Égua Xucra


Por Ricardo Kohn, escritor.

“Foi quando uma menina de vermelho
Surgiu no vale, correndo, correndo (…)”
Vinicius de Moraes.

Imagine um vale verde. Se puder dê-lhe todas as cores de seus sonhos e de seu mais intenso prazer. Imagine um riacho, a formar um pequeno lago, que espelha a enorme sede de sonhos, da fantasia e do prazer. Imagine que tudo isto é real. Que mesmo a fantasia é real. Pois feche os olhos e escute… Sinta a umidade do ar, sinta a brisa verde do vale a beijar seu rosto. Escute alguém que se aproxima… Um ser vivo, tenso e solitário, consciente de que sua nobreza é selvagem. É uma égua, uma potranca. Corre muito. Corre para o lago onde saciará sua sede. Sua crina é cheia e áspera e derrama-se sobre seu pescoço. A cauda é arqueada, ondulante, de rara beleza, flor noturna e íntima. Carrega em si o cio eterno, a excitação do vale. O suor branco delineia seu corpo com o brilho líquido de enormes lágrimas. As lágrimas que não sente, mas que com seu êxtase de fêmea a condecoram, como se fossem estrelas prematuras. Seus músculos estremecem, femininos, longos e bem delineados. Estremecem em harmonia, numa dança sutil, o preâmbulo da sensualidade que aguarda, embora não saiba. E todo o seu corpo fala com a natureza. E exala seu cheiro, que é forte e cálido, que se mistura às flores, à terra molhada, à pureza do ar.

O fim da tarde alonga-lhe a sombra no lago. E n’água, outro ser dela se ergue: seu macho, negro e etéreo como o amor selvagem que dela transborda, da potranca verde do vale.

Suas narinas dilatam-se desejando cheirar este sonho. A potranca olha a água e bebe da água, bebe a fantasia, o sonho, o potro negro sombreado. Sua cauda se agita ondulada, o corpo a estremecer com o prazer de sua infantil solidão. Impulsiva e selvagem, relincha e empina, pisando e repisando a água a seus pés. Os respingos ferem a superfície do lago e um feixe de espelhos mágicos se forma, a refletir seu garanhão em infinitas imagens. Seu olhar está impregnado, absorve loucamente todas as imagens. Seu interior agora é pleno. Ela possui força para penetrar no lago. E o faz. E todas as formas convergem para ela, entram em seu corpo. Ela experimenta cada imagem que a atrai. E atrai a todas, a unificarem-se em um ato universal.

Saciada, parte. Voltará ao seu mundo. Lá deixou suas marcas, seu cheiro, seu potro negro. E com ele, seu prazer, seus sonhos, suas ansiedades. Quando retornar, os que a virem terão afinidade, pensarão como é bom tê-la de novo. Sentirão ainda uma coisa estranha, uma espécie de saudade que se guarda de uma amiga que esteve longe.

Égua Xucra é uma parábola de 1977, publicada no livro de contos O Lapidador”, autoria de Ricardo Kohn, 1982.

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