Mitos, ícones, estátuas e estatuetas


Na verdade, não gostamos de qualquer mito de origem humanóide, menos ainda dos mitos humanos. A nosso ver é paradoxal a busca pela perenização de seres humanos através de estátuas, feitas sob medida para mitifica-los em praça pública. Até porque, em muitos casos, elas são enganosas e nublam as imagens passadas do “estatuetado”, como rolos de fumaça a esconder seus princípios morais e éticos, outrora impublicáveis em qualquer lugar.

Estátuas e estatuetas são representações que, pelo menos, remontam ao Egito, a Grécia e a Roma Antiga. No entanto, quer-nos crer que, pelo menos na Grécia e no Império Romano, eram mais símbolos narcisistas de filósofos, políticos e, mais tarde, de bispos e alcaides.

Na Idade Média, a arquitetura de templos e castelos aplicava em suas fachadas estátuas grotescas conhecidas como quimeras e gárgulas. As quimeras eram até consideradas “ornamentais”, enquanto as gárgulas tinham ainda a função de escoar a água da chuva dos telhados das construções. Todas são estatuetas de profundo mau gosto, tenebrosas em suas formas e convenientemente ameaçadoras aos passantes.

Uma Gárgula ameaçadora

Uma Gárgula ameaçadora

Estátuas e estatuetas, feitas de qualquer material, – surdas, mudas e burras estátuas –, são enganos públicos erguidos em praças de várias cidades do mundo. Suas sociedades são obrigadas a aceita-las diariamente, concordem ou não com os mitos que iconizam falsamente. São representações modernas do Mito de Sísifo, tal como Albert Camus refletiu em seu magnífico ensaio. publicado em 1942.

Em muitas cidades o cidadão é obrigado a engolir pelo menos uma estátua mitificada por dia, toda a vez que a avista plantada em algum local. Após degluti-la, no dia seguinte deverá engoli-la novamente, até a eternidade. Cada estátua representa o poder e a força de quem mandou que fosse arquitetada e construída. E ainda há quem diga, com bastante orgulho:

─ “Esta magnífica estátua foi erguida pelo governo do doutor Sicrano de Tal” – e diz isso como se fora um guia turístico amestrado.

Na cidade de Rio de Janeiro, por exemplo, uma dita autoridade pública certa vez plantou um tenebroso busto do ditador Getúlio Vargas, do tipo gárgula, bem na Praça Luiz de Camões. Havia décadas que este espaço homenageava ao fundador do escotismo, Robert Baden-Powell, catedrático da Universidade de Oxford. É curioso esconder um sonhador de práticas para a juventude mundial sob o peso do busto de um ditador populista, com tendências fascistas e nazistas declaradas.

Se visitarmos pequenas cidades e povoados do agreste nordestino brasileiro, é muito comum encontrar em sua entrada uma estátua do “santo padroeiro” de seus moradores, concordem eles ou não. Nesses casos específicos, em nossa opinião, as estátuas parecem carregar um quê de desespero dos pobres cidadãos manipulados pela igreja e por políticos locais.

Povoado de Trairi, no Ceará

Povoado de Trairi, no Ceará

No mundo contemporâneo não cabe que mais estátuas sejam erguidas para “serem adoradas” pelo público. É possível pintar quadros, redigir livros, publicar na internet e talvez eternizar a memória de personagens realmente dignos de sua própria história. Não existe mais espaço para ícones sob a forma de estátuas e bustos públicos, dignos ou não. Coloquem-nas todas em museus com entrada paga!

Verdadeiros ícones

Há incontáveis parcelas do planeta Terra que constituem os únicos e verdadeiros ícones da existência da vida no planeta, inclusive a humana. Não foram construídos pelo Homem, embora ele tente, dia após dia, destruí-los usando sua “arquitetura da ignorância”, que tão bem soube desenvolver e aplicar com eficiência destrutiva.

O ambiente primitivo e todos os sistemas ecológicos estabilizados que o compõem, verdadeiros ícones do planeta, são os únicos que merecem total atenção e cuidados do Homem. Sua sustentabilidade precisa ser mantida como é desde sua origem. Seus solos e rochas, suas águas (superficiais e subterrâneas), suas florestas e matas, sua fauna espetacular, seus povos, sua atmosfera limpa e até mesmo o homem urbano fazem parte do ambiente terráqueo e dele colhem a própria existência. As tomadas abaixo mostram apenas três destes verdadeiros ícones.

Fog na mata

Fog na mata

Cataratas do penhasco

Cataratas do penhasco

O ícone Jacutinga em extinção

O ícone Jacutinga, já em extinção

2 pensamentos sobre “Mitos, ícones, estátuas e estatuetas

    • Maurílio, prometemos montar um texto sobre Trairi e todo o litoral cearense, que é uma maravilha. De Camocim até Icapui. Mas neste artigo o objeto analisado são mitos que viram ícones e são transformados em estátuas.
      Forte abraço.

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