Desafio: Inteligência Compartilhada


Editado em 25 de maio de 2007

1. Introdução

Há cerca de mais de uma década, em especial nos EUA, teve início a migração do conceito de inteligência competitiva, dos programas de cunho militar, para instituições governamentais e organizações produtivas.

Segundo Larry Kahaner, membro da Society of Competitive Intelligence Professionalswww.scip.org, nos dias atuais, a inteligência competitiva (empresarial) é conceituada como uma atividade sistemática de coleta e análise da informação sobre as tendências dos seus próprios mercados e das organizações concorrentes que nele atuam.

Assim sendo, diante deste conceito e de sua origem militar, as atividades da espionagem industrial poderão ser técnica, ética e moralmente aceitas, porquanto se tornam atividades legítimas como mecanismos próprios da inteligência competitiva.

No entanto, no website da Inteligência Competitiva – www.inteligenciacompetitiva.pro.br, o conceito apresentado merece todo o crédito, pois ressalta fortemente a importância do lado ético desta inteligência:

Inteligência Competitiva é um programa sistemático e ético para coleta, análise e gerenciamento de informações externas que podem afetar os planos, decisões e operações de sua empresa”.

“Explicado de outra maneira, Inteligência Competitiva é o processo de aprimoramento de competitividade no mercado por meio de um mais amplo entendimento – e, mesmo assim, inequivocamente ético – dos competidores de uma empresa e do ambiente competitivo”.

Ainda assim, no setor ambiental, mais especificamente nas práticas da gestão ambiental e da sustentabilidade, há que se diferenciar competitividade de compartilhamento, pois seus resultados são bastante distintos para os entes ambientais básicos (ar, água, solo, flora, fauna e homem). Muito embora nos ecossistemas primitivos a fauna silvestre possua um comportamento competitivo (resultante da estrutura da cadeia alimentar ou cadeia trófica), nos ecossistemas urbanos organizados o comportamento humano resultante deveria procurar ser o de compartilhamento de ciência, tecnologia, experiências e conhecimentos. A esse processo costuma ser dado o título de formação da civilidade, fundamento da melhor civilização.

No espaço ambiental este processo também ocorre e é denominado por formação de comunidades em processos de coevolução. Está associado ao conceito de clímax teórico dos ecossistemas, quando (i) seus entes constituintes tornam-se perenes por força da sucessão de seus indivíduos, (ii) consomem tudo o que produzem e (iii) oferecem contribuições recíprocas, ao invés de realizar apenas a competição pela fome (ganância).

Uma civilização evoluída poderia ser representada pelo clímax teórico do ecossistema urbano organizado. Por exemplo, parasitas e hospedeiros tenderiam a não mais existir. Ou seriam extintos ou se adaptariam, assumindo novas dimensões mais produtivas.

É possível que o clímax teórico de todos os ecossistemas, primitivos e urbanos, seja um ponto inalcançável no infinito. Mas tentar atingi-lo, acrescentando mais qualidade às relações mantidas entre seus entes constituintes, talvez seja melhor do que esquecê-lo.

2. Conceitos utilizados

Para facilitar o entendimento da abordagem utilizada neste artigo segue a apresentação dos conceitos utilizados em seu texto.

2.1. Ecossistemas

“Os organismos vivos (bióticos) e seu ambiente não vivo (abiótico) estão inter-relacionados e interagem uns com os outros. Um sistema ecológico ou ecossistema é qualquer unidade que inclui todos os organismos (a comunidade biótica) em uma dada área interagindo como o ambiente físico, de modo que um fluxo de energia leve a estruturas bióticas claramente definidas e permita a ciclagem de materiais entre componentes vivos e não vivos. O mesmo que sistemas ecológicos”.

2.2. Ecossistema primitivo

São todos os ecossistemas não alterados pela ação antropogênica. São sistemas ecológicos que possuem as estruturas dinâmicas conformadas por sua própria capacidade de evolução, sem qualquer ação promovida pelo homem.

2.3. Ecossistema urbano

São todos os ecossistemas alterados pela ação antropogênica e que constituem grandes centros urbanos. Não estão considerados neste artigo os ecossistemas alterados por ações da produção agropecuária e os relativos a centros urbanos de menor porte.

2.4. Fatores ambientais

São os componentes básicos dos ecossistemas, primitivos e urbanos, que se relacionam entre si para conformá-lo: o ar, a água, o solo, a flora, a fauna e o homem.

3. Inteligência compartilhada

A expressão ‘inteligência compartilhada’ já existe no mercado educacional. Afinal, educar é compartilhar informações e conhecimentos. No entanto, é mais orientada para a área da informática, considerando o compartilhamento de informações e processos executados por sistemas informatizados, normalmente residindo na internet ou em redes de empresas. São aplicativos que os interessados acessam de diversos pontos no planeta para compartilhar o seu uso.

O que estamos propondo é um pouco diferente, muito embora também deva residir na internet. Trata-se da Inteligência Ambiental Compartilhada – IAC. Não estamos criando algo novo, mas apenas tentando entender e explicar o que já existe e que nem sempre é visto por todos nós. Para isso vamos falar a respeito do homem e da sua inteligência.

3.1. O processo da inteligência humana

A forma mais simples e objetiva de definir este processo é a seguinte:

“Trata-se de um processo onde o indivíduo, a partir de sua base genética, que define o seu potencial cognitivo e de relacionamento interpessoal, desenvolve sua capacidade de raciocinar, elaborar abstrações, generalizar, especificar, planejar, resolver problemas, compreender ideias e aprender acerca do que desconhece”.

A inteligência humana é uma capacidade variável. Diversos testes de inteligência ou de QI têm sido utilizados no planeta, como a Escala Binet-Simon, desde 1905 até 2005, com a fórmula de cálculo de David Wechsler. Estes testes sofreram diversas modificações em suas fórmulas de cálculo e classificação da inteligência. Assim, demonstram que são testes subjetivamente estratificados e sua confiabilidade pode ser duvidosa. No Brasil, na década de 60 do século passado, surgiram empresas especializadas em testes de QI. Duas décadas depois os testes eram raramente aplicados, se é que ainda existiam empresas com esta especialidade.

3.2. O processo da inteligência animal

Segundo algumas ciências, os elementos componentes dos ecossistemas primitivos não possuem, individualmente ou através de suas comunidades de indivíduos, esta propriedade humana. Ou então, caso a possuam, é bem possível que não seja definida da mesma forma. Até o momento, não há nenhuma informação da existência de uma ciência capaz de explicá-la, justificá-la e documentá-la.

Por outro lado, a observação de leigos e mesmo de alguns cientistas, indica que há algo além da simples capacidade de memorização em algumas espécies de animais silvestres: golfinhos, orcas, vários caninos e felinos, algumas espécies de primatas e da avifauna, dentre outras, parecem demonstrar possuir, além da memória, afeto, reconhecimento, entendimento e até vergonha nas suas relações com o homem. Mas somente nos casos em que tenham convivido em ambientes organizados pelo homem. Não estamos falando de processos de educação via adestramento. Estamos falando de animais silvestres não adestrados.

3.3. A inteligência dos ecossistemas urbanos

Em tese, uma fórmula para medir a inteligência dos ecossistemas urbanos seria o somatório da inteligência de seus indivíduos componentes. Porém, cremos que esta solução estaria longe de representar sequer a tendência da inteligência urbana de qualquer cidade, quanto mais acertar próximo do alvo. A quantidade de variáveis envolvidas, diferentemente da fórmula primária do cálculo do QI individual (idade mental e idade cronológica), é grande e talvez difícil de ser totalmente identificável. No máximo seria possível selecionar as classes de primeiro nível das variáveis a serem utilizadas, tais como econômicas, políticas, sociais, ambientais, de segurança, do uso do solo, de investimento, da política externa, da indústria, da exportação, do comércio, do turismo e de muitas outras classes que podem ser inclusive ainda desconhecidas. Em cada classe seriam selecionadas variáveis capazes de medir a inteligência intrínseca da própria classe. Seria como responder a questões do tipo:

– Qual é a inteligência econômica da cidade?

– Qual é a inteligência política da cidade?

– Qual é a inteligência da segurança da cidade? E assim por diante.

Tomando o Brasil como exemplo, a mídia em geral nos oferece todos os dias muitas destas respostas, ou seja, quais são relações ambientais ocorrentes e passíveis de ocorrência nos inúmeros grandes centros urbanos, que demonstram sua inteligência. Dentre elas destacam-se as seguintes: tributos elevados, gastos públicos elevando-se, permanente corrupção política, chantagens políticas, assaltos e sequestros relâmpagos, tráfico de drogas, outros crimes variados, acidentes violentos, poucos investimentos realizados, novos projetos de investimentos, turistas assaltados e etc. Não há dúvida de que também acontecem relações de estabilidade. Todavia, são insuficientes para garantir a mínima capacidade de organização e evolução desses ecossistemas.

O que chama a atenção é o fato de que a inteligência dos indivíduos que compõem estes ecossistemas é diversa e considerada superior à dos animais silvestres que povoam os ecossistemas primitivos. Mas, parece que boa parte dos indivíduos humanos foi mal adestrada. Ou então, foi adestrada por animais silvestres.

Em síntese, apesar de existirem muitos indivíduos com elevada inteligência, a sinergia de suas inteligências e de seus relacionamentos aparenta ser bastante baixa nos grandes ecossistemas urbanos. Há uma tendência para sofrer rupturas funcionais (ecológicas), ou seja, inviabilidade na manutenção das relações mantidas entre seus componentes, perda de sua organização e aumento da necessidade de estruturas de controle externas aos sistemas urbanos, de forma a reduzir seus desperdícios e desastres.

A inteligência dos ecossistemas urbanos de maior porte parece ser baixa. A competição levada ao extremo impede o compartilhamento, mesmo que em níveis apenas razoáveis.

3.4. A inteligência dos ecossistemas primitivos

Já vimos que dentre os componentes dos sistemas ecológicos primitivos, que denominamos por fatores ambientais básicos, o homem é o único dotado de inteligência, na expressão ortodoxa do termo. Todavia, o sistema resultante das relações físicas, químicas, biológicas e sociais que todos os fatores ambientais mantém entre si, garante (i) sua capacidade de auto-organização, (ii) o aumento de sua complexidade, (iii) de seu esforço espontâneo pela busca do clímax do sistema e, ao mesmo tempo, (iv) economia em sua produção interna, porquanto os sistemas ecológicos estabilizados tendem a consumir internamente tudo o que produzem. Esses elementos constituem suas capacidades ecológicas primárias e este quadro, estável e organizado de forma espontânea e aleatória (ou seja, “desorganizado”), resulta no que conceituamos como Inteligência Ambiental Compartilhada.

4. Proposta de renovação de capacidades

Estamos diante de um grande paradoxo. Alguém poderia dizer que estamos “comparando alhos com bugalhos”, ou seja, sistemas incomparáveis. Todavia, não concordamos com esta opinião, pois temos quase certeza de que há um grande paradoxo, bastante visível entre sistemas perfeitamente comparáveis, dado que seus elementos constituintes são os mesmos. Suas capacidades ecológicas e suas formas de organização é que são diferentes.

4.1. Detalhando o paradoxo

Seguem algumas observações que podem demonstrar algumas diferenças de desempenho entre os dois ecossistemas considerados.

  • De um lado, temos o ecossistema primitivo de elevada “inteligência”, composto por elementos de menor inteligência. De outro, um ecossistema antropogênico com nítida baixa inteligência resultante, constituído por elementos com inteligência considerada mais elevada.
  • Em ambos os ecossistemas os elementos constituintes são os mesmos, variando apenas em função da frequência de suas presenças e da natureza de suas manifestações, resultando nas variações de suas capacidades ecológicas.
  • Nenhuma entidade do ecossistema primitivo possui meios ou condições de acumular poder sobre as demais entidades que o  constituem. Muitas entidades do ecossistema antropogênico lutam pela chance de deter este poder, em alguns casos de forma total e absoluta.
  • O ecossistema primitivo possui hierarquia, mas não possui chefes, gerentes ou acionistas. O ecossistema antropogênico possui chefes, gerentes e acionistas e muitas vezes se esquece por onde anda sua hierarquia.
  • O primeiro compartilha espontaneamente tudo o que produz. O segundo concentra de forma planejada tudo o que produz, especialmente em épocas de crises.
  • O primeiro sofre sucessões integrais e gradativas, que envolvem toda a sua estrutura e todas as suas capacidades. O segundo sofre sucessões abruptas, que envolvem apenas algumas poucas entidades, ou seja, esquece-se que constituía um sistema.
  • O primeiro possui apenas sistemas internos de controle que somente são acionados quando há alguma necessidade crítica. Não geram dispêndios nem consomem energia, pois são intrínsecos às relações normais mantidas entre seus elementos constituintes. O segundo tenta se estabilizar através de leis, normas, punições, juízes e advogados, criando uma superestrutura de controle de seus eventuais excessos, que gera dispêndios e consome energia.

Não estamos falando de sistemas políticos ou econômicos, mas de sistemas ecológicos, independentes dos sistemas político-econômicos em que ocorrem. Os conceitos utilizados são baseados apenas na Ecologia.

Da mesma forma, devemos salientar que não estamos apontando nenhuma questão de mérito nas considerações acima. Apenas apresentando de maneira clara e objetiva fatos que são visíveis a todas as pessoas que habitam grandes centros urbanos.

O paradoxo observado baseia-se na forma de organização dos ecossistemas considerados, ou seja, como interagem e como fazem com que se relacionem os mesmos elementos constituintes de ambos os sistemas ecológicos. No ecossistema primitivo, compartilham e competem com ética própria. Todos tendem a ganhar. No ecossistema urbano, na melhor das hipóteses, competem com menos moral, menos ética e compartilhando poucas coisas. Todos tendem a perder.

4.2. Ideias para a ação

Renovar as capacidades de um ecossistema implica o desenvolvimento e a implantação de projetos e ações que o reabilitem. Para os ecossistemas urbanos tratam-se de projetos e ações que reabilitem algumas de suas capacidades originais, as quais foram alteradas ao longo do tempo. Não houve propriamente uma sucessão ecológica ou a sucessão ocorrida foi adversa para o sistema urbano.

No caso de grandes metrópoles, como São Paulo e Rio de Janeiro (nascedouros do setor ambiental brasileiro), cremos que um programa de renovação de suas capacidades ecológicas será muito complexo de ser realizado de uma só vez, tanto em função do tamanho de seus territórios, quanto de suas populações. Por este motivo propomos o desenvolvimento de programas pilotos em dois bairros destas cidades e de mais outras cidades que desejem realizar tal intento. Serão necessárias tratativas com as Secretárias Municipais do Ambiente e com Associações de Moradores dos bairros para a aprovação do programa.

O programa deve envolver projetos para revitalizar as seguintes capacidades, dentre outras:

  • Projeto “Tendências de sucessão do ecossistema urbano e seus impactos decorrentes”.
  • Projeto “Melhoria da organização do ecossistema urbano”.
  • Projeto “Formação de atitudes de compartilhamento e coevolução”.
  • Projeto “Economia de energia”.
  • Projeto “Economia de recursos ambientais”.
  • Projeto “Redução da emissão de gases do efeito estufa”.
  • Projeto “Manutenção e criação de áreas verdes”.
  • Projeto “Treinamento ambiental das comunidades do ecossistema urbano”.

Propomos que as equipes de cada cidade possam contar com (1) Especialista em Gestão da Sustentabilidade, (1) Professor universitário com formação em Ecologia, (2) Consultor em Ambiente e Urbanismo e (3) Alunos universitários – graduado, mestrado e doutorado.

Encerramos este artigo aguardando algum interesse em levar esta proposta inicial à frente.

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