Departamento Federal de Corrupção


O inacreditável DEFECO.

O projeto desse “Departamento” resultou após oito anos de trabalho, realizado entre 2001 e 2008, em Roma, na sede da Agência Internacional Contra Corrupção (Agência). Naquela oportunidade, a Agência era dirigida pelo diplomata Robert Clark Mac Andrews.

Dois cientistas sociais brasileiros receberam convite para participar dos trabalhos e estiveram presentes em todos os encontros realizados pela Agência. Participaram também cientistas provindos de 24 países, em sua maioria países africanos e latino-americanos. Mas, havia seis europeus, dois canadenses, um francês e um australiano.

Ninguém obteve qualquer informação segura sobre quais eram os mantenedores da Agência. Mas, todos tinham certeza de que não era uma iniciativa das Nações Unidas, pois os cientistas convidados não representavam suas nações de origem.

As três primeiras reuniões foram mensais. Causaram muito espanto e curiosidade. Todos os cinquenta cientistas convidados tiveram suas passagens e estadias pagas. Além disso, cada um recebeu 18.000 Euros para “pensar, debater e propor soluções anticorrupção” em cada evento.

A agenda foi bem objetiva desde o primeiro encontro:

  • Objetivo: Produzir meios, mecanismos e procedimentos para reduzir pela metade o PIB da Corrupção Pública Mundial.
  • Duração do Encontro: três dias de trabalho e um dia livre no centro de Roma.
  • Conclusão: Aprovar o Relatório do Encontro.

Ao fim de cada encontro, cada um dos presentes confirmava se continuaria a participar do Grupo de Trabalho. Por sua vez, a Agência deixou claro que, sem criar constrangimentos, poderia comunicar os cientistas que não retornariam no próximo encontro.

Durante os oito anos a agenda de encontros foi a mesma, só mudava a sua periodicidade; passou a ser bimensal e, dois anos após, trimestral. Aconteceram apenas três substituições, durante o primeiro ano. Os que permaneceram nunca souberam se foram desistências de participantes ou trocas determinadas pela instituição.

Tudo indicava que a Agência era uma entidade secreta, ligada a organismos de espionagem de alguma potência mundial. Sua sede situava-se em uma localidade pouco habitada e silenciosa, fora do centro de Roma, chamada San Lorenzo da Brindisi. Era num grande castelo, construído no centro de uma floresta, rodeado por uma antiga muralha romana, de aparência inexpugnável.

Vista do Castelo sede da Agência

Vista do Castelo sede da Agência

Desde a chegada de cada participante, o diretor Mac Andrews fazia questão de acompanha-lo até seus aposentos e retorná-lo ao salão principal, onde ocorriam todas as apresentações dos cientistas. Cada um tinha exatos dez minutos para se apresentar aos demais e justificar intelectualmente sua presença no Grupo de Trabalho da Agência. Depois era conduzido à grande mesa para saborear pães, queijos e vinhos, a comemorar o início dos trabalhos.

Contudo, a grande mesa não era propriamente uma “távola redonda”. Mac Andrews sempre ocupava a cabeceira para efetuar esclarecimentos formais. Por exemplo, antes do início do primeiro encontro, formulou o conceito de Corrupção adotado pela Agência e que deveria ser perseguido e tratado pelo grupo de cientistas durante os trabalhos:

─ “O conceito de corrupção é amplo, incluindo as práticas de suborno (propina), a fraude, a apropriação indébita ou qualquer outro desvio de recursos por parte de um funcionário público. Além disso, pode envolver casos de nepotismo, extorsão, tráfico de influência, utilização de informação privilegiada para fins pessoais e a compra e venda de sentenças judiciais, entre diversas outras práticas”.

Significava dizer que, na visão da Agência, para que ocorressem atos de Corrupção Pública, era imprescindível a atuação de pelo menos um Funcionário Público. Isso reforçou a ideia de que seus mantenedores só podiam ser grupos privados, que lutavam para ficarem livres de extorsões das quadrilhas de sanguessugas e corruptos que governavam seus países. A fórmula que encontraram foi a criação de uma agência internacional privada, que reunisse cérebros notáveis para criar mecanismos inibidores da corrupção pública mundial.

O fato é que o primeiro relatório relevante dos encontros somente foi produzido em fins de 2004, quatro anos após o início dos trabalhos, mesmo contando com 50 notórios cientistas sociais. Trabalhar em grupo é uma arte para poucos.

Em síntese, o relatório considerava que os servidores públicos somente serão dissuadidos a não enveredar pelos “livres caminhos da corrupção”, quando pelo menos uma das situações abaixo ligar o “alerta vermelho”:

  • Alto lá! Não somos corruptos!
  • Não insista! Somos honrados e temos moral!

Até aí, tudo bem, não ocorreria nenhum ato de corrupção. Mas há a situação em que precisa existir sirene e alerta vermelho:

  • Espera aí, vamos “dar um jeitinho” mais seguro. Estamos com medo das penalidades das leis anticorrupção de nosso país.

Assim concluía o relatório de dezembro de 2004:

─ “Todos os corruptos públicos desconhecem o significado de honra, moral e ética. Consideram que são apenas vícios ou cacoetes de minorias; motivo de deboche durante as orgias que promovem para comemorar os brutais desvios de recursos públicos, lavados em redes digitais planetárias”.

Instituições internacionais, tal como o Banco Mundial, estimaram desesperadas em 2004, que o PIB da corrupção planetária estava em torno de US$ 1 trilhão de dólares por ano! Talvez estivessem próximas da realidade, mas apenas a considerar a corrupção explícita. Houve órgãos que estimaram em US$ 15 trilhões/ano a corrupção pública total!

De toda forma, Mac Andrews ficou satisfeito com o relatório e fez uma provocação ao grupo:

─ “Vocês acham que há um modelo, um padrão de comportamento para corruptos políticos, independentemente dos países em que atuam? O que acham de tentarmos identificar o perfil do comportamento de um corrupto político típico no mundo de hoje? Vamos fazer um breve intervalo para o café”.

Durante o café, todos os presentes concordaram que esse exercício seria esclarecedor, ferramenta fundamental para as polícias do mundo na perseguição e prisão sumária desses criminosos. Tais como agentes secretos, organizaram-se em cinco equipes e começaram a trabalhar na construção do Perfil de Corrupto Político Típico (PCPT). Não possuíam a menor ideia do tempo e do volume de trabalho que seria necessário para concluir um bom PCPT.

Após os dois seguintes encontros trimestrais perceberam que levariam pelo menos seis anos para produzir um PCPT consistente. Assim, sugeriram à Agência o seguinte:

─ “Para elaborarmos um bom perfil típico, propomos que nossos encontros voltem a ser mensais, com quatro dias de trabalho, sem qualquer dia livre no centro de Roma. É importante observar que existem corruptos públicos em diversos níveis, escalões e instâncias de poder. Portanto, consideramos que o PCPT adequado deva enfocar apenas os mais poderosos, sejam eleitos, nomeados ou indicados, nesta ordem. Os demais criminosos da ‘cadeia sem comando’ são meros efeitos fisiológicos, a serem extintos por meio de folhas de papel higiênico”.

Mac Andrews recebeu a sugestão do grupo e logo a encaminhou ao Conselho Deliberativo da Agência, para obter a decisão final. Não sem antes postar sua própria assinatura no documento, concordando in totum com a evolução da proposta de trabalho. Por sua vez, o conselheiros da Agência a aprovaram por unanimidade.

Dotes fundamentais da corrupção

Cada uma das cinco equipes ocupou uma sala reservada do castelo. Pelas janelas entrava uma brisa suave provinda da floresta que, afora os cantos dos corvos, permanecia imersa em silêncio absoluto.

O piado lúgubre do Corvo

O canto lúgubre do Corvo

Antes de reiniciarem os trabalhos em janeiro de 2005, surgiu a dúvida. Era uma questão de causa e efeito:

─ São as questões genéticas portadoras do caráter que fazem crescer um corrupto público ou, será pelo fato de o indivíduo já nascer um corrupto público que esses traços vão sendo desenvolvidos e “melhorados” por ele, através do exercício da corrupção.

Neurologistas, psiquiatras, filósofos e iluministas presentes logo concordaram com a tese dos “corruptos natos”, que promovem e melhoram os próprios dotes essenciais da corrupção, através de exercícios imorais e inclementes.

Ao fim de quatro dias intensos de trabalho, foi juntada a documentação digital produzida pelas equipes. Nela estavam listados 3751 rasgos de caráter de políticos trapaceiros, típicos do primeiro escalão das principais instâncias de poder, em cada país do planeta. Teriam de ser filtrados e depurados, de modo a que só restassem “doze dotes fundamentais”, por decisão da Agência.

Somente em fins de 2007 o Perfil de Corrupto Político Típico foi depurado. Mesmo assim, apenas o perfil dos funcionários públicos detentores de maior poder de corrupção. Ficou quase como uma tomografia de corpos gelatinosos e fedorentos. Argh !…

Muito embora a contragosto, considerando os limites impostos pela Agência aos cientistas contratados, foi possível filtrar pelo menos os seguintes dotes fundamentais dos corruptos públicos:

  1. Sorridentes, mas assassinos implacáveis.
  2. Imorais e aéticos.
  3. Mentirosos desafiadores e persistentes.
  4. Vaidosos, ordinários e eloquentes.
  5. Carismáticos, indecentes e ardilosos.
  6. Exploradores e pérfidos gananciosos.
  7. Desonrados e hipócritas.
  8. Desprovidos de traços culturais.
  9. Torpes e traidores.
  10. Medrosos e covardes.
  11. Trapaceiros e aproveitadores.
  12. Papa-hóstias e parasitas.

Concluir o relatório final dos trabalhos, após oito longos anos de dedicação, causou alguma tristeza a muitos dos participantes, pois não sabiam se estariam novamente reunidos. Contudo, a Agência lhes solicitou que encaminhassem o relatório final para os principais órgãos públicos de seus países e tentassem verificar quais seriam os efeitos dessa proposta anticorrupção.

Houve um país latino-americano que criou o Departamento Federal de Corrupção, o qual, mesmo permanecendo inativo, um verdadeiro cabide de empregos para corruptos, futuro Ministério Executivo que ficou conhecido pela sigla DEFECO. É apenas uma coincidência prosaica.

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