Zola, o ensinador


Após muito estudar e, de certa maneira, ensinar, tornou-se um vulto.

Desde a infância seu nome era o último na lista de chamada da sala no colégio. Sempre foi um menino um tanto inesperado. Enquanto os demais alunos da sala respondiam “presente” ao ouvirem os professores a declamar seus nomes na chamada de presença, ele respondia firme, em alto e bom som: Zola! (pronuncia-se Zolá). Parecia querer ecoar a fala do professor. Era apenas nesse momento – e que se repetia até cinco vezes pelas manhãs diárias – que Zola mostrava ser capaz de falar.

Zola, o vulto desconhecido

Zola, um simples vulto desconhecido

Durante os cursos do Primário e do Ginásio (1), Zola não era tido como um ser comunicativo ou crítico, ao contrário do escritor francês Émile Zola, com quem compartilhava o sobrenome. Nos intervalos entre as aulas conversava com poucos colegas de sala, mas somente quando se tratava de assunto relativo às matérias em estudo. Mesmo assim, apenas quando pediam suas opiniões. Era curto e objetivo com as palavras; talvez o silêncio já fosse então a “ânima” de seu intelecto. Durante os nove anos dos estudos do primeiro grau, Zola não teve nenhuma nota inferior à máxima. E isso ocorreu em todas as matérias que o liceu oferecia.

Nos três anos do curso Científico, quando todas as turmas tinham alunos com 14 anos ou mais, ao recebermos a grade de aulas anual, ficávamos felizes ao descobrir as chamadas “horas vagas”. Nelas podíamos ir para as quadras de esporte e jogar futebol de salão ou vôlei, durante cerca de 50 minutos. Lembro-me que no primeiro ano tínhamos três horas vagas por semana, além de duas aulas de Educação Física aos sábados, nas mesmas quadras. A primeira era trabalho físico pesado. Após, a segunda era sempre dedicada ao salão ou ao vôlei. Dependia da votação dos interessados.

Porém, havia exceções. Eram aqueles que preferiam, no mínimo três vezes por semana, se empanturrarem no Bob’s ao invés de praticar algum esporte. Bem, o peso desses colegas era bastante elevado e alguns menos amigos, provocativamente, o declinavam em toneladas. No início de cada ano, eles entregavam na secretaria do liceu atestados médicos carimbados que os impediam de fazer quaisquer exercícios e, em consequência, participar de todo o tipo de educação física.

Zola não era um desses. Afinal, tinha pequena estatura, era magro, com pele de pouco sol e portava um óculos para miopia com cerca de 8 graus em cada lente. Eram dois fundos de garrafa apoiados sobre o nariz. Sendo assim, durante as horas vagas permanecia na sala de aula, absorto em sua carteira, a dar soluções para problemas de matemática e de física até então nunca resolvidos. Durante os três anos do curso científico Zola decerto solucionou milhares de problemas não resolvidos, impressos em volumosos livros ingleses. Sempre tinha um deles a mão. Nunca qualquer colega do liceu sequer ousou tocar nos livros de Zola. Bastava passar ao largo de sua carteira e ver as figuras que acompanhavam os problemas de física e matemática: eram simplesmente aterradoras, difíceis de serem interpretadas por leigos como nós.

Física e Matemática

As expressões amedrontadoras da Física e da Matemática

Tivemos a sorte de fazer o terceiro ano científico integrado ao curso pré-vestibular. Todos os professores eram magníficos e, sem exagero, em 1967 eram considerados os melhores do Brasil. Devo citar alguns nomes e apelidos que me foram essenciais em termos da lógica do pensamento: Bahiense, Saules, Gitirana, Nótrega, Pardal, Romagnolo, Orelhinha, Bazarella e Manta foram alguns deles. Todos inesquecíveis e incomensuráveis em sua razão.

Muitos já tinham longa experiência na formação de candidatos à universidade. Mas todos ficaram impressionados com a inteligência e criatividade de Zola, que continuava a resolver problemas esquisitos dentro de sala e a tirar nota 10 em todas as provas.

Zola fez três vestibulares, no ITA, IME e Nacional de Química. Passou nos três em primeiro lugar. Foi notícia em jornais do país durante uma semana. Decerto não as leu e continuou imerso em seu silêncio, cultivando suas habilidades para solucionar problemas.

Os caminhos de Zola

Perdemos o paradeiro desse gênio por cerca de mais de duas décadas. Hoje o chamariam de Nerd, mas sem saber que o Gênio é, no mínimo, um amplo degrau acima de qualquer Nerd. Todavia, um de nós ficou sabendo que Zola tornara-se chefe de um Laboratório Técnico-científico nos EUA, que ainda hoje é encarregado de criar soluções para problemas que, supostamente, sequer existem.

Em minha visão particular considero Zola um grande “ensinador”, não por meio de aulas e demonstração de teorias e teoremas, que certamente nunca fez. Mas, sobretudo, por seu comportamento silencioso, dedicado, humilde e extremamente focado no que precisava aprender para continuar a inovar.

É um grande vulto das inovações mundiais, tanto para atender a pedidos on demand, quanto para alimentar suas próprias habilidades.


(1) No Brasil, durante as décadas de 1950 e 1960 os cursos colegiais eram divididos em Pré-primário, Primário, Admissão, Ginásio e Científico ou Clássico, totalizando 12 anos de educação colegial (1º e 2º Graus). Depois de fazer um curso especial e prestar as provas do vestibular, os alunos aprovados seguiam para realizar os cursos universitários (3º Grau) – Graduação, Mestrado e Doutorado, podendo totalizar de 11 a 13 anos de educação universitária.