Cuidado, eles também pensam!


É incrível, mas os corruptos articulam

Diante do acampamento com vaias e palavras de ordem, feito defronte a seu apartamento, o governador do Rio, já bem amedrontado, optou por chamar alguns “gatos pingados” para uma terem uma conversa de “alcova no Palácio Guanabara. Isso mesmo, um papo mais íntimo, inclusive acompanhado por dois de seus secretários (Saúde e Educação), uma porrada de fotógrafos particulares, aspones e testemunhas.

Papo íntimo (reprodução de Governo do Estado)

Papo íntimo (reprodução de Governo do Estado)

Ao saírem da reunião, realizada a portas fechadas, nenhum dos lados declarou o que haviam conversado. No entanto, ficou bem claro que o pequeno grupo de manifestantes era uma dissidência dos que permaneceram acampados com o movimento “Ocupe a Delfim”. O que chamou a atenção foi o rápido aparecimento de uma página na rede, pretensamente intitulada Somos o Brasil, para dizer que “o mesmo grupo”, a partir de agora, iria visitar hospitais e fazer outras ações (desde que não ameaçassem o governador), além de se auto declararem como “anjos dissidentes”.

O governador teve, pelo menos, três motivos para realizar essa reunião secreta, quais sejam:

  • Criar um canal de informação traidor, para servir de informante sobre o comportamento de todos os manifestantes que sempre deverá enfrentar. Talvez em troca de certas benesses a serem doadas no futuro próximo ao grupo de dissidentes, que ele próprio nomeou de Somos o Brasil;
  • Criar divisões ideológicas entre os grupos de reais manifestantes. Quanto mais conflito houver entre eles, sempre será melhor para o governo do Rio. O maquiavélico ato de dividir para conquistar;
  • Demonstrar publicamente que possui todas as “habilidades de negociação” de um grande gestor público. Afinal, seu narcisismo não poderia ficar a parte, pois quer “construir” o futuro governo do Rio e tornar-se Senador da República, a partir de 2014.

Observa-se que, com esta visão tática do cenário político do Estado do Rio, completamente deformada, o gestor eleito foi até proativo, não só para controlar as passeatas, como também tentar reduzir sua expressão. Entretanto, e acima de tudo, foi pérfido e sem caráter com a segurança dos cidadãos fluminenses, garantindo apenas a defesa de sua nobre morada pelas forças policiais do Rio e máquinas bélicas blindadas – os conhecidos “Caveirões”, usados na “pacificação de comunidades“.

Em 22 de junho, fim de tarde, criminosos infiltrados nos movimentos destruíram várias agências de veículos na Barra da Tijuca. Não era possível ver qualquer policiamento ostensivo – apenas grupos compactos de seis policiais militares apavorados, sitiados a 500 metros do vandalismo. Não havia qualquer máquina bélica disponível. Afinal, uma delas estava silenciosa e estacionada junto à morada do governador do Rio, ocupada em defende-lo das ameaças extremas feitas por jovens manifestantes acampados à sua porta.

Acerca da tática do ex-presidente não há muito o que falar, pois encontra-se perdido na África a passeio, quem sabe financiado por empreiteiras interessadas em grandes obras africanas. Porém, antes de partir, incitou aos partidos e movimentos mais à esquerda para que fossem às ruas e demonstrassem sua grandeza. Não com estas palavras, é claro.

A incrível força das passeatas

Manuel Castells, a socidade em rede

Manuel Castells, a sociedade em rede

As passeatas de hoje são forjadas em fornos virtuais superaquecidos por redes na internet, com milhões de adeptos interessados em muitos assuntos e temas, que se consolidam no vetor das necessidades sociais, econômicas e políticas dos manifestantes. Por sinal, nunca atendidas pelos governos por eles eleitos.

Possuem biodiversidade social, não têm líderes formais, são pacíficas e incontroláveis, mesmo que para contê-las seja usada a força de aparatos policiais. Elas apenas aparecem e somem, permanecem encubadas algum tempo no subsolo das mentes das pessoas, e depois, num clique, retornam a qualquer instante e em todos os espaços urbanos que desejarem.

São completamente diversas do “terrorismo urbano” vivenciado no Brasil, na década de 1960. Naqueles eventos, em tese, havia um único foco e poucas lideranças, que organizavam e pautavam todas as ações. Havia bandeiras destinadas a rotular os movimentos que ocorriam nas ruas, como se fossem uma propriedade exclusiva de alguns poucos. Eram movimentos centralizadores e violentos, que manipulavam de forma ostensiva passeatas de ignorantes políticos e aproveitadores.

O sociólogo espanhol, Manuel Castells, acaba publicar um livro – A Sociedade em Rede –, já disponível no Brasil, no qual explica o despertar político das “massas mundiais” com cliques suaves nas redes sociais.