As eleições para outubro 2014


O palco antecipado que se abre à sociedade brasileira. Mão não há artistas…

Pode-se afirmar que a luta pelo domínio do poder do Estado brasileiro é descomunal e abominável. Tudo o que vem ocorrendo desde janeiro faz-nos crer que o ambiente político, conforme foi construído na última década, é um espaço para dementes, na exata acepção da palavra. Em sua maioria os candidatos são despreparados para assumir cargos públicos, além de serem temerários. Acreditam que nunca serão cobrados pelo que prometem aos cidadãos em suas campanhas políticas, como se fossem deuses de um enorme hospício.

Eleições explosivas no Paquistão

Eleições explosivas no Paquistão. Ainda não há risco similar no Brasil.

Hoje, no início de 2013, já temos pelo menos quatro candidatos que se articulam para assumir o governo federal em 2015. E, para surpresa de todos, esse número deverá crescer e talvez chegue a uma dúzia deles. Isso assusta a qualquer humano civilizado. Muitos sabem que não é provável ou sequer razoável, que haja no Brasil tanta gente com capacidade para gerir a complexidade social, econômica, política e ambiental de seu território.

No entanto, a pequena oferta de gestores nacionais competentes também é nítida na maioria dos países latino-americanos e africanos, como em parte da Ásia e Oriente Médio. Há quem afirme que essa lacuna não será resolvida através dos atores ortodoxos, sejam eles dirigentes públicos, acadêmicos ou intelectuais. Há necessidade de que sejam criados novos meios e instrumentos para conversas e debates amistosos, formar novas visões e, a partir daí, produzir a cultura necessária para os Estadistas do Século 21. Afinal, eles não caem do céu.

Uma aventura intelectual

A Edge Foundation, uma entidade sem qualquer fim lucrativo, reúne acadêmicos, cientistas, escritores e profissionais liberais respeitados, visando à criação de soluções práticas para os conflitos do mundo contemporâneo. Há vários anos sua equipe, liderada por John Brockman, contando com cerca de 50 colaboradores voluntários, discute temas de interesse mundial. No website da Fundação anualmente é feita uma única pergunta que estimula a respostas variadas. Em 2013, a pergunta formulada pela Edge foi a seguinte: “Com o que deveríamos estar preocupados?[1]. Seguem três respostas que consideramos vinculadas ao tema deste artigo.

O psicólogo norte-americano, Douglas Kenrick, sintetizou em seu texto: A idiocracia está bem próxima. Em outras palavras, segundo Kenrick, devemos esperar para breve que vários países do mundo sejam governados por plêiades de renomados idiotas. Contudo, achamos o psicólogo um tanto otimista. Pelo menos na América do Sul ela já chegou há algum tempo.

Confirmando a mesma linha de raciocínio, Eduardo Salcedo-Albarán, um reconhecido filósofo colombiano, pontuou: Deveríamos nos preocupar com vários Estados “modernos” que, na prática, são moldados pelo crime. Estados onde as leis são promulgadas por criminosos e, ainda pior, legitimadas através da democracia formal e legal.

É provável que Albarán considere que “democracias dessa natureza” resultam da educação pública negligente, que, em nossa visão, os idiotas governados são amestrados para continuar apostando nos idiotas que elegeram.

Já a neurocientista inglesa, Sarah-Jayne Blakemore, observa essa ausência da educação básica por um ângulo que parece ser óbvio e simples: Preocupo-me com a oportunidade perdida por negar aos adolescentes o acesso ao mundo da educação. No entanto, cremos que, na visão da neurocientista, “mundo da educação” é bem mais amplo do que apenas escolas e universidades. Não é óbvio e simples.

Sem dúvida, a prática das provocações, conversas, debates e opiniões criada pela Fundação é uma aventura intelectual de rara inteligência. A mídia mundial a divulga sistematicamente. Até mesmo no Brasil o jornal Estado de São Paulo já publicou notas sobre essa iniciativa.

De retorno às eleições de 2014

Nesse instante, o candidato em mais evidência é o “diretor geral do hospício”. O CEO de seu partido clama pela pureza e virgindade de seus amigos, velhos mensaleiros. Ex-aliados, que almejam formar a Oposição 2, ainda se “borram nas calças” para dizer de qual lado estão; falam por vias transversas, sem liderança definida. A Oposição 1 permanece quase calada.

No Congresso temos propostas de emendas constitucionais e projetos de lei que, segundo juristas experientes, são inconstitucionais. Servem como “paredões” de fumaça para “nublar façanhas políticas” de inimigos que, neste instante, estão aliados. Tudo é questão do instante, a depender das conveniências e interesses particulares de cada facção.

O Supremo Tribunal Federal, por fim, publicou em abril o acórdão da Ação Penal 470. Vai iniciar o julgamento dos “embargos declaratórios” que, na verdade, são “infringentes”. Têm-se dois tipos de confusão armados. O primeiro é interno ao próprio STF; o segundo, vem sendo parido no Congresso, com apoio do Planalto. Ambos têm como finalidade criar a necessidade de um novo julgamento e poupar os réus julgados e apenados de terem que residir por algum tempo no projeto Minha Jaula, Minha Cela, recebendo auxílio do maravilhoso programa Esmola-Família.

De resto, respondendo a Edge Foundation, devemos nos preocupar cada vez mais com o abismo educacional e cultural que se alarga e separa o Brasil do resto do mundo civilizado.


[1] Recebeu 154 respostas de convidados oriundos de diversos países, com óticas e focos variados. Todas estão publicadas em www.edge.org, na seção Annual Question. Vale a pena consulta-las.