Diamantina e a UFVJM


Um belo casamento a ser multiplicado pelo Brasil.

Sobre o Município de Diamantina

O Arraial do Tejuco (do tupi “água podre”, função do filtro de turfa ocorrente em seu subsolo) foi fundado em 1713, com a inauguração de uma capela que homenageava um certo santo padroeiro. Coisa até hoje tida como normal e explicável pelas culturas deístas do planeta. Graças a essa estranha “santidade dos colonizadores”, a descoberta de riquezas naturais variadas (ouro e diamante) impôs a seus habitantes um dos regimes mais opressivos vividos em toda a história do Brasil.

Caminho dos Escravos

O Caminho dos Escravos, como até hoje é conhecido

Todavia esta saga religiosa logo deu lugar à saga da exploração das terras colonizadas com a descoberta das primeiras minas de diamante na região. O Arraial do Tejuco mudou de nome e de status, e passou a ser chamado Povoado de Diamantina, em 1729, dezesseis anos após ser fundado. Tornou-se o terceiro maior povoado da Capitania Geral das Minas, logo a seguir de Ouro Preto (então Vila Rica, sede da Capitania) e de São João Del Rey, com suas fartas minas de ouro sendo detonadas nas terras do Del-Rey, quais foram: Tiradentes (então Vila de São José do Rio das Mortes) e Prados (então Arraial de Nossa Senhora da Conceição dos Prados).

No século 18, Diamantina cresceu com a produção de diamantes, que eram explorados por empresas inglesas em nome da Coroa Portuguesa. Já a partir do século 19 a exploração de diamantes ficou basicamente entregue a empresas anglo-saxônicas. Obtive a informação de que no século 20 ainda existia uma única lavra de diamantes que era explorada por famílias carentes e sem emprego. Mas, por fim, na década de 1970, até mesmo esta permissão foi suspensa pelo poder público militar.

Pico de Itambé, na Cordilheira do Espinhaço – foto de Bernardo Puhler

Pico de Itambé, na Cordilheira do Espinhaço – foto de Bernardo Puhler

Mesmo para aqueles que ainda desejam percorrer o terreno do município de Diamantina à caça da presença do kimberlito, as chances de encontra-lo são muito pequenas e não valem o risco do investimento de perfuração do solo para pesquisar diamantes. Kimberlito, segundo fui informado, é um complexo de rochas potássicas, ricas em voláteis, com matriz fina e cristais de olivina, dentre outros minerais. Ele pode trazer os diamantes até a superfície desde que tenha passado por regiões no manto e crosta terrestre que sejam ricas nestes minerais. No entanto, há mais uma variável a ser considerada: a velocidade de ascensão rápida o suficiente para não desestabilizar a estrutura dos diamantes. Caso contrário, se converteriam em grafites polimórficos, úteis para ser usado em lapiseiras.

Vem daí o elevado valor da gema do diamante e a ganância desenfreada para ter a sua posse honesta. No entanto, desde há muito que grandes corruptos da história mundial – banqueiros, financistas e políticos, dentre outros – somente fazem seus negócios particulares com pagamento/recebimento em diamantes de qualidade. Não deve ser diferente na história dos “negócios particulares de certos santos brasileiros”.

Após quase três séculos da exploração de diamantes nas serras que cortam Diamantina (Espinhaço e suas serras constituintes: Serra dos Cristais, Serra da Doida, Serra da Esperança, Serra dos Francos, etc.), restou a seu povo – gentil e receptivo – o legado de uma cidade histórica, titulada pela Unesco como Patrimônio da Humanidade, em 1999. Não há dúvida que é bem melhor que nada.

Vista do Beco do Alecrim, com piso de pedras irregulares de quartzito

Vista do Beco do Alecrim, com piso de pedras irregulares de quartzito

Sobre a UFVJM

Fui convidado para proferir uma palestra na II Semana de Integração: Ensino, Pesquisa e Extensão (II Sintegra), na Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri – UFVJM, realizada justamente no seu Campus de Diamantina.

Abertura do II Sintegra: o Reitor da UFVJM, Prof. Pedro Abreu; o Pró-reitor de Pesquisa e Pós-graduação da UFJVM, Prof. Alexandre Christófaro; e a Presidente da Comissão Organizadora, Diretora de Pesquisa da UFVJM, Prof. Ana Lacerda.

Abertura do II Sintegra: o Reitor da UFVJM, Prof. Pedro Abreu; o Pró-reitor de Pesquisa e Pós-graduação da UFJVM, Prof. Alexandre Christófaro; e a Presidente da Comissão Organizadora, Diretora de Pesquisa da UFVJM, Prof. Ana Lacerda.

O evento transcorreu de forma irretocável, com mais de dois mil participantes, entre docentes, estudantes e profissionais do mercado. Minha contribuição foi pequena, com uma palestra crítica e provocativa na manhã do dia 7 de junho – “Visão do Ambiente, mudança de paradigma”.

Imagem da palestra

Uma imagem de minha breve palestra

Logo depois tive como cicerone nomeado do evento o Professor Alexandre Christófaro Silva, amigo há 27 anos, e Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-graduação da UFVJM. Já tinha certeza que receberia inúmeras e fabulosas aulas gratuitas sobre o espaço físico de toda a região.

Enfim, em sua companhia e com suas explicações, pude conhecer:

  • O Campus JK da UFVJM (com área de cerca de 2,4 km2);
  • Toda a cidade de Diamantina e seus inúmeros prédios e construções históricas; e, sobretudo,
  • Os soberbos relevos ocorrentes em seu entorno, cujos afloramentos rochosos se deram há aproximadamente 1,4 bilhão de anos, quando ainda não existiam seres vivos no planeta.

Levamos mais de uma hora para percorrer todo o Campus JK em uma caminhonete 4×4. Fiquei abismado com o que assisti. Uma série de faculdades já em operação e mais de trinta obras para novas faculdades e laboratórios, a indicar a expansão da qualidade de ensino do Campus principal.

Porém, o que mais importa reconhecer é o fato de que a UFVJM é o mais importante vetor de desenvolvimento cultural e econômico de Diamantina e de todos os municípios vizinhos. Gera empregos diretos e indiretos, forma educadores e profissionais, atende a sociedade diamantinense, fortalece seu comércio, bem como estimula o turismo nacional e internacional em toda a região, beneficiando, no mínimo, o Estado de Minas Gerais.

Seguimos para o centro de Diamantina. Eu somente a conhecia através de fotos, publicações e narrativas durante mais de 40 anos, feitas por Felisberto dos Santos Brant. Chamava-o de Seu Felisberto, um diamantinense que conheci desde os 4 anos de idade, no bairro de Santa Teresa, no Rio.

Percorrendo as ruas, praças e os inúmeros becos da cidade, a observar a pujança de sua arquitetura barroca do século 18, percebi que a atmosfera das cidades daquele planalto, deve ser sintetizada como intensa, bucólica, romântica e sem igual no país.

Rua da Quitanda, com piso irregular de quartzito

Rua da Direita, com piso irregular de quartzito

Chamou-me ainda mais a atenção os grandes sobrados e casarões na praça em que acontece a “vesperata”: os músicos a tocar seus instrumentos nas sacadas e os maestros a fazer a sua regência do chão da praça. O público aplaude às serenatas, inebriado e feliz. Diga-me onde esse concerto histórico, social e humano acontece e é a cultura espontânea de uma cidade com três séculos de idade?

Os dois sobrados e o passadiço

Os dois sobrados e o passadiço

Colhi algumas informações sobre o passadiço em texto de Fernando Kitzinger Dannemann e faço um pequeno resumo.

  • Na Rua da Glória, centro de Diamantina, têm-se dois sobrados ligados por um passadiço. Nas palavras do Cônego Severiano Rocha “o primeiro tem frente para o sudoeste, é um edifício antiquíssimo e histórico. A sua construção é da época do Brasil colônia. Era um edifício com jardins, chafarizes, tanques, bosques artificiais e labirintos de roseiras entrelaçadas.
  • Serviu de residência a vários Intendentes, sendo o último o Dr. Manoel Ferreira da Câmara Bittencourt Aguiar e Sá. Mais tarde, no século 19, pertenceu a Dona Josepha Maria da Glória.
  • Em 1865 o primeiro Bispo de Diamantina, D. João Antônio dos Santos, comprou este prédio para destiná-lo ao Colégio e Orfanato de Nossa Senhora das Dores”.
  • O segundo prédio foi construído pelo Ten. Cel. Rodrigo de Souza Reis, da Guarda Nacional. Na construção foram usadas madeiras da chácara de Chica da Silva. Após a morte de Rodrigo Reis, o Bispo D. João adquire a sua propriedade, para ampliação das instalações do Colégio Nossa Senhora das Dores e, em 1878, pede autorização à Câmara Municipal para a construção de um passadiço, ligando os dois prédios. A Câmara nomeia uma comissão com a presença do Engenheiro do Distrito, Catão Gomes Jardim, que analisou a obra a ser feita e concebeu seu projeto, o qual se tornou o símbolo para a campanha do tombamento de Diamantina como Patrimônio Cultural da Humanidade, mais de cem anos depois, em 1999.
  • Hoje estes dois sobrados e o passadiço pertencem à Universidade Federal de Minas Gerais, onde funciona o Centro de Geologia Eschwege.
Aquarela do Passadiço, do exímio arquiteto Lúcio Costa, em 1924

Prova de fotolito: Aquarela do Passadiço, do exímio arquiteto Lúcio Costa, em 1924

Pouco depois de fazer minha palestra, ainda pela manhã, fui levado a conhecer uma pequena parte da Cordilheira do Espinhaço. Trata-se da única cordilheira brasileira, composta por inúmeras serras, que nascem na porção central de Minas Gerais e seguem até o extremo norte da Bahia, percorrendo um total de 1.200 km aproximadamente. A faixa de rochas definida pela cordilheira apresenta largura relativamente estreita, com no máximo 100 quilômetros.

Conforme previra, recebi simultaneamente aulas gratuitas, proferidas por três insignes professores. Mas devo confessar que sequer sei repetir o que não tive tempo para deglutir. Eu, um mero gestor ambiental curioso em diagnósticos do espaço físico, fiquei debaixo de uma torrente de conceitos e informações geomorfológicas, geológicas e pedológicas acerca da cordilheira.

Enquanto as informações prosseguiam, seguímos pelo Parque Estadual de Biribiri, a admirar o fabuloso afloramento rochoso da região de Diamantina, único em todo o hemisfério sul do planeta. Na minha linguagem pensava que se tratava de uma Arte Plástica da Natureza que, ao longo de 1,4 bilhão de anos, realiza “com as mãos do acaso” a dissecação do seu relevo.

O resultado do processo de dissecação do relevo

O resultado do processo de dissecação do relevo

Parte da cordilheira vista no Parque de Biribiri

Parte da cordilheira vista no Parque de Biribiri

Parque Estadual de Biribiri – reprodução do site Viagens Inesquecíveis

Parque Estadual de Biribiri – reprodução do site Viagens Inesquecíveis

Almoçamos na Vila de Biribiri, um local paradisíaco construído junto à cordilheira, a cerca de 1.200 metros de altitude, em uma fazenda de 18.000 hectares. A Vila foi fundada em 1876, por Dom João Antônio dos Santos para abrigar uma indústria têxtil. Por sinal, agradeço a Sra. Kika pelo delicioso frango com quiabo que nos serviu, chegando à mesa fervendo em um alguidar de ferro.

Imagem parcial da Vila de Biribiri – reprodução do site SkyscraperCity

Imagem parcial da Vila de Biribiri – reprodução do site SkyscraperCity

Antes de tomar de volta o caminho do Rio, recebi de presente um volume do livro Serra do Espinhaço Meridional – Paisagens e Ambientes, produzido por acadêmicos da UFVJM e colaboradores, lançado em 2005. São 272 páginas que contém um completo diagnóstico ambiental dos espaços físico e biótico daquela região. Uma verdadeira preciosidade.

Sobre o aprendizado

Na convivência acadêmica que tive durante quase três dias pude intuir diversas coisas acerca da organização da UFVJM, de suas unidades, de seus docentes e de seus cenários futuros prováveis. Em suma e sem dúvida, seguem pelo melhor caminho, a acelerar e engrandecer a UFVJM, de forma programada.

Mas algo me diz que, baseando-me nos trabalhos essenciais e profícuos das equipes desta Universidade, devo lembrar a mim mesmo todos os dias:

─ “O que você sabe não tem valor. O valor está no que você faz com o que sabe”.

Este pensamento foi criado pelo lendário Bruce Lee, decerto com outras finalidades. Porém, constitui uma grande verdade, sobretudo para os “lutadores da UFVJM”.

6 pensamentos sobre “Diamantina e a UFVJM

    • Paulo,
      Não adie sua visita a Diamantina. É indescritível, difícil de contar. História, cultura, arquitetura, o calçamento das ruas, bares e restaurantes, pousadas e a geografia da região.
      Surpreende a qualquer um todo o tempo. O Campus da UFVJM está em pleno crescimento, contando com inúmeras faculdades.
      Voltando de lá entre em contato. Gostaria de receber suas fotos.
      Forte abraço,
      Ricardo Kohn.

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  1. Meu caro amigo, você teve o prazer de percorrer o que, como geóloga, trilhei em 1982, por 3 longas semanas, quando mapeei a lindíssima Serra do Espinhaço, estando nessa ocasião hospedada no lindo casarão do Insituto Eschwege, junto com a turma de Geologia de Campo 3 da Rural! Quantas recordações! E fiquei deslumbrada com sua descrição sobre a atuação da UFVJM na região. Deslocar os campi para o interior do país é a grande renovação que está em curso e muitos ainda não se deram conta disso.

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    • Sylvia, minha querida irmã,

      Sinto muito que somente em 2013 eu tenha tido a oportunidade de conhecer Diamantina e sua região geológica. Devo confessar minha total ignorância da gênesis daquele belo espaço. Contudo, acompanhado de perto por professores da UFVJM, pude ter uma breve ideia daquela maravilhosa formação rochosa.

      Porém, para te provocar bastante, nada vou lhe contar acerca das noitadas que tivemos naquelas inesquecíveis paragens. Boa comida e bebida, com excepcionais formações de amizade.

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