Carta aberta da Estremadura – Portugal


Senhora, desde já, receba meu mais sólido respeito.

Isto posto, devo asseverar que, com sinceridade, cá não sei como iniciar esta breve narrativa, dirigida, em especial, à dignidade de sua senhoria. Creio que primeiro me devo apresentar…

Chamam-me até hoje de Simão-pescador. Sou português, nascido na antiga Província da Estremadura, em 1916. Trata-se de uma região de Portugal que, se bem me lembro, reunia as terras do Algarve, Alto Alentejo, Baixo Alentejo, Beira Alta, Beira Baixa, Beira Litoral, Douro Litoral, Estremadura, Minho, Ribatejo, Trás-os-Montes e Alto Douro. Não me pergunte se são comarcas, províncias, concelhos, distritos ou povoados, porque não acompanho a evolução dessas coisas. São inúteis para ocupar minha cabeça branca.

Nasci em Beira Litoral, filho de pais peixeiros, como dizem acolá, aí no Brasil. Dada a rudeza de minha origem, sinto-me bem ousado nesta falação. Mas, de toda a maneira, sua senhoria deverá me entender, pois não? …

Para objetivar nossa conversa, pesco no mar e moro no litoral oeste de um país da Europa, chamado Portugal, situado na borda do enorme Atlântico, que já nos separa faz séculos. Agora quero crer que a senhora achou-me no seu mapa. Ou será que não?!…

Pois bem, o motivo dessa carta é minha preocupação com meus descendentes diretos que vivem no Brasil, há tempos: meus quatro filhos, dezoito netos, um monte de bisnetos, um putinho tataraneto e inumeráveis primos de que não tenho conta!

Não tenho herdade para legá-los aqui, na Santa Terra. Além de meus 97 anos, só possuo uma biblioteca com mais de três mil livros (que li a todos), uma nau de uma vela, poucas malhas de pesca nela dependuradas e o cachimbo que herdei de meu pai. E, nesta idade, precisaria de mais o quê? Por fim, devo acrescentar, fiquei viúvo faz 14 anos, mas continuo na luta diária.

A expectativa do velho pescador

A serenidade do pescador

Rogo-lhe que sua bondade a impeça de jogar esta carta na lixeira e permita-lhe lê-la até o final, com a devida atenção.

Uma vez por semana, quando sigo ao porto da Beira para vender os pescados que me restaram, armo ponto numa bancada de madeira. Carrego comigo um facão pra cortar os peixes e uso jornais antigos para embrulhar a mercadoria pra os clientes. Hoje folheei um jornal do mês passado e lá estava a seguinte manchete, em letras colossais: Brasil, a seguir direto pro ralo!

Cara Senhora, fiquei atormentado, a pensar, desculpe os modos: Mas que merda fizeram com o Brasil?!”.

Sei que sou idoso, porém não estou senil, muito menos idiota. Fico a reflectir como ficarão meus filhos e netos, caso queiram continuar a viver neste país? Possuem grandes famílias aí, como poderão produzir em seus negócios?! Que sei eu…

Tenho muitas dúvidas que, talvez, sua senhoria possa me tranquilizar, em definitivo. Aliás, pelo que li no jornal, essas suspeitas sobre o governo brasileiro não são apenas minhas, mas mundiais. Suspeitas sobre a ordem pública, os esquemas da corrupção a corroer o Estado  e da circunvolução social que se dá neste momento do seu país. Melhor dizendo, do país que sua senhoria pensa estar a dirigir.

Parece-me que milhões de cidadãos foram à rua fazer protestos em mais de 350 cidades do Brasil. Pelo que li, protestos que duraram duas semanas ou até mais. Uma coisa fabulosa, milhões às ruas durante 14 dias sucessivos! A reclamar de tudo o que é básico em qualquer nação civilizada do mundo: educação, saúde, segurança, transporte, melhores salários; além da infraestrutura pública ordinária , do excesso descarado da corrupção, do desemprego a crescer, do retorno à pobreza do povo e etc.

Enfim, pelo que vejo, exigem receber sob a forma de factos concretos as promessas que os políticos lhes fizeram para receber-lhes os votos em troca. Inclusive sua senhoria excedeu-se bastante neste quesito. Prometeu mundos e fundos aos tranquilos 204 milhões de brasileiros e poderá pagar caro pela estrepolia cometida…

Fico eu cá a imaginar o peso de 204 milhões de pessoas, durante 14 dias, na cabeça de um país como Portugal. Nossos políticos seriam soterrados na vergonha, até mesmo os corruptos similares que temos por aqui. São parecidos com os seus, tanto em nosso parlamento, como dentro no próprio governo. Trata-se de coincidência inacreditável, embora com intensidade infinitamente menor. Porém, há um facto distinto: aqui trancamos os putos no cárcere!

Creio que não devo esperar por resposta a esta carta. Como sou da Estremadura ─ e decerto sua senhoria já viu coisas extremas e duras , habituaram-nos a enfrentar a chuva, o frio, o vento e o sal do mar para viver em paz. A ser assim, posso perceber a puta enrascada em que os poderes desse seu país se enveloparam.

O espaço social ficou muito reduzido e deve estar proverbialmente “apertado entre montes“, para conter tantos corruptos, a dormir dentro dele, sem que se matem uns aos outros. Por isto, desejo-lhe muita sorte… Há graves indícios que “seus pares” podem estar a planificar coisas terríveis contra sua senhoria.

Senhora-canhestra, talvez volte a escrever-lhe neste espaço. Estou a sentir-me rejuvenescido pela oportunidade. Quem sabe não ganharei uma admiradora?…

Mas permita-me uma sincera exclamação: vivamos neste mar aberto, livre e democrático! Do contrário, sigamos para trás-das-grades!

______
Nota do revisor: a essência do texto, seus termos portugueses e a respectiva grafia, foram mantidos. A revisão deu-se em pequenos ajustes de palavras usadas pelo eminente pescador, o Senhor Simão.

4 pensamentos sobre “Carta aberta da Estremadura – Portugal

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