Rastilho de pólvora da impunidade


Por Zik Sênior, o eremita, 104 anos.

Zik Sênior

Zik Sênior

Desci a pé da Aprazível e continuei pela ladeira de paralelepípedos até o Armazém do Garcia. Como sempre faço aos domingos, fui conversar com os mesmos amigos e “dar uns tapas” na aguardente. Aliás, cumpro religiosamente com essa tradição há mais de 80 anos.

Como cheguei ao Garcia um pouco cedo, abri o jornal sobre a mesinha junto ao bar e assustei-me com a manchete da primeira página: “Assaltos dobram na Barra e em bairros da Zona Sul”. Folheei até a página 13 para ler mais detalhes da notícia e encontrei a “Mãos ao Alto”. Eram as estatísticas de assalto e furto do mês de julho passado. A que ponto chegamos, pensei.

No mapa que ilustra a reportagem os assaltos estão divididos por áreas de ocorrência. Numa área, que abrange Botafogo, Flamengo, Laranjeiras, Glória, Urca, Catete, Cosme Velho e Humaitá, de junho para julho, os assaltos a transeuntes cresceram em 82,5%. Na área da Barra da Tijuca e bairros adjacentes, esse crescimento, segundo o escriba do jornal, foi de 91%, no mesmo período. Trata-se de um quadro aterrador para cidadãos civilizados. Até parece manobra de terroristas e que a cidade está a ser literalmente sitiada por ladrões.

A brutalidade de um assalto

A brutalidade de um assalto

Por outro lado, fiquei muito puto, pois o bairro em que nasci, fui criado e vivo até hoje – Santa Teresa – não foi citado na reportagem. Afinal, Santa pertence à Zona Sul ou ao Centro?

Não me importa se nunca fui assaltado na vida. Importa-me, isto sim, os riscos que passo a correr com o crescimento da criminalidade na capital do Rio, no estado do Rio e no Brasil inteiro. Os riscos  a mim impostos e a todo o povo brasileiro!

Cabe-me salientar que o redator da reportagem falou de tudo sobre os números mapeados, mas, à exceção da área do Aterro do Flamengo, esqueceu-se de contar como e por quem os assaltos são praticados. Falou muito, mas, de fundamental, nada disse. Apenas gastou máquinas, tinta e papel.

A arriscar uma análise

Quando servi ao Exército, em 1926, aprendi a armar e desarmar alguns artefatos explosivos. Eles usavam pólvora negra, que tanto servia para garantir boas explosões, quanto para fazer o que no quartel os oficiais superiores chamavam de “redundâncias da explosão”. Uma dessas redundâncias consistia em deixar um rastilho de pólvora que nos conectava aos explosivos por meio de um palito com fósforo aceso. Muito precário, mas era assim que funcionava. Claro que ficávamos estacionados a uma distância relativamente segura das bombas. Caso elas não explodissem, conforme houvéramos combinado, acendíamos o rastilho e corríamos feitos doidos. Claro que atrás dos oficiais que, nestes casos, por hierarquia, estavam sempre à frente.

Em minha visão, 87 anos após, estamos a reviver os tempos dos rastilhos, mas não os da pólvora negra, e sim os rastilhos da corrupção serial, como muito bem narrou Simão, em sua recente crônica – A variedade de “bestas-seriais”.

Na verdade, acho que estamos a retroagir política e socialmente. No âmbito da civilização, nossa nação parece nunca haver saído do zero absoluto. Apenas pequenos grupos de pessoas conseguiram superar incólumes a esse desafio elementar: serem civilizadas e educadas, terem saúde e conseguirem espaço para trabalhar de forma produtiva e árdua.

Precisamos reverter essa realidade geral corruptiva, em que prefeituras roubam apaniguadas com governos de estado. E estes, por sua vez, não são mais do que meros despachantes da corrupção e do roubo federal.

Se for assim, as causas principais da ladroagem estão na ponta da pirâmide pública. Seus gestores são ladrões que nos olham de cima para baixo, roubando-nos em cascata, de forma descarada e com grave insolência. Acham que roubam porque têm razão e sempre se manterão impunes.

4 pensamentos sobre “Rastilho de pólvora da impunidade

  1. Eu entrei na estatística do assalto a transeunte. Fazer o quê? Estamos na terra do Cabral, que nos assalta na rua ou em casa, dormindo ou acordado.
    Felipe

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    • Antes de tudo, torno a cumprimentá-lo pelo aniversário. Muitas felicidades, Felipe.
      Quanto ao assalto, não há dúvida que a sociedade carioca está sendo submetida a um grande desafio.
      Espero que saibamos como sairemos do outro lado.
      []s do Kohn.

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