As enchentes do Rio são antigas


Baseado em artigo de Lise Sedrez [California State University].

Aconteceu em janeiro de 1966 o pior evento ambiental do século XX, que paralisou a cidade do Rio. Ela mergulhou sob cerca de 250 mm de chuva, em menos de 12 horas. Isso é um volume elevadíssimo de água, 250 litros empilhados sobre cada metro quadrado do solo da cidade, em doze horas torrenciais.

Deslizamentos de solos e rochas erráticas nos morros causaram mais de 140 vítimas fatais. Os cariocas enfrentaram racionamento de gás, energia e água, esta última contaminada por esgotos que romperam os dutos coletores e transbordaram nos sistemas de drenagem de águas pluviais. As principais vias de transporte da cidade foram literalmente inundadas.

Ônibus navegando na Rua Jardim Botânico

Ônibus a navegar na Rua Jardim Botânico

As chuvas de 1966 evidenciaram o conflito entre políticas locais e nacionais. O governo da cidade do Rio de Janeiro, então Estado da Guanabara, era o símbolo nacional de resistência contra a ditadura militar, mas também era o alvo mais provável das críticas da sociedade brasileira. As enchentes foram um alerta vermelho acerca da vulnerabilidade do Rio para as chuvas de verão, especialmente para as classes mais carentes dos seus então quatro milhões de habitantes. Seja nas favelas, engavetadas nos taludes dos morros, ou distribuídas pelas planícies marginais da Baía de Guanabara, os mais pobres do Rio sempre foram as vítimas das chuvas de verão.

No Estado da Guanabara, a água sempre foi problema crítico para seus gestores, tanto na escassez, quanto no excesso. Sua escassez crônica somente foi resolvida em meados da década de 60, no governo de Carlos Werneck de Lacerda, com a implantação da captação do rio Guandu e cerca 750 quilômetros de rede de distribuição de água na Guanabara.

Mas, foram as secas no século XIX que convenceram D. Pedro II da urgência de proteger os mananciais do maciço da Tijuca, coberto por fazendas de café – e daí surgiu o projeto de reflorestamento da Floresta da Tijuca. Mas secas, que se duram semanas antes de serem percebidas claramente como ameaças, carecem das chuvas de verão, que são certezas previstas e tudo arrastam em poucas horas.

Muitos cidadãos testemunharam vários destes momentos dramáticos de enchentes desde o século XVI. Sejam como “cabeças d’água” – rios que transbordavam fora de seu leito menor – ou as ameaçadoras combinações de ressacas e marés altas. As chuvas mais intensas faziam com que pântanos e lagoas retomassem a parte baixa da cidade mal ocupada, espaço “conquistado” com demorados e custosos aterros. Normalmente, estúpidos aterros, como os da região portuária do Rio.

A partir da década de 1860, a combinação de chuvas e epidemias de zoonoses nos verões cariocas tornou a cidade indesejável para a sociedade, que, quando podia, fugia ou para a região onde é hoje o bairro de Santa Teresa (então Morro do Desterro) ou corria para a serra de Petrópolis, caso as estradas não estivessem intransitáveis.

Se chuvas intensas são eventos ambientais naturais e fortuitos, seus resultados podem ser fenômenos sociais adversos. A partir do século XX, o impacto das enchentes se torna mais evidente no cotidiano da cidade. A cidade moderna, feita de ilhas de concreto e asfalto, absorve menos águas pluviais do que áreas com solos expostos, manguezais e as florestas que a precederam. E se chuvas normais já saturam as galerias de drenagem pluvial, chuvas excepcionais são sinais óbvios de desastres humanos.

A população vivia ansiosa ao início de cada ano, temendo as águas de janeiro, fevereiro ou março. De fato, chuvas intensas ocorriam a cada cinco ou dez anos, de 1906 a 1962. Os pontos críticos de drenagem eram sempre os mesmos, os deslizamentos eram comuns, com eventuais perdas de vidas humanas. Normalmente, os primeiros 30 minutos de uma tempestade eram decisivos para distinguir um simples temporal de um verdadeiro desastre urbano. Chuvas menos intensas, mas contínuas e além da capacidade de absorção do solo construído, chegavam a ter efeitos similares.

Finalmente, em janeiro de 1966, uma tempestade violenta arrasou a cidade. As chuvas fortes e letais continuaram por mais uma semana e provocaram o colapso total do sistema de transporte, assim como um “apagão” elétrico quase completo. Como se não bastasse, no ano seguinte houve novas chuvas, em janeiro e fevereiro de 1967, igualmente excepcionais em dimensões. Causaram mais de 100 mortes no Rio e traumatizaram a Guanabara.

A história das enchentes no Rio de Janeiro obviamente não se interrompe com esses eventos. Fortes enchentes na década de 70 ocorreram em intervalos menores, e os deslizamentos e alagamentos de ruas lembravam a população das enchentes de 66 e 67. Em 1981, o Rio recebeu em um único dia de verão 15% da precipitação média anual, resultando o completo caos da cidade.

Chuvas fortes de verão é a regra e não a exceção no Rio de Janeiro. Então, por que analisar as consequências das chuvas de 1966/67? Porque, embora as chuvas das décadas posteriores não tenham sido tão intensas, suas consequências sobre a cidade mais urbanizada foram tornando-se cada vez mais críticas.

As enchentes na Baía de Guanabara costumam atingir três espaços ambientalmente vulneráveis:

  • As planícies da Baixada Fluminense, com um sistema de drenagem precário em uma área originalmente pantanosa;
  • Os aterros próximos à Baía com grandes favelas, em palafitas ou não; e
  • As favelas dos morros desmatados, frequentemente localizadas próximas a bairros de classes mais abastadas.

Deslizamentos de solos e rochas nos morros com favelas, na espremida geomorfologia do Rio de Janeiro, também atingiam outros bairros fora de áreas de risco geológico. De certa maneira, Rio é uma cidade segregada. Mas é um tipo de segregação em que os mais pobres moram nos morros e subúrbios, enquanto os mais opulentos ocupam as áreas de baixios. É o inverso das metrópoles de países desenvolvidos, onde os mais abastados residem exatamente em áreas suburbanas.

Ainda que socialmente distantes, praias e morros estão geograficamente próximos. Então, desabamentos nos morros significam que esta segregação precária, mas de fato é realizada, pois as condições habitacionais dos munícipes mais carentes afetam as áreas mais ricas. Em meados da década de 60, tendo a cidade cerca de 4 milhões de habitantes, onde aproximadamente 600 mil viviam em favelas, esta era a preocupação real da gestão pública.

Essa ruptura das barreiras sociais ocorreu literalmente em 1966, quando um deslizamento de terra, arrastando solo e pedras de um morro, demoliu um prédio no bairro de Laranjeiras com muitas vítimas fatais. Como a educação não era acessível a todos os cidadãos (e ainda não é), seguiram-se saques, racionamentos, colapso dos serviços de emergência, que lembraram aos cariocas que a chuva era apenas um de seus grandes problemas.

Imagem de um deslizamento em 1966 – Rua Cristóvão Barcelos, Laranjeiras

Imagem de deslizamento em 1966 – Rua Cristóvão Barcelos, Laranjeiras

Na verdade, as chuvas também inundavam o solo fértil das normais lutas políticas. O recém-eleito, pelo voto direto, governador Negrão de Lima (1965-1970) era opositor ao regime militar. Seu antecessor no governo da Guanabara, o jornalista Carlos Lacerda, também o era, mas como tinha receptividade da imprensa, muitos acreditavam que houvera influído nos debates sobre o ônus político das chuvas de 1966. Embora chuvas não pudessem ser atribuídas a qualquer governador (chuvas, mesmo as torrenciais, são espasmos naturais do ambiente), quando elas se repetem em 1967, ainda que com expressão menor, periódicos (como o Jornal do Brasil) usaram-nas para acusar Negrão de Lima de negligência.

Nossa opinião

O governador Carlos Lacerda (1960-1965) fez, dentre inúmeras outras obras públicas, toda a estrutura do saneamento básico (águas, esgotos e drenagem pluvial) que o Estado da Guanabara precisava há muito, deixando-a funcionando até pelo menos o ano 2000. Negrão de Lima, embora seu opositor, optou em seu mandato por concluir as poucas obras que Lacerda deixara inacabadas. Mesmo que já vivêssemos sob o jugo de ditaduras militares, eram os bons tempos em que situação e oposição eram capazes de se conciliar pela realização de bens e equipamentos urbanos.

As chuvas torrenciais, que sempre desabaram sobre o Rio, somente se tornaram notícia a partir de janeiro de 2011, com seus impactos devastadores sobre diversos municípios da sua região serrana. Vários fatores deste poderoso evento ambiental podem ser analisados, mas sempre restará uma pergunta que consideramos básica:

─ “E se essa mesma tromba d’água caísse sobre o centro da cidade do Rio, como aconteceu em 1966?”.

De acordo com o censo de 2010 (IBGE), a população do estado era de 15.993.583 de habitantes. Mas cerca de 1.400.000 de seus cidadãos habitam favelas e áreas de elevado risco de deslizamentos e desmoronamentos de encostas. Trata-se da maior população em favelas do Brasil.

Os governos estadual e municipal ainda não entenderam que todas essas famílias precisam ser reassentadas em condições dignas, ao invés de serem estimuladas pela omissão de seus governantes a ampliar ocupações desordenadas e humanamente  indesejáveis.

Mas, ao contrário, as prioridades governamentais são Carnavais, Copas de Futebol e Jogos Olímpicos. Esses eventos, de interesse relativo, acarretam a importação de mão-de-obra para a construção civil, no estado e na cidade. Mais concreto armado e pavimentos serão deitados na urbi até 2016. Findas todas as obras, caso nenhuma medida eficiente seja realizada para a erradicação de favelas, com a melhoria efetiva da qualidade de vida dessas famílias, teremos um Rio sobrecarregado, saturado, incapaz de oferecer condições de trabalho, saúde e educação ao seu novo contingente humano. Errar é humano, persistir no erro é urbano.

Em nosso entender, dadas as vocações consagradas do Rio, sua gestão pública precisa ser realizada a partir de um Plano de Sustentabilidade Ambiental de seu território, que considere sua estreita faixa de terras, localizadas entre a serra e o mar, bem como suas formidáveis manchas de vegetação secundária, expressas nos maciços da Tijuca e da Pedra Branca.

4 pensamentos sobre “As enchentes do Rio são antigas

  1. Meu caro Ricardo Kohn, como é importante seu blog, os artigos são de muto interesse para os brasileiros e mas ainda para quem gosta de artigos históricos muito bem redigidos. Parabéns. Me autorize poder utilizar alguns de seus documentos para meu blog, com a menção de sua autoria?.

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    • Prezado Napoleón, boa noite.

      Na qualidade de coordenador da equipe que redige o blog, você está autorizado a reproduzir nossos textos em seu blog, desde que com a devida referência dos autores.

      Um abraço do,
      Ricardo Kohn.

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  2. Estimado Ricardo Kohn,
    Gostei muito deste artigo.
    Pergunto: você autoriza a publicá-lo em meus blogs velhoescriba.blogspot.com e em gaiuscaesargermanicus.blogspot.com ?
    Peço que retorne o quanto antes pois o tema que abordou é importantíssimo não só para os moradores do Estado do Rio de Janeiro, como também de todo o Brasil.
    Um forte abraço do Augusto Acioli de Oliveira, 20130107.

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