A Serra do Gandarela: preservação ou ruína


Uma das questões básicas a ser considerada neste artigo é a seguinte:

─ “O que possui maior valor essencial para qualquer povo do mundo: o uso da Água ou a exploração do Minério de Ferro?”.

Tentaremos debater um pouco sobre o que está a ocorrer na Serra do Gandarela e talvez considerar propostas que atendam às suas vocações originais, dentro e fora de seu delicado contexto ambiental.

Localização da Serra do Gandarela

A Serra do Gandarela é um santuário ambiental de difícil ocupação, localizado há cerca de 40 km de Belo Horizonte. Ocupa parte expressiva do município de Barão de Cocais, e partes de Caeté, Santa Bárbara, Rio Acima, Raposos e Itabirito.

Vista da Serra da Gandarela, por Alice Okawara

Vista da Serra da Gandarela, por Alice Okawara

Quatro das principais formações geológicas existentes no chamado Quadrilátero Ferrífero são a Serra do Gandarela, que forma um corredor rochoso com a Serra do Caraça (a leste) e outro corredor ainda maior com a Serra do Curral, a noroeste. A Serra da Moeda situa-se a sudoeste do Gandarela, quase ortogonal a Serra do Curral, conforme a figura abaixo.

Mapa de localização da Serra do Gandarela

Mapa de localização da Serra do Gandarela

Vocações primitivas da Serra do Gandarela

A primeira vocação da Serra deve-se ao fato de constituir um expressivo aquífero natural, dispondo de centenas de nascentes, que alimentam sistematicamente as bacias do Rio das Velhas e do Rio São Francisco, bem como do Rio Piracicaba e do Rio Doce.

Trata-se do mais importante manancial de água a abastecer o Rio das Velhas, a fornecer cerca de 60% da água que abastece Belo Horizonte e 45% da água oferecida à sua região metropolitana.

As águas do Gandarela atendem por fim aos municípios de Caeté, Barão de Cocais e Santa Bárbara, além de outros mais populosos, tal como os municípios de João Monlevade e de Ipatinga.

Na verdade, a Serra do Gandarela constitui, prioritária e ancestralmente, um grande “Quadrilátero de Qualidade Hídrica”, cheio de braços, ramificações e fortes estímulos à vida humana e da biota.

Imagem da Cachoeira do Gandarela

Imagem da Cachoeira do Gandarela

Sua segunda vocação encontra-se em seu substrato, ou seja, rochas e solos, extremamente ferruginosos, conforme demonstra a imagem a seguir.

Caverna em região de Canga aflorante

Caverna em região de canga aflorante

Têm-se informações seguras de pesquisadores brasileiros que já foram identificadas mais de 50 passagens ferruginosas subterrâneas em várias áreas dessa serra. Resta analisa-las devidamente e não permitir a sua destruição, dado que é um patrimônio ambiental milenar e ainda desconhecido em mais detalhes por diversas áreas científicas.

Por sinal, boa parte da vegetação da Serra do Gandarela são formações de campos rupestres compatíveis com esse substrato, chamado por canga ferruginosa [1]. É importante ressaltar que, graças a este substrato ocorrente na região, inúmeras espécies florísticas são raras e/ou endêmicas, basicamente pela necessidade de sobrevivência através da adaptação às condições impostas pelo ambiente – resiliência.

Trembleya rosmarinoides, espécie endêmica na Serra do Gandarela

Trembleya rosmarinoides, espécie endêmica na Serra do Gandarela

Ressalta-se, entretanto, que campos rupestres não são campos de altitude (os campos acima de 1.200 metros), mas convivem com o bioma Mata Atlântica, o qual também recobre áreas da Serra do Gandarela, tanto com remanescentes primitivos de Floresta Estacional Semi-Decidual, quanto com matas secundárias em grau elevado de reabilitação espontânea. Por meio dessa ótica, a Serra do Gandarela constitui, prioritária e ancestralmente, um grande “Quadrilátero de Qualidade Florestal”.

Dadas essas características físicas, vegetacionais e florísticas, a fauna da Serra apresenta elevada diversidade e abundância. Além das espécies faunísticas típicas da Mata Atlântica, há espécies endêmicas da fauna, plenamente adaptadas a ambientes de pouca iluminação, como os das cavernas acima mencionadas. Crê-se que descobertas de “fósseis vivos” ainda poderão ser realizadas nesses inúmeros ambientes subterrâneos.

Aproveitando a consideração sobre os “eventuais fósseis vivos”, resta a última vocação primitiva potencial da Serra: o gigantesco laboratório em que ela se constitui para estudos e pesquisas paleontológicas e arqueológicas. Apenas para citar um fato incontestável, “Em Santa Bárbara e Rio Acima há, no interior da Serra do Gandarela, um importante sítio paleontológico, considerado de importância mundial, com fósseis de vegetação que ocorreu na região entre 10 a 40 milhões de anos passados. A maior parte dele está no território de Santa Bárbara e é protegida por tombamento municipal”.

O uso das vocações primitivas da Serra

É provável que haja várias formas para o uso das vocações primitivas ou originais da Serra do Gandarela. Algumas formas irão mantê-las e garantirão a sustentabilidade de seus ecossistemas constituintes, favorecendo a uma população hoje próxima dos seis milhões de habitantes nos municípios e regiões metropolitanas acima arroladas. Sendo assim, há maneiras de garantir a qualidade ambiental dos ecossistemas do Gandarela e, ao mesmo tempo, gerar trabalho, renda e riqueza para a população.

Outras, por força de interesses individuais que desejam explorá-las através da aplicação de capital e trabalho, garantirão um fluxo de caixa positivo e rentável para suas empresas, sejam elas privadas ou públicas, nacionais ou estrangeiras. O que restar das vocações primitivas da Serra do Gandarela será tornado um “Quadrilátero Degradado de Passivo Ambiental”, decerto financiado por bancos públicos a fundo perdido.

Proposta

Óbvio que a criação do Parque Nacional da Serra do Gandarela é medida urgente a ser realizada. Sobretudo, pelo fato de que o ICMBio já atestou seu interesse nesse parque. A nosso ver, ficaria ainda melhor se fosse criada uma Reserva Nacional da Serra da Gandarela, dados seus atributos exclusivos.

Além disso, na década de 1990, o Ibama possuía uma posição definida sobre as Unidades de Conservação Ambiental. Desejava que fossem econômica e financeiramente autônomas. Para tanto, naquela oportunidade, fez uma licitação visando a definir os investimentos adequados para implantar equipamentos destinados ao turismo controlado e modelar a viabilidade econômico-financeira de dez Unidades de Conservação. Houve uma empresa consultora que venceu a licitação, mas não temos ideia se este projeto foi adiante.

Outro aspecto a ser considerado refere-se ao licenciamento ambiental para exploração de cavas de minério de ferro. Não temos certeza absoluta, mas, parece que a exploração de riquezas do subsolo brasileiro são legalmente licenciadas somente pelo Ibama e não por órgãos ambientais estaduais.

Fontes de Referência:


[1] Cangas ferruginosas são capas geológicas normalmente situadas sobre as jazidas de ferro. Elas podem ser subterrâneas ou possuírem afloramentos, como ocorre em diversas áreas do chamado “Quadrilátero Ferrífero” de Minas Gerais.

2 pensamentos sobre “A Serra do Gandarela: preservação ou ruína

  1. Olá boa noite.

    Antes de tudo quero parabenizar os criadores deste blog pela iniciativa heroica de lutar por uma causa tão nobre que é a preservação da Serra do Gandarela, que abrange tantas cidades mineiras no entorno de Belo Horizonte. São todas cidades que estão tão perto de Belo Horizonte e mantém esta característica de natureza que parece intocada. Eu cresci trilhando estas montanhas e, por várias vêzes, passando a noite toda nestas montanhas que amo tanto.

    Atualmente estou no triangulo mineiro onde trabalho e moro.Sou de Raposos e conheço como ninguém estas montanhas e cachoeiras e amo profundamente esta terra. Gostaria de saber se posso publicar estas fotos do blog no meu facebook, para pedir apoio a causa.

    Só farei isto com a permissão dos idealizadores deste blog.Fico aguardando uma resposta.

    Tenham todos sucesso pleno.

    Atenciosamente,

    Leopoldo de Castro.

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    • Caro Leopoldo,

      Tem nossa permissão para publicar as fotos que postamos sobre O Gandarela. Mas, elas não foram tiradas por membros do Sobre o Ambiente. Foram copiadas do site Águas do Gandarela. Sem dúvida, gostamos de apoiar causas que consideramos justas. Apenas não nos envolvemos nos alvoroços que alguns movimentos possuem, com inúmeros Pais para um único Filho.

      Estamos escrevendo outro texto sobre as Águas da Bocaina, serras cachoeiras, córregos, lagos e Mata Atlântica. Você irá gostar e talvez se admirar como um empresário torna produtivo e humano um espaço territorial, sem permitir que nenhum dos que resolverem participar poderá plantar ou criar nada. Aguarde-nos.

      Forte abraço,

      Ricardo Kohn.

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