As florestas e os três profissionais da biodiversidade


Ricardo Kohn, Gestor do Ambiente.

É difícil criar um critério para ordenar a importância dos professores Alceo Magnanini, Paulo Nogueira-Neto e Wanderbilt Duarte de Barros nos esforços, trabalhos e ações objetivas que realizaram pela preservação e conservação dos biomas brasileiros.

Os três trabalharam com convergência de princípios e atitudes e, basicamente, criaram os principais instrumentos para garantir o que nos resta da biodiversidade brasileira. Optamos por homenageá-los em ordem alfabética.

Alceo Magnanini é formado em Engenharia Agronômica. Aos 85 anos, é também o último remanescente do grupo de trabalho que elaborou o Código Florestal brasileiro de 1965. Tiveram como base a lei então vigente (Código Florestal, 1934) e a adequaram segundo princípios técnicos e científicos.

O assunto ambiental atual de maior importância no Brasil é a revisão do Código Florestal. Sobre ele, o Professor Alceo afirmou em recente evento:

“É possível mudar o código em cima de um debate feito por nós [academia, pesquisadores, etc], não por Brasília, nem pela bancada ruralista. Tem de ter amplo debate. Mas eu mesmo nunca fui consultado. A mudança simplesmente foi apresentada para nós.”

E continuou: “alegam que o código até agora não foi executado. Então querem mudar. Ora, por que não foi executado? Por falta de fiscalização, de vontade política. Mas fazendo essas modificações vai ter fiscalização ou vai continuar da mesma maneira? Se com as restrições atuais não se consegue [controlar o desmatamento], vai se conseguir abrindo as pernas? Quando abre a porta do galinheiro, entra a raposa.”.

Ele comparou o caso com a mudança, anos atrás, da cor das chapas dos carros. “Antes só os carros do governo tinham chapa branca. Ocorreu um monte de escândalo, era o cara na feira com o carro chapa branca, nas férias… Então mudaram a lei, e todo mundo passou a ser chapa branca. Resolveu o escândalo. Estão fazendo o mesmo com o código florestal.”

O agrônomo defende que, mesmo os pequenos agricultores, que estão sendo usados como justificativa para alteração da lei, iriam preferir uma alteração diferente. “Ele vai optar por uma mudança no código que favoreça a vida dele e não essa que vai praticamente extinguir o pequeno agricultor. Diminuir a proteção da floresta para aumentar a terra dele? Grande coisa! E depois, o que ele vai fazer com a lixiviação e com a erosão da terra que ele ganhou?”

Paulo Nogueira-Neto está com 90 anos. É bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela USP. No ano de 1959, graduou-se em História Natural, também na USP.

Pesquisou o comportamento das abelhas indígenas sem ferrão (Meliponinae). Defendeu Tese de Doutoramento em 1963, sobre a arquitetura dos ninhos dessas abelhas. Sua Tese de Livre-docência (1980) aborda o comportamento de pombas e psitacídeos silvestres.

Na carreira universitária, galgou sucessivos postos na USP, sempre por concurso, até obter título de Professor Titular de Ecologia em 1988. Foi um dos fundadores do Departamento de Ecologia Geral, no Instituto de Biociências da USP. Aposentou-se em 1992, mas continua orientando teses de doutorado.

Criou e desenvolveu a Secretaria Especial do Meio-Ambiente (SEMA) a partir de 1973, lá ficando durante mais de doze anos e meio. Neste período a SEMA criou e estabeleceu 3 milhões e duzentos mil hectares de unidades de conservação, com 26 Estações e Reservas Ecológicas. Esta instituição de Paulo Nogueira Neto foi a origem essencial do Ministério de mesmo nome. Após sair da SEMA, durante dois anos foi Secretário de Meio-Ambiente do Distrito Federal, organizando e dirigindo a SEMATEC. Criou e implantou a Área de Proteção Ambiental de Cafuringa, no DF.

Fez parte da Comissão Brundtland, das Nações Unidas, de 1983 a 1986, como um dos dois representantes da América Latina. Chefiou e  participou como delegado de várias delegações oficiais brasileiras ao exterior.

Atualmente, é vice-presidente da S.O.S. – Mata Atlântica; vice-presidente da W.W.F. no Brasil; Presidente da ADEMA-SP (Associação de Defesa do Meio-Ambiente); Presidente da Comissão para implantação da Área de Proteção Ambiental Capivari-monos (SP); Membro do Board do World Resources Institute; Vice-presidente do International Bee Research Association.

Em abril de 1999, recebeu a Ordem Nacional do Mérito Científico, no grau de Grã Cruz, no Palácio do Planalto. Em 2001 recebeu o titulo de Professor Emérito do Instituto de Biologia da USP.

Nogueira Neto publicou vários livros: sobre abelhas indígenas, a criação de animais nativos vertebrados e o comportamento animal.

Wanderbilt Duarte de Barros também foi formado em Engenharia Agronômica e dedicou toda sua vida à gestão e conservação de áreas primitivas florestadas, com ênfase para a Mata Atlântica. Tornou-se um ambientalista de primeira linha, por origem e dedicação aos estudos de botânica.

Nascido no seio de uma família de castanheiros da Amazônia, desenvolveu desde cedo intimidade com a natureza, em sua forma mais exuberante e primitiva, despertando nele um fascínio que nele se acumularia pela vida inteira.

Uma das principais características de Wanderbilt era sua mansidão diante de problemas que precisava sanar. Resolveu a todos, sem exceção! Com tranquilidade e atendendo a todas as demais partes interessadas.

Em 1940, por concurso público, ingressa no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, onde teria oportunidade de aliar seus conhecimentos técnicos ao espírito conservacionista e ao fascínio pela natureza. A partir de 1941, dirigiu o Parque Nacional de Itatiaia que foi a primeira unidade de conservação ambiental do país.

Dr. Wanderbilt, como também era chamado, foi membro fundador e Presidente da FBCN – Fundação Brasileira da Conservação da Natureza, criada em 1958, constituindo a mais antiga organização ambiental de interesse público, em funcionamento até hoje.

Quando se aposentou, em 1975, após trinta e cinco anos de trabalho, nunca havia tirado férias. Depois disso atuou como professor de cursos de aperfeiçoamento da OEA, foi professor da UFRJ e também Superintendente de Recursos Naturais e Meio Ambiente do IBGE. Em 1990, aos 74 anos, voltou ao Jardim Botânico como Superintendente, e cheio de energia como sempre, promoveu uma grande campanha de revitalização daquela instituição, mobilizando a iniciativa privada e ampliando o intercâmbio com instituições internacionais, ao organizar no Rio de Janeiro um Congresso Internacional de Jardins Botânicos, com o apoio do Comitê Internacional dos Jardins Botânicos, sediado na Inglaterra.

Retornou como Superintendente do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, no período de 1990 a 1995. Faleceu em 1997, aos 81 anos.

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