Análise crítica de “Questões Centrais da Problemática Ambiental”


Análise do artigo “Questões Centrais da Problemática Ambiental”, elaborado por um técnico da WWF.

Em síntese, o autor do artigo pretende justificar a necessidade de distribuição de renda em todo o planeta através de conceitos relativos ao ambiente, em especial o conceito de ‘Pegada Ecológica[1]’.

Faz uma breve consideração sobre a complexidade das “questões ambientais” referindo-se aos temas e áreas de conhecimento nelas envolvidas; “com seus aspectos técnicos, demográficos, políticos, religiosos, psicológicos etc. Basta dizer que só a área técnica demanda saberes como biologia, engenharia, química, física, medicina, veterinária, entre outros. Só isso é suficiente para verificarmos a complexidade do tema”.

Cremos que esta consideração foi simplista e breve demais. Na verdade as “questões ambientais” envolvem um número bem maior de temas, espaços e respectivos segmentos (ambientais), tais como:

  • Espaço Físico: climatológico, hidrológico, hidrográfico, geomorfológico, geológico, geotécnico, hidrogeológico, pedológico, espeleológico, da qualidade físico-química da água.
  • Espaço Biótico: limnológico, florístico, botânico, de fitosociologia, de mastofauna, de avifauna, de primatas, de entomofauna, de herpetofauna, de aracnofauna, de malacofauna, de anurofauna e de várias outras faunas.
  • Espaço Antropogênico: demográfico, de uso e ocupação do solo, econômico, antropológico, arqueológico, de organização social, de infraestrutura, de serviços sociais básicos, direito ambiental.

Sem considerar maiores especificidades dos espaços ambientais, apenas para obter uma visão abrangente, há no mínimo 40 categorias de profissionais (técnicos, não políticos) que são vitais e demandadas para entender as questões ambientais planetárias. O número de profissionais em cada categoria fica à cargo da imaginação de cada um.

Ao abordar o conceito de Pegada Ecológica – em nosso entender, um conceito superficial para observar as questões ambientais – o autor do artigo não considerou outro conceito muito mais relevante para suporte a seu próprio raciocínio: o conceito da Assinatura Ambiental, o qual demonstra os efeitos adversos para o ambiente (pessoas incluídas) quando países e empresas, utilizando tecnologias inadequadas, apropriam-se de recursos ambientais que são escassos.

No desenvolvimento da proposta, o artigo possui lógica matemática, própria dos bons engenheiros. No entanto, falta-lhe a lógica ambiental. Além disso, não misturaríamos a visão marxista (fatores de produção) com a ciência da Ecologia. A primeira é uma visão ou ideologia antropogênica; a segunda é a ciência do acaso e da necessidade que permeiam todos os atos involuntários dos ecossistemas. Não há como casá-las em um bom raciocínio “político-matemático”. E isto cede aos seguintes fatos:

  • O Homem pensa para atuar sobre o Ambiente;
  • Apesar de pensar, não planeja ambientalmente suas ações e projetos, apenas avalia o retorno de seus investimentos;
  • O Ambiente considera o Homem um de seus fatores ambientais básicos e que, decerto, como animal considerado racional, apenas atrapalha (os demais fatores ambientais são Ar, Água, Solo, Flora e Fauna);
  • O Homem se apropria de recursos do Ambiente para satisfazer o que chama de “suas demandas e necessidades” (muitas delas criadas por planos de marketing e publicidade);
  • Por outro lado, o Ambiente precisa destes mesmos recursos simplesmente para existir.
  • Mas, curiosamente, sem Ambiente o Homem (racional) não existe.

Diz o autor:

Como o consumo geral da terra[2] é igual ao consumo per capita da terra x a população, ou seja:

Área de terra = (Consumo per capta / Grau de Desenvolvimento Tecnológico) . População

Chamaremos esta equação de EQUAÇÃO GERAL DA RELAÇÃO DO HOMEM COM A TERRA.

Conclusões do autor, função da matemática que utiliza e não da realidade das questões ambientais mundiais:

  • “Diminuir o consumo per capita (tipo e quantidade);”
  • “Aumentar o grau de desenvolvimento tecnológico (GDT); e”
  • “Diminuir a população.” 

Sem condições de vida não adianta aumentar a tecnologia

Com base nesta equação, as conclusões do autor parecem muito estranhas. “Aumentar o grau de desenvolvimento tecnológico“, sem especificar em quais setores, é temerário. “Diminuir a população” de que forma, eliminando cidadãos?

Modificaríamos o seu título: Equação Geral das Relações das Tecnologias Humanas com o Ambiente representaria melhor a realidade dos processos de produção e consumo no planeta.

A Tabela ‘Pegada versus População’ nos parece frágil. Em qualquer sistema econômico e político ela existirá. A de ‘Pegada e Renda versus População’ demonstra que a ‘pegada’ continuará sendo a mesma. Tão-somente mudará de proprietário. Por esse caminho, as questões ambientais permanecerão existindo e sem solução.

Por fim, devemos afirmar que discordamos de algumas das conclusões finais do autor.

Diz o artigo:

Concluímos que, ao diminuirmos a renda dos ricos, estaremos diminuindo o luxo, o supérfluo e o desperdício e, por conseguinte, liberando área da Terra. Ao elevarmos a renda dos pobres, estaremos aumentando a mesma área de terra dos ricos, mas permitindo-se sobrevivência, saúde e dignidade a todos.”

“Com o aumento de renda, os pobres terão mais acesso à instrução e, consequentemente, à maior eficiência. Isso significa que eles terão, também, mais acesso à informação (…).

Temos algumas perguntas a fazer sobre o modus operandi que deverá ser adotado para realizar uma “guerra pacata” entre ricos e pobres. Seria distribuindo armas a todos os radicais famintos? Fomentando uma guerra planetária? Congelando as contas bancárias e investimentos dos ricos e distribuindo a dinheirama através de mais uma Bolsa Esmola?

Com toda a franqueza, não é possível que o autor não concorde que ações desta natureza seriam inconsequentes. Não seria melhor e mais eficiente oferecer moradia, trabalho, saúde, transporte, educação de qualidade, civilização, cultura e lazer para os povos mais pobres? Não seria óbvio agir para transformá-los em uma sociedade produtiva?

Finaliza o artigo:

A conclusão desse trabalho, portanto, é a de que os países pobres e em desenvolvimento é que devem liderar o processo. Eles são os verdadeiros interessados na solução do problema ambiental. A solução jamais passará dos ricos (?), que estão comprometidos com seus privilégios e interesses econômicos.

Nesse sentido, é significativo – diria até, simbólico – que esta conferência tenha partido da iniciativa de um líder de origem indígena, o Presidente Evo Morales, que vem enfrentando, com capacidade, coragem e dignidade, os problemas e desafios sociais, políticos e econômicos de seu país.

Não vamos discutir os méritos destas conclusões e propostas finais. Apenas formulamos uma pergunta objetiva:

Em qual país do mundo, de que época, ademocracia do proletariadonão se transformou em ditadura e a posse do capital produtivo não permaneceu nas mãos de poucos?


[1] Este conceito foi criado por Mathis Wackernagel e William Rees e está descrito no livro Our Ecological Footprint (1998). O conceito, conforme formulado pela WWF, parece-nos pouco correto.

[2] Consideramos o termo ‘Unidade de Terra’ menos preciso do que ‘Unidade de Solo’. Deveria ser trocado para não causar dúvida. Da mesma forma ‘consumo per capta de terra’ chamaríamos de ‘uso per capta do solo’.

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