Cogestão Ambiental


A cogestão, autogestãogestão solidária são propostas antigas, com origem político-organizacionais, as quais propunham que o operariado fosse capacitado para gerir a fábrica onde trabalhava e participasse das decisões, sem a existência de um proprietário. Nela não haveria hierarquia. O operariado realizaria o planejamento de suas ações, tomaria as decisões necessárias em conjunto e executaria as atividades previstas conforme programadas.

Estes conceitos nasceram do movimento anarquista da primeira metade do século XIX, que teve notória  expressão, dentre outros, o francês Pierre-Joseph Proudhon. Vale ressaltar, seus defensores opunham-se frontalmente a qualquer iniciativa de natureza socialista ou comunista.

As “incubadoras de empresas” de universidades constituem iniciativas similares para o desenvolvimento de empresas autogeridas. Embora, desprovidas das utopias políticas e econômicas propostas no século XIX, propõe que sejam gerenciadas através de processos de cogestão, sem ideologias dogmáticas.

Discussão

O objetivo deste artigo é associar o conceito e o processo da cogestão, conforme é praticada atualmente por certas empresas incubadas , às relações mantidas entre indústrias e empresas de infraestrutura com o ambiente que impactam. De outra forma, aplicar a cogestão ao conjunto das relações Empresa x Ambiente, sem cabos-de-guerra.

O ambiente primitivo já faz a sua parte, ou seja, sempre opera em busca da estabilidade de suas estruturas – ecossistemas. Ele evolui, mas não elabora planos e procedimentos pré-estabelecidos. Não possui decisores que definam as ações a serem realizadas internamente. Todas as relações mantidas entre seus elementos constituintes (fatores ambientais – ar, água, solo, flora, fauna e homem) ocorrem por necessidade e acaso. É assim que se auto-organiza: aleatoriamente. Não possui divindades, dado que desconhece crenças. Possui hierarquia própria definida e alguma competitividade, sobretudo baseada na cadeia alimentar. No mais, compartilha tudo o que produz, é econômico e não deixa restos – lixo.

É evidente que não seria viável, sequer oportuno, desenvolver e gerenciar qualquer empresa com base nesses processos, a menos daqueles relativos à economia de recursos e à limpeza de seus resíduos. O conjunto das teorias organizacionais demonstra que a postura do comportamento do ambiente não pode ser migrada para as empresas produtivas. A não ser através de normas específicas e não obrigatórias, estas teorias ainda não contemplam explicitamente medidas relativas às relações mantidas entre empresas e ambiente.

O primeiro ponto a ser observado é a própria construção da frase que acabamos de redigir: “entre empresas e ambiente“ em que se encontram localizadas. Trata-se de um vício de linguagem comum, utilizado por especialistas e professores das Ciências do Ambiente. Pode parecer que colocam em planos distintos Empresa e Ambiente, como se fossem dicotômicos ou até mesmo antagônicos. Como se pertencessem a conjuntos de elementos distintos. E na verdade, o conjunto das empresas pertence ao conjunto dos ambientes e não existiria se os recursos do ambiente não pudessem ser apropriados, inclusive o próprio homem. O uso desta forma de abordar ambientes versus empresas deve ser entendido como uma “arriscada simplificação pessoal“.

O segundo ponto a ser destacado refere-se à organização e à estrutura das empresas. Por serem planejadas e concebidas para finalidades específicas de produção e/ou prestação de serviços, demandam inúmeros sistemas de controle, de inspeções e auditorias variadas, nos quais são obrigadas a despender muitos esforços e recursos que controlam (embora nem sempre) para produzir apenas relatórios periódicos de controle, consumindo muitas horas de seus executivos. Aliás, muitos entendem que são horas improdutivas (o Ambiente não possui horas improdutivas).

Não estamos falando que executivos e gerentes de empresas são improdutivos, ao contrário. Em empresas de sucesso em seus mercados, são super produtivos, a ponto de se darem ao luxo de gastar milhares horas não produtivas. Não ocorrendo crises econômicas como a que vivemos, os riscos da não produção empresarial são baixos, pois o mercado opera por si só, como se fora um ambiente primitivo e não um ambiente construído.

Vamos ao terceiro ponto, que trata de processos, procedimentos, documentos e registros. O Ambiente somente possui processos, mas o homem, para entendê-los melhor, desenvolve ciências que sejam capazes de identificá-los e a seus procedimentos, documentá-los quando julgar necessário, e registrá-los para poder distribuir o conhecimento adquirido.

A Empresa, em função de sua estrutura hierárquica, requer que sejam implantados, monitorados e avaliados procedimentos, documentos e registros. Assim são criados vários processos de controle, gastando horas de pessoas e computadores, todas não produtivas, alocando mais energia, mais despesas com energia e água, mais consumo e desperdício de tudo: manutenções, medições e calibragens, mais veículos empresariais, motoristas, horas extras para todo este povo e, provavelmente, não produtivas. O custo de todo este aparato é multiplicado pelas chamadas Taxas de Administração ou BDO (sigla de Business Development Office), incidindo sobre os preços de produtos e serviços oferecidos ao mercado.

Não resta dúvida de que toda esta arquitetura organizacional é considerada necessária. Mas as perguntas que fazemos são as seguintes:

  • A organização das empresas, seus sistemas de controle, as auditorias, as inspeções, seus processos e procedimentos, documentos, registros e as certificações empresariais podem ser reduzidas?
  • Se reduzíssemos as despesas com horas não produtivas, haveria algum efeito sobre a economia global?
  • Assim sendo, os preços de venda dos produtos e serviços poderiam ser menores?
  • Reduzindo os preços de venda, sem reduzir a qualidade dos produtos e serviços, os mercados atendidos poderiam ser maiores?
  • Haveria algum impacto ambiental adverso sobre a oferta de empregos, sobre os lucros das empresas ou sobre a tributação dos governos?

Deixamos aos leitores o encargo de debater acerca das questões acima formuladas. Mas apenas acrescentando que as cinco questões abordam necessidades criadas pelo mercado de serviços para organizações e não demandadas pela própria natureza da organização. São mais virtuais, artificiais, do que reais e concretas.

Conceito

O conceito da cogestão ambiental é ainda uma proposição. Precisará ganhar espaço após ser submetido à crítica para vir a ser adotado como um novo ordenamento empresarial.

A proposta de adoção do conceito de Cogestão Ambiental é destinada a empresas produtivas. Todavia, também deve ser aplicado na gestão pública. Sua finalidade é a de beneficiar empresas, tanto em suas relações com toda e qualquer sociedade, quanto em sua economia de recursos de variadas naturezas. Para atingir ao estágio da cogestão ambiental a empresa deverá, segundo este conceito, atender a 12 princípios, que consideramos estratégicos:

  • Desenvolver e disseminar entre seus funcionários o conhecimento do ecossistema de que faz parte sua empresa, seja ele primitivo, rural, industrial ou urbano.
  • Estabelecer padrões autoimpostos para a melhoria do desempenho ambiental de sua empresa, em especial padrões vinculados à economia de energia, de água, reuso e reciclagem de materiais.
  • Capacitar seus funcionários, de sorte a permitir que efetuem com destaque todas as atividades produtivas necessárias à vida da empresa e à sua evolução.
  • Compartilhar entre todos os funcionários os conhecimentos e experiências adquiridas nas áreas de atuação da empresa.
  • Garantir a pronta-resposta a demandas de clientes internos e externos da empresa.
  • Reduzir as atividades do controle empresarial, limitando-se apenas aos controles necessários e deixando de lado controles suplementares e redundantes.
  • Informatizar sistemas de produção, sistemas de serviços e sistemas de controle da empresa.
  • Aproximar os níveis de gestão estratégica e tática do nível operacional da empresa.
  • Desenvolver a cultura própria da empresa, através de padrões e de práticas de autoavaliação.
  • Estabelecer critérios de direitos e deveres de todos os executivos, gerentes e funcionários da empresa, caracterizando a autoridade e a responsabilidade a eles associada.
  • Terceirizar somente serviços que demandam horas produtivas, tanto para atividades meio, quanto para atividades fim da empresa.
  • Garantir que empresas e consultores terceirizados atuem dentro dos padrões estabelecidos pela empresa.

Com a adoção e implantação desses princípios, a empresa estará atuando em conformidade com o sistema ambiental de que faz parte, atendendo suas vulnerabilidades e ampliando suas potencialidades. Operará em busca de sua estabilidade produtiva e reduzirá os efeitos adversos que impõe ao Ambiente de que faz parte e precisa participar.

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