A visitar zoológicos


Quase todas as pessoas que residem em centros urbanos já visitaram um zoológico. Ou foram levadas por adultos, quando ainda eram crianças, ou mais tarde, para levar seus filhos e netos a “visitar o Jardim Zoológico”.

Era assim que os adultos convidavam as crianças:

O que vocês acham de visitar o JardimZológicono próximo fim de semana?

Na França muitos zoológicos são conhecidos como Parques Zoológicos; nos EUA, chamam simplesmente de Zôo. Na China, há cerca de 3000 anos, foi criado um ambiente para animais selvagens, com o curioso nome de Jardins da Inteligência! Perguntaria, de quem?! Na verdade, não importa o nome que se dê ao conjunto de jaulas e espaços onde animais silvestres são cerceados de sua natureza primitiva, para que outros animais os observem e se deleitem com sua agonia.

A quantidade de zoológicos em todo o mundo é muito grande e algumas estatísticas encontradas na internet afirmam que a visitação a estas penitenciárias de animais silvestres atinge a mais de 600 milhões de pessoas por ano!

China, Suécia, Alemanha, Rússia, França, EUA, Canadá, Brasil, Holanda, Portugal, Letônia e muitos outros países possuem seus zoológicos e também os defensores do aprisionamento de animais silvestres. Apenas no Brasil existem cerca de 150 zoológicos, muitos dos quais classificados e registrados pelo Ibama (vide Portaria Ibama nº 283/P, de 18 de maio de 1989). Somente em São Paulo encontram-se instalados sessenta e quatro(64)  jardins. Zoológicos!

Estes defensores possuem argumentos que são simplesmente patéticos, sobretudo quando falam das justificativas morais e éticas dos zoológicos, e quando abordam as questões da educação dos humanos, da saúde dos penitentes animais trancafiados, da preservação das espécies e das pesquisas sui generis, como o teste para gravidez de rinocerontes. De que adiantam testes feitos em animais fora de seu habitat preferencial, sem o direito de possuírem o espaço domiciliar mínimo para sua existência? Vejam o texto a seguir. Não há como fazer qualquer comentário. São puras “animalidades selvagens”.

Os zoológicos possuem vários objetivos, dentre os quais estão a pesquisa, a preservação e a educação, sendo que a diversão é o menos relevante. Assim os zoológicos têm o papel de proteger os animais em vez de explorá-los“. Essa é a mentira mais criminosa jamais vista contra a fauna silvestre.

Educação

Como a urbanização acabou afastando as pessoas do contato com a natureza selvagem, automaticamente diminuiu o contato com os animais. O zoológico educa as pessoas fazendo-as conhecer os animais e as ameaças que eles enfrentam.

Saúde

A saúde dos animais é muito importante, por isso eles são incentivados a se comportarem como se estivessem soltos no meio selvagem. Caso esse incentivo desapareça os animais se entediam e podem entrar em depressão ou agir anormalmente.

Preservação

Com o avanço científico e tecnológico, a poluição e o desmatamento aumentaram drasticamente, afetando o habitat de certas espécies. Por esta razão, para algumas, a única forma de evitar a extinção é viver em cativeiro. Muitas já conseguiram reproduzir-se em cativeiros e mais tarde, depois de um período de adaptação, foram devolvidas com sucesso à natureza.

Pesquisa

Os zoológicos têm como grande função a pesquisa em animais, como, por exemplo, teste para gravidez de rinocerontes, tratamento de doenças, inseminação artificial e rastreamento de animais na natureza, tudo isso ajuda na reprodução e também no nosso aprendizado sobre seus estilos de vida, ajudando em sua preservação.”

Temos opinião diretamente oposta aos animais racionais (!), que pagam para visitar estas irracionais penitenciárias. Aliás, concordamos plenamente com o Premio Nobel em Literatura de 1998, o escritor português José Saramago, quando ele diz:

“Pudesse eu, e fecharia todos os zoológicos do mundo. Pudesse eu, e proibiria a utilização de animais nos espetáculos de circo. Não devo ser o único a pensar assim, mas arrisco o protesto, a indignação, a ira da maioria a quem encanta ver animais atrás de grades ou em espaços onde mal podem mover-se como lhes pede a sua natureza. Isto no que toca aos zoológicos. Mais deprimentes do que esses parques, só os espetáculos de circo que conseguem a proeza de tornar ridículos os patéticos cães vestidos de saias, as focas a bater palmas com as barbatanas, os cavalos empenachados, os macacos de bicicleta, os leões saltando arcos, as mulas treinadas para perseguir figurantes vestidos de preto, os elefantes mal equilibrados em esferas de metal móveis. Que é divertido, as crianças adoram, dizem os pais, os quais, para completa educação dos seus rebentos, deveriam levá-los também às sessões de treino (ou de tortura?) suportadas até à agonia pelos pobres animais, vítimas inermes da crueldade humana. Os pais também dizem que as visitas ao zoológico são altamente instrutivas. Talvez o tivessem sido no passado, e ainda assim duvido, mas hoje, graças aos inúmeros documentários sobre a vida animal que as televisões passam a toda a hora, se é educação que se pretende, ela aí está à espera.”

“Perguntar-se-á a que propósito vem isto, e eu respondo já. No zoológico de Barcelona há uma elefanta solitária que está morrendo de pena e das enfermidades, principalmente infecções intestinais, que mais cedo ou mais tarde atacam os animais privados de liberdade. A pena que sofre, não é difícil imaginar, é consequência da recente morte de uma outra elefanta que com (ela) partilhava num mais do que reduzido espaço. O chão que ela pisa é de cimento, o pior para as sensíveis patas destes animais que talvez ainda tenham na memória a macieza do solo das savanas africanas. Eu sei que o mundo tem problemas mais graves que estar agora a preocupar-se com o bem-estar de uma elefanta, mas a boa reputação de que goza Barcelona comporta obrigações, e esta, ainda que possa parecer um exagero meu, é uma delas. (…) A quem devo apelar? À direção do zoológico? À Câmara? (…).”

Fonte: Crônica de José Saramago, publicada em O Caderno de Saramago.

Sem considerar a comercialização de animais silvestres, mas apenas os preços da entrada para visitação dos ‘melhores‘ zoológicos franceses, que variam de 5 a 8 euros, tem-se que a arrecadação anual do conjunto mundial de zoológicos pode atingir a cifras inimagináveis, ou seja, de 8,25 trilhões a 13,2 trilhões de reais por ano – com o euro a preços de 8 de junho de 2009.

Trata-se de um monumental mercado. Qual seja, o mercado do trancafiamento de animais in natura. O que dirão de nós os extra-terrestres quando nos visitarem?…

No Brasil existem ainda mais normas dedicadas a este mercado. A exemplo:

A Portaria Ibama nº 117, de 15 de outubro de 1997, em seu Art. 13, § 2º, rege a Compra e Venda de Animais Silvestres. Diz o § 2º: “O criadouro, comerciante ou importador deverá fornecer aos compradores de animais de estimação um texto com orientações básicas sobre a biologia da espécie (alimentação, fornecimento de água, abrigo, exercício, repouso, possíveis doenças, aspectos sanitários das instalações, cuidados de trato e manejo) e sobretudo, a recomendação da não soltura ou devolução dos animais à natureza, sem o prévio consentimento da área técnica do Ibama.”

Ou seja, o Ibama determina nesta portaria coisas que nunca acontecem ou acontecerão. Vejamos.

Os entes comerciais citados pela Portaria nº 117 envolvem “o criadouro, o comerciante ou o importador”. Esqueceu-se, a portaria, do contrabandista, do capturador ilegal de animais silvestres e do atravessador, que especulam com cabeças de araras, rabos de cobras e patas de jacarés, sem falar nos tigres da Malásia que seguem exportados ilegalmente para “amigos chineses”.

Refere-se apenas aos “animais de estimação”, muito embora não se tenha notícias da existência de tigres, elefantes, girafas e hipopótamos de estimação! Mas todos são comercializados quando “os compradores de animais de estimação“ são zoológicos classificados e registrados pelo Ibama.

Por fim, quando explica o “texto com orientações básicas sobre a biologia da espécie” a portaria esqueceu-se de um pequeno detalhe: a natureza do ambiente em que a ‘mercadoria deve ficar hospedada‘. Talvez seja possível verificar, ainda hoje, no Jardim Zoológico da Quinta da Boa Vista, Rio de Janeiro, um grande felino habitando um espaço de concreto e grades, com cerca 18 m3. Recebe quase tudo o que a portaria determina: alimentação, água, abrigo e repouso. O ambiente é que é muito ruim, pequeno, sem iluminação e sem ventilação. Tem stress, doenças de pele, decerto outras enfermidades não visíveis e os aspectos sanitários de sua moradia não são os melhores.

Em suma, o que se verifica em todos os zoológicos é a sua baixa capacidade de suporte aos animais neles expostos, consequência da forma com que foram construídos seus ambientes, incapazes de emular sequer as características básicas do ambiente primitivo de diferentes espécies animais, provenientes de diferentes continentes.

Parafraseando José Saramago, “Pudesse eu, e fecharia todos os zoológicos do mundo”.

Zoológicos são pretensas arcas de Noé, com jaulas, valas e muros. Da Arca, até hoje ninguém sabe, ninguém viu. A propósito, alguém é capaz de identificar qual é a espécie silvestre apresentada na foto? Recebeu tratamento de zoológico

Para quem ainda não descobriu, era uma anta!

4 pensamentos sobre “A visitar zoológicos

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