A Inteligência e a Invasão


O Serpro – Serviço Federal de Processamentos de Dados, que se encontra com sede em Brasília, é filho dileto da cidade do Rio de Janeiro. Nasceu em 1º de dezembro de 1964. Possui hoje unidades operacionais distribuídas em onze estados, além de escritórios de serviço nos demais. Chegou a deter nas décadas de 1970-1980 o maior parque industrial de informática da América Latina, superando em muito os parques dos maiores bancos comerciais, privados e públicos.

Mas sua potência eletrônica não foi seu carro-chefe. Apenas o instrumento para a ampla emergência e difusão da inteligência, criatividade e capacidade de inovação de muitos de seus programadores e analistas de sistemas. Grandes sistemas brasileiros nasceram e evoluíram dentro do Serpro – Sistema de Arrecadação do Imposto de Renda (pessoas física e jurídica), Cadastro Nacional de Contribuintes e Sistema Eleitoral são alguns exemplos de meios computacionais que, no bom sentido, continuam a varrer todo o território brasileiro.

Mais recentemente desenvolveu ferramentas para estados e municípios. Alguns exemplos são o Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Federal, o Sistema Integrado de Administração Financeira para Estados e Municípios e o Sistema Integrado de Tributação e Administração Fiscal para Estados e Municípios.

Contudo, mesmo sendo um agente eficaz e eficiente em assuntos de receita tributária automatizada, o Adestrador do Leão parece que corre riscos de levar patadas e mordidas sanguinárias. Falamos mais a frente.

No Rio de Janeiro alguns funcionários aposentados do Serpro criaram um grupo de amigos para trocarem ideias, atualizar projetos de novos negócios e fazer a boa comédia com eles próprios. Batizaram-no elegantemente de SerproVectos. Esse grupo foi crescendo e conta hoje com mais de 150 participantes, entre ex-funcionários, aposentados, funcionários atuais e outros. Nas reuniões mensais comparecem parceiros de todo o Brasil, é incrível. Faço parte do grupo há cerca de oito anos, na qualidade de ex-funcionário não aposentado (1981-1986).

Na semana retrasada (26/03/2013) mais uma vez nos reunimos no mesmo bar do Leblon para saborear alguns chopes e alimentar o eterno e imbatível bate-papo Serpriano. A maioria dos associados ao SerproVectos está aposentada, embora continue a atuar em atividades produtivas e remuneradas.

No meio da conversa fiz um comentário provocador sobre o prédio do Serpro que fica no Horto: o da antiga 7ª URO. Comentei que havia risco de ser demolido, por ocupar área pertencente ao Jardim Botânico. Enquanto aguardava alguma resposta, pensava que antes de tentar tocar na 7ª URO, o governo federal haveria de limpar as invasões de áreas públicas da União, as áreas com ocupação desordenada (favelas), os esgotos sem tratamento, o uso das casas da propriedade do Jardim Botânico por descendentes [?] de ex-empregados e até mesmo, quem sabe, a subestação de energia que lá existe.

Fachada do Serpro no Horto

Fachada do Serpro no Horto: 7ª URO

Fiquei assustado quando li no jornal O Globo da semana passada que o prédio da 7ª URO, estava na lista das demolições propostas pelo IPHAN. Isto mesmo, pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, uma instituição “com burocracia precavida” que ainda usa máquina de datilografia e talvez mimeógrafo movido a álcool.

Não pude conter minha indignação ao lembrar que nesta “Unidade Regional de Operação” nasceram soluções geniais, que as funções do Serpro são essenciais ao “faturamento de impostos” para pagar a gigantesca folha do poder federal. O Serpro não visa a qualquer lucro, é apenas um instrumento ágil e inteligente da arrecadação tributária nacional, dentre muitas outras finalidades. Dessa forma é uma ignomínia o poder federal tentar demolir seu próprio investimento público! Estará cuspindo no próprio prato que come? Mas haverá de reconstruí-lo, é claro. E, mais uma vez, com o nosso dinheiro suado.

IMPA, no círculo pontilhado da Mata Atlântica

IMPA, no círculo pontilhado da Mata Atlântica

Para finalizar chamo a atenção do “poder de fiscalização federal” para o prédio do Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada – IMPA. Foi construído dentro da Mata Atlântica, em área do Parque Nacional da Floresta da Tijuca, acima da cota 80, com entrada pela Estrada Dona Castorina. Sendo assim, pergunto:

— O CNPq, a FINEP e o BNDES deveriam ser severamente punidos por haverem financiado a perturbação caótica da vida dos moradores da Dona Castorina durante as obras do IMPA, que alteraram boa parcela da Mata Atlântica, acima da cota permitida por lei?

— Seria justo demolir a Melhor Escola de Pesquisa em Matemática Pura e Aplicada do Brasil, com nova sede inaugurada em 1981, a despeito de seus predicados acadêmicos internacionais e notórios?

IMPA e sua vizinhança, acima do Jardim Botânico

IMPA e sua vizinhança, situados no Parque Nacional da Floresta da Tijuca

Realmente, instituições como o Serpro e o IMPA correm o risco de se tornaram vítimas das demonstrações de estupidez absolutista do soberano de plantão.

2 pensamentos sobre “A Inteligência e a Invasão

  1. Fico pensando em coisas desse tipo… TODA a água da ETA Guandu, maravilhosa obra do governo Lacerda, vem da primeira e grande transposição de bacias aqui no Brasil, que suga 50% da água do Rio Paraíba do Sul, através da Barragem de Santa Cecília, em Barra do Piraí… Será que vão querer tirar uma LO para esses enorme e gigante sistema que abastece o Rio de Janeiro? Vão exigir contenção de Biota na primeira tomada d´água? E se chegarem à conclusão de que é ambientalmente inviável, vamos demolir? Teve até reversão de curso do rio Piraí. Como é rio federal, já indico que esse licenciamento fica à cargo do IBAMA. Revisonismo do passado, então vamos passar tudo a limpo, né?

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