comandar qualquer ação a estímulos, internos e externos. Perdera minha função. Esse tempo é inútil, uma eternidade neuronal.

─ “Como meu espécime iria sobreviver desta maneira?

Precisava refletir sobre o que estava a acontecer. Por isso, disse a mim mesmo: ─ “Lost, feche os olhos, relaxe, respire fundo e fique calmo.”

Foi o que fiz várias vezes. Mas comecei a falar sozinho com paredes: ─ “Mas paredes do quê, onde estou?

Por fim, não consegui mais pensar por causa de um cheiro estranho que percebia. Assim, tornei-me um operário para limpar o mofo daquele encéfalo. Melhor do que ficar parado, sem fazer nada de útil. Afinal, a casa de minha comunidade precisava ser asseada.

Enquanto trabalhava, vez por outra me interrogava: ─ “Não sei como, mas, por algum motivo, será que fui levado para os intestinos deste espécime?!

Mas acabei por concluir que isso seria improvável, pois sou uma célula especializadíssima, embora ainda não estivesse a produzir minhas réplicas. Por que será?, pensei.

Continuei operário, a trabalhar. Estava definitivamente residindo em um encéfalo e isto me fez muito bem. Acendi todas as minhas luzes e confirmei que o ambiente era cerebral. Contudo, nele haviam várias mudanças drásticas, pois era muito pequeno, restrito, mesquinho e desorganizado. Nele só caberia mais um neurônio. Mesmo assim, desconfortável para ser de um “pensador”.

Fechei os olhos e respirei fundo várias vezes. Acabei por concluir que eu fora transplantado para o encéfalo de outro ser vivo. Lentamente, mesmo com minhas novas dificuldades para receber informes, comecei a avalia-lo sozinho.

Verifiquei que se tratava de um bípede idoso, de baixa estatura. Realizava atividades de pouca inteligência. Ingeria muito álcool, tanto que me vi obrigado a ativar minhas poderosas defesas para não ficar bêbado também. Pareceu-me um imitador ou, como diziam meus colegas, um espécime de “pau-mandado”.

De início pensei que se tratava de um símio, mas símios não ingerem álcool a toda hora, nem não dão longas e tenebrosas gargalhadas . Conclui que, desgraçadamente para ele, era um espécime humano.

Para mim, não fazia diferença estar no encéfalo desse espécime ou de outro mais exigente. Adapto-me com facilidade a cenários em que não sou demandado por ações que requeiram inteligência.

Enfim, eu, Lost, decidi que minha existência seria serena e divertida em admirar as burrices do cérebro desfalcado, que carregava um idiota humano. Por isso mesmo, gostaria de saber seu nome e o que faz na vida. Mera curiosidade de um neurônio solitário que se perdeu.

2 pensamentos sobre “O neurônio que se perdeu

  1. Caro amigo Ricardo,
    Não terá sido este pobre neurônio, infortunadamente, tragado pelo terrível “célebru” do molusco mor ?
    Beto

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    • Beto,
      Tudo leva a crer que sim. Em especial pelo fato do neurônio solitário ter “desistido” de “procriar“…
      Prefere assumir toda a culpa sozinho. Eta! Que neurônio responsável!
      Kohn.

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